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Campo Grande, 25 a 28 de julho de 2009,

Sociedade Brasileira de Economia, Administrao e Sociologia Rural

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ABERTURA COMERCIAL E RECONFIGURAO DA PRODUO ECONMICA NA AMAZNIA LEGAL

zederiba@hotmail.com

APRESENTACAO ORAL-Evoluo e estrutura da agropecuria no Brasil JOS DE RIBAMAR S SILVA; BENJAMIN ALVINO DE MESQUITA. UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHO, SO LUS - MA - BRASIL.

ABERTURA COMERCIAL E RECONFIGURAO DA PRODUO ECONMICA NA AMAZNIA LEGAL

Grupo de Pesquisa: Evoluo e estrutura da agropecuria no Brasil

Resumo

A adoo de medidas favorecedoras de maior abertura comercial vem gerando, ao longo das duas ltimas dcadas, mudanas em diferentes regies e atividades ao redor do Planeta. A dimenso e os impactos de tais mudanas no desenvolvimento de economias emergentes e subdesenvolvidas tem se constitudo preocupao central nos estudos de diversos pesquisadores. Nesse contexto, o presente artigo busca apreender o que vem ocorrendo, no referente s atividades econmicas, em regies perifricas do Brasil, em particular na Amaznia, a partir, por um lado, da reduo da presena do Estado na coordenao e na induo de investimentos produtivos para o desenvolvimento regional, e por outro lado, do avano da ao do grande capital, principalmente articulada produo de commodities.

Palavras-chave: Amaznia; Poltica comercial; Desenvolvimento regional; Produo de Commodities; Agricultura familiar.

Abstract

The adoption of economic policy measures that encourage free trade comes generating over the past two decades, changes in different regions and activities around the Planet. The dimension and the impacts of these changes in the development of emerging economies and underdeveloped has been central in studies of various researchers. In this context, this article seeks to learn what has taken place, about the economic activities, in peripheral regions of Brazil, particularly in the Amazonia, from the reduction of the presence of the State as the coordinator and inductor of productive investments for regional development, and on the other hand, the progress of the action of big business, mainly linked to the production of commodities.

Key Words: Amazonia; Trade policy; Regional development; Commodities; Family farming

1 INTRODUAO

Especialmente na dcada de 1990, o Governo brasileiro passou a aprofundar medidas econmicas que se coadunam mais com os interesses dos organismos

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internacionais (FMI, Banco Mundial e OMC), procurando impor internamente as exigncias expressas no chamado Consenso de Washington: maior abertura comercial, desregulamentao e privatizao, entre outros aspectos. O que resultou dessas medidas tem sido mudanas questionveis do ponto de vista do conjunto do pas, especialmente para regies menos desenvolvidas, como a Nordeste e a Amaznia, e para segmentos ou atividades da economia que no esto diretamente vinculadas ao padro de produo que passou a ser incentivado. Os setores articulados dinmica internacional, sobretudo queles movimentos determinados pelo crescimento da sia, beneficiam-se amplamente. Contudo, os impactos so negativos para as atividades relacionadas agricultura familiar, pesca artesanal e ao extrativismo. A idia principal por trs dessa estratgia de mercado, de competitividade, inserir o pas ainda mais fortemente na no comrcio internacional, a fim de se aproveitarem as vantagens comparativas que adviriam das reformas propugnadas. Com isso, superar-se-ia a chamada dcada perdida e a economia voltaria a crescer a taxa significativa, porque o capital (produtivo) voltaria a fluir ao pas, promovendo-se assim o desenvolvimento.

Observando-se retrospectivamente esses quinze gloriosos anos (1990/2005), pode-se perceber que a realidade no bem essa, nem para a economia brasileira de um modo geral, muito menos para as regies menos desenvolvidas do pas. O Brasil cresceu em torno de 2,5% ao ano, nesse perodo, bem abaixo da mdia mundial e da Amrica Latina. A Amaznia, apesar de apresentar taxas superiores do pas, comparativamente, ambos cresceram muito abaixo do que tinham crescido em momentos anteriores na histria recente, o milagre e a dcada perdida (MESQUITA, 2008). As economias regionais, como da Amaznia, pouco avanaram em termos de gerao de riqueza (PIB). Os desequilbrios regionais (tanto inter quanto intra) continuaram marcantes, com tendncias a se acentuarem ainda mais. Esse fenmeno um reflexo do modelo econmico que privilegia segmentos dominados por mega empresas articuladas ao mercado internacional, em detrimento daqueles voltados para o atendimento do mercado regional ou interno, que geram renda, emprego e desempenho papel essencial para a segurana alimentar.

Percebe-se, pois, que a repercusso da poltica neoliberal no Brasil foi desfavorvel agricultura familiar, porm muito adequada expanso da produo de determinados gros, da pecuria e da extrao mineral. Com a reforma do Estado, este se afasta do papel de indutor e condutor do desenvolvimento regional, mas a expanso e a modernizao da agricultura na Amaznia no se encerram e continuam a avanar, s que de forma diferenciada e seletiva, inclusive espacialmente. A diferena que, nos anos de 1990, a dinmica da economia j no dependia fundamentalmente de agncias governamentais (Sudam/ADA), encontrando-se mais fortemente vinculada lgica do mercado, baseada na dinmica externa das commodities. Em outras palavras, tanto num momento anterior quanto a partir dos anos de 1990, a pecuria e a produo de gros so os destaques e se diferenciam, em termos de ritmo de crescimento e na incorporao de mudanas, relativamente aos demais produtos, especialmente os da agricultura familiar. A questo preocupante que a direo tomada se faz a acompanhar, enquanto padro de desenvolvimento, do agravamento das condies reais de excluso social, de forma mais evidente do que os potenciais fatores de incluso.

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O presente texto objetiva, pois apresentar resultados preliminares de uma pesquisa1 em desenvolvimento sobre os impactos do agronegcio na Amaznia brasileira, em particular, sobre a agricultura familiar, a economia regional e as questes scio-ambientais. Assim, estabelece-se um recorte espacial/temporal, procurando-se dar destaque a algumas questes decorrentes das mudanas percebidas no perodo considerado (1990 a 2005), perodo esse caracterizado pela nfase dada ao mercado e pelo afastamento do Estado de sua funo ativa, indutora e condutora da poltica de desenvolvimento regional.

2 ALGUNS IMPACTOS DA DINMICA DO MERCADO MUNDIAL NA AMAZONIA BRASILEIRA

Desde a dcada de 1990, a economia da China vem apresentando crescimento anual acima de dois dgitos (10,3% a. a). Ao lado de outras economias emergentes, neste incio de sculo, obteve desempenho acima da mdia mundial e das economias ricas (FMI, 2006). O que explica essa performance so as mudanas no mbito do comrcio internacional, investimento, cmbio e fluxo de capitais, sob a gide da economia americana. Pases como a China e os novos tigres asiticos, souberam tirar proveito da desregulamentao, inclusive, sem abrir mo da presena do Estado na economia, e, num curto espao de tempo, experimentaram transformaes significativas em suas estruturas produtivas (expandindo-se as manufaturas) e de consumo, com significava repercusso nos fluxos de bens e servios no comrcio internacional. Outros pases, como o Brasil e a Argentina, h muito tempo especializados em produzir gros (commodities), aumentaram sua capacidade produtiva e de exportao nestas atividades e ingressaram num considervel ciclo de expanso. Esse fenmeno teve em sua dianteira os complexos da soja e da carne. Porm, outros produtos agropecurios voltados para a exportao2 tambm se beneficiaram desse crescimento de demanda por alimentos e matria-prima, num processo que no Brasil se deveu, sobretudo, procura oriunda das economias emergentes e, por outro lado, disponibilidade de terras a serem incorporadas na produo - 104 milhes de hectares, dos quais a parcela maior se encontra na Amaznia (MESQUITA, 2008).

Em nosso pas, as polticas neoliberais a partir da dcada de 1990 implicaram um verdadeiro desmonte no s da poltica agrcola, mas tambm, de parte significativa da estrutura de apoio (assistncia tcnica, extenso rural e pesquisa), que existia desde os anos de 1970 e que se direcionava, especialmente, para a agricultura familiar. Com isso, este segmento da produo de alimentos viu-se exposto a uma competio desigual e predatria com os grandes oligoplios da indstria fornecedora de bens de produo para a agricultura. Ao mesmo tempo, foram criados instrumentos fiscais e financeiros voltados exportaes, a exemplo da Lei Kandir.

De acordo com a CEPAL, ao longo da dcada de 1990 e na dcada atual, o gasto pblico por habitante rural caiu no conjunto dos pases latino-americanos, dentre os quais

1 Financiada pela FAPEMA e PPGPP/UFMA 2 Produtos florestais, complexo sucroalcooleiro, couro e derivados; caf, fumos e derivados, frutas (castanhas e nozes) e suco, txtil e fibras e outros.

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se destacam Argentina, Brasil, Mxico, Costa Rica e Peru, ainda que em anos recentes esse gasto tenha aumentado no Chile, Panam, Equador, Guatemala e Uruguai (CEPAL, 2008).

Nos ltimos vinte anos, novos pacotes tecnolgicos foram e so promovidos e implantados, em sua maioria, por grandes empresas e corporaes, nacionais e transnacionais e, em alguns casos, por universidades e centros de pesquisas