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A Vida do José do Telhado

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    A V I D A D E J O S E D O T E L H A D O A:~! (

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    o PRIMEIRO CRIME

    Em uma dus amenas ncites de agosto, urn homernmal tlnjado, de estatura baixa e athletiea, cnminhavavagaroso e triste pOl' urn dos muitcs atalhus que hana villa de S. Pedro de B IO i de Oahidc.Saliindo do atalho mcttcu-se r l . esrrada e ao ehe-gar Il. urn sitio onde ella fHzia uma vo]tn, parou 0 sen-tou-se n'uma pcdra.Proximo havia uma casa em construccilo.- EiB-me no caminho do crime, vro;npto a as-

    Saltar o prirneiro viajante qlle passe ! cxclamou ellc,Ao qne a necossidsde obriga 0 homom !Mas nito! naoSao 86 as nccessidades, as priva'o tambemos homens. Quantas vezes Illes bati ~\.porta mcndigan-do um Lucado de pao c m'o neg-aram; suppliquei, re-

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    pelliram-me ; viram-rno lagr-imas nos olhos, soecnram-m'as com as suns gm'g'alhudas sarcasticas qlle me quei-mavarn 0 I;OI'I'.

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    5-- P6des, responden seecamcnte 0 bnndido quepareceu illpressionar- ~e com aq uellas pala was.Quando 0 caminhantc se havia :tffastado algunspasso~, 0 salteador voltou-se e estendeu 0 brao;;o n11direct;:ito quc elle ]evilva imas a infeliz tendo presen-ciado aquelle movirnento e rcceioso de que 0 matas-

    sem, comecou uma corrida furiosa, deixando os soc-cos na c.qmda.EmquHnto ello fugia 0 bandido rnurmurava :-1\:1 ulher , ,. filhos", toma , nao fujas . . ,Mns parccin qne mao de ferro 0 collava ao solo,(Jbrigando-o n nao se mover, 0 dinheiro que tinlJfl l 'OU-?ado escald ava-ihe n mao que 0 sustinha, So uquellomfeliz tivesse a corngem do voltnr Mado do seu mal-feitor, esto ter-lhein restuuido () furto e laneado fl o

    sellS pes pedindo-lho pcrdito , Mus 0 medo dava-lhoazas e carla vez fugin mais ate que desapparcceu.o bandido conSC! 'VOIl-SC n'uquolla posi~ ao pOl' 1 1 1 -gum tempo, ate quo fazendo um csforco sobre ai mes-Ino, caminhou cahisbaixo pOl' entre UDS campos, Pa-ron emfim em frente rl'nma cnsinha qne se cscondisentre urn pinhal, COInO se envorgonhasse de mostraras suas dcneg'l'idns paredcs que indieavam a miserinque reinnva J A pOI ' dentro.

    - Dorrnem tranquillos, coitados !considerou elle.Quando acordardcs ja (J V08S0 nome esb!. rnanchadopo~ uma nodoa que j rima is sn-hil'u, Desgl'a~:ado de mimI'1'l'lste posio;;ao a de um pac que sente partir-so-lhe aa!ma quando v e seus filhos innocontes ainda, end ave-rJcos, m agl'os, quasi It rnnrrerem de forne e elle sempao para Ihes dar! E os homens nao sabem avaliaresta di'k sem igual. Para vos alimental', para evitarq~le, a morte vas rnuhasse aos meus brll~os, assaltei urnVIaJan te, rou Lei, . mane hei 0 meu n ()me, a minha

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    -6-honra! Foi por amor de vos que me tornei um cri-minoso j nao deviam julgar-me como tal, porque prl-meiro pedi ...Quando elle terminou estas palnvrn.s OUVil'IUU-SCos vagidos d'urna crcaneinhn e avo?; cl'uma mulherque a acalentava.- La esta Anna call ando a Illho, couti nuau de-pois de escut.u- pOl' alguni tempo a poi'lu. Sagradumissao u a mulhcr a quem 0 aUIOI' tornou lilac. Quemcomo ella chega com tanto carinho () iiiho no seio jquem vigia noites c noites :t cabecon-a do bcr~o, cho-rando (1uando clle padece, soffrcndo quando eUe sof-fre, rindo quando nos labios do filho apparece nquelleriso innocents que as torua delirantcs de felicidade?Quem como ella traduz aquella linguagem muda quelhe penetra no funrlo ria alma '{ Ningnem. Anna; minhaboa mulher, que dints tu quand souberes que eu com-metti um crime !COl)() te ha-de ser custoso supportaresta nova desp;nlo;n que veio j untar-se (lS muitus que !'soffria-mos l Mas. ,. vamos". animo... os hornenssao oulpados , " Nada lite direi : descul po-me bem di-zendo-lhe que foi urn amigo que me ClII prestou est aquantiu. Vamos, coragem!E npproximnndo-so da porta bateu Ievcmonte,Uma voz de mulher perguntou :

    - Quem e? E's tu, Jose?-Sou,A modest" e pohrissimn casinha para onde en-trou Jose, que ern a nome do homcm que virnos pra-tical' um crime, demonstravn elnramente a pobreza emque vivinrn as seus habitantes,- Entao, .Iose, trazes algumas boas novas? in-terrogou Anna.

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    7- Nao, balbuciou elle cmpallidccendo, Mas umamigo que encontrei omprestou-mo algum dinheiro ...- Valha-nos isso, Deus nunca so esquece d'aquel-les que apesltl' de sercm infelizes nao pcrdcram a fc .Olha, ttl deves querer ceiar e en ponco tcnho quo dar-to:um bocarlo de bacalhau assado que esta nu [arcira, euns bocadinhos de borfla que a snr. a Francisca denaos peq uenos e que estao alIi no pru teleiro, e 0 qneha item pacioncia,- Ell j i i comi algumu causa, balbuciou Jose.Aquclla alma attribulada cotnceava a sentir asMires insupportaveis do remorso.Deixemol-o passar 0 resto da r.oite soffrendo aspri m e iras c on seq u enei as do cri me.

    IIATENTA9AO

    o dia seguinto nppareceu nublado e tr iste,Jose, qlle se prccipitara na estrada medonha docrime, scm tel' uma alma boa que lhe dcsse esperan-~a, qne lho inspirasse fe, que 0 enainasae a soffrorC?1O l'esigna

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    -8-Parou ern frcnte d'uma cruz de pedra, quo facil-

    mente se encontram nas aldcias, Se lhe pCl'guntassernonde so nchava, nao sabcria dizel-o,A noito estavn escura e algumas nuvens enco-hriam 0 brilh da pallida lun, De rcpento cstn podedeixar fugil' urn raio cia sua Iuz quo vcio ahnniur asileneiosa cruz ,Jose olhou cm frente, e como sc voltassse i t vida,tirou () chapeo e exclnmou com feI'V01':- 0 cruz, symbolo rla fe, quo com tens bracesabertos pnrccos charnar-ine n ti, da-me nm raio datua lu brilhante que vcnha illurninur n nlma d'estemisero peecador, Cl'u~ sagrada e bemdita, onde Deusfoi crucificado para sal val' 0 muudo, ondo EUo expi-1'011 Iwdindo a Sell Pae que perdonsse aos homcns quetantos soffrimontos lhe fizerarn passm', rogil-Iho, im-plora-lhe pdas cbllgas, polo sou precioso sHngue paraque suspcnda os meus en-ados P('lSSOS, que me desvieda estrada elwin rl'espinhos em qlle me ernbrcnhei !0' Deus misericordioao dirigc um dOB tcus bondososolhares para mirn e para minha infcliz familia,E : I j oelhou no sope da cruz continuando 1 1 ural'em YUZ haixn. _Mas as suas preccs iam pcrder-so pOl 'que alem espera-o 0 anjo mall para 0 tentai-,Um homem que refieetidamonte ou pOI' aecasopassav[I pOl' aqucllcs aitios , parou a mein duaia depassos distunte de Jose, auulysnndo 0 que elle fazia.Este, aeabundo de oral', c como se a ()J'[l~?iolho fizerabern, ia seguir caminho de casa quando () desconhe-cido 0 interrompeu, dizondo-Ihe:-Boas noites, snr. Jose.

    -DOlS lhe dO as mesmas, respondeu depois deobservnr quem 0 suudnvu.- Entito j l l . D U O me conhece (

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    - Ah! Que faz pOl' aqui snr. Custodio?- 0 que todos nos fazemus, runigo ; a pnssarprivn~oes, trabalhcs e tudo para nem sequel' termosUrn momenta de descaneo ,- E' verdade, e verdade, articulou Jose pensa-tivo,

    - E quando nilo aconteee como a mim (juo deicorn um ma riola que B b a tiro e que me aatisfaz.ia ]Ando como a cobra scm a pe

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    Custodio, vendo-o assim , mudou de conversa ,- E como vac voce com a sun vida? perguntou.- Bas tan te ch cio de nece ssi dades , .. m u I'm urouJose tristementc.- Isso b rnnu ; C as tempos correm tao dcsfavo-raveis para n o s , que e mesmo uma dcsgl'fl~a.- Soffrcso muito, maK -~ A proposito, exelarnou Custodio dando tuna

    palmnda no hom bro de JO S C . Voce tern familia paraSUS ten tar e os meios sao' nenhuns ; pois se quizCSSGpodi a arranjai- algurnas moedas . _.J086 estrerncceu e 011'1011 espantado p,,-ra Custo-dio.- Oll:n pflra mim, disse cstc, como se deacon-fiass ?- F~' que nuo 0 entenrlo muito bern ...- Pois en lho digo. 0 fidalgotc das duzins ha de

    passar all ina estl'Hdn assim que fur meia nouto e endcsejo dar-Ihc umn cot;a para que elle saiba que naobrinen commigo. Como v6 on estou 86 e sc o snr.Jose me quizer ajudar na brincadeira, tom dez moe-das em OUI'O.- Mas .. u s vezes pede succedar alguma cousa.- El respcnsabiliso-rne pOl' isso, Quel" ou naoganhar eate dinhoiro pnru sntisfazcr us suas lICCeSS1-

    dades ?Jose calion-so. Custodio continuou :- As pnredes tern ouvidos, como diz 0 adagio.Venlm para alli que en convcrsarei rnais II. vontade.E pegando n'um braco de JOS0 quasi 0 arrastou.

    Este olhon para 9 sitio onde cstava a cruz como seesperassc que ella th e desse a annuencia, mas ellaconservou-se muda mostrando que nada tinha com asac~oes do homem.

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    -11-Emquanto conversam digamos ao leitor quem erao tal Custodio, que eomeeava 11 tcntar aquella almaque principiava a sentir 0 orvalho benefico do arre-

    pendimenio.Este horncm n10 era m ais que um infel iz erimi-nasa que tivoru a dcsgJ'a9nd~ lernbrunca de formal'

    -uma quadrilhn de rnnlfeitorcs. Com m{\s r