A Sociologia Brasileira Candido

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A sociologia no Brasil*Antonio Candido

IntroduoNo Brasil, podemos distinguir nitidamente, na evoluo da Sociologia, dois perodos bem configurados (1880-1930 e depois de 1940), com uma importante fase intermdia de transio (1930-1940). No primeiro, praticada por intelectuais no especializados, interessados principalmente em formular princpios tericos ou interpretar de modo global a sociedade brasileira. Alm disso, no se registra o seu ensino, nem a existncia da pesquisa emprica sobre aspectos delimitados da realidade presente. Depois de 1930 ela penetra no ensino secundrio e superior, comea a ser invocada como instrumento de anlise social, dando lugar ao aparecimento de um nmero aprecivel de cultores especializados, devendo-se notar que os primeiros brasileiros de formao universitria sociolgica adquirida no prprio pas formaram-se em 1936. O decnio de 1930, rico e decisivo, pode ser considerado fase transitria para o atual perodo que, iniciado mais ou menos em 1940, corresponde consolidao e generalizao da sociologia como disciplina universitria e atividade socialmente reconhecida, assinalada por uma produo regular no campo da teoria, da pesquisa e da aplicao.

Redigido em 1956, este texto foi publicado em 1959 na Enciclopdia Delta-Larousse (Rio de Janeiro, Delta S.A., pp. 2216-2232; 2 ed. 1964, tomo IV, pp. 2107-2123). Tendo aceito o encargo de coordenar o setor de Cincias Sociais, Fernando de Azevedo me convidou para elabor-lo, ao mesmo tempo que convidava Florestan Fernandes para o bsico, Sociologia. Meio sculo depois, o seu interesse apenas o de um documento de poca. Por isso concordei que fosse reproduzido, com todo o inevitvel desgaste do tempo. No me preocupei em

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corrigir erros eventuais, mas h um, talvez o maior, que me incomoda: a avaliao deficiente da obra de Manoel Bonfim, cuja importncia e verdadeiro significado s mais tarde compreendi. (Ver, por exemplo, o artigo Radicalismos, texto de uma palestra de 1988 publicada em 1990 na revista Estudos Avanados, v. 4, n. 8, e recolhido no meu livro Vrios escritos, cuja 4 edio, pela Editora Ouro sobre Azul, Rio de Janeiro, de 2004.) Este artigo foi publicado originalmente em 1959 na Enciclopdia Delta-Larousse (Rio de Janeiro, Delta S.A., pp. 2216-32) (N. E.).

Formao1 Duas palavras devem ser invocadas para se entender a formao da Sociologia brasileira: Direito e Evolucionismo. Ela apareceu e encorpou, com efeito, a partir da preocupao de alguns juristas possudos pelas doutrinas do Evolucionismo cientfico e filosfico. Coube aos juristas papel social dominante no Brasil oitocentista, dadas as tarefas fundamentais de definir um Estado moderno e interpretar as relaes entre a vida econmica e a estrutura poltica. Foi a fase de elaborao das nossas leis, aquisio das tcnicas parlamentares, definio das condutas administrativas. O jurista foi o intrprete por excelncia da sociedade, que o requeria a cada passo e sobre a qual estendeu o seu prestgio e maneira de ver as coisas. Mas como as teorias dominantes na segunda metade do sculo se achavam marcadas pelo surto cientfico de ento, notadamente a Biologia, que saiu dos laboratrios para se divulgar de maneira triunfante, os juristas mergulharam na fraseologia cientfica e se aproximaram, neste terreno, dos seus pares menos aquinhoados, mdicos e engenheiros, que com eles formavam a trade dominante da inteligncia brasileira. Vemos ento, na Sociologia, os juristas inaugurarem uma orientao cientificista como se dizia que contou desde logo com a cooperao de engenheiros e sobretudo mdicos. A sociologia brasileira formou-se, portanto, sob a gide do evolucionismo e recebeu dele as preocupaes e orientaes fundamentais, que ainda hoje marcam vrios dos seus aspectos. Dele recebeu a obsesso com os fatores naturais, notadamente o biolgico (raa); a preocupao com etapas histricas; o gosto pelos estudos demasiado gerais e as grandes snteses explicativas. Da a predominncia do critrio evolutivo e a preferncia pela histria social, ou a reconstruo histrica, que ainda hoje marcam os nossos socilogos e os tornam continuadores lgicos da linha de interpretao global do Brasil, herdada dos juristas filsofos (para falar como Clvis Bevilaqua) do sculo passado [XIX]. preciso salientar que o evolucionismo no constituiu importao artificial de modas europias, mas se adequou a vrias das nossas realidades locais, de povo que procurava justamente construir de si mesmo uma representao coerente no plano ideolgico, preocupado com o peso do passado escravocrata, as possibilidades do desenvolvimento futuro, o significado positivo ou negativo que teriam neste processo as raas dspares e a decorrente mestiagem. Graas a ele, ou melhor, graas sua superao, a partir de Euclides da Cunha, foi possvel elaborar uma frmula bem brasileira de estudos sociais, em que a recons-

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Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 1

Antonio Candido

truo do passado se amoldava a certos pontos de vista do presente; em que o estudo se misturava intuio pessoal e o cientista ao retrico, ou ao escritor, dando lugar s obras capitais de Alberto Torres, Oliveira Viana, Gilberto Freyre, Srgio Buarque de Holanda e Caio Prado Junior, academicamente indefinidos entre Sociologia e Histria. 2 Talvez a primeira manifestao do que seria considerado Sociologia no Brasil durante quase meio sculo se encontre na Introduo histria da literatura brasileira (1881), onde Silvio Romero estabelece as diretrizes que orientaram por muito tempo os estudos sociais no Brasil, ao interpretar o sentido da evoluo cultural e institucional segundo os fatores naturais do meio e da raa. Mas o primeiro escrito terico de certo vulto sobre a matria (deixando de lado as repeties automticas dos positivistas) foi possivelmente devido a Tobias Barreto e obedeceu vale mencionar a um critrio negativista. So as Glosas heterodoxas a um dos motes do dia, ou variaes anti-sociolgicas (1884 a primeira parte; 1887 a segunda), onde contesta, com a vivacidade costumeira, a validade e autonomia da nossa disciplina. Levando o naturalismo cientfico s conseqncias finais, argumenta que as leis sociais no so naturais, pois so normativas; logo, no esto regidas pelo princpio do determinismo, sem o qual no h cincia. Os fatos sociais pertencem a uma esfera mecanicamente inexplicvel. A sua argumentao brilhante mas pouco convincente, a despeito de raciocinar com lgica dentro da concepo adotada. Tobias rejeita com bom senso a assimilao da sociedade ao organismo, o que foi aceito pelos estudiosos que o seguiram e dele receberam influncia, mas que, exceo de poucos (entre os quais Artur Orlando), viam nela um organismo peculiar submetido s leis gerais da evoluo, aproximando-se assim de Spencer e garantindo a sua autonomia. Talvez devido a Tobias, nem todos o fizeram explicitamente, como, por exemplo, Fausto Cardoso, magnetizado pelo famoso princpio biogentico fundamental de Haeckel, cuja aplicao aos fatos sociais Tobias repelira e ele procura justificar de maneira no raro feliz, firmando-se no monismo mecanicista contra o monismo teleolgico, e deste modo, dizia, permanecendo mais fiel ao filsofo alemo. Procurando aplicar ao direito as teorias dele, foi sem dvida um dos primeiros sistematizadores da sociologia biolgica no Brasil, em A cincia da histria (1895) e sobretudo em Estudos de taxinomia social (1898), antecedidos pela base terica geral de A concepo monstica do universo (1894), onde combate a iluso teleolgica de Tobias e define o seu mecanicismo estrito. So livros brilhantes e nem sempre coerentes, cruzados aqui e alijunho 2006273

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por lances de grande intuio sociolgica, como quando, em A concepo e nos Estudos, estabelece uma espcie de teoria da mudana social pela dialtica da maioria conservadora, que se apega ordem, da minoria transformadora, que forja as utopias, e da minoria refratria dos reacionrios. Para ele, o erro de Spencer consistia em tomar o homem como unidade social, quando esta deveria ser buscada no grupo, segundo deixara implcito Comte ao estudar a famlia. No mundo fsico, no biolgico e no social, as unidades so sempre agregados complexos, aos quais se deve referir a aplicao das leis; o argumento de que o princpio de Haeckel vem abaixo se aferirmos o desenvolvimento individual ao da Histria insubsiste, se atentarmos que ele se aplica, em cincia social, a cada povo em confronto com outro ou com a humanidade total. Nos Ensaios de filosofia do direito (1895), Silvio Romero consagra dois longos captulos refutao do pessimismo de Tobias e s leis de Cardoso, argumentando a favor da necessidade e autonomia da Sociologia, contra o primeiro; e lembrando, quanto ao segundo, que a extenso por ele operada, no seu extremo mecanicismo, de leis naturais ao domnio do social teria como conseqncia lgica a incorporao das cincias sociais Biologia. A sua atitude pessoal era mais compreensiva graas aceitao quase integral do sistema de Spencer, que permitia viso mais fecunda dos fenmenos sociais. Destes, procura no mesmo livro estabelecer uma classificao inspirada, embora no o mencione, na que fizera o seu mestre do que chamava produtos superorgnicos. Tratava-se, no seu intuito, de estabelecer quais as criaes fundamentais e irredutveis da humanidade, os fatos culturais a que se reduzem todos os que vemos manifestarem-se na realidade, e que para ele eram cinco: religio, economia, poltica, esttica e cincia. A sua contribuio terica no vai alm; no nela que devemos buscar a sua importncia na formao da nossa Sociologia, mas na atividade de pesquisador das tradies orais, que foi o primeiro a colher e sistematizar (A poesia popular no Brasil, 1880; Cantos populares do Brasil, 1883; Contos populares do Brasil, 1885), alm da propaganda constante, em breves escritos e referncias, impondo com o seu prestgio a jovem cincia; finalmente, pela adoo, na ltima fase da carreira, dos m