AC2-3 - Goulart

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  • Arte y Ciudad - Revista de Investigacin N 2 Octubre de 2012

    35 ISSN 2254-2930

    Paseo con Ruskin y Benjamin (o cmo tener nostalgia de lo que no vivimos)

    Passeio com Ruskin e Benjamin, ou como ter saudade da-

    quilo que no vivemos

    FERNANDA GUIMARES GOULART Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil)

    nandagg@uol.com.br

    Recibido: 29/09/2012 Aceptado: 26/10/2012

    Resumen Ubicado en el escenario de la ciudad planeada de Belo Horizonte (Minas Gerais, Bra-sil), nacida a la vuelta de los siglos XIX y XX, este texto tiene un tono ensaystico y experimental, y penetra entre las esferas terico-histricas y de ficcin potica con el objetivo de reconstruir, a travs de la imaginacin, una atmsfera hbrida, que mezcla el tiempo pasado y el presente para presentar inquietudes acerca de la relacin entre memoria, patrimonio y afecto. Para ello, crea un dilogo imaginario entre John Rus-kin y Walter Benjamin para construir un paisaje crtico, memorial y afectivo, a travs de una mezcla de tiempos y los sentidos todava posibles que evocan. Desde algunos de sus escritos seminales, Ruskin y Benjamin son convocados aqu no slo para dar-nos a conocer una herencia, sino tambin dejarnos una promesa de transformar la mirada hacia el pasado en una reflexin sobre el futuro de las ciudades. Palabras Clave: ornamento, memoria, ficcin.

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    Resumo Tendo como cenrio a cidade planejada de Belo Horizonte (MG/Brasil), nascida na virada dos sculos XIX e XX, o presente texto possui tom ensastico e experimental, e incursiona entre as esferas terico-histricas e potico-ficcionais a fim de reconstituir, ainda que imaginariamente, uma atmosfera de um tempo hbrido, que mistura pas-sado e presente para apresentar inquietaes sobre as relaes entre memria, patri-mnio e afeto. Para tanto, cria um dilogo imaginrio entre John Ruskin e Walter Ben-jamin para constituir uma paisagem crtica, memorial e afetiva, atravs da mistura de tempos e da evocao de sentidos ainda possveis. A partir de alguns de seus escritos seminais, Ruskin e Benjamin so convocados aqui no apenas a nos fazer conhecer um herana, mas a nos deixar uma promessa, de transformar o olhar para o passado em uma reflexo sobre o seu futuro das cidades. Palavras Chave: ornamento, memria, fico Sumrio 1. Entretempo, ainda que a princpio. 2. Um outro tempo. 3. E se (por) ventura 4. Tesouros subterrneos.

    ______________ Quem construiu a primeira casa? Quando desabar a ltima? (Benjamin, 1989a: 83)

    O que ns mesmos construmos, temos a liberdade de demolir. (Ruskin, 2008: 83) 1. Entretempo, ainda que a princpio Como seria comear pelo meio? Comearamos chegando ou saindo de ca-sa? No importa, observaramos a paisagem. Ou atravs dela

    Comeo pelas grades ornamentais, uma presena discreta e feminina na ci-dade, impressa em luz: rendas de sombra e luz nas paredes e no assoalho de tacos de peroba rosa, por dentro. H tambm rendas impressas nos azulejos decorados, que esto nas fachadas, que mais parecem de banheiro ou cozinha. Em algumas dessas casas vivem velhos moradores, com muita vontade de contar a histria. De uma cidade que ainda no velha, mas que est cada vez mais nova e geomtrica, pois no tem tido tempo de envelhecer horizontal-

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    mente. H uma sobreposio de tempos, as mesmas grades em estruturas tec-tnicas de tempos distintos. Mas desconfio que outros tempos se sobrepo-nham tambm, e me fazem querer trazer John Ruskin e Walter Benjamin para andar pelas ruas de um bairro mais antigo de Belo Horizonte. Que tempo seria este? No estaramos falando em anacronismo ou atempo-ralidade? No importa ou voc no sabe que o tempo vai, mas tambm volta? E que falando de outro tempo, hoje, trazemo-lo para c, e j no ser mais aquele. E tampouco seremos ns, mas um tanto quanto outros No se preocupe, imagine Nicolai Leskov, por exemplo, ele est vontade tanto na distncia espacial como na distncia temporal. (Benjamin, 1994c: 199).

    Como responder por essas distncias em imagens no gramaticais? Seria al-go como alcanar uma espcie de atmosfera da pergunta e ter a paisagem co-mo resposta? Substitua a explicao verificvel pela exegese, aquela que no se preocupa com o encadeamento exato de fatos determinados, mas com a maneira de sua insero no fluxo insondvel das coisas (Benjamin, 1994c: 209). Liberte-se do nus da explicao verificvel! Articular historicamente o passado no signi-fica conhec-lo como ele de fato foi. Significa apropriar-se de uma reminis-cncia, tal como ela relampeja no momento de um perigo. (Benjamin, 1994d: 224) No importa, se forem exerccios do corao e da vontade, realizados com a ajuda de nossos braos e nossa energia, o bastante.

    Assim teria complementado Ruskin? Eis a fico da arquitetura. Fico nos termos de Eisenman: a essncia da

    arquitetura a de ser uma fico (Huchet, 2004a: 65). Fico da razo e simu-lao da verdade de uma arquitetura portadora de valores incontestveis, de uma verdade tectnica e simblica (Huchet, 2004a: 65); vontade de verdade e de determinao de um real funcional; verdades de geometria, abstrao, hi-giene e depurao (Huchet, 2004a: 75).

    Fico nos moldes de uma heterotopologia, ou heterocronia, como quis Fou-cault (2006): prticas descritivas e de leitura de lugares outros, contestao ao mesmo tempo mtica e real do espao em que vivemos. Espaos justapostos, com coisas que parecem dispersas no tempo, em uma rede entrecruzada e no

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    linear. O prximo e o longquo lado a lado, um espao que se oferece sob a forma de sries, organogramas, grades, relaes de posicionamentos a partir de vizinhana, estocagem, circulao, localizao e classificao dos elemen-tos humanos.

    Est feito o convite: para Benjamin e Ruskin habitarem no ainda as ruas de Belo Horizonte, mas as pginas desta escrita. Convidei-os a figurar reminis-cncias de um espao invisvel, porm existente, que chamarei de imaginao crtica. Constituda por um dilogo em quatro vozes. Alm dos dois h outras duas, de alguma opacidade e annimas, atravessando os dilogos, enredando as extremidades e os meandros do corpo do texto, oscilante entre a fico e a teoria. Tenho nas mos um caderno de anotaes, onde psicografei essas con-versas, que daro corpo a uma interseo singular, um tanto quanto romnti-ca, e imaginria: a virada entre os sculos dezenove e vinte, um encontro fict-cio entre Ruskin e Benjamin, em Belo Horizonte. Esta interseo, espero, ilu-minar algo da relao entre patrimnio, afeto e memria.

    2. Um outro tempo

    Desenhei uma linha do tempo, destas onde aprendemos e ensinamos a do-mestic-lo. Est partida em trs, cada sculo em seu lugar subsequente. Na extremidade esquerda o sculo XIX, quando nasceram Ruskin (1819-1900), Benjamin (1892-1940) e Belo Horizonte (1897-. No centro, o sculo XX, que nasceu j recm vivo de Ruskin, deu seus primeiros (largos e vertiginosos) passos na companhia de Benjamin, e assistiu a capital mineira ser caracteriza-da e descaracterizada, com desapego. No lado direito da linha est o nosso sculo, onde podemos pensar que os dois homens sobrevivem, de modo dis-tinto daquela que, enquanto eles eram vivos, era Belo Horizonte, molhada que foi pela tempestade do progresso.

    De um lado dessa linha do tempo imagino Ruskin a olhar para o passado, ancorado em um futuro, aquele que no far sentido, que no ser, se no cui-darmos do passado. Do outro lado estaria Benjamin, a olhar para o futuro, ancorado no passado, em posio contrria ao seu anjo (e de Klee), mas i-gualmente atento s runas e aos lastros da experincia. Ns no temos qualquer direito de toc-los. Eles no so nossos. Eles per-tencem em parte queles que os construram, e em parte a todas as geraes da humanidade que nos sucedero. (Ruskin, 2008: 83)

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    Pois no somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? No existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram?( Benja-min, 1994d: 223) E teriam eles partilhado um tempo comum? Sim, mas creio que com certa nostalgia de um outro tempo, distinto da-quele em que viveram.

    Ruskin falava dos templos, das igrejas, dos lugares sagrados, dentre eles a casa. Benjamin falava das ruas, um pouco das casas, um pouco de tudo. Vis-lumbro-os, em certa medida, ss. Sobretudo Ruskin, passeando sozinho pelas ruas e pelas igrejas, anotando tudo, tirando medidas, regulando as distncias de seu olhar (para ele era importante saber o que era feito para olhar de longe e para olhar de perto, e como era feito). Desconfio de um Benjamin, por sua vez, quase sempre em companhia de homens, mulheres, personagens e obje-tos, aqueles que habitavam a sua cidade interior; um homem que olhava no a partir de seu domiclio, mas da vidraa de um caf. Ambos esto acompa-nhados de seu leitor, para quem se dirigem todo o tempo. Sou impulsionada a dar-lhes voz, garantir-lhes travesses, para que possam contextualizar sua mirada (potica, por que no dizer?) para o mundo, para que possam contar e trazer esse outro tempo. Poderia dizer de voc o mesmo que de Dickens, Sr. Ruskin, um homem que, em vez de recolher em seu esprito a imp