AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL 1547-81 – ?· das presentes ações eleitorais por perda…

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AO DE INVESTIGAO JUDICIAL ELEITORAL 1547-81 CLASSE 3 BRASLIA DISTRITO FEDERAL Representante: Coligao Muda Brasil Advogados: Marcelo Henriques Ribeiro de Oliveira OAB: 6517/DF e outros Representada: Dilma Vana Roussef Advogados: Luis Gustavo Motta Severo da Silva OAB: 34248/DF e outros Representado: Michel Miguel Elias Temer Lulia Advogados: Gustavo Bonini Guedes OAB: 41756/PR e outros Representado: Wagner Pinheiro de Oliveira e outro Advogados: Aline Cristina Braghini OAB: 310649/SP e outros Representado: Joo Cerqueira de Santana Filho Advogados: Arnaldo Versiani Leite Soares OAB: 6235/DF e outros Representado: Rui Goethe da Costa Falco Advogados: Ana Carolina de Camargo Clve OAB: 61917/PR e outros Representado: Ademar Arthur Chioro dos Reis Advogados: ngela Cignachi Baeta Neves OAB: 18730/DF e outros Representado: Walter Freitas Jnior e outros Advogado: Gustavo Bonini Guedes OAB: 41756/PR Representada: Maria das Graas Foster Advogados: Claudismar Zupiroli OAB: 12250/DF e outros Representado: Jorge Fontes Hereda Advogados: Salvador Congetino Neto OAB: 158736/SP e outros Representado: Aloizio Mercadante Oliva Advogada: Advocacia-Geral da Unio Representada: Teresa Helena Grabrielli Barreto Campello Advogada: Advocacia-Geral da Unio

AO DE INVESTIGAO JUDICIAL ELEITORAL 1943-58 CLASSE 3 BRASLIA DISTRITO FEDERAL Relator: Ministro Hermann Benjamin Representantes: Coligao Muda Brasil e outro Advogados: Gustavo Guilherme Bezerra Kanffer OAB: 20839/DF e outros Representada: Dilma Vana Roussef Advogados: Arnaldo Versiani Leite Soares OAB: 6235/DF e outros Representado: Michel Miguel Elias Temer Lulia Advogados: Gustavo Bonini Guedes OAB: 41756/PR e outros

REPRESENTAO 8-46.2015.6.00.0000 CLASSE 42 BRASLIA DISTRITO FEDERAL Relator: Ministro Hermann Benjamin Representantes: Coligao Muda Brasil e outro Advogados: Gustavo Guilherme Bezerra Kanffer OAB: 20839/DF e outros Representada: Dilma Vana Roussef Advogados: Luis Gustavo Motta Severo da Silva OAB: 34248/DF e outros Representado: Michel Miguel Elias Temer Lulia Advogados: Gustavo Bonini Guedes OAB: 41756/PR e outros AO DE IMPUGNAO DE MANDATO ELETIVO 7-61.2015.6.00.000 CLASSE 2 BRASLIA DISTRITO FEDERAL Relator: Ministro Hermann Benjamin Autor: Coligao Muda Brasil e outro Advogados: Bruno Mendes OAB: 28406/AL e outros R: Dilma Vana Roussef Advogados: Luis Gustavo Motta Severo da Silva OAB: 34248/DF e outros Ru: Michel Miguel Elias Temer Lulia Advogados: Gustavo Bonini Guedes OAB: 41756/PR e outros

VOTO

(Ministro Admar Gonzaga)

Sr. Presidente,

Inicio pelas preliminares apresentadas.

PRELIMINARES

I - DA PERDA SUPERVENIENTE DE OBJETO PELA CASSAO DE MANDATO EM PROCESSO DE IMPEACHMENT

A representada, Sra. Dilma Vana Roussef, requer a extino

das presentes aes eleitorais por perda superveniente de seu objeto, uma vez

que o Senado Federal, ao ultimar o processo de impeachment1, decretou a

perda de seu mandado de Presidente da Repblica.

Aduz que o ato que determinou seu afastamento segue hgido,

porquanto no foi deferida qualquer medida liminar ou de mrito nos autos do

mandado de segurana 2 que discute a legalidade de seu afastamento,

impetrado no mbito do Supremo Tribunal Federal.

Assevera, ipsis litteris, que decretada a perda do cargo de

Presidente da Repblica, no podem subsistir as aes eleitorais que tm por

objeto a cassao do seu diploma.

Aponta os seguintes precedentes do TSE que corroborariam

com a tese da perda superveniente de objeto: AgR-REspe 550-39, Rel. Min.

Gilmar Mendes, DJE de 29.4.2015; Agr-REspe 367-02, Rel. Min. Maria Thereza

Rocha de Assis Moura, DJE de 16.12.2014; e AgR-REspe 9586970-09, Rel.

Min. Laurita Vaz, DJE de 21.8.2013.

A preliminar, contudo, no merece acolhida.

Desde logo, esclareo que nenhum dos precedentes citados

pela representada aplicvel ao caso concreto. Isso porque, tratam-se de

precedentes em que o exaurimento dos mandatos dos representados ocorreu

pelo transcurso regular de seus mandatos. No houve, em nenhum dos

julgados em apreo, a decretao da perda de objeto das aes eleitorais em

virtude da interrupo do mandato pelo legislativo.

Ademais, nos termos da inicial da ao de impugnao de

mandato eletivo, das duas aes de investigao judicial eleitoral e da

representao, foram questionados os mandatos da representada Dilma Vana

Roussef e de seu vice, Michel Miguel Elias Temer Lulia.

Destaco, no ponto, que a teoria da assero, adotada pelo

direito brasileiro, inclusive pelo Supremo Tribunal Federal3, aponta no sentido

de que a legitimidade para a causa aferida conforme as afirmaes feitas pelo autor na inicial.

1 Resoluo 35 de 2016. 2 MS 34.441 e MS 34.371, ambos atualmente sob a relatoria do Ministro Alexandre de Moraes. 3 ARE 713.211 AgR, Rel. Min. Luiz Fux, DJE de 24.6.2013.

Assim, no possvel, antes de ultimado o julgamento das

presentes aes que, repita-se, tambm questionam o mandato outorgado ao

ento vice-presidente eleito, cogitar em extino das aes eleitorais

propostas.

Voto no sentido do desprovimento da alegada perda de objeto

das aes eleitorais.

II - LITISPENDNCIA E EXTINO

Sustenta-se, tambm, como preliminar, a necessidade de

observao do instituto da litispendncia com relao s trs aes propostas.

Isso porque, segundo a representada, basta a leitura das trs iniciais da

presente Ao de Investigao Judicial Eleitoral, da Ao de Impugnao de

Mandato Eletivo 761 e da Representao n 8-46 para se verificar a absoluta

trplice identidade das partes, da causa de pedir e do pedido.

Nessa linha de raciocnio, prope a extino sem julgamento

de mrito da AIME 761 e da RP 8-46.

Desde logo, cumpre destacar que a prpria representada

reconhece que a ao de impugnao de mandato eletivo e a representao

no so idnticas ao de investigao judicial eleitoral. Extraio de suas

alegaes finais:

Ocorre, todavia, que a instruo processual no se encerrou com os requerimentos formulados inicial, tendo sido unificada a instruo da ao epigrafada com a AIME 761 e a RP 846, acrescentando-se, ento os seguintes supostos ilcitos:

10. Despesas irregulares falta de comprovantes idneos de significativa parcela das despesas efetuadas na campanha dos requeridos; e

11. Fraude disseminao de falsas informaes a respeito da extino de programas sociais.

dizer, no h a alegada identidade de causas de pedir entre

as aes.

Finalmente, a histrica jurisprudncia do TSE sempre foi no

sentido de rejeitar a litispendncia entre as aes eleitorais.

Apesar de recentemente4 este Tribunal Superior, considerado o

princpio da durao razovel do processo, ter passado a reconhecer a

possibilidade de reconhecimento de litispendncia quando h plena identidade

de fatos e provas j examinados pela instncia julgadora em feito anterior, no

esse o caso dos autos.

Isso porque, a litispendncia tende a ficar restrita s hipteses

em que a nica alterao substancial entre as aes intentadas diga respeito

aos seus nomen juris.

patente, como j reconhecido pela prpria representada, no

ser esse o caso das aes ora postas em julgamento.

Ademais, a conexo das aes, h muito reconhecida nestes

autos pela ento relatora, Min. Maria Thereza de Assis Moura, trouxe a

segurana jurdica necessria para o bom desenvolvimento dos feitos.

Destaco, no ponto, a tabela feita pela ilustre Ministra que torna

indene de dvidas a inexistncia de litispendncia entre as aes. Segue

abaixo:

1 Uso dos Correios para envio de 4,8 milhes de folders sem chancela/estampa de franqueamento e criao de embaraos para impedir a propaganda

X

4 RECURSO ESPECIAL. AO DE IMPUGNAO DE MANDATO ELETIVO. ABUSO DO PODER ECONMICO. CAPTAO ILCITA DE SUFRGIO. LITISPENDNCIA. 1. A litispendncia entre feitos eleitorais pode ser reconhecida quando h identidade da relao jurdica-base das demandas, no sendo possvel afirmar aprioristicamente e de forma generalizada a impossibilidade de sua ocorrncia. 2. As anlises das situaes fticas e de direito que impem o reconhecimento da litispendncia devem ser feitas luz do caso concreto. 3. A litispendncia pode ser verificada quando h plena identidade de fatos e provas j examinados pela instncia julgadora em feito anterior, sem que se tenha elemento novo a ser considerado, como, por exemplo, quando descobertas novas provas ou se pretenda a reunio de fatos isolados que, por si, podem ser insignificantes, mas no conjunto so aptos a demonstrar a quebra dos princpios constitucionais que regem as eleies. 4. Hiptese em que o Tribunal de origem registrou a completa identidade entre os fatos apurados no feito e os examinados em representao anterior, cujo pedido foi julgado procedente para cassar o mandato do representado. Litispendncia reconhecida. (REspe 3-48, Rel. Min. Henrique Neves, DJE de 10.12.2015)

AIJE

1547-81

AIJE

1943-58

AIME

761

RP

846

eleitoral do adversrio em MG;

2 Outdoors e propaganda da candidata mediante projeo de imagens na fachada de bens pblicos e particulares e acima de 4m, em pontos tursticos de intenso fluxo

X

3 Utilizao de ministros na campanha entrevista concedida pelo Ministro Mercadante no Palcio do Planalto, em 14/06/2014

X

4 Utilizao de bens, servidores e servios pblicos na campanha em visita, em 4/8/2014, da candidata e do Ministro da Sade unidade bsica de sade (UBS) de Jardim Jacy - Guarulhos/SP, que recebera profissionais do Programa Mais Mdicos, divulgada na propaganda eleitoral gratuita de 28/8/2014

X

5 Utilizao de programa social, reforma de um fogo a lenha e doao de uma prtese dentria a uma eleitora, beneficiria do Programa gua para Todos, que participou de filmagens para a propaganda eleitoral aps pedido do governo federal Prefeitura de Paulo Afonso, BA.

X

6 Veiculao de propaganda eleitoral na pgina da CUT na Internet, com contedo de apoio candidata

X

7 Publicidade institucional em perodo vedado Petrobras

X

X

X

8 Propaganda extempornea por meio de publicidade institucional da Caixa Econmica Federal

X

9 Pronunciamento da candidata em rede nacional de rdio e televiso no Dia do Trabalho

X

X

X

10 Pronunciamento da candidata em rede nacional de rdio e televiso no Dia Internacional da Mulher

X

X

11 Veiculao de propaganda institucional em perodo vedado - Banco do Brasil

X

X

12 Veiculao de propaganda institucional em perodo vedado - stio do Ministrio do Planejamento

X

X

13 Manipulao de indicadores socioeconmicos pelo IPEA, IBGE e Ministrio do Meio Ambiente

X

X

14 Uso indevido de bens pblicos - bate-papo virtual com o Ministro da Sade em 18/07/2014

X

X

15 Uso indevido de bens pblicos - uso de telefone e email por servidor da Presidncia da Repblica, em 12/6/2014, para obter lista de prefeitos que compareceram a almoo de apoio poltico

X

X

16 Gasto acima do limite inicialmente informado Justia Eleitoral

X

X

X

17 Recebimento de doaes oficiais de empreiteiras contratadas pela Petrobras como parte de alegada distribuio de propinas

X

X

X

18 Abuso praticado por terceiros mediante campanhas promovidas por entidades sindicais

X

X

19 Transporte de eleitores por ONG em comcio de Petrolina, PE, no dia 21/10/2014

X

X

20 Uso indevido de comunicao no horrio eleitoral para veiculao de fatos negativos do adversrio

X

X

21 Despesas irregulares - falta de comprovantes idneos de parcela das despesas da campanha

X

X

22 Fraude - disseminao de falsas informaes a respeito da extino de programas sociais

X

23 Publicidade institucional em perodo vedado stio Portal Brasil

X

Dessa forma, voto no sentido de desprover a preliminar de

existncia de litispendncia.

III - IMPOSSIBILIDADE DO TSE CASSAR DIPLOMA DE PRESIDENTE DA REPBLICA

A representada alega, tambm, que no h previso

constitucional para a cassao de seu mandato fora das hipteses previstas no

arts. 85 e 86 da Constituio Federal.

Cita, no ponto, acrdo proferido por esta Corte nos autos da

Representao 10.887/91, em que situao similar teria sido apreciada e

decidiu-se pelo declnio da competncia em favor do Supremo Tribunal

Federal.

Sublinha que a redao do art. 86, 4, da Constituio

Federal, estabelece que O Presidente da Repblica, na vigncia de seu

mandato, no pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exerccio de

suas funes.

No h falar em acolhimento da presente preliminar.

princpio bsico da interpretao constitucional a

necessidade de que a exegese jamais tenha por resultado a nulificao de uma

norma em favor de outra.

A respeito do tema, assim se manifestou o Ministro Presidente

do Tribunal Superior Eleitoral, Ministro Gilmar Mendes, em sua obra Curso de

Direito Constitucional: Intimamente ligado ao princpio da unidade da

Constituio, que nele se concretiza, o princpio da harmonizao ou da

concordncia prtica consiste, essencialmente, numa recomendao para que

o aplicador das normas constitucionais, em se deparando com situaes de

concorrncia entre bens constitucionalmente protegidos, adote soluo que

otimize a realizao de todos eles, mas ao mesmo tempo no acarrete a

negao de nenhum.

A interpretao sugerida pela representada nulifica o disposto

no art. 14, 10 e 11, da Constituio Federal, que prescreve:

Art. 14. A soberania popular ser exercida pelo sufrgio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:

[...]

10 - O mandato eletivo poder ser impugnado ante a Justia Eleitoral no prazo de quinze dias contados da diplomao, instruda a ao com provas de abuso do poder econmico, corrupo ou fraude.

11 - A ao de impugnao de mandato tramitar em segredo de justia, respondendo o autor, na forma da lei, se temerria ou de manifesta m-f.

Isso porque, na hiptese de se adotar o entendimento

defendido nas alegaes de Dilma Vana Rousseff, os dispositivos transcritos

no poderiam ser aplicados na eleio presidencial.

Alm da impossibilidade de o intrprete criar distines no

previstas na legislao, sobressai da interpretao um aspecto crtico: a vigorar

a tese da representada, o pas ficaria indefeso caso um chapa que disputasse

a eleio para a Presidncia da Repblica optasse por praticar abuso do poder

econmico, corrupo e/ou fraude.

Tenho que as garantias presidenciais jamais poderiam anular o

direito fundamental de mais de 144 milhes de eleitores de participar de uma

eleio limpa.

Ressalto que outra consequncia igualmente grave da adoo

da tese da representada o rebaixamento institucional do Tribunal Superior

Eleitoral que, nas eleies presidenciais, teria por papel apenas o

carregamento das urnas para votao.

Sublinho, ainda, que o precedente invocado pela representada

no possui nenhuma relao com o caso dos autos. No precedente citado,

trata-se de ilcito penal que, por expressa determinao constitucional, de

competncia do Supremo Tribunal Federal. Diz a Constituio da Repblica:

Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituio, cabendo-lhe:

I - processar e julgar, originariamente:

b) nas infraes penais comuns, o Presidente da Repblica, o Vice-Presidente, os membros do Congresso Nacional, seus prprios Ministros e o Procurador-Geral da Repblica;

Por essas razes, patente a improcedncia desta preliminar.

IV - DO CERCEAMENTO DE DEFESA

A representante sustenta, tambm, que as aes eleitorais

propostas para discutir as eleies presidenciais de 2014 esto marcadas pelo

cerceamento de defesa, mormente aps o incio da chamada fase Odebrecht.

Afirma que, a partir vazamentos seletivos publicados pela

imprensa escrita sobre o pretenso contedo de depoimentos de colaboradores

premiados que integravam a Odebrecht [...] o eminente Ministro relator, agindo

de ofcio, aps prvia consulta ao Min. Fachin do STF e ao PGR, Rodrigo

Janot, decidiu por inaugurar a aqui denominada Fase Odebrecht.

Aponta que nessa nova fase, alm de terem sido

flagrantemente extrapolados os limites, inmeros outros atos do relator

configuraram flagrantes ataques ao exerccio de sua defesa.

No ponto, destaca a convocao de 13 (treze) testemunhas do

juzo e a realizao de 2 acareaes.

Assevera que Instalou-se, com o mximo respeito, uma

verdadeira inverso de papeis: a acusao deixou de ser feita pelos

Representantes.

Acrescenta que o atropelo procedimental consolidou-se no

indeferimento da quase totalidade dos requerimentos feitos pela defesa de

Dilma Rousseff e na negativa de produo de provas que estariam aptas a

fulminar as falsas acusaes lanadas pelos criminosos confessos e

colaboradores premiados do Grupo Odebrecht.

Indica, finalmente, que o prazo assinalado para apresentao

de requerimentos, menos de 24 horas teis a partir da disponibilizao dos

depoimentos, por si s capaz de caracterizar a violao dos direitos ao

contradrio e a ampla defesa.

No acolho a preliminar de cerceamento de defesa.

Desde logo, no tocante a alegada extrapolao do objeto das

aes eleitorais ora em curso, afirmo que enfrentarei a questo apenas por

ocasio da delimitao do mrito das aes, por entender que o arcabouo

ftico sobre o qual esta Corte deve se debruar no se enquadra como

preliminar, nos termos do que alegado pela representada.

Como se sabe, o magistrado o destinatrio da prova. Cumpre

ao juzo, dessa forma, a valorao de sua necessidade.

O indeferimento de provas apontadas por qualquer das partes,

ou mesmo a determinao de que certa prova seja produzida, no configuram

cerceamento de defesa, pois dever do magistrado, na conduo do processo,

determinar a produo das provas necessrias instruo deste e o indeferir

as diligncias inteis ou meramente protelatrias.

Prescreve o art. 370, do novo Cdigo de Processo Civil, litteris:

Art. 370. Caber ao juiz, de ofcio ou a requerimento da parte, determinar as provas necessrias ao julgamento do mrito.

Pargrafo nico. O juiz indeferir, em deciso fundamentada, as diligncias inteis ou meramente protelatrias.

Nesse sentido, dentre muitos, destaco o seguinte Julgado

deste Tribunal Superior:

ELEIES 2012. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. AO DE INVESTIGAO JUDICIAL ELEITORAL. ART. 30-A DA LEI 9.504/97. PREFEITO E VICE-PREFEITO ELEITOS. DECISO. INSTNCIAS ORDINRIAS. PROCEDNCIA.

1. O magistrado o destinatrio da prova, cumprindo-lhe valorar sua necessidade. Em regra, tal procedimento no configura cerceamento de defesa, pois cumpre ao juiz, no exerccio do seu poder-dever de conduo do processo, a determinao das provas necessrias instruo deste e o indeferimento das diligncias inteis ou meramente protelatrias.

2. Diante das premissas da deciso regional, que no podem ser revistas nesta instncia especial (Smulas 279/STF e 7/STJ), revela-se no apenas a ausncia de comprovao da origem dos recursos em espcie que foram depositados na conta bancria de campanha - o que, por si s, e de acordo com a proporcionalidade, poderia ser considerado -, mas tambm se infere a comprovao - admitida pelos agravantes - de que os dados informados na prestao de contas (e nos recibos bancrios e eleitorais) no correspondiam verdade.

3. A gravidade dos fatos que ensejaram o reconhecimento do ilcito do art. 30-A da Lei 9.504/97 no se traduz apenas na no observncia das regras que regem o financiamento das campanhas eleitorais, mas tambm atinge a confiabilidade das informaes prestadas pelo candidato Justia Eleitoral.

Agravo regimental a que se nega provimento.

Ao cautelar julgada prejudicada. (Respe 17-20, redator para o acrdo Min. Henrique Neves, DJE de 11.11.2016).

Colaciono ainda, do Superior Tribunal de Justia, o seguinte

precedente:

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO. RESSARCIMENTO AO ERRIO. IMPOSSIBILIDADE DE AJUIZAR PRETENSO RESSARCITRIA APS A DECADNCIA PARA PLEITEAR A DESCONSTITUIO DO ATO LESIVO. ARGUMENTO NO VEICULADO NO RECURSO ESPECIAL. INOVAO RECURSAL. IMPOSSIBILIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. PRODUO DE PROVA. INDEFERIMENTO FUNDAMENTADO. REEXAME DE MATRIA FTICA. IMPOSSIBILIDADE. SMULA 7/STJ. ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA DA ADMINISTRAO. TEMA DECIDIDO LUZ DE FUNDAMENTO EMINENTEMENTE

CONSTITUCIONAL. EXTRAPOLADA A ESTREITA VIA DO ESPECIAL.

[...]

2. A teor da legislao de regncia, cumpre ao magistrado, destinatrio da prova, valorar sua necessidade. Assim, tendo em vista o princpio do livre convencimento motivado, no h cerceamento de defesa quando, em deciso fundamentada, o juiz indefere produo de prova, seja ela testemunhal, pericial ou documental.

Agravo Regimental nos Embargos de Declarao no Recurso Especial 985.47, rel. Min. Srgio Kukinaje, DJe de 18.8.2016)

certo, ainda, que apesar do alegado cerceamento de defesa,

a representada reconhece que exerceu seu direito de contestar todas as

alegaes trazidas pelos depoimentos, bem como das provas juntadas aos

autos.

Objetivamente, requereu inmeras diligncias a serem

realizadas (fls. 8261-8268), bem como impugnou uma a uma as afirmaes

prestadas pelos depoentes e os documentos juntados (fls. 8268-8288).

Fica claro, da anlise da instruo processual realizada pelo

Corregedor-Geral Eleitoral, Min. Herman Benjamin, que restou garantido,

apesar da celeridade dos atos, o contraditrio e a ampla defesa tais quais

exigidos por nossa Constituio.

No impressiona, finalmente, o quadro apresentado pela

representada que demonstraria grande disparidade na produo de prova oral

(fl. 8289).

Isso porque, tal fato, isoladamente, no significa a existncia

de qualquer preterio. Como j afirmado, dever do magistrado valorar a

produo de quaisquer das provas requeridas pelas partes.

Exemplo disso foi o que decidido na ltima sesso em que as

presentes aes foram submetidas ao plenrio do TSE, sesso do dia

4.4.2017. Naquela assentada, o colegiado desta Corte determinou a oitiva do

ex-Ministro Guido Mantega, apontada pelo Representada, bem como dos

publicitrios Joo Santana, Mnica Moura e Andr Luiz Santana, requeridos

pela Procuradoria-Geral Eleitoral.

dizer, fosse a tese apresentada pela representada

verdadeira, essa deciso plenria do TSE tambm teria incorrido em

cerceamento de defesa, hiptese manifestamente improcedente.

V - DELIMITAO DO MRITO. EXTENSO DA CAUSA PETENDI.

O representado Michel Miguel Elias Temer Lulia alega, em

sntese, que as trs aes ajuizadas tinham originariamente como objeto os

seguintes fatos:

a) abuso do poder poltico, consistente:

i. desvio de finalidade em pronunciamento de rede

nacional de emissoras de radio difuso;

ii. divulgao de indicadores socioeconmicos

manipulados;

iii. uso indevido de bens pblicos em campanha

eleitoral;

iv. publicidade institucional no perodo vedado;

b) abuso do poder econmico, caracterizado:

i. pela extrapolao do limite de gastos de campanha;

ii. pelo financiamento de campanha mediante doaes

oficiais de empreiteiras contratadas pela Petrobrs

como contrapartida da distribuio de propinas;

iii. em razo de propaganda eleitoral por meio de

entidades sindicais;

iv. por transporte de eleitores por meio de entidade do

terceiro setor que recebeu dinheiro pblico para

participar de ato de campanha;

v. por despesas sem regular comprovao;

c) uso indevido dos meios de comunicao social, consistente

na veiculao de informaes falsas no horrio eleitoral;

d) fraude consistente na divulgao de informaes falsas a

respeito da possvel extino de programas sociais;

e) doaes oficiais provenientes de fornecedores da

Petrobras;

f) pagamentos a grficas com desvio para laranjas.

Argumenta que os fatos acima no englobam as condutas

posteriormente apuradas nos autos, tais como o pagamento a partidos

integrantes da coligao, os recursos no contabilizados ao Senhor Joo

Santana e a questo alusiva aos recursos supostamente ilcitos oriundos da

empresa Odebrecht.

Sustenta que o elastecimento da causa de pedir, da forma

como sucedeu, caracteriza mcula regra da estabilidade objetiva da

demanda e at mesmo do prazo decadencial prprio das aes eleitorais.

A representada Dilma Vana Rousseff Linhares, por seu turno,

tambm faz referncia aos fatos supracitados, qualificando-os como fatos pr-

Odebrecht, e requer o julgamento da causa com base no contexto narrado nas

iniciais.

Defende que o eventual julgamento do feito a partir dos fatos

desvelados posteriormente caracterizaria inegvel violao ao contraditrio e

ampla defesa, ao devido processo legal e ao procedimento estabelecido no art.

22, I, da Lei Complementar 64/90.

Antes de apreciar essas alegaes, cumpre fazer breve referncia a excertos das peties iniciais, de acordo com os ilcitos descritos:

AIME 7-61

a) Abuso de poder poltico i. Convocao de rdio e televiso: Utilizando-se do poder de convocar cadeia de rdio e televiso - poder que lhe conferido para fazer comunicaes graves e urgentes ao povo brasileiro -, passou a fazer pronunciamentos com a finalidade de realizar ntida promoo pessoal, desigualando as oportunidades entre os futuros concorrentes ao cargo. No dia 8 de maro de 2014, a pretexto de prestar homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a primeira investigada convocou, custa do errio, cadeia nacional de rdio e televiso para fazer pronunciamento com o seguinte teor (doc. 02): [...]

ii. Divulgao de dados econmicos fraudulentos

A assessoria do Ipea, ademais, no nega que tenha segurado a divulgao de dados j conhecidos, apenas se justificando ao argumento, data vnia falacioso, de que a tanto estaria impedida pela disposio eleitoral que probe a veiculao de publicidade institucional (doe. 09). [...] Inegvel, assim, a configurao de novo desvio de finalidade da mquina administrativa em proveito da candidatura reeleitoral. Alm disso, sonegou-se ao Pas ter conhecimento de dados que colocavam abaixo toda a propaganda fraudulenta promovida pelos representados. Com efeito, a campanha dos requeridos, entre tantas mentiras proclamadas, apresentava um quadro falso dos indicadores econmicos, com a finalidade de convencer o eleitor de que a economia estava sendo bem gerida tudo a permitir que se vislumbrasse um quadro otimista. Criou-se uma verdadeira iluso para ludibriar o eleitorado, valendo-se os requeridos do poder de autoridade para escamotear o acesso aos dados que no lhes eram favorveis.

iii. Uso de bens pblicos em campanha Consoante demonstrado na RP n 84890, em 18 de julho de 2014, a primeira investigada, contando com a presena do Ministro da Sade, Arthur Chioro, participou de um bate-papo virtual (Face to Face), respondendo a perguntas dos internautas acerca do programa "Mais Mdicos", em que foi feita clara referncia eleio que se avizinhava, propaganda negativa ao candidato Acio Neves e aluses plataforma poltica a ser seguida em eventual segundo mandato presidencial (doe. 11). Tambm se noticiou, na RP n 66522, que o servidor Fbio Parrode Pires, assessor da Secretaria de Relaes Institucionais da Presidncia da Repblica, solicitara assessoria de imprensa do Diretrio do PMDB do Estado do Rio de Janeiro, no dia 12 de junho, primeiro por telefone e depois por e-mail, cpia da lista de presena dos Prefeitos que compareceram ao almoo de formalizao de apoio do partido ao movimento Aezo, formado a partir de aliana poltica entre as candidaturas de Acio Neves, Presidncia da Repblica, e de Luiz Fernando Pezo, ao Governo do Estado do Rio de Janeiro (doe. 12).

iv. Publicidade institucional em perodo vedado

Observe-se que, pela gravidade da ilicitude e tendo em vista a repetio da veiculaco, foi aplicada multa no patamar mximo em duas representaes apensadas. E ainda houve uma terceira representao julgada procedente contra a Petrobrs pela mesma conduta vedada, a RP n 82802 (doe. 15), a revelar completo descaso do Governo para com as regras eleitorais. Nesse contexto, fica claro que a nica finalidade da insistncia da Petrobrs em veicular publicidade institucional no perodo vedado, no fosse suficiente o desequilbrio presumido pela norma proibidora, era diminuir o desgaste causado campanha dos investigados pelos desdobramentos das investigaes que, j quela altura, apontavam para a existncia de uma quadrilha que tomara de assalto a at ento mais valiosa empresa pblica brasileira. Ademais, independentemente dessa necessidade especfica de blindar a campanha de tema deveras espinhoso, outros rgos do Governo resolveram desafiar a lei eleitoral em proveito da candidatura dos investigados, como o caso do Banco do Brasil, cujo Presidente tambm sofreu representao (RP n 81770) julgada procedente por meio de acrdo resumido assim, e transcrito somente quanto ao que interessa presente discusso (doe. 16): [...] Conforme noticiado na RP n 177034, ainda no julgada, j na pgina principal do stio eletrnico do Ministrio do Planejamento, constavam as seguintes manchetes, que funcionavam como links para cada uma das matrias (doe. 17): [...] Alm disso, o Ministrio do Planejamento disponibilizava na aludida pgina vdeos, fotografias e udios que reforavam as matrias veiculadas (doe. 18). De igual maneira, o Portal Brasil divulgava matrias que nada tinham a ver com o exigido carter "educativo, informativo ou de orientao social" da publicidade institucional, de resto totalmente proibida no perodo, como se v das respectivas manchetes, que tambm possuem links para o contedo dos artigos correspondentes (doe. 19): [...] As matrias publicadas representaram vigorosa propaganda eleitoral em prol da candidata reeleio, que, valendo-se de pginas oficiais na Internet, alardeou os feitos de seu Governo em temas que eram objeto de sua campanha eleitoral. A ttulo de exemplo, tem-se a seguinte matria, cujo tema constituiu um dos pilares da campanha dos representados junto ao eleitorado nordestino (doe. 20): [...] Trata-se, pois, de escandaloso abuso do poder poltico, em que os temas de campanha tiveram a mais ampla divulgao inclusive durante o perodo vedado, em que taxativamente proibida a propaganda institucional, mesmo aquela pautada pelas limitaes do art. 37, 1, da Constituio da Repblica

b) Abuso de poder econmico i. Extrapolao do limite de gastos de campanha; Conforme registrado pelo eminente Ministro Gilmar Mendes, no voto proferido no processo de Prestao de Contas n 976-13, os gastos dos candidatos representados excederam o limite estabelecido nos termos do Art. 17-A da Lei das Eleies (doc. 22): [...] Essa violao do limite foi examinada na prestao de contas, tendo esse colendo Tribunal Superior Eleitoral acompanhado o voto do eminente Ministro Relator de que no seria o caso de se aplicar multa, ante a deciso da ilustre Ministra MARIA THEREZA que autorizou, em data posterior, o aumento do limite. [...] Ora, nesses termos, h de se ter presente que o aumento do limite dos gastos de campanha pelos requeridos somente foi pleiteado e deferido no dia 24 de outubro de 2014, sexta-feira, no encerramento da campanha eleitoral de 2 turno (a votao se realizou em 26 de outubro seguinte, domingo). Conforme revela o espelho de andamento do RCAND n 73624, verifica-se que o pedido de aumento do limite somente veio a ser juntado aos autos depois de despachado pela eminente Ministra MARIA THEREZA. Com efeito, consta do andamento que o despacho foi registrado s 16h39 do dia 26 de outubro, mas a juntada do requerimento ao processo somente ocorreu s 17h28 (doe. 23). [...] Ou seja, em vsperas da eleio, na tarde de sexta-feira, em uma tramitao surpreendentemente rpida, ao cabo de 2h33 os representados lograram aumentar o limite de suas despesas em mais de R$ 10.000.000,00 (dez milhes de reais). A bem da verdade, no se tratou de aumento de limite, mas apenas tentativa de homologao de gastos feitos em excesso. Ora, sem nenhuma pretenso de questionar aqui a juridicidade da r. deciso que autorizou o aumento do limite, certo que o procedimento encetado pelos representados frustrou a razo a ser do estabelecimento de limite de gasto de campanha. Reconhecidamente, NO SE TRATOU DE FIXAO PRVIA DO MONTANTE A SER GASTO, MAS DE REGISTRO DE NOVO LIMITE PARA SE CONFORMAR AO TOTAL J GASTO. Ocultou-se, assim, dos adversrios e dos eleitores, at o ltimo momento, a extrapolao dos limites inicialmente fixados. Mais do que isso, sem maior cerimnia, fez-se do limite de campanha um nada jurdico, como se se cuidasse de uma providncia legal despida de razo de ser e de consequncias.

ii. Financiamento de campanha mediante doaes oficiais de empreiteiras contratadas pela Petrobras como parte da distribuio de propinas Como fartamente noticiado pela imprensa nacional (doe. 24), a campanha eleitoral de 2010 da requerida Dilma Rousseff foi financiada, em parte, por dinheiro oriundo da corrupo da Petrobrs. Esta afirmao foi feita peremptoriamente por Paulo Roberto da Costa em depoimento prestado Justia Federal. No se trata de um ato isolado, mas sim de uma prtica costumeira, com incio no ano de 2004, para o financiamento de partidos polticos aliados ao Governo Federal. Assim que como pblico e notrio, Paulo Roberto da Costa, ex-diretor da Petrobrs, juntamente com outras pessoas indicadas por polticos e nomeados pela requerida DlLMA ROUSSEFF, organizavam um grupo de grandes empreiteiras para, em um processo de cartelizao, direcionar contratos superfaturados a empresas especficas, atravs dos quais se desviavam recursos pblicos para o Partido dos Trabalhadores - PT, o Partido Progressista - PP e o Partido do Movimento Democrtico Brasileiro PMDB com pagamento de propina que variava entre 1% (um por cento) e 3% (trs por cento) do valor dos contratos. [...] Os valores desviados so de grande monta, atingindo cifras milionrias que permitiram o financiamento dos partidos polticos integrantes da coligao investigada, os quais lograram condies privilegiadas para se inserirem no contexto poltico e social, auferindo vantagem desproporcional em relao aos adversrios. O recebimento desses valores fato incontroverso, pois consta da prestao de contas dos trs partidos polticos destinatrios das propinas, conforme fazem prova os respectivos Demonstrativos de Receitas Recebidas, extrados do site desse Egrgio Tribunal (doe. 26). Assim que estes partidos receberam os seguintes montantes das empresas investigadas na operao Lava Jato da Polcia Federal, apenas nos anos de 2012 e 2013: [...] Como cedio, os recursos arrecadados por partidos polticos so tambm destinados ao financiamento das campanhas eleitorais de que participam. Assim, o privilgio do financiamento esprio no s aquele oriundo da melhor insero social dos partidos no tempo, mas tambm na prpria campanha eleitoral. No bastasse esse contexto, importante revelao foi feita pela Revista Veja, que noticiou a tentativa do Partido dos Trabalhadores - PT de repatriar R$ 20.000.000,00 (vinte milhes de reais), oriundos da corrupo na Petrobrs, para financiar a campanha reeleitoral, o

que s no se concluiu, ao menos pelas mos do doleiro Alberto Yousseff, em razo de sua priso (doe. 27). Embora aqui se trate de mera notcia jornalstica, diante dos elementos j existentes e comprovados, ou seja, o depoimento de Paulo Roberto da Costa confirmando o pagamento de propina e o financiamento da campanha de Dilma Rousseff em 2010, os indcios levam deduo de que este proceder verdadeiro, consistindo em mtodo que deve ser apurado nesta ao de investigao. Resta evidente, portanto, que o dinheiro desviado da Petrobras financiou direta e indiretamente a campanha dos requeridos, no se podendo olvidar que os dois partidos que mais receberam recursos das empreiteiras envolvidas com o escndalo da Petrobrs foram o da candidata a Presidente da Repblica, o PT, e o do candidato a vice-Presidente da Repblica, o PMDB. Ora, diante desses fatos, mo restam dvidas de que as candidaturas dos requeridos foram beneficiadas por abuso de econmico, na medida em que um sofisticado esquema de arrecadao ilegal de dinheiro pblico foi montado para obter, a partir de contratos mantidos com a Petrobrs, cifras milionrias em favor das agremiaes partidrias, cujos recursos permitiram a captao de votos em favor dos candidatos e dos partidos mediante o financiamento de aes partidrias. bvio que esses recursos foram utilizados para alavancar a imagem dos candidatos e lideranas dos partidos; garantir e financiar as campanhas de candidatos a prefeitos e vereadores das eleies de 2012 com vistas a obter apoio nas eleies de 2014, alm de garantir apoio financeiro a candidatos majoritrios e proporcionais neste ano, dentre outros. Tudo isso, vale destacar, gera reflexos diretos e imediatos na eleio presidencial. Logo, os benefcios dos recursos ilcitos recebidos so imensurveis e, a toda evidncia, desequilibram o pleito e afetam a legitimidade e a normalidade das eleies. Ademais, a obteno de recursos de campanha de forma ilcita, seja por concusso, seja por corrupo passiva, seja por trfico de influncia, tambm configura inegvel abuso do poder poltico. No caso, agentes pblicos ou pessoas a eles ligados foram a concesso de contribuio de campanha, sob promessa de providncias benficas ou ameaa de malefcios. No caso, o depoimento prestado pelo ex-Diretor da Paulo Roberto Costa, assinala que as empresas contratadas pela estatal do petrleo eram constrangidas a contriburem para partidos polticos, dentre eles o PT e o PMDB, aqui representados. No caso, o depoimento prestado pelo ex-Diretor da Paulo Roberto Costa, assinala que as empresas contratadas pela estatal do petrleo eram constrangidas a contriburem para partidos polticos, dentre eles o PT e o PMDB, aqui representados.

A obteno de recursos nessas circunstncias caracteriza o abuso do poder poltico, porquanto as aludidas doaes foram feitas em decorrncia de promessas de benesses ou de absteno de criar entraves por parte dos agentes da empresa estatal. Outrossim, embora isso ainda no tenha sido objeto de explicitao nas investigaes da "Operao Lava Jato", pelo volume de recursos envolvidos apresenta-se fortssima a suspeita de que o comando da candidatura dos requeridos no tivesse conhecimento das noticiadas irregularidades. Seja como for, o certo que os representados foram beneficirios dessa ao espria de agentes pblicos da Petrobrs, recebendo em favor de sua campanha os montantes obtidos de forma ilcita, com grave desequilbrio de oportunidades entre os concorrentes da disputa eleitoral. Alis, o prejuzo pode no se limitar aos valores carreados para as campanhas dos candidatos representados, mas tambm pelos que deixaram de fluir para as candidaturas opositoras. A conduta ilcita dos agentes pblicos, portanto, enseja violento e inaceitvel abuso do poder poltico e econmico que tisnou irremediavelmente a legitimidade da eleio. A obteno de recursos nessas circunstncias caracteriza o abuso do poder poltico, porquanto as aludidas doaes foram feitas em decorrncia de promessas de benesses ou de absteno de criar entraves por parte dos agentes da empresa estatal. Outrossim, embora isso ainda no tenha sido objeto de explicitao nas investigaes da "Operao Lava Jato", pelo volume de recursos envolvidos apresenta-se fortssima a suspeita de que o comando da candidatura dos requeridos no tivesse conhecimento das noticiadas irregularidades. Seja como for, o certo que os representados foram beneficirios dessa ao espria de agentes pblicos da Petrobrs, recebendo em favor de sua campanha os montantes obtidos de forma ilcita, com grave desequilbrio de oportunidades entre os concorrentes da disputa eleitoral. Alis, o prejuzo pode no se limitar aos valores carreados para as campanhas dos candidatos representados, mas tambm pelos que deixaram de fluir para as candidaturas

iii. Propaganda eleitoral levada a efeito por meio da atuao de entidades sindicais Tambm as entidades sindicais se mostraram extremamente ousadas na divulgao de notcias e artigos favorveis aos investigados e desabonadores, quando no falsos e difamatrios, em relao ao candidato Acio Neves, certamente convictas de que, ao menos em relao a elas, o ilcito compensa, haja vista at mesmo a controvrsia hoje existente acerca da incidncia ou no de multa.

iv. Transporte de eleitores por meio de entidade de terceiro setor que recebeu verbas pblicas No dia 21 de outubro de 2014, os candidatos e a coligao requeridos realizaram, na cidade de Petrolina, Estado de Pernambuco, vizinha da cidade de Juazeiro, na Bahia, um grande comcio com a presena de milhares de pessoas. Como faz prova o incluso vdeo (doe. 33), as pessoas que participaram desse comcio foram transportadas para o local por meio de caravanas de nibus, provenientes de diversas cidades do pas, notadamente dos Estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Cear e Sergipe. Esse transporte foi financiado pelas entidades que compem a associao Articulao no Semirido Brasileiro - ASA, como confessado pela prpria entidade em seu site, de onde se extrai a seguinte notcia (doe. 36): v. Uso indevido dos meios de comunicao destinados propaganda eleitoral gratuita Apesar de tantos abusos, os investigados ainda se viram na contingncia, certamente por se sentirem ameaados em seu projeto de eternizao no poder, de lanar mo do poderoso e caro instrumento do horrio eleitoral gratuito, financiado pelo contribuinte brasileiro, para veicular deslavadas mentiras contra os candidatos adversrios. Com efeito, com relao questo do piso salarial dos professores, foram veiculadas as seguintes propagandas, nos locais, datas e horrios descritos na anexa planilha de mdia (doe. 35): [...] Houve, como se v, uma grande carga no tema da remunerao dos professores em Minas Gerais, com a propagao da deslavada mentira de que Acio Neves no teria pago aos professores da rede pblica daquele Estado sequer o piso salarial da categoria em nvel nacional. Nada obstante, era do conhecimento da Advocacia Geral da Unio, ao menos desde setembro de 2011, que essa acusao absolutamente falsa, como se extrai de sua manifestao nos autos da ADI n 4631, movida pela Confederao Nacional dos Trabalhadores em Educao em face do art. 1 da Lei n 18.975/10, de Minas Gerais, "que fixa o subsdio das carreiras do Grupo de Atividades de Educao Bsica do Poder Executivo Estadual", entre outras providncias (doe. 35). Tambm mentiram propositalmente os investigados quanto ao tema da tarifa de energia eltrica, como se colhe das seguintes peas publicitrias (doe. 35): [...]

Trata-se de mais uma bvia mentira, desmentida pela prpria Agncia Nacional de Energia Eltrica, consoante relao extrada de seu stio oficial, mantido na Internet, bem como pelas informaes obtidas junto s demais unidades da Federao (doe.35). Alm do mais, levaram ao ar as seguintes mensagens absolutamente inverdicas (doe.35): [...] De fato, cuida-se de um total descaramento, pois Acio Neves, alm de jamais sequer ter feito qualquer promessa no sentido de construir oito hospitais regionais, tambm nunca processou quaisquer jornalistas ou veculos de comunicao. c) No comprovao regular de despesas Conforme noticiado amplamente pela Imprensa, esse colendo Tribunal Superior Eleitoral, no exame das contas dos requeridos, identificou como o segundo maior fornecedor de sua campanha a empresa FOCAL CONFECO E COMUNICAO VISUAL LTDA., empresa sobre a qual recaem gravssimas suspeitas de irregularidades, conforme registrado pelo site de O Globo, em matria que se tem acesso pelo endereo http://oglobo.globo.com/brasil/empresa-de- motorsta-que-recebeu-25-milhoes-esta-entre-os-principais-fornecedores-do-pt- 14786767 (doe. 37): d) Fraude consistente na disseminao de informaes

falsas a respeito da extino de programas sociais Durante o perodo de campanha, surgiu a denncia de que recebeu-se da linha telefnica (21) 98501.4413 SMS contendo a seguinte mensagem: [...] Reproduzindo o texto: GOVERNO FEDERAL Caro usurio, informamos que, caso voc seja participante do programa BOLSA FAMLIA, seu ttulo de eleitor monitorado atravs de nossos sistemas, se deu voto for computado contra a presidente Dilma Rousseff, seu benefcio ser automaticamente cancelado. Vote 13

RP 8-46

a) Realizao de gastos de campanha acima do limite informado

Fatos idnticos aos ventilados na AIME 7-61 (vide item b, i).

b) Financiamento de campanha mediante doaes oficiais de empreiteiras contratadas pela Petrobras como parte de ajuste de distribuio de propinas

Fatos idnticos aos ventilados na AIME 7-61 (vide item b, ii). c) No comprovao regular de despesas Fatos idnticos aos ventilados na AIME 7-61 (vide item c).

AIJE 1547-81

a) Abuso do poder econmico entrelaado com abuso do poder poltico;

i. Envio de 4,8 milhes de folders pelos Correios, sem chancela

O primeiro gravssimo fato diz respeito "entrega de 4.812.878 folders da candidata s eleies Dilma Rousseff sem chancela/estampa de franqueamento, na modalidade mala direta postal domiciliria - MDPD, para distribuio nas cidades da Grande So Paulo e interior do estado", em "carter excepcional", como se extrai do Informe dos Correios (Correios Informa, So Paulo Interior, Edio n. 167/14, de 3 de setembro de 2014, doe. anexo). Fato este que envolve alm dos trs primeiros rus, o Presidente da Empresa Brasileira de Correios e Telgrafos - ECT, WAGNER PINHEIRO DE OLIVEIRA, Diretor Regional da Empresa Brasileira de Correios e Telgrafos em Minas Gerais, JOS PEDRO AMENGOL FILHO, e a prpria EMPRESA BRASILEIRA DE CORREIOS E TELGRAFOS - ECT.

ii. Outdoor e projeo de propaganda em tamanho superior a 4m2

35. Alm do primeiro fato, argu-se, ainda, a ilegalidade j questionada na RP 1442-07, pela prtica, pelos rus (POLIS PROPAGANDA E MARKETING LTDA. JOO CERQUEIRA DE SANTANA FILHO, PARTIDO DOS TRABALHADORES - PT, DIRETRIO NACIONAL, RUY FALCO bem como dos trs primeiros rus) de propaganda eleitoral em bem pblico (ofensa ao art. 37 da L) e a utilizao de outdoors ou engenho assemelhado (ofensa ao art. 39, 82 da L), com posterior divulgao destes atos no site www.mudamais.com.

36. Os rus, em atos de escancarada ilegalidade, utilizaram a fachada de bens pblicos e particulares para projetar diversas propagandas eleitorais da candidata Presidncia da Repblica Dilma Rousseff, sempre em tamanho superior a quatro metros quadrados, comprometendo o equilbrio e a igualdade entre as campanhas.

iii. Utilizao de Ministro de Estado, em posio institucional, na campanha eleitoral

46. O uso de recursos direcionados para o uso da mquina pblica na campanha da representada incorporaram-se ao cotidiano das ora requeridas. Em outro episdio, j julgado por esta c. Corte, condenou-se o Ministro Mercadante pela prtica de propaganda extempornea em tpico ato institucional de governo (RP 590-80). 47. Conforme demonstrado nos autos, no dia ltimo 15 de junho de 2014, o Ministro Alosio Mercadante, utilizando servidores, estrutura e dependncias da Presidncia da Repblica e da Casa Civil, convocou entrevista coletiva no Palcio do Planalto com o nico propsito de rebater crticas proferidas por ocasio da conveno partidria do PSDB, realizada no dia anterior. 14.06.2014. O Ministro, fato incontroverso, encontrava-se em pleno exerccio de suas funes, eis que exercia atividades de "planto" para acompanhamento das atividades da Copa do Mundo. [...] 49. No discurso, como se v, o Ministro trouxe para um ato oficial de governo a temtica poltico-eleitoral, de forma clara e inquestionvel. Utilizou-se da estrutura do Estado, bens mveis e imveis pertencentes administrao direta da Unio, para rebater "crticas de Aedo", transformando a entrevista coletiva em verdadeiro ato poltico-eleitoral em defesa da segunda Representada, notria candidata reeleio. 50. Consoante a degravao (doe. anexo), a entrevista coletiva convocada teve como evidente escopo a campanha eleitoral. Apesar de o Ministro responder aos jornalistas "que o papel dele no rebater declaraes de candidatos, mas defender o governo", o contexto da entrevista coletiva foi calcado em todos os itens abordados no discurso dos filiados do partido Representado em razo de sua conveno nacional. 51. Neste ponto, h de se destacar, que o Ministro, "como membro do governo," faz "questo, como ministro-chefe da Casa Civil, de no s defender o governo, mas de aprofundar as comparaes". Ora, como o prprio Ministro afirmou, o que ele fez foi "aprofundar as comparaes" entre governos, ato tpico

de campanha eleitoral. Conforme demonstrado, o ato de convocar a imprensa para entrevista coletiva, na condio de ministro-chefe da Casa Civil da Presidncia da Repblica (agente pblico), constituiu um ato pblico em prol da reeleio da Presidente da Repblica, conduta vedada capitulada no art. 73, incisos l, II e II da Lei 9.504/97 constitui tambm fato apto a capaz de configurar abuso de poder poltico e macular a legitimidade do pleito eleitoral. iv. Utilizao de servios pblicos na campanha:

Programa Mais Mdicos na propaganda eleitoral

60. Em suma, a cpula do governo federal em matria de sade se deslocou para uma UBS de Guarulhos, mobilizando toda a estrutura de sade da localidade, para perguntar a alguns agentes pblicos, na presena da candidata Presidente, se o servio seria bem gerido. Tudo sem propsito algum que se relacionasse com o interesse pblico: o nico objetivo era estritamente eleitoral, vinculado montagem da propaganda eleitoral gratuita. 61. De mais a mais, difcil imaginar que qualquer agente pblico subordinado ao governo federal, ou sua base, desse resposta diferente do que se esperava ouvir. Com efeito, a conduta dos representados, ao utilizar as instalaes da UBS de Jardim Jacy e os mdicos destacados para trabalhar no posto de sade, teve o nico e especfico propsito de alavancar simpatia para o programa Mais Mdicos, com fins eleitorais, o que feriu o disposto no art. 73, incisos l e III, da Lei 9.504/97.

v. Utilizao de programa social e doao de uma prtese dentria a uma eleitora que participou de filmagens da propaganda eleitoral

72. Diversos meios de comunicao divulgaram16 o que a prpria candidata Presidncia da Repblica Dilma Vanna Roussef, pela COLIGAO COM A FORA DO POVO (PT-PMDB-PDT-PCdoB-PP-PR-PSD-PROS-PRB), acabou por confirmar - segundo noticia a revista Veja: que o Governo Federal teria realizado a:

"doao de uma prtese dentria a uma eleitora que participou de filmagens para sua propaganda eleitoral. Marinalva Gomes Filha, a Dona Nalvinha, vive em Paulo Afonso (BA) e beneficiria do programa gua Para Todos".

73. Segundo informa a reportagem, a eleitora teria recebido o benefcio aps um pedido direto do governo federal Prefeitura de Paulo Afonso (BA). De acordo com o que noticiado pela Folha de So Paulo, em 23.8.2014 , no s a prtese dentria foi doada, mas tambm a "ampliao de seu fogo lenha", poucos dias antes da gravao do programa eleitoral. Confira-se: [...] 75. Os fatos descritos configuram abuso de poder poltico com vis econmico (art. 22 da LC 64/90) tendo em vista a prtica de ilcito, por meio do uso da mquina pblica, com a finalidade de obter proveito eleitoral. A par do ilcito ter-se revelado em incontveis outros exemplos, ainda concretizado na vedao prevista no art. 73, l e III da Lei 9.504/97 e, tambm, o disposto em seu pargrafo 10. vi. Veiculao de propaganda eleitoral no stio da

Central nica dos Trabalhadores 77. A pgina eletrnica da Central nica dos Trabalhadores veicula matrias cujo contedo claramente de apoio candidatura dos rus nas eleies de outubro de 2014. Observa-se, com facilidade, que a CUT abdica de divulgar temas de interesse da categoria para veicular textos enaltecedores, acompanhados de fotografias da candidata Dilma Rousseff, caracterizando propaganda eleitoral ilegalmente difundida, conforme segue demonstrado. [...] 86. No presente caso, as matrias publicadas na pgina eletrnica da CUT fazem meno expressa ao pleito eleitoral, aduzindo que a candidata, quando eleita, preservar os direitos trabalhistas hoje existentes. Confira-se o trecho da matria: A presidenta Dilma comprometeu-se, quando reeleita, manter todos os direitos trabalhistas existentes (...).

b) Publicidade institucional no perodo vedado: o uso da Petrobras

Fato idntico ao tratada na AIME 7-61 (vide item a, iv)

c) Uso indevido dos meios de comunicao i. Pronunciamento no dia do trabalhador

96. A candidata, ora requerida, convocou rede nacional de rdio

e televiso, para, patrocinada pelos cofres pblicos e sob o

pretexto de saudar o Dia do Trabalho, fazer pronunciamentos

com ntida conotao eleitoral. Esses fatos foram objeto da RP

n 326-63, sob a perspectiva da propaganda antecipada e

levaram condenao da candidata ora representada ao

pagamento de multa em seu valor mximo, tendo em vista a

gravidade da conduta.

97. O carter personalista e o contedo eleitoral dos discursos

proferidos pela requerida, em cadeia de rdio e televiso, so

graves, maltratando o princpio da impessoalidade. Violaram, por

igual, o inciso XIV do art. 22 da Lei Complementar n 64/90.

ii. Propaganda extempornea por meio de publicidade da Caixa Econmica Federal

106. Tambm por uso indevido de propaganda institucional da

Caixa Econmica Federal, esta c. Corte multou a instituio em

R$ 25.000,00 (valor mximo), por veicular propaganda

extempornea em favor da candidata ora representada (RP 143-

92). 107. A "propaganda institucional" da CAIXA ECONMICA

FEDERAL questo continha o seguinte teor:

Vinheta: A vida pede mais que um banco, pede incluso

e oportunidades, como os programas Minha Casa, Minha

Vida e Minha Casa Melhor, do governo federal. Sra.

Marizete: A gente tem at vergonha de falar, n? Morei

em barraco. Quando a chuva vinha j entrava gua

dentro de casa. Tinha muito medo. Gerente da CEF:

Dona Mara sempre pagou aluguel, sem habitabilidade,

sem infraestrutura. Perguntei se ela j tinha ido

Prefeitura para fazer inscrio no programa Minha Casa,

Minha Vida. Sra. Marizete: Na hora em que eu peguei a

chave, eu olhava para os quatro cantos e dizia: Eu no

estou nem acreditando, um sonho. Um apartamento

destes, antes, era pra rico, n? Pra mim nunca ia ser. Eu

espero pelo futuro do programa Minha Casa, Minha Vida

e Minha Casa Melhor que eles continuem fazendo o que

eles t fazendo hoje porque vai tirar muita gente da

misria. Eu to muito feliz, ainda to conseguindo um

dinheirinho na poupana, n?

AIJE 1943-58

a) Abuso do poder poltico; i. Desvio de finalidade na convocao de

pronunciamento em cadeia nacional de rdio e televiso;

Fatos idnticos aos descritos na AIME 7-61 (item a, i)

ii. Divulgao de dados econmicos fraudulentos Fatos idnticos aos descritos na AIME 7-61 (item a, ii)

iii. Uso de bens pblicos em campanha Fatos idnticos aos descritos na AIME 7-61 (item a, iii)

iv. Uso de bens pblicos em campanha Fatos idnticos aos descritos na AIME 7-61 (item a, iv)

b) Abuso de poder econmico i. Extrapolao do limite de gastos de campanha (;

Fatos idnticos aos descritos na AIME 7-61 (item b, i)

ii. Financiamento de campanha mediante doaes oficiais de empreiteiras contratadas pela Petrobras como parte da distribuio de propinas

Fatos idnticos aos descritos na AIME 7-61 (item b, ii)

iii. Propaganda eleitoral levada a efeito por meio da

atuao de entidades sindicais Fatos idnticos aos descritos na AIME 7-61 (item b, iii)

iv. Transporte de eleitores por meio de entidade de terceiro setor que recebeu verbas pblicas

Fatos idnticos aos descritos na AIME 7-61 (item b, iv)

v. Uso indevido dos meios de comunicao destinados propaganda eleitoral gratuita

Fatos idnticos aos descritos na AIME 7-61 (item b, v)

Os fatos acima foram muito bem compilados em tabela da lavra

da eminente Ministra Maria Thereza de Assis Moura, ento relatora, nos

seguintes termos:

AIJE

1547-81

AIJE

1943-58

AIME

7-61

RP

8-46

1. Uso dos correios para o envio de 4,8 milhes de

folders sem chancela

2. Outdoors e propaganda da candidata mediante

projeo de imagens na fachada de bens pblicos e

particulares acima de 4m2

3. Utilizao de ministros na campanha entrevista do

ministro Mercadante

4. Utilizao de bens, servidores e servios pblicos

na campanha em visita da candidata a unidade

bsica de sade

5. Utilizao de programa social, reforma de um fogo

a lenha e doao de uma prtese dentria a uma

eleitora

6. Veiculao de propaganda eleitoral em pgina de

entidade sindical

7. Publicidade institucional em perodo vedado

Petrobras

8. Propaganda extempornea por meio de

propaganda institucional da Caixa Econmica

Federal

9. Pronunciamento da candidata em cadeia nacional

no Dia do Trabalho

10. Pronunciamento da candidata em cadeia nacional

no Dia Internacional da Mulher

11. Veiculao de propaganda institucional em perodo

vedado Banco do Brasil

12. Veiculao de propaganda institucional em perodo

vedado Ministrio do Planejamento

13. Divulgao fraudulenta de indicadores

socioeconmicos

14. Uso indevido de bens pblicos bate-papo com o

Ministro da Sade

15. Uso indevido de bens pblicos uso de telefone e

email por servidor da Presidncia da Repblica

para fins de campanha

16. Extrapolao do limite de gasto de campanha

17. Recebimento de doaes oficiais de empreiteiras

contratadas pela Petrobras como parte da alegada

distribuio de propinas

18. Abuso praticado por terceiros mediante campanhas

publicitrias de entidades sindicais

19. Transporte de eleitores por ONG que teria

recebido recursos pblicos

20. Uso indevido dos meios de comunicao no horrio

eleitoral, por meio de propaganda negativa ao

adversrio

21. Despesas irregulares falta de comprovantes

idneos

22. Fraude consistente na disseminao de

informaes falsas a respeito da extino de

programas sociais

23. Publicidade institucional em perodo vedado

Da leitura do inteiro teor das iniciais e com base no quadro

comparativo adotado por Sua Excelncia, entendo que assiste razo aos

representados quando afirmam que a matria exposta nas exordiais no

contemplou os ilcitos alusivos ao alegado recebimento de recursos de

campanha no contabilizados, suposta compra de apoio poltico e noticiada

existncia de movimentao de recursos no exterior.

Embora se tratem de fatos gravssimos e que merecem a mais

ampla apurao em sede prpria, entendo que eles no podem ser transpostos

para o julgamento da presente demanda, em homenagem regra da

congruncia, necessidade de estabilizao das demandas e necessria

limitao temporal do direito de provocar a jurisdio eleitoral.

A regra da congruncia, tambm conhecida como da adstrio

da sentena ao pedido, decorre dos preceitos nemo iudex sine actore e ne

procedat iudex ex officio como importantes (de)limitadores da ao do Estado-

jurisdio, de modo que lhe resguardar a imparcialidade.

Afinal, quando as partes vo a juzo, elas definem o thema

decidendum, ou seja, a matria sobre a qual se pleiteia a atuao da jurisdio,

no cabendo ao rgo jurisdicional aderir de antemo a uma das narrativas

fticas ou mesmo aceitar a ampliao do objeto do feito. Assim agindo, o

magistrado sai de sua posio de terceiro desinteressado no litgio e corre

srios riscos de se vincular psicologicamente a pretenso de uma das partes,

que pode acarretar o comprometimento do magistrado e a mcula ao princpio

do juiz natural.

Nesse ponto, so elucidativas as palavras de Jos Maria Rosa

Tesheiner, que traa um paralelo entre a vedao de inovao no pedido com

a prpria imparcialidade do magistrado:

Em sua forma extremada, o princpio da imparcialidade combina-se com o dispositivo. Exaspera-se o princpio da demanda, afirmando-se que interveno judicial na esfera alheia no deve nunca ir alm do pedido, e nega-se a regra do impulso oficial, fazendo-se o andar do processo depender da provocao das partes. Sem essas extrapolaes, pode-se simplesmente dizer que imparcial o juiz no comprometido com a causa, em favor de uma das partes, por questes de amizade ou interesse de outra natureza5.

5 TESHEINER, Jos Maria Rosa; THAMAY, Renan Faria Krger. Teoria geral do processo. 2. ed.Rio de Janeiro: Forense, 2016, p. 71-72.

Ada Pelegrini Grinover, Antnio Carlos de Arajo Cintra e

Cndido Rangel Dinamarco apontam para o risco de se permitir que a

jurisdio abdique da inrcia e se pronuncie a respeito de fatos no apontados

pelas partes:

Tanto no processo penal como no civil a experincia mostra que o juiz que instaura o processo por iniciativa prpria acaba ligado psicologicamente pretenso, colocando-se em posio propensa a julgar favoravelmente a ela. Trata-se do denominado processo inquisitivo, o qual se mostrou sumamente inconveniente pela constante ausncia de imparcialidade do juiz6.

Na mesma linha, pertinentes as lies de Luiz Fux, para quem:

Mantendo fidelidade com o princpio da inrcia - ne procedat iudex ex officio -, tem se que o processo comea por iniciativa da parte. O Cdigo de Processo Civil inaugura suas regras com esse princpio dispondo no art. 2, que: nenhum juiz prestar a tutela jurisdicional seno quando provocado na forma legal. o princpio da demanda que informa o nascimento do processo no sistema processual brasileiro e do qual decorrem outros princpios como o dispositivo, que marca a prevalncia dos estmulos das partes sobre a iniciativa oficial, caracterstica geral dos sistemas processuais. (...) Essa iniciativa da parte autora visa a preservar a eqidistncia do julgador evitando que ele assuma o que compete ao prprio interessado, senhor da convenincia e oportunidade de demandar naquele momento em face daquele ru. , em resumo, a manuteno da concepo romano-cannica de que o autor o dominus litis. Entretanto, engendrada a primeira iniciativa, estabelece o Cdigo que o processo deixa de ser propriedade das partes e, ento, passa a desenvolver-se por impulso oficial do qual decorrem direitos, deveres, faculdades e nus para os participes da relao processual7. [Grifo nosso.]

Enfim, como dito acima, pela regra da congruncia

necessrio haver um silogismo entre o quanto pedido pela parte e o quanto

decidido, no podendo o magistrado entregar prestao jurisdicional menor

(citra petita), maior (ultra petita) ou diferente do que pedido (extra petita). Em

6 GRINOVER, Ada Pellegrini; CINTRA, Antnio Carlos de Arajo; DINAMARCO, Cndido Rangel. Teoria Geral do Processo. So Paulo: Malheiros, 1999, p. 58. 7 FUX, Luiz. Curso de direito processual civil. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2005, p. 414.

todos esses casos, h vcio na sentena, que pode ser nula de pleno direito ou

sofrer corrigenda mediante embargos de declarao.

Essa relao muito bem explicitada por Marcelo Abelha

Rodrigues:

[...] o limite da sentena o pedido, porque como ato de entrega da tutela jurisdicional, deve ficar adstrito aos limites estabelecidos pela demanda, ou seja, uma sentena no pode ficar aqum do que foi pedido, ou seja, no pode o magistrado sentenciar sem ter apreciado todos os pedidos em juzo (infra ou citra petita), superior ao pedido (ultra petita) e tampouco julgar coisa diversa do que foi pedido (extra petita). Mais uma vez percebe-se o silogismo entre a sentena e o pedido8.

A jurisprudncia desta Corte tambm consagra a regra da

congruncia como essencial prestao jurisdicional, assentando a nulidade

em regra da sentena que desatende o preceito. Nesse sentido:

AGRAVO DE INSTRUMENTO PROVIDO. ELEIO 2000. RECURSO ESPECIAL. AO DE IMPUGNAO DE MANDATO ELETIVO. PENA. CASSAO DO DIPLOMA. PEDIDO FUNDADO NOS 10 E 11 DO ART. 14 DA CF. SENTENA ULTRA PETITA . - Doutrina e jurisprudncia tm como nula a sentena extra petita ou ultra petita . Admite-se, contudo, no ltimo caso (ultra petita), possa a nulidade ser sanada na instncia ad quem , preservando a deciso na parte em que atende ao pedido. (AI n 4.659, rel. Min. Francisco Peanha Martins, DJ de 8.10.2004)

Ademais, a regra em comento vincula a manifestao do

magistrado no apenas ao pedido deduzido, mas tambm causa petendi,

como muito bem assentou o Superior Tribunal de Justia:

PROCESSO CIVIL. PRINCPIO DA ADSTRIO. OBSERVNCIA. PRESCRIO. APLICAO DO PRAZO REDUZIDO DO CDC. FATO OCORRIDO ANTES DE SUA VIGNCIA. IMPOSSIBILIDADE.

1. necessria a observncia do princpio da adstrio, que vincula o juiz, ao julgar a causa, no apenas ao pedido formulado pela parte, mas tambm respectiva causa de pedir. Contudo, se uma deciso se sustenta por duplo fundamento, sendo o fundamento subsidirio conforme causa de pedir da petio inicial, no h violao a esse princpio jurdico.

8 RODRIGUES, Marcelo Abelha. Elementos de direito processual civil. V.2. 2 ed. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2003, p. 426-427.

2. O CDC no aplicvel a eventos ocorridos anteriormente sua promulgao, de modo que no possvel defender a aplicao do prazo prescricional de cinco anos reparao de leses pretritas, salvo em hipteses excepcionais. Precedentes.

3. Recurso especial improvido.

(Recurso Especial 1249484/MS, rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJ de 21.5.2012)

RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. ARTS. 128 E 460, DO CPC. PRINCPIOS PROCESSUAIS DA ADSTRIO E DA CONGRUNCIA (OU DA CORRELAO). INOBSERVNCIA. SENTENA EM DESACORDO COM O PEDIDO. TRANSMUTAO DA CAUSA DE PEDIR PELOS RGOS JUDICANTES. IMPOSSIBILIDADE. JULGAMENTO EXTRA PETITA.

- H violao aos arts. 128 e 460, do CPC se a causa julgada (tanto na sentena como no acrdo recorrido) com fundamento em fatos no suscitados pelo autor ou, ainda, se o contedo do provimento dado na sentena de natureza diversa do pedido formulado na inicial.

Recurso especial conhecido e provido.

(Recurso Especial 746.622/PB, rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, DJE de 23.10.2006)

Nessa linha de entendimento, por mais graves e relevantes que

sejam os fatos desvelados no processamento do feito, eles s podem ser

considerados no julgamento final da ao se tiverem a mnima correlao com

o pedido e com a causa de pedir declinados pela parte por oportunidade da

provocao da Justia Eleitoral.

No bastasse isso, h outro preceito que refora a

impossibilidade de se considerarem os fatos atinentes ao suposto recebimento

de recursos por meio de Caixa 2, de compra de apoio poltico e de supostos

pagamentos por meio de contas no exterior: a regra da estabilizao objetiva da demanda, segundo a qual a alterao do pedido ou da causa de pedir em nenhuma hiptese ser permitida aps o saneamento do processo.

Com cedio, a doutrina mais abalizada conceitua o

saneamento do processo, atualmente previsto no art. 357 do Cdigo de

Processo Civil como o momento em que o juiz corrige ou determina a correo

de eventuais vcios existentes no feito, delimita o objeto litigioso da causa,

distribui o nus da prova, resolve sobre eventual pedido de prova pericial e

designa audincia de instruo e julgamento.

Trata-se, na verdade, do direcionamento do processo, a partir

dos elementos colhidos na fase postulatria, com o fito de racionalizar e

organizar os acontecimentos processuais futuros que influiro no debate em

contraditrio e, consectariamente, na construo do provimento jurisdicional.

Para Eduardo Talamini, o saneamento destina-se a propiciar

eficincia atuao jurisdicional e consequentemente economia processual

(durao razovel do processo). Mas tambm se presta a assegurar

previsibilidade (segurana jurdica) e a tornar mais qualificado o debate entre

as partes e o juiz (contraditrio), ampliando-se as chances de uma soluo

justa e eficaz9.

A estabilidade objetiva da demanda considerada por parte da

doutrina como essencial observncia do devido processo legal, da ampla

defesa e do contraditrio, bem como s garantias da razovel durao do

processo e da no surpresa. Nessa linha, cito Rui Portanova:

A preocupao do princpio da substanciao em evitar a mutatio libelli no sem razo. Vale lembrar que a causa de pedir e o pedido vo interessar no s na adequada formao do processo em geral e do contraditrio em especial. Visa, ainda, a segurar a instruo probatria e evitar surpresas sentenciais10.

Para Cndido Rangel Dinamarco, essa limitao um reflexo

da rigidez do procedimento no processo civil brasileiro, o qual se desenvolve

em fases razoavelmente bem delineadas e no comporta os retrocessos que seriam inevitveis caso novos fatos, novos pedidos e novos sujeitos pudessem a qualquer tempo ser inseridos no processo pendente. No sendo possvel retroceder para citar outra vez o ru pelos sucessivos aditamentos e para permitir novos atos de defesa complementar, seria ilegtimo permitir essas alteraes depois da citao, porque

9 TALAMINI, Eduardo. Saneamento e organizao do processo no CPC/15. Migalhas, mar./2016. Disponvel em: < http://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI235256,11049-Saneamento+e+organizacao+do+processo+no+CPC15>. Acesso em: 2 junho. 2017. 10 PORTANOVA, Rui. Princpios do processo civil. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1997, p. 135.

prejudicariam sensivelmente a efetividade das garantias constitucionais do contraditrio e da ampla defesa11 (grifos nossos).

Na mesma linha, destaco as palavras de Luiz Guilherme

Marinoni e Srgio Cruz Arenhardt:

[...] efetivada a citao vlida do ru, no mais lcito ao autor modificar o pedido ou a causa de pedir de sua ao sem o consentimento do ru (artigo 264, do Cdigo de processo Civil), o que, de toda sorte, somente poder ocorrer at o saneamento do feito. A isso se chama "estabilidade da demanda", sendo a citao o elemento responsvel por esse evento processual, a partir do qual a relao torna-se inaltervel (excetuados casos particulares), seja no plano objetivo (em relao res in iudicium deducta), seja no campo subjetivo (quanto aos sujeitos envolvidos na relao processual). Vale ressaltar que tal estabilidade decorre naturalmente de outro efeito da citao vlida, que a triangularizao da relao processual. Com efeito, a citao a responsvel por essa triangularizao, fazendo com que a relao processual passe a ser composta de trs plos principais (autor, ru e juiz)12.

Posio similar j foi preconizada pelo Ministro Arnaldo

Esteves Lima, que rejeitou a possibilidade de o poder Judicirio se manifestar a

respeito de questo no deduzida na inicial e sobre a qual no se aventou

aditamento13.

Em resumo, o objetivo da estabilidade da demanda evitar as

modificaes no objeto do feito, de modo a preservar a prpria ideia do

processo como uma marcha para frente, voltada resoluo do litgio e

correta aplicao da lei.

Com base nessas premissas tericas, pode-se afirmar, com

segurana, que, no processo civil ramo no qual se insere o processo eleitoral

, o pedido ou a causa de pedir no podem ser objeto de alterao aps a citao do ru e, muito menos, aps o saneamento do processo.

E no poderia ser diferente.

11 DINAMARCO, Cndido Rangel. Instituies de direito processual civil. So Paulo: Malheiros, v. II., p. 67. 12 MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sergio Cruz. Manual do processo de conhecimento. 3. ed., rev., atual, e ampl. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2004.p. 130. 13 REsp 578.085/SP, Rel. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 28/09/2010, DJe 13/10/2010.

Afinal, se a regra da estabilizao objetiva da demanda se

aplica ao processo civil individual em que se discute, em regra, interesses

disponveis e com repercusso restrita , com muito mais razo ela h de se

aplicar ao processo eleitoral, no qual esto em jogo interesses difusos, de

interesse de toda a comunidade poltica14.

Desse modo, aps a citao dos representados com a

triangularizao da relao processual e o saneamento do processo pela ento

relatora, Ministra Maria Thereza de Assis Moura (fls. 2.047-2.056), os representantes no podiam mais pleitear a alterao do objeto da causa,

14 Nesse sentido:

Com efeito, a democracia um dos valores estruturantes do Estado brasileiro. A democracia representativa a forma tpica de o povo exercer o seu poder por intermdio de representantes eleitos pelo voto popular. Por isso, todas as vezes que se prope uma demanda eleitoral, o que est em jogo, o alvo da proteo, a democracia popular. A tutela da liberdade do voto, da igualdade dos candidatos, a normalidade das eleies, a transparncia da campanha, a tica e a moralidade do pleito e etc. tm, sempre, como alvo a tutela da democracia popular. As regras que envolvem o sufrgio, o exerccio da democracia direta, tais como o plebiscito e o referendo, o pluralismo poltico, a fidelidade partidria, a capacidade eleitoral ativa e passiva, etc., e que esto previstas no Texto Constitucional e em leis extravagantes, so de interesse direto de toda a coletividade, e no apenas daqueles que estejam envolvidos no pleito eleitoral. A proteo preventiva e corretiva da ordem democrtica brasileira interesse do Estado e da sociedade, e jamais um interesse prprio ou exclusivo ou privado de qualquer pessoa. Os atores ou partcipes do sufrgio popular, por exemplo, no agem per si ou para si, mas em prol de uma democracia representativa, que o modelo pelo Estado brasileiro. Ainda que o objeto em discusso seja, por exemplo, uma "impugnao de registro de candidatura", o que se pretende com uma demanda eleitoral a proteo da prpria democracia. [...] Por isso que todas as demandas so de natureza coletiva. So propostas por entes coletivos e, regra geral, em legitimao concorrente e disjuntiva (partidos polticos, coligaes e Ministrio Pblico, e o candidato, que atua como portador ideolgico da sociedade). Ademais, todas as demandas tutelam um interesse supraindividual e, de forma mediata ou imediata, o sufrgio popular (proteger a liberdade de escolha do eleitor, a isonomia, a normalidade e legitimidade do pleito eleitoral, a probidade administrativa). Em suma, so coletivas porque os legitimados so coletivos e o objeto tutelado igualmente coletivo (difuso). (JORGE, Flvio Cheim. A ao eleitoral como tutela dos direitos coletivos e a aplicao subsidiria do microssistema processual coletivo e do Cdigo de Processo Civil. In: TAVARES, Andr Ramos; AGRA, Walber de Moura; PEREIRA, Luiz Fernando Pereira [Coord.]. O direito eleitoral e o Novo Cdigo de Processo Civil. Belo Horizonte: Frum, 2016, p. 79).

proibio que, por bvio, se estende ao magistrado e ao Ministrio Pblico Eleitoral.

Alis, importa registrar que o Parquet, conquanto encarregado

da defesa da ordem jurdica, do regime democrtico e dos interesses sociais e

individuais indisponveis, no manejou nenhuma ao impugnativa dos mandatos dos representados, ainda que fosse colegitimado para tanto, o que sugere, em princpio, que a referida instituio no considerava os fatos

ocorridos na campanha como graves o suficientes para ensejar a cassao do

registro, diploma ou mandato dos candidatos declarados eleitos nas eleies

de 2014.

bem verdade que o prprio Cdigo de Processo Civil prev a

possibilidade de se considerarem fatos supervenientes no julgamento da

causa, at mesmo em sede recursal (a exemplo do art. 933). Da mesma

forma, o art. 23 da Lei Complementar prev que o Tribunal formar sua

convico pela livre apreciao dos fatos pblicos e notrios, dos indcios e

presunes e prova produzida, atentando para circunstncias ou fatos, ainda

que no indicados ou alegados pelas partes, mas que preservem o interesse

pblico de lisura eleitoral.

No que tange a esse ltimo preceito, importante consignar que,

embora o Supremo Tribunal Federal tenha assentado a constitucionalidade do

dos arts. 7 e 23 da Lei Complementar 64/90 15 , f-lo com a fixao de

importantes balizas como a que constou no voto do eminente relator, Ministro

Marco Aurlio, in verbis:

claro que se recomendam temperamentos na aplicao da regra. A atenuao do princpio dispositivo no direito processual moderno no serve a tornar o magistrado o protagonista da instruo processual. A iniciativa probatria estatal, se levada a extremos, cria, inegavelmente, fatores propcios parcialidade, pois transforma o

15 PROCESSO ELEITORAL ARTIGO 23 DA LEI COMPLEMENTAR N 64/90 JUIZ ATUAO. Surgem constitucionais as previses, contidas nos artigos 7, pargrafo nico, e 23 da Lei Complementar n 64/90, sobre a atuao do juiz no que autorizado a formar convico atendendo a fatos e circunstncias constantes do processo, ainda que no arguidos pelas partes, e a considerar fatos pblicos e notrios, indcios e presunes, mesmo que no indicados ou alegados pelos envolvidos no conflito de interesses. (ADI 1.082/DF, rel. Min. Marco Aurlio, Tribunal Pleno, julgado em 22.5.2014.).

juiz em assistente de um litigante em detrimento do outro. As partes continuam a ter a funo precpua de propor os elementos indispensveis instruo do processo, mesmo porque no se extinguem as normas atinentes isonomia e ao nus da prova.

Igualmente importante a distino constante do voto do Min.

Luiz Fux, que asseverou:

Senhor Presidente, num primeiro momento, eu confesso que fiquei com severas dvidas, porque o art. 7 dessa Lei Complementar n 64 permite que o juiz do tribunal forme sua livre convico, atendendo aos fatos e s circunstncias constantes dos autos, ainda que no alegados pelas partes. Na verdade, aqui no uma indicao de uma causa petendi diversa, porque ns sabemos que a regra a de que o juiz no pode proferir uma deciso fora do pedido ou da causa petendi; so fatos relativos ao pedido e a causa petendi que o juiz pode conhecer. A eficcia preclusiva da coisa julgada torna indiferente que fatos relevantes no tenham sido arguidos, tanto que a descoberta de fatos ulteriores, que poderiam ter sido arguidos, no tm o condo de desfazer o julgado. Ento, isso j d um certo colorido de jurisdicidade a essa questo de que o juiz conheceu de fatos que as partes no alegaram, e que no podem alegar depois. Sucede que o Ministro Marco Aurlio trouxe um dado relevantssimo no seu voto, afirmando que, no processo eleitoral, esto em jogo interesse indisponveis, que so matrias cognoscveis de ofcio. Ento, aquilo que o juiz pode conhecer de ofcio independe de alegao da parte. Portanto, no h, realmente, uma violao do princpio do contraditrio, porque evidentemente, num primeiro momento, se so fatos que no foram alegados, e o juiz leve em considerao, e ningum falou nada sobre esses fatos e nem provou nada, a afronta ao princpio do devido processo legal e ao contraditrio clarssimo. Mas aqui, no; aqui so interesses indisponveis que permitem ao juiz conhec-los de ofcio, o que significa dizer: independentemente de provocao da parte. [Grifo nosso].

Assim, no termos da interpretao constitucional dada pela

Suprema Corte, o art. 23 da Lei Complementar 64/90, embora autorize que o

magistrado se pronuncie acerca das matrias cognoscveis de ofcio inclusive

as de cunho probatrio , no viabiliza que a atuao do juiz seja inovadora em

relao causa de pedir. de se dizer: esse fato no arguido pela parte e

conhecido de ofcio deve ter correlao, mnima que seja, com a causa petendi.

De todo modo, a despeito dessa discusso a respeito do

alcance e da prpria constitucionalidade desse ltimo preceito cuja aplicao

poderia, em tese, ensejar o conhecimento de fatos ex officio pelo juiz sem

arguio das partes , h outro aspecto muito mais relevante, prprio do processo eleitoral, que impede a ampliao objetiva da causa na espcie.

Trata-se da natureza decadencial das aes tpicas de cassao, todas marcadas pela limitao temporal quanto ao seu manejo e,

por bvio, quanto delimitao dos ilcitos que poderiam em tese ser

aventados nas iniciais, os quais dizem necessariamente respeito a certo

processo eleitoral e a ele so contemporneos.

Isso porque, alm da celeridade nsita ao processo eleitoral,

preciso resguardar a segurana jurdica e poltica no exerccio dos mandatos;

essencial conferir o mnimo de estabilidade e legitimidade aos exercentes do

poder poltico, os quais no podem tomar decises importantes que repercutam

nos interesses de inmeros cidados com a espada de Dmocles judicial

sobre as suas cabeas, muito sob o eventual risco de ampliao dessa

ameaa, do aumento do tamanho dessa espada.

Ao se pronunciar sobre os marcos iniciais e finais da Ao de

Investigao Judicial Eleitoral, Jos Jairo Gomes asseverou que igualmente

ensina:

Pode a AIJE ser intentada desde o incio do processo eleitoral (que se d com a realizao das convenes) at a data da diplomao dos eleitos. Esse marco inicial no aleatrio. A ao em apreo tem sempre em mira determinado processo eleitoral, bem como fatos relacionados a candidatos ou pr-candidatos que nele disputaro mandato eletivo. Se procedente o pedido exordial, o resultado ser a declarao do abuso de poder aliada desconstituio do registro ou mandato e/ou decretao da inelegibilidade do candidato beneficiado com a prtica mals. Nesse quadro, intil ser o processo judicial iniciado antes da conveno se o representado no vier a ser escolhido ou mesmo se nem disputar a indicao de seu nome. [...] Ultrapassado o marco final fixado na diplomao , a parte legitimada decai do direito de ingressar com a ao em foco, no mais podendo ajuiz-la. Essa soluo afina-se com o princpio da

segurana jurdica. Visa a impedir a ocorrncia de demandas oportunistas, em pocas j recuadas da data do pleito, bem como obstar que as discusses a respeito dos acontecimentos em torno das eleies fiquem eternamente pendentes, o que carrearia instabilidade ao exerccio dos mandatos16.

Cito, ademais, as lies de Caio Mrio da Silva Pereira acerca

dos prazos decadenciais e do exerccio de direitos:

O fundamento da decadncia no se ter o sujeito utilizado de um poder de ao, dentro dos limites temporais estabelecidos sua utilizao. que direitos trazem, em si, o germe da prpria destruio. So faculdades condicionais ao exerccio dentro de tempo certo, e, ento, o perecimento da relao jurdica causa nsita ao prprio direito que oferece esta alternativa: exerce-se no prazo preestabelecido, ou nunca mais. Quando, pois, o direito subjetivo pode ser exercido sem a predeterminao de um prazo extingue-se por prescrio levantada por quem tenha um interesse contrrio: mas, quando a lei marca um tempo, como condio de exerccio, o vencimento desse limite temporal importa na caducidade ou decadncia do direito17.

E tambm a jurisprudncia do Tribunal Superior Eleitoral tem

assentado a incidncia de marcos preclusivos estritos para o exerccio do

direito de ao, mormente quando envolve a possibilidade cassao de

registro, diploma ou mandato. Nessa linha, cito:

Representao. Conduta vedada. Litisconsrcio passivo necessrio. O agente pblico, tido como responsvel pela prtica da conduta vedada, litisconsorte passivo necessrio em representao proposta contra os eventuais beneficirios.

No requerida a citao de litisconsorte passivo necessrio at a data da diplomao - data final para a propositura de representao por conduta vedada -, deve o processo ser julgado extinto, em virtude da decadncia. Recursos ordinrios do Governador e do Vice-Governador providos e recurso do PSDB julgado prejudicado.

(Recurso Ordinrio n 169677, rel. Min. Arnaldo Versiani, DJE de 29.11.2011)

ELEIES 2008. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO EM MANDADO DE SEGURANA. AO DE INVESTIGAO

16 GOMES, Jos Jairo. Direito Eleitoral. 10. ed. Editora Atlas: So Paulo, 2014, p. 545. 17 PEREIRA. Cio Mrio da Silva. Instituies de direito civil. Atualizao Maria Celina Bodin de Moraes. 21. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2006. p. 689-690.

JUDICIAL ELEITORAL. PRAZO. PROPOSITURA. DIPLOMAO. DESPROVIMENTO.

1. De acordo com a jurisprudncia deste Tribunal Superior Eleitoral, as aes de investigao judicial eleitoral (AIJE) fundamentadas em abuso de poder e condutas vedadas a agentes pblicos podem ser propostas at a data da diplomao (RO 1.453, Rel. Min. Felix Fischer, DJe de 5.4.2010.

2. Esse entendimento j era pacfico durante as Eleies 2008 e, com a incluso do 12 ao art. 73 da Lei n 9.504/1997 (redao dada pela Lei n 12.034/2009), no se confirma a suposta violao ao princpio da anterioridade da Lei Eleitoral (art. 16, da Constituio Federal de 1988).

3. Agravo regimental no provido.

(Recurso em Mandado de Segurana n 5390, rel. Min. Joo Otvio de Noronha, DJE de 29.5.2014)

RECURSO ESPECIAL. AO DE IMPUGNAO DE MANDATO ELETIVO. LITISCONSRCIO. DECADNCIA. HIPTESE.

Se os vcios arrolados como fundamentos de fato da ao de impugnao de mandado eletivo contaminam os votos atribudos chapa, dever a ao, dirigida contra ambos os mandatos, estar ajuizada no prazo decadencial de quinze dias.

Precedentes.

Recurso especial no conhecido

(Recurso Especial n 15658, rel. Min. Maurcio Corra, DJ de 25.8.2000)

Assim, se o prazo para o ajuizamento das aes decadencial,

se no se admite a integrao da lide por litisconsorte passivo necessrio aps

esse prazo, se no se cogita da instaurao de ao eleitoral ex officio, no se

pode igualmente admitir que, uma vez o processo instaurado, o magistrado

possa considerar fatos supervenientes alheios queles narrados na petio

inicial.

No caso, como j asseverado, por mais graves que sejam o

alegado recebimento de recursos no contabilizados, a suposta compra de

apoio poltico de partidos e o narrado gasto ilcito de recursos por meio de

contas bancrias no exterior, no podem eles ser considerados no presente julgamento, porquanto surgiram nos autos sem a provocao da parte (regra

da coerncia), aps o saneamento do feito (regra da estabilizao objetiva) e

sobretudo, muito aps o decurso dos prazos decadenciais das aes ora em apreo.

Repita-se: por mais graves que sejam esses supostos ilcitos

os quais, reitero, devem ser amplamente apurados nas searas prprias , eles

no integram o contencioso judicial eleitoral referente as eleies de 2014, pois

no constaram das vias impugnativas ento manejadas. Afinal, a eleio

precisa acabar um dia.

Nesse contexto, extremamente lamentvel que, por

vicissitudes alheias brilhante atuao dos ilustres relatores dos presentes

feitos, esta Corte esteja a julgar, com todas as implicaes institucionais da

decorrentes, a legitimidade e a normalidade de eleies ocorridas h trs anos.

evidente, sobretudo nessa quadra que nos encontramos, que

a sociedade, a Justia Eleitoral e o prprio meio poltico ficam atnitos com a

quantidade e a gravidade dos ilcitos que tm sido desvelados (quase que)

diariamente, seja no mbito da cognomidada Operao Lava Jato, seja em

outras vertentes investigativas.

Pergunta-se: o que poderia vir tona daqui a alguns meses ou

mesmo at o fim do mandato? No se sabe. Mas tambm no se pode viver

refm dessa expectativa.

Por mais vergonhosas que sejam essas prticas, falece

competncia a esta Corte para apreci-las, tendo em vista que no houve provocao para tanto pelas partes interessadas. Em outros termos, a eleio precisa ter um termo, os processos eleitorais precisam ser julgados em

carter definitivo; e melhor que o sejam mediante um julgamento de princpio e no de poltica18.

18 No ponto, vale citar as lies de Streck a respeito do direito fundamental a uma resposta constitucionalmente adequada:

Fundamentalmente e nesse sentido no importa qual o sistema jurdico em discusso , trata-se de superar as teses convencionalistas e pragmatistas a partir da obrigao de os juzes respeitarem a integridade do direito e a aplic-lo coerentemente. Em sntese: a resposta correta (adequada) tem um grau de abrangncia que evita deciso ad hoc. Entenda-se, aqui, a importncia das decises em sede de jurisdio constitucional pelo seu papel de

bem verdade e os meios de comunicao repercutem isso

que h muita expectativa no presente julgamento, anunciado como o divisor

de guas ou o paradigma a partir do qual deve ser avaliada a capacidade

poltica e tica do atual governo. Nesse contexto, natural que parte dos

jurisdicionados espere uma manifestao da Corte mais alinhada a esse

delicado momento poltico ou mesmo atenta a pretenses voluntaristas.

No entanto, as decises do Poder Judicirio devem respeitar a coerncia e a integridade do direito, haurindo da prpria fora normativa Constituio Federal os seus fundamentos, de modo a preservar a autonomia do Direito contra predadores internos e externos, em especial

aqueles ligados moral, economia e poltica.

O Tribunal no pode, sob o pretexto de moralizao da poltica, sacrificar regra fundante do Direito Eleitoral atinente existncia de marcos preclusivos estritos para o manejo de aes eleitorais e para a narrativa de ilcitos ocorridos em determinada campanha, marcos esses que so expresso tangvel do princpio constitucional da segurana jurdica na seara eleitoral.

proporcionar a aplicao em casos similares. Haver coerncia se os mesmos princpios que foram aplicados nas decises forem aplicados para outros casos idnticos; mas, mais do que isso, est assegurada a integridade do direito a partir da fora normativa da Constituio. Tudo isso deve ser compreendido a partir daquilo que venho denominando uma fundamentao da fundamentao, traduzida por uma radical aplicao do art. 93, IX, da Constituio Federal. Por isso que uma deciso mal fundamentada no sanvel por embargos; antes disso, h uma inconstitucionalidade ab ovo, que a torna nula, rrita, nenhuma! A partir do exposto, entendo que possvel afirmar que, do mesmo modo que h o dever fundamental de justificar/motivar as decises, existe tambm o direito fundamental obteno de respostas corretas/adequadas Constituio. H uma relao umbilical entre esse dever fundamental e esse direito fundamental. A complementaridade entre ambos representa uma blindagem contra interpretaes deslegitimadoras e despistadoras do contedo que sustenta o domnio normativo dos textos constitucionais. Trata-se de susbstituir qualquer pretenso solipsista pelas condies histrico-concretas, sempre lembrando, nesse contexto, a questo da tradio , da coerncia e da integridade, para bem poder inserir a problemtica na superao do esquema sujeito-objeto pela hermenutica jurdico-filsofica. [...] (STRECK. Lnio Luiz. Verdade e consenso: Constituio, Hermenutica e teorias discursivas. 4. ed. So Paulo: Saraiva, 2011, p. 618-619.

Em suma, no se pode produzir uma deciso puramente ad

hoc, para se para admitir a teratolgica causa de pedir aberta, apenas porque

essa seria qualificada como uma deciso boa ou desejvel. Afinal, preciso

ter em mente que eleies continuaro a ocorrer e o Tribunal ser fatalmente

demandado a partir de eventual reviso do prprio entendimento, ou seja, por

meio de aes eleitorais temerrias, sem lastro probatrio mnimo, com

natureza exclusivamente prospectiva e ajuizadas apenas (con)turbar o

exerccio do mandato do adversrio poltico.

Enfim, do presente julgamento necessrio reafirmar um

preceito tradicionalmente aceito pela doutrina e jurisprudncia eleitorais: as impugnaes ao mandato devem ser srias, fundadas em alegaes contemporneas campanha eleitoral, lastreadas em contedo probatrio mnimo e, sobretudo, limitadas por marcos preclusivos estritamente postos na legislao eleitoral e na Constituio, inclusive no que tange aos aspectos objetivos e subjetivos da demanda. Pouco importa se est em julgamento o mandato do prefeito de Serra/MG, tida como a menor

cidade do Brasil, ou do Presidente da Repblica, ou mesmo a natureza e a

gravidade dos fatos posteriormente desvelados, pois essa regra do jogo.

Por fim, nem mesmo o julgamento da admissibilidade da AIME,

ocorrido em 6.10.2015, alterou essa premissa, porquanto o exame se deu to

somente a partir do contexto narrado nas iniciais19. Nem se poderia cogitar de

19 ELEIES 2014. AGRAVO REGIMENTAL. AO DE IMPUGNAO DE MANDATO ELETIVO. PRESIDENTE E VICE-PRESIDENTE DA REPBLICA. PRESENA DE SRIOS INDCIOS QUE JUSTIFICAM A INSTRUO DA AO. RECURSO PROVIDO.

1. A ordem constitucional brasileira assegura, de forma expressa, desde a Constituio de 1946 (art. 141, 4), que "a lei no excluir da apreciao do Poder Judicirio leso ou ameaa a direito" (art. 5, inciso XXXV, da CF/1988), sendo certo que, na perspectiva do Direito Eleitoral, a CF/1988 expressa ao afirmar a proteo "normalidade e legitimidade das eleies contra a influncia do poder econmico ou o abuso do exerccio de funo, cargo ou emprego na administrao direta ou indireta" (art. 14, 9).

2. O art. 14, 10, da CF/1988 estabelece que "o mandato eletivo poder ser impugnado ante a Justia Eleitoral no prazo de quinze dias contados da diplomao, instruda a ao com provas de abuso do poder econmico, corrupo ou fraude", sendo o procedimento da ao de impugnao de mandato eletivo o previsto na LC n 64/1990, nos termos da pacfica jurisprudncia do TSE.

3. Abuso do poder econmico. Empresa supostamente contratada para montar palanques na campanha eleitoral. Deciso do Plenrio do Tribunal Superior Eleitoral apontando indcios de irregularidades que podem repercutir na seara penal, na tributria e na eleitoral. Presena evidente de mnimo conjunto probatrio a autorizar a instruo processual. 3.1. No julgamento da Prestao de Contas n 976-13/DF, o TSE ressaltou que a aprovao de contas com ressalvas no confere chancela a possveis ilcitos antecedentes e/ou vinculados s doaes e s despesas eleitorais, tampouco a eventuais ilcitos verificados pelos rgos fiscalizadores no curso de investigaes em andamento ou futuras, pois, na linha da antiga jurisprudncia do TSE, a aprovao de contas de campanha eleitoral no impede o "ajuizamento de ao de investigao judicial que visa demonstrar a prtica de abuso de poder econmico realizado com o dinheiro ali declarado" (REspe n 20.832/RN, rel. Min. Slvio de Figueiredo, deciso de 25.2.2003), muito menos o ajuizamento de ao de impugnao de mandato eletivo quando h indcios de abuso do poder econmico ou de utilizao de recursos margem de fiscalizao pela Justia Eleitoral (REspe n 28.387/GO, rel. Min. Carlos Ayres Britto, julgado em 19.12.2007). 3.2. No bojo do referido processo de prestao de contas, foram verificados e ressaltados indcios de irregularidades que mereciam a devida apurao, como a possvel falsidade ideolgica no contrato social da Focal Confeco e Comunicao Visual, de So Bernardo do Campo - prestou servios campanha na ordem de R$24 milhes, segunda maior prestadora de servio, e o scio-gerente seria, at o ano anterior, motorista contratado pela empresa, havendo srios indcios de que tenha sido admitido no contrato social para ocultar os verdadeiros scios, razo pela qual no se poderia descartar a possibilidade de os servios no haverem sido efetivamente prestados, servindo o contrato como forma de desviar recursos da campanha. 3.3. A referida conduta, na seara eleitoral, qualifica-se, em tese, como caso didtico de gasto ilcito de campanha, espcie do gnero abuso do poder econmico, o que autoriza o ajuizamento da ao de impugnao de mandato eletivo, pois amparada em srios indcios de irregularidades. 3.4. Fatos pblicos e notrios, amplamente noticiados: i) a Grfica VTPB Ltda. recebera vultosa quantia da campanha - algo em torno de R$16 milhes -, sem, aparentemente, possuir condies estruturais para prestar o servio contratado (fornecimento de material impresso de propaganda); ii) Editora Atitude teria sido utilizada para cooptar propina para a agremiao partidria, sendo induvidoso que a referida empresa movimentou R$67,7 milhes entre junho de 2010 e abril de 2015; iii) a Rede Seg Grfica e Editora, cujo presidente seria um motorista, recebeu R$6,15 milhes da campanha sem, contudo, possuir funcionrio registrado. Esses fatos podem demonstrar, aps a dilao probatria, uma correlao ou desdobramento com o referente Empresa Focal, considerada a semelhante metodologia - utilizao de empresas de fachada para recebimento de recursos ilcitos para ou serem utilizados em campanha, ou serem recebidos como propina, o que justifica a regular instruo da AIME.

4. Financiamento de campanha com dinheiro oriundo de corrupo/propina da Petrobras. H suporte probatrio que justifica a instruo processual da ao de impugnao de mandato eletivo quanto ao suposto abuso do poder econmico decorrente do financiamento de campanha com dinheiro oriundo de corrupo/propina. 4.1. No se cuida de transportar para o Tribunal Superior Eleitoral anlise de todos os fatos apurados na operao Laja Jato, pois falece a este Tribunal a competncia originria para processar e julgar ao penal, mesmo envolvendo crimes eleitorais, mas busca-se to somente verificar se, de fato, recursos provenientes de corrupo na Petrobras foram ou no repassados para a campanha presidencial, mormente quando se verifica que diversos depoimentos colhidos na seara criminal revelam que parte do dinheiro era utilizada em campanha eleitoral (Paulo Roberto da Costa, Ricardo Pessoa e Alberto Youssef, entre outros). 4.2. Sem falar: i) as empresas envolvidas na operao Lava Jato doaram importantes valores para os partidos envolvidos no suposto esquema (PT, PMDB e PP) - aproximadamente R$100 milhes nos anos de 2012 e

2013; ii) o delator Pedro Barusco teria dito que o Partido dos Trabalhadores recebeu entre US$150 milhes e US$200 milhes entre 2003 e 2013, dinheiro oriundo de propina. 4.3. As referidas condutas relatadas na inicial e acompanhadas de mnimo suporte probatrio podem sim qualificar-se como abuso do poder econmico, o que justifica a necessria instruo do feito, em busca da verdade dos fatos, respeitando as garantias do contraditrio e da ampla defesa. Negar a instruo da AIME, alm de violar gravemente a proteo judicial efetiva, faz da Justia Eleitoral um rgo meramente cartorrio, ao atestar que, com a aprovao das contas com ressalvas da candidata, nenhum ilcito eleitoral aconteceu antes, durante ou aps o perodo eleitoral, o que tambm no encontra respaldo na slida jurisprudncia do TSE, segundo a qual "ao de impugnao de mandato eletivo e prestao de contas so processos distintos com pedidos diferentes, no sendo possvel a alegao de coisa julgada, uma vez que para a caracterizao de abuso do poder econmico levam-se em conta elementos e requisitos diferentes daqueles observados no julgamento das contas" (RO n 780/SP, rel. Min. Fernando Neves, julgado em 8.6.2014).

5. Abuso do poder econmico por meio de propaganda eleitoral de sindicatos e recebimento de recurso de organizaes no governamentais - transporte de eleitores para comcio em municpio. As decises liminares proferidas pelos ministros auxiliares da propaganda no TSE justificam a instruo da AIME, pois, enquanto nos autos das representaes se buscam a suspenso da conduta e a eventual aplicao de multa, nos autos da ao de impugnao de mandato eletivo almeja-se verificar se a conduta alcanou o patamar de abuso do poder econmico, perquirindo, por exemplo, dimenso, valores gastos, quantidade de material distribudo, entre outros requisitos, o que ser comprovado ou no com a instruo do feito. 5.1. Nos termos do art. 24, inciso VI, da Lei n 9.504/1997, " vedado, a partido e candidato, receber direta ou indiretamente doao em dinheiro ou estimvel em dinheiro, inclusive por meio de publicidade de qualquer espcie, procedente de [...] entidade de classe ou sindical". J o inciso X do referido artigo estabelece ser "vedado, a partido e candidato, receber direta ou indiretamente doao em dinheiro ou estimvel em dinheiro, inclusive por meio de publicidade de qualquer espcie, procedente de [...] organizaes no-governamentais que recebam recursos pblicos". 5.2. Essas condutas, desde que comprovados os requisitos no curso da instruo processual, podem configurar abuso do poder econmico, nos termos da jurisprudncia do TSE.

6. Abuso do poder poltico (desvio de finalidade na convocao de rdio e televiso; manipulao na divulgao de indicadores socioeconmicos - Ipea; uso indevido de prdios e equipamentos pblicos para a realizao de atos de campanha; e veiculao de publicidade institucional em perodo vedado - Petrobras, Banco do Brasil e Portal Brasil). Negar a instruo deste processo assemelha-se situao em que a parte pleiteia a produo de prova, vindo o magistrado a indeferir o pedido e, posteriormente, julg-lo improcedente justamente por ausncia de provas, o que no se coaduna com o devido processo legal. Para o Ministro Seplveda Pertence, o art. 22 da LC n 64/1990, aplicvel ao de impugnao de mandato eletivo, "no exige prova incontestvel para que seja proposta a investigao judicial eleitoral, mas apenas indcios que sero apurados no decorrer da instruo. Assim, o julgamento antecipado da lide, no caso, impossibilitou a apurao dos fatos alegadamente ocorridos, o que afronta o princpio do devido processo legal" (REspe n 19.419/PB, julgado em 16.10.2001). 6.1. No curso da instruo processual, verificar-se- eventual contedo econmico da publicidade institucional veiculada pela Petrobras, pelo Banco do Brasil e pelo Portal Brasil, bem como do suposto uso de prdios e equipamentos pblicos para a realizao de atos de campanha (os custos, o alcance, entre outros meios), pois, como de conhecimento, o abuso do poder poltico com conotao econmica autoriza o manejo da ao de impugnao de mandato eletivo, conforme pacificada jurisprudncia do Tribunal Superior Eleitoral, sendo certo

outro cenrio, pois muitos dos fatos recentemente desvelados no eram do

conhecimento das partes.

Extraio, por exemplo, do voto da eminente Maria Thereza de

Assis Moura, relatora originria do feito, o seguinte:

Entendo que no h a espao para que o intrprete possa por mais bem intencionado que seja , incluir outras formas de abuso seja os que hoje se considere possveis, seja os que possam vir a ser considerados. De outro lado, no que refere exigncia de provas mnimas para o ajuizamento da AIME, ainda que os agravantes tenham, nas razes de agravo, repetido o rol dos fatos imputados aos requeridos, entendo no lograram xito em afastar os seguintes fundamentos da deciso agravada, que ora repito:

que o magistrado "proceder a todas as diligncias que determinar, ex officio ou a requerimento das partes" (art. 22, inciso VI, da LC n 64/1990). 6.2. Possvel qualificao dos referidos fatos como corrupo. No parece defensvel a tese jurdica de que um ilcito eleitoral que tambm se qualifica como improbidade administrativa no se enquadra no conceito de corrupo eleitoral do art. 14, 10, da CF/1988, sob pena de se esvaziar o contedo jurdico da referida norma de proteo da normalidade e legitimidade do pleito (Leading case o REspe n 28.040/BA, rel. Min. Ayres Britto, julgado em 22.4.2008). 6.3. O fato referente ao Ipea - suposta manipulao na divulgao de indicadores socioeconmicos -, desde que compravado, seja por prova testemunhal, seja por prova documental, tambm pode, em tese, qualificar-se como fraude, causa de pedir da AIME, entendida assim como "qualquer artifcio ou ardil que induza o eleitor a erro, com possibilidade de influenciar sua vontade no momento do voto, favorecendo candidato ou prejudicando seu adversrio" (Ag n 4.661/SP, rel. Min. Fernando Neves, julgado em 15.6.2004).

7. Considerados todos os fatos articulados na inicial, o conjunto probatrio constante dos autos, inclusive com decises do Tribunal Superior Eleitoral que reconheceram ilcitos eleitorais e indcios de irregularidades no bojo da prestao de contas da campanha dos investigados, e os fatos amplamente noticiados, h srios indcios que justificam a regular instruo da ao de impugnao de mandato eletivo, mormente quando se sabe que, no julgamento de mrito da ao, o Tribunal formar sua convico no apenas no arcabouo probatrio dos autos, mas tambm "pela livre apreciao dos fatos pblicos e notrios, dos indcios e presunes [...], atentando para circunstncias ou fatos, ainda que no indicados ou alegados pelas partes, mas que preservem o interesse pblico de lisura eleitoral" (art. 23 da LC n 64/1990), sendo certo que, "para a configurao do ato abusivo, no ser considerada a potencialidade de o fato alterar o resultado da eleio, mas apenas a gravidade das circunstncias que o caracterizam" (art. 22, inciso XVI, da LC n 64/1990).

8. Agravo regimental provido.

(Ao de Impugnao de Mandato Eletivo n 761, Acrdo, Relator(a) Min. Maria Thereza Rocha De Assis Moura, Publicao: DJE - Dirio de justia eletrnico, Data 04/12/2015, Pgina 136/137)

Destes excertos extraio elementos que demonstram, de forma evidente, o elevado grau de subjetivismo na apresentao, pelos autores, de hipteses em forma de prolepse, a demonstrar a enorme distncia existente entre os fatos de que dispem e a descrio que deles fazem, na tentativa de justificar serem suficientes para atender os requisitos exigidos pelo 10 do art. 14 da CF para a propositura da AIME. Todavia, e em anlise criteriosa do cabimento da presente ao, como justificado no incio desta deciso, entendo que a inicial apresenta uma srie de ilaes sobre diversos fatos pinados de campanha eleitoral realizada num pas de dimenses continentais, sobre os quais no possvel vislumbrar a objetividade necessria a atender o referido dispositivo constitucional. (...) De outra sorte, em que pese a prova documental juntada com a inicial, o largo requerimento de provas a serem produzidas, notadamente a oitiva de testemunhas que esto sendo investigadas em processo embrionrio decorrente da denominada Operao Lava-Jato que investiga a Petrobras , demonstram que o real interesse dos autores ora desprovidos de prova apta ao ajuizamento da presente , deslocar para esta Corte Especializada a investigao, de forma paralela, de fatos complexos, o que no se coadunaria, de forma alguma, com a celeridade exigida na ao de impugnao de mandato eletivo. Exatamente por este motivo que, na interpretao do disposto no art. 14, 10 da CF, esta e. Corte tem entendido pela necessidade da apresentao da AIME com provas hbeis e fortes. (...) O que se verifica, portanto, pela leitura da inicial, que, os autores apresentam de forma genrica supostos fatos ensejadores de abuso de poder econmico e fraude, e, lado outro, no apresentam o incio de prova que pudesse justificar o prosseguimento de ao to cara manuteno da harmonia do sistema democrtico. Os agravantes repetem os argumentos j apreciados pela deciso agravada, sem que lhes sejam acrescentados fatos novos. A jurisprudncia desta e. Corte coletada na deciso agravada demonstra a necessidade de conjunto probatrio mnimo para o recebimento da AIME. Repito apenas trecho da deciso agravada a afastar esta alegao: Exatamente por este motivo que, na interpretao do disposto no art. 14, 10 da CF, esta e. Corte tem entendido pela necessidade da apresentao da AIME com provas hbeis e fortes: (...) Ao de impugnao de mandato eletivo. Governador. Fundamento. Fraude. Urna eletrnica. Provas e indcios. Ausncia. Embora no se exija prova inconcussa e incontroversa para a propositura de ao de impugnao de mandato eletivo,

necessrio, conforme estabelece o art. 14, 10, da Constituio Federal, que a AIME seja instruda com provas hbeis a ensejar a demanda. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgR-AI 5473, Rel. CARLOS EDUARDO CAPUTO BASTOS, julgado em 20/06/2006, DJ Dirio de Justia, Data 28/08/2006, Pgina 103, sem grifos no original) Do voto do Ministro CAPUTO BASTOS, relator deste julgado, extraio os seguintes trechos (grifei): (...) Inicialmente, anoto que a negativa de seguimento do agravo de instrumento se deu com o fundamento de que (...) a mera especulao no d ensejo Ao de Impugnao de Mandato Eletivo (fl. 544), tendo sido mencionada jurisprudncia desta Corte sobre o assunto. A esse respeito, j se assentou, quanto AIME, que (...) h de ser instruda com provas ou indcios idneos e suficientes, e no meras alegaes. (Agravo de Instrumento n 11.520, rel. Min. Torquato Jardim, de 26.8.93). No mesmo sentido: A inicial da ao de impugnao de mandato eletivo deve conter os elementos de convico que permitam revelar, de imediato, que a pretenso deduzida est apoiada em situao ftica que ser apurada no curso do procedimento. (Recurso Ordinrio n 11.640, rei. Min. Flaquer Scartezzini, de 8.3.94). (...) Estas constataes levam invariavelmente atrao do contido na Smula 182/STJ, conforme o seguinte precedente: AGRAVO REGIMENTAL AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROPAGANDA ELEITORAL. BENS PARTICULARES. ART. 12 DA RES.-TSE n 23.191/2009. REITERAO. RAZES RECURSAIS. SMULA N 182/STJ. 1. A simples remisso a argumentos j analisados na deciso agravada e o reforo de alguns pontos, sem que haja, no agravo regimental, qualquer elemento novo que seja apto a infirm-la, atrai a incidncia do Enunciado n 182 da Smula do STJ. [...] 4. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgR-AI n 3543-56/RJ, Rel. Ministro MARCELO RIBEIRO, DJE 14.3.2011, sem grifos no original) Assim, no trazendo os agravantes elementos suficientes para modificar a deciso agravada, esta se mantm pelos seus prprios fundamentos. Ante o exposto, nego provimento ao agravo regimental. como voto.

O voto condutor, proferido pelo Ministro Gilmar Mendes,

tambm no extrapolou os limites da inicial. Ao contrrio, a anlise de Sua

Excelncia tomou por base exatamente a existncia de um contexto probatrio

mnimo dos fatos alegados na inicial, conforme se v dos excertos abaixo:

Primeiro caso para exame a tal Focal, que foi listado. Como sabem, examinamos isso na prestao de contas, uma empresa de So Bernardo, que tem como scio-controlador um ex-motorista - um ano antes ele era motorista. Esse prodgio que se opera no Brasil, essa ascenso social, Ministro Luiz Fux, que realmente faz com que empregados modestos de uma empresa se tornem seus diretores. Essa empresa a segunda maior receptora de recursos da campanha da Presidente Dilma - R$24 milhes -, para montar palanques. Passo a analisar os fatos articulados na inicial, ressaltando que o voto da relatora ora conclui que determinados fatos no esto respaldados em mnimo conjunto probatrio ora entende que configurariam abuso do poder poltico, que no se inserem como causa de pedir da ao de impugnao de mandato eletivo. 1. CASO FOCAL Quanto aos fatos que configuram, em tese, abuso do poder econmico, saliento que, no caso da empresa Focal, supostamente contratada para montar palanques na campanha eleitoral, h mais que mnimo conjunto probatrio a autorizar a instruo processual, mas deciso do Plenrio do Tribunal Superior Eleitoral apontando indcios de irregularidades, que podem repercutir na seara penal, na tributria e, obviamente, na eleitoral. [...] J na seara penal, pode caracterizar, desde logo, crimes de falsidade ideolgica quanto s notas emitidas pela pessoa jurdica (art. 350 do Cdigo Eleitoral). Se houver envolvimento de pessoas ligadas campanha e sua prestao de contas, pode surgir falsidade ideolgica no tocante prpria prestao de contas (art. 350 do Cdigo Eleitoral); apropriao indbita ou estelionato contra a campanha (arts. 168 e 171 do Cdigo Penal); lavagem de dinheiro (art. 1 da Lei n 9.613/1998) e sonegao fiscal (art. 11 d a Lei n8.137/1990). Ademais, em 27.4.2015, a imprensa noticiou amplamente que a Grfica VTPB Ltda. recebera vultosa quantia da campanha presidencial dos ora investigados - algo em torno de R$16 milhes -, sem, aparentemente, possuir condies estruturais para prestar o servio contratado (fornecimento de material impresso de propaganda), o que refora a necessidade de se instruir este processo, podendo revelar ou no possveis desdobramentos criminosos, com vis eleitoral, como esse, noticiado pela imprensa. J em 22.7.2015, os meios de comunicao social noticiaram que a Editora Atitude, ligada ao Partido dos Trabalhadores, teria sido utilizada para cooptar propina para a agremiao partidria, sento

certo que a referida empresa movimentou R$67,7 milhes entre junho de 2010 e abril de 2015. Em 30.7.2015, a imprensa noticiou que a Rede Seg Grfica e Editora, cujo presidente seria um motorista - interessante como os motoristas so vocacionados para dirigir empresas, certamente este um novo fenmeno deste ciclo de evoluo do Brasil -, recebera R$6,15 milhes da campanha da Presidente Dilma Rousseff, sem, contudo, possuir funcionrio registrado. Ora, esses fatos noticiados pela imprensa podem demonstrar uma correlao com o referente Empresa Focal, considerada a semelhante metodologia - utilizao de empresas de fachada para recebimento de recursos ilcitos para ou serem utilizados em campanha, ou serem recebidos, vamos afirmar isso, talvez como especulao, como propina, recebe-se o dinheiro e retira-se da campanha, vende-se a nota. Mas vejam, h repetio do fenmeno Focal: VTPB, que tem como controlador pessoa com nome tambm bastante curioso, Beckembauer Rivelino. A meu ver, esses fatos todos justificariam a regular instruo deste feito, relembrando novamente que o "Tribunal formar sua convico pela livre apreciao dos fatos pblicos e notrios, dos indcios e presunes e prova produzida, atentando para circunstncias ou fatos, ainda que no indicados ou alegados pelas partes, mas que preservem o interesse pblico de lisura eleitoral" (art. 23 da Lei Complementar n 64/90 - grifos nossos). [...] 2. FINANCIAMENTO DE CAMPANHA COM DINHEIRO ORIUNDO DE CORRUPO/PROPINA DA PETROBRAS Por outro lado, verifico suporte probatrio que justifica a instruo processual da ao de impugnao de mandato eletivo quanto ao suposto abuso do poder econmico decorrente do financiamento de campanha com dinheiro oriundo de corrupo/propina. Data vnia do entendimento da relatora, no se cuida em transportar para o Tribunal Superior Eleitoral anlise de todos os fatos apurados na operao Laja Jato, pois falece a este Tribunal a competncia originria para processar e julgar ao penal, mesmo envolvendo crimes eleitorais. Na verdade, busca-se to somente verificar se, de fato, recursos provenientes de corrupo na Petrobras foram ou no repassados para a campanha presidencial, considerando que o depoimento do diretor da companhia, Paulo Roberto da Costa, pelo menos em uma primeira anlise, revela um vis eleitoral da conduta, pois desnecessrio qualquer esforo jurdico-hermenutico para concluir que recursos doados a partido, provenientes, contudo, de corrupo, so derramados (tambm!) nas disputadas eleitorais, mormente naquela que exige maior aporte financeiro, como a disputa presidencial.

Os nmeros esto estampados a com base nas delaes premiadas. Diz-se que os partidos polticos ou pessoas a eles ligadas fariam jus a um tipo de remunerao que equivaleria a at 3% de cada contrato da Petrobras. No difcil adivinhar que parte desses recursos pode ter vindo para a campanha, e as triangulaes que tm sido reveladas podem indicar propsitos recnditos. Tudo isso precisa ser no mnimo investigado. Some-se a isso a circunstncia de que empresas envolvidas na operao Lava Jato doaram importantes valores para os partidos envolvidos no suposto esquema (PT, PMDB e PP) - algo em torno de R$100 milhes nos anos de 2012 e 2013. E, perdoem-me a obviedade, no tivemos eleio em 2013, mas em 2014 sim! J era um adiantamento da propina? Isso precisa ser ao menos esclarecido, e a Justia Eleitoral no pode ficar indiferente a esse tipo de exame ou liminarmente indeferir um pedido que busca esclarecer - no se trata de cassar mandato, aqui, mas de dizer o que ocorreu, at para o futuro! compromisso que temos com nossos filhos, com as futuras geraes: no permitir mais que esses fatos se repitam. Isto j seria grande contribuio: revelar qual era a contribuio, no processo eleitoral, dessas ms prticas de gesto. Destaque-se ainda que o noticirio dirio refora o suporte probatrio mnimo constante destes autos, pois os delatores no processo da Lava Jato tm confirmado o depoimento de Paulo Roberto da Costa no sentido de que parte do dinheiro ou era utilizada em campanha eleitoral ou para pagamento de propina. De fato, apenas como exemplo, ressalto que os delatores Ricardo Pessoa5 e Alberto Youssef6 confirmaram terem repassado vultosas quantias em dinheiro para o Partido dos Trabalhadores, em depoimentos que, inclusive, podero ser esclarecidos na Justia Eleitoral, caso assim a relatora entenda para chegar-se a uma concluso definitiva sobre o vis eleitoral ou no da conduta. Imaginem, Senhores Ministros, que se possa demonstrar, a partir do depoimento do Senhor Ricardo Pessoa, que os R$7 milhes que sua empresa doou foram claramente fruto de propina, doao eleitoral, portanto, como lavagem de dinheiro. Certamente, Ministra Maria Thereza, Vossa Excelncia, como penalista de escol, daria brilhante contribuio ao Brasil esclarecendo este fenmeno sob o ponto de vista jurdico: lavagem de dinheiro na Justia Eleitoral, corrupo na Petrobras resulta em lavagem de dinheiro na doao. Isso precisa ser esclarecido, com efeito prtico para a histria do pas. E a oportunidade que se tem nesta ao. O delator, agora clebre, Pedro Barusc07 teria dito que o Partido dos Trabalhadores recebeu entre US$150 milhes e US$200 milhes entre 2003 e 2013, dinheiro oriundo de propina, e que, possivelmente, foi utilizado, pelo menos em parte, na campanha presidencial de 2014. Barusco, como sabem, aquele cidado abnegado, que aceitou devolver U$100 milhes resultante de

propina, responsvel por essa medida, agora nova, do sistema monetrio internacional, chamado de um barusco. [....] Ora, a referida conduta relatada na inicial e acompanhada de mnimo suporte probatrio pode sim qualificar-se como abuso do poder econmico, o que, a meu ver, justifica, no mnimo, a necessria instruo do feito, em busca da verdade dos fatos, respeitando as garantias do contraditrio e da ampla defesa. [...] Com efeito, diante de srios indcios de conduta com vis tambm eleitoral, reforados pelo noticirio dirio da imprensa sobre os referidos fatos, entendo, pedindo respeitosa vnia relatora, que negar a instruo deste processo, alm de violar gravemente a proteo judicial efetiva, faz da Justia Eleitoral um rgo meramente cartorrio, ao atestar que, com a aprovao das contas com ressalvas da candidata, nenhum ilcito eleitoral aconteceu antes, durante ou aps o perodo eleitoral, o que tambm no encontra respaldo na jurisprudncia do Tribunal Superior Eleitoral, como j penso ter demonstrado, segundo a qual "ao de impugnao de mandato eletivo e prestao de contas so processos distintos com pedidos diferentes, no sendo possvel a alegao de coisa julgada, uma vez que para a caracterizao de abuso do poder econmico levam-se em conta elementos e requisitos diferentes daqueles observados no julgamento das contas" (RO n 7801SP, rei. Mm. Fernando Neves, julgado em 8.6.2014). [...] 3. ABUSO POR MEIO DE PROPAGANDA ELEITORAL DE SINDICATOS E RECEBIMENTO DE RECURSO DE ORGANIZAES NO GOVERNAMENTAIS Da mesma forma, verifico a possibilidade de instruo do feito em relao ao alegado abuso na veiculao de propaganda eleitoral veiculada por entidades sindicais (Apeoesp e Sinpro-DF), pois representaes formalizadas no TSE para fins de suspender a referida propaganda tiveram os pedidos de liminares deferidos pelo Ministro Herman Benjamin nas Rps nos 1731-37/DF e 1732-22/DF e, em menor extenso, pelo Ministro Tarcisio Vieira de Carvalho Neto, ao analisar a Rp n 1659-50/DF (Sindicato nico dos Trabalhadores em Educao de Minas Gerais). [...] Concluso que tambm se aplica ao fato alusivo ao transporte de eleitores para o comcio na cidade de Petrolina/PE, realizado e noticiado pela Asa Brasil em seu stio na Internet. Com efeito, a conduta, em tese, pode violar o art. 24, inciso X, da Lei n 9.504/1997, segundo o qual " vedado, a partido e candidato, receber direta ou indiretamente doao em dinheiro ou estimvel em dinheiro, inclusive por meio de publicidade de qualquer espcie, procedente de [ ... ] organizaes no-governamentais que recebam

recursos pblicos" (grifos nossos), o que, desde que comprovados os requisitos no curso da instruo processual, pode configurar abuso do poder econmico. Para reforar o argumento, o Ministro Joo Otvio de Noronha, no bojo da AIJE no 1943-581DF, determinou a "requisio da relao de gastos realizados pela Associao Articulao no Semirido Brasileiro (ASA BRASIL) com o transporte e alimentao de agricultores para participar do evento da Sra. Dilma Rousseff nas cidades de Petrolina/PE e Juazeiro/BA". [...] 4. ABUSO: CONVOCAO DE RDIO E TV - IPEA - USO DE BENS PBLICOS EM CAMPANHA Por outro lado, no que diz respeito aos fatos que supostamente caracterizariam abuso do poder poltico (desvio de finalidade na convocao de rdio e televiso; manipulao na divulgao de indicadores socioeconmicos - lpea -; uso indevido de prdios e equipamentos pblicos para a realizao de atos de campanha; e veiculao de publicidade institucional em perodo vedado - Petrobras, Banco do Brasil e Portal Brasil), a relatora, basicamente, concluiu que o abuso do poder poltico no causa de pedir da ao de impugnao de mandato eletivo. Data vnia da relatora, alm de os precedentes citados na deciso no se enquadrarem perfeitamente no caso concreto, verifico que, ao negar a instruo do feito, impossibilitou verificar, por exemplo, eventual contedo econmico da publicidade institucional veiculada pela Petrobras, pelo Banco do Brasil e pelo Portal Brasil, bem como do suposto uso de prdios e equipamentos pblicos para a realizao de atos de campanha, pois, como de conhecimento, o abuso do poder poltico com conotao econmica autoriza o manejo da ao de impugnao de mandato eletivo, conforme pacificada jurisprudncia do Tribunal Superior Eleitoral. Argumento que se refora com o entendimento deste Tribunal de que fica tambm configurado o abuso do poder econmico quando utilizados recursos pblicos para praticar o ilcito eleitoral, concluso que, em uma primeira anlise, no merece nenhum reparo, pois, alm da afronta normalidade e legitimidade do pleito, h grave violao ao princpio da impessoalidade. [...] Com a respeitosa vnia da relatora, entendo que negar a instruo deste processo se assemelha situao em que a parte pleiteia a produo de prova, vindo o magistrado a indeferir o pedido e, posteriormente, julg-lo improcedente justamente por ausncia de provas, o que obviamente no se coaduna com o devido processo legal. Conforme bem demonstrava o Ministro Seplveda Pertence, o art. 22 da LC n 64/1990, aplicvel ao de impugnao de mandato eletivo, o que diz esse clssico professor e ministro: "no exige prova incontestvel para que seia proposta a investigao

judicial eleitoral, mas apenas indcios que sero apurados no decorrer da instruo. FExiair a apresentao de provas cabais, eximir o Tribunal de suas responsabilidades.1 Assim, o julgamento antecipado da lide, no caso, impossibilitou a apurao dos fatos alegadamente ocorridos, o que afronta o princpio do devido processo legal" (REspe n 19.419/PB, julgado em 16.10.2001 grifos nosso), como h no caso concreto. Quanto ao desvio de finalidade na convocao de rdio e televiso e manipulao na divulgao de indicadores socioeconmicos - lpea -, considero precipitada a concluso da relatora, pois, alm de impossibilitar a anlise de eventual contedo econmico das condutas, as teses jurdicas devem ficar para o julgamento de mrito da ao, aps a regular instruo processual, evitando-se qualificaes jurdicas precipitadas, sem respaldo em outras provas que poderiam surgir nos autos, com a ampla dilao probatria, mormente quando se sabe que a relatora "proceder a todas as diligncias que determinar, ex officio ou a requerimento das partes" (art. 22, inciso VI, da LC n 64/1990) e que "o Tribunal formar sua convico pela livre apreciao dos fatos pblicos e notrios, dos indcios e presunes e prova produzida, atentando para circunstncias ou fatos, ainda que no indicados ou alegados pelas partes, mas que preservem o interesse pblico de lisura eleitoral" (art. 23 da LC no 6411990 - grifos nossos). [...] Especificamente em relao ao lpea, vale ressaltar novamente que o Ministro Joo Otvio de Noronha, nos autos da AIJE n 1943-58/DF, decidiu pela "inquirio em juzo, como testemunhas, mediante prvia intimao, ainda que mediante carta precatria de Paulo Roberto Costa, ex-Diretor da Petrobrs [sic], de Alberto Yousseff e de Herton Araujo, servidor pblico do Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada (lpea)" (grifos nossos). Ademais, o fato referente ao lpea - suposta manipulao na divulgao de indicadores socioeconmicos - tambm pode, em tese, qualificar-se como fraude, causa de pedir da AIME, entendida assim como "qualquer artifcio ou ardil que induza o eleitor a erro, com possibilidade de influenciar sua vontade no momento do voto, favorecendo candidato ou prejudicando seu adversrio" (Ag n 4.6611SP, rei. Mm. Fernando Neves, julgado em 15.6.2004 - grifos nossos). Como os senhores viram, Fernando Neves autor multicitado neste voto, embora tenha selecionado a jurisprudncia por acaso, Ministro Henrique Neves da Silva. Portanto, considerados todos os fatos articulados na inicial, o conjunto probatrio constante dos autos, com decises do Tribunal Superior Eleitoral a propsito do tema inclusive - tanto no julgamento das contas quanto nas sucessivas representaes -, que reconheceram ilcitos eleitorais e indcios de irregularidades no bojo da prestao de contas da campanha

dos investigados, e o noticirio dirio que revela uma possvel utilizao de recursos oriundos de corrupo na campanha presidencial, entendo, diferentemente da relatora, que esta ao e impugnao de mandato eletivo deve ser instruda. [...] [Grifo nosso.]

Como se v, o voto condutor no destoou da narrativa da

inicial, mas apenas assentou a existncia de um conjunto probatrio mnimo e

a justificativa para apurao dos fatos submetidos ao juiz. Nesse particular,

observa-se que as referncias ao art. 23 da Lei Complementar 64/90 tiveram

como apangio apenas o contexto probatrio e a possibilidade o magistrado

conhecer de elementos de prova ainda no produzidos nos autos.

Na mesma linha, cito trechos da manifestao do Ministro Joo

Otvio de Noronha, que a todo momento fez referncias s peties iniciais:

A conduta relacionada ao abuso de poder poltico, consideradas as iniciais que se queiram desprezar - desvio da finalidade na convocao da rede nacional de emissoras de rdio e difuso - corrupo, improbidade. Se provada essa conduta, hiptese de improbidade. E isso est na petio inicial. No estou afirmando que houve. [...] O SENHOR MINISTRO JOO OTVIO DE NORONHA: Leio da petio inicial o fato relatado. No mnimo, deve-se dar oportunidade de provar que houve fraude. O desvio da finalidade da convocao da rede nacional no se prova documentalmente, h de se requerer ao Palcio do Planalto, Secretaria de Comunicao que apresentem o nmero de propagandas feitas, toda prova vem de l; igualmente o uso indevido de prdios pblicos para a realizao de ato da prpria campanha. Deve-se dar oportunidade de produzir prova, pois isso no prova documental, prova testemunhal, que s pode ser aferida no processamento da AIME. o caso de configurao de fatos que caracterizam abuso de poder econmico: realizao de gastos em campanha que extrapolem o limite informado, financiamento de campanha mediante doaes oficiais de empreiteiras contratadas pela Petrobras a partir da distribuio de propina. Esse fato notrio, a ponto de vermos a Petrobras receber dinheiro desviado. O que notrio? Que houve desvio. Se se repercutiu ou no nas eleies de 2014, algo que se deve apurar. At h pouco tempo, dizia-se que no. De repente, um dos empreiteiros contratados, em delao premiada "sigilosa" - apesar de todo mundo saber, menos os juzes aqui -, divulgada na mdia, declarou que ele doou, que tudo foi contabilizado, mas que, na realidade, a forma de

doar foi ilegtima, porque ele foi pressionado. Como que que se prova isso? Com instruo. No estou dizendo que ocorreu, mas est se alegando. [...] O SENHOR MINISTRO JOO OTVIO DE NORONHA: Est na petio inicial, que relaciona at a quantidade de empreiteiras. O acesso a esses documentos s com requisio, pois o partido no vai ter. Ento, mostro que de uma srie de fatos impossvel ter prova documental pr-constituda. Somente na instruo da ao que se pode averiguar tudo isso. Levar ao extremo a interpretao de que a fraude deve estar pr-constituda, ao passo que a Constituio dispe que a ao ser instruda com provas do abuso de poder econmico, corrupo ou fraude, por fechar demais as portas de acesso jurisdio. No afirmo que nada disso ocorreu, mas se alegou. E, se se alegou, deve-se possibilitar a prova, porque documentalmente no vejo como atingir.

Na mesma linha, cito trechos da manifestao do Ministro Joo

Otvio de Noronha, que a todo momento fez referncias s peties iniciais:

O SENHOR MINISTRO HENRIQUE NEVES DA SILVA: Senhor Presidente, em relao questo da competncia, a Ministra Luciana Lssio trar o voto-vista. Eu gostaria de votar em relao continuidade da ao, porque tenho elementos que podem, talvez, contribuir para o exame que Vossa Excelncia far. No caso, o que se discute, a meu ver, nica e exclusivamente, se a ao deve continuar ou no. Com a devida vnia eminente relatora e, de certa forma, aos demais ministros, entendo que, neste momento, no h como se dizer se o fato caracteriza ou no fraude, abuso ou corrupo. Por qu? Para que um determinado fato possa ser efetivamente caracterizado, preciso pesquisar e saber como todas as circunstncias se deram, em quais locais e como as pessoas envolvidas agiram. Somente aps conhecer todo esse fato que se poder qualific-lo seja como abuso, seja como fraude, seja como corrupo. E, na ao de impugnao de mandato eletivo, tambm tranquilo e pacfico na nossa jurisprudncia, no basta essa qualificao, necessrio verificar se aquele fato teve a potencialidade de chegar a contaminar o resultado das eleies. Ento, neste momento, a nica anlise que eu fao se a inicial trouxe ou no fatos capazes de permitir o andamento da ao. Nessa linha, os advogados dos autores me entregaram memorial, e eu destaco apenas os ttulos e algumas referncias - nessa parte que eu gostaria de trazer essa informao ao Tribunal - sobre o rito de condutas relacionadas ao abuso de poder poltico, foi apontado o desvio de finalidade da convocao de rede nacional de emissora de rdio e difuso. Foi a primeira questo examinada por esse Tribunal,

na Representao n 163-83, distribuda, em 13.3.2014, Ministra Maria Thereza de Assis Moura. Ento esse fato, pela primeira vez, foi conhecido pela Ministra Maria Thereza em maro de 2014. Posteriormente, item 2. Da manipulao da divulgao de indicadores scio-econmicos: abuso acumulado com perpetrao de fraude. Matria examinada na Representao n 1774-71, distribuda ao Ministro Admar Gonzaga, e posteriormente redistribuda Ministra Luciana Lssio. Uso indevido de prdios e equipamentos pblicos para a realizao de atos prprios da campanha. Representao n 848-90, distribuda ao Ministro Tarcisio Vieira de Carvalho Neto. Veiculao de publicidade institucional em perodo vedado. So cinco fatos que se pem nesse item. Foram tratados na Representao n 326-63, distribuda ao Ministro Tarcisio Vieira de Carvalho Neto, posteriormente redistribuda ao Ministro Gilmar Mendes. Representao no 778-73, distribuda ao Ministro Admar Gonzaga e redistribuida Ministra Luciana Lssio. Representao n 828-02, distribuda ao Ministro Tarcisio Vieira de Carvalho Neto. Representao n 817-70, distribuda Ministra Maria Thereza, e posteriormente ao Ministro Herman Benjamin. Representao n 1770-34, distribuda ao Ministro Herman Benjamin, e posteriormente redistribuda ao Ministro Luiz Fux. Traz tambm fatos configuradores de abuso de poder econmico, a acusao de que haveria realizao de gastos de campanha em valor que extrapola o limite informado - matria que foi enfrentada ou constaria da Prestao de Contas n 976-1 3, da qual eu era relator originalmente, e foi redistribuida ao Ministro Gilmar Mendes. A minha relatoria decorreu do Registro de Comit Financeiro n 734-54. Financiamento de campanha mediante doaes oficiais de empresas contratadas pela Petrobras como parte da distribuio de propinas. Massiva propaganda eleitoral levada a efeito por meio de recursos geridos por entidades sindicais. Representao n 161-91, Ministro Herman Benjamin. ltem 4. Do abuso de poder econmico: transporte de eleitores por meio de organizao supostamente no governamental, que recebe verba pblica para a participao em comcio na cidade de Petrolina. Uso indevido de meio de comunicao social consistente na utilizao do horrio eleitoral gratuito no rdio e na televiso para veicular deslavadas mentiras. ltem 6. Das despesas irregulares: falta de comprovantes idneos de significativa parcela das despesas efetuadas na campanha dos requeridos. Item 7. Fraude: disseminao de falsas informaes a respeito da existncia de programas sociais. Todos esses fatos, rogando vnia eminente relatora da ao, me parece que foram descritos de forma coerente e lgica na inicial. Se eles caracterizam ou no caracterizam as hipteses da

ao, uma vez que foi apontada a ofensa legislao eleitoral e Constituio da Repblica, e por entender que h sincronismo entre a narrao e o pedido formulado, eu entendo que a ao deve prosseguir.

Enfim, o embate ocorrido entre a maioria e a minoria desta

Corte por ocasio do julgamento de admissibilidade da AIME teve como cerne

apenas a interpretao do alcance do termo instruda a ao com provas de

abuso do poder econmico, corrupo ou fraude (art. 14, 10, in fine, da

Constituio Federal).

Em nenhum momento, o Tribunal autorizou que a ao

assumisse natureza prospectiva em relao a fatos sem a mnima correlao

com o narrativa das exordiais, a exemplo do alegado recebimento de recursos

no contabilizados, da suposta compra de apoio poltico de partidos e do

narrado gasto ilcito de recursos por meio de contas bancrias no exterior.

preciso frisar: em nenhum momento, o Colegiado deu carta branca para a abertura da causa petendi de modo a se apurarem fatos sem correlao direta ou indireta com a postulao.

Assim, ao contrrio do que se preconiza alhures, o Tribunal, ao

delimitar o objeto sobre o qual deve incidir o julgamento de mrito, no est a rever os fundamentos da deciso que admitiu o processamento da ao, simplesmente porque o pronunciamento daquela assentada no destoou dos termos das peties iniciais.

E ainda que o tivesse feito, esse pronunciamento no vincularia

a manifestao final do Colegiado, pois, como cedio, a matria tratada nas

decises interlocutrias ou no definitivas tais como as que fixam os pontos

controvertidos da demanda no preclui, podendo ser revista por ocasio do

julgamento definitivo da ao20.

Nesse ponto, importante consignar que a Ministra Maria

Thereza, ao se pronunciar em audincia sobre a irresignao do ilustre

advogado, asseverou que seria aferida [a questo atinente alegada ausncia 20 Cito, por todos: AgR-AI 4357-67, rel. Min. Dias Toffoli, DJE de 18.6.2013; AgR-REspe 51730-31, rel. Min. Laurita Vaz, DJE de 13.6.2013.

de correlao da prova com o objeto do processo] da deciso final [...]

certamente aproveitando-se apenas o que servir a um julgamento a se realizar nos estritos limites do pedido.

Por outro lado, no houve nenhum comprometimento do

Colegiado quanto a essa aventada causa de pedir aberta por ocasio da

deliberao na sesso ocorrida em 4 de abril de 2017, na qual o Tribunal

determinou, entre outras providncias, a oitiva de Marcelo Odebrecht, Joo

Santana, Mnica Moura e Guido Mantega.

Afinal, mesmo que se argumente que a iniciativa na produo

da prova tenha decorrido de delaes premiadas nas quais se revelaram fatos

atinentes ao recebimento de recursos de origem no identificada (Caixa 2) e

compra de partidos polticos, no se poderia excluir, de antemo, que as

referidas testemunhas pudessem esclarecer ou complementar fatos narrados

na inicial.

Nessa particular, registre-se que empreiteira Odebrecht foi

apontada nas iniciais como uma das empresas que teriam feito doaes oficiais

como parte de esquema de distribuio de propinas na Petrobras, de modo que

o depoimento do seu mais importante executivo poderia desvelar aspectos

importantes desse fato descrito nas exordiais da AIME 7-61 e das AIJEs 1547-

81 e 1943-58.

Do mesmo modo, considerando que muitos dos recursos de

campanha, sejam eles provenientes de doaes oficiais ou de doaes no

contabilizadas, poderiam de alguma forma influir na atividade dos

marqueteiros, no se poderia descartar a hiptese de que as testemunhas

acima tivessem algum conhecimento dos fatos narrados nas iniciais.

Em outros termos, a deciso plenria acima citada no tratou

expressamente de ampliao de causa de pedir nem, por bvio, tem a aptido

de aprisionar o julgamento final da demanda pelo Colegiado, at porque, como

j ressaltado, se trata de questo de natureza interlocutria.

Por essas razes, com as mais respeitosas vnias de quem

tenha compreenso diversa, entendo que o julgamento da causa deve ficar adstrito exclusivamente s alegaes constantes das exordiais.

Isso no significa, entretanto, que as provas documentais ou

testemunhais que tenham surgido apenas aps o ajuizamento da ao, ou

mesmo na fase final de diligncias, no possam ser consideradas. Afinal,

mesmo que o deferimento das provas tenha tido como pano de fundo o

surgimento de novos fatos, possvel que tais elementos probatrios

esclaream pontos relacionados causa petendi originariamente descrita nas

peties iniciais.

Assim, de acordo com essa compreenso ora exposta, a

anlise manter-se-ia vinculada narrativa da representante, mas poderia ser

considerar outros elementos probatrios, que s vieram ao processo na

chamada fase ps-Odebrecht.

Com esses esclarecimentos, passo ao exame de cada um dos

fatos postos nas iniciais.

Do mrito

Fatos descritos nas iniciais Parte 1

Senhor Presidente,

De incio, passo analise dos fatos alinhavados nas iniciais

dos feitos referentes campanha presidencial de 2014 (Aes de Investigao

Judicial Eleitoral 1547-81 e 1943-58, Representao 846 e da Ao de

Impugnao de Mandato Eletivo 7-61).

A Ministra Maria Thereza de Assis Moura, anterior relatora e na

conduo dos processos, reconheceu, em deciso de 19.4.2016, a grande

similitude entre os fatos tratados nestas aes, acrescida do fato de que as

partes so as mesmas, constando uma tabela (fl. 2.048 da AIJE 1943-58) com

a enumerao dos fatos narrados nas exordiais, com eventual coincidncia das

causas de pedir de alguns deles. Nesse sentido, igualmente ressaltou o Min.

Herman Benjamin, em seu relatrio, o reconhecimento de tal conexo entre os

feitos em anlise, na qual a relatora anterior determinou a tramitao conjunta

dos processos e unificao dos autos de instruo, consignando, ainda, que

todas as demandas formulam pedido idntico ao da presente AIJE mas em

relao causa de pedir ftica, h pouca variao.

Anoto que tanto os autores (fl. 7.688 da AIJE 1943-58), como o

representado Michel Temer (fl. 8.092 da AIJE 1943-58) apresentaram suas

alegaes finais fazendo aluso elogivel tabela apresentada por sua

Excelncia poca do processamento dos feitos e tambm registrada pelo

eminente Ministro Herman Benjamin em seu relatrio inicial apresentado (fls. 5-

6).

Por oportuno, observo que dois dos fatos narrados - consistentes (i) nas despesas irregulares ante a falta de comprovantes idneos de parcela dos gastos de campanha e, ainda, (ii) o recebimento de doaes oficiais de empreiteiras contratadas pela Petrobrs como parte da alegada distribuio de propinas - sero examinados ao final (e no na ordem em que apresentados na citada tabela), dada a maior complexidade deles e diante do conjunto de provas produzidas.

Ao de Investigao Judicial Eleitoral 1547-81

I Uso dos Correios para envio de 4,8 milhes de folders sem chancela/estampa de franqueamento e criao de embaraos para impedir a propaganda eleitoral do adversrio em Minas Gerais.

Quanto a esse fato, narram os autores que houve a entrega de

4.812.878 folders da candidata s eleies Dilma Roussef sem chancela ou

estampa de franqueamento, na modalidade mala direta postal domiciliria

(MDPD), para distribuio nas cidades da grande So Paulo e interior do

estado, em carter excepcional, conforme noticiado no Informe dos Correios,

Edio 167/2014, de 3 de setembro de 2014, anexado aos autos.

Alm dos candidatos investigados, o fato envolve Wagner

Pinheiro de Oliveira, Presidente da Empresa Brasileira de Correios e

Telgrafos, Jos Pedro Amengol Filho, Diretor Regional dos Correios em Minas

Gerais, e a prpria Empresa Brasileira de Correios e Telgrafos.

Defendem que a simples anlise do folder permite concluir que

o material de campanha da candidata a presidente no apresenta informao

de que se trataria de mala direta com referncia s eleies, ao contrrio de

outros candidatos em que os dados foram exigidos para tal espcie de

postagem, o que gerou, inclusive, a perplexidade dos prprios carteiros e

sindicato.

Na espcie, sustentam que tais fatos revelariam o uso da ECT

em prol das campanhas do Partido dos Trabalhadores, com tratamento

privilegiado da candidata reeleio e limitaes impostas ao seu adversrio

na campanha presidencial.

Desde logo, rememoro que parte desses fatos, sob o prisma de

uma representao solicitando direito de resposta, foi analisada por este

Tribunal Superior nos autos da RP 1367-65, de minha relatoria.

A representao, intentada pela Coligao Com a Fora do

Povo e a ora representada, Dilma Vana Roussef, buscava direito de resposta

em razo de reportagem veiculada em 19 de setembro de 2014 na capa do

jornal Estado de So Paulo, com o seguinte ttulo: Correios abrem exceo

para distribuir panfleto de Dilma.

Naquela assentada, o TSE asseverou, por unanimidade, tendo

em vista sobretudo o teor da reportagem a despeito do que seu ttulo, que o

indigitado jornal no violou quaisquer normas do bom jornalismo, pois registrou

os argumentos de todos os lados envolvidos na demanda e esclareceu que a

exceo deferida pela Empresa Brasileira de Correios e Telgrafos,

efetivamente, poderia ser enquadrada como uma modalidade prevista em

norma interna.

Assim, afastada a divulgao de fato que se soubesse

sabidamente inverdico, bem como a observncia do princpio da liberdade de

expresso, negou-se o pedido de direito de resposta.

Feito o registro, analiso o mrito do que trazido no bojo da

presente representao.

Extraio dos autos os fatos tidos por incontroversos: i) houve a

contratao da entrega de 4,8 milhes de folders da campanha de Dilma Vana

Rousseff e de Michel Miguel Elias Temer Lulia pela empresa Correios; ii) esse

material no possua chancela; iii) a entrega dele pelos Correios foi feita de

maneira onerosa; iv) outros candidatos, inclusive de partidos que no

pertenciam a coligao dos representados, tiveram material sem chancela

entregue pelos Correios.

A alegao da representante no sentido de que a

configurao do abuso do poder poltico entrelaado com o econmico se

mostra irrefutvel, atraindo as sanes do art. 1, I, d e h, e do art. 22, XIV,

todos da lei Complementar n 64/90.

Entretanto, dados os elementos constantes dos autos, no h

como reconhecer a existncia dos citados ilcitos.

Destaco, a princpio, que a distribuio dos panfletos pela

campanha dos representados no foi gratuita. No h qualquer elemento nos

autos a sugerir nem sequer que os valores pagos pelos representados foram

inferiores aos cobrados dos demais candidatos.

Pode-se concluir, assim, que no houve qualquer repercusso

financeira negativa aos Correios, tampouco vantagem econmica auferida pela

campanha dos representados.

Tal fato, per se, dificulta a caracterizao do alegado abuso de

poder poltico com reflexos econmicos.

Tambm impressiona o fato de que outros candidatos, at

mesmo fora do espectro da coligao representada, tenham se servido da

possibilidade de entrega de material sem chancela, tida por vantagem ilcita

pelos representantes.

Antes at da citada reportagem, que deu publicidade ao fato,

os representados no eram os nicos a terem obtido esse envio de material de

campanha sem chancela ou selo digital.

Dessa forma, mesmo se reconhecssemos que h indcios de

descumprimento de regramentos internos da ECT, o uso do servio por outros

candidatos enfraquece em muito a alegao de que foi montada uma operao

tendente a beneficiar os representados dentro dos Correios.

A representante lastreia sua concluso em sentido oposto em

virtude das declaraes feitas pelo deputado estadual pelo PT, Durval ngelo,

numa reunio eleitoral com os dirigentes dos Correios em que o parlamentar

afirmou que havia o "dedo forte dos petistas dos correios" e que essa atuao

tinha resultado em "grande contribuio" para o desempenho da chapa

representada em Minas Gerais.

No se indica da fala do parlamentar, nem na descrio do fato

pela representante, conduta concreta de nenhum dos envolvidos em favor do

citado desiderato eleitoral. A representante limita-se ilao entre o envio de

folders sem chancela e essa declarao feita no referido evento.

Cita, tambm, o depoimento de Valdir Antonio Candeu,

funcionrio e representante sindical dos Correios, que em seu depoimento

afirmou:

Nesses folders, que foram distribudos pelos carteiros na minha cidade, no existia essa chancela que caracteriza o vinculo comercial entre contratante e contratado.

Ento, por essa caracterstica e pelas reclamaes de vrios trabalhadores, de serem provocados pela populao, de serem... Ou seja, a populao por no ter conhecimento, achava que aquilo l era uma forma de usar a estrutura pblica para fazer campanha.

Ento, em detrimento disso, nos procuramos a Justia Eleitoral, formalizamos uma denncia, para apurao dos fatos. Obviamente, com o conhecimento que a gente tem, ns no fizemos nenhuma acusao naquela oportunidade.

E o promotor eleitoral acatou a nossa denncia, a nossa representao, para que fosse aberta a apurao dos fatos. Ento, nos entendemos que, naquela oportunidade, o procedimento no foi um procedimento comum a todos os clientes com contrato com os Correios.

Tambm, aqui, no se aponta qualquer ilicitude de nenhum dos

envolvidos, servindo apenas para retratar que, de fato, o procedimento para a

distribuio de folders no foi o ordinrio.

Fica claro nos autos, contudo, que os representados,

mormente a chapa vencedora do pleito de 2014, no concorreram de qualquer

forma para que sua campanha recebesse tratamento diferenciado por parte

dos Correios, ou, ainda, que tenham tentado obter tal benesse por interposta

pessoa.

Em suma, mngua de provas que corroborem com a tese dos

representados que foi engendrado um esquema para a entrega de folders em

favor da chapa vencedora do pleito de 2016, os representantes optam por

acusar a existncia de abuso de poder poltico com vis econmico quanto a

este fato.

Assento, com as devidas vnias daqueles que tenham

entendimento diverso, que no vislumbro dos autos elementos que justifiquem

a subsuno dos fatos ao alegado abuso de poder poltico, conforme consta da

representao.

Na verdade, dos autos extrai-se que os representados Dilma

Vanna Rousseff e Michel Miguel Elias Temer Lulia no tinham conhecimento,

direto ou indireto, de como se deu a contratrao dos Correios para divulgao

do indigitado material de campanha.

dizer, ainda que reconhecida a existncia de abuso de poder

poltico entrelaado com o abuso de poder econmico nos fatos revelados,

segundo a jurisprudncia do TSE sobre o tema, os representados somente

poderiam ser questionados como beneficirios:

RECURSO ESPECIAL ELEITORAL. AO DE INVESTIGAO JUDICIAL ELEITORAL. ABUSO DO PODER ECONMICO. USO INDEVIDO DOS MEIOS DE COMUNICAO SOCIAL.

- Para fins de imposio das sanes previstas no inciso XIV do art. 22 da LC n 64/90, deve ser feita distino entre o autor da conduta abusiva e o mero beneficirio dela. Caso o candidato seja apenas beneficirio da conduta, sem participao direta ou indireta nos fatos, cabe eventualmente somente a cassao do registro ou do diploma, j que ele no contribuiu para a prtica do ato. Precedentes.

Agravo regimental a que se nega provimento. (RESPE - Agravo Regimental em Recurso Especial Eleitoral n 48915 - MARIC RJ, Rel. min. Henrique Neves, DJE de 19.11.2014).

Entretanto, mesmo nessa modalidade, a cassao no se trata

de punio automtica, sendo necessrio que o ato seja relevante e possua

gravidade.

No seria o caso dos autos, principalmente por se tratar de

eleies presidenciais, envolvendo os 26 estados da Federao e o Distrito

Federal.

Destaco, respaldado no art. 36721 do novo Cdigo de Processo

Civil, que na experincia que desenvolvi no acompanhamento de sucessivas

eleies, a distribuio de folders uma das menos eficazes formas de 21 Art. 375. O juiz aplicar as regras de experincia comum subministradas pela observao do que ordinariamente acontece e, ainda, as regras de experincia tcnica, ressalvado, quanto a estas, o exame pericial.

obteno de voto. No mais das vezes, esse tipo de propaganda ignorada pela

populao e tem pouco eficcia em qualquer campanha eleitoral.

dizer, o impacto da distribuio de folders em apenas um

estado da federao que ora analisamos, em um pas de dimenso continental

como o Brasil, nem ao menos em tese tem a gravidade necessria para a

caracterizao do ilcito previsto no art. 22, XIV, da Lei Complementar 64/90.

Anoto, a latere, que a resoluo de propaganda eleitoral para o

pleito de 2014 quedou-se inerte a respeito da forma como deveria ocorrer a

distribuio de material de propaganda na hiptese dos candidatos optassem

por fazer a contratao dos Correios.

Considerando a inexistncia de regulamentao e dado o

debate lanado nestes autos, sugiro que esta Corte, na preparao das

resolues que regero o prximo pleito, elabore estudos a respeito da

(des)necessidade de disciplinar a matria.

II Outdoors e propaganda da candidatura mediante a projeo de imagens na fachada de bens pblicos e particulares acima de 4 m2, em pontos tursticos de intenso fluxo.

De igual modo, tampouco h ineditismo no questionamento da

projeo de imagens na fachada de bens pblicos.

Esses fatos foram alvo da Representao 1442-07, Rel. Min.

Tarcsio Vieira, ocasio em que se questionava a regularidade da projeo de

imagens na fachada de prdios pblicos, luz dos art. 37 e do art. 39, 8,

ambos da Lei 9.504/97, com posterior divulgao de tais atos no stio

www.mudamais.com.

Conforme consta do Sistema de Acompanhamento Processual

da Justia Eleitoral, a Representao 1442-07, na qual se alegava suposta

propaganda eleitoral irregular, veiculada em bem pblico e particular, por meio

de outdoors eletrnicos, foi proposta em 26.9.2014 e teve liminar deferida no

dia seguinte, 27.9.2014. Com o advento do pleito presidencial e a inrcia

averiguada pelos representantes, o relator extinguiu o feito, sem resoluo de

mrito, por meio de deciso individual de 11.11.2014, sucedendo o trnsito em

julgado.

Nestes autos, busca-se, contudo, a glosa de tais projees em

relao ao art. 22, XIV, da Lei Complementar 64/90.

Em suma, renova-se a alegao de que diversas propagandas

eleitorais da candidata a presidente, sempre em tamanho superior a quatro

metros quadrados, foram projetadas nas fachadas de alguns prdios pblicos e

que esses fatos, vistos em conjunto com os demais casos alegados na inicial,

comprometeriam o equilbrio e a igualdade das campanhas. Isso porque, a

conduta foi perpetrada em bens pblicos e teve grande visibilidade, em pontos

tursticos de intenso fluxo e com forte apelo visual.

Cita22 nominalmente seis locais em que teria ocorrido a prtica.

Sustenta, assim, a representante que Esse fato, conjugado

com a utilizao de bens pblicos para propaganda eleitoral, a divulgao

destes ilcitos em site de campanha (www.mudamais.com) e a prtica

reiterada, em si, justificam a caracterizao do abuso.

A pontualidade dos eventos descritos e sua absoluta falta de

gravidade fazem com que esses fatos devam ser sumariamente excludos

como aptos a caracterizar o abuso de poder, em qualquer de suas formas.

Ainda que assim no fosse, de destacar a atuao do

Ministro Tarcsio Vieira no sentido de prontamente interromper o engenho

publicitrio, de forma que no h falar, nem mesmo em tese, de relevncia

dessas condutas nas apuraes ora em andamento.

III Utilizao de ministros na campanha entrevista concedida pelo ministro Mercadante no Palcio do Planalto, em 14.6.2014.

22 Vale do Anhangaba, no centro de So Paulo, na avenida Delfim Moreira, no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, na Praa da Estao, em Belo Horizonte, no Gasmetro e Gigantinho, em Porto Alegre, no centro de Vitria, no Esprito Santo e no Museu Nacional, em Braslia, entre outros

Sobre esse fato, alegou-se que, em 15.6.2014, o ento Ministro

Alosio Mercadante utilizou servidores, estrutura e dependncia da Presidncia

da Repblica com o nico propsito de rebater crticas proferidas por ocasio

da conveno partidria do PSDB realizada no dia anterior (em 14.6.2014), o

que ocorreu em pleno exerccio da funo pblica.

Aduz-se que, no ato oficial de governo, foi adotada temtica

poltico-eleitoral de forma clara e inquestionvel em defesa da representada,

notria candidata reeleio ao cargo de presidente, com manifesto intento de

aprofundar comparaes entre governos, o que configura, inclusive, conduta

vedada do art. 73, I, II, III, da Lei 9.504/97, bem como abuso de poder poltico.

Novamente, trata-se de matria julgada pelo TSE nos autos da

RP 590-80, sob relatoria, por ocasio do julgamento de mrito, da Ministra

Maria Thereza de Assis Moura.

O polo passivo da Representao era formado por Aluzio

Mercadante Oliva e Dilma Vanna Rousseff.

O Tribunal Superior Eleitoral, em julgamento plenrio realizado

no dia 1.8.2014, resolveu, por unanimidade, julgar improcedente a

representao quanto a Dilma Vana Rousseff e, no tocante a Alozio

Mercadante Oliva, por maioria, julgar parcialmente procedente a representao

para mult-lo em R$ 7.500,00 pela infrao ao art. 36, 3, da Lei 9.504/97.

O TSE, naquela oportunidade, expressamente afastou a

existncia de conduta vedada e de abuso de poder. Consta do voto da relatora:

Em relao imputao da prtica de conduta vedada indicada no inciso III do art. 73 da Lei n 9.50411997, da mesma forma no vislumbro violao, pois no houve efetivo uso do servio de servidor pblico para comits de campanha eleitoral de candidato, partido poltico ou coligao, durante o horrio de expediente normal.

A atividade do representado inserida nos atos de suas funes no aponta que tenha ocorrido desvio de poder da autoridade por ilegalidade. Para a configurao do ilcito h de se verificar o elemento objetivo do tipo previsto na norma sob comento - ceder ou usar dos servios de servidor para comits de campanha durante o horrio de expediente normal.

Assim, tendo em mente que a norma eleitoral restritiva h de ser interpretada de modo estrito, no h na conduta do representado qualquer configurao do abuso de poder poltico. E para isso h

de se fazer robusta prova, de cujo nus no se desincumbiu o representante (grifo nosso).

Assim, patente a impossibilidade desta Corte Superior

reanalisar esses fatos, sob pena de possvel violao ao instituto da coisa

julgada.

Ademais, tal qual o fato anterior, sua irrelevncia sequer

permite que venha a ser considerado em uma anlise global dos fatos, tal qual

formulado pela representante.

IV Utilizao de bens, servidores e servios pblicos na campanha em visita da candidata com o ministro da Sade a Unidade Bsica de Sade (UBS) de Jardim Jacy, em Guarulhos/SP, no dia 4.8.2014, que recebera profissionais do Programa Mais Mdicos veiculada na propaganda eleitoral gratuita em 28.8.2014.

Narrou-se que, em 4.8.2014, a r Dilma Roussef visitou uma

Unidade Bsica de Sade em Jacy, Guarulhos, onde recebeu profissionais do

programa de governo Mais Mdicos, tendo sido noticiado pela imprensa que a

viagem foi preparada s pressas e constou em agenda oficial do Palcio do

Planalto.

Aponta-se que tal fato tambm foi objeto da Representao

1198-78, no qual foi por mim deferido pedido de liminar, em deciso individual

de 10.9.2014, que tem o seguinte teor:

Feita a leitura da inicial e uma anlise atenta do trecho do programa impugnado, avisto aparncia de privilgio na utilizao da estrutura da UBS Jardim Jacy e de seus servidores para gravao do programa eleitoral dos trs primeiros Representados.

Assim, na perspectiva de um razovel equilbrio no processo democrtico, que j pende fortemente em benefcio daqueles que dispem do poder almejado, entendo ser apropriada ao caso a aplicao do poder geral de cautela, de modo a impedir a reexibio do trecho veiculado na mdia anexada aos presentes autos, que vai dos 4:27" (quatro minutos e vinte e sete segundos) aos 6:50" (seis minutos e cinquenta segundos), tendo em vista o possvel prejuzo de se aguardar o julgamento definitivo da causa, considerada a vedao inscrita nos incisos I e III do art. 73 da Lei n 9.504/1997.

Contudo, entendo oportuno desde j analisar a utilidade da participao de Csar Yamashita (mdico), de Juan Gusmelie (mdico), de Hilda Suarez (mdica) e de Walter Freitas Jnior (gerente da USB Jardim Jacy) no polo passivo da presente ao.

Anoto, de partida, que a Representante no se ocupou de demonstrar a conduta ou condutas aptas a indicar a possibilidade de incidncia do direito material aos Representados, que justifique necessidade integrao da relao jurdica processual.

de lembrar, nessa linha de raciocnio, que o dispositivo de lei invocado direciona sua aplicao apenas queles que, em tese, tenham se utilizado da estrutura poder pblico em prejuzo para o equilbrio do pleito, ou seja, queles que supostamente atuaram em oposio s clusulas que delimitam o rol das condutas vedadas.

No parece prprio, portanto, permitir a insero injustificada de agentes pblicos no polo passivo dessa espcie de representao como forma de evitar possvel utilizao desse importante instrumento de conteno de abusos, apenas para causar constrangimentos a pessoas que se encontrem em posio de subordinao.

Para os fins propostos pela norma - inserida em nosso ordenamento como advento do instituto da reeleio -, a participao no polo passivo deve se limitar aos agentes pblicos contra os quais se possa traar uma responsabilidade objetiva, ou seja, queles que, por ao ou omisso, contriburam para o evento danoso democracia. Isso, posto, CONCEDO a liminar requerida para determinar aos trs primeiros Representados que se abstenham de veicular, na sua propaganda eleitoral sobre qualquer formato (bloco ou insero), as imagens constantes do trecho da mdia em anexo, compreendido entre os 4:27" (quatro minutos e vinte e sete segundos) e 6:50" (seis minutos e cinquenta segundos).

Anoto que a representao teve curso e foram produzidas

provas, tendo sido, aps o perodo eleitoral, mas o feito ainda no teve seu

mrito analisado.

Novamente, contudo, trata-se de ao limitada cujos efeitos

sequer foram potencializados pela propaganda eleitoral, uma vez que

prontamente suspendi a veiculao das imagens do referido ato.

Tampouco esse fato, com as devidas vnias dos que venham a

discordar, pode vir a ser considerado para um quadro mais amplo de abuso de

poder.

V Utilizao de programa social, reforma de um fogo a lenha e doao de uma prtese dentria a uma eleitoral, beneficiria do Programa gua para Todos, que participou de filmagem para propaganda eleitoral aps pedido do governo federal Prefeitura de Paulo Afonso/BA.

Consta da inicial que, no decorrer da campanha eleitoral, a

ento presidente e candidata a reeleio, Dilma Vanna Rousseff, conciliou

agendas eleitorais e presidenciais numa visita ao serto baiano.

Nessa localidade houve a contratao de uma moradora local

para participar de sua propaganda eleitoral. Ocorre que essa mesma moradora,

na vspera da chegada da representada, foi agraciada com uma prtese

dentria e com a ampliao de seu fogo lenha.

A representante chega a afirmar que os fatos seriam

incontroversos, tendo sido admitido pela prpria representada.

Novamente, neste caso, mesmo se admitssemos que a verso

apresentada pela representante fosse a expresso dos fatos, no h lugar para

o reconhecimento do abuso de poder. Isso porque, assim como na alegao do

envio de folders pelos Correios, no foi produzida nenhuma prova que

indicasse ter a representada concorrido para a ocorrncia do suposto ilcito.

Dessa forma, sua penalizao s ocorreria como beneficiria

da conduta, sendo necessrio, ainda, que o fato possusse relevncia.

O fato, apesar dos contornos caricatos, no tem nenhuma

relevncia no pleito presidencial de 2014, no sendo possvel seu

enquadramento como abuso de poder.

A pontualidade do fato, ainda, desautoriza sua considerao

para o quadro de abuso de poder pretendido pela representante.

VI Veiculao de propaganda eleitoral na pgina da CUT na Internet, com contedo de apoio candidata.

Alega-se a realizao de propaganda eleitoral no stio da

Central nica dos Trabalhadores (CUT), por meio de matrias veiculadas em

31.7.2014 e 1.8.2014, alm da divulgao de fotos do evento Ato em Apoio

Dilma, com fotografias da candidata em pleno perodo eleitoral, o que seria

manifestamente proibido pelos arts. 57-C, 1, I, bem como art. 24, IV e VI, da

Lei 9.504/97, considerada a impossibilidade de realizao de propaganda

eleitoral em stio eletrnico de pessoa jurdica ou mesmo a doao por parte de

entidade de classe ou sindical.

Aponta-se que, nas eleies de 2010, a entidade sindical em

tela foi punida em R$ 15.000, por divulgao de propaganda eleitoral na

internet em situao semelhante, alm de outras representaes em 2006

(Representaes 952 e 953), tambm referentes impugnao de propaganda

eleitoral irregular.

Segundo a prpria representante, a conduta est

exclusivamente ligada entidade sindical CUT.

No entanto, no h elemento que indique terem os

representados agido, direta ou indiretamente, para tal fim.

Considerar esse fato como apto a formar um quadro de abuso

de poder praticado pelos representados, seria o mesmo que reconhecer a

responsabilidade objetiva dos candidatos com relao a quaisquer condutas

praticadas por seus colaboradores, simpatizantes e/ou militantes.

Manifesta a improcedncia deste fato para fins de apurao de

abuso de poder.

VII Propaganda extempornea por meio de propaganda institucional da Caixa Econmica Federal

Noticia-se que esta Corte Superior, igualmente tendo em vista

o uso indevido de propaganda institucional, condenou a Caixa Econmica

Federal, por realizao de propaganda eleitoral em favor da candidata

representada, multa de R$ 25.000,00.

A Representao 143-92, cujo relator para o acrdo foi o

Ministro Gilmar Mendes23, foi julgada procedente em acrdo assim ementado:

ELEIES 2014. PRESIDNCIA DA REPBLICA. REPRESENTAO. PROPAGANDA INSTITUCIONAL. CAIXA ECONMICA FEDERAL. CARACTERIZAO DE PROPAGANDA ELEITORAL ANTECIPADA. VEICULAO DE PROPAGANDA INSTITUCIONAL COM CLARO PROPSITO DE IDENTIFICAR PROGRAMAS DA INSTITUIO COM PROGRAMAS DO GOVERNO. REMESSA DE CPIA DOS AUTOS AO MINISTRIO PBLICO. MULTA NO LIMITE MXIMO.

[...]

2. Caracteriza propaganda eleitoral antecipada vedada pelo art. 36 da Lei n 9.504/1997 e capaz de causar desequilbrio a veiculao de propaganda institucional com claro propsito de identificar programas da instituio, no caso a Caixa Econmica Federal, com programas do governo.

3. Determinao de remessa de cpia dos autos ao Ministrio Pblico para que tome as providncias devidas para o ajuizamento de ao de improbidade administrativa.

4. Condenao pena de multa em seu limite mximo: R$25.000,00 (vinte e cinco mil reais).

5. Recurso provido parcialmente.

Rememoro que nesse caso fiquei vencido, na companhia da

Ministra Luciana Lssio, por entender lcita a propaganda veiculada pela Caixa

Econmica Federal, uma vez que no se fazia meno a candidatura ou ao

pleito que se avizinha, limitando-se a cuidando de promover o programa que

administra, na medida de seu interesse de informar e captar consumidores

para linha de crdito que lhe traz lucro.

23 Originalmente, havia sido designado a mim a relatoria da repersentao.

O Ministro Gilmar Mendes, no que foi seguido pelos demais

membros desta Corte, assentou ser notria a identificao da posio

veiculada no filmete com a posio governamental.

Dessa forma, o Plenrio multou a Caixa Econmica Federal em

R$ 25.000,00, por propaganda eleitoral antecipada.

Nestes autos, busca-se o enquadramento da conduta luz do

abuso de poder.

Na viso da representante, o caso dos autos integra o quadro

utilizao reiterada da mquina pblica, na campanha eleitoral, mesmo antes

do registro de candidatura, com o ntido objetivo de beneficiar os candidatos

ora requeridos.

Entendo, contudo, que a afirmao carece de qualquer

elemento de sustentao.

Isso porque, no foi produzida qualquer prova pela

representante que inclua essa propaganda da Caixa na alegada estratgia de

utilizao reiterada da mquina pblica em favor da representada.

Na verdade, o que restou claro naquele e nestes autos que

nenhum dos representados corroborou com a realizao da propaganda.

No me parece razovel que se pretenda conectar a realizao

de propaganda subliminar, realizada antes do perodo eleitoral, pela Caixa

Econmica Federal, ao abuso de poder previsto na Lei Complementar 64/90,

apto a cassar a chapa vencedora do pleito de 2014.

Ao meu sentir, a pequenez desse fato sequer permite sua

anlise em conjunto com os demais casos trazidos a apreciao do Tribunal

Superior Eleitoral no bojo das aes que questionam o resultado da eleio

presidencial de 2014.

Ao de Investigao Judicial Eleitoral 1943-58.

I Publicidade institucional em perodo vedado Petrobrs

De incio, assinalo que a imputao em tela tambm suscitada no mbito da Ao de Investigao Judicial Eleitoral 1547-81 e da Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61.

Com relao veiculao de publicidade institucional, os

autores afirmam que o Tribunal, em sede de representaes por conduta

vedada, reconheceu a ilicitude de peas veiculadas pela Petrobrs.

Cita a deciso do Tribunal na Representao 778-73, na qual foi

julgado procedente o pedido, acrescentando que pela gravidade ilicitude e

tendo em vista a repetio da veiculao, foi aplicada multa no patamar

mximo em duas representaes apensadas. E ainda houve uma terceira

representao julgada procedente contra a Petrobras pela mesma conduta

vedada, a Rp n 82802 (doc. 15), a rever completo desgaste do governo com

as regras eleitorais (fl. 9-A).

Na narrativa da AIJE 1547-81, esse fato foi descrito de maneira

mais sucinta, litteris: vrias pelculas de publicidade institucional da Petrobras em perodo vedado foram flagradas, suspensas ou punidas com multa,

inclusive no valor mximo, por essa egrgio Corte Superior (Rp 778-73, Rp

787-35, Rp 828-02 e 743-16, docs. Anexos) (fl. 36). Aduziu-se, ainda, que tal

publicidade se multiplicou no horrio nobre da televiso, funcionando como

extenso do horrio eleitoral gratuito.

Com relao alegao do abuso de poder, em face da

divulgao de publicidade institucional no perodo vedado, mesmo que pautada

pelas limitaes do art. 37, 1 da Constituio da Repblica, Dilma Vana

Roussef afirma que essa mesma questo foi tambm objeto da AIJE 1547-81 e

os candidatos a presidente e vice-presidente foram excludos do polo passivo.

Alm disso, assevera que as representaes foram julgadas os pedidos

julgados improcedentes, razo pela qual no haveria que se falar em benefcio

eleitoral. Invoca, portanto, as situaes narradas nas Representaes 778-73,

787-35 e 828-02.

Nas Representaes 778-73 e 787-35, ambas de minha

relatoria, o Tribunal, por unanimidade, julgou procedente a representao

quanto Maria das Graas Silva Foster e improcedente quanto aos demais

representados. Por maioria, foi aplicada a multa no valor mximo previsto no

4 do artigo 73 da Lei 9.504/97, nos termos do voto do Ministro Gilmar Mendes,

vencidos, neste ponto, o relator e as Ministras Luciana Lssio e Maria Thereza

de Assis Moura.

Nessas demandas, foi reconhecida a conduta vedada do art. 73,

VI, b, da Lei 9.504/97, assentando-se a responsabilidade da terceira

Representada, na condio de Presidente da Petrobras, e, por conseguinte,

autorizadora da divulgao da pea publicitria irregular. Porm, assentou-se

que se afigurava indispensvel a comprovao de autorizao ou prvio

conhecimento dos beneficirios quanto veiculao de propaganda

institucional em perodo vedado, razo pela qual no poderia ser presumida a

responsabilidade do agente pblico, uma vez que o uso abusivo de

propaganda travestida de institucional no afasta a ressalva.

Em meu voto, afirmei: em relao aos Representados Dilma

Vana Rousseff e Michel Temer, entendo que no h abrigo legal para sua

responsabilizao, ante a absoluta falta de elementos que indiquem o seu

prvio conhecimento, que pressupe informao anterior e, assim, no se

ajusta ao argumento segundo o qual o uso abusivo de propaganda travestida

de institucional afastaria a ressalva.

Por sua vez, a Representao 828-02, de relatoria do Ministro

Tarcsio Vieira de Carvalho Neto, tambm foi julgada parcialmente procedente,

em deciso assim ementada:

ELEIES 2014. REPRESENTAO POR CONDUTA VEDADA. TIPO DO ART. 73, VI, b, DA LEI N 9.504/97. PRELIMINARES. ILEGITIMIDADE PASSIVA. INPCIA DA PETIO INICIAL. REJEIO. VEICULAO DE PROPAGANDA INSTITUCIONAL EM PERODO VEDADO. RESPONSABILIDADE OMISSIVA DA PRESIDENTE DA PETROBRAS. PROCEDNCIA DA REPRESENTAO. DEMAIS REPRESENTADOS.

IMPROCEDNCIA. AUSNCIA DE PROVAS DE AUTORIZAO E/OU DE PRVIO CONHECIMENTO. INCOMPETNCIA PARA INTERVIR OU EXERCER CONTROLE NA PUBLICIDADE. PRECEDENTE ESPECFICO DO TSE: RP n 778-73, REL. MIN. ADMAR GONZAGA. SOLUO EQUIVALENTE. FIXAO DA MULTA, IN CASU, EM PATAMAR INTERMEDIRIO. PRINCPIO DA PROPORCIONALIDADE.

1. Impe-se a rejeio das preliminares de ilegitimidade passiva e de inpcia da petio inicial, em razo, respectivamente, da Teoria da Assero e da presena dos elementos necessrios indicados na lei processual.

2. Caracteriza infrao ao disposto no art. 73, inciso VI, alnea b, da Lei n 9.504/97, a realizao, em perodo crtico, de publicidade de produto no determinado, sem que se permita a clara compreenso sobre sua concorrncia em mercado.

3. Responsabilidade da Presidente da Petrobras, porquanto, luz dos elementos constantes dos autos, teve o controle da divulgao da pea publicitria irregular.

4. A indispensabilidade da comprovao de autorizao ou prvio conhecimento dos beneficirios, quanto veiculao de propaganda institucional em perodo vedado, afasta a procedncia da representao em relao aos representados candidatos a cargos polticos.

5. Ausncia de prova de participao do Ministro da Secretaria de Comunicao Social, cuja competncia (genrica) para intervir ou exercer controle na publicidade da Petrobras no se mostra suficiente para alicerar a respectiva condenao.

6. Precedente especfico do Tribunal Superior Eleitoral: Rp n 778-73, Rel. Min. Admar Gonzaga, julgada e publicada na Sesso de 3.9.2014.

7. Aplicao, in casu, de multa pecuniria a Maria das Graas Silva Foster, nos termos do art. 73, 4, da Lei das Eleies, em patamar intermedirio, equivalente a 50.000 UFIRs, em ateno ao princpio da proporcionalidade. 8. Representao parcialmente procedente. (Representao n 82802, rel. Min. Tarcisio Vieira De Carvalho Neto, DJE de 11.9.2014, grifo nosso)

Na Representao 828-02, o eminente relator afirmou que

quanto ao mais, ferindo o mrito propriamente dito, adiro s razes j

externadas em Plenrio, quanto aos casos anteriores, bem sumariadas no

referido d. voto proferido pelo em. Min. Admar Gonzaga. Embora a pea

publicitria aqui contestada no seja de idntico teor, continua revestida de

generalidade impeditiva da compreenso, pelo julgador, de que se trate de

propaganda ressalvada pelo art. 73, VI, b, da LE.

No caso, portanto, houve trs condenaes, em relao

publicidade institucional da Petrobrs, com excluso dos candidatos

representados de eventual responsabilidade.

Nesse sentido, correta a afirmao do Ministrio Pblico

Eleitoral:

As representaes 778-73, n 787-35 e n 828-02, por ofensa ao art. 73, VI, b, da Lei n 9.504/97 tiveram seus pedidos julgados procedentes por esse Tribunal. No obstante a constatao da irregularidade, mais uma vez se est diante de conduta que no ostenta gravidade suficiente para a configurao de abuso de poder poltico, mesmo porque foram concedidas liminares nos autos das citadas representaes, determinando a suspenso da veiculao das propagandas, circunstncias que reduziu a possibilidade de interferncia na legitimidade do pleito. Grifo nosso.

Pelo exposto, no reconheo a aptido desses fatos para fins de configurao do abuso de poder poltico.

II Pronunciamento da candidata em rede nacional de rdio e televiso no Dia do Trabalho e

III Pronunciamento da candidata em rede nacional de rdio e televiso no Dia Internacional da Mulher

Os autores, apenas no mbito da Ao de Investigao Judicial

Eleitoral 1943-58, alegaram que, no dia 8 de maro de 2014, a pretexto de

prestar homenagem ao Dia Internacional da Mulher, Dilma Vana Roussef

convocou, custa do errio, cadeia nacional de rdio e televiso para fazer

pronunciamento em proveito prprio. Tal fato tambm alegado na Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61.

Afirmam que, a pretexto de homenagear as mulheres brasileiras,

a investigada teria ressaltado realizaes de Governo, com rompimento ao

princpio da impessoalidade e intuito de promoo pessoal, com conotao

eleitoral.

Alm disso, indicou-se que fato semelhante foi averiguado no

pronunciamento do Dia dos Trabalhadores no dia 1 de maio seguinte, no qual

igualmente abusou da prerrogativa de se dirigir populao local,

transmudando-o em palanque eleitoral.

Tal fato tambm foi objeto da Ao de Investigao Judicial Eleitoral 1547-81 (fls. 36-39), na qual se apontou que a candidata a presidente foi sancionada com multa no valor mximo, tendo em vista a gravidade da

conduta, diante do carter personalista e o contedo eleitoral do discurso,

distanciando-se do propsito oficial da convocao da cadeia nacional de rdio

e televiso, inclusive com o encerramento contendo expresso pedido de votos

a eleitores. A mesma questo igualmente foi suscitada na Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61.

No que tange aos dois pronunciamentos, em rede nacional,

sobre o Dia da Mulher e do Dia do Trabalhador, os autores, em alegaes

finais (fl. 7.698 da AIJE 1943-58), apontaram que a convocao de rede

nacional consubstancia, toda evidncia, abuso do poder econmico

entrelaado com poder poltico.

No obstante, a defesa de Dilma Vana Roussef e Coligao

Com a Fora do Povo argumentam que, quanto ao primeiro pronunciamento,

nem foi considerado como propaganda extempornea, razo pela qual

descaberia sua anlise sob a tica da configurao de prtica abusiva.

De fato, a Representao 163-83, proposta pelo Diretrio

Nacional do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) contra Dilma Vana

Roussef, foi julgada improcedente, em deciso individual da lavra da Min. Maria

Thereza de Assis Moura, de 1.8.2014, posteriormente confirmada, por maioria, sob o fundamento de que a exaltao de atos de governo sem qualquer referncia ao pleito futuro configura mera prestao de contas

sociedade, o que no se confunde com a propaganda eleitoral extempornea.

Nesse julgamento, exps a relatora que o discurso proferido

no indica situao em que a representada tenha sido identificada como a mais

apta a ocupar o cargo de Presidente da Repblica e que os excertos

indicados pelo recorrente em sua pea recursal, por exemplo, quando aduz que

a recorrida disps em seu discurso,sabe que preciso fazer muito mais, no

h, de maneira inequvoca, a promoo de qualquer candidatura, j que no

faz referncia ao prximo pleito, mas refere-se ao contexto do dia das mulheres

e s conquistas alcanadas ao longo dos anos.

Na ocasio, ponderou o saudoso Min. Teori Zavaski que o fato

de a Presidente da Repblica, no Dia da Mulher, fazer pronunciamento

favoravelmente mulher, por si s, j significa vantagem eleitoral, o que no

quer dizer que seja propaganda vedada, na medida em que no se

desincompatibiliza, porque no h necessidade, essa vantagem parece que

fica inerente, opo do legislador.

Ainda que a corrente vencida (Gilmar Mendes. Dias Toffoli e

Laurita Vaz) tenha entendido que o pronunciamento teria sido permeado por

referncias a aes do governo, fato que no se reconheceu a propaganda

eleitoral extempornea, alm do que entendo igualmente e a princpio,

mngua da ausncia de reconhecimento da prpria infrao ao art. 36, 3, da

Lei das Eleies, no h como se cogitar da caracterizao do abuso de poder.

No mesmo sentido, parecer do Ministrio Pblico Eleitoral,

emitido nos feitos ora em exame, em que o Parquet reconhece que a distncia

temporal entre a veiculao daquele pronunciamento e a realizao do pleito

eleitoral enfraquece a tese de ela teria aptido para desequilibrar a igualdade

de chances que deve marcar a disputa eleitoral.

No entanto, certo que a ulterior Representao 326-33,

referente ao posterior pronunciamento do Dia do Trabalhador, foi julgada

procedente pelo Tribunal, em acrdo assim ementado:

ELEIES 2014. REPRESENTAO. PROPAGANDA ELEITORAL ANTECIPADA. PRONUNCIAMENTO DA PRESIDENTE DA REPBLICA EM CADEIA DE RDIO E TV. DIA DO TRABALHADOR. PEDIDO JULGADO PROCEDENTE.

1. O princpio da publicidade, que exige o direito e o acesso informao correta dos atos estatais, entrelaa-se com o princpio da impessoalidade, corolrio do princpio republicano. Em razo do princpio da impessoalidade, no h relevncia jurdica na posio pessoal do administrador ou do servidor pblico, porque deve ser realizada a vontade do Estado, independentemente das preferncias subjetivas ou dos interesses particulares do gestor.

2. A convocao de cadeia de rdio e televiso pela Presidncia da Repblica constitui legtima manifestao do princpio da publicidade dos atos da administrao pblica federal, desde que observada a necessria vinculao do pronunciamento a temas de interesse pblico - como decorrncia lgica do princpio da impessoalidade - e desde que observadas as balizas definidas no art. 87 do Decreto n 52.795/1963, com a redao dada pelo Decreto n 84.181/1979, segundo o qual, "na preservao da ordem pblica e da segurana nacional ou no interesse da Administrao, as emissoras de radiodifuso podero ser convocadas para, gratuitamente, formarem ou integrarem redes, visando divulgao de assuntos de relevante importncia".

3. No se pode admitir que a mandatria maior da nao faa distino entre brasileiros para os tratar em termos de ns - os que apoiam o seu governo - e eles - aqueles que no apoiam o governo -, neste caso fazendo referncia explcita a crticas e escndalos veiculados pela oposio e divulgados amplamente na imprensa; tampouco, faa da convocao ferramenta de propaganda eleitoral antecipada.

4. Enquanto a propaganda partidria canal de aproximao entre partidos e eleitores, disponvel a todas as agremiaes registradas no Tribunal Superior Eleitoral, a convocao de cadeia de rdio e televiso ferramenta de acesso restrito, cuja utilizao com contornos eleitorais pela Presidente da Repblica acarreta inequvoca violao ao princpio da igualdade de chances entre os contendores - partidos polticos -, entendido assim como a necessria concorrncia livre e equilibrada entre os partcipes da vida poltica, sem o qual acaba por comprometer a prpria essncia do processo democrtico.

5. A Justia Eleitoral deve atuar com bastante rigor quando a antecipao de campanha realizada por meio de ferramentas de grande alcance e disponveis apenas aos detentores de mandato eletivo, como ocorre na publicidade institucional e na convocao de cadeia de rdio e televiso.

6. Pedido julgado procedente para fixar a multa no valor mximo.

(Representao n 32663, rel. Min. Tarcsio, Vieira, DJe de 30.9.2014)

Desse modo, no mbito das representaes eleitorais, a glosa

se referiu efetivamente ao segundo pronunciamento em cadeia de rdio e

televiso, referente ao Dia do Trabalhador.

Entretanto, tambm com relao a esse fato, a Procuradoria-

Geral Eleitoral concluiu se tratar de episdio dbil que, a toda evidncia,

incapaz de caracterizar abuso de poder.

Transcrevo, no ponto, a concluso lanada em seu parecer: A

mesma considerao pode ser estendida ao pronunciamento em cadeia de

rdio e televiso, havido em 1.5.2014 (Dia do Trabalhador). Em que pese a

representada ter sido condenada, na representao proposta, ao pagamento

de multa, no h como admitir possa a conduta configurar abuso do poder

poltico, j que foi um nico pronunciamento, ocorrido cinco meses antes do 1

turno, e quase seis meses antes do segundo turno.

Pelo exposto, tambm no vislumbro nesses fatos relevncia para fins de configurao de prtica abusiva, sob conotao poltica.

IV Veiculao de propaganda institucional em perodo vedado do Banco do Brasil.

A exemplo da alegao de desvirtuamento da publicidade

institucional realizada pela Petrobrs, arguiu-se tambm que outros rgos do

Governo resolveram desafiar a lei eleitoral em proveito dos investigados, como

o caso do Banco do Brasil. Tal fato tambm foi alegado, alm da Ao de Investigao Judicial Eleitoral 1943-58, na Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61.

Sobre essa questo, o Presidente do Banco do Brasil foi

demandado no mbito da Representao 817-70, que foi julgada procedente

em acrdo assim ementado:

ELEIES 2014. CONDUTA VEDADA. ART. 73, VI, "B". LEI DAS ELEIES. SOCIEDADE DE ECONOMIA MISTA. DIVULGAO DE VDEOS DE PROPAGANDA NA INTERNET. PERODO CRTICO ELEITORAL. USO DE LOGOMARCA DO GOVERNO FEDERAL. PUBLICIDADE INSTITUCIONAL.

1. Trata-se de Representao contra propagandas veiculadas na internet antes do perodo crtico eleitoral, as quais se alongaram aps 5.7.2014.

INPCIA DA INICIAL

2. Os pedidos so claros (de excluso da propaganda tida por irregular e de aplicao de multa), e tambm a causa de pedir embasada no art. 73, VI, "b", da Lei das Eleies, tendo em vista a suposta realizao de propaganda institucional irregular do Banco do Brasil em favor dos candidatos reeleio. Alm disso, dos fatos decorre logicamente o pedido. O art. 295 do CPC foi integralmente atendido. Afasta-se a alegao de inpcia.

ILEGITIMIDADE DOS REPRESENTADOS DILMA VANA ROUSSEFF, MICHEL TEMER E THOMAS TIMOTHY TRAUMANN

3. Aps anlise do caso, verifica-se que a Coligao Representante no indica na inicial, nem de passagem, qualquer envolvimento ou suposto conhecimento dos ilcitos por parte de Dilma Rousseff, Michel Temer e Thomas Timothy. Ou seja, a inicial, apesar de listar esses nomes formalmente, no se dedica a indicar lastro mnimo a embasar a legitimao dessas representadas.

4. A inicial deve indicar fundamento mnimo, para que, em abstrato, seja admissvel o conhecimento dos beneficirios sobre a propaganda irregular (Teoria da Assero). No caso, no h como presumir que esses representados acompanhem/autorizem publicidade de sociedades de economia mista.

LEGITIMIDADE DO REPRESENTADO ALDEMIR BENDINE

5. Ao contrrio do que ocorre com as autoridades indicadas no item anterior, entendo que o il. Presidente do Banco do Brasil tem legitimidade para figurar no polo passivo.

6. Se correto concluir que, via de regra, as demais autoridades Representadas no acompanham as atividades rotineiras daquela Sociedade de Economia Mista, factvel que o Chefe mximo do Banco o faa.

7. Assim, contrariamente ao que ocorreu com os outros Representados, h em relao a Aldemir Bendine um lastro mnimo a admitir sua incluso no polo passivo. O exame de seu eventual conhecimento ou participao nos eventos ser, entretanto, objeto de anlise no mrito.

8. Independentemente da aplicao da multa, o Presidente do Banco do Brasil, como dirigente mximo da Instituio, deve figurar no polo passivo para responder, no mnimo, pela eventual retirada da propaganda (obrigao de fazer). O 4 do art. 73 da Lei das Eleies veicula duas providncias apartadas: multa (condenao) e suspenso da atividade ilcita (obrigao de fazer).

MRITO

9. Durante os trs meses que antecedem as Eleies, a legislao eleitoral, em prol da promoo do equilbrio no pleito, veda a divulgao de propaganda institucional de quaisquer atos, programas, obras, servios e campanhas de rgos pblicos, seja da administrao direta, seja da administrao indireta. O Banco do Brasil, como sociedade de economia mista, sujeita-se a essa proibio.

10. Independentemente do momento em que a publicidade institucional fora autorizada, se a veiculao alcanou o denominado "perodo crtico", est configurado o ilcito previsto no art. 73, VI, "b", da Lei das Eleies. Precedentes do TSE.

11. "A conduta vedada prevista no art. 73, VII, "b", da Lei 9.504/1997 independe de potencialidade lesiva apta a influenciar o resultado do pleito, bastando a sua mera prtica para atrair as sanes legais" (REspe 44786, Rel. Min. Joo Otvio de Noronha, julgamento em 4.9.2014).

12. "Esta Corte j afirmou que no se faz necessrio, para a configurao da conduta vedada prevista no art. 73, VI, b, da Lei n 9.504/97, que a mensagem divulgada possua carter eleitoreiro, bastando que tenha sido veiculada nos trs meses anteriores ao pleito, excetuando-se to somente a propaganda de produtos e servios que tenham concorrncia no mercado e a grave e urgente necessidade pblica, assim reconhecida pela Justia Eleitoral. Nesse sentido: AgR-Al 719-90, rel. Min. Marcelo Ribeiro, DJE de 22.8.2011".

13. Provado o ilcito, de rigor a suspenso da propaganda, conforme determina o 4 do art. 73 da Lei das Eleies.

14. Apesar da constatao do ilcito, no h prova de que o Presidente do Banco do Brasil soubesse da irregularidade antes do ajuizamento deste feito. Como o art. 73, 4 e 8, da Lei n 9.504/97, prev responsabilizao subjetiva, no que se refere s multas, afasta-se esta penalidade em relao ao Representado Aldemir Bendine.

15. Deve-se ressaltar que este caso no guarda semelhana com os processos que versaram sobre propaganda irregular da Petrobras (Rps 77873, 78735 e 82.802), julgados recentemente pelo TSE. Naqueles feitos, a propaganda era de massa e em grande escala, por isso, a responsabilizao da Presidente daquela Instituio. Aqui se tratou de vdeos arquivados no Youtube, com meros links no stio oficial do Banco do Brasil, com baixssimo potencial lesivo.

16. Deve-se apartar, no caso, a obrigao de fazer (suspenso definitiva da propaganda), direcionada ao Presidente do Banco do Brasil, como dirigente mximo da Instituio e seu representante, da aplicao da multa. Em relao a esta, no h como imp-la quele Executivo, uma vez que inexiste prova de sua cincia sobre a publicidade antes do ajuizamento deste feito.

CONCLUSES

Representao: a) extinta sem resoluo do mrito em relao aos Representados Dilma Rousseff, Michel Temer e Thomas Timothy Traumann, por ilegitimidade passiva; b) procedente em parte, para, confirmando a liminar em maior extenso, determinar que o Presidente do Banco do Brasil efetive no apenas a retirada da logomarca do Governo Federal dos vdeos, mas tambm imponha a obrigao de suspender definitivamente as veiculaes por qualquer forma; e, c) improcedente em relao ao pedido de aplicao de multa em relao ao Presidente do Banco do Brasil.

(Representao n 81770, rel. Min. Herman Benjamin, DJE de 1.10.2014)

Nessa representao, alegou-se, em suma, que o Banco do

Brasil S/A mantinha na internet pgina com contedo de publicidade vedada,

uma ainda de 2013 e outra de meados de 2014, com mediante "Por que bom

pra Todos?" e "#Torcida Brasil", cujas peas publicitrias conteriam a

logomarca do Governo Federal, a evidenciar o contedo institucional da

propaganda.

O eminente relator Min. Herman Benjamin, na representao

eleitoral, concluiu que havia irregularidade na utilizao da logomarca, alm do

que a instituio, por fazer parte da administrao indireta, no poderia veicular

propaganda institucional aps 5.7.2014, mas apenas efetivar propaganda

mercadolgica, o que no era a hiptese.

Interessante notar que, em seu voto na Representao 817-70,

entendeu que o mais adequado seria impor ao Presidente do Banco a

responsabilizao pela suspenso definitiva das veiculaes, sem, entretanto,

impor-lhe qualquer multa, pois, antes do ajuizamento do feito, no sabia das

irregularidades, votando, assim, pela determinao da retirada da logomarca

do Governo Federal dos vdeos impugnados e a suspenso definitiva de

veiculao por qualquer forma.

No vislumbro nenhuma importncia desse fato isolado, ainda que associado a outros, notadamente porque, no mbito da representao

eleitoral, reconheceu-se que os vdeos no fazem qualquer aluso, mesmo

subliminar, s eleies, nem a qualquer candidato, partido poltico, coligao

ou mesmo autoridade pblica. H, sim, no final das propagandas o uso de

logomarca do Governo Federal, ou seja, a questo circunscreveu-se

irregularidade apurada, que no ensejou at mesmo a imposio de sano

pecuniria.

Ademais e sobre esse fato, igualmente asseverou a

Procuradoria Geral Eleitoral que no julgamento da representao n 817-70,

referente propaganda institucional irregular do Banco do Brasil, restou

assentado que se tratou de vdeos arquivados no Youtube, com mero links no

stio oficial do Banco do Brasil, com baixssimo potencial lesivo.

Rejeito, portanto, a alegao de abuso de poder em face desse fato.

V Veiculao de propaganda institucional em perodo vedado no stio do Ministrio do Planejamento.

Tambm se alega que na pgina principal do stio eletrnico do

Ministrio do Planejamento constavam manchetes que se destinariam ao

fortalecimento da imagem da candidata reeleio, com escancarada

publicidade dos programas e aes governamentais, com disponibilizao de

vdeos, fotografias e udios. Tal fato foi alegado na Ao de Investigao Judicial Eleitoral 1943-58 e na Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61.

Sustenta-se que as matrias representavam vigorosa

publicidade eleitoral em prol da candidata a presidente que, valendo-se de

pginas oficiais, alardeou os feitos de seu Governo em temas que eram objeto

de sua campanha eleitoral.

Em relao a esse fato, recorda a Procuradoria Geral Eleitoral

que ainda est em curso a Representao 1770-34, no apreciada pelo

Tribunal, na qual, em deciso de 24.10.2014, indeferi o pedido de liminar nos

seguintes termos:

Pelo teor das notcias veiculadas nos endereos eletrnicos apontados, fielmente transcritas pela Representante, avisto, to somente, divulgao informativa das atividades governamentais. No vislumbro - ao menos neste juzo de cognio sumria - propagao de mensagem desbordante do carter informativo, que prprio das notcias e releases divulgados pelos rgos da administrao direta e indireta, sobretudo quando no se assemelham publicidade institucional vedada pela norma, que aquela nitidamente facciosa, ou seja, destinada a destacar agentes pblicos ou, quando pior, com contornos de promoo eleitoral. Demais disso, o objeto da presente ao no se ajusta ao precedente indicado pela Representante (Rp n 1722-75), porquanto nele se discutiu a divulgao de mensagem pelo Governo de Minas Gerais, em resposta s crticas veiculadas na propaganda eleitoral da corrente adversria.

Registro que os argumentos aqui lanados foram integralmente endossados pelo Plenrio desta Casa, ao apreciar caso muito semelhante, por ocasio do julgamento da Rp n 1156-29, de minha

relatoria, decidida, por unanimidade, na sesso de 14.10.2014, cuja ementa transcrevo:

ELEIES 2014. REPRESENTAO. CONDUTA VEDADA. ART. 73 DA LEI N 9.504/97. MINISTRO DE ESTADO. PALESTRA. DESBORDAMENTO DE SUAS FUNES INSTITUCIONAIS. PROSELITISMO ELEITORAL. SUPOSTA PROPAGANDA ELEITORAL E USO DA MQUINA ADMNISTRATIVA EM FAVOR DOS CANDIDATOS REPRESENTADOS. PUBLICIDADE INSTITUCIONAL DE ATOS DE GOVERNO EM PERODO VEDADO. NO CONFIGURAO. NOTCIA PUBLICADA NO SITE DO MINISTRIO. CARTER INFORMATIVO. IMPROCEDNCIA DA REPRESENTAO. 1. Ministro de Estado que profere palestra, a convite, sobre tema pertinente sua rea de atuao est no exerccio regular de suas funes institucionais.

2. In casu, a veiculao do fato no portal do Ministrio teve apenas carter informativo, no configurando divulgao de atos de governo.

3. Inexistente qualquer prtica, na conduta ora impugnada, a enquadrar-se nas vedaes contidas nos incisos I, II, III e VI, b, do art. 73 da Lei n 9.504/97.

4. Representao julgada improcedente.

Ante o exposto, INDEFIRO o pedido de liminar. Grifo nosso.

Com relao a esse fato, meu entendimento permanece

inalterado quanto ao contedo das notcias.

Ainda que assim no fosse, considero definitiva a manifestao

do Parquet de que a veiculao de suposta propaganda em stio eletrnico de

um Ministrio no ostenta o mnimo potencial de macular a legitimidade de um

pleito presidencial.

No considero, assim, esse fato para fins de caracterizao do abuso de poder poltico.

VI Manipulao da divulgao de indicadores socioeconmicos IPEA e IBGE.

Os autores afirmam que, por meio da Representao 1774-71,

fundada em notcia veiculada pelo Jornal Folha de So Paulo, levou-se ao

conhecimento do TSE que o Governo Federal estava a impedir a divulgao de

informaes socioeconmicas que desmentiram ou fragilizavam a propaganda

eleitoral dos investigados.

Aduzem que a denncia da imprensa teria sido confirmado pelo

prprio Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada (IPEA), uma vez que

somente aps o pleito liberou o resultado de pesquisa indicando que, entre

2012 e 2013, a quantidade de pessoas em estado de misria teria sofrido

aumento de 3,68%, passando de 10,08 a 10,45 milhes de pessoas.

Defendem, ainda, que descabe o acolhimento da alegao da

assessoria do instituto de que os dados no poderiam ter sido divulgados

durante o perodo eleitoral, diante da vedao da veiculao de publicidade

institucional. Isso porque, quando o fato era interessante campanha dos

investigados, chegou-se a fazer a liberao de dados sem qualquer restrio, a

exemplo de pesquisa divulgado pelo IBGE antes da realizao do segundo

turno.

Reiterou-se, em alegaes finais, que a campanha eleitoral

valeu-se de um quadro falso dos indicadores econmicos com a finalidade de

convencer o eleitor de que a economia estava sendo bem gerida, tudo a

permitir que se vislumbrasse um cenrio otimista (fl. 7.699 da AIJE 1943-58).

Com relao a esses fatos, a representada Dilma Vana Roussef

alega que se verifica a absoluta falta de prova e que a eventual prtica de

abuso deve ser vinculada a uma ao concreta e determinada e no mera

omisso.

No ponto, anoto que, em deciso de 24.10.2014, indeferi o

pedido de liminar na Representao 1774-71, por no vislumbrar fumus boni

iuris, uma vez que as afirmaes declinadas na inicial lastreiam-se,

exclusivamente, em matria jornalstica, ainda que produzida e veiculada por

peridico de tradio e respeitabilidade. Com efeito, a reportagem tem contorno

especulativo e, assim, no apresenta a segurana necessria para determinar

a subsuno do quanto descrito norma apontada.

Consignei, poca, no visualizar o periculum in mora, haja

vista que, muito embora a matria considere haver ocultamento de dados por

parte do Governo Federal, no impediu a especulao sobre a deteriorao

dos ndices relacionados aos setores por ela abordados, tanto que foi notcia

na imprensa que noticiou a crise interna no IPEA diante da controvrsia sobre a

divulgao dos dados (p. 144 da AIJE 1943-58).

A Ministra Luciana Lssio, em 2.2.2015, negou seguimento

representao (deciso que transitou em julgado sem interposio de recurso),

mantendo o mesmo entendimento por mim manifestado, nos seguintes termos:

No mrito, razo jurdica no assiste coligao representante.

Isso porque o conjunto probatrio formado apenas por notcia jornalstica, a qual, independentemente da idoneidade do veculo de comunicao, no suficiente para comprovar a ocorrncia de conduta vedada.

Conforme bem pontuado pela Procuradoria-Geral Eleitoral, "a ausncia de outras provas, indcios ou circunstncias que demonstrem a plausibilidade dos fatos narrados pelo representante inviabiliza a procedncia da pretenso, porquanto restringe os argumentos expostos ao campo meramente da especulao" (fl. 79) (Grifei).

Sobre o assunto, o Tribunal Superior Eleitoral, unanimidade de votos, j decidiu que "meras notcias jornalsticas no constituem provas" (PET n. 1653/DF, Rel. Min. Gerardo Grossi, DJ de 29.6.2007).

Ante o exposto, nego seguimento presente representao, com base no art. 36, 6, do Regimento Interno do Tribunal Superior Eleitoral.

A meu sentir, a alegao de que supostamente teria ocorrido um

retardo na divulgao de indicadores socioeconmicos no permite a ilao

irrefutvel de que isso teve relevante impacto no eleitorado, notadamente,

porque, como asseverei na deciso que proferida na RP, no se impediu a

especulao sobre a deteriorao dos ndices relacionados aos setores por ela

abordados.

O eminente relator Min. Herman Benjamin, em seu relatrio nos

feitos ora em julgamento, consigna que foi colhido o depoimento da

testemunha Herton Arajo (fls. 1.194-1.259 da AIJE 1943-58), funcionrio do

IPEA que, arrolado pela parte autora, possuiria informaes sobre a

manipulao de dados naquele instituto e circunstncia de que a pesquisa

no teria sido divulgada ao pblico em virtude da campanha eleitoral de 2014.

Esclareceu essa testemunha que as caractersticas da pesquisa

denominada PNAD so as seguintes: a) divulgada anualmente; b) avalia a

situao de pobreza e desigualdade do ano de 2013; c) seria divulgada em

meados de setembro de 2014. Ademais, acrescentou o depoente que lhe foi

informado que, naquele ano de 2014, no podia falar com a imprensa, por

causa da Lei Eleitoral (fl. 1.199 da AIJE 1043-58).

Afirma, ainda, que, em conversa com outro diretor, foi indicado

testemunha que: Herton, eu acho que nesse perodo de eleio, o que -

ele at brinco assim -... o que o que terra vira mar e o que mar vira terra.

melhor a gente... eu t com um monte de produto aqui, que eu t querendo

divulgar e eu fui... e a gente foi... e foi pedido pra gente divulgar s depois das

eleies. Ai, eu disse: - No, mas no meu caso no igual, porque saiu a

PNAD e a nossa tradio , assim que sai a PNAD, a gente lana o estudo (fl.

1.200 da AIJE 1943-58).

Foram, ainda, acostados emails trocados no mbito do IPEA,

relativos questo (fls. 1.114-1.155 da AIJE 1943-58).

Conforme bem registrou o Min. Herman Benjamin em seu

minucioso relatrio, o IPEA, em resposta aos esclarecimentos solicitados sobre

o fato, apresentou documentos demonstrando consultas feitas por correio

eletrnico ao setor jurdico interno acerca de eventuais restries da lei eleitoral

para divulgao de estudos e pesquisas em 2014 (fls. 1.185-1.191 da AIJE

1943-58).

A corroborar a tese de cautela do instituto com relao

divulgao de dados oficiais durante o perodo eleitoral em curso, foi juntado

ofcio do IPEA (fls. 1.402-1.420 da AIJE 1943-58), no qual se assinala que at

o ano de 2010 sempre houve a divulgao de dados de estudos e anlise, por

se entender que no havia relao direta na campanha dos candidatos, mas,

no pleito presidencial daquele ano, sucederam inmeros questionamentos da

imprensa sobre a pesquisa e sua eventual interferncia no equilbrio da disputa

eleitoral, o que gerou inclusive a propositura de ao judicial pela citada

entidade.

Diante das circunstncias averiguadas, no vislumbro

patenteada uma manifesta ingerncia do Poder Executivo quanto questo.

O Ministrio Pblico Eleitoral, da mesma forma, no vislumbrou

relevncia nesse fato, aduzindo que, em relao ao argumento de que o

Governo Federal teria manipulado a divulgao de indicadores scio-

econmicos, ao impedir o IPEA Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada de

divulgar antes das eleies, o resultado da pesquisa indicando que, entre 2012

e 2013, a quantidade de pessoas em estado de misria no Brasil teria

registrado um aumento de 3,68%, melhor sorte no assiste aos

representantes, uma vez que ao sentir da Procuradoria, a divulgao da

pesquisa no teria o condo de comprometer uma disputa em nvel nacional,

mesmo sendo considerado o acirramento havido no pleito presidencial de

2014.

Tal concluso do rgo ministerial aplica-se, inclusive, em

relao Pesquisa Mensal de Emprego em Outubro de 2014 (fls. 157-167 da

AIJE 1943-58) e notcia jornalstica de que a divulgao de dados sobre alto

ndice de desmatamento tambm teria sido obstada (fls. 168-169 da AIJE

1943-58).

Nesse sentido, entendo pondervel o argumento, exposto em

alegaes finais dos investigados no sentido de que, tendo em vista que se

cuida de eleio presidencial, no se afiguraria expressivo o fato consistente na

liberao de resultado de pesquisa em que a quantidade de pessoas em

estado de misria no pas teria passado de 10,08 milhes para 10,45 milhes,

registrando aumento de 3,68%.

Afasto, portanto, a relevncia de tais fatos, seja isoladamente ou em conjunto com outros, para fins de configurao do ilcito de abuso de poder.

VII Uso indevido de bens pblicos bate-papo virtual com o Ministro da Sade em 18.7.2014 e VIII Uso indevido de bens pblicos - uso de telefone e email por servidor da Presidncia da Repblica em 12.6.2014 para obter lista de prefeitos que compareceram a almoo de apoio poltico

A Coligao Muda Brasil e o Partido da Social Democracia

Brasileira assinalam que (fl. 8-A da AIJE 1943-58):

Consoante demonstrado na RP n 84890, em 18 de julho de 2014, a primeira investigada, contando com a presena do Ministro da Sade, Arthur Chioro, participou de um bate-papo virtual (Face to Face), respondendo a perguntas dos internautas acerca do programa Mais Mdicos, em que foi feita clara referncia eleio que se avizinhava, propaganda negativa ao candidato Acio Neves e aluses a plataforma poltica a ser seguida em eventual segundo mandato presencial (doc. 11).

Tambm se noticiou, na RP n 66522, que o servidor Fbio Parrode Pires, assessor da Secretaria de Relaes Institucionais da Presidncia da Repblica, solicitara assessoria de imprensa do Diretrio do PMDB do Estado do Rio de Janeiro, no dia 12 de junho, primeiro por telefone e depois por e-mail, cpia da lista de presena dos Prefeitos que compareceram ao almoo da formalizao de apoio do partido ao movimento Aezo, formado a partir da aliana poltica entre as candidaturas de Acio Neves, Presidncia da Repblica, e de Luiz Fernando Pezo, ao Governo do Estado do Rio de Janeiro (doc. 12).

Tais fatos, analisados isoladamente, no foram considerados suficientes para ensejar a procedncia das respectivas representaes por conduta vedada, mas devem ser sopesados na aferio do abuso de poder poltico como um todo, pois iro se somar aos demais para a definio da gravidade da sucesso dos atos destinados a comprometer a lisura do pleito, em face da quebra da isonomia entre os candidatos.

A investigada alega que, se os fatos no configuraram conduta

vedada a agente pblico no poderiam ser sopesados para a aferio do abuso

do poder poltico como um todo.

Realmente a Representao 848-90, de relatoria do Min.

Tarcsio Vieira de Carvalho Neto, foi julgada improcedente pelo Tribunal, em

acrdo cujo trecho da ementa destaco:

ELEIES 2014. REPRESENTAO. CONDUTA VEDADA. ART. 73, INCISOS I, III, IV E VI, ALNEA B, DA LEI N 9.504/97. PRESIDENTE DA REPBLICA. CANDIDATA REELEIO. BATE-PAPO VIRTUAL. FACEBOOK. FACE TO FACE. PROGRAMA "MAIS MDICOS". PALCIO DA ALVORADA. RESIDNCIA OFICIAL.

[...]

IV - No caracteriza infrao ao disposto no inciso I do art. 73 da Lei n 9.504/97, diante da ressalva contida no 2, do mesmo art. 73, o uso da residncia oficial e de um computador para a

realizao de "bate-papo" virtual, por meio de ferramenta (face to face) de pgina privada do Facebook.

V - A parte final do disposto no inciso III do art. 73 da Lei n 9.504/97 ("...durante o horrio de expediente normal..."), no se aplica presena moderada, discreta ou acidental de Ministros de Estado em atos de campanha, conquanto agentes polticos, no sujeitos a regime inflexvel de horrio de trabalho;

VI - A infrao esculpida no inciso IV do art. 73 da Lei n 9.504/97, requesta que se faa promoo eleitoral durante a distribuio de bens e servios custeados ou subvencionados pelo Poder Pblico;

VII - O descumprimento do preceito consubstanciado no art. 73, inciso VI, alnea b, da Lei n 9.504/97, pressupe a existncia de publicidade institucional, o que no se confunde com ato de campanha realizado por meio de um "bate-papo" virtual, via Facebook.

VIII - Extino do feito, sem resoluo de mrito, em relao ao Partido dos Trabalhadores e improcedncia dos pedidos em relao aos demais representados.

(Representao n 84890, rel. Min. Tarcisio Vieira De Carvalho Neto, DJe de 4.9.2014, grifo nosso).

Por sua vez, a Representao 665-22, rel. Min. Herman

Benjamin, tambm foi julgada improcedente, cuja trecho da ementa do aresto

destaco:

REPRESENTAO. CONDUTA VEDADA. AGENTE PBLICO. UTILIZAO DE APARATO ESTATAL. CORREIO ELETRNICO PESSOAL. SOLICITAO DE INFORMAES A AGREMIAO PARTIDRIA. ATIPICIDADE. PREMISSA FTICA

1. De acordo com a pea vestibular, baseada em fato noticiado pelo jornal O Globo (fls. 28-29), o primeiro Representado, assessor da Secretaria de Relaes Institucionais da Presidncia da Repblica, teria telefonado assessoria de imprensa do Diretrio do PMDB do Estado do Rio de Janeiro, no dia 12 de junho, e requerido cpia da lista de presena dos Prefeitos que compareceram ao almoo de formalizao de apoio do partido ao movimento Aezo formado a partir de aliana poltica entre as candidaturas de Acio Neves, Presidncia da Repblica, e de Luiz Fernando Pezo, ao Governo do Estado do Rio de Janeiro. Em seguida, enviou e-mail (doc. de fl. 27), em horrio de expediente, quele Diretrio solicitando a referida lista.

[...]

ANLISE DE MRITO SOBRE O PRVIO CONHECIMENTO/PARTICIPAO DA REPRESENTADA DILMA VANA ROUSSEFF

8. Os dados dos autos indicam que tudo foi praticado no mbito da Secretaria de Relaes Institucionais da Presidncia da Repblica.

Quando muito, o assunto chegou ao Ministro das Relaes Institucionais, Ricardo Berzoini, que se pronunciou sobre o episdio na imprensa (vide fl. 28-30) e se manifestou oficialmente nos autos do procedimento Investigatrlo que tramitou no Ministrio Pblico Eleitoral (fls. 213-221). Diante disso, no h elemento que possa indicar participao da representada Dilma Vana Rousseff nos fatos.

PERODO DE INCIDNCIA DOS INCISOS I, II E III DO ART. 73 DA LEI 9.504/1997

9. No obstante a existncia de recentes julgados em sentido contrrio, parece-me claro que o legislador, quando o desejou, expressamente limitou o perodo no qual a conduta seria vedada. Nos incisos V e VI do art. 73, est clara a restrio aos trs meses que antecedem o pleito. Essa meno no existe em relao aos incisos I, II, III e IV do mesmo artigo. Trata-se de silncio eloquente.

10. Sob outra perspectiva, ao se impor a restrio dos trs meses, inmeras condutas ficariam legitimadas mesmo sendo capazes de afetar a igualdade de oportunidades entre notrios pr-candidatos.

11. Tratando-se de tema ainda no sedimentado na jurisprudncia do TSE, registro meu entendimento de que as condutas vedadas previstas no art. 73, I, lI e III, da Lei 9.504/97 podem configurar-se mesmo antes do pedido de registro de candidatura.

INEXPRESSIVIDADE DA CONDUTA EM TERMOS ELEITORAIS

12. A mera utilizao de linha telefnica do Palcio do Planalto, para nico telefonema, e o uso de computador do mesmo local para envio de apenas uma mensagem eletrnica, de conta pessoal e no institucional, no tm o condo de repercutir no bem jurdico tutelado, qual seja, a lisura e a isonomia do pleito eleitoral.

13. Segundo o magistrio de Jos Jairo Gomes, "O que se impe para a perfeio da conduta vedada que o evento considerado tenha aptido para lesionar o bem jurdico protegido pelo tipo em foco, no caso, a igualdade na disputa, e no propriamente as eleies como um todo ou os seus resultados". E mais: "assim, no chega a configurar ilcito em tela hipteses cerebrinas de leso, bem como condutas absolutamente irrelevantes ou incuas relativamente ao ferimento do bem jurdico salvaguardado" (in Direito Eleitoral. 10 ed. So Paulo: Atlas, 2014, p. 599).

MULTA DO 3 DO ART. 36 DA LEI DAS ELEIES

14. Os fatos no demonstram a inteno de fazer propaganda irregular. O episdio limitou-se tentativa de obter lista de prefeitos do PMDB que supostamente apoiariam a Chapa do Aezo no Estado do Rio de Janeiro. No fosse o vazamento dos fatos mdia, tudo ficaria adstrito ao telefonema e ao e-mail encaminhado ao Diretrio Regional do PMDB naquele estado da Federao.

CONCLUSO

15. Voto pela rejeio das preliminares e, no mrito, pela integral improcedncia dos pedidos veiculados na representao.

(Representao n 66522, rel. Min. Herman Benjamin, DJE de 3.12.2014).

Diante das decises proferidas nas representaes citadas,

tambm no vislumbro relevncia dos fatos referentes: a) ao uso indevido de

bens pblicos decorrente do bate-papo virtual com o Ministro da Sade, em

18.7.2014 e b) uso de telefone e e-mail por servidor da Presidncia da

Repblica em 12.6.2014 para obter lista de prefeitos que compareceram em

almoo de apoio poltico.

Ressalto que, com relao ao primeiro fato, reconheceu-se que

o bate-papo ocorreu em pgina privada do Facebook e, quanto ao segundo,

teria sucedido apenas o uso de um telefone e um computador para envio de

apenas uma mensagem, razo pela qual descabe pretender que tais hipteses, ainda que consideradas outras situaes, pudessem resultar relevantes para aferio de um contexto mais amplo para aferio de abuso de poder poltico.

IX Gastos de campanha acima do limite inicialmente informado Justia Eleitoral.

Com relao ao fato alusivo de que os gastos de campanha

teriam excedido o teto informado Justia Eleitoral, apontam os autores que o

Ministro Gilmar Mendes, no voto proferido na Prestao de Contas 97613,

assentou que houve extrapolao do limite do art. 17-A da Lei das Eleies.

Tal fato tambm alegado, alm da Ao de Investigao Judicial 1943-58, na Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61 e na Representao 8-46.

No obstante, apesar de reconhecerem que este Tribunal

acompanhou o voto do relator quanto no-aplicao da multa, em face da

deciso da Ministra Maria Thereza que autorizou, anteriormente, o aumento do

indigitado limite, assinalam que essa circunstncia no ilide a prtica de abuso

do poder econmico.

A esse respeito, verifico que no prprio trecho do voto do Min.

Gilmar Mendes na PC 976-13, transcrito pelos autores (fl. 12-A), constata-se

que a extrapolao teria ocorrido durante trs dias ao longo da campanha (21,

22 e 23 de outubro), tendo o pedido de alterao desse limite sido deferido,

ainda que em momento ulterior.

Para melhor compreenso: o valor inicialmente autorizado era

de R$ 298.000.000,00, e foi ultrapassado no interregno indicado, variando de

R$ 299.530.642,95 no primeiro dia at R$ 308.521.738,01 no terceiro e ltimo

dia, conforme consta da informao da Asepa transcrita no Acrdo da PC

976-13 (fls. 4021-402 da AIME 7-61).

Assim, houve um excesso de aproximados 10 milhes de reais,

o que contrariou o 7 do art. 4 da Res.-TSE 23.406/2014.

O Min. Gilmar Mendes, em seu voto no julgamento da prestao

de contas assinalou que, posteriormente aos referidos gastos, a Ministra Maria

Thereza de Assis Moura deferiu o pedido de aumento, o que releva,

minimamente, uma irregularidade formal, pois, ao final, a relatora autorizou o

aumento do limite de gastos de campanha [...] (fl. 403 da AIME 7-61).

Na ocasio, ponderou Sua Excelncia que: Penso que a Justia

Eleitoral no pode transformar o pedido de aumento de limite de gastos de

campanha em mera formalidade, mas procedimento de efetivo controle de

possvel abuso do poder econmico, que pressupe, portanto, rigorosa anlise

das justificativas apresentadas pelos candidatos, notadamente porque essa

preocupao do Tribunal Superior Eleitoral remonta a dcada de 70 (fl. 22 da

AIME 7-61).

No entanto, assinalou que, tendo sido autorizado o aumento do

limite de gastos de campanha em deciso transitada em julgado, no seria

possvel a aplicao de multa, propondo, para eleies futuras, que o gasto

acima do limite legal enseja a aplicao de multa mesmo que sobrevenha

deciso que autorize o aumento.

No se averigua, portanto, omisso na indicao dos dados em

questo e, conforme alegam os investigados, os montantes encontravam

paralelo com a campanha do candidato segundo colocado, fato que no revela

um desbordamento excessivo de recursos, que pudesse ser enquadrado como

abuso do poder econmico.

A esse respeito, tambm o Ministrio Pblico pronunciou-se pela

rejeio da alegao de abuso de poder econmico, porquanto este Tribunal

ao analisar a conduta quando do julgamento da prestao de contas, se

absteve de impor multa aos representados em virtude do excesso de gastos,

uma vez que a Ministra Maria Thereza de Assis Moura, ento Corregedora-

Geral da Justia Eleitoral autorizou, em data posterior sua extrapolao

(24.10.2014), o aumento do limite.

Na linha da manifestao do rgo ministerial e diante do

contexto exposto, tambm considero improcedente a alegao de abuso de poder econmico quanto ao indigitado fato.

X Abuso praticado por terceiros por meio de campanhas promovidas por entidades sindicais.

Noticiou-se que entidades sindicais, especialmente filiados

Central nica dos Trabalhadores (CUT), se mostraram extremamente ousadas

na divulgao de notcias e artigos favorveis aos investigados e

desabonadores, quando no falso e difamatrios em relao ao candidato

Acio Neves, o que revela ntida repercusso no pleito sob a tica de abuso do

poder econmico, porquanto consubstancia, a rigor, doao indireta aos

candidatos beneficiados, com manifesta gravidade. Tal fato alegado, alm da Ao de Investigao Judicial Eleitoral 1943-58, na Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61.

Para tanto, indicou-se os seguintes fatos:

a) o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de

So Paulo (APEOESP) teria circulado, em 15.10.2014, um

panfleto de uma folha, com manifesta propaganda favorvel

aos investigados e negativa em relao candidatura de Acio

Neves;

b) o Sindicado dos Professores do Distrito Federal

(SINPRO/DF) fez circular, em 14.10.2014 e por meio de uma

mala direta, um tabloide de 24 pginas e com alto padro de

acabamento, nos mesmos moldes;

c) o Sindicato nico dos Trabalhadores de Educao de

Minas Gerais (SINDIUTE), na ao mais incisiva e grave,

utilizou-se de todas as plataformas de mdia (outdoors, internet,

televiso) para atacar o candidato Acio Neves, taxando-o de

inimigo prioritrio dos professores;

d) a Federao nica dos Petroleiros (FUP) e o Sindicato dos

Petroleiros do Paran e Santa Catarina (SINDIPETRO)

tambm distriburam os Informativos Primeira Mo e Jornal do

Sindipetro, respectivamente.

Em sua defesa, a candidata a presidente questiona como tais

fatos, em relao a uma eleio realizada em um pas continental, poderia ter

repercusso no pleito.

Realmente, razo assiste aos representados.

O Sindicato dos Professores no Distrito Federal (SINPRO/DF), afirma, em manifestao s fls. 954-957 da AIJE 1943-58, que no realizou gasto com publicidade durante a campanha eleitoral de 2014 e

que usa um jornal como forma de comunicao de seus diretores com

professores da Rede Pblica do Distrito Federal, possuindo um informativo

vinculado categoria, em face de seus pleitos e interesses, com distribuio

bimestral.

Assevera que no efetuou atos de propaganda, mas apenas

utilizou uma lauda do citado informativo para fazer uma anlise das

candidaturas Presidncia da Repblica, alm do que todas as veiculaes

feitas na mdia ocorreram fora do perodo eleitoral.

De igual modo, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de So Paulo, s fls. 21.028-1.029, afirmou que seus gastos com publicidade de 2014 foram maiores que os de 2013, devido s

eleies para a Diretoria Estadual, Executivas de Subsedes e Conselhos

Regionais e Estaduais, que se realizam a cada trs anos e ocorreram em maio

de 2014.

Por seu turno, a Federao nica dos Petroleiros (FUP) igualmente aduziu que no houve nenhum gasto com publicidade no perodo

da campanha eleitoral e que a comunicao com a categoria realizada pelo

stio www.fup.org.br, bem como pelo peridico semanal denominado Primeira

Mo [...] (fl. 1.098 da AIJE 1943-58).

O Sindicato nico dos Trabalhadores em Educao de Minas Gerais SindUTE/MG, tambm se pronunciou, afirmando que [...] em nenhum material institucional veiculado houve meno a qualquer candidatura,

partido ou a eleio de 2014, especialmente ao pleito eleitoral (fl. 1.316 da

AIJE 1943-58).

Acrescenta que o volume de publicidade institucional em 2014

absolutamente condizente com uma entidade que representa quase meio

milho de servidores pblicos, trabalhadores da rea de educao (fl. 1.317 da

AIJE 1943-58).

De igual modo, o Sindicato dos Trabalhadores nas Indstrias de Refinao, Destilao, Explorao e Produo de Petrleo nos Estados do Paran e Santa Catarina (SINDIPETRO/SC) aduziu que seu nico gasto com publicidade se refere edio do Jornal Sindipetro PR/SC,

rgo oficial de comunicao dirigido exclusivamente aos empregados e

aposentados de sua base de representao, em todo o ano letivo (fl. 1.426 da

AIJE 943-58).

Desse modo, v-se que os fatos narrados pelos autores dizem

respeito ao contedo de panfletos, informativos, tabloides, veiculados por cinco

sindicatos de nvel estadual que, supostamente, consubstanciariam abuso de

poder econmico ou mesmo doao indireta.

Apesar de possuir temas variados, como greve, mobilizao de

magistrio, violncia nas escolas, crticas reduo do papel do Estado, existe

realmente a comparao entre governos.

Ainda que se pudesse reconhecer eventual excesso dos atos

narrados e imputados a tais entidades, importante ponderar que, considerado

cada fato individual, era cabvel a adoo das vias legais cabveis para cessar

eventual infrao, como, alis, verificou-se nos episdios que envolveu o

Sindicato nico dos Trabalhadores em Educao de Minas Gerais (SIND-UTE-

MG), em que a Coligao Todos por Minas formulou diversas representaes

eleitorais contra a entidade, originando decises de procedncia no mbito do

Tribunal Regional mineiro e recursos nesta Corte Superior (Recursos Especiais

4770-79, 4993-59, 4948-28, 4981-18, dentre outros).

Alm dos efeitos dessas publicaes terem sido

majoritariamente contido pela prpria Justia Eleitoral, correta a afirmao do

Ministrio Pblico Eleitoral, em seu parecer, de que: Aqui, mais uma vez, h

que se ter em vista que as condutas no ostentam capacidade de macular o

equilbrio do pleito, uma vez que os aludidos sindicados, alm de terem

espectro meramente estadual, tm a sua propaganda limitada aos seus

filiados.

Rejeito, tambm, a configurao da prtica abusiva, sob tica econmica, em relao a esse fato.

XI Transporte de eleitores por ONG em comcio de Petrolina/PE, no dia 21.10.2014.

Narra-se que, em 21.10.2014, os candidatos e a coligao

requeridos teriam realizado, na cidade de Petrolina/PE (vizinha a cidade de

Juazeiro/BA), um grande comcio com a presena de milhares de pessoas. Tal fato tambm foi suscitado na AIME 7-61.

Asseveram que, como faria prova um vdeo anexado, as

pessoas participantes foram transportadas para o local, por meio de caravanas

de nibus oriundas de diversas cidades do pas, sobretudo dos Estados de

Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Cear e Sergipe, o que foi

financiado por entidades que compe a associao Articulao no Semirido

Brasileiro (ASA).

Defendem que tal procedimento seria ilegal, uma vez que

constitui financiamento em favor da campanha dos requeridos por entidades

sem fins lucrativos que recebem recursos do Poder Pblico (proibida de doar

nos termos do art. 24, X, da Lei 9.504/97), em evidente abuso do poder

econmico.

Dilma Vana Roussef sustenta a irrelevncia desse fato (fl.

8.327), considerada a campanha presidencial e a realizao de um comcio, no

interior do Estado de Pernambuco, em 21.10.2014, alm do que caberia aos

autores provarem o financiamento irregular de transporte de eleitores.

A Articulao no Semirido Brasileira (ASA), instada a se

manifestar sobre esse fato, afirmou se tratar de uma articulao de

organizaes da sociedade civil voltadas para a viabilizao do semirido

brasileiro atravs de processos e polticas de convivncia com o semirido (fl.

1.096 da AIJE 1943-58) e que rene trs mil organizaes em todo o semirido

brasileiro consistentes em sindicatos, cooperativas, movimentos de mulheres,

grupos de economia solidria e outros.

Afirma que, anteriormente, j tinha sido realizado ato pblico

em Feira de Santana, em 13.11.2007, para reivindicar do Governo Lula a

continuidade do Programa de Cisternas, que contou com 5.000 agricultores.

Alm disso, narra que tambm foi realizado outro ato, em 20.12.2011, em

Juazeiro/BA e Petrolina/PE, no incio da primeira gesto da Presidente Dilma,

com 15.000 agricultores, contra a possibilidade de restries dos respectivos

convnios.

Desse modo, aponta que realizados em 21.10.2014 um

terceiro ato pblico em Juazeiro-BA e Petrolina-PE, em defesa do semirido e

pela reafirmao da poltica de convivncia com o semirido, para o qual,

segundo nosso costume, convidamos inclusive a Presidente da Repblica (fl.

1.097 da AIJE 1943-58).

Em face dessas explicaes, pondere-se o que apontou a

PGE, no sentido de que se est diante de conduta por si s inapta a influenciar

negativamente o pleito, por se tratar de evento isolado, sem condio de

repercutir em uma eleio presidencial.

Por essa razo, tambm afasto tal fato para fins de configurao de abuso de poder.

XII Uso indevido de comunicao no horrio eleitoral por veiculao de fatos negativos do adversrio

Os representantes tambm argumentaram que houve uso

indevido dos meios de comunicao social em razo da utilizao de horrio

eleitoral gratuito no rdio e na televiso, para ataques aos candidatos

adversrios mediante a difuso de inverdades. Tal fato suscitado na Ao de Investigao Judicial Eleitoral 1943-58 e na Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-63.

Alegam que isso se averiguou em relao questo do piso

salarial dos professores, com indicao de trs udios em que se destacaria

que os professores de Minas Gerais receberiam baixos salrios e que no

alcanaram o piso nacional do magistrio, acusao que era falsa conforme

era do conhecimento da Advocacia Geral da Unio.

Tambm destacaram a questo do tema da tarifa de energia

eltrica, com indicao de trechos de um udio e um vdeo, ao fundamento que

o candidato da Coligao representante teria incremento o valor de tal tarifa, o

que teria sido desmentido pela prpria Agncia Nacional de Energia Eltrica.

Igualmente, apontou-se outros quatros udios/filmes,

relacionados a processos contra veculos de comunicao e jornalistas, bem

como promessa da construo de hospitais regionais.

Ressalto que, em alegaes finais, os investigados alegaram

que, em sede de ao de impugnao de mandato eletivo, se imputa o uso

indevido dos meios de comunicao social de que trata especificamente o art.

22, caput, da LC 64/90, apurvel em sede de ao de investigao judicial

eleitoral. Defenderam que o horrio eleitoral gratuito no se encaixa naquele

conceito de veculos ou meios de comunicao social, dirigindo-se, assim, s

emissoras de rdio e televiso ou imprensa de modo geral.

De fato, o horrio eleitoral gratuito possui a finalidade

especfica de divulgao de propostas ou mesmo crticas s aes dos

adversrios, no se prestando a amplificar mentiras. Ocorre que, como bem

ponderou a PGE: eventual propaganda negativa realizada em tal tipo de

propaganda poderia ser imediatamente combatida por meio do direito de

resposta, que se revelaria um remdio eficaz, pois puniria o infrator com a

perda do tempo de propaganda corresponde infrao.

Alm disso, curial notar que

o uso indevido dos meios de comunicao se d no momento em que h um

desequilbrio de foras decorrente da exposio massiva de um candidato

nos meios de comunicao em detrimento de outros" (REspe n 4709-68/RN,

rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 10.5.2012).

Assim, no vislumbro, ainda mais no ambiente do horrio

eleitoral gratuito, tal infrao, mesmo se estivssemos diante de um contexto

de massiva exposio inverdica de fatos a adversrios na campanha, existem

meios eficazes de combate dessa conduta previstos na prpria Lei 9.504/97,

como bem ponderou o Parquet.

Dessa forma, tambm no reconheo a alegada conduta abusiva.

Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61.

Examino os fatos especficos suscitados, exclusivamente, na Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61.

XIII Fraude diante da disseminao de falsas informaes a respeito da extino de programas sociais.

Na inicial da Ao da Impugnao de Mandato Eletivo 7-61,

noticiou-se que, durante o perodo da campanha, surgiu a denncia de que

uma linha telefnica estaria enviando mensagem, cujo teor afirmava que, caso

o usurio fosse participante do Programa Bolsa Famlia, o ttulo de eleitor era

monitorado e, se o voto fosse computado contra a Presidente Dilma Roussef, o

benefcio seria automaticamente cancelado, indicando a afirmao Vote 13.

O fato foi registrado pelo stio do Movimento Queromedefender,

sobretudo em sua pgina no Facebook e, em contato com o referido nmero,

se depreendia, a princpio, que se tratava de uma empresa de telemarketing e

o celular era oriundo do Rio de Janeiro.

O autor defende que a mensagem transmitida a vrios

usurios de celular, de forma aleatria, assume o papel de propaganda

eleitoral, sendo evidente a sua ilegalidade (fl. 61).

Esse fato foi objeto da Representao 1795-47, julgada extinta,

sem resoluo de mrito, em razo da perda superveniente do interesse de

agir, conforme deciso por mim proferida em 3.11.2014.

No entanto, afirmam os autores da ao (p. 60 da AIME 7-61)

que houve o indeferimento da liminar, apenas em razo da suposta gravidade

da medida de corte da linha telefnica requerida na inicial, sem que houvesse

o conhecimento do usurio.

Quanto imputao, bem afirmou o Parquet:

[...] no que se refere ocorrncia de fraude por meio de disseminao de informaes falsas, divulgadas por mensagem de celular, a respeito da excluso do eleitor de programas sociais caso seu voto no fosse para os representados, no ficou comprovada nos autos a autoria da conduta. Apesar da reprovabilidade da conduta em questo, no se produziu prova hbil a demonstrar que ao menos os representados dela tivessem prvio conhecimento. Sem adentrar na questo da capacidade lesiva de tal fato, no se pode admitir a punio dos representados mngua de elementos que demonstrem minimamente qualquer ligao deles com a conduta.

Invivel, assim, a considerao desse fato, tal qual exigido

pelos autores da AIME.

XIV Publicidade institucional em perodo vedado no stio Portal Brasil

Na Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61, os

representantes afirmam que o Portal Brasil divulgava matrias que nada tinha

a ver com o exigido carter educativo, informativo ou de orientao social da

publicidade institucional, de resto totalmente proibida no perodo, como se v

das respectivas manchetes, que tambm possuem links para o contedo dos

artigos correspondes (fl. 19 da AIME 7-63).

Na inicial, as manchetes destacadas referem-se queda do

desemprego, melhorais na sade, lanamento da carteira de trabalho digital,

vistoria de obras do Projeto de Integrao do Rio So Francisco, dentre outras,

que, na viso dos autores, consubstanciariam vigorosa propaganda eleitoral

em prol da candidata reeleio por meio das pginas oficiais, tendo sido tais

matrias exploradas no horrio eleitoral gratuito.

Embora se argumente que tal prtica teria sido reiterada,

entendo que, conforme asseverou a PGE, a simples divulgao de

propaganda em stio eletrnico de rgo pblico no tem relevo para

comprometer a lisura de uma disputa presidencial.

Igualmente rejeito tal fato para fins de configurao da prtica de abuso de poder poltico.

Do mrito

Fatos descritos nas iniciais Parte 2

I DESPESAS IRREGULARES, DIANTE DA FALTA DE COMPROVANTES IDNEOS DE PARCELA DAS DESPESAS DE CAMPANHA

No mbito da Ao de Impugnao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61 e da Representao 8-46, os autores argumentam que ficou comprovado o desvio de montantes expressivos de recursos empregados

na campanha, inviabilizando-se o controle da correta destinao deles por

parte da Justia Eleitoral, alm do que tais despesas informadas no refletiram

adequadamente a realidade, configurando, portanto, o abuso do poder

econmico em face da ocultao sucedida.

Tal fato diz respeito s irregularidades apuradas em relao

a despesas de campanha por intermdio de contratos firmados com trs

empresas associadas ao setor grfico: a) REDE SEG Grfica Eireli; b) VTPB

Servios Grficos e Mdia Exterior Ltda. e c) FOCAL Confeco e

Comunicao Visual Ltda.

Durante a instruo, foi realizada percia contbil por

tcnicos do Tribunal no mbito da AIJE 1943-58 (Laudo Pericial Contbil n

1/2016 - fls. 2.471-2.687) quando ainda o processo estava sob relatoria da Min.

Maria Thereza de Assis Moura.

Desde logo, observo tambm que, em relao a uma quarta

empresa inicialmente mencionada (Editora Atitude), apontou-se no citado

Laudo Contbil 1/2016 elaborado pela equipe deste Tribunal, que ao se

analisar a prestao de contas da chapa presidencial eleita em 2014, no

foram declarados gastos eleitorais realizados junto Editora Atitude. Tal fato

tambm foi constatado pela equipe de peritos designados quando da visita

tcnica realizada em 17 de maio de 2016 (fl. 2.485 da AIJE 1943-58).

Nesse trabalho realizado para o exame da situao contbil

das citadas empresas, assinalou-se que a Empresa Grfica REDE SEG no

apresentou contabilidade, ao argumento que era optante do Simples at o ano

de 2013 e dispensada de escriturao comercial, razo pela qual tambm no

organizou a escriturao em 2014 (fl. 2.494 da AIJE 1943-58).

De outra parte, os tcnicos consignaram a ausncia de

outros elementos que permitissem aferir a existncia em 2014 de bens e

equipamentos de transformao ou notas de aquisio, com a aparente

incapacidade operacional da empresa e a entrega a outra pessoa jurdica

(Graftec Grfica e Editora Ltda. Epp) de insumos de produo, recebidos em

outro local (fl. 2.487 da AIJE 1943-58).

Alm disso, destacaram que no foi apresentado contrato de

sublocao, no tendo a subcontratada apresentado vnculos empregatcios

em 2013 e 2014 (fl. 2.488 da AIJE 1943-58). Tambm se apontou que a

empresa Rede Seg informou que teria 10 colaboradores Free-lancers (fl. 2.491

da AIJE 1943-58) e seria gerida por Vivaldo Dias da Silva, na condio de

scio-administrador, o qual foi eletricista da empresa GRAFTEC, respectiva

subcontratada.

Nesse mesmo laudo inicial e em face de quesito formulado

pelo Partido dos Trabalhadores (PT), afirmaram os peritos que foram

identificados R$ 6.143.130,95 em pagamentos efetuados Rede Seg, sendo

que R$ 6.078.88,95 foram considerados regulares do ponto de vista da

legislao eleitoral e restrito ao prazo do exame da chapa eleita (fl. 2.500 da

AIJE 1943-58).

Indicou-se, ainda, que a anlise da terceirizao do servio

prestado estar restrita a confirmao ou no da subcontratao (fl. 2.503 da

AIJE 1943-58).

Os investigados, por seu turno, defendem, em relao

REDE SEG, que o volume de produtos adquiridos da referida grfica foi muito

menor que o da empresa VTPB e que ficou comprovado com as empresas

subcontratadas o vnculo com os irmos Zanardo, bem como provada a

produo compartilhada envolvendo a empresa GRAFTEC, cuja parceria foi

confirmada pela testemunha Edilson Jos Rocha, em depoimento s fls. 5.509

e 5.514 da AIJE 1943-58.

Tambm apontaram, em alegaes finais, que o fato de

GRAFET no possuir funcionrios registrados no seria forte evidncia de

fraude, porque, conforme se depreende do depoimento da mesma testemunha

fl. 5.525 da AIJE 1943-58, chegou ela a se deparar com cerca de 40 pessoas

e na Ultraprint com 200 pessoas.

Ademais, sustentam que embora os peritos judiciais tenham

apontado algumas remessas sem o devido documento auxiliar de

conhecimento do transporte eletrnico, para comprovao da efetiva entrega

das mercadorias, ficou indicado no parecer divergente (produzido pela defesa)

que se referem a produto entregue na Realiza Transportes e Redespachado,

o que deveria ter sido identificado pelos prprios peritos do laudo oficial.

Por conseguinte, o laudo informa, ainda, no tocante empresa VTPB Servios Grficos e Mdia Exterior Ltda, que foram pagos, em razo da contratao de gastos eleitorais pela chapa presidencial eleita em

2014, a importncia de R$ 22.398.620,00, tendo sido apresentados

documentos fiscais de empresas subcontratadas e de aquisio de insumos no

valor de R$ 5.708.447,10, com lucro lquido declarado de R$ 18.781.671,12 (fl.

2.529 da AIJE 1943-58). Indica-se que apenas 21,5% das receitas

contabilizadas obtidas com as vendas de produtos foram comprovadas

mediante a apresentao de documentos fiscais (fl. 2.529 da AIJE 1943-58).

Assinalaram os peritos, tambm, que a documentao

apresentada e destinada a comprovar a subcontratao no era suficiente para

comprovar a efetiva e inequvoca prestao de servios e materiais produzidos

na campanha presidencial em sua integralidade.

Nesse ponto, os investigados, em suas alegaes finais,

sustentam que houve aqui uma inconsistncia grave no Laudo inicial,

porquanto o Colegiado de Peritos Judiciais, aps a anlise do Parecer

Contbil Divergente preparado pelo Assistente da Requerida, bem como dos

documentos que so parte integrante do mesmo, retificaram a diferena

inicialmente apontadas por eles, de 423.994.076 unidades de produtos sem

cobertura documental que foram produzidos e entregues, para 2.364.000

unidades, o que representa uma diferena global de campanha de nfimos R$

109.355,80 (fls. 7.882-7.883 da AIJE 1943-58).

Alegam, ainda, que os peritos teriam se negado a analisar

os documentos recebidos em sua totalidade, o que permitiria uma concluso

mais adequada e precisa ao julgamento da causa. Acrescentam que os

modelos no analisados pelos Peritos do Juzo e colocadas apenas amostras

no Parecer Divergente, foram apresentados de forma ordenada e vinculados as

notas fiscais de venda, pela prpria empresa VTPB (fl. 7.885 da AIJE 1943-

58).

Defendem tambm que, caso os modelos produzidos,

apresentados em conjunto com as notas fiscais pela empresa periciada ao

Colegiado de Peritos tivesse sido julgado insuficiente, incompleto ou ilegvel,

informamos que de forma um pouco mais trabalhosa, poder-se-ia localizar os

mesmos, alternativamente na prestao de contas entregue ao TSE e, ainda,

entregues pela empresa periciada no item 31, que so as matrizes coloridas

do que foi produzido e apresentado pela VTPB Percia (fls. 7886-7.887 da

AIJE 1943-58).

Em relao terceira empresa envolvida (Focal Confeco e

Comunicao Visual Ltda), a percia contbil do TSE identificou inmeras

inconsistncias nos registros contbeis da empresa, sobretudo notas fiscais

canceladas de servios no prestados campanha, porm, remunerados pela

chapa presidencial eleita e registrado na contabilidade da empresa como

pagamentos recebidos em espcie. Ou seja, a empresa foi remunerada pela

campanha por um servio no prestado (fl. 2.554 da AIJE 1943-58), o que

pode representar simulao de prestao de servios.

Tambm foi identificada pelos tcnicos a existncia de notas

fiscais referentes aquisio de matrias de insumo, entregues a outras

empresas, mas sem documentao fiscal relativa subcontratao, inclusive

para fins de vinculao dos servios, alm do que a Focal cobrou da

campanha presidencial R$ 5,1 milhes em bens e servios que foram

subcontratados a outras empresas por R$ 1,5 milhes (fl. 2.555 da AIJE 1943-

58).

A respeito dessa empresa, alegam os investigados que: a)

eventuais erros contbeis e fiscais cometidos pela empresa periciada no

poderiam ser a eles imputados; b) com relao s fotos apresentadas no

parecer divergente e fornecidas pela empresa periciada, seria possvel rastre-

las para identificao a respeito do evento que ilustram; c) o cancelamento de

eventos no revelam irregularidade, porque a empresa contratada efetivamente

teve custos com montagem e desmontagem; d) as fotos s fls. 8.2135-8.293 do

parecer divergente sinalizam a produo de 2014.

Concluem os investigados, no corpo de suas alegaes

finais e considerada toda a exposio assinalada (fl. 7.880-7.881 da AIJE 1943-

58) que, conforme a concluso do Parecer Tcnico Divergente emitido24, as

afirmaes do Laudo Contbil 1/2016 seriam limitadas e incompletas e

omitiriam ou interpretariam mal as ocorrncias, com erros relevantes apurados.

Afirmam que, embora o Parecer Tcnico Contvel Divergente apresente a

tcnica de apurao e demonstrao diferenciada, corrige e complementa o

laudo o Laudo Pericial inicial, convergindo para a mesma concluso das

empresas periciadas, quais sejam:

(i) as empresas sob percia existem de fato e de direito,

portanto no so de fachada;

(ii) as empresas produziram, seja em estabelecimento

prprio ou de terceiros, os materiais contratados pela

campanha eleitoral Dilma/Temer e

(iii) existem evidncias suficientes que comprovam que

os materiais contratados foram efetivamente entregues

campanha eleitoral Dilma/Temer.

Anoto que no bojo da discusso quanto questo da

regularidade de gastos eleitorais contabilizados na prestao de contas dos

24 Parecer contratado pelos investigados para confrontar o parecer exarado pelo corpo tcnico do TSE.

representados, houve a deciso de quebra de sigilo bancrio e fiscal de

pessoas jurdicas e pessoas fsicas envolvidas, de 13.10.2016 (fl. 4.436 da

AIJE 1943-98), para avaliao se reuniam condies financeiras e estruturais

para atender os servios informados.

No relatrio inicial emitido pela autoridade policial (Ncleo de

Inteligncia da Polcia Federal Ofcio 11.852/2016), em virtude do

afastamento do sigilo bancrio e com a considerao do laudo contbil emitido

pela unidade tcnica do TSE e, tambm, de imagens das sedes em fontes

abertas, de pesquisas em bancos de dados abertos e fechados, constatou-se

inconsistncias e foram expostas informaes quanto regularidade dessas

empresas, enumerando-se, em sntese apertada:

a) coincidncia de endereos das empresas

contratadas e subcontratadas;

b) ausncia de identificao de sedes, aparente falta de

capacidade operacional (mesmo das subcontratadas) para

execuo dos servios;

c) algumas empresas investigadas teriam efetuado

doaes a campanhas de 2006 a 2014 (a exemplo da

Graftec);

d) sucesso de proprietrios entre os

empreendimentos;

e) alterao de objeto social s vsperas do perodo

eleitoral de 2014 (de comrcio varejista de jornais e revistas

para impresso de material publicitrio);

f) embora uma das empresas (VTPB) tenha recebido

R$ 23.419.710,00, os repasses a empresas subcontratadas

foi de R$ 6.927.660,84 e se apontou um gasto com insumos

de R$ 8.594.579,77;

g) emisso de notas fiscais em valores superiores

queles concernentes ao valor pago empresa

subcontratada;

h) vinculao de proprietrio de uma subcontratada a

membro do partido (tesoureiro) da candidata a presidente e

que desempenhava funo no gabinete da Presidncia da

Repblica;

i) houve pagamentos de valores para empresas de

ramos empresariais diversos e no declaradas como

subcontratadas para atuar como prestadoras de servios na

campanha eleitoral;

j) uma das empresas no declaradas como

subcontratada (Primum) possui dois scios, sendo um deles

uma nova empresa com sede nas Ilhas Virgens Britnicas e

cujo responsvel possuiu anteriormente vnculo

empregatcio com a Construtora OAS;

k) dentre outros fatos semelhantes envolvendo outras

pessoas fsicas, integrantes de um mesmo ncleo familiar

receberam importncias individuais que totalizaram R$

532.000,00, todos na condio de pessoa fsica;

s fls. 1-89 do citado relatrio inicial da autoridade policial,

exps-se a seguinte concluso:

Com a anlise dos dados obtidos a partir da suspenso do sigilo bancrio das empresas, relatrios realizados pelo Tribunal Superior Eleitoral e demais informaes tratadas neste relatrio, surge a hiptese de que os recursos em tese destinados campanha eleitoral foram, na verdade, desviados e direcionados ao enriquecimento sem causa de pessoas fsicas e jurdicas diversas para benefcio prprio ou outro hiptese, que no exclui a primeira os recursos foram desviados e direcionados a pessoas ainda no identificadas, com interposio das pessoas fsicas e jurdicas diversas.

Em ambas as hipteses, existem ainda lacunas que necessitam de complementao, o que s seria eficiente com a realizao de diligncias de forma diferente da que foi empregada nas visitas tcnicas anteriores. Necessrio que as aes sejam simultneas, abrangentes, realizadas sob sigilo e discrio, com esforos concentrados destinados obteno imediata de dados das diversas pessoas fsicas e jurdicas identificadas, pois a ao esparsa possibilitar articulao entre os envolvidos, alongamento

inadequado ao procedimento sumarssimo previsto para a ao de investigao judicial eleitoral (art. 21 da Lei Complementar n 64/90) e retirar o xito da medida.

Observe-se que ocorreu durante visitas tcnicas realizadas por peritos do TSE, quando expertos identificaram diversas inconsistncias, como prepostos informais ou proprietrios apenas formais, alm da insuficiente estrutura fsica das empresas visitadas, ficando ao crivo das pessoas vinculadas apresentarem ou no os dados solicitados, situao que retira a eficincia e celeridade da apurao eleitoral. Sendo aparente o conluio entre as pessoas ora identificadas, imprescindvel a coordenao da ao nos moldes citados.

Para tanto, a obteno imediata de documentos ou cpias dos mesmos combinada com diligncias investigativas outras, como entrevista de todas as pessoas de interesse, em ao coordenada e sigilosa, de esforo concentrado, possibilitar ao Estado criar cenrio adequado busca da verdade, evitando a criao de verses para os fatos sob a apurao.

Essa ao coordenada e simultnea seria realizada por tcnicos do Tribunal Superior Eleitoral, com apoio da Polcia Federal, com emprego do poder previsto no art. 21 da Lei Complementar n 64/90 e aes respaldadas nos artigos 2 e 6 da Lei 1579/52, permitiriam o deslocamento de representantes do Tribunal Superior Eleitoral, como longa manus do Excelentssimo Senhor Corregedor Geral Eleitoral, aos locais identificados e a obteno imediata dos dados de interesse para a investigao em curso, tudo com o objetivo de ratificar ou retificar a hiptese de desvio dos valores em tese destinados campanha eleitoral. Grifo nosso.

Posteriormente, foi emitida a Informao n 32/2017 Asepa (fls.

6.311-6.342 da AIJE 1943-58), que se refere manifestao dos peritos

contadores do Juzo em face das manifestaes sobre as alegaes das partes

(fls. 5.673-5.707 da AIJE 1943-58).

Reafirmou-se que (fl. 6.341 da AIJE 1943-58):

Assim, no restaram evidenciados quaisquer documentos ou alegaes capazes de afastar os apontamentos dos Peritos do Juzo, ratificando-se as concluses apresentados por ocasio da Manifestao sobre o Parecer Divergente, quais sejam:

(i) A defesa no juntou documentos e provas materiais de efetiva entrega dos produtos e servios contratados pela chapa presidencial eleita em 2014; (ii) O parecer Divergente no apresentou respostas alternativas ou objetivas aos quesitos propostos pelas partes; (iii) O Ministrio Pblico Eleitoral indicou a existncia de fortes traos de fraude e de desvio de recursos de campanha. Grifo nosso.

O Min. Herman Benjamin determinou a realizao de

diligncias complementares pela Fora Tarefa, em 16.12.2016, para averiguar

se a contratao pelos responsveis da campanha presidencial de 2014 e o

consequente repasse de valores s empresas REDE SEG, VTPB e FOCAL,

em tese destinados campanha eleitoral, foram, na verdade, desviados ou

direcionados para enriquecimento sem causa de pessoas fsicas e jurdicas ou

a pessoas ainda no identificadas, com interposio de pessoas fsicas e

jurdicas diversas.

Consoante apontou sua excelncia em seu minudente relatrio,

foi apresentada nova manifestao da autoridade policial, por meio do Ofcio

11.852A2016, de 16.1.2017, que tem a seguinte concluso:

A anlise conjunta dos dados, a convergncia de indcios e a interpretao dos elementos colhidos com as naturais restries amplitude da atuao em seara eleitoral permitem concluir que h prova de que parte significativa dos valores oficialmente apresentados como destinados ao pagamento de servios grficos em prol de campanha de candidato presidncia da repblica em 2014 no foi, de fato, direcionado a essa atividade.

Com a anlise dos dados obtidos a partir da suspenso do sigilo bancrio, relatrios realizados pelo Tribunal Superior Eleitoral, diligncias em campo e demais informaes tratadas neste relatrio, pode-se ter como comprovada a hiptese de que parte do dinheiro em tese destinado campanha eleitoral foi, na verdade, desviado e direcionado a pessoas fsicas e jurdicas diversas para benefcio prprio ou de terceiros.

Da mesma forma, h indcios convergentes da ocorrncia de fatos com repercusso na seara criminal, especialmente pela existncia de elementos objetivos que apontam para a interposio de pessoas com a finalidade de ocultar ou dissimular a natureza, origem, disposio, localizao, movimentao ou propriedade de bens e valores. Para

aprofundamento, necessrio que Vossa Excelncia autorize o compartilhamento de provas de tudo o que foi produzido ao longo da AIJE para investigao em sede policial. Grifo nosso.

Mesmo aps a montagem de todo esse quadro ftico, cumpre

examinar alguns dos depoimentos colhidos, uma vez esto intimamente

associados aos fatos e envolvem as citadas sociedades empresrias.

Por pertinente, transcrevo o seguinte trecho do depoimento da

testemunha senhor Vivaldo Dias da Silva:

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Senhor Vivaldo, eu vou fazer uma nova advertncia para o senhor, porque o senhor j disse uma coisa e volta atrs na mesma audincia. Enfim, neste mesmo dia j fizemos perguntas que o senhor, no minuto seguinte, muda o seu depoimento. Por exemplo, o senhor disse que tinha como maior faturamento o Jquei, no ltimo ano, por R$ 16 mil, e o senhor volta atrs, neste mesmo depoimento. Neste mesmo depoimento, o senhor disse que faturou cerca de R$ 6 milhes, com a campanha. Voltou atrs agora, ao dizer que no se lembra. E tambm o senhor citou, h algum tempo atrs, que houve o faturamento de R$ 17 milhes no ano de 2014. Onze milhes de diferena em relao ao que o senhor recebeu da campanha, pelo que o senhor disse da primeira vez. Ento, eu vou fazer uma nova advertncia para o senhor, sobre a importncia de o senhor dizer a verdade. Porque est se configurando todos os requisitos de um crime de falso testemunho aqui. E, caso esse falso testemunho persista, o senhor pode sofrer ordem de priso, neste momento. Ento, reitero: quanto o senhor recebeu da campanha Dilma/Temer, em 2014? E qual foi o seu faturamento em 2014? Faturamento anual.

(...)

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Dois mil e quatorze e dois mil e quinze? A campanha da Dilma... 2014, a campanha, que eu faturei 2014 at 2015, no caso, aproximadamente dezessete milhes. Nesses dezessete milhes, est referido os seis milhes e meio da campanha Dilma.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento explique para mim os onze milhes faltantes. De onde veio o faturamento de onze milhes?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): No lembro.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Senhor Vivaldo, eu vou dar uma oportunidade para o senhor, efetivamente,

dizer a verdade dos fatos aqui. a oportunidade que o senhor tem, perante a Justia, de dizer a verdade sobre o ocorrido. At o momento, o senhor, como proprietrio, o nico proprietrio da Rede Seg, o senhor no foi capaz de dizer faturamento, esclarecer a situao de funcionrios, os fornecedores. Pergunto novamente. Vou comear com a primeira pergunta que eu fiz para o senhor: o senhor o efetivo proprietrio da empresa Rede Seg e o responsvel pela administrao da empresa?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Sim.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O senhor diretamente envolvido na administrao da empresa?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Sim.

[...]

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Bom, doutor, eu estou determinando a priso por falso testemunho do Senhor Vivaldo Dias da Silva, por claro depoimento falso em juzo. Estou representando ao Ministrio Pblico Federal, o Doutor Nicolau j est acompanhando aqui a audincia. Inclusive, fique vontade, Doutor Nicolau, para alguma observao, mas obviamente, sob referendo do Ministro , ficaram claras aqui, na audincia, mentiras explcitas do Senhor Vivaldo Dias da Silva em juzo e o senhor estava compromissado, senhor Vivaldo. Em razo disso, o senhor ser processado criminalmente e ser hoje, levado para a delegacia, por falso testemunho. Mas, obviamente, dou ao senhor uma ltima oportunidade.

Est feita a representao, mas, pelo rito, pelo processo penal, numa hiptese de falso testemunho, o acusado ainda tem uma ltima oportunidade. Ele tem a oportunidade de se retratar, de decidir por contar a verdade. O senhor entenda. O senhor est sendo preso; preso por mentiras. Eu estou dando a ltima oportunidade ao senhor para que aqui, perante o juzo, como uma medida de respeito ao juzo e lei, que o senhor diga a verdade. O senhor tem, neste momento, alguma retratao a fazer sobre o que o senhor disse at agora? Ou o senhor confirma todo o depoimento, com mentiras claras que o senhor apresentou aqui, em juzo?

Aps pausa ocorrida na audincia, em que a testemunha

conversou com seu advogado, a depoente asseverou que:

Ento, primeiro eu quero pedir desculpas pra vocs a... ter atrapalhado a esse encontro, no ter uma diligncia. Mas, na verdade mesmo, a Rede Seg o Rodrigo mais que tem a administrao l da Rede Seg e ele me ajuda.

Prosseguindo-se no depoimento:

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O senhor voltou atrs no que o senhor tinha dito num primeiro momento. Para reformular a pergunta aqui, a primeira vez que eu perguntei ao senhor, o senhor disse que o senhor era o administrador, o proprietrio da Rede Seg. E que esse um milho e setecentos mil que foi transferido ao Rodrigo Zanardo era um emprstimo, pela amizade que o senhor tinha com ele. Em um segundo momento, depois de conversar com o advogado, o senhor retornou e disse: olha, eu estou voltando atrs pediu desculpa, enfim e dizendo, na verdade, no linguajar popular, o senhor seria o que chamam de laranja. O senhor seria proprietrio apenas no papel. Quem era dono da empresa era o Rodrigo. Ento, vou fazer novamente a pergunta que o senhor vai responder: esse um milho e setecentos mil no pode ser um emprstimo do senhor para o Rodrigo, porque o senhor no o proprietrio de fato da empresa. Ento, o que foi esse um milho e setecentos mil reais? E por que o senhor disse aqui que um emprstimo?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Porque eu tava conversando l com o pessoal da... com o Rodrigo l e eu sugeri falar que... que o que falar aqui falou pra mim falar que era emprstimo.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O senhor sugeriu falar isso? E o que ele disse?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Foi um emprstimo que eu depositei pra Rede Seg.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Mas ele dono da Rede Seg. O senhor acabou de dizer que ele dono da Rede Seg.

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Administra a Rede Seg. Quem tem toda a movimentao da Rede Seg ele.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ele o dono da Rede Seg.

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): (silncio do depoente)

[...]

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): Gustavo Guedes, advogado de Michel Temer. O senhor disse tambm, Senhor Vivaldo, no comeo, que, quando o senhor ainda no estava contando toda a

verdade, a sua participao no lucro da Rede Seg tinha sido de 600 mil reais. O senhor se recorda de ter dito isso?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Participao de

600 mil reais?

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): O seu ganho com a Rede Seg nessa operao toda, nessa produo de material grfico para a campanha da Dilma Rousseff, quando perguntado no comeo, o senhor disse que recebeu 600 mil reais. O senhor disse, at ento, que era scio da empresa e que o senhor teria recebido 600 mil reais. O senhor confirma isso?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): 600 mil reais veio para a Rede Seg, n?

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): No, no. A Rede Seg, o senhor tambm j disse que ela faturou da campanha do PT, da campanha da Dilma, enfim, R$ 6.100.000,00 (seis milhes e cem mil reais). O senhor confirma isso?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Sim, confirmo.

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): Ento, a Rede Seg recebeu R$ 6.100.000,00 (seis milhes e cem mil reais) pela produo de materiais na campanha de 2014, isso est ok, n?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Hum.

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): E o senhor disse, quando perguntado, quanto o senhor teria recebido por ser scio da Rede Seg, o senhor disse que tinha recebido 600 mil reais, o senhor se recorda de ter dito isso?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): No me lembro que eu falei que recebi 600 mil reais de lucro no.

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): Como o senhor no est lembrando vrias coisas, eu lhe digo que o senhor disse que recebeu 600 mil reais. O senhor confirma, ento, isso ou no?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): No.

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): Ento o senhor no

recebeu nada da Rede Seg na sua conta corrente?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Na minha conta pessoal, no.

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): No?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): No. Eu falei para o ministro aqui que na minha conta pessoal no vi esse valor de 600 mil reais no.

[...]

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): Obrigado. Eu que agradeo. Ento, s para no ter nenhuma dvida: o senhor s possui uma conta bancria, no Banco Bradesco? isso? E o senhor no se recorda de ter havido um depsito nela de 600 mil reais?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Na minha conta, no.

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): Na sua conta no?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): No. Se quiser o extrato da minha conta, eu posso puxar pra vocs.

[...]

O DOUTOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): Dr. Bruno, eu preciso de uma ajuda do senhor em relao a Senhora Patrcia, eu no estou com esse documento da Polcia Federal aqui, mas na quebra de sigilo da Rede Seg aparece uma Patrcia Brgida Fry como algum que recebeu R$ 125.236,22 (cento e vinte e cinco mil, duzentos e trinta e seis reais e vinte e dois centavos). Eu queria saber se essa Patrcia que o Senhor Vivaldo menciona, se essa Patrcia com esse nome Brgida Fry ou Brgida Patrcia? Est um pouco estranho isso no relatrio da Polcia Federal.

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Posso responder?

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Pode responder.

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): a prpria pessoa.

O DOUTOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): Ento o senhor identifica Patrcia Brgida Fry como sendo a Patrcia que fazia os pedidos da campanha junto com o Senhor Rodrigo Zanardo?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Sim.

[...]

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Vou perguntar testemunha, vou fazer pouqussimas perguntas, mas a verdade tem que ser expressa e clara. No vou

usar termos tcnicos, no vou usar termos jurdicos. Quem o dono, realmente, da empresa?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Rodrigo.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral

Eleitoral): Ento, o depoente seria apenas vou usar a linguagem vulgar, comum, um laranja. isso?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Eu tenho meu nome l na Rede Seg.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral

Eleitoral): O que estou perguntando... veja estou dando uma ltima oportunidade. O depoente acaba de dizer que o Rodrigo o dono real, verdadeiro da empresa. Estou perguntando se o depoente , ento, um laranja.

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Sim.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Sim, um laranja? isso?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Sim.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Quais os valores que foram recebidos pela empresa em decorrncia da campanha e de onde vem essa diferena de seis milhes para dezessete milhes? O que isso?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Pra falar verdade, eu no sei.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Mas quem o orientou sobre estes valores?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): O Rodrigo.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Eu reitero a importncia de falar a verdade.

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): O Rodrigo.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Ento, o Rodrigo o orientou sobre os seis milhes e tambm sobre os dezessete milhes. isso?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Sim.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral

Eleitoral): Ontem, na reunio que tiveram, e nas reunies anteriores, o Rodrigo passou orientaes, em outra palavras, o treinou sobre o que iria dizer na audincia de hoje?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): No. Conversei com ele, mas ele no treinou nada de o que falar no, s falou para mim falar a verdade.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Mas o senhor acabou de dizer que a informao dos seis milhes e dos dezessete milhes foi passada pelo Rodrigo.

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Sim.

[...]

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Essa expresso tcnica administrador eu imagino que no veio do seu vocabulrio. Pelo que eu compreendo aqui do seu grau de entendimento da prpria administrao da empresa. administrador ou dono? Vou repetir. dono verdadeiro?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): dono.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Minha ltima pergunta : que material de campanha foi efetivamente feito? E se material de campanha, no valor de mais de 6 milhes de reais. A resposta a essa pergunta vai decidir se eu mantenho ou no a decretao da sua priso em flagrante.

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Repete a pergunta, por gentileza.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Eu quero saber se houve prestao real de todos o servios contratados, ou melhor, contrato parece que no h, no valor de 6 milhes de reais.

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Existe, sim. O servio que foi feito pra campanha foi o servio de panfleto, cdula, santinho e jornal.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Mas em que volume?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): O volume exato de quanto praticamente eu no tenho, mas foi bastante coisa.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): E o que foi feito? Mas foi feito onde?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Foi terceirizado esse material. Foi feito na Margraf... na Margrfica, Grfica Rotativa, Fator e New Grafic.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Foram s essas, ento?

O SENHOR VIVALDO DIAS DA SILVA (depoente): Eu me lembro no momento s.

J em audincia realizada no dia 20.2.2017, foi ouvido Rodrigo

Zanardo, cujos trechos do depoimento destaco:

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento, teoricamente, quem respondia por tudo na campanha era a Rede Seg?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Era a Rede Seg.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E atravs do Senhor Vivaldo. isso?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): ... no.., eu que que estava frente disso. Porque ele no tinha.., como eu falei: a parte de burocracia era eu e a Mr... e a Mrcia.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Mas o senhor tinha ligao com a Rede Seg? O senhor era administrado da Rede Seg, alguma coisa assim, ou no?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): No. No posso dizer que era administrador. Os trabalhos que eu levo, eu tenho uma participao. Por exemplo, nesse caso, a gente fez uma... uma... gente at vendo um negcio de... ... SCP, alguma coisa assim, de, sei l, de coisa.., de conta particular, alguma coisa assim. Nesse caso. Mas no deu tempo. Trs dias para entregar o servio. Ele j tinha me dado e falou:

- , entrega, seno voc no vai pegar mais nada. A eu sa correndo. Liguei para um amigo meu, para me ajudar.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O que te levou a fazer isso?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Porque, por exemplo, tinha que... muito (ininteligvel) nas grficas: Margraf, Fator, Melting Color, Newgraf. Voc tinha que ficar ligando direto. Porque, por exemplo, s vezes voc manda alguma coisa para uma grfica,

grfica no... no te entrega, pe um servio na frente, te... te enrola com um servio que da casa deles, dirio. Eles vo e tiram o senhor. Ento, tem que ir l, acompanhar. Tem que s vezes.., tem que fazer isso. Tem que ir l, buscar o material, s vezes. Tem que ir l levar um... um CD, um arquivo, fotolito. Tem esse tipo de trabalho. E eu... eu tenho o dia a dia na minha grfica. Ento... eu tenho os meus clientes,tenho...

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento, o senhor deu esse servio de seis milhes - eu estou colocando palavra "deu" aqui entre aspas. Mas o senhor passou esse servio de seis milhes para a Rede Seg, porque o senhor no teria como administrar. isso?

(...)

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Agora, Senhor Rodrigo, uma coisa que para a gente importante aqui Ento, no fundo, pelo que o senhor me disse, quem assumiu toda a responsabilidade na campanha foi a Rede Seg, no ? Ainda que o servio fosse prestado por outras grficas, a que o senhor colocou. Como isso era feito, do ponto de vista formal? A Rede Seg fazia um contrato entre Rede Seg e Graftec? Como isso era feito?

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Nesse volume de seis milhes - vamos arredondar aqui para seis milhes se o senhor for dividir esse volume financeiro, na produo de material, j que o senhor conversou l com o Charles Capelia...

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Hum...

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): ... o senhor diria que, quanto disso que foi produzido pela Rede Seg, quanto disso que foi produzido por outra grfica? Quem que no final acabou produzindo esse material?

(...)

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): , por exemplo, a Rede Seg no rodou quarenta mil reais.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Nem quarenta mil reais a Rede Seg rodou?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): No rodou.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento, a, dos seis milhes, a Rede Seg, se foi quarenta mil, foi muito? isso?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Foi. Porque a bicolor voc tem que passar uma vez, duas vezes, voltar, passar o verso, o verso... Na Margraf... por exemplo, a Margraf foi a maior, foi um milho e algumas coisas. Eu tenho, t tudo tabelado. Porque assim, eu pus o material na Margraf, s que nesse... por exemplo, eu terminei e eles pediam outro. A a Margraf tava cheia...

(...)

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): No, no, eu tenho aqui, . Eu tenho aqui, Margraf foi um milho, oitocentos e quarenta e quatro; a Fator foi trezentos e treze; a Rotativa, cento e cinquenta e sete; a Melting Color, dois quatro dois - que, inclusive, a PF fez a... esqueci o nome... l, neles l... - e a Newgraf, trezentos e oitenta. A Log&Print fez vinte e um, setecentos e dezesseis.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): No se preocupe, Senhor Rodrigo. Aqui, s o que o senhor sabe. Tudo bem.

Agora, s uma situao que eu vou colocar para o senhor, que aconteceu aqui. A gente ouviu o Vivaldo, antes aqui - acho que o senhor sabe. O Vivaldo, numa audincia, um pouco conturbada, ele, num primeiro momento, afirmou que era o proprietrio da Rede Seg. Porm, no depoimento dele houve algumas inconsistncias e, ao final, o Vivaldo disse que no , de fato, proprietrio da empresa e que, na verdade, ele seria.., atuaria como um... no jargo popular, laranja. um sujeito que tem o nome na propriedade de uma empresa, mas que no , efetivamente, quem administra a empresa. E, nessa ocasio, o prprio Vivaldo afirmou:

- No. Quem administra o Rodrigo. O senhor sabe explicar a situao? O senhor tem alguma explicao para isso? Por que o Vivaldo falou isso? Se isso mentira? O que o senhor pode dizer?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Olha, eu no quero me pronunciar em relao ao depoimento dele. Eu no sei quai foram as circunstncias, ento eu prefiro no me pronunciar. Pode ser?

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Mas aqui o senhor afirma e aqui uma pergunta que quem o proprietrio e administrador da empresa Rede Seg no o senhor?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): No. Administro as coisas que eu levo. Por exemplo, se o cliente meu, eu levo para l,

eu administro para no dar nenhum problema com o meu cliente, entendeu?

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Mas, ento, como que funciona? Para deixar claro qual essa relao da Rede Seg com o senhor.

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): uma parceria. Uma parceria comercial.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Porque aqui tambm consta - e eu quero que o senhor... consegue explicar - que, na movimentao da Rede Seg, consta um valor, uma transferncia de trs milhes, quinhentos e vinte e oito mil da Graftec.

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Isso.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): S que a Graftec, pelo que o senhor disse, no prestou o servio.

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): No, no prestou.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Por que trs milhes e quinhentos e vinte e oito mil para a Graftec?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Isso... isso um emprstimo que a gente fez, que, inclusive, est no balano da Graftec de 2015, ou 14; est... est escriturado.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento, o emprstimo da Rede Seg para a Graftec?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): . Para a Graftec.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): De trs milhes e quinhentos e vinte e oito mil?

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O senhor disse que o Vivaldo trabalhou para o seu pai.

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Trabalhou.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O que ele fez para o seu pai?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Ah, na poca ele era motorista. Ele.., ele fez a parte eltrica, a ele ficou se envolvendo mais com a parte...

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Qual a condio de vida do Vivaldo? Porque ele um empresrio, que no ano de 2014, ele faturou, num nico negcio, fez uma contratao de seis milhes, cento e quarenta e trs mil, da campanha. No um um valor elevado?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): .

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E qual a situao de vida do Vivaldo? Ele um empresrio de sucesso, ele um empresrio que tem boa condio de vida? O que o senhor analisa sobre isso?

A DOUTORA CSSIA RESENDE (advogada): Excelncia. Eu no sei, mas me parece que... parece que o senhor deve ter alguma inteno com as suas perguntas, mas parece que est fugindo um pouco do escopo, aqui, da.. da prestao de servio para a campanha eleitoral.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ah, doutora, mas no foge do escopo, mesmo. Eu no sou o presidente da audincia, ento eu deixo para o Ministro decidir. Ministro...

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Eu ouvi. Doutora Cssia, uma das questes em aberto - e,

evidentemente, o seu cliente pode se recusar a responder - exatamente qual o relacionamento dele com o Senhor Vivaldo e com a Rede Seg.

O Senhor Vivaldo, por exemplo, disse que era motorista do Senhor Rodrigo. Eu fao essa pergunta e ele pode se recusar a responder.

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): para responder?

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): No... pode responder ao ministro. Ele era motorista?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Ele era motorista.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E a minha pergunta agora, se o senhor quiser responder. J est bem claro que uma orientao da audincia. Se ele no quiser responder, tem o direito, invocando o direito de ficar calado. Mas a minha pergunta : o Senhor Vivaldo, o senhor, que tem uma proximidade com ele, ele um empresrio com boas condies de vida, econmicas? Qual a situao dele, pelo que o senhor conhece?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Olha, Doutor, eu vou seguir a orientao da minha advogada. Eu preferia ficar calado.

[...]

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): O Senhor Vivaldo afirmou que paga de aluguel em torno de oitocentos reais, novecentos reais - eu no me lembro exatamente o valor. Ou seja, aparentemente uma pessoa que tem uma vida com dificuldades. Como que uma pessoa como essa pode ser dono de uma empresa que tem um faturamento, no ano eleitoral, de mais de seis milhes de reais?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Ah... Doutor, puxa... eu no sei responder isso, pro senhor. ... ele pegou... bom... ele tem o...a lucratividade dele. O que ele fez com isso eu no... eu no sei. Devia ter... Eu... se sou eu, guardo e compro uma casa, uma... ... eu no sei o que as pessoas fazem com o dinheiro delas, n? Com esse dinheiro que... que entrou na conta dele e foi pra ele, ele pegou, ele devia.., a primeira coisa, devia ter pego uma casa. Mas ele no tem uma condio to ruim. Tem um carro, tem... tem uma vida, acho que razovel. Mas eu tambm no posso responder por ele, n, Excelncia?

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): A outra pergunta : pelo que eu entendi, a sua empresa, a que no pegou o contrato, tem uma estrutura muito maior do que a Rede Seg. Porque, segundo o que o Senhor Vivaldo indicou no seu depoimento, logo depois da campanha eleitoral, o maior contrato da Rede Seg, que teria sido com o Jquei Clube de So Paulo, no teria

passado de vinte, trinta mil reais. Ento, eu queria entender por que uma empresa mais estruturada, que no caso a sua, passa um contrato dessa natureza para uma outra que, antes da campanha, praticamente no tinha faturamento nenhum e, depois da campanha, praticamente no tem faturamento algum. Qual seria a razo?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): O senhor est dizendo que a minha no teve faturamento algum?

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): No, no. o oposto. A sua, pelo que se entende a - e at o senhor respondeu a pergunta do Doutor Bruno, dizendo que ela hoje tem um faturamento anual... O ano passado, qual foi o faturamento da sua empresa?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): No sei chega a uns dez milhes. No sei. Tenho que puxar certinho para...

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Um faturamento de dez milhes. Vamos dizer que seja dez milhes...

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): T.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): uma empresa, em comparao com a Rede Seg, que teve um faturamento que no passou, pelo que foi dito pelo Senhor Vivaldo, de cinquenta mil reais, de pequenos servios... Eu no entendo a lgica de uma empresa como a sua terceirizar servios e pedidos que o senhor mesmo recebeu, como disse h pouco. Eu queria entender essa lgica, porque no fica claro. Ficaria claro se a sua empresa, no tendo condies de produzir o material, levar para uma empresa muito maior. Eu no entendo como esses servios foram levados para uma empresa praticamente fantasma.

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Ah... Excelncia. Na Graftec, eu tenho meus clientes que esto h, sei l, dez anos. E j tem...no tem contratos, no ? Mas eu tenho... Por exemplo, clientes de alto nvel, que a gente tem que cumprir com os prazos deles. Eles at falam... na poca de campanha, eles falam:

- Olha, na poca de campanha, voc no me larga, porque quem est no dia a dia somos ns, no ? E o que acontece? Essa... essa... essa pergunta do Senhor pertinente, lgico, no ? Mas isso a foi uma... uma questo por carga tributria tambm, entendeu? Porque a minha carga tributria hoje muito maior do que a Rede Seg teria. Entendeu?

[...]

O DOUTOR FLVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): (ininteligvel). A RKR prestou servios para a campanha?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): No.

O DOUTOR FLVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): No. A RKR recebeu mais de um milho de reais da Rede Seg. O senhor sabe dizer o porqu?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): No sei.

O DOUTOR FLVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado):

No sabe? A origem dos recursos da sua empresa, o senhor no sabe dizer? Em dois mil e quatorze?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): No. No sei. Posso me negar, no ?

A DOUTORA CSSIA RESENDE (advogada): Pode.

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Prefiro me negar a responder. Eu no tenho essa informao, no tenho como te dar uma informao precisa, n?

O DOUTOR FLVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): Ok. FSC Servios Grficos, o senhor conhece essa empresa?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Conheo.

O DOUTOR FLVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): O senhor... (ininteligvel) De quem essa empresa?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Prefiro no responder tambm.

O DOUTOR FLVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): Prefere no responder tambm? Ok. FSC Servios Grficos. O senhor sabe me dizer... o senhor conhece Jos Michel dos Santos Frana?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Conheo.

O DOUTOR FLVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado):

Ele tem endereo residencial onde era a RKR, onde est o endereo da RKR e da Rede Seg. O senhor sabe dizer por que ele...

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): No sei te responder.

O DOUTOR FLVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): No sabe responder.

[...]

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): S um minuto, Doutor Bruno. Senhor Rodrigo, o senhor acha normal que uma empresa bem menor faa emprstimos desta ordem a uma empresa maior, como a sua? Quer dizer, uma empresa praticamente sem faturamento, tirante aquele perodo eleitoral, faa um emprstimo dessa natureza?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Senhor Ministro, ela teve um bom faturamento durante um bom tempo. Ela conseguiu... ela conseguiu essa... tem todas... at tava (ininteligvel) tem uma entrada grande nela de valores. No foi um... um... tem outros trabalhos tambm que foram feitos com ela. No foi s...

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): O Senhor Vivaldo s conseguiu indicar coisas pequenas; nada que chegasse perto desse valor de seis milhes. Mas eu queria

saber se normal? Veja, ns estamos a, j passados mais de dois anos desse perodo. O senhor, que empresrio, acha isso normal?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): ... normal no acho que , uma empresa menor emprestar para uma empresa maior. Mas depende das dificuldades. Eu... rodei... eu... a Graftec faturou dez milhes, o senhor.., como quebraram o sigilo bancrio, o senhor v quanto tem na conta. Eu no tenho cem mil reais. ... depende muito do... da margem de lucro, do... da... muitos inadimplentes que eu tenho. Eu... s vezes depende muito de clientes, porque tem cliente que paga bonitinho, que nem a.... No caso da... da campanha, eles pagaram tudo certinho, mas tiveram um... um monte que no pagaram. E eu fiquei com um... eu, por exemplo, os meus clientes, fiquei com um rombo enorme. T devendo para banco, t devendo para mquina, to devendo um monte de lugar. E, s vezes, a mesma coisa que (ininteligvel) tambm, no ?

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Houve contrato escrito desse emprstimo?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Ento. Era isso que eu estava falando para o doutor aqui. Essa foi a nossa... a nossa.., a nossa falha, o nosso erro, o nosso... ... A gente fez tudo apalavrado, tanto com o PT quanto eu e ele. A gente at ia fazer esse negcio de ISCP, que o meu contador tinha falado para fazer e eu no.., eu no fui atrs, por causa dessa correria. Acabei fazendo verbalmente mesmo. E essa...isso, realmente, eu... eu falhei.

[...]

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): Eu vi que o senhor est com algumas anotaes a - imagino que a sua advogada, depois, vai juntar ao final. Mas o senhor, nesse levantamento de dados, tem uma informao de quantidade de material? Porque o senhor falou que primeiro fez o oramento para tantos milhes, depois disse que no dava. Quantos que vocs forneceram, de material para a campanha?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Ento, gente. Quantidade de material uma coisa muito difcil da gente falar. Porque, olha s: eles falaram - acho que tem uma matria, alguma coisa de cento e sessenta milhes. Se falar cento e sessenta milhes de santinho, uma coisa; cento e sessenta milhes de folhetos, com dobras, um valor totalmente diferente. Que nem ali.., tem uma tabela ali que quarenta milhes de santinho deram trezentos e treze mil. E se fe... e a gente fabricou, acho, que cem milho... cem mil folhas com dobras, j deu trezentos e quarenta. Ento, quantidade no d, porque os tamanhos so diferentes, os papis so diferentes, os formatos. Ento, por... por... por

quantidade, no d para especificar; isso a muito tcnico. Tem tipo de acabamento. Da, se eu falar para voc: "Eu fabriquei cem milhes", no tem validade nenhuma. Mas eu tenho tudo ali, tambm. Se o senhor quiser.

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): Essa relao vai ser juntada? A quantidade de material fornecido para a campanha?

A DOUTORA CSSIA RESENDE (advogada): . A quantidade, inclusive, os modelos dos materiais que foram produzidos.

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): timo. Ento, uma ltima pergunta. Independente das questes fiscais, tributrias, etc. Ento, esses seis milhes de reais que a Rede Seg contratou com a campanha presidencial de 2014, todo esse valor correspondeu ao material entregue para a campanha?

O SENHOR RODRIGO ZANARDO (depoente): Correspondeu. E t tudo ali, Tim-tim por tim-tim

Igualmente, merece destaque o seguinte trecho do depoimento

da testemunha Rogrio Zanardo, irmo de Rodrigo Zanardo:

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): H um valor aqui que o senhor teria recebido da Rede Seg, na movimentao financeira da Rede Seg. E esse valor um valor que gira em torno a de R$ 300.000,00 (trezentos mil reais). O senhor reconhece esse valor? Seesse valor realmente existe, se entrou na conta do senhor?

O SENHOR ROGRIO ZANARDO (depoente): Desconheo.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Nunca entrou um valor de trezentos mil da Rede Seg na conta do senhor?

O SENHOR ROGRIO ZANARDO (depoente): No.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): A tabelinha - esta ai. um valor de R$ 354.000,00 (trezentos e cinquenta e quatro mil reais). Desconhece?

O SENHOR ROGRIO ZANARDO (depoente): Desconheo, j te falei.

(...)

O SENHOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): Na campanha eleitoral de 2014, o senhor levava o material produzido para a campanha da chapa Dilma/Temer?

O SENHOR ROGRIO ZANARDO (depoente): Prefiro no responder.

O SENHOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): O senhor, por acaso, assinou ter recebido na Graftec alguns insumos - material, papel, tinta, daquilo que iria ser utilizado na campanha?

O SENHOR ROGRIO ZANARDO (depoente): Desconheo.

[...]

O SENHOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): A RGB sua empresa.

O SENHOR ROGRIO ZANARDO (depoente): Minha.

O SENHOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): Quem so os scios?

O SENHOR ROGRIO ZANARDO (depoente): Eu sou o nico scio.

O SENHOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): Essa empresa recebeu da Rede Seg mais de um milho de reais. O senhor sabe a que ttulo?

O SENHOR ROGRIO ZANARDO (depoente): Prefiro no receber.

(...)

O SENHOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): Quem movimenta a conta da RGB s o senhor?

O SENHOR ROGRIO ZANARDO (depoente): Quem administra a RGB meu irmo.

O SENHOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): Mas inclusive conta da empresa?

O SENHOR ROGRIO ZANARDO (depoente): Tambm.

Importante, tambm, trecho do depoimento de Carlos

Cortegoso, scio da empresa CRLS25, prestado nos seguintes termos:

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Eu terceirizava, at ento, todos os trabalhos, a eu tinha muita dificuldade, na hora da campanha - porque a temperatura subia, a dificuldade de produo de todos os materiais, esse tipo de coisa -, ento eu acabei tendo a...

25 Empresa de comunicao visual, de produo de eventos e material promocional, criada no ano de 2010

eu falei assim: "olha, eu vou tentar trabalhar a partir da venda e vou tentar montar algumas empresas para que eu possa atender pelo menos parte da produo". Ento, assim a ge... eu comece... comeamos a montar.

Mas o primeiro momento, quando foi montada a Focal, que a empresa mais especificamente citada nesse problema todo, nessa situao no problema, nessa situao -' eu estava com problemas de nome, eu tinha problemas de nome, eu tava com... eu tava no Serasa e me era impossvel, no conseguia me viabilizar em funo de crdito, de comprar matrias-primas, de estabelecer, crdito bancrio, esse tipo de coisa, ento a, no caso, a minha filha, Cana Regina, montei a empresa em nome dela, e junto com o Marcos Bortolaia, que essa pessoa uma pessoa de grande confiana minha, que ele inclusive o grande promotor dos eventos a dos eventos, especificamente. Tanto que na campanha ele trabalhava com eventos fora de So Paulo e, em So Paulo, eu tinha uma outra promo... produtora. Ento por isso eu montei a Focal. A por que que eu montei a CRLS depois? Porque meu sonho ter uma holding, ter vrias empresas pequenas, cujos funcionrios meus que tinham expertise em determinadas reas, eles pudessem ser scios minoritrios meus, e amanh eu ter uma holding... um sonho de... a gente l essas coisas, v... e eu tinha um sonho de ser um grande empreendedor, de ter um grupo de empresas e de ter uma holding que controlasse tudo isso. Ento por isso.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E quais

So essas empresas?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Focal, Paperman. Local Led, New Job e CRLS.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Cinco empresas?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Cinco empresas.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Essas empresas, todas elas, so de propriedade do senhor, embora constem outras pessoas...

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E eu ia fazer a seguinte questo para o senhor: essas cinco empresas, embora constasse, ainda que houvesse outra pessoa l no contrato social, formalmente, o senhor administrava de fato essas empresas?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Sim, senhor.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento, por exemplo, senhores, por exemplo, como Elias Mattos, ele no era, no podia ser considerado proprietrio, embora ele constasse como scio da Focal, ele no era proprietrio, no tinha participao no lucro, enfim, ele no era scio?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Mas ele era scio, sim, porque, como eu expliquei para o senhor, por que da necessidade?

O meu contador sempre me orientou no sentido de que eu sempre precisaria ter uma outra pessoa para compor o quadro societrio eu at... eu tinha at a situao da EIRELI e todo esse tipo de coisa e a gente optou porque era uma pessoa de confiana, esse tipo de coisa, e j dentro desse plano depois de fazer a gente conseguir dividir as coisas e montar essa operao das pequenas empresas e cada um seria um diretor delas, mas obviamente eu como acionista majoritrio, mas eles teriam a funo de donos, mesmo, no era pra...

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): T, mas na Focal, por exemplo, o senhor no constava como scio.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Ento, eu no constava como scio porque no momento da montagem dela eu tava com problema e depois eu montei a CRLS, que eu j pensei em trabalhar nesse sistema dessa pequena holding pra trabalhar disso, por isso que eu no vim a participar no contrato social dela - porque eu poderia at ter assumido o contrato social dela um determinado momento, eu no sei nem por que motivo eu no assumi, porque estava no nome da minha filha, e a minha filha tambm me ajudava a trabalhar nem tanto totalmente na administrao, mas tambm numa parte de criao, mas at... a gente trabalhava juntos... em muitos momentos, em outros nem tanto... eu no julguei importante, no julguei necessrio naquele momento estar especificamente no contrato social o meu nome.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Em 2010 foi aplicada essa lgica e funcionou muito bem em 2010 e, ento, eles vieram e... mesmo que trocou todo o comando da campanha de 2010 2014, essa outra matriz que funcionou, e convm dizer algo, tentaram me substituir nisso, tentaram que eu fosse substitudo.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Quem tentou?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): A coordenao da campanha. Tentaram.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O Edinho?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Edinho.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Tesoureiro?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Eu no digo uma pessoa especfica, mas o pessoal da campanha. Ento, porque.. oraram no mercado... tentaram orar no mercado para colocar outra empresa. O resultado que tiveram que no conseguiram sequer apresentar o oramento devido complexidade que em todos os estados da Federao, com o tanto de itens e o grau do que foi orado.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): No caso da campanha de 2014, o volume total contratato foi cerca de 24 milhes me corrija se eu estiver errado, mas so os dados aqui da campanha. Imagino, ento, que o senhor apresentou l um oramento de 24 milhes. a lgica.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): No.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento, me

explique como foi e o que esse nmero.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Ns temos que dividir a campanha em dois momentos assim: temos a parte dos eventos e temos a parte dos materiais. Por exemplo: me chamam de grfica, eu no sou grfica e no forneci nenhum material de grfica pra campanha Dilma Rousseff. No tem um material grfico, no tem uma folha de papel, no tem. Eu forneci adesivos perfurados e bandeiras, foram os dois produtos. So materiais de confeco e comunicao visual, e os eventos.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Quem produz no a Focal?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Sim, senhor. A CLRS e a Focal.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): A Focal?

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Evidentemente, agora eu vou fazer algumas perguntas para o senhor envolvendo essa movimentao bancria. Constam algumas

transferncias para pessoas jurdicas e pessoas fsicas. Essas transferncias, por exemplo, de recursos que saram da Focal para a Paperman, para a New Job, para a prpria CLRS, como o senhor me disse agora, "para mim era tudo uma coisa s na administrao", foram as suas palavras, que o senhor no enxergava essa... Ento, por que eram realizadas essas transferncias? Se era uma coisa s, por que se colocava ali uma transferncia de recursos, uma subcontratao? Por que isso era feito?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Muito pra obteno

de crdito bancrio. Ento, ns tnhamos uma dificuldade de capital de giro. Ento, a gente utilizava isso pra poder... Ento, uma determinada empresa tava com o crdito tomado, eu tomava por uma, tomava por outra, tomava por outra. Ento, a eu fazia esse tipo de coisa. Muito por isso.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): S questo de crdito?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): De crdito. Bastante por questo de crdito. Onde tudo se comeou a me atrapalhar, vamos humildemente aqui dizer pra senhor que fiquei atrapalhado, foi em funo dessas situaes de crdito, que a gente dentro do segmento de campanha, s vezes, o pagamento, o recurso demora pra chegar, o cliente demora pra efetivar o pagamento. Ento a gente s vezes, se socorria do sistema bancrio, de amigos, de pessoas. Ento, onde, inclusive, justifica muita coisa de pessoas fsicas que tem. Ento, eu pegava dinheiro emprestado de amigos. Chegava o momento de pegar dinheiro at... de qualquer que pudesse ter um capital disponvel, remunerado ou no, por afeto, por considerao ou por remunerao, eu pegava pra poder financiar isso tudo, onde comeou tudo a fazer essa confuso financeira.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Senhor Carlos, ns ouvimos o Senhor Jonathan e uma questo que gostaramos que fosse esclarecida ou o senhor negar ou o senhor explicar, enfim. Houve um relato, por parte do Jonathan, de que num perodo de trs meses, em 2014, ele realizou algumas entregas, por orientao do senhor, para que ele recebesse uma mochila, e ele citou o nome do Senhor Ricardo D'vila, para que esse valor, essa mochila, que, segundo Jonathan, havia dinheiro fosse entregue em Braslia. O relato de que isso ocorreu durante trs meses, numa periodicidade de uma vez por semana. Esse fato relatado, o senhor confirma? Desconfirma? O senhor explica de alguma forma ou no?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Mas em 2014 ele no se envolveu na campanha, como que ele fez isso? No. Improcedente. Ele no fez, ela no teve uma funo na campanha de 2014. Nenhum tipo de funo. Ele ficou em So Bernardo cuidando de...

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Independente de se tratar de campanha ou no, o senhor no reconhece esse tipo de atividade do Jonathan?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): No senhor. No senhor.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O senhor conhece o Senhor Ricardo D'vila?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Ricardo D'vila, eu... no, no lembro.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): No conhece?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): No. Em 2014?

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): No. S se senhor conhece Ricardo Dvila?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Eu conheci o Ricardo D'vila, mas na campanha de 2006.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E quem o Senhor Ricardo?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Eu no sei. Acho que era uma pessoa do PT que trabalhava na campanha do presidente

Lula em 2006. Acho que esse o nome dele. Acho, no tenho certeza. Ricardo... Ricardinho, eu acho.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Em 2006?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Dois mil e seis.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Nada de

2014?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Em hiptese alguma! Mas nem o Jonathan. O Jonathan, em 2014, em 2014, subentende-se no fez nenhuma entrega, nenhuma entrega de material pra mim, e nem de material, nem de mochila, nem de tipo de

coisa. Em 2014 ele ficou bastante distante, ele tava cuidando de outras coisas aqui.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Entendi. O Senhor Jonathan tambm citou episdios, onde ele teria recebido esses valores, - essas mochilas, enfim.., no banco. No Banco Schahin. Na sede do Banco Schahin.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Isso?

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Isso tambm nesse perodo de 2014.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Impossvel, impossvel. Impossvel, senhor.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): No tem nenhuma relao, que o senhor reconhea, com o Banco Schahin?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Essa relao do Jonathan... Posso fazer uma observao?

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Pode sim, claro.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Eu tenho, inclusive, algumas coisas... O Senhor Jonathan andou se envolvendo com algum tipo de companhia que no seria o melhor indicado para ele no momento. Ento, ele comeou a ter algum tipo de problema e andou se endividando um pouco forte. Andou se envolvendo... Ento, o que que acontece? Em um determinado momento, comearam pessoas a me procurarem... agiotas, gente inclusive de perfil bastante perigoso. Foi quando eu o chamei, onde ele... Foi uma coisa bastante desgastante. Eu tentei falar com ele, e ele no me atendeu, a esposa me atendeu e disse que ele estava com vergonha de falar comigo, um monte de coisa. A, parece que ele devia na praa alguma coisa de 600 a 700 mil reais para agiotas. Parece que tinha alguma coisa com droga, alguma coisa nesse sentido, eu no sei. Tambm no fui a fundo. Eu fiquei bastante chateado. A esposa me pediu para ajudar pagar essas contas. Eu lamentavelmente... a minha situao - isso foi agora em 2014, 2015... E depois, esse pessoal eu sei que tem pressionado muito ele, muito.., para pagamento. E ele tenta, de uma certa forma, - eu tenho informaes aqui que, durante esse perodo aqui, entre inclusive esse depoimento que ele deu aqui e o outro... - sentar para conversar comigo, para conversar em termos de recursos financeiros, para que ele desse um depoimento favorvel a mim. Para que ele... Eu falei: olha, eu tenho

todas as mensagens gravadas, que eu posso disponibilizar para os senhores, da parte dele, pedindo dinheiro para mim, para no me denunciar aqui. Enfim, pedindo dinheiro para mim. Ento, temos um problema bastante srio nesse sentido. No teve nada nesse negcio de 2014... Olha.., mas nem de... Desconheo, senhor.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Senhor Carlos, o Jonathan - isso fazendo as atividades dele em 2014, enfim - fazia parte da atividade dele, eventualmente, levar dinheiro para pagamento de fornecedor, levar e...

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): No, senhor. O Jonathan, no. No

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): No?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): No, no, que eu saiba, no. No.

SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): No, no, que eu saiba, no. No.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E esses valores da campanha... Como que funcionava o pagamento? Quer dizer, o senhor fez, por exemplo, um contrato de 24 milhes... Quer dizer, correto falar que existe um contrato?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): No, no existe um contrato de 24 milhes. um contrato que vai.., so demandas que vo gerando um crdito, e eu fao o trabalho e pago. Uma nota fiscal e eu pago. Mas no existe um contrato de 24 milhes. No existe.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Quem que, por exemplo.., e aqui estou pegando os dados da movimentao bancria.., o senhor pode. Por exemplo, h uma informao de que da Focal o senhor teria recebido, nesse ano de 2014, perodo que ficou descoberto - descoberto... as contas ficaram reveladas, n?, da Focal - de julho de 2014 a julho de 2015... Relata uma transferncia do senhor de R$ 361 .587,94 (trezentos e sessenta e um mil, quinhentos e oitenta e sete reais e noventa e quatro centavos).

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): No uma, vrias que fazem o volume, n?

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): ... Esse valor um valor que razovel?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Porque... eu vou confessar... Vrias vezes, eu paguei fornecedores com cheque meu, porque eu estava l... eu falei: eu dou aqui, depois cobro da empresa l e ponho na minha conta. Todo esse tipo de coisa. Ento, na verdade, a minha conta era fundida com as contas da pessoa jurdica tambm...infelizmente. Ento, por isso. No necessariamente eu tirava para particular. Eu pagava fornecedores tambm.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Agora, impressiona um pouco aqui, em termos de volume, at porque o senhor disse que uma empresa que existiria mais no papel. Foi o que o senhor colocou.., que a Paperman. A Paperman, consta aqui, uma transferncia de R$ 4.406.500,00 (quatro milhes, quatrocentos e seis mil e quinhentos reais). Pode ser tambm vrias transferncias que somam esse valor.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): isso.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E o que seria esse valor transferido Paperman, j que a Paperman servio mesmo ela no realizava?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): O que que acontece?

s vezes eu tinha uma, uma, uma... em determinados momentos, eu tinha uma dificuldade muito grande de recursos. Eu precisava muito de recursos. Ento, o que que acontece? s vezes eu da prpria Focal emitia uma duplicata contra a Paperman e descontava essa duplicata. Era uma forma de eu arrecadar dinheiro, era a nica forma que o banco me arrumava dinheiro. A, no vencimento dessa duplicata, a Focal dava o dinheiro para a Paperman para ela pagar a duplicata para eu renovar o crdito no banco, passsava de novo.., a famosa bicicleta. Muitas vezes...Desculpa.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Pode concluir.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Ento, muito disso... onde s vezes havia assim 300 mil reais, s vezes uma duplicata de 30 mil reais que eu fiz isso dez vezes. A, eu pagava, fazia, voltava, eu fazia.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento, s para concluir com relao Paperman. Os R$ 4.406.500,00 (quatro milhes, quatrocentos e seis mil e quinhentos reais), pelo que o senhor disse, no so servios que a Paperman efetivamente prestou?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): No.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): No?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): No. Engenharia financeira, provavelmente.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E seria a mesma coisa em relao , por exemplo, R$ 3.932.000,00 (trs milhes, novecentos e trinta e dois mil reais) para a CRLS? Da Focal para a CRLS.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Quase todas. Pode ser. porque, em determinado momento tambm, eu no tinha crdito com determinado fornecedor, ento ele no fornecia mais para a Focal, porque estava com um crdito... Ento eu comprava pela CRLS. E a precisava transferir o dinheiro para pagar o fornecedor pela CRLS. Ento, so engenharias pra conseguir fazer a coisa funcionar. Eu posso te dizer que...

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): PC era o scio dele, scio do Ricardo. A prpria Think Eventos e o PC a mesma coisa. Ento, s vezes ele podia pedir... Depois eu vi a... Dito assim: "olha, eu t devendo tanto". Faz assim: "olha, voc paga... deposita na conta PC e tal"... ento era orientao dele para que eu pagasse a conta nessa conta dele, mas eles eram scios. Think Eventos e PC a mesma empresa.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E o Vtor H. G. Souza Designer Grfico?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Eu acho que um fornecedor meu de papel de sublimao.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Papel?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): . Imprimir papel de sublimao e bandeira para sublimao. Algumas coisas da minha produo... s vezes a produo era muito grande, minhas mquinas no davam conta e eu pedia para ele fazer para mim, tambm. Eu terceirizava com ele, eu acho que isso, eu acho que isso. sim, sim.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Em relao ao Senhor Elias... inclusive na ltima audincia, ficamos com uma dvida. Tem uma movimentao de crdito e dbito na conta dele... no valor de R$ 1 .364.228,00 (um milho, trezentos e sessenta e quatro mil, duzentos e vinte e oito reais). A conta do senhor Elias... o senhor sabe explicar o porqu que consta esse tipo de movimentao na conta dele?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): No sei... ele estava me explicando.., acho que ele ia no banco fazer um TED com o fornecedor e parece que usavam o CPF dele que passava pra a, mas a fazia da Focal para um fornecedor.., parece que tem uma situao que eu no consigo explicar muito bem, que eu tambm no tenho expertise nisso.

...

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Mas o Senhor Elias fazia isso muito, para o senhor?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Fazia, mas esse dinheiro no passava pela conta dele, no. No passava, isso eu...

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Era a servio da Focal?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Da Focal. O que ele tem a uma situao que ele fazia com o Seu Jonathan a que... Ele fazia acho que umas operaes a que o motivo inclusive dessa grande dvida que ele tem e como o Elias, e como o Elias constava no contrato da Focal, ele andou pegando muito dinheiro em agiota, dizendo que esse dinheiro era para a Focal. Ele mostrava, inclusive, o contrato social.., que, depois, algumas pessoas foram comigo l, e diziam que ele estava pegando o dinheiro para mim e no era para mim. Mas ele usava isso dizendo que, como ele era scio, ele precisava do dinheiro, porque estava com dificuldade para receber do partido. Ele bom de conversa, ele conversava bem com o pessoal. E depois eu vim a saber que ele pegou muito dinheiro em meu nome tambm, nesse sentido. Mas eu sei que ele andou emprestando cheque para o Elias... ou o Elias emprestou para o Jonathan.

(...)

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): Eu no lhe conhecia pessoalmente, s pelos jornais, mas criou-se uma - talvez o Flvio at fosse perguntar isso depois, mas eu vou aproveitar a minha curiosidade. Criou-se toda uma histria, eu li muito na imprensa e tambm queria que o senhor aproveitasse a oportunidade para esclarecer, sobre uma relao sua com o ex-presidente Lula, que senhor teria sido garom dele no ABC e que, por conta dessa relao, o senhor teria criado essa empresa s para, fornecer ao PT. E que, portanto, como amigo dele... O que o senhor tem a dizer sobre isso, para encerrar a minha parte?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): O senhor tem tempo? Vocs tm tempo? No... desculpe. O ... o... ... ... at uma

oportunidade interessante. o seguinte. Eu trabalhei como garom, sim. Mas, ento, antes de ser garom eu fui pedreiro, lixeiro, jornaleiro, coxinha, office-boy, jornaleiro.., e mecnico, borracheiro. E cheguei a ser garom. Fui garom. Num restaurante em So Bernardo do Campo. No Demarchi. E eu nunca servi o presidente Lula. Eu nunca servi. Ele era frequentador assduo do Restaurante So Judas Tadeu, que era do Laerte Demarchi, que ele que conhece ali, ele o primeiro restaurante, e o mais antigo, inclusive. O Florestal era... um era no nmero mil e pouco, o outro era no nmero trs mil. Eu trabalhei no Florestal. E eu o via. Mas ele j tinha uma certa relevncia e eu era um garom meio mequetrefe, na poca. Ento, ele atendido por um garom mais graduado. Ento, eu nunca tive acesso a ele. E, a partir da, teve um jornalista da Veja, um menino chamado Adriano Ceolin - no vou esquecer esse nome. Ele entrevistou todo mundo, falou com todas as pessoas certas e escreveu as coisas erradas. Porque todo mundo disse que eu era dali e o... e o Presidente Lula funcionava.., frequentava outro restaurante. Ento, eu nunca fui... Eu fui garom, sim, coisa eu me orgulho violentamente disso. Lamentavelmente, ou felizmente, eu nunca fui garom do Lula; nunca. E eu casei com a filha do dono do restaurante. Ele tinha essa informao. Ento, se ele coloca que eu casei com a filha do dono, desmontaria a tese que eu fiquei rico vendendo para o PT. Eu fiquei rico casando com a filha do dono - teoricamente, que no esse o caso. Mas um verdadeiro.., um verdadeiro absurdo. Ento, e nunca tive relao. Eu fui ter contato com o PT, fornecer... Eu trabalhei para o PSDB, para o PMDB, eu trabalhei para o Qurcia, Covas, Alckmin, Serra, Fernando Henrique Cardoso. Todos. Eu trabalhei para todos. A, eu cheguei no PT num momento aonde eles estavam profissionalizando a campanha. Que tinha os estrategistas de marketing que exigiam uma postura mais profissional no atendimento. Ento, foi onde eu estudei aquele mercado e a gente achou uma brecha para participar ali e conquistar mais espao. Ento, a gente fez.., na poca de camiseta, a gente fez muita camiseta. Ento, eu trabalho h muito tempo com campanha. Eu tenho expertise em campanha. Ento, no... no... isso de... de... do PT, no.., no... no procede; no procede no. Eu nunca fui. Esse do garom do Lula porque um personagem que funciona, o mordomo fica bacana, um motorista ou um chofer fica bacana. Ento, a precisava de um garom. Um personagem, para poder dar mais IBOPE.

...

O DOUTOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): E nesses eventos, quando no era em So Paulo, o senhor tinha que subcontratar empresas locais?

(...)

O DOUTOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): O senhor pagava os seus subcontratados por TED, por DOC, ou tambm poderia ser pago em dinheiro?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Algum... alguns a gente chegou a pagar... algumas coisas, por exemplo, tipo segurana, algumas coisas de alguns lugares mais distantes, s vezes a gente fazia com o Marcos, o Marcos Bortolaia. s vezes eu mandava o dinheiro para a conta dele; ele sacava e pagava. Tinha gente que exigia que assim o fosse.

(...)

O DOUTOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): Na percia que foi feita, que est ainda sendo feita aqui, h uma afirmao, no laudo contbil, de que o senhor teria recebido em dinheiro, da campanha, valores de notas fiscais que foram canceladas. O senhor recebeu algo em dinheiro da campanha de Dilma e Temer?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Impossvel. No.

O DOUTOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): E houve, realmente, cancelamento de alguma nota fiscal?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Houve cancelamento, porque eu... teve algum determinado tipo de produto que eu no consegui entregar no prazo. Eles me deram um determinado prazo e eu no consegui entregar. Ento, j tinha tirado a nota fiscal, mas eu no consegui entregar e eles no aceitaram mais o produto e eu tive que cancelar. Coisa de quatro ou cinco notas. Eu tive que cancelar, porque eu no consegui entregar. Apesar de j ter produzido os materiais, mas eu no consegui entreg-los a tempo. E muito comum que ocorra isso.

...

O DOUTOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): Em relao aos eventos - eu j caminho para o final -, a percia ainda est em fase final, mas h a afirmao no laudo pericial que a empresa Focal no teria entregue todos os documentos comprobatrios da realizao dos eventos. O senhor disse aqui que muitos documentos sobre terceirizao de eventos estariam - talvez, o seu funcionrio Bortolaia... Bortolaia, isso?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): O Jos Marcos?

O DOUTOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): Jos Marcos Bortolaia teria como identificar e trazer isso aos autos. Assim como tambm o senhor disse sobre vrias notas; notas de mo de obra, notas de remessa. Eu queria saber se o senhor tem mais

documentos que o senhor possa fornecer a ns, e que ainda no forneceu?

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Posso falar, Excelncia? Eu no sei... no... no... eu... eu... eu acho que todos os documentos que ns mandamos no foram avaliados. Porque se tivesse sido avaliados eu acredito que no teria sobrado dvida nenhuma, quanto realizao desses trabalhos, no.

O DOUTOR FLVIO CROCCE CAETANO (advogado): Eu queria indagar se possvel trazer esses documentos ao processo? Porque so documentos importantssimos.

O SENHOR ANTNIO DONIEZETE DECRECI (advogado): Muitos documentos foram entregues.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): Porque ns entregamos...

O DOUTOR MRCIO ANTNIO DONIZETE DECRECI (advogado): Ns entregamos vrios documentos.

O SENHOR CARLOS CORTEGOSO (depoente): ... acho que no foram avaliados.

Tenho que tambm merece relevo a oitiva da testemunha

Jonathan Gomes Bastos que solicitou, ao relator destes autos, sua reinquirio

em relao a alguns pontos de seu testemunho. Transcrevo o seguinte excerto:

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Realmente, a Paperman no tem sede, foi uma empresa que montaram em nome de um amigo meu, tambm igual minha pessoa, laranja; o que mais que foi aqui dito? Trabalhei com o Senhor Carlos treze anos, de motorista, ento eu j vi de tudo, j fiz de tudo; realmente eu no sabia essa parte de jurdica, financeira, o que que eles faziam, o que que eles no faziam, realmente eu no sabia, vim descobrir depois atravs da mdia. Mas eu levei muito dinheiro (inaudvel) Vaccari, Paulo Ferreira, eu j fui um cara mais a mando, a trabalho, no sabia a origem. O que mais? Empresa, aquela Focal, CRLS, Focal Point, realmente elas fizeram alguns trabalhos, mas no todos esses trabalhos, lgico. Muitas empresas foram contratadas terceirizadas. Muitas, muitas, muitas. Dentro de So Paulo, foram feitos bastantes trabalhos; fora, a logstica ia ser mais cara, logicamente que contratavam fora. Realmente, tinha a CRLS que dava suporte pra Focal, mas dentro de So Paulo. Fora deSo Paulo era tudo terceirizado. O que mais que temos? As outras perguntas? New Job? Ningum aqui citou New Job; alguma empresa New Job foi citada aqui?

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Acredito que sim. Est aqui. Mas o que era a New Job?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): A New Job era da filha do Senhor Carlos, que fazia toda a criao de arte inclusive uma aeronave foi comprada em nome da New Job... nenhuma empresa... no aparece uma empresa Dall Digital Comunicao Visual? A empresa que mais forneceu na campanha?

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Dall Digital?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Dall. D-A-LL. Aparece?

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Dall Digital.

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Isso.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E essa Dall Digital, tambm...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): ... era... empresa do irmo do Senhor Carlos, aonde que ele quem sustenta a empresa.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O Carlos que sustenta, no o irmo?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): O Carlos que sustenta.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E o irmo do Carlos, qual o nome dele?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Paulo Cortegoso, pai da Erika Cortegoso, que foi minha scia na Focal Point, s que deixaram s o meu CPF sujo e tiraram o dela da empresa. Ento, assim, eu acho que a corda est arrebentando pro mais fraco, n, porque a famlia est garantida e sobrou tudo pra mim.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E o Paulo, a Erika...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): ... Esidio Cortegoso. A Erika s recebia pra no fazer nada, s assinava a papelada, nunca trabalhou.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Mas se o senhor fosse dizer quem o responsvel por tudo, seria o Senhor Carlos?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Sim. O Senhor Carlos. Ele manipula.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E essas empresas, o senhor disse: Olha, elas realmente produziam, mas no era tudo. E o resto? A minha dvida essa. Tinha uma parte que produziam, e os valores que sobravam, eram valores que ficavam para o Senhor Carlos, ou eram valores que ele distribua pra polticos...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Essa parte de valores, quem distribua, eu no sei se ele distribua. S sei que muitas vezes eu fui buscar espcie que ele repassava. Eu ia uma vez por semana pra Braslia levar dinheiro.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Pra Braslia levar dinheiro?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): A mando do Paulo Ferreira, e tinha um funcionrio chamado Ricardo Dvila...

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ricardo Dvila?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): o que pagava minha passagem de nibus pra ir. Eu saa da Marginal Tiet, do Terminal Tiet, dez horas da noite, no Real Expresso, e chegava em Braslia s treze e trinta, e tinha um voo j marcado para as quinze horas era s chegar, deixar, e pegar um voo e voltar. Ento esses repasses podem ser entre esses meio termos a, meios a.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Entendi. O Senhor Paulo Ferreira, quem era?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Paulo Ferreira era o financeiro do PT antes do Vaccari; depois veio o Vaccari, a comeou com o Vaccari; a parou no Vaccari, n, porque foi preso.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E esse dinheiro que o senhor levava... esse Ricardo Dvila tambm era do PT?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Era funcionrio.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Era funcionrio, tambm?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Era. Acho que era o brao direito do Paulo Ferreira, que ele tinha mai confiana.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E era com quem o senhor conversava?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Sim.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E o senhor ia l, o senhor entregava normalmente esse dinheiro onde? No prprio...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Tinha sempre uma pessoa pra me buscar na rodoviria. Buscava de carro...

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Na rodoviria, l na rodoferroviria...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Na rodoviria. E da rodoviria a gente ia para o aeroporto, porque uma hora antes do voo, o voo era s quinze, chegava a uma e meia, dava o tempo certo.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento o senhor chegava com o dinheiro em espcie, numa mala...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Mochila.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Numa mochila, descia na estao...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Na rodoviria.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Na rodoviria, j tinha algum l esperando o senhor era esse Ricardo, normalmente?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): No. O Ricardo ficava em So Paulo.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Era outra pessoa?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Outra pessoa. Sempre mudava.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Mudavam?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Mudavam as pessoas. Na Schahin, j busquei muito dinheiro na Schahin.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Na Schahin?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Na Vergueiro, antes de chegar na Paulista.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Schain o senhor diz o...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): O prdio n?

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O prdio, o Banco Schahin?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): . O Banco Schahin.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Entendi. O senhor pegava l o dinheiro e levava... agora esse dinheiro que o senhor levava, era um dinheiro do Cortegoso, ou era coisa que o Cortegoso mandava, no caso?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): No. O dinheiro no era do Cortegoso.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): No era do Cortegoso?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): No era do Cortegoso.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Entendi. O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Pra mim no era.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E s te orientavam...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Eu s tinha esse dever de ir e voltar.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Isso por determinao dele, ele falava...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Sim, sim, ele era o patro.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): ... voc deve pegar e fazer isso. isso?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Sim.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Foi em dois mil e quatorze?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Dois mil e quatorze.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Na poca da campanha?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): , na poca da campanha.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento, no perodo da campanha...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente) Prcampanha.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar) Prcampanha.

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Isso.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento, no ano de 2014...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): No ano de 2014.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): ... o senhor levou, durante trs meses...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Uma vez por semana.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): ... uma vez por semana, direto, toda semana, durante trs meses...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Trs meses.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): ... recursos, que o senhor no sabe de onde vinham, isso?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Sim.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): No sabe?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): No. De onde vinha, no.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Vinte e quatro milhes da campanha do ano de 2014. No sei se o senhor j ouviu falar alguma coisa desses valores, mas esses vinte e quatro milhes, por ter essa proximidade com o Senhor Carlos e por conhecer um pouco ali como funcionava, ainda que como motorista, dentro desse valor de vinte e quatro milhes...

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Dez milhes.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): ... tudo era produzido... Dez milhes o qu?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): De produo.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): De produo eram dez milhes?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Acredito que dez milhes.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E o resto, o senhor no sabe dizer?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): No sei, no.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Dessa parte de... como o senhor chega a essa concluso de que dez milhes eram realmente utilizados e quatorze milhes no?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Eu que entregava todo o material no Brasil todo.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O senhor que entregava o material?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): No Brasil todo, com o avio, porque o avio era do Senhor Carlos, n?

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O avio era do Carlos?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Era inclusive ele pagou pra mim o curso de piloto, de tirar o brev, s que o meu era de monomotor, e ele comprou um bimotor, ento eu tinha que acompanhar o piloto. Ento, pelo volume de mercadoria que foi entregue, creio eu, com logstica, aeronave, viagens, hotis, funcionrios, tudo, uns dez milhes.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E, desses quatorze milhes que sobravam, esses recursos eram apropriados pelo Senhor Carlos claro, pelo que o senhor sabe, lgico que s o que o senhor saiba ou esse valor era de alguma forma redistribudo, era passado a outras pessoas?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): A eu j no consigo te responder.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Sempre essa rede de contatos, isso? Ento, chegava campanha, por exemplo, aqui a campanha que nos interessa, a campanha de 2014, e ele j sabia que ele ia ser fornecedor da campanha?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): J.

(...)

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Mas ele fez muita coisa sem receber na hora. Ele pegava dinheiro emprestado, investia na campanha pra receber depois de meses. Lgico que valor mais alto, n? Mas ele j colocou muito dinheiro dele.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ele colocava dinheiro dele e recebia depois.

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Depois. O PT ruim pra pagar.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O PT ruim para pagar?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): ruim.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Mas o senhor sabe dizer se tem dvidas do PT com ele?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Tem.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Tem?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Ele tem muito pra receber do PT ainda. Antes do Vaccari ser preso, ele j tinha bastante dinheiro.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O senhor no sabe quanto, no ?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): No, mas milhes.

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Esses servios que ele fazia pra campanha era uma oportunidade dele reaver a dvida?

(...)

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E uma situao tambm que surgiu na ltima audincia: o Senhor Elias. A situao dele tambm era a mesma? O que ele era de verdade nessa empresa?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Laranja.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Laranja.

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Eu que coloquei o Elias, n? Mas a relao de cheques eu usei mesmo. Assim, na faixa de uns 150 mil eu usei mesmo, isso a verdade, no de um milho e pouco igual o Doutor Jos perguntou, jamais. O Elias uma pessoa meio problemtica, n? No sei se vocs chegaram a conhec-lo.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Sim.

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Ele sentou aqui. Uma pessoa que tem distrbio, mas ele hoje t parado, acho que recebe um valor de mil reais pra ficar em casa. Acho que o Senhor Carlos no quer ele l mais, n? E isso, mas era laranja tambm, igual o Senhor Jos Acioli tambm era laranja, que responde pela Paperman.

No sei se j saiu do contrato. Que tambm meu amigo. Na verdade, eu coloquei todos os amigos de laranja.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O Elias tambm a mesma situao, ento? Era laranja e no tinha administrao nenhuma na empresa?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): No, no. Todas essas pessoas no tinham um acesso a nada.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Quem era o administrador de tudo era o Carlos Cortegoso?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): O Romildo.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O Romildo

quem era?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Era meio que contador dele, fazia todo o trmite. Romildo e o Carlos, esses dois. Mas assim... vou te dar um papel assina aqui... (ininteligvel)

(...)

DOUTOR FLAVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): O

senhor falou de duas situaes em que voc transportou dinheiro e a

origem disso. Em 2014, mais alguma vez voc transportou algum

recurso, fora essas duas vezes que voc lembrou?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Transportei muito recurso.

O DOUTOR FLAVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): Em 2014?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Muito. Desde quando eu t l.

O DOUTOR FLAVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): Vamos pensar em 2014. Vamos pegar o perodo especfico de julho a novembro.

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Na poca da campanha.

O DOUTOR FLAVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): Na poca da campanha, de julho a novembro. Vamos ver se voc consegue lembrar dessas hipteses?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Sim. Transportei bastante, s no recorde pra que foi, pra onde foi. S essas duas que eu te falei.

O DOUTOR FLAVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): No recorda mais?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): No.

O DOUTOR FLAVIO HENRIQUE COSTA PEREIRA (advogado): T.

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): At mesmo por causa dos fornecedores que ele tinha que pagar. Ele no rodava tudo sozinho, n?

(...)

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): T. S para gente esclarecer: foi mais ou menos a 22 milhes de reais que a campanha contratou com a Focal. O valor t declarado, consta... A Focal subcontratou essas empresas.

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Vrias.

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): CRLS, Think Eventos e todas aquelas que o Dr. Bruno falou, alm de algumas outras aqui, ou seja... O que me interessa na pergunta, o meu objetivo no s o que a Focal forneceu, mas o que esse grupo de empresas, que girava ou que foram subcontratadas, forneceu pra campanha. Portanto, foi material grfico, pode ter material impresso tambm ento?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Sim.

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): Material impresso, lonas, painel de LED, palanques e tudo isso?

(...)

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Antes do Dr. ngelo, eu queria, aproveitando as perguntas feitas pelo Dr. Flvio, indagar do depoente se essas mochilas foram levadas nesse perodo imediatamente aps as eleies de 2014.

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Antes, comeo do ano de 2014.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): No perodo de julho, mais ou menos, que o senhor falou antes? Qual foi o perodo?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): No me recordo corretamente, mas no comeo de 2014. Pode ser fevereiro at maio, junho.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Mas foi em torno de trs meses, no isso?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Sim, trs meses. Se tiver como levantar na companhia area, fica mais fcil tambm, n?

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): E sobre isso o senhor tem certeza? Foi em 2014?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Sim, em 2014

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Sim.

O DOUTOR GUSTAVO GUEDES (advogado): T. Por que voc acha que a Focal era contratada pra cuidar disso?

O SENHOR JONATHAN GOMES BASTOS (depoente): Na minha opinio, porque ela no recebia na frente, s vezes, eles no tinham o dinheiro pra pagar na frente. Na minha opinio isso.

Registro que o Min. Herman Benjamin deferiu a expedio de

ofcio s companhias areas TAM e GOL para que informassem o trnsito do

Senhor Jonathan Gomes Bastos em suas aeronaves, uma vez que o depoente

afirmara ter efetivado entregas de dinheiro, por determinao do Senhor Carlos

Cortegoso, a membros do Partido dos Trabalhadores.

A empresa Area Gol indicou, em suma, duas viagens de

Jonathan Gomes Bastos (fls. 6.221-6.225 da AIJE 1943058) : a) um trecho

Braslia-Congonhas em 26.10.2014 ; b) as passagens de 18 de maio de 2014 e

20 de maio de 2014, que diz respeito a Trechos para Porto Alegre, a

companhia no confirmou se se trata da referida pessoa, por ter sido

disponibilizado CNH e no RG.

Por sua vez, a TAM respondeu s fls. 6.880-6.882 da AIJE

1943-58, embora numa pesquisa no to precisa, em trs fases em face dos

nomes Jonathan (e flexes nominais), Gomes e Bastos, que localizou 57

nomes, conforme planilha apresentada.

Por pertinente, destaco tambm o trecho do depoimento de

Bechembauer Rivelino de Alencar Braga, proprietrio da VTPB Servios

Grficos:

Juiz Auxiliar Eleitoral - Desculpa te interromper, s para ir coordenando bem: o senhor prestou esses servios como representante de uma grfica?

Depoente - No.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Proprietrio da grfica? O que ?

Depoente - No. Eu tenho o seguinte business: eu compro da grfica e revendo para o poltico. Eu comecei a trabalhar com isso, doutor, faz mais de vinte anos, quando meu pai mudou para So Paulo, separou da minha me, veio morar com trs filhos em So Paulo. Ele tinha uma amizade, na poca, com o Senador Alfredo Campos, que fez uma carta de apresentao para o Orestes Qurcia na poca, apresentando o Sr. Alencar como uma pessoa boa que poderia ajudar. Nisso, um breve relato para te falar antes como que meu pai teve a ideia nesse negcio. A gente morava ali no centro, na Rua dos Andradas, perto da Grfica Pontual, que era uma grfica pequenininha. Inclusive, com meus 13 anos de idade, perodo de frias, eu cheguei at a trabalhar na grfica, intercalando. Era uma grfica pequena. E aconteceu o seguinte fato: ele ficou amigo do Sr. Mrio, que era dono da Grfica Pontual, e nisso, conversa vai, conversa vem, chegou l na grfica um senhor repentista que fazia aqueles livrinhos de cordel. Na poca, teve aquele caso, no sei se o senhor recorda, se da poca do senhor, o caso do Pelezo. Foi o caso que uma psicloga pegou um morador de rua, ps dentro do carro, a Polcia chegou, prendeu ele, foi uma confuso, os jornais da poca fizeram sensacionalismo em cima disso, e esse repentista estava l com o livrinho, para produzir um livrinho, e chegou para o Sr. Mrio e falou: Sr. Mrio, o senhor faz esse livrinho para mim, eu vendo o livrinho e acerto com o senhor. O Sr. Mrio deu uma negativa nele. Ele, conversando com o meu pai, o meu pai pegou e falou: "Estou precisando de um negcio, vou fazer esses livrinhos junto com voc aqui na grfica, e eu vou sair revendendo esses livrinhos e divido com voc sua parte". Ento, nessa poca, ele pegou, fez a contratao desse livrinho, isso coisa acho que l de 86, mais ou menos, poca, e ele saiu deixando ele em bancas de jornais na poca, em consignao, e depois voltava cobrando, fazendo aquele negcio. Como ele fez isso, e ele tinha uma carta de apresentao, na poca, do Qurcia para poder ajud-lo em algum servio, ele pegou e combinou com o Sr. Mrio: "Senhor Mrio, eu vou fazer umas vendas grficas para a campanha do Qurcia para o senhor". E o Sr. Mrio, na poca: "Beleza, Sr. Alencar, pode ir l fazer a sua venda l". A foi que meu pai fez essas vendas, e o que aconteceu no fritar dos ovos? O Sr. Mrio era combinado de pagar uma comisso "x" para ele, e no pagou essa comisso. Ento, nessa poca, ele enxergou que ele precisava ser dono de um servio para poder ter a garantia de pagamento dele e dos seus

compromissos. Foi a que ele comeou a... Esse primeiro servio, na poca, era um servio de folha inteira. Na poca, no existia em So Paulo mquina bicolor, s monocolor, que era separada por um chumbo no meio da impressora, onde se colocava uma tinta preta e uma tinta branca. E nesse "Qurcia" era cada folha inteira uma letra do Qurcia, dava um negcio meio dgrad no meio, misturado o preto com o vermelho. Da, ele deu sequncia a isso. Na poca, a gente entregava o servio era de Kombi. E foi devagarzinho, foi passando uma eleio, e eu sempre ajudando ele nas entregas, aquelas coisas, conhecendo esse meti de campanha eleitoral, que um nicho de mercado.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Entendi. Senhor Beckembauer, focando a um pouquinho na campanha de 2014, a primeira coisa que eu queria saber o seguinte: o senhor comentou que o senhor faz compra da grfica e vende para a campanha.

Depoente - Isso, para a campanha.

Juiz Auxiliar Eleitoral - O senhor faz isso como pessoa fsica ou o senhor tem uma empresa?

Depoente - No, eu tenho uma empresa. Tenho uma empresa inclusive para recolher os impostos.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Qual o nome?

Depoente - VTPB Servios Grficos.

Juiz Auxiliar Eleitoral - O senhor scio?

Depoente - Eu sou o scio-administrador.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Tem mais algum na sociedade com o

senhor?

Depoente - Tem, tem o Wilker Correa, que tem 1% (um por cento), porque na poca que eu fui abrir a empresa a gente no tinha a Eireli ainda, a eu pus ele com 1% (um por cento). O Wilker at hoje a pessoa do meio nosso l, a pessoa de dentro de casa, ento pessoa da minha confiana; mas quem administra, quem faz tudo, quem contrata sou eu.

Juiz Auxiliar Eleitoral - E o senhor tem uma sede?

Depoente - Doutor, o seguinte: eu tinha uma sede que era a sala do meu pai, que era na Avenida Ipiranga. Com o falecimento dele, em 2007, aconteceu o seguinte caso: vim para So Paulo; o meu pai, na poca, tinha a SGB Servios Grficos, que fornecia para campanha poltica; e o que eu herdei dele foi esse know-how, que era o

conhecimento, a gente j sabia como que, chega poca de campanha, se abre um comit de compras, quem a gente procura, ento eu procurava ir no partido. "Onde que abriu o comit de compras?" Ia l, e na poca era o seguinte: era sentar na cadeira e pegar o servio pela insistncia. Ento,

o que aconteceu? O meu irmo, o MulIer - foi final de 2012, parece, no recordo agora ao certo -' ele pegou, foi l no prdio e foi no sndo, falar com o sndico, porque esse sndico teria vendido essa sala para o meu pai. A chegou para o sndico e falou: "Meu pai faleceu, eu no estou com os documentos da sala, o senhor que vendeu para ele, eu queria saber como que est a situao, porque a gente precisa instalar uma empresa aqui". Beleza, legal. O sndico, o vendedor da sala, na hora falou: "Olha, tudo bem". Nisso, ele pegou e falou assim... Deu um tempo, eu voltei, fui barrado, o porteiro pegou e falou comigo: "Invadiram sua sala e jogaram todos os seus documentos, toda a sua moblia fora".

Juiz Auxiliar Eleitoral - A sala do Ipiranga?

Depoente - A sala do Ipiranga. Foi a que eu fui indagar o sndico, e ele pegou e falou: "No, seu pai no me pagou!"

(...)

Juiz Auxiliar Eleitoral - S vou deixar claro. O senhor quando... realmente uma atividade de intermediao. A VTPB, que a empresa do senhor, no produzia diretamente?

Advogado (Miguel Pereira Neto) - Explica o servio como um todo.

Depoente - No.

Juiz Auxiliar Eleitoral - No.

Depoente - No. O servio, doutor, ele no s a impresso em si.

Juiz Auxiliar Eleitoral - T.

(...)

Depoente - Ele comea da entrada da arte, a montagem. Qual que foi a expertise minha do negcio? Conhecendo o mercado grfico, eu via que sempre que voc chegasse e pedisse para outras grficas, inclusive eu pedia para outras grficas o oramento.

Juiz Auxiliar Eleitoral - J que o senhor est explicando o que o senhor fazia, j me diz quais as grficas que o senhor utilizava.

Depoente - A que eu estou... S para acabar esse raciocnio. Juiz Auxiliar Eleitoral - T.

Depoente - Ento, comeava uma eleio, para mim ter base de preo, porque a gente tem uma relao com a Ultraprint de mais de 20 (vinte) anos, inclusive quando sede dela era no Brs. A Ultraprint, hoje, ela tem 45 (quarenta e cinco) anos de existncia; uma empresa de porte grande no ramo grfico; com maquinrio moderno. Eles me facultavam o seguinte: a Ultraprint falou: "Beck, vou te arrumar uma sala aqui".

Porque o seguinte, para voc vender para o poltico, voc vai ter de

montar para o cara. Se eu chamar l "doutor, eu vou te fornecer o servio". Voc fala: "p, mas onde que voc vai fazer isso?". Certo? A Ultraprint me facultou uma sala l dentro, e eu fazia o atendimento poltico, que : o recebimento das artes; s vezes, a prpria produo de arte, no caso, como a gente produzia caricaturas no card. O que me alavancou de 2008 foi o seguinte: eu vi que a Ultraprint tinha uma tecnologia que fornecia para a Kibon, que era impresso em ofsete em ps e pet. Por que a Ultraprint tinha isso? Porque a Ultraprint tinha uma mquina KBA de quatro baterias com secador UV por bateria. Ento, voc no consegue pr para rodar um plstico numa mquina que no tiver secador UV nas quatro baterias. Porque acontece o seguinte, na hora que vai saindo l, a tinta no secou direito, o material bloca. Blocar quando o material cola aquela pilha inteira, se perde o servio. Ento ela tinha essa tecnologia de fazer esse material, e, em 2008, quando eu montei da VTPB, pus a pastinha debaixo do brao e sa procurando o pessoal. Na poca, no sei se vocs chegaram a ver, o Kassabinho, foi o primeiro que fiz, foi aquelas caricaturas do Kassabinho, que o card. O card um produto especfico que depois a gente vai chegar nele. O porqu do card? O card no de plstico (...); um material que a gente pode fazer em ps ou pet reciclado, e eu consegui pr ele no mercado por qu? um material de fcil... Antes, quando voc dava um santinho para uma pessoa, ficava fcil a pessoa embolar, jogar no lixo ou dobrar, pr dentro da carteira e nem v. Ele num formato de carto de crdito onde qualquer carteira cabe, ento ficou bem interessante isso, a produo. E devagarzinho eu fui crescendo, e aconteceu de os polticos comearem, principalmente o PSDB. O PSDB foi o meu percursor. Se o senhor quiser dar uma olhada aqui, inclusive esses so os cards do PSDB da ltima eleio.

Advogado (Miguel Pereira Neto) - Esse material, boa parte do material j est acostados aos autos, Excelncia, e tambm naquele primeiro procedimento que houve.

Juiz Auxiliar Eleitoral - T.

Depoente - Algum quer dar uma olhada no card? ( ... ) material, quem quiser olhar essas pastas. Ento, o que aconteceu? Eu consegui pr esse produto no mercado e ao mesmo tempo com o

seguinte apelo: a imagem do poltico est cansada. Vamos fazer uma caricaturazinha; vamos pr uma figurinha dele; fica mais simptico fazer isso. E essa ideia pegou. Essa ideia pegou, e meus principais clientes at 2012, foram o PSD, o PSDB, o PMDB. Fiz para uma srie de partidos. O PT, eu no fazia campanha para o PT em funo de em 2006 o meu pai ter protestado, parece que foi a campanha, no sei se a de 2006 ou a de 2004, a campanha da Marta. Por falta de pagamento, ele protestou. E quando a gente protesta um cliente, aquele cliente sumiu. Voc no tem

mais esse cliente.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Senhor Beck, em 2014, que campanhas o senhor atendeu?

Advogado (Miguel Pereira Neto) - Bem objetivo.

Depoente - S para finalizar o do card. Qual o meu diferencial de produo do card. Eu consigo por o card em alta produo em mquina ofsete. O card, se voc for sair hoje no mercado e falar: eu vou achar card para comprar. Mas ele vai ser feito em mquina digital que no vai dar produo. Se voc pedir um milho de cards, o cara vai falar: "olha, daqui a 6 (seis) meses eu te entrego esse uma milho de cards". E a Ultraprint tem um maquinrio l, ela tinha 2 (duas) mquinas KBA, com secador duplo, que d produo de um milho de cards por hora.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Entendi.

Depoente - Entendeu? Ento, eu consigo fazer, num curto espao de tempo, esse material, porque eu vi que, no mercado, o mercado no conseguia fazer. E, atravs disto, do card, eu comecei a ser procurado; parei de ir atrs dos partidos e comecei a ser procurado pelos partidos, porque era o carro-chefe das campanhas.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Entendi.

Depoente - Eu forneci para o PT.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Em 2014.

Depoente - Em 2014.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Presidencial, foi PT?

Depoente - Foi PT. Eu fiz servio para o Rio de Janeiro, parece...

Advogado (Miguel Pereira Neto) - No, presidencial, presidencial.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Presidencial, s.

Depoente - Presidencial, PT e Acio Neves tambm.

Juiz Auxiliar Eleitoral - PSDB?

Depoente - PSDB tambm.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Ento, PT e PSDB.

Depoente - PSDB. A princpio, o PSDB foi o primeiro que eu fui. O pessoal de So Paulo que j era acostumado a comprar os cards, chegou para o coordenador de campanha do Sr. Acio, o Sani, e me apresentou e falou: ", ele produz o card com qualidade, entrega no prazo". O Sani falou: ", eu tenho grficas em Minas Gerais que a gente vai direcionar para l, porque eu j tenho conhecimento, tal. A princpio no interessa o PSDB fazer card". E nisso eu j tinha comprado, eu tinha me precavido ao mercado antes. Por qu? Eu estava sendo muito consultado, eu peguei e fui atrs dos maiores fornecedores da minha matria prima, que a Portatplast, a Maxpoli e a Evertis. Ento, j fiz um estoquezinho para falar.

Advogado (Miguel Pereira Neto) - Responde exatamente o que ele colocar.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Vou tentar objetivar bem, sabe por qu? Tem vrios fatos aqui.

Depoente - Mas eu quero explicar tintim por tintim

Juiz Auxiliar Eleitoral - Tudo bem explicadinho, mas...

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - So no consegui ouvir bem o nome dessas trs empresas que ele se referiu. Portalplast?

Depoente - Portalplast, a Maxpoli e a Evertis.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Max o qu?

Depoente - Maxpoli. Elas so fornecedoras de ps e de pet, que matria-prima para o card. Eu cheguei l, como eles sabiam que eu era o que produzia mais, e j fiz um acordo com eles para j garantir uma produo para mim. Ento, mesmo que nesse perodo aparecesse um concorrente, pelo curto espao de tempo que para produzir a matria-prima do card, o concorrente j no teria nem a matria-prima disponvel, para fazer, no mercado. um material que, quem pedia oramento para mim, no conseguia achar dois ou trs; quando achava, achava em mquina digital, que o milheiro do card vai subir para R$ 150,00 (cento e cinquenta reais), R$ 200,00 (duzentos reais), pela quantidade que ela consegue produzir.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Eu vou trazer alguns fatos aqui, e o senhor vai, s sobre o fato, porque, no final, vai ter perguntas dos senhores advogados, seno a gente acaba se perdendo aqui no que nos

relevante, t, Sr. Beck? O senhor, na campanha de 2014 atendeu o PSDB e PT.

Depoente - PT.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Campanha presidencial, que que nos interessa.

Depoente - Presidencial. Certo.

(...)

Juiz Auxiliar Eleitoral - Em termos financeiros, o senhor se recorda o quanto que foi acordado ou foi contrafaturado com a campanha, no?

Juiz Auxiliar Eleitoral - Vinte e quatro milhes, no ?

Depoente - .

Juiz Auxiliar Eleitoral - Senhor Beck, esses 24 (vinte e quatro) para produo... lgico que tem produtos e servios, mas basicamente

produo dos cards, ou ... ?

Depoente No. De toda... Est completo aqui as amostras, e a gente

tem...

Juiz Auxiliar Eleitoral - Material grfico?

Depoente - Grfico tambm. Fornecia o santinho, cartaz, folder. Temos amostras de tudo, mas o principal do faturamento, o que mais agregou, foi o card, porque ele um produto especfico onde eu tenho uma margem confortvel para poder mexer no preo dele.

Juiz Auxiliar Eleitoral - O senhor usou a Ultraprint. Mais alguma?

Depoente - Eu usei... A o que me aconteceu, doutor: quando as grficas devolveram esse servio, eu j estava trabalhando com a Ultraprint full time , ento a gente foi fazer as contas de produo, eu no poderia mais pegar servio, teoricamente. O Sr. Charles pediu para mim atender o PT de So Paulo, que estava com dificuldade de fazer material. Eu falei: "Charles, eu estou lotado". A de novo ele pegou e "deu uma em mim" e falou: ", se vira". Beleza. Na poca, eu fui comentar isso com o Doutor Isaac, que estava l na Ultraprint, e comentei com ele: ", estou com grfica cheia, fui! time. Pelos prximos 30 (trinta) dias eu no tenho programao eeu no posso, e tem um servio, at grande, para poder fazer para o PT estadual aqui". Foi a que o Doutor Isaac falou: "se eu te ajudar nisso, o que voc faz?". Eu falei: "Doutro Isaac, se voc me ajudar nisso, o seguinte, o cliente que eu pegar dele, eu dou uma comisso para o

senhor". Ento, o Doutor Isaac falou que tinha um contato na Margraf. At ento, a Margraf, eu tinha ela em vista como uma concorrente minha. A o Doutor Isaac foi l e negociou isso.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Margraf?

Depoente - Com a Margraf. A princpio, qual foi a negociao? O cara falou: "d para fazer o material". Mas na hora que falou que era material poltico, a Margraf falou: "s vista que a gente faz material para poltico". E como eu j tinha comprado matria-prima, papel, plstico, eu j estava... Comeo de campanha, eu no tinha rodado o faturamento ainda, o Doutor Isaac se props a pagar os primeiros servios na Margraf, me emprestar o dinheiro, e depois eu reembolsava ele.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Qual era a ligao do Isaac com a... O senhor falou que encontrou o Isaac na Ultraprint.

Depoente - . Ele um prestador de servio da Ultraprint. Eu conheci ele l... Ele negociava dvida para a Ultraprint com bancos, essas coisas, advogado. A, em dois mil e... Na campanha de 2012, aconteceu o seguinte fato depois: teve candidatos que na hora de fazer a prestao de conta, em vez de por venda, no relatrio, puseram doao. A VTPB

nunca doou um centavo para poltico nenhum, at mesmo porque, para mim poder fazer a doao, eu tenho... ela feita em cima do faturamento do ano anterior. Como a VTPB trabalha em eleio, eu no tenho faturamento em ano mpar para poder fazer doao.

Juiz Auxiliar Eleitoral - S funciona em perodo eleitoral?

Depoente - Em perodo eleitoral.

(...)

Juiz Auxiliar Eleitoral - H aqui um valor de R$ 1.800.000,00 (um milho e oitocentos mil) que seria recebido pelo Sr. Thiago Martins Silva, que seria originrio da VTPB. O senhor sabe desse valor? O qu que ele (...).

Depoente - Esse valor foi os pagamentos do Sr. Isaac. Na hora que eu fui acertar, ele me passava essa conta do filho dele...

Juiz Auxiliar Eleitoral - Entendi.

Depoente - Por ordem e conta dele.

Advogado (Miguel Pereira Neto) - Que o Thiago.

Depoente - Que o Thiago, e eu fazia esse depsito na conta do Thiago.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Esse valor de R$ 1.800.000,00 (um milho e oitocentos mil), o senhor se recorda...

Depoente - No. Ele tem uma composio de uma devoluo mais ou menos de uns R$ 555.000,00 (quinhentos e cinquenta e cinco mil) para... que foi o que ele pagou na Margraf, e os honorrios que... Naquela hora que eu estava falando, depois de 2012, apareceu essa prestao de conta errada dos candidatos. Foi quando eu fui chamado pelo TRE a me explicar, porque eu no poderia fazer doao e, em vista que eles cruzaram os dados, eu no tinha faturamento do ano anterior. Ento, o Doutor Isaac ficou por conta dessas aes. Ento, eu combinei com ele, porque acontece o seguinte, Doutor: a gente forneceu e vem depois o ps-venda, vem uma srie de fatores, como essa prestao de conta errada do candidato que podia me comprometer, me aplicando uma multa, uma penalidade, ento, o Doutor Isaac, eu contratei ele para poder fazer esse servio. Eu falei: Isaac, ento voc faz esse servio e eu te pago o servio, esse servio eleitoral da VTPB. A VTPB vai te pagar quando ela tiver faturamento. Certo? Ento, nessa composio que o senhor est falando, tem a devoluo da Margraf, os honorrios do Dr. Isaac, mais a comisso em cima dessa venda da minha, a preo de venda, que foi produzido na Margraf.

Advogado (Miguel Pereira Neto) - Isso est informado na Receita.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Algumas empresas aqui que tambm teriam (

... ) recebido ( ... ) valor. MS Grfica e Acabamentos o senhor se recorda?

Depoente - A MS Grfica e Acabamentos, Doutor, o seguinte. A MS Grfica eu no conheo. Eu conheo a Ourograf, certo? A Ourograf ela presta servio de acabamento para a Ultraprint. Foi um pagamento que eu fiz para ela por conta e ordem da Ultraprint.

Advogado (Miguel Pereira Neto) - Bem objetivo.

Depoente - s para explicar o acabamento (...).

Juiz Auxiliar Eleitoral - Neototal, o senhor conhece?

Depoente - Neototal o seguinte, Doutor. Eu fechei a matria-prima com a Portalplast, certo? E a Portalplast, a princpio, o qu que era para fazer? Era para eu ver se eu conseguia aparas, porque fica... D para ganhar mais dinheiro comprando apara, mandando ele fazer a industrializao da apara para me dar uma matria-prima mais barata. Porm, o volume de apara seria muito grande, eu desisti da

ideia. Eu peguei e falei: oh, voc j me fornece a matria-prima direto. Ento, o qu que a Portal fez? A Portal mandava depositar: oh, estou te entregando tantos quilos de plstico, voc deposita tanto na conta da Neototal - na poca, para mim, a Neototal eu considerava que fosse um fornecedor dele. Inclusive, esse caso foi explicado na Receita Federal, inclusive com uma denncia espontnea da Portalplast, por qu? Na hora que saram as primeiras notcias, fui passar um pente-fino. Eu liguei para a Portalplast e falei: vem c, cad as notas dos outros pagamentos que eu te fiz? Ele falou: ah, ento... Deu aquela meia... A gente, realmente, no tirou, mas s que a gente vai l na Receita e vamos fazer uma declarao espontnea que a gente efetuou essa venda e vamos arcar com as despesas, deles.

Juiz Auxiliar Eleitoral - E o senhor tambm, consta aqui na movimentaes, Mdia Exterior Integrada Eireli.

Depoente - Isso. Isso meu irmo. O meu irmo, ele me presta um servio de assessoria na poca de campanha, que ajudar... Como 24 horas, eu no posso ficar l na grfica 24 horas. Ento, ele era o meu brao que ficava l para fazer confeco de arte final, essas coisas. E ele tambm me dava uma fora, que era, ficava por conta dele certificar as notas para recebimento do partido, porque o PT fez a seguinte coisa: no comeo, eles queriam que a gente fizesse a logstica. A gente falou: oh, impossvel para gente fazer a logstica. A eles optaram e arrumaram uma transportadora.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Qual o nome?

Depoente - Realiza. Essa transportadora ps uma balana, num galpo da sada de matria-prima. O qu que acontecia? Todo o material que ia sair da grfica, ele era pesado, porque o histrico de campanha do cara comprar mil e o fornecedor entregar setecentos forte. Ento, isso foi at uma ideia que eu dei para eles na poca. Falei: vocs conferem o seguinte, material vocs conferem pelo peso e no contar pacote, porque antigamente eles carregavam no comit e o cara contava os pacotes e falava tem cem pacotes aqui e ningum ia contar para ver se tinha mil, setecentos ou oitocentos dentro do pacote.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Aqui tem trs pessoas fsicas, num volume total de R$ 532.000,00 (quinhentos e trinta e dois mil), que a Leda Aparecida de Assis, Eneida dos Reis Assis e Weberton Felipe de Assis Faria.

Depoente - Isso, Doutor. Isso foi uma falha minha.

Advogado (Miguel Pereira Neto) - Tambm est explicado para a Receita.

Depoente - Est explicado na Receita. Isso a foi despesa minha, que eu no transferi... Em vez de eu transferir o dinheiro para a minha pessoal fsica para depois fazer uma compra de terra dessas pessoas - foi uma aquisio de terras, inclusive, a Polcia Federal esteve l, (...) depoimento de cada um deles.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Senhor, Beckembauer, o senhor chegou a fazer reunio com a tesoureira da campanha, a Sra. Eneida?

Depoente - Nessa primeira reunio s.

Juiz Auxiliar Eleitoral - Foi a nica (...).

Depoente - Foi a nica reunio que a gente teve (...).

Juiz Auxiliar Eleitoral - ( ... ).

Depoente - Depois, era feito mais por telefone, com o Sr. Charles Capeila, com o Moretti, com o Sr. Paulo Landim e com a Cllia. Esses eram os quatro responsveis. A Cllia pelo pagamento, o Paulo Landim para certificar... Se no tivesse a assinatura do Paulo Landim, que recebeu tanto de mercadoria, eu no recebia a nota. E o PT tambm fez o seguinte: ele ps uma auditoria dele que frequentemente, duas a trs vezes por semana, iam trs pessoas l, que se apresentaram como auditores do Partido, eles verificavam se o material estava sendo produzido, se o papel era o papel encomendado, se estava dentro dos parmetros de campanhas.

(...)

Juiz Auxiliar Eleitoral - Est certo. O senhor sabe qual foi a margem de lucro do senhor desses 24.000.000,00 (vinte e quatro milhes)?

Depoente - Doutor, isso a, na minha expertise do negcio, o seguinte: qual que era o meu grande negcio? Era comprar da grfica, vender para o poltico e a grfica no saber o preo que eu vendi.

Juiz Auxiliar Eleitoral - S uma pergunta, j que o senhor respondeu isso. Por que a campanha no ia diretamente da grfica?

Depoente - Doutor, 90% (noventa por cento) das grficas no trabalham para poltico, j de experincias anteriores, porque tomaram cano. Citei o fato do meu pai que, quando protestou o PT, nunca mais fez servio. A Ultraprint tambm...

Juiz Auxiliar Eleitoral - Por que o senhor sentia confiana de assumir esse risco, de trabalhar com as campanhas?

Advogado (Flvio Henrique Costa Pereira) - O senhor diz aqui, pelo relatrio que foi feito tambm no TSE, foram emitidas notas fiscais de

R$ 8.590.000,00 (oito milhes, quinhentos e noventa mil reais) dos servios que o senhor contratou das grficas e consta pagamentos de R$ 6.900.000,09 (seis milhes e novecentos mil reais). H um delay a, uma diferena...

Depoente - Doutor, isso a j foi explicado na Receita Federal, inclusive foi aquilo que falei. Na hora passou um pente fino, n? Tive que pegar... Teve nota que no foi registrada. Teve esse caso da Portalplast tambm, que daria o total, que s ia a dois milhes e novecentos a mais na composio. Isso est tudo explicado na Receita Federal.

Advogado (Flvio Henrique Costa Pereira) - Ento, queremos ouvir explicao do senhor.

Depoente - Est explicado na Receita.

(...)

Advogado (Flvio Henrique Costa Pereira) - Doutor, vou pedir apenas para o senhor orientar a testemunha que ns... se comportarem, por favor. Segundo tambm o relatrio, no foi identificada a origem de aproximadamente quatro milhes de reais. O senhor sabe dizer qual essa origem?

Depoente - Doutor, toda a origem com nota fiscal e com transferncia bancria. Eu no tive depsito de espcie alguma de caixa dois nem dinheiro em espcie.

Advogado (Flvio Henrique Costa Pereira) - Ok. O senhor realizou pagamentos para a empresa Door To Door no valor de aproximadamente cento e setenta e cinco mil reais. O senhor sabe qual ...?

Depoente - Est explicado na Receita. de um amigo meu. Eu emprestei o dinheiro pra ele e ele me devolveu no mesmo ano.

(...)

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Toda nota de remessa, ento, tem uma nota me. isso?

Depoente - Isso, isso.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Mas s para eu entender. A maior parte, ento, levada a Realiza. isso?

Depoente - Olha, Doutor, noventa e nove.., se no me engano, de noventa por cento para cima foi a Realiza, inclusive, por qu? A Realiza ficava responsvel para poder pesar esse material junto com o auditor.

(...)

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Continuando: em relao percia aqui dentro do Tribunal, os senhores foram ouvidos pelos peritos quantas vezes?

Depoente - Doutor, os peritos fizeram a diligncia, no , no dia em que foi feita a diligncia, eu levei eles no endereo da Tilipaper, abri para eles e mostrei que l constam s uns arquivos velhos meus que esto l, de eleies anteriores, coisa para guardar, e solicitei a eles que fossem comigo, juntos, Ultraprint e Margraf, que s atravessar a ponte e falar: aqui, vamos certificar.. Voc quer ir l, conhecer a instalao? A Ultraprint a qualquer hora ela est disponvel para abrir as portas l, mostrar a instalao dela, no ? Agora, o PT, ele ps trs auditores, Doutor, que, semanalmente, eles tiravam foto, certificavam os servios, inclusive, teve um caso que um desse material que eu mandei para a Leograf, do Padilha, pegaram l e contaram quantos tinham dentro de uma caixa e deu uma diferena de oito por cento. No dia seguinte, os auditores da sua coligao foram atrs de, mim j para negociar um desconto de oito por cento que eu estaria entregando a menos. Falei: olha, eu no vou negociar esse desconto de oito por cento por qu? Eu compro a matria-prima e essa matria-prima entra na mquina. No tem como o contador da mquina errar. E qual que foi o erro que tinha a no caminho? A primeira pessoa que foi fazer a caixa, ele conseguiu por dez mil e quinhentos caixas dentro de uma caixa. Quando foi para um outro setor de produo que voc pe o Card, acondiciona ele dentro da caixa, ele vai caber um pouco a mais ou um pouco a menos. Foi a que a gente pegou e conseguiu achar o erro no peso. Eu tinha mais volumes entregue superando esta quantidade.

(...)

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Ento, no houve visita dos senhores peritos judiciais daqui do processo Ultraprint e Magraf?

Depoente - No houve, no houve.

Advogado (Miguel Pereira Neto) - Que ele saiba, no

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - O senhor no acompanhou?

Depoente - No acompanhei. E pelo que me falaram, no houve.

Advogado (Miguel Pereira Neto) - Depois houve uma outra reunio no nosso escritrio...

Depoente - Onde a gente apresentou as...

Advogado (Miguel Pereira Neto) - Na mesma data, se no me engano.

Depoente - Na mesma data.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - S para entender, a primeira foi na sede da ( ... ).

Depoente - Isso. A encaminhamos para o escritrio.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - O senhor sugeriu que fossem visitar a Ultraprint e a ( ... ).

Depoente - Os terceirizados mesmo. E eles s no quiseram.

(...)

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Mas s voltando quela parte inicial da percia. O senhor disse que entregou alguns documentos e fez referncia a documentos que haviam sido entregues anteriormente no Colgio Eleitoral? Quero saber se o senhor entregou a mesma coisa que havia entregue antes ou tem documentos que estavam com a PGE e que o senhor no entregou para os peritos.

Depoente - Ah, doutor, o procedimento da PGE est completo. Por que? Primeiro veio o procedimento da PGE, a gente teve um puta de um trabalho para poder fazer tudo certinho, explicar tudo detalhadamente. Depois tive que fazer um outro procedimento desse para a Receita Estadual. Quando o TSE chegou, eu j no t tendo nem folha de mquina, que folha de mquina voc guarda uma ou duas. Ento, esses documentos, se o senhor quiser pedir para desarquivar na PGE, o senhor pode periciar eles. No coisa feita na hora, nem fundo de quintal no. material feito, porque tem at a data do material que foi feito.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - O senhor pagou algum dos seus fornecedores em dinheiro?

Depoente - Doutor, nenhum.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Todos transferncia?

Depoente - Todos transferncia.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Pelo relatrio da PF, foi constatado que em alguns casos o senhor no pediu nota fiscal a terceiros. Isso afetaria o seu custo contbil e o seu lucro.

Depoente - No, doutor.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - ( ... )

Depoente - H um equvoco, h um equvoco. H um equvoco do seguinte: ele no tem que dar nota fiscal pra mim, ele tem que dar nota fiscal pra Ultraprint, porque estou adquirindo um servio dela. Ento, tem um equvoco nisso. A nota fiscal, que eu tiro, eu tiro para o poltico e presto conta ao TSE, corno em todas as campanhas a gente vem prestando conta ao TSE de todo o material feito pela VTPB.

(...)

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Tem algum documento, algum material que o senhor no entregou ainda aqui e gostaria de entregar?

Depoente - No.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - A percia apontou, num primeiro momento, uma diferena, disse que a VTPB teria confeccionado cerca de um bilho de material, no em reais, um bilho de materiais e que havia uma diferena entre aquilo que foi entregue, que teria sido constatado seiscentos milhes, que quatrocentos milhes no teriam prova de...

Depoente - Doutor,...

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Eu ainda estou com o relatrio, pensei que os senhores tivessem acesso.

Depoente - O prprio partido do senhor tinha trs auditores que iam l, conferiam, tinham uma balana. Todas as notas, para receber, foram certificadas; salvo alguma falha, 100% do material foi entregue, at mesmo porque vocs me pagaram 100% do material.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Isso que eu queria saber. Restou alguma dvida da companha?

Depoente - A do PT Nacional no.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Do PT Nacional no. O que interessa pra ns o PT Nacional. Acho que isso j. Quando o senhor contratava com as terceirizadas, o senhor chegou a ter algum contrato formal ou isso era informal?

Depoente - Doutor, so j mais de vinte anos de mercado.

Advogado (Flvio Crocce Caetano) - Ento no chega a ter um contrato.

Depoente - . No chega a ter, j tenho uma relao de confiana. Antigamente, quando a gente comeou, a gente tinha que pagar o servio vista; hoje j gozo de um crdito do mercado.

Em face de todos esses fatos, o Ministrio Pblico Eleitoral

entende configurado o abuso do poder econmico, diante da indicao de

gastos com produo de material grfico, sem que tenha sido devidamente

comprovada a realizao dos servios, ante a contratao de empresas

fantasmas, destinatrias de elevada soma de recursos, tudo a evidenciar,

inclusive, a prtica de lavagem de dinheiro.

O rgo ministerial destaca, por exemplo, que a Polcia Federal

apontou que determinadas empresas no prestaram servios REDE SEG, na

campanha de 2014, conforme narrativa de Rodrigo Zanardo, proprietrio da

empresa Graftec e que mantm ligao, considerados vnculos familiares, com

outros empreendimentos (RGP Mdia e Grfica Eireli EPP, Artetcnica

Gravaes Decorativas e Litogrficas Ltda e RKR Acabamentos).

Acrescenta que a Receita Federal apontou haver indcios

contundentes de que as empresas Graftec e RGB Mdia no so operacionais

e utilizaram a REDE SEG, de propriedade de Vivaldo Dias da Silva, como

fachada, a inferir que se trata de interposta pessoa para ocultar os bens dos

reais proprietrios.

Defende, assim, que as empresas no foram capazes de

demonstrar os servios contratados ou a subcontratao sucedida, cuja

irregularidade quanto ao citado gasto com servios grficos alcanam a

importncia de R$ 53 milhes de reais, rompendo com o dever de

transparncia, razo pela qual de se concluir que houve a utilizao de

recursos de forma indevida e ao arrepio do controle da prestao de contas na

campanha (j que falsamente declarada a aplicao), resultando inequvoca a

prtica de abuso de poder econmico.

No obstante a argumentao do rgo ministerial, entendo

que, diante do cotejo da farta prova documental e da prova testemunhal

produzida, no se pode chegar concluso inequvoca de que tais servios de

material de campanha no foram efetivamente prestados ou mesmo que houve

desvio de recursos de campanha, por meio dessas empresas, para proveito

prprio e de terceiros.

O depoente Edielson Jos Rocha, empresrio do ramo de

cargas, afirmou, em seu depoimento e proprietrio da empresa que realizaria o

transporte do material de campanha, afirmou que trabalhou em vrias

campanhas pretritas e reconheceu o transporte do que produzido (fls. 5.506-

5.508 da AIJE 1943-58), inclusive por parte de subcontratadas.

De outra parte, h inmeros elementos e informaes extradas

dos autos que permitem concluir que houve a prestao dos servios grficos,

diante de notas fiscais emitidas e outros dados apurados.

V-se que h uma complexa relao entre as empresas

contratadas na campanha dos investigados (REDE SEG, VTPB e FOCAL) e

suas respectivas subcontratadas, a despeito da indicao de inconsistncias

quanto confuso entre elas, problemas de regularidade fiscal e de

funcionamento das sedes, bem como dos pagamentos efetuados (inclusive

envolvendo outras empresas e pessoas fsicas).

Nesse ponto, tais informaes que ensejariam a concluso de

possvel fraude so, a princpio, refutadas, alm de documentos, dos

depoimentos prestados sobretudo pelo proprietrio da VTPB (que, na verdade,

funciona como um intermedirio entre a campanha dos investigados e outras

grficas), bem como de Paulo Cortegoso, scio-proprietrio da CRLS em face

de sua relao com a Focal. A prpria autoridade policial requereu o

prosseguimento das investigaes sobre os fatos apurados, alm do que se

mencionou, no caso, a existncia de um contexto, na verdade, indicirio que

envolve a imputao de desvio de valores. Alm disso, no possvel, a meu

juzo, mensurar com preciso qual teria sido o desvio sucedido, diante at

mesmo da duvidosa destinao que poderia ter ocorrido.

Dos depoimentos tambm se depreende que uma das

empresas da campanha de 2014 efetivamente teria sublocado o servio

mediante contrato informal, mas so narradas inmeras circunstncias que

permitem inferir a expertise dos envolvidos que trabalharam em outras

oportunidades em campanhas eleitorais, bem como explicaes sobre valores

repassados e dos servios tcnicos prestados.

Os testemunhos colhidos tambm apontaram a ocorrncia, por

exemplo, de operao bancria particular que no diria respeito atividade

comercial contratada, com reconhecimento desse equvoco.

certo que o conjunto de depoimentos referentes prestao

de servios pela REDE SEG demonstrou-se a mais inconclusiva e duvidosa,

diante de incoerncia do depoimento do proprietrio Vivaldo Dias da Silva, que,

segundo se depreende, na verdade seria um mero laranja ou proprietrio

formal do empreendimento, Rodrigo Zanardo.

Diante do contexto em exame, no h como categoricamente

afirmar que parte do dinheiro contabilizado para os servios em tela tenha sido

objeto de desvio e que no houve a produo dos materiais assinalados, nas

cifras cogitadas pelos autores.

certo que a testemunha Jhonathan Gomes Bastos chega a

afirmar em seu depoimento que transportou dinheiro em espcie para

dirigentes do Partido dos Trabalhadores em Braslia, o que teria sido remetido

por Carlos Cortegoso e ocorreu em duas oportunidades em 2014, alm de

outras ocasies pretritas. Tambm asseverou que parte dos valores pagos

pelos servios no foram utilizados em campanha.

No obstante tal depoimento e alm das aparentes

inconsistncias que foram apresentadas pelas informaes tcnicas produzidas

(estas ltimas refutadas especificamente pela defesa), no vislumbro

elementos que comprovem, de forma induvidosa, a tese de desvio de recursos

da campanha.

Alm disso, tambm de se ponderar que no h uma

delimitao especfica de como recursos que teriam sido pagos pela campanha

dos representados tiveram algum reflexo na campanha, alm do argumento de

que teriam sido destinados ao fim no vinculado e proveito prprio.

A jurisprudncia do Tribunal tem assentado que, em princpio,

o desatendimento s regras de arrecadao e gastos de campanha se

enquadra no art. 30-A da Lei das Eleies. Isso, contudo, no anula a

possibilidade de os fatos serem, tambm, examinados na forma dos arts. 19 e

22 da Lei Complementar n 64/90, quando o excesso das irregularidades e seu

montante esto aptos a demonstrar a existncia de abuso do poder econmico

(Recurso Especial n 13068, rel. Min. Henrique Neves, DJE de 13.8.2013).

Entendo que, para fins de configurao da prtica abusiva,

deve ficar comprovado fatos que demonstrem a repercusso dessas

irregularidades apuradas quanto aos gastos com empresas grficas, mediante

o uso de recursos na campanha eleitoral, com vista ao proveito eleitoral.

Nesse sentido, este Tribunal j decidiu que "a eventual licitude

da arrecadao e gastos efetuados em campanha ou mesmo a aprovao das

contas no afastam, por si, o abuso do poder econmico, porquanto o que se veda o uso excessivo desses recursos, de modo a influenciar o eleitorado e afetar a normalidade e legitimidade do pleito" (REspe n81-39, DJE de 8.10.2012, grifo nosso).

certo que, a partir da LC 135/2010, o inciso XVI do art. 22 da

LC 64/90 passou a dispor que para a configurao do ato abusivo, no ser

considerada a potencialidade de o fato alterar o resultado da eleio, mas

apenas a gravidade das circunstncias que o caracterizam, no obstante no

vislumbro a ocorrncia de outros fatos que corroborem a destinao desses

recursos para fins de caracterizao do ato abusivo.

No obstante, afigura-se necessrio individualizar uma cadeia

ftica que permita vincular as falhas averiguadas quanto a esse gasto,

mediante algum liame de vinculao campanha, por exemplo, com eventual

cooptao indevida de eleitores, ainda que por meios lcitos, evidenciando

algum benefcio.

Importante notar que "o abuso de poder econmico ocorre

quando determinada candidatura impulsionada pelos meios econmicos de

forma a comprometer a igualdade da disputa eleitoral e a prpria legitimidade

do pleito" (RCED n 7116-47, rei. Min. Nancy Andrighi, DJE de 8.12.2011) e o

que se alega, e no considero provado, que houve a destinao de recursos

arrecadas na campanha presidencial dos representados que supostamente

remuneraram uma prestao de servios grficos, com alegaes at mesmo

de eventual destinao, em proveito prprio.

Diante disso e mngua de um contexto probatrio contundente diante da gravidade sustentada, no reconheo a prtica de abuso de poder em decorrncia do fato em anlise.

II - RECEBIMENTO DE DOAES OFICIAIS DE EMPRESAS CONTRATADAS PELA PETROBRAS

Segundo narrado nas exordiais, a representante alega

que a campanha dos representados teria recebido doaes oficiais de

empresas contratadas pela Petrobras, como parte de esquema de

pagamento de propinas naquela estatal.

Cito textualmente o que alegado:

Como fartamente noticiado pela imprensa nacional (doe. 24), a campanha eleitoral de 2010 da requerida Dilma Rousseff foi financiada, em parte, por dinheiro oriundo da corrupo da Petrobrs. Esta afirmao foi feita peremptoriamente por Paulo Roberto da Costa em depoimento prestado Justia Federal. No se trata de um ato isolado, mas sim de uma prtica costumeira, com incio no ano de 2004, para o financiamento de partidos polticos aliados ao Governo Federal. Assim que como pblico e notrio, Paulo Roberto da Costa, ex-diretor da Petrobrs, juntamente com outras pessoas indicadas por polticos e nomeados pela requerida DlLMA ROUSSEFF, organizavam um grupo de grandes empreiteiras para, em um processo de cartelizao, direcionar contratos superfaturados a empresas especficas, atravs dos quais se desviavam recursos pblicos para o Partido dos Trabalhadores - PT, o Partido Progressista - PP e o Partido do Movimento Democrtico Brasileiro PMDB com pagamento de propina que variava entre 1% (um por cento) e 3% (trs por cento) do valor dos contratos. [...]

Os valores desviados so de grande monta, atingindo cifras milionrias que permitiram o financiamento dos partidos polticos integrantes da coligao investigada, os quais lograram condies privilegiadas para se inserirem no contexto poltico e social, auferindo vantagem desproporcional em relao aos adversrios. O recebimento desses valores fato incontroverso, pois consta da prestao de contas dos trs partidos polticos destinatrios das propinas, conforme fazem prova os respectivos Demonstrativos de Receitas Recebidas, extrados do site desse Egrgio Tribunal (doe. 26). Assim que estes partidos receberam os seguintes montantes das empresas investigadas na operao Lava Jato da Polcia Federal, apenas nos anos de 2012 e 2013: [...] Como cedio, os recursos arrecadados por partidos polticos so tambm destinados ao financiamento das campanhas eleitorais de que participam. Assim, o privilgio do financiamento esprio no s aquele oriundo da melhor insero social dos partidos no tempo, mas tambm na prpria campanha eleitoral. No bastasse esse contexto, importante revelao foi feita pela Revista Veja, que noticiou a tentativa do Partido dos Trabalhadores - PT de repatriar R$ 20.000.000,00 (vinte milhes de reais), oriundos da corrupo na Petrobrs, para financiar a campanha reeleitoral, o que s no se concluiu, ao menos pelas mos do doleiro Alberto Yousseff, em razo de sua priso (doe. 27). Embora aqui se trate de mera notcia jornalstica, diante dos elementos j existentes e comprovados, ou seja, o depoimento de Paulo Roberto da Costa confirmando o pagamento de propina e o financiamento da campanha de Dilma Rousseff em 2010, os indcios levam deduo de que este proceder verdadeiro, consistindo em mtodo que deve ser apurado nesta ao de investigao. Resta evidente, portanto, que o dinheiro desviado da Petrobras financiou direta e indiretamente a campanha dos requeridos, no se podendo olvidar que os dois partidos que mais receberam recursos das empreiteiras envolvidas com o escndalo da Petrobrs foram o da candidata a Presidente da Repblica, o PT, e o do candidato a vice-Presidente da Repblica, o PMDB. Ora, diante desses fatos, mo restam dvidas de que as candidaturas dos requeridos foram beneficiadas por abuso de econmico, na medida em que um sofisticado esquema de arrecadao ilegal de dinheiro pblico foi montado para obter, a partir de contratos mantidos com a Petrobrs, cifras milionrias em favor das agremiaes partidrias, cujos recursos permitiram a captao de votos em favor dos candidatos e dos partidos mediante o financiamento de aes partidrias. bvio que esses recursos foram utilizados para alavancar a imagem dos candidatos e lideranas dos partidos; garantir e financiar

as campanhas de candidatos a prefeitos e vereadores das eleies de 2012 com vistas a obter apoio nas eleies de 2014, alm de garantir apoio financeiro a candidatos majoritrios e proporcionais neste ano, dentre outros. Tudo isso, vale destacar, gera reflexos diretos e imediatos na eleio presidencial. Logo, os benefcios dos recursos ilcitos recebidos so imensurveis e, a toda evidncia, desequilibram o pleito e afetam a legitimidade e a normalidade das eleies. Ademais, a obteno de recursos de campanha de forma ilcita, seja por concusso, seja por corrupo passiva, seja por trfico de influncia, tambm configura inegvel abuso do poder poltico. No caso, agentes pblicos ou pessoas a eles ligados foram a concesso de contribuio de campanha, sob promessa de providncias benficas ou ameaa de malefcios. No caso, o depoimento prestado pelo ex-Diretor da Paulo Roberto Costa, assinala que as empresas contratadas pela estatal do petrleo eram constrangidas a contriburem para partidos polticos, dentre eles o PT e o PMDB, aqui representados. No caso, o depoimento prestado pelo ex-Diretor da Paulo Roberto Costa, assinala que as empresas contratadas pela estatal do petrleo eram constrangidas a contriburem para partidos polticos, dentre eles o PT e o PMDB, aqui representados. A obteno de recursos nessas circunstncias caracteriza o abuso do poder poltico, porquanto as aludidas doaes foram feitas em decorrncia de promessas de benesses ou de absteno de criar entraves por parte dos agentes da empresa estatal. Outrossim, embora isso ainda no tenha sido objeto de explicitao nas investigaes da "Operao Lava Jato", pelo volume de recursos envolvidos apresenta-se fortssima a suspeita de que o comando da candidatura dos requeridos no tivesse conhecimento das noticiadas irregularidades. Seja como for, o certo que os representados foram beneficirios dessa ao espria de agentes pblicos da Petrobrs, recebendo em favor de sua campanha os montantes obtidos de forma ilcita, com grave desequilbrio de oportunidades entre os concorrentes da disputa eleitoral. Alis, o prejuzo pode no se limitar aos valores carreados para as campanhas dos candidatos representados, mas tambm pelos que deixaram de fluir para as candidaturas opositoras. A conduta ilcita dos agentes pblicos, portanto, enseja violento e inaceitvel abuso do poder poltico e econmico que tisnou irremediavelmente a legitimidade da eleio. A obteno de recursos nessas circunstncias caracteriza o abuso do poder poltico, porquanto as aludidas doaes foram feitas em decorrncia de promessas de benesses ou de absteno de criar entraves por parte dos agentes da empresa estatal. Outrossim, embora isso ainda no tenha sido objeto de explicitao nas investigaes da "Operao

Lava Jato", pelo volume de recursos envolvidos apresenta-se fortssima a suspeita de que o comando da candidatura dos requeridos no tivesse conhecimento das noticiadas irregularidades. Seja como for, o certo que os representados foram beneficirios dessa ao espria de agentes pblicos da Petrobrs, recebendo em favor de sua campanha os montantes obtidos de forma ilcita, com grave desequilbrio de oportunidades entre os concorrentes da disputa eleitoral. Alis, o prejuzo pode no se limitar aos valores carreados para as campanhas dos candidatos representados, mas tambm pelos que deixaram de fluir para as candidaturas.

A representada Dilma Vana Rouseff Linhares nega a

ocorrncia de abuso de poder econmico, asseverando que ambas as

principais campanhas de 2014 receberam recursos das empresas contratadas

pela Petrobras.

Afirma que no h nenhum indcio de que tenha participado da

prtica de corrupo na aludida empresa estatal ou mesmo colaborado para a

sua ocorrncia.

Alega que a sua campanha adotou todos os procedimentos

para a verificao da legalidade das receitas de campanha, com a observncia

de todas as cautelas legais, de modo que, se os doadores obtiveram os

recursos de forma ilcita, tal ilicitude no se projetaria sobre a campanha.

Michel Miguel Elias Temer Lulia, por seu turno, afirma que a

prova insegura quanto ao principal, ou seja, quanto alegao de que o

dinheiro que supostamente teria sido desviado da Petrobras haveria aportado

na campanha eleitoral de 2014.

A prova do presente fato envolve, a meu juzo, quatro

aspectos:

a) a existncia de doaes oficiais das empresas contratadas

pela Petrobras campanha eleitoral de 2014;

b) se h prova de que os contratos com a Petrobras foram

fraudados para a obteno de vantagens ilcitas;

c) se o acerto previa alguma contrapartida aos partidos;

d) se a totalidade ou parte dos recursos ilcitos aportou na

campanha dos representados no ano de 2014.

Com relao ao item a, no h maior controvrsia, visto que os

prprios representados reconheceram que as empresas em questo doaram

para a sua campanha eleitoral, no obstante aleguem que no tinham

conhecimento da suposta origem ilcita dos recursos.

Alm disso, as informaes a respeito das doaes oficiais

recebidas pela campanha constam do stio eletrnico do Tribunal Superior

Eleitoral, do qual possvel inferir que as empresas citadas na inicial

realmente doaram para a campanha dos representados.

Com relao aos itens b e c, farta a prova testemunhal no

sentido de que alguns contratos da Petrobras eram operados por diretores

indicados por partidos polticos, de modo que certo percentual de recursos,

negociado de acordo com a diretoria, era repassado a maior para as

empresas, as quais, por sua vez, alimentavam o caixa dos partidos por meio,

entre outros mtodos, de doaes oficiais.

No ponto, Paulo Roberto Costa, conquanto no d maiores

detalhes a respeito da prtica, expe o mtodo de indicao dos diretores da

Petrobras, de acordo com o alinhamento partidrio e de modo a manter o

suposto esquema de propina:

O SENHOR NICOLAU LUPIANHES NETO (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Desde quando o senhor tem conhecimento disso? O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): ... eu falei tambm nos meus depoimentos que as diretorias da Petrobras eram sempre por indicao poltica. Ento, isso [esquema de propinas], desde que eu me conheo como Petrobras, em vrios governos, desde que eu me lembre, assim, com mais exatido, desde o Governo Sarney, Governo Collor, Governo Itamar, Governo Fernando Henrique Cardoso, isso sempre aconteceu dentro da Petrobras, porque as indicaes eram polticas, para a diretoria. E, obviamente, no tem nenhum partido poltico que indique um diretor pelos belos olhos dele. (...)

Alberto Youseff tambm detalha como os recursos eram

desviados da Petrobras para reforo de caixa de partidos polticos, no seu

caso especificamente, do Partido Progressista:

O SENHOR NICOLAU LUPIANHES NETO (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): As empreiteiras, todas essas nominadas aqui, como o senhor disse que se no tiver nada em troca, no doam, todas elas, quando doam, buscam essa... essa troca? A obteno de alguma facilidade l na frente? O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): Pelo menos, todas com que eu tratei, teve favorecimento nos contratos da Petrobras. O SENHOR NICOLAU LUPIANHES NETO (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Que tipo de favorecimento, Senhor Alberto? O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): Favorecimento na lista de convidados, na... na questo da vez de ganhar obra. ... na questo de agilidade nos seus aditivos. E a por diante. O SENHOR NICOLAU LUPIANHES NETO (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Superfaturamento, tambm, de preos? O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): No. Isso, pelo menos, eu nunca vi. E, no meu entendimento, nunca existiu. O SENHOR NICOLAU LUPIANHES NETO (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Certo. Qual era o percentual utilizado nos valores de contrato para esse apoio poltico? Quanto que saa da Petrobras para o PP, o PT, o PMDB? O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): Na verdade, saa do caixa das empreiteiras. O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): Era 1% - as que podiam pagar 1%, as que no podiam, pagavam 0,5%; as que no podiam pagar 1% pagavam 0,75%. Mas, em vias de regra, era 1%. O SENHOR NICOLAU LUPIANHES NETO (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): E a informao de que variava de 1% a 3%, dependendo do contrato... do valor do contrato - procede essa informao? O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): No. A... essa questo de um a trs, pelo menos como eu tratava na questo do Partido Progressista, era nos aditivos. (...)

Jlio Gerin de Almeida Camargo, representante do grupo Toyo

Engineering, detalhou como a obteno de contratos com as diretorias da

Petrobras especificamente, no seu caso, as de engenharia e de

abastecimento era condicionada ao pagamento de parte dos recursos ao

partido ao qual o diretor estava vinculado:

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): (...) O senhor relatou hipteses de pagamento de vantagens em relao a contratos com a Petrobras. O senhor poderia descrever rapidamente isso para ns? O SENHOR JLIO GERIN DE ALMEIDA CAMARGO (depoente): Na verdade, no eram hipteses, eram... Na verdade, foram fatos. Na verdade, instituiu-se na Petrobras - notadamente na rea de engenharia e servios e na rea de abastecimento - uma modalidade, que eu usei na minha colaborao, dizendo que era a regra do jogo. Isto , ou voc pagava ou voc no obtinha xito nos seus negcios. E eu, como representante de um grupo internacional e que tinha interesse nessas reas, no fugi regra e tive que colaborar naquilo que se referia aos meus contratos. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): O senhor era representante de qual grupo? O SENHOR JLIO GERIN DE ALMEIDA CAMARGO (depoente): Toyo Engineering, empresa japonesa do Grupo Mitsui. (...) O SENHOR JLIO GERIN DE ALMEIDA CAMARGO (depoente): No meu caso, foi diretamente com dois diretores da rea - da rea de engenharia, o Senhor Renato Duque; e na parte de abastecimento, o Senhor Paulo Roberto Costa. A abordagem, de certa maneira, muito similar, dizendo que eles estavam ali, evidentemente, foram nomeados e que tinham algumas misses a serem cumpridas e ento que eu considerasse, nos meus contratos, um percentual de 1% para a parte de engenharia e 1% para a parte de abastecimento. Conforme eu j disse na minha colaborao, esse valor, ele no era um valor fixo e um valor inegocivel. Era um valor flexvel e muitas vezes negociado sempre para baixo. O que ambas as partes me falaram na poca, tanto a parte de engenharia como a de abastecimento, que, dentro desse valor de 1%, havia um percentual incluso nesse 1% que se destinava ao partido que sustentava esses diretores dentro da Petrobras. E o que se sabia na poca que a parte de engenharia era uma indicao do PT, do Partido dos Trabalhadores, e a parte de abastecimento era uma indicao do PP, e, posteriormente, j no segundo mandato do governo Lula, houve um enfraquecimento do PP dentro do cenrio poltico, e houve a entrada do PMDB. Ento, a partir da, houve uma coalizo, vamos dizer, entre esses dois partidos. (...) O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): E o 1% sairia de onde?

O SENHOR JLIO GERIN DE ALMEIDA CAMARGO (depoente): Sairia do contrato, do lucro. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Senhor Jlio, os contatos na rea de abastecimento e engenharia eram com? O SENHOR JLIO GERIN DE ALMEIDA CAMARGO (depoente): Paulo Roberto Costa, na rea de abastecimento; e Renato Duque e Pedro Barusco, na parte de engenharia. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): As reunies do senhor sempre foram apenas com o Paulo Roberto Costa, com o Renato Duque e com o Pedro Barusco ou tambm houve com o pessoal da rea poltica? Houve alguma reunio com o pessoal da parte poltica? O SENHOR JLIO GERIN DE ALMEIDA CAMARGO (depoente): Na parte poltica tive, praticamente na parte de abastecimento, com o ex-deputado Jos Janene, que foi quem nomeou o ex-diretor Paulo Roberto Costa, e ele ento at antes de nomear o Paulo Roberto Costa j me procurou, dizendo que haveria essa indicao e que ele me procuraria para determinar as condies. [...]

Augusto Ribeiro de Mendona Neto tambm explicitou o

modus operandi do pagamento da propina, a partir da perspectiva das

empresas:

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): O senhor poderia, brevemente, relatar como se desenvolveu, como iniciou e se desenvolveu essa relao? O SENHOR AUGUSTO RIBEIRO DE MENDONA NETO (depoente): Bem, na diretoria que se... que tomou posse na Petrobras no ano de 2003, existiu a uma aproximao entre... aproximao sempre existiu, n, mas existiu a uma aproximao relativa a comisses ou pagamentos indevidos entre os diretores Renato Duque e Paulo Roberto com as empresas do nosso setor. Particularmente, nesta poca, a Setal no tava trabalhando com a Petrobras, no tava sendo convidada para novas obras com a Petrobras, porque tinha algumas pendncias ainda a resolver. Mas foi nessa oportunidade a que essa relao comeou, e, a partir da, as empresas comearam a pagar comisses para os diretores da Petrobras. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Quem eram os diretores? O SENHOR AUGUSTO RIBEIRO DE MENDONA NETO (depoente): O Renato Duque e o Paulo Roberto. No nosso caso, ns fomos contemplados com um contrato em 2007 - eu acho -, aonde

esta comisso foi discutida e foi paga pelo consrcio do qual a Setal fazia parte. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Essa obra foi a Refinaria Presidente Getlio Vargas? O SENHOR AUGUSTO RIBEIRO DE MENDONA NETO (depoente): Sim, a Repar.

Eduardo Hermelino Leite relatou fatos semelhantes, porm sob

a tica da empresa Camargo Corra:

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): (..) O senhor relatou, na colaborao premiada, a existncia de alguns pagamentos de propina, comisses sobre contratos envolvendo a Camargo Corra e a Petrobras. O senhor confirma? O SENHOR EDUARDO HERMELINO LEITE (depoente): Confirmo. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Eu gostaria que agora, sucintamente, o senhor relatasse como funcionou essa sistemtica e, na medida do possvel, trazendo datas e pessoas com quem... que participavam disso. O SENHOR EDUARDO HERMELINO LEITE (depoente): Rapidamente. Em 2009, eu assumi a funo de Diretor da rea de leo e Gs da Camargo Corra, no qual me foram passados os pactos que a empresa tinha com operadores que eram responsveis por entregar propina s diretorias da Petrobras. Isso j estava pactuado e a minha obrigao residia na... dar fluidez - fazer com que esses repasses ocorressem. Na discusso desses repasses junto aos operadores, constantemente era citado que cada diretoria acolhia um partido poltico. No caso da Diretoria de Engenharia e Servios, era o PT que era atendido, e na Diretoria de Abastecimento era o PP Partido Progressista. No tive contato com nenhum dos polticos, somente com os operadores. Os operadores que, efetivamente, comentavam que existia este vnculo. Os pagamentos sempre ocorreram atravs de ... da propina atravs de terceiros - o que eu quero dizer com isso? A Camargo no operava sistema de Caixa Dois. Ento, ela se utilizava de servios de empresas terceiras, que, efetivamente acabavam dando um destino para o recurso. (...) O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): ... ou partidos polticos que eram beneficiados nessa rea. Havia a indicao, pelo operador, de qual seria a empresa que o valor deveria ser pago? O SENHOR EDUARDO HERMELINO LEITE (depoente): Ns tnhamos - eu citei o caso do abastecimento - no caso da Diretoria de

Engenharia e Servios, todo o repasse foi feito atravs do Senhor Jlio Camargo. Ento, as empresas do Senhor Jlio Camargo eram as empresas que recebiam os recursos da Camargo Corra, e ele... ... ... que fez... a... a passagem pra Diretoria de Servios. Para a Diretoria de Abastecimento, que tinha como operador o Youssef, ele tinha interesses em... em trazer sempre empresas novas, tentar incluir a at acho que interesses comerciais pessoais dele, de trazer o cara pra fazer algum fornecimento, alm de se utilizar dele como um terceiro. Ento, n...eu vivia... a gente vivia as duas situaes, n? Agora, o percentual ele j estava pactuado. ...Desde que eu assumi a Diretoria de leo e Gs, ns no ganhamos nenhum contrato novo os contratos j estavam celebrados. E pra mim me foi passado que ns tnhamos um percentual que era de 1% a ser pago pra cada diretoria.

Ricardo Ribeiro Pessoa, por seu turno, relatou detalhes sobre

como era calculado o percentual de propina, bem como asseverou se tratar de

recursos dirigidos a partidos polticos:

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Senhor Ricardo, nos ltimos anos, principalmente nos contratos com a Petrobras, h notcia nos autos de que haveria previso de pagamentos de percentuais sobre contratos para, tanto para dirigentes, funcionrios da Petrobras, como tambm para agentes polticos. O senhor confirma isso? O SENHOR RICARDO RIBEIRO PESSOA (depoente): Confirmo. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): De que forma se operou essa sistemtica? O SENHOR RICARDO RIBEIRO PESSOA (depoente): Os contratos que estavam definidos pela rea de servios e que envolviam a rea de abastecimento, todos eram nos cobrado um percentual, como referncia, de 1% para a rea de servio e 1 % para a rea de abastecimento. Quando os contratos no eram da rea de abastecimento, ficavam em 1% a 2% para a rea de servio. (...)

Otvio Marques de Azevedo, embora no se reporte a

contratos especficos com a Petrobras, confirma o pagamento de percentual

de projetos federais a partidos polticos e seus dirigentes, especialmente do

Partido dos Trabalhadores (PT) e do Partido do Movimento Democrtico

(PMDB). Eis os termos do depoimento:

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): T certo. ... Ento, Senhor Otvio, indo um pouco para o nosso objeto, que o que nos interessa, consta dos autos que em alguns contratos celebrados - porque aqui eu fao a pergunta, como a Andrade um grupo muito grande -, no tm relao a contratos com o caso com a Petrobras, porque emergem todos no momento, mas tambm contratos com o poder pblico em geral, se havia, em alguns casos do conhecimento do senhor a previso de participaes, comisses propinas para agentes pblicos ou da empresa - da Petrobras ou do agente pblico - e partidos polticos e candidatos? O senhor tem conhecimento sobre tais fatos e o que o senhor poderia relatar? O SENHOR OTVIO MARQUES DE AZEVEDO (depoente): ... o que eu poderia relatar, que o que... esto nos meus depoimentos - e eu confirmo -, que houve... ..., para o Partido dos Trabalhadores e para o Partido do Movimento, do MDB, se no me engano - nem sei o que significa exatamente... Democrtico Brasileiro - o MDB... PMDB; houve... ... uma... pedidos, vamos dizer assim, dos dirigentes dos partidos, e tambm de pessoas ligadas aos partidos, para que em determinada - no caso do... no caso de... no caso de duas grandes situaes: uma foi situao em que o presidente do PT na poca, junto com o tesoureiro e com o futuro tesoureiro solicitaram uma contribuio de 1% sobre todos os projetos federais, que... ... contribuio eleitoral de 1% sobre todos os projetos executados, em execuo e a executar pela Andrade Gutierrez, pela Construtora Andrade Gutierrez, obras de natureza federal. O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Poderia indicar os nomes dos senhores? O SENHOR OTVIO MARQUES DE AZEVEDO (depoente): Sim. Ricardo Berzoini, Paulo Ferreira e Joo Vaccari. Eles me.... atravs de um diretor da Construtora - que eles procuraram -, esse diretor, ele procurou o presidente da Construtora, e se sentiram ali pressionados. E, em funo disso, eles me procuraram - o diretor Flvio Machado, o presidente o Senhor Rogrio Nora -, me procuraram e pediram que eu aceitasse fazer uma reunio com o presidente do Partido dos Trabalhadores, tendo em vista que o Grupo nosso, muito grande, no se resumia Construtora... Para ter uma ideia, a Construtora representava, nessa poca, 35% a 40% dos econmicos do Grupo; os outros negcios representavam 60% mais ou menos. Ento eles pediram que eu fizesse uma reunio com essas pessoas. E essa reunio foi marcada pelo Flvio Machado, ocorreu em So Paulo, no escritrio da Andrade aqui em So Paulo - em maio de 2008, que era um ano eleitoral. E, ento, decorreuda que na reunio, eu j, de pronto, eu j disse pra eles que esse a teria que ser resolvido, se o assunto era esse, esse assunto teria que ser resolvido por quem tinha poder pra resolver, que era o presidente da

Construtora, mas que, de qualquer forma, eu no levaria para o presidente da Construtora, a questo de pagar qualquer tipo de contribuio eleitoral sobre obras passadas - isso no tinha a menor possibilidade de eu levar isso. E que em relao ao outro, o resto, o presidente da Construtora que teria que tomar a deciso, porque o poder de deciso era dele, ele que conhecia os projetos, ele que conhecia os contratos, ele que sabia se tinha rentabilidade, se no tinha, como que era, como que no era; e ele que tomasse a deciso. O fato que eles avaliaram... Ah, levei l. A reunio foi uma reunio tensa, uma reunio desagradvel, evidentemente. E, posteriormente, levei esse assunto com o Flvio, l, pro presidente da Construtora, que, depois de alguns dias ele voltou e falou: - Olha, melhor para a Construtora no brigar com o governo, j que isso a sobre obras federais. Ento, que eles ento, levariam essa posio ao tesoureiro, Paulo Pereira e ao Ricardo Berzoini. O Joo Vaccari, na poca, era s... acho que s acompanhava eles, no era ainda tesoureiro. E e que isso a eles... eles, Construtora, aceitariam pagar, na poca eleitoral, por essa contribuio, mas que para projetos existentes, eles teriam que avaliar projeto a projeto, porque no estava se falando s de Petrobras - isso muito importante. O escopo da conversa do Berzoini no foi Petrobras. No foi uma reunio para tratar de Petrobras, foi uma reunio para tratar de obras federais - contribuio sobre obras federais. ... ...eles analisaram l, enfim, esse assunto foi, da pra frente, conduzido pela Construtora, e no houve nenhum tipo de combinao, de pagamento de propina para agentes, para pessoas fsicas, foi pr partido poltico e atravs de doao eleitoral. E isso de fato aconteceu... ... aconteceu durante... ... os anos em que houve eleio. E, inclusive antes, que no houve eleio, eles pressionaram muito e acabaram havendo contribuies menores em anos no... em momentos no eleitorais, propriamente ditos. [...] O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Senhor Otvio, o senhor tem... s um pouquinho da questo da usina: 0,5% PT, 0,5% PMDB. Primeira questo: o senhor sabe mensurar o montante que foi distribudo ao longo desses anos, at 2014? O SENHOR OTVIO MARQUES DE AZEVEDO (depoente): Vinte milhes de reais, a Andrade Gutierrez. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Vinte milhes de reais, sendo que as outras tambm contriburam? O SENHOR OTVIO MARQUES DE AZEVEDO (depoente): Todas as outras contriburam. ... eu suponho que sim. [...]

Flvio David Barra tambm apresentou narrativa semelhante,

no sentido de que havia a distribuio de percentuais dos contratos firmados

entre a doadora e o Poder Pblico, a fim de aportar recursos nos caixas do

Partido dos Trabalhadores (PT) e do Partido do Movimento Democrtico

Brasileiro (PMDB):

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Mas qual era a base? O SENHOR FLVIO DAVID BARRA (depoente): Eram valores referentes ao valor faturado e era uma base percentual. Existia uma base de 2% para o PMDB, 1% para o PT e em torno de 1,5% distribudos entre executivos da Eletronuclear. O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): No caso do PT, quem coordenava no s o recebimento, mas quem coordenou a negociao desses lucros - alis, 2%, no eram lucros - do PMDB? O SENHOR FLVIO DAVID BARRA (depoente): Como eu disse, Ministro, eu no participei da combinao, eu no participei desse acordo, quer dizer, esse tema j chegou a mim quando eu recebi a responsabilidade do contrato. Existiam dois interlocutores principais: um pelo PMDB, que era o Ministro Edison Lobo, com quem eu tinha contato; e o outro, para PT, que era o Senhor Joo Vaccari. Com relao ao PT, eu nunca mencionei esse contrato com o Senhor Joo Vaccari, apesar de ter contato com ele, porque j vinha sido mantida uma relao com a rea institucional da empresa. Ento, a gente manteve essa interlocuo at para no prejudicar, no envolver mais gente. Da mesma forma, existia uma parte desse compromisso com o PMDB, em relao ao Senador Romero Juc, que tambm foi mantida a interlocuo atravs da rea institucional, at porque eu, na condio de um tcnico ou comercial da empresa, atuando especificamente em energia... (...) [...] O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): No caso do 1% do Partido dos Trabalhadores e de 2% do PMDB, essa entrega era feita como? Com dinheiro, no exterior, com instituies partidrias legalizadas? Como ocorria? O SENHOR FLVIO DAVID BARRA (depoente): No caso do PT especificamente, eu nunca cheguei a me responsabilizar, mas... O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Porque era esse senhor, n? O SENHOR FLVIO DAVID BARRA (depoente): Isso. Mas eram sempre quitadas, at onde eu sei, por doaes de campanhas em perodos eleitorais. Calculava-se, mediante o valor faturado at aquele momento, a porcentagem e se aplicava esse nmero e isso

era transformado numa doao eleitoral. Sempre ao Diretrio Nacional do Partido.

Zwi Skornicki tambm relatou o direcionamento de comisses

e propinas para diretores da Petrobras e para o Partido dos Trabalhadores

(PT):

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Sobre esses contratos firmados entre a Keppel e a Petrobras, havia alguma previso de pagamento de comisses, propinas? O SENHOR ZWI SKORNICKI (depoente): Previso no tinha, no. S comeou a ter quando ns fomos assediados. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Quem assediou o senhor? O SENHOR ZWI SKORNICKI (depoente): Comeou pelo Raul Schmidt, na P-51 e na P52. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): O Raul Schmidt fez essa abordagem por volta de que ano? O SENHOR ZWI SKORNICKI (depoente): Comeou em 2003 e deve ter ido at 2006 ou 2007, quando ele disse que estava saindo dessa rea e indo morar no exterior e a me apresentou o Senhor Pedro Barusco. [...] O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Como que foi acertada essadistribuio do 0,9%, seria pago de que forma? O SENHOR ZWI SKORNICKI (depoente): Ele me disse que metade iria para ele e para os colaboradores dele e a outra metade eu deveria me acertar com o Senhor Vaccari. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Mas seria feito um pagamento do valor total? O SENHOR ZWI SKORNICKI (depoente): No, sempre medida que a Sete ia pagando, dias depois ou um ms depois, faria-se a transferncia para o Barusco e para o Partido dos Trabalhadores. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Ento, seria diludo no tempo? O SENHOR ZWI SKORNICKI (depoente): Sim, senhor. At 2020, que era o contrato original entre a Sete e a Keppel. (...) O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): O pagamento - e aqui eu pergunto por uma questo bem formal - era feito de que modo, era feito em depsito, na conta de algum?

O SENHOR ZWI SKORNICKI (depoente): No caso do Partido dos Trabalhadores, era uma conta corrente. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Uma conta corrente. E era pago como doao eleitoral? O SENHOR ZWI SKORNICKI (depoente): No, ficava ali e dependia da necessidade do Senhor Vaccari em indicar a quem pagar ou no pagar. E, no caso do Barusco, era pagamento no exterior para contas indicadas por ele. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Ento, essas contas, esses recursos que eram pagos ao Partido dos Trabalhadores, pela representao do Senhor Vaccari, eram contas no necessariamente contas correntes do Partido, eram contas correntes tambm de outros titulares? O SENHOR ZWI SKORNICKI (depoente): No exterior. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Titulares no exterior. O SENHOR ZWI SKORNICKI (depoente): Nenhum pagamento foi feito ao partido - bom, com exceo de uma empresa chamada Zama, que ele indicou, todos os outros pagamentos; um pagamento s foi feito no exterior. [...]

Pedro Jos Barusco Filho tambm confirmou a existncia do

esquema de distribuio de propinas:

(...) O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar daCorregedoria-Geral Eleitoral): Senhor Pedro, indo diretamente na questo das comisses. Como era o acerto disso, como era feita essa operao, essas comisses em cima dos contratos? Nos contratos havia algum tipo de favorecimento ao contratante para a celebrao dos contratos? Como era essa sistemtica? O SENHOR PEDRO JOS BARUSCO FILHO (depoente): Olha, ... o favorecimento que porventura poderia acontecer era a nvel de informaes, mas informaes tcnicas ou informaes relevantes ao processo, vamos dizer assim, mas, assim, no era detalhe de licitao, assim, quando ia ser, quando... quais outras licitaes do mesmo porte, coisa desse tipo. Na licitao, em si, no havia condio. Mesmo que eu quisesse no havia comisso, porque existe uma governana implantada, que conduz o processo de licitao. O que havia era assim.., um certo privilgio para atender reunies, agendar reunies com as empresas e coisas desse tipo.

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): T. E o senhor cobrava essas comisses de quem? Do contratante, isso? O SENHOR PEDRO JOS BARUSCO FILHO (depoente): No. o seguinte: cada empresa tinha, vamos dizer assim, uma forma ou uma pessoa, um representante e essas coisas eram s tratadas com essas pessoas, com esses representantes. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Entendi. Especificamente em relao a partidos polticos, o senhor tem conhecimento, e o senhor apresentou tambm nos autos da Operao Lava Jato, uma tabela com distribuio de valores para alguns partidos polticos. Como os partidos polticos e eventualmente polticos ingressaram nesse sistema de, enfim, financiamento? O SENHOR PEDRO JOS BARUSCO FILHO (depoente): Nessa tabela, consta que uma parte vai para o que a gente chamava "Casa" e outra parte ia para os partidos polticos. Eu, no caso, sempre fui responsvel - quando era o caso pela parte da "Casa", entendeu? Eu botava partido, assim, porque era como tambm eu... eu... gerenciava, vamos dizer, esses... esses quantitativos, mas eu nunca gerenciei essa parte que ia para os partidos, t? Isso normalmente era tratado pelo ou Diretor Duque ou pelo Senhor Vaccari, no... mas j no... por assim em 2010/2011, na poca em que ele se tornou tesoureiro do Partido dos Trabalhadores. Mas eu nunca me envolvi de como ele gerenciava isso. E tambm eles nunca se envolveram como eu gerenciava a parte da "Casa". (...)

Transcreve-se, ainda, o depoimento de Dalton dos Santos

Avancini:

(...) O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Muito bem. O objeto dessa audincia, e nos termos da inicial, diria respeito a contratos que foram celebrados entre os contratantes da Camargo Corra, em que teriam sido descontados valores a ttulo de comisses, propinas a serem pagas tanto a agentes pblicos quanto a polticos e partidos polticos. O senhor tem conhecimento dessa circunstncia, o qu que o senhor poderia trazer sobre esse tema, aqui, para a audincia? O SENHOR DALTON DOS SANTOS AVANCINI (depoente): Sim, eu tenho, n? Acho que... eu trabalhei diretamente com a Petrobras, n, que era um cliente importante. E eu fui, antes de ser presidente dessa diviso, fui lder de uma rea de negcio que envolvia exatamente a rea de leo e Gs, que era da Petrobras, e especificamente com relao, n, a esse cliente, exi stia, dentro das diretorias da Petrobras, um compromisso de pagamento de valores

indevidos a pela empresa para ... ... se dizia, n, a, que uma das partes desses valores ia para partidos polticos. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): O senhor consegue nominar o contrato em que... algum contrato pelo menos em que... O SENHOR DALTON DOS SANTOS AVANCINI (depoente): Em todos os contratos tinham, n? Na... na RNEST, que um contrato que existiu mais recentemente, isso... O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): A RNEST foi de que ano? O SENHOR DALTON DOS SANTOS AVANCINI (depoente): A RNEST comea em 2011, se eu no estou enganado aqui. O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): E RNEST quer dizer o qu? O SENHOR DALTON DOS SANTOS AVANCINI (depoente): Refinaria do Nordeste. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): E comea em 2011... O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): aquela Abreu... O SENHOR DALTON DOS SANTOS AVANCINI (depoente): Abreu e Lima; Refinaria Abreu e Lima. , ele comea em 2011 e ainda no concluiu, n? Foi... j foi, acho, que a maior parte executada, mas ainda tem, ainda est em execuo. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Sobre esse contrato da RNEST, foi acordado um percentual a ser pago? O SENHOR DALTON DOS SANTOS AVANCINI (depoente): Sim. ... Ns pagvamos... Existiam duas diretorias, que eram divididas l, e que recebiam esses percentuais: a Diretoria de Servios e a Diretoria de Engenharia. De Servios, no, de Abastecimento e a de Engenharia e Servios, que era outra diretoria. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Quem eram os responsveis? O SENHOR DALTON DOS SANTOS AVANCINI (depoente): Era o Paulo Roberto Costa, na Diretoria de Abastecimento, e, na de Engenharia, o Renato Duque. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Eles agiam representando algum ou em interesse prprio? O SENHOR DALTON DOS SANTOS AVANCINI (depoente): Se colocava sempre, n, por parte do Renato Duque, que ele agia em nome do Partido dos Trabalhadores, que os valores que ele arrecadava eram para o partido. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI(Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): E o Paulo Roberto Costa?

O SENHOR DALTON DOS SANTOS AVANCINI (depoente): E o Paulo Roberto Costa era para o PP, n? O Partido Progressista. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Da RNEST, o senhor lembra o percentual que foi acertado? O SENHOR DALTON DOS SANTOS AVANCINI (depoente): Era 1% em cada diretoria. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): E esse valor era dividido entre... O SENHOR DALTON DOS SANTOS AVANCINI (depoente): Ns no participvamos dessa diviso, n? Em verdade, at existiam os intermedirios, a, que acabavam por receber esses valores e eles que tratavam diretamente com... tanto at com esses diretores como, depois, com outros que talvez se beneficiassem desses valores. (...)

Na sua reinquirio, Paulo Roberto Costa apresentou o

histrico do suposto esquema de pagamento de propinas a partidos polticos,

nos seguintes termos:

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINE (Juiz Auxiliar daCorregedoria-Geral Eleitoral): Hum-hum. E como ingressam a os partidos e, enfim, eventuais polticos, como eles ingressam nesse processo? O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): Atravs da indicao de pessoas, n? Ento, a Diretoria da Petrobras toda foi indicada pelo Partido dos Trabalhadores, pelo PT, e eu na poca fui indicado pelo PP. Obviamente que a indicao ali tinha que ter uma contrapartida, e a contrapartida no final era recurso para os partidos. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Esses recursos, eles eram.., havia algum tipo de tabelamento, algum tipo de...? O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): Nos contratos da Petrobras, da minha rea - posso falar s da minha rea, das outras so semelhantes, mas no posso detalhar - normalmente era... era... dos contratos, dependia muito da negociao. Ento, vamos dizer, se voc chegasse num contrato l em relao ao oramento bsico ficava 2%, 3% em relao ao oramento bsico, a empresa no tinha muito recurso pra pagar a quem deveria. Mas, se ela desse um valor l, sei l, 15% a mais, ento normalmente era 2% para o PT e 1 % para o PP. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Dois por cento para o P ... ? Desculpe.

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Poderia repetir? O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): , normalmente, quando tinha uma... O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): No, s os percentuais... (ininteligvel) O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): Quando tinha, ento, vamos dizer, um valor significativo a, acima do oramento bsico, era 2% para o PT... O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Partido do Trabalhadores? O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): Partido dos Trabalhadores. E 1 % para o PP, Partido Progressista. O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Isso desde o incio do seu perodo nesse cargo de Diretor de Abastecimento? O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): No. Como eu falei, nos anos 2004 e 2005, eu no tinha nem oramento, nem projeto. Ento, eu fiquei tomando conheci.., tomei conhecimento dos processos do cartel l por volta de 2006. Agora, antes da, vamos dizer, da minha entrada j tinha valores para o PT, no ? Porque a diretoria toda era PT, com exceo da Diretoria de Abastecimento. O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): E o percentual, ento, de 3%, isso? O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): No mximo. O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): No mximo? O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): Muitas vezes, quando os contratos eram mais apertados, s vezes, podia ser 1%, que a tinha que dividir para os dois partidos 1 %, 2%. Trs era o valor topo, teto. O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): E esses percentuais eram incorporados no valor dos contratos? O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): , quando a empresa apresentava, como falei anteriormente, ento, ela dava.., em relao ao oramento bsico da Petrobras, que ela no tinha conhecimento, mas quem fazia o oramento da Petrobras tomava referncia dados de mercado como o das empresas tambm tomavam dados de mercado. Ento, os oramentos bsicos no tinham muita modificao, porque as fontes eram as mesmas, no ? Ento, dessa maneira, quando a empresa, por exemplo, colocava l em relao ao oramento bsico 15%, imaginar 15% alm do oramento bsico, separava l 2%, 3% pra fazer essa diviso para os partidos e os funcionrios.

Na mesma linha de narrativa ftica, seguem-se os

depoimentos de Elton Negro de Azevedo Junior, que tambm confirmou a

existncia de direcionamento de recursos a partidos polticos decorrentes de

contratos com a Petrobras.

Na sua reinquirio, Alberto Youseff detalhou melhor o

esquema de propinas e reafirmou que a sua participao findou em 2013,

quando foi preso, mas que o esquema beneficiava partidos polticos, tais como

o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido do Movimento Democrtico

Brasileiro (PMDB) e o Partido Progressista (PP):

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Hum-hum. At aproveitando que o senhor est depondo depois do Senador Delcdio... em algum momento ele comentou que, aps o Mensalo, o PT perdeu muita fora e o PMDB passou a ganhar fora dentro da Petrobras nesses contratos. O senhor confirmaria essa informao, e se h algum dado, alguma base pra dizer que isso foi verdadeiro? O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): Olha, eu entendo que o PP, naquele momento, no precisava de apoio nenhum do PMDB para manter a cadeira do Paulo Roberto. Mas o Paulo Roberto, acreditando que o PP pudesse estar to enfraquecido, o prprio Paulo Roberto procurou o PMDB para que tivesse o apoio. O Partido Progressista nunca ficou muito feliz com essa situao. Havia muita discordncia com referncia a esse assunto, porque o PP entendia que a cadeira do Paulo Roberto tinha que ser s do Partido Progressista e no teria que dividir com o PMDB. E eu acredito at que o PMDB no tenha feito fora nenhuma pra que o Paulo Roberto ficasse ali. Foi mais assim uma questo de apoio moral. mais ou menos como funciona a poltica. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Mas, efetivamente, o PMDB entra na diviso do Paulo... que o Paulo Roberto Costa realizava a partir desse momento? A partir da... O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): . Assim o Paulo Roberto nos passava. Tanto que operaes com o PMDB no eram eu que fazia, os contratos que eram dirigidos ao PMDB quem tratava desse assunto era o Fernando Soares - o Baiano - e no eu. Ento, se Vossa Excelncia me perguntar se voc fez algum pagamento a pedido do Paulo pro PMDB, eu vou dizer que eu fiz um, que foi um pagamento oficial pro Valdir Raupp, que ele me pediu na campanha de 2010. Fora isso, ... no. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Tudo feito pelo Fernando?

O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): Tudo feito pelo Fernando. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): E essa entrada forte do PMDB na diviso, o senhor sabe precisar mais ou menos em que ano, em que perodo foi? O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): Olha, nessa poca quem cuidava desses assuntos, eu s fazia recebimentos, era o Deputado Jos Janene que, na poca, j tambm acredito que no era mais, porque tinha acontecido a questo do Mensalo, e ele foi absolvido no Plenrio, mas ele no foi mais candidato, mas mesmo assim continuou cuidando desses assuntos pro partido. Eu lembro que o Paulo Roberto voltou duma viagem da ndia e a adoeceu, acabou ficando internado, passou um tempo na UTI e tal. E a eu lembro que o secretrio executivo dele era o Alan Kardec e a o Alan Kardec se lanou candidato a diretor e a, acredito eu, com o apoio do PMDB, mas isso acabou no acontecendo, o Paulo Roberto se recuperou. E a o prprio Paulo Roberto, acreditou eu, que tenha procurado o PMDB ou atravs do Fernando ou... O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Mas o senhor acha que isso a em meados do qu? 2009? 2010? O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): Acredito que foi isso em... 2006. 2006, 2007. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Senhor Youssef, o senhor teria condies de afirmar que esses contratos, que o senhor me relatou, que o senhor ainda teve recebimentos pela RNEST, pela Repar, Comperj... esses valores houve participao tambm... nessa participao, que foi uma diviso anterior, imagino, t... havia participao, alm da parte que o senhor operava pro PP, havia participao de PMDB e PT nesses contratos? O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): Sim, porque os contratos continuaram. As obras, elas comearam, mas elas no terminaram. Ento havia recebimentos pra ser feitos ainda pra companhia, as obras teriam que ser entregues. Ento, as empresas continuaram honrando seus contratos, mesmo aps os diretores terem sado do cargo.

Rogrio Nora de S tambm confirmou a existncia de

esquema de pagamento de propinas, especificamente na construo da usina

Angra 3, at o ano de 2011, quando deixou de ter conhecimento dos fatos:

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): preocupao direta com eventual desvio de recursos de contratos celebrados com a Petrobras, ou

qualquer pessoa pblica, para financiamento de campanha, da campanha eleitoral, e para os partidos polticos. Eu gostaria de comear com esta questo: na sua colaborao, o senhor relatou a existncia de uma previso de pagamento de propina na obra de Angra 3. Isso est correio? SR. ROGRIO NORA DE S: Correto. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Eu pediria que o senhor relatasse como isso ocorreu, qual foi todo o sistema ali e para quem esses recursos eram repassados. Por favor. SR. ROGRIO NORA DE S: Esse um contrato antigo, que ficou paralisado por muitos anos. Quando foi negociada sua retomada, houve ento uma conversa minha com o presidente da Eletronuclear, o senhor Othon, que me disse que estava na presidncia da Eletronuclear e que, o contrato sendo efetivado, ele tinha um compromisso poltico de atender aos partidos PMDB e PT, com 1% para cada partido. Essa foi uma conversa que ns tivemos, uma negociao, em que eu disse que, se esse compromisso tivesse que ser cumprido, ns estaramos de acordo para que efetivamente esse contrato pudesse vingar. Depois disso, eu no tive mais contato com... MINISTRO HERMAN BENJAMIN: O senhor disse que estaria de acordo. O senhor precisou de autorizao superior e certamente fez consultas, antes de dizer de estaria de acordo. SR. ROGRIO NORA DE S: Normalmente, quando o contrato j est em vigor, essa deciso de quem est gerenciando e, na nossa discusso interna, o presidente da holding participava e tomava conhecimento desse fato. Ento, ns negocivamos e executvamos aquilo que estava pr visto. MINISTRO HERMAN BENJAMIN: Esse valor da propina era ento do conhecimento da empresa ou da administrao superior? SR. ROGRIO NORA DE S: Isso. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Esse acordo foi acertado em que ano? SR. ROGRIO NORA DE S: No me lembro se foi 1986. Foi logo no incio da retomada do contrato. Eu no tenho a data. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Mas essa conversa com o Almirante Othon? SR. ROGRIO NORA DE S: Pois , foi logo no incio da retomada das obras. O ano, exatamente, eu tenho que consultar. No me lembro se foi 2005, 2006 - provavelmente nessa poca. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral):: Ela se desenvolveu? Essa obra foi concluda?

SR. ROGRIO NORA DE S: Essa obra no foi concluda. Ela estava em execuo, a parte de obras civis, porque, quando estou falando aqui em Angra, estou falando relativo s obras civis, que foi at onde eu acompanhei. E quando eu sa da empresa essas obras no estavam concludas, elas estavam em andamento.

Destaca-se, ainda, o depoimento de Nestor Cerver, que

relatou a existncia de esquema de pagamento de propinas, com os recursos

direcionados a partidos e a filiados de partidos, no englobando, porm, a

campanha eleitoral de 2014:

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Perfeito. Ento, vamos explorar alguns dos fatos que o senhor relatou. Obviamente, no todo o universo de fatos que nos interessa, mas ns queremos situar no que relevante para o objeto do processo. Senhor Nestor, vou iniciar perguntando: a temtica que envolve o financiamento de campanha, no que nos relevante, decorre da existncia de eventual distribuio de propinas e participao em contratos envolvendo a Petrobras. Ento, qual foi a atividade que o senhor exerceu na Petrobras e at quando? Qual o perodo? SR. NESTOR CERVER: Eu fiquei - vou tentar ser conciso quase quarenta anos na Petrobras. Mas, diretamente ligado aos fatos a que o senhor est se referindo, depois de quase trinta anos de Petrobras, fui indicado Diretor Internacional - da rea internacional, melhor dizendo - em janeiro de 2003. Permaneci nesse cargo at maro de 2008 e, no mesmo dia que sa da Diretoria Internacional da Petrobras, fui indicado Diretor Financeiro da Petrobras Distribuidora - da BR -, onde permaneci de maro de 2008 a maro de 2014, quando fui desligado. Na realidade, eu j estava aposentado, porque para ser Diretor no necessrio ter vinculo empregatcio. Eu j tinha 44 anos de contribuio; eu me aposentei em 2011. Ento, quando sa, no exerci mais nenhuma atividade. Mas, na Petrobras, mais diretamente ligado com os fatos que constam do meu depoimento, foi exatamente esse perodo. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Perodo de Diretoria, no isso? SR. NESTOR CERVER: Perodo de Diretoria. Embora tenham alguns depoimentos que so anteriores Diretoria... Acho que so depoimentos da poca em que eu era Gerente Executivo de Energia, de 2000 a 2002. Mas ainda no era Diretor. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento, para iniciar e para contextualizar, Senhor Nestor, uma pergunta: a sua indicao em 2003 para Diretor da rea internacional foi feita por

quem? Que foras polticas levaram sua indicao, ou no havia necessidade de foras polticas para tal nomeao? SR. NESTOR CERVER: Sempre h necessidade, independentemente do meu currculo, da minha capacitao. Eu j tinha trinta anos, j tinha exercido vrios cargos de gerncia, mas a funo de Direo na Petrobras, assim como em outros rgos estatais, sempre necessita contar com um patrocnio poltico, ou uma indicao poltica, seja de que partido for, dependendo da composio do governo que est, porque a indicao feita pelo Conselho de Administrao. A nomeao, a indicao aprovada pelo Conselho de Administrao; Conselho este que majoritariamente indicado pelo governo. Ento, naturalmente, tem que haver uma indicao do titular do governo naquele momento - apenas para contextualizar. A minha indicao foi patrocinada formalmente pelo ento Governador Zeca do PT, que era o nico governador do PT na poca - tinha sido reeleito em 2002. Essa indicao veio atravs do Senador Delcdio do Amaral, que tambm tinha sido recm-eleito Senador pela primeira vez pelo Estado do Mato Grosso do Sul e era correligionrio do Zeca do PT. Mas quem fez formalmente a indicao foi o Governador Zeca do PT. MINISTRO HERMAN BENJAMIN: E nesse perodo em que o senhor ficou como Diretor da rea internacional, o seu apoio poltico era, portanto, o Partido dos Trabalhadores, ou essa situao no decorrer dos anos se modificou? SR. NESTOR CERVERO: Ela se modifica um pouco a partir do incio de 2006 por reflexo da crise que houve no governo, por conta do Mensalo. Ento, em 2006, fui procurado pelo, na poca, Ministro Silas Rondeau, que era do PMDB. Na poca havia urna diviso muito acentuada entre o PMDB do Senado e o PMDB da Cmara. O Ministro Silas me procurou e disse que eu passaria a ser tambm patrocinado pelo PMDB do Senado. Ento, mais ou menos no incio de 2006, forma-se tambm esse segundo apoio, esse segundo patrocnio que perdurou at o fim da minha gesto como Diretor da rea internacional. MINISTRO HERMAN BENJAMIN: Isso como resultado do Mensalo? SR. NESTOR CERVERO: Quer dizer, "isso como resultado do Mensalo", do enfraquecimento do PT, particularmente do Senador Delcdio, que ficou muito desgastado por ter sido Presidente da Comisso Parlamentar de Inqurito - CPI dos Correios. Isso causou um desgaste poltico e houve essa procura, esse acordo evidentemente com o conhecimento do Presidente Lula - de que o PMDB do Senado passaria tambm a ser o patrocinador, ou algo assim, da minha indicao. MINISTRO HERMAN BENJAMIN: E os patrocinadores se resumem a uma nica pessoa, que seria o ex-Ministro Silas? SR. NESTOR CERVERO: No, no. Desculpe. O Ministro Silas foi quem fez o contato comigo. Logo depois, fui apresentado ao

comando, vamos chamar assim, do PMDB do Senado: particularmente ao Senador Renan Calheiros, ao Ministro Edson Lobo... Na poca no era Senador mas atuava como, era Deputado na poca, Jader Barbalho. Figuras proeminentes do PMDB do Senado. MINISTRO HERMAN BENJAMIN: Em relao segunda fase deste perodo, quando o senhor sai da rea internacional... SR. NESTOR CERVERO: Sim, em 2008. MINISTRO HERMAN BENJAMIN: ...e passa para uma das subsidirias da Petrobras como Diretor Financeiro. SR. NESTOR CERVER: Isso. MINISTRO HERMAN BENJAMIN: Primeiro, eu queria saber a razo por que o senhor saiu ou foi tirado da rea internacional, e, segundo, como o senhor chega... Era BR Distribuidora, no? SR. NESTOR CERVER: Petrobras Distribuidora - BR. MINISTRO HERMAN BENJAMIN: Isso. SR. NESTOR CERVER: Respondendo a sua pergunta, Meritssimo: inicialmente, houve um processo de presso do PMDB da Cmara, que surgiu no final de setembro, outubro, quando se configurou essa presso em cima do Presidente Lula da bancada do PMDB, liderada pelo falecido Deputado Fernando Diniz do PMDB de Minas Gerais. Depois, o Deputado Michel Temer falou que eram mais de cinquenta Deputados que estavam pressionando o Presidente Lula, querendo a minha substituio e a indicao de algum desse grupo. Isso perdurou at... Quer dizer, houve uma resistncia do PMDB do Senado, que na poca estava naquele momento de enfraquecimento. Isso foi mais ou menos depois que houve o problema com o Senador Renan Calheiros, o problema que houve do pagamento de penso da filha dele e tal, e ele foi obrigado a renunciar. Ento, com isso, o meu apoio do PMDB do Senado ficou enfraquecido. E havia um motivo muito forte, em que o PMDB da Cmara condicionava a manuteno do apoio e a manuteno da votao a favor da CPMF - que na poca foi um tema muito polemico... Ento, esse nmero representativo da bancada do PMDB na Cmara votaria contra a CPMF se no fosse atendida a indicao. O Presidente Lula acabou cedendo a essa presso e atendeu a indicao proveniente desse grupo de um outro profissional da Petrobras. Isso foi no dia 3 de maro de 2008. Nesse mesmo dia, pela manh... Porque o Conselho de Administrao naquela poca era o mesmo; depois houve uma mudana. Naquela poca, o Conselho de Administrao da Petrobras era o mesmo Conselho de Administrao da BR, eram as mesmas pessoas. Pela manh era feita a reunio do Conselho, que tinha assuntos muito mais relevantes, evidentemente; e tarde, durante um perodo final, esse Conselho se transformava em Conselho da Petrobras Distribuidora. Ento, esse mesmo Conselho que pela manh me substituiu, tarde me nomeou Diretor Financeiro da Petrobras

Distribuidora. [...]

Em razo da relevncia para a elucidao dos fatos, cito o teor

do depoimento de Delcdio do Amaral Gomez, o qual confirma o repasse de

propinas com vistas ao direcionamento de recursos ao Partido dos

Trabalhadores e do Partido do Movimento Democrtico Brasileiro (PMDB):

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): O senhor poderia dizer, senador, que seria correto o entendimento do que o senhor acaba de afirmar que havia de fato uma sociedade na propina envolvendo PT e PMDB? O SENHOR DELCDIO DO AMARAL GOMEZ (depoente): Nesse caso de Belo Monte inegavelmente, e, nos outros casos, na verdade, eram capitanias hereditrias, que se conversavam, mas que tinham voo prprio e se negavam, em outras reas. O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Mas, especificamente no caso de Belo Monte, o PMDB... O SENHOR DELCDIO DO AMARAL GOMEZ (depoente): Mas foi discutido isso... O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): ..no s no era um scio, mas era um scio majoritrio? Seria isso? O SENHOR DELCDIO DO AMARAL GOMEZ (depoente): No meu ponto de vista, sim. Por todas as informaes que eu obtive de empresrios, de pessoas do prprio PT, n? Pela primeira vez eu vi no governo uma ao muito mais forte do PMDB do que do PT. Inegavelmente. O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): Ao mais forte no recebimento de propinas ou ... (ininteligvel). O SENHOR DELCDIO DO AMARAL GOMEZ (depoente): Na operacionalizao do processo, sem dvida. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Senador, esses 142 milhes, eles chegaram a ser pagos, ou... O SENHOR DELCDIO DO AMARAL GOMEZ (depoente): Eu no acompanhei. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Hum-hum. Isso foi um acerto prvio? O SENHOR DELCDIO DO AMARAL GOMEZ (depoente): ... E at pra ser muito sincero, eu tambm... eu fui candidato a governador, Ministro, ... ... Eu mesmo disse na minha colaborao que eu posso ter recebido tambm recursos dessa combinao que foi feita, porque eu recebi via diretrio nacional, era candidato ... ... Eu posso at ter... No meu caso, pode at ter acontecido isso - tambm. Eu reconheci isso na colaborao. Fiz questo de registrar. Agora,

eu no - duvido que isso tenha acontecido, porque eu sei que isso foi uma batalha... foi uma batalha campal, Ministro, pra se... pra se chegar a um acordo dentro desse processo que passava por uma nova precificao, por claims e assim por diante. [...] O SENHOR DELCDIO DO AMARAL GOMEZ (depoente): No. Na verdade, uma... uma forma de... ... muitas vezes no contabiliza esses recursos e esse... quer dizer, esse recursos no entram na campanha. E esses recursos, muito possivelmente, podem, inclusive, azeitar outras campanhas eleitorais tambm. Quer dizer, a grfica no vai ter um papel, simplesmente, de grfica, n? O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Hum-hum. O SENHOR DELCDIO DO AMARAL GOMEZ (depoente): A grfica pode ter um papel tambm diferenciado, at no sentido de... de atender politicamente candidaturas de interesse do partido, ou de interesse presidencial. Isso ... sem dvida. [...] O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): . No perodo anterior, um fato conhecido, acho que est, inclusive, na sua colaborao premiada. Eu queria saber, pra entender um pouco esse contexto histrico, se os percentuais eram diferentes? Se, naquela poca, por exemplo, o percentual era... ponto dois por cento e no um por cento. Independentemente do volume de recursos que a Petrobras manuseava, que, evidentemente, com o Pr-Sal, foi estratosfera. O SENHOR DELCDIO DO AMARAL GOMEZ (depoente): Ministro, na verdade, pelo que eu vejo a, n? Vejo as notcias, n? Existem percentuais que so padro. E, l atrs, no eram diferentes desse um, um e meio. ... varia muito, dependendo do tamanho da obra. ... por exemplo, Belo Monte, se o senhor fizer a conta, cento e quarenta e trs milhes 1%. Isso l, nos governos anteriores, uma obra desse tamanho era isso mesmo. Agora, cada... cada projeto tem uma caracterstica, ento isso a pode mudar. Ento, por isso que a gente v: salta de meio, ou de um, pra... pra dois, pra dois e meio. A depende muito das caractersticas do projeto. Isso no uma coisa... ... alguns nmeros j so... j tm.... j so nmeros consagrados, que sempre foram adotados, principalmente em obra civil. Obra civil.., ... esses nmeros que esto aparecendo a no so muito diferentes, no. [...]

Foram ouvidas outras testemunhas, a exemplo de Srgio

Machado, Rogrio Theodoro, Jos Alencar da Cunha Neto, Paulo Fernando

Paes Landim, Cllia Mara dos Santos, mas no relataram fatos importantes

concernentes alegao de doaes oficiais por meio de esquema de

distribuio de propinas no seio da Petrobras.

Por sua vez, na sua reinquirio, Otvio Marques de Azevedo,

narrou o seguinte:

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Senhor Otvio, a causa para a sua reinquirio diz respeito especificamente a um trecho do seu ltimo depoimento, relacionado doao para a campanha eleitoral de 2014. Eu gostaria de saber, nesse momento, se o senhor ratifica ou tem algum esclarecimento a prestar sobre esse fato da doao da Andrade Gutierrez para a campanha eleitoral de 2014? Depoente Eu tenho esclarecimentos para dar sobre esse fato, inclusive tambm, eventualmente, at sobre outros pontos que a gente abordou no primeiro depoimento. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Est ok. Ento pode livremente realizar o esclarecimento que o senhor tem. Depoente Ento est bom. Eu at me organizei aqui com uma folhinha de papel e aqui so documentos que eu estou trazendo aqui para suportar o que eu vou dizer. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Pois no. Depoente Bem, primeiramente ns j fizemos a a questo do interesse pessoal, que no tenho nenhum. E eu queria tambm confirmar os termos, na integralidade, os termos do meu acordo feito com a PGR, est certo? Porque vrios dos temas que foram tratados aqui dizem respeito a temas que foram tratados no acordo da PGR. A outra questo confirmar partes do meu depoimento naquele dia da primeira oitiva, quando eu afirmei, e tambm afirmei no meu termo de colaborao, que no houve dinheiro de origem duvidosa na campanha da Presidente Dilma e nem na parte referente ao Vice-Presidente Michel Temer. Isso est em vrias pginas que eu tenho aqui selecionado, tanto do depoimento ao TSE quanto no meu termo de colaborao. No entanto, ao Partido dos Trabalhadores, frutos de acordos anteriores que foram feitos, e ns citamos o caso de Belo Monte e tambm um acordo com a direo do PT feito anteriormente, no ano de 2014, houve pagamentos vinculados a projetos, mas, que no foram e isso fez parte do meu depoimento PGR , que no fizeram parte, at ento eu no tinha informao de que teria feito parte de qualquer tipo de conexo com a campanha da Presidente, porque os vinte milhes que ns doamos para a Presidente no havia nenhum tipo de contaminao. Houve presso e isso a foi muita presso. Presso, muita chateao, mas o dinheiro foi dado por absoluta voluntria, de forma voluntria. Presso, mas o dinheiro era novo, no era um dinheiro vinculado a nenhum tipo de favor feito Andrade Gutierrez ou contrapartida. Bem, o sistema de... Eu acho que provavelmente todos, inclusive os advogados, devem conhecer os sistemas de demonstrao de prestao de conta do TSE. Ento, o sucedido que

eu gostaria de esclarecer o seguinte: primeiro, que eu no tenho uma equipe. Eu tinha quando eu estava na Andrade, mas eu tenho um ano e meio que eu no estou na Andrade. Hoje, sou eu e meu advogado. No tenho uma equipe de auditores. Ento, quando eu fiz o meu depoimento na PGR, o documento que eu tinha referente a isso a prestao de conta que encaminhamos sobre os 35 (trinta e cinco) mil e 680 (seiscentos e oitenta), que o total que foi contribudo dos 20 (vinte) milhes para a campanha da Presidente, conforme est aqui, esses alaranjados, so vinte milhes, e 15 (quinze) milhes e 680 (seiscentos e oitenta) para o Partido dos Trabalhadores. Bem, quando eu fui... E era a informao que eu tinha. Quando eu fui convocado para o TSE, eu ento fiz um levantamento, e a por esforo prprio, junto ao site do TSE e a apareceu R$ 1.025.000,00 (um milho e vinte e cinco mil reais). Bom, qualquer um que ler aqui, que for do ponto de vista da experincia de lidar com o site do TSE e com a forma de prestao de conta dos partidos polticos ao TSE, ter bastante dificuldade, porque muito daquilo que foi doado no entra, eles no foram declarados como campanha eleitoral. E, eventualmente, e eu tenho aqui os exemplos, ns doamos ao diretrio nacional de vrios partidos, inclusive do PT, e esse dinheiro ele declarou no como campanha, mas sim como doao para o partido. Quando a gente consulta, a gente no v essas doaes, a gente no consegue achar, tem dificuldade de achar. E eu tive bastante dificuldade para achar, mas quando eu consultei aqui "Presidente Dilma", tinha 21 (vinte e um) milhes e 25 (vinte e cinco) mil. Ora, o nico 1 (um) milho a mais que tinha sido dado at aquela poca para o PT foi esse 1 (um) milho de maro de 2014. Era o nico 1 (um) milho que tinha. E olhando aqui, na minha provvel dificuldade de entender o que est escrito, estava aqui: "Doador Direo Nacional; Doador originrio: Construtora Andrade Gutierrez; Valor: 1 (um) milho; Espcie: cheque; Nome do candidato: Dilma; Candidatura a presidente: Partido PT". Ao ler isso aqui, o meu entendimento era que esse dinheiro tinha vindo do 1 (um) milho, que foi o nico dinheiro que ns tnhamos encaminhado antes dessa data, do PT para a campanha da Dilma. E, da mesma forma, esses R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais), aqui, tambm poderiam ter tido essa origem, apesar que, para mim, eu realmente no consegui explicar, dentro da lgica de leitura que eu fiz, eu no consegui explicar esses 25 (vinte e cinco). Bem, a explicao, ento, agora eu j tenho. Realmente, quando houve a reclamao do Partido dos Trabalhadores ou da campanha da Presidente Dilma, a eu chamei gente para me ajudar. Eu no tinha cpia, por exemplo, de todos os recibos de doao. Agora, eu estou com cpia de todos os oitenta e tantos recibos, original dos recibos. Isso aqui totaliza os 104 (cento e quatro) milhes e no sei quantos mil reais doados pela Andrade Gutierrez. A foi possvel fazer, com apoio, e eu pude identificar que realmente

esse 1 (um) milho veio para um cheque emitido do Diretrio Nacional do PMDB ou da campanha a vicepresidente. Esse 1 (um) milho que foi para o PMDB efetivamente foi fruto de uma doao legtima, legal, e eu tenho todo o trajeto dele desde que ele foi doado no dia 3 de julho para o PMDB e, posteriormente, esse dinheiro foi separado no dia 10 de julho dentro do PMDB, mantido dentro do Diretrio Nacional e, posteriormente, em 14 de julho, ele acabou sendo doado em um cheque para a Presidente Dilma. Ento eu confirmo aquilo que veio da colocao do Partido dos Trabalhadores em relao origem desse dinheiro. E, no dia, eu no tinha essa informao. Pelo contrrio, a informao que eu tinha, no meu entendimento na poca, era essa aqui. Eu no tinha outra informao que me instrusse, hoje, na forma que essa que eu estou passando e concordando com a Reclamao. Em relao aos R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais), ns fizemos uma doao, me parece que no dia Io de outubro ou 3 de outubro, ns fizemos uma contribuio de R$ 700.000,00 (setecentos) mil reais e, provavelmente, esses R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais) foram retirados l do Diretrio Nacional do PT e passado para a candidatura presidente. Ento, o seguinte: em relao ao 1 (um) milho da doao em maro, em duas parcelas que foram pagas em maro de 2014 ao Partido dos Trabalhadores, somente hoje, inclusive hoje agora tarde, que eu consegui comprovar que a prestao de conta dessas duas parcelas de R$500.000,00 (quinhentos mil reais) foram feitas pelo Partido dos Trabalhadores, no como parte da campanha de 2014, mas como parte das despesas l do PT. Enfim, ele no misturou as coisas. Assim como vrios outros partidos fizeram isso tambm: o PMDB, o PSDB e mais dois ou trs partidos. Agora, no meu acordo de colaborao, por exemplo, est escrito aqui, e foi o que eu disse, que, dentro dos 35 (trinta e cinco) milhes, havia pagamentos feitos ao PT que tinham vinculao, porm, no Coligao. Ento, eu j dizia nessa poca aqui que no havia contaminao na Coligao, dos 20 (vinte) milhes. Agora, realmente, essa explicao aqui, eu s consegui fechar esse quadro de ontem para hoje. Eu no tinha informao e tive muita dificuldade porque eu no conseguia sequer saber de que forma foi prestado conta do dinheiro que ns pagamos de contribuio aos diversos partidos. Ento, hoje tarde que eu realmente consegui fechar. E acho... Inclusive quando eu falei que eu teria outros comentrios a fazer, hoje tambm eu consegui identificar... porque transaes entre partidos no so comunicadas ao doador. Eu no sei quais foram. Eu no sei se... Se o PT faz uma doao para a Dilma em campanha, eu no sou informado disso. Nem se o PMDB faz uma doao para a campanha, eu tambm no sou informado. Eu doador, n? O doador no informado. E mais: se na campanha do Acio ns fizemos foi doaes ao partido , seu o partido deu cinco, dez, doze, vinte, o que for, eles tambm no

informam a gente. Ento quando eu consegui extrair as informaes, eu at me lembro que o Ministro ficou muito espantado da diferena, eu tambm estava espantado, na verdade, Ministro, na campanha do candidato Acio, dos 33 (trinta e trs) milhes e 200 (duzentos) que ns doamos ao PSDB, 19 (dezenove) milhes o partido transferiu para a campanha do candidato Acio. No foram 12,6. E eu tenho aqui a comprovao tambm dos 12,6, que eu peguei no site do TSE, que essa aqui, pequenininha aqui: 12,6. So as doaes que o Diretrio Nacional fez. No eram completas. Ento, de onde eu tirei no eram completas. As nossas prprias doaes (...) mostrar... Eu fui pegar as doaes da Andrade Gutierrez para poder me ajudar a me fundamentar. Isso aqui so as doaes da Andrade Gutierrez, todas. E aqui est escrito: 97.880. No est certo, porque foi 104, acho que 104.230, uma coisa dessa. Ministro Milhes? Depoente Milhes. Ento eu fui atrs. Aqui est a declarao [tem uma folhinha aqui], aqui esto todos os partidos. Porm, como no chegava nos 104 (cento e quatro), eu fui verificar o que estava acontecendo. Depois do dia 17 de outubro, foram feitas todas essas. Aqui esto os recibos de doaes feitas de 5 (cinco) milhes para a candidata Dilma, de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) para o PR, o Partido da Repblica, mais 3 (trs) milhes aqui para a candidata Dilma, mais 500 (quinhentos) mil para o PMDB, enfim, que totalizou exatamente o complemento dos 104. Eu no consegui achar uma demonstrao no TSE que diga exatamente quanto que a Andrade doou. Consegui essa aqui, que foi 97.880, mas os 104 (cento e quatro) s juntando recibo, e a eu consegui chegar no total. Ento, assim, eu fiz esse trabalho sozinho, foi muita dificuldade e eu me enganei. A verdade que foi um engano mesmo. Agora, esse engano, eu acho que as pessoas mais capazes do que eu para ler e para consultar os arquivos do TSE, e com experincia na prestao de conta, podem no cometer esse engano, mas difcil no cometer, da forma como eu recebi, como eu consegui extrair do TSE. Eu, por exemplo, hoje, tambm... O 1 (um) milho que ns doamos para o candidato a Vice-Presidente, Michel Temer, eu fui rastrear esse dinheiro. Como que ele est sendo prestado conta? Como que foi? E eu no consegui achar a origem. Eu tenho o recibo. O recibo est aqui, est aqui comigo o recibo. No entanto, na hora que eu vou pegar a prestao de conta, no acho, no acho [Ele est aqui dentro, o recibo]. Eu no acho. E a? U, ns doamos, tanto doamos que o recibo est aqui: 3 (trs) milhes, que foram doados no dia 3 de julho. Essa questo do nmero 1 (um) ou 3 (trs) no quer dizer nada porque a Andrade fazia doaes quase que semanais. No comeo, depois quando chegava mais perto da eleio, a no se juntou tanto. Mas normalmente juntava mais, mas isso aqui eu combinei com o Vice- Presidente da Repblica. No foi intermedirio. Eu ofereci. Porqu?

Porque em 2010 eu fiz o mesmo. Achei que deveramos fazer em 2010 e fizemos a doao. No tem vnculo com nada, no tem favor, no tem ajuda, no tem nada. Foi uma doao ao Vice-Presidente, do mesmo jeito que ns doamos muito mais, evidentemente, para a campanha maior que a campanha da Presidente. E foi assim que fizemos. E ele foi comunicado que o depsito seria feito no dia 3 de julho. E eu fui rastrear. Realmente, o PMDB prestou conta aqui no como campanha. Ele prestou conta eu achei hoje a prestao de conta dele , ele prestou conta no Diretrio Nacional, mas eu no sei exatamente em que figura, mas no consta da prestao de conta da campanha da eleio de 2014. Bom, esses trs milhes em 10 de julho ,a j no site do TSE eu j isso , no dia 3 de julho, esses 3 (trs) milhes foram mantidos dentro da conta, porque vrias doaes de todos os outros, nossa e de todos os outros, eles iam mandando para os Diretrios estaduais. Esse dinheiro foi transferido internamente do Diretrio Nacional para o Diretrio Nacional. Foi mantido no Diretrio Nacional e foi emitido tal cheque no dia, acho que para pagamento no dia 14. Bom, essas foram as explicaes basicamente que eu tenho e que complementam. Agora, realmente no nego que cometi um engano de anlise, est certo? O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Senhor Otvio, ento para deixar bem claro: o senhor afirma que esse 1 (um) milho que consta como doao para o Vice-Presidente Michel Temer em cheque apresentado na ltima audincia, ele um valor que no tem poder pblico. Depoente No tem. Com nada. No tem. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Objeto de propina? No vou nem... Depoente Absolutamente. Eu j declarei isso tanto aqui na data em que eu fiz o primeiro depoimento e da mesma forma que os vinte milhes para a Presidente Dilma tambm no tm. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Agora, ento, s para deixar realizada uma distino, um esclarecimento que importante: quando o senhor relatou na ltima audincia, o senhor foi categrico em afirmar que, dos 15 (quinze) milhes e 680 (seiscentos e oitenta) mil direcionados ao Partido dos Trabalhadores, o Diretrio Nacional pegou 1 (um) milho que a Andrade tinha doado e direcionou tambm 1 (um) milho e 25 (vinte e cinco) mil para a campanha da Presidente Dilma. Ao longo do seu depoimento, o senhor faz uma correlao entre esse 1 (um) milho e 25 (vinte e cinco) com uma presso que o senhor teria sofrido principalmente do tesoureiro da campanha do Sr. Edinho e do Sr. Giles. E, aqui, o senhor diz o seguinte: "Bom, de onde vem esse 1 (um) milho? Vem de maro de 214, que no era perodo eleitoral. Por que que ns fizemos a contribuio de 1 (um) milho em maro? Porque ns estvamos sofrendo presso para cumprir obrigaes dos acordos de contribuio dos 1% (um por cento) a de cada projeto. Ento, esse 1 (um) milho feito em maro,

em duas parcelas de quinhentos mil, em julho, j no perodo eleitoral, foi transferido para a campanha da Presidente Dilma". Aqui, o senhor traz um momento de presso que o senhor estava sofrendo. Existiu essa contribuio de 1 (um) milho, mesmo que no seja essa a que o senhor se refere, que foi para o Vice-Presidente Temer, houve alguma contribuio de 1 (um) miiho que foi fruto dessa presso que o senhor sofreu? Depoente , s que... O senhor me permite? O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Sim. Depoente Essa correlao no ... se o senhor me permite dizer, eia no est no mesmo parmetro, elas no guardam relao. Uma coisa o que o Vaccari cobrava da gente, cobrava da empresa. E, eventualmente, a maioria das vezes, nem era para mim que ele cobrava. Ele tinha o acordo, ele cobrava dos executivos das reas que tinham esses projetos, l da construtora. Eventualmente, quando ele no conseguia receber, que ele me procurava. E assim mesmo eu despachava ele de volta, dizendo: olha, voc conversa com a sua turma, com eles l. A presso do Giles e do Edinho completamente fora. Ela comeou depois desses eventos todos aqui, ela no est nesses eventos, porque a primeira vez que eu recebi essa presso foi em agosto, no foi em julho, no foi em junho. No tem a ver, as coisas no tm a ver. Agora, foi muita presso de agosto para frente. Eu tive a primeira conversa com o Edinho acho que no dia 20 de agosto. E foi junto com o Vaccari. Por volta de 20 de agosto. Ento, assim, ns tnhamos feito uma contribuio... a primeira contribuio para a Dilma foi eu acho que 29 de agosto. Ento, assim, realmente, eu no tinha nenhuma informao em respeito desse 1 (um) milho. Eu s fiquei sabendo... Se no houvesse o meu depoimento ao TSE, eu jamais saberia nem que esse dinheiro do Temer entrou na campanha, porque eu s fui saber no momento em que eu fiz essa pesquisa aqui e achei esse quadro aqui que eu mostrei para vocs. Antes disso, eu no sabia. Eu no sabia nem que... porque quando a gente... Eu fiz isso aqui e apareceu um total aqui de 21 e 25, eu falei: tem alguma coisa errada; de onde que vem esse dinheiro? Ento a nica coisa que poderia me atribuir, que poderia, na minha cabea, atribuir esse 1 (um) milho campanha, e como aqui no tem uma informao "Diretrio Nacional do PMDB", "Diretrio Nacional do PT", eu no tive elementos, a no ser pensar que eu doei 1 (um) milho realmente vinculado, que foi fruto do acordo com o Pallocci l em Belo Monte, em maro. Esse dinheiro foi para a campanha, para o PT. Foi a deduo minha, nica, que esse dinheiro veio para c, porque eu no tinha outro dinheiro. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Mas o senhor deduziu isso porque foi uma contribuio realizada fora do perodo eleitoral? Depoente Foi fora do perodo eleitoral.

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento todas as contribuies realizadas fora do perodo eleitoral... Depoente No, no foi porque foram... Ela foi feita fora do perodo eleitoral. Mas no foi porque ela foi feita fora do perodo eleitoral que eu pensei isso. No. porque eu recebi pessoalmente a presso do Vaccari para esse dinheiro ser doado. A presso no sentido de: vocs tm que cumprir o combinado. Eu falei: conversa com o Flvio Barra que, inclusive, j deps aqui tambm , converse com o Flvio Barra. Ento, assim, essa questo que no tem relao com a presso do Edinho e do Giles, que foi bem depois, essa do Vaccari era corrente. Ele fez isso em 2010, em 2011, em 2012, em 2013. Ns contribumos para o PT todos os anos, no foi s nessa... Fora de perodo eleitoral, ns contribumos. Por qu? Porque tinha essa obrigao. Ento, assim... Ministro Apenas para deixar esse ponto, que o central, bem claro, Eu vou ler de novo o trecho do seu depoimento: "Bom, de onde vem esse 1 (um) milho? Vem de maro de 2014, que no era perodo eleitoral. Por que ns fizemos a contribuio de 1 (um) milho em maro? Porque ns estvamos sofrendo presso para cumprir obrigaes dos acordos de contribuio dos 1% (um por cento) a de cada projeto. Ento, esse 1 (um) milho feito em maro, em duas parcelas de quinhentos mil, em julho, j no perodo eleitoral, foi transferido para a campanha da Presidente Dilma". O que eu quero aqui perguntar sobre a premissa mesmo dessa sua afirmao. Porque me parece um pouco estranho que 1 (um) milho que tenha sido dado ao Partido dos Trabalhadores fora do perodo eleitoral tenha a conotao, alis, no foi conotao, foi afirmao, peremptria, do senhor de que era dinheiro da corrupo, e esse mesmo 1 (um) milho, quando se descobre que foi para o PMDB, que, como partido, era integrante da chapa majoritria e, segundo depoimentos colhidos aqui, integrantes desse partido tambm estavam diretamente envolvidos com os atos de corrupo, esse 1 (um) milho perca esta natureza de recurso vinculado corrupo. Depoente Eu posso lhe explicar. Ministro esta a premissa que me parece difcil de compreender. O dinheiro, ns sabemos no Direito, o bem fungvel por excelncia. Se o dinheiro era de corrupo, proveniente de corrupo, segundo as suas palavras "de contribuio do 1% (um por cento) a de cada projeto", e ns estamos incluindo neste 1% (um por cento), e s vezes at mais de 1% (um por cento), Petrobras, Angra, Belo Monte, para citar apenas alguns dos projetos em que o Partido dos Trabalhadores no era o nico envolvido com malfeitos... Depoente Sim. No caso de Petrobras, era o nico, era o Partido dos Trabalhadores. No havia, pelo menos da nossa parte, da minha parte, eu no tinha conhecimento de contribuio nenhuma que fosse, na Petrobrs, que no fosse Partido dos Trabalhadores e,

eventualmente, o Partido Popular. Mas o PMDB, pelo menos que eu saiba, na Andrade, eu no lidei com essa questo na Andrade. Lidei nessa questo na Andrade apenas em relao a Belo Monte. Estou falando, Senhor Ministro, eu, pessoalmente. Eu no lidei nem com os assuntos referentes Angra, que no eram do meu conhecimento, porque a Construtora Andrade Gutierrez, da qual eu nunca fui dirigente, ela tinha autonomia para resolver as questes. No caso especfico de Belo Monte, eu at j expliquei, como a Andrade era uma... inicialmente, quando ela foi ao leilo, ela era investidora, eu estava ali representando o investidor. Eu no estava representando o construtor. O construtor o Flvio Barra. Ele que representava a atividade de construo. Eu entendo que, s vezes, difcil de perceber. Eu trouxe at um organograma da Andrade, que talvez isso possa ajudar a esclarecer. Mas em relao a essa questo, eu queria dizer o seguinte: eu entendo que seja difcil entender por que que 1 (um) milho que foi para o PT, se for s com essa informao, por que 1 (um) milho que foi para o PT em relao, por exemplo, a Belo Monte, onde tinha, sim, um acordo com o PMDB, e a o senhor tem razo, por que que o 1 (um) milho que foi para o Temer no est vinculado da mesma forma que esse 1 (um) milho? No est. E no est pelo seguinte: vamos fazer uma cronologia de tempo, temporal. Eu recebi cobrana do Vaccari, da parte do PT. Eu nunca lidei com ningum do PMDB sobre a parte do PMDB. Nunca. Jamais fui cobrado pelo PMDB, porque eu nunca lidei com a relao com o PMDB. Isso era feito pela Construtora. No era feito por mim. O que eu recebia era, da Construtora, o pedido para encaixar nas doaes eleitorais parte que eles tinham de obrigaes. Essa era a minha funo. Ento, eu coordenava todo o processo, e isso a chegava para mim. E sempre foi, nos anos que eu coordenei, era assim que era feito. Bom... Ento, maro, recebi essa cobrana, e acabou sendo pagas duas parcelas de 500 (quinhentos) mil, fruto da cobrana que estava vinculada a um acordo com o PT. Bem, quando foi final de junho, comeo de julho, por acaso no perodo eleitoral, foi feito este depsito de R$ 3.000.000,00 (trs milhes de reais) no dia 3 de julho ao PMDB. Eu, na semana do dia 26 de junho, eu estive aqui em Braslia e comuniquei assessoria l do Vice-Presidente de que ns iramos fazer o depsito de 1 (um) milho de reais para ele na semana seguinte, no sabia bem o dia at porque eu viajei para o exterior no prprio dia 26, noite, eu viajei para o exterior e fiquei l um bom tempo, eu estava em Portugal, trabalhando. Ento... Mas deixei a orientao de que esse 1 (um) milho... e avisei de que seria feito esse 1 (um) milho na semana seguinte. Bom, foi esse dinheiro parte desse 1 (um) milho aqui. Esse dinheiro no transitou, pelo que eu consegui rastrear hoje, ele no transitou, primeiro... Ento, para separar: eu ofereci para o Vice-Presidente, eu no pedi favor ao Vice-Presidente, PMDB. PT: eu combinei com o Berzoini, eu combinei com o Pallocci, eu, e eu fui cobrado pelo PT. PMDB, a

parte do PMDB: o Flvio Barra que tinha relao com o PMDB, ele que cobrava, ele que articulava com o PMDB. Nunca foi feito por mim. Ento, eu estou falando aqui no meu depoimento, assim como falei na PGR, de acordo com o que eu fiz, do que eu dominava e do que eu sabia. E esses 3 (trs) milhes, ento, por acaso foram no perodo eleitoral. No necessariamente precisaria de ser, foi por acaso, est a, no dia 3 de julho. Porm, como no foi... foi uma oferta, porque ns doamos para eles tambm em 2010, 1 (um) milho tambm para o Vice-Presidente em 2010, da mesma forma, ns no tnhamos vinculao com nada, nada. Era realmente apoio ao Vice- Presidente. E esse dinheiro circulou dentro do PMDB Nacional e de l retirou-se 1 (um) milho e foi transferido para a conta de campanha da Presidente Dlma, coisa que no do meu domnio. Eu no sei comofizeram. Eu, na verdade, eu tomei conhecimento do cheque da mesma forma... depois que os advogados do PT, ou o PT, ou algum, colocou na imprensa. Eu no sabia desse cheque, nunca soube, porque eles no tinham que prestar conta para mim. Eles prestam contas para o TSE. Depois que eu doei os 3 (trs) milhes, esse dinheiro ficou no PMDB. Mas indo atrs, tentando rastrear, ele realmente ficou no Diretrio Nacional. Ento, no um dinheiro que veio, que foi alocado para outra finalidade, e ele no teve o princpio da vinculao, porque no houve vinculao. Foi uma doao legtima, voluntria e procurada por ns, no caso especfico, por mim, que fui eu o contato com o prprio Vice-Presidente. Ministro Ento, para fechar este ponto, igualmente de uma maneira categrica, o senhor afirma que a chapa majoritria, a chapa presidencial no recebeu nenhum recurso ilcito ou de origem ilcita da Andrade Gutierrez? Depoente Com certeza. Hoje, eu tenho condies, estou informado suficiente, documentado suficiente, para afirmar que ns... que no houve recurso da Andrade Gutierrez ilegtimo, ilcito, na campanha presidencial da Presidente Dilma e do Vice-Presidente Temer, no houve, no de recursos vindos da Andrade Gutierrez. Ministro Embora, tambm categoricamente pelo que eu vejo, no seu depoimento anterior, o senhor afirme que tanto pessoas do Partido dos Trabalhadores como do PMDB receberam propina de contratos da Andrade Gutierrez. Depoente Sim, senhor. Sim, senhor. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Senhor Otvio, o senhor disse que foi uma contribuio espontnea, no foi solicitado belo Presidente Michel Temer? O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): T. Um milho de maro de 2014. Essa data de maro ... Depoente Vou mostrar para o senhor. Aqui est o recibo, os dois primeiros recibos a. Tem um dia aqui de maro e a outra...

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Essadoao realizada ao... Depoente Ao PT. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Essa doao ao PT, de maro de 2014, o senhor confirma? Depoente Confirmo. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Que ela fruto de... Depoente Fruto dos acordos feitos. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Dos acordos de propina? Depoente Exatamente. Agora, eu tenho aqui... Ministro Mas quanto a esses recursos de doao ao PT, o senhor nega o que afirmou anteriormente, que teria havido migrao deles para a campanha da presidente. Isso? Depoente Deles para a campanha da Presidente Dilma. Lamentavelmente, at para mim isso bvio que se eu fiz um depoimento baseado num conjunto de informaes que me levaram a concluses que no so as procedentes, as finais, as que hoje estou completamente informado delas, muito desagradvel, mas esse desagradvel tem que ser reparado e o senhor me deu, na verdade, oportunidade para eu reparar. Agora, para isso, confesso que para uma pessoa sozinha, que no sou auditor, no sou uma pessoa que tem experincia para lidar com isso tudo, realmente em fazer, eu e meu filho, fazer isso a. No fcil. Agora, eu s recebi esses recibos todos aqui sexta-feira passada. Eu no dispunha desses recibos. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E o senhor se reuniu pessoalmente com o Presidente Temer? Depoente Foi. Eu falei pessoalmente com ele. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Foi conversado o valor que o senhor iria transferir? presidente, o senhor se lembra que em 2010 eu lhe ofereci R$1.000.000,00 (um milho de reais) para a sua campanha. Ele, em 2010, no sabia nem que a vice-presidncia, a candidatura de vicepresidncia tinha conta. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O senhor fez a promessa de 1 (um) milho para o Presidente Temer, mas sabendo que esse valor sairia do Diretrio Nacional do PMDB? Depoente A o seguinte: como eu lhe falei, eu nem estava no Brasil no dia 3. Porm, a Andrade, como ela doava sempre para diretrio nacional, foi a orientao, e essa orientao eu passei para a assessoria do Presidente Temer, para que, vai uma doao na semana que vem e desse que eu no sabia se era dois, trs, um e meio, quanto que era , desse total que vai na semana que vem 1 (um) milho a doao que estamos fazendo ao Presidente Temer para a campanha de vicepresidente.

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Mas essa informao o senhor passou assessoria do Presidente Temer, o senhor no conversou isso com o tesoureiro do PMDB, por exemplo, que quem tem essa... Depoente Nunca conversei com tesoureiro do PMDB, em nenhum momento. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento a garantia que o senhor tinha de que esse valor... Depoente Conversava com o tesoureiro do PT, mas do PMDB no. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento a garantia que o senhor tinha de que esse valor seria transferido do Diretrio Nacional do PMDB para a campanha do Presidente Temer qual era? Depoente A garantia? A garantia de que acho que as pessoas quando tm palavra, tm palavra. Acho que eu orientei no s a assessoria dele, como falei com o prprio presidente que ia doar 1 (um) milho e que esse 1 (um) milho seria no comeo de julho, ento no tinha motivo para ningum duvidar. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O senhor sabia que ao informar a assessoria dele j seria algo... Depoente Eu nunca negociei nada com o Presidente Temer, nem com a assessoria do Presidente Temer. Jamais. Como eu disse, o PMDB era uma relao que a Andrade tinha, e tem, no posso afirmar que nunca conversei com ningum do PMDB. No isso. Mas eu nunca fiz acertos, acordos com o PMDB. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): O senhor buscou saber se essa transferncia tinha sido realizada depois ou no? Depoente No, sinceramente no, tanto que eu s fui descobrir isso que aconteceu porque saiu no jornal, seno eu no saberia. Por qu? No s essas, as do Acio, por exemplo, eu dei uma informao aqui baseada em levantamento que eu fiz no site do TSE e, hoje, revendo, eu achei no 12 (doze) milhes e 600 (seiscentos), eu achei 19 (dezenove) milhes, Quem fez essas transferncias? O prprio PSDB internamente do diretrio nacional para a campanha de presidente dele. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E, Sr. Otvio, por que no foi adotada a opo de realizar diretamente para a campanha do Presidente? Por que transitou primeiro para o diretrio nacional? Depoente No caso da Presidente Dilma, foi por orientao da campanha da Presidente Dilma. Ela, no a Presidente, mas o Edinho que orientou que neste caso seria feito diretamente campanha da Presidente Dilma e no via PT. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Sim, mas, no caso, estou perguntando do PMDB. Por que no foi feito diretamente para a campanha do vice- presidente?

Depoente Nem no PMDB nem no PSDB nem no PSB nem em lugar nenhum. Se no houvesse a orientao do Edinho, seria feito ao Diretrio Nacional do PT. isso que estou lhe explicando. A exceo foi o PT. A exceo no foi o PMDB, nem foi o PSDB, porque ns sempre fazemos doao ao diretrio nacional. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Por poltica da empresa? Depoente Por poltica da empresa, poltica da empresa. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): E o senhor sabe dizer por que dessa poltica? Depoente No, no sei. Tem a ver, provavelmente, com a construtora que doadora e ela tem presena nacional, e eu, quando assumi essa funo, em 2010, isso de certa forma j era feito, tem a ver com a presena. Acho que uma empresa que tem presena nacional, eia comear a doar para diretrio municipal, para diretrio estadual, para diretrio, para candidato, ela acaba ficando marcada como "essa empresa do cara", "essa empresa do outro cara", ela entra numa polmica enorme. Ento acho que dar que vem a questo de doar sempre para diretrio nacional. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): ltima pergunta da minha parte, Sr. Otvio... Ministro Mas, salvo engano, o senhor, no seu depoimento anterior, afirmou que houve doaes tambm para candidatos. No estou me eleies. Depoente No, o senhor me desculpe. Pode, at no meu prprio acordo de colaborao eu disse tambm, pode ter ocorrido, mas numa proporo absolutamente insignificante. Nessas eleies que eu participei, que foi de 2010, 12 e 14, nessas eleies foi feito mais de 95% (noventa e cinco por cento) ou quase 100% (cem por cento) ao diretrio nacional, eventualmente para pequenas doaes para aigum candidato localizado, mas pouca importncia no processo. Eu no tenho conhecimento de que seja de forma diferente. (...) Ministro O seu depoimento ou de outros, enfim, mas o que ouvimos aqui que Belo Monte era muito mais uma obra do PMDB do que do PT em termos de contribuio de propina. Depoente No, no bem assim, no bem assim. No sei quem falou, mas quem... Ministro Mas um dos seus scios empresariais no consrcio. Depoente No sei. Ministro Isso foi dito aqui. Depoente Pode ser que eles no contribussem. Eu jamais participei, eu jamais cobrei de algum, porque eu no lidava com consrcio, ento isso a o Flvio Barra muito mais apto a falar sobre esse assunto do que eu pela Andrade Gutierrez. Eu no sei. Agora, posso dizer ao senhor o seguinte: o que foi combinado e a foi combinado comigo, no foi combinado com o Flvio, no foi

combinado com nenhum outro membro do consrcio , o que foi combinado na origem que seria meio por cento para o PT e meio por cento para o PMDB. Ento no houve uma proeminncia do PMDB, houve uma diviso, meio para c e meio para c. O meio do PT, como a obra comeou parece que em 2011, ela veio sendo paga em 2011, 2012, 2013 e 2014. Agora, no sei nem em 2014 quanto foi e quando, no sei, porque dentro dos valores que ns doamos para o PMDB esses recursos deveriam ir destinados a reas onde houvesse polticos que estavam influenciando essa deciso, que foram acordos feitos pelo Flvio e pelo pessoal l do consrcio, eu no participei disso. No sei. Ministro E ainda uma outra pergunta complementar. Pelo que estou entendendo, se a obra estivesse parada... Depoente No pagavam. Ministro No havia propina? Depoente No, no, no havia. Ministro Portanto, um incentivo a mais para obras em que houvesse esse tipo de acordo voltarem... Depoente No, olha, sinceramente no era por causa disso. Acho que o senhor tem razo na colocao, tendo em vista esse ambiente que estava existindo, mas no era assim que funcionava. Por exemplo, no caso da Fiol, o governo federal era responsvel em fornecer os trilhos e a Andrade Gutierrez de executar a obra civil toda e instalar os trilhos. O governo federal no forneceu os trilhos, por isso a obra parou. No parou porque houve um... "Ah, vamos parar porque a eu paro de pagar propina". No. Ou ento, "porque a eu consigo um aditivo depois". No, porque no teve trilho. E o Brasil inteiro do governo sabe disso, isso a foi amplamente... A obra atrasou um ano por falta de trilho. O governo fez uma licitao para comprar trilho na China, quer dizer, quem ganhou foi uma empresa chinesa. Ento foi um negcio complicado. Ministro Mas a concluso : obra em andamento, propina paga. Depoente Paga. Que eram obras do governo federal. E, como eu falei, as obras que ns tnhamos... Primeiro ns tnhamos, Petrobrs, no tnhamos mais obra em 2014. S para o senhor... Pode no ser o mesmo caso das outras empresas, mas no caso da Andrade Gutierrez no tinha mais obra em 2014. Ento ela no tinha propina a pagar. No tinha nem obra, estava terminando alguma coisa... Ministro Na Petrobrs? Depoente , na Petrobrs, estou falando de Petrobrs. Ento no houve Petrobrs. Em Angra no sei se o Flvio pagou alguma coisa referente a Angra para o PMDB. Agora, para o PT eu tenho certeza que no foi pago, tenho certeza. Sobre Angra, nada. (...) Ministro Eu tenho uma ltima pergunta: o Sr. Giles Azevedo, quando esteve aqui, afirmou que o senhor nunca esteve com a

Presidente Dilma, que nunca teve audincia com ela. Depoente Eu estive com a Presidente Dilma de maneira coletiva, nunca tive uma audincia sequer com a Presidente Dilma. Ministro Ento, o senhor confirma esta afirmao feita pelo Sr. Giles Azevedo? Depoente Confirmo. Ministro O Sr. Giles tambm disse que os contatos e reunies, audincias da Presidente Dilma eram com o Sr. Srgio Andrade, que vinha a ser ou vem a ser o acionista principal da Andrade Gutierrez. Depoente As audincias, sim. As reunies coletivas com empresrios, no. Era eu que estava participando. Eu nunca tive nenhuma audincia, nem participei de audincia do Srgio Andrade com a Dilma Rousseff. Nunca, nunca. Ministro Isso tambm foi afirmado pelo Sr. Giles Azevedo. Depoente Mas, nas audincias pblicas, vamos dizer assim, com empresrios, que ela fazia, ela chamava, chamou por algumas vezes reunies com empresrios para discutir temas diversos da economia, da infraestrutura, seja do que for, quem era chamado era eu. Ministro O Sr. Srgio Andrade conhecia direta ou indiretamente os atos de corrupo que estavam sendo praticados pela empresa da qual ele o acionista principal? Depoente Olha, eu no posso lhe afirmar peremptoriamente se ele sabia ou se ele no sabia. Porm, como eu no sabia da expressiva maioria de tudo isso que est sendo levantado em relao Andrade Gutierrez, inclusive, no processo de Angra, apesar da pena que eu levei, eu no sabia de absolutamente nada, no era do meu conhecimento o que estava acontecendo, e eu fui processado por domnio do fato, por dever de saber, e no por ter feito qualquer ato ilcito. E eu no participei de nenhuma... nada, nenhuma testemunha, ningum me conhece, nenhum dirigente, enfim... Ministro Mas que a estrutura na Andrade Gutierrez... Depoente Eu estou s lhe explicando... Ministro Se o senhor me permite, a estrutura da Andrade Gutierrez, como o senhor aqui descreveu, estava montada de tal maneira que a impresso que fica de criar "Ilhas de corrupo". O senhor mesmo afirmou que sabia do que se passava na Construtora Andrade Gutierrez, mas deixava isto para que eles l tratassem e, especificamente, em relao ao Sr. Srgio Andrade? Depoente Eu no tenho conhecimento que ele saiba, eu no tenho esse conhecimento. Comigo esse assunto no era discutido. Eu nunca participei de uma reunio de Conselho. Eu quero lhe mostrar porque esse aqui o organograma do grupo, e eles estavam aqui, eu estava aqui, a Construtora isso aqui, e essa parte aqui a parte de investimento do grupo. Ento, eles estavam aqui, eles, os scios, estavam aqui. Ento, eu no tenho... nunca participei de uma reunio aqui para discutir assunto de propina ou de contribuio desse jeito. O que eu...

Ministro At porque eu imagino que propina no seja discutida, assim, como um tema de pauta de uma reunio de conselho de administrao. Depoente Alm disso, esse assunto, de qualquer forma, no era sequer trazido para mim. Eu j fiz vrios depoimentos, e depoimentos que foram suportados pelos executivos da Andrade Gutierrez, da Construtora Andrade Gutierrez, esses executivos, onde eles prprios falam e confirmam que esse assunto era da Construtora, os assuntos da Construtora eram totalmente tratados pela Construtora, e no eram... Ministro Ento, eu termino esse conjunto de perguntas... Depoente Eu s queria fazer uma (...), Ministro. Ministro Sim, o senhor j vai poder fazer. Exatamente, na medida em que o senhor afirmou, nos seus dois depoimentos, que tratava de propina com o Sr. Vaccari, na medida em que o senhor indica que o Sr. Srgio Andrade, na sua impresso, no sabia de propina, ou deste submundo, vamos dizer, da Andrade Gutierrez, que, certamente, essas reunies que o Sr. Srgio Andrade teve com a Presidente Dilma Rousseff, no seriam no mesmo patamar, no mesmo nvel, com o mesmo contedo daquelas que o senhor tinha com o Sr. Joo Vaccari... Depoente Olha, eu tenho certeza mais uma vez, eu retiro o "certeza" , mas eu tenho convico de que as reunies que o Srgio Andrade tinha com a Presidente Dilma eram muito mais, assim, totalmente voltadas para a coisa cultural, formao de profissionais, capacitao de profissionais, questo das universidades, livros. o que eu acho que eles faziam, porque eu sabia que o Srgio ia, e eu conversava com o Srgio: voc vai levar algum ponto especial? No, eu vou tratar comentado com o senhor sobre doaes de campanha, ou pelo menos de presso que a Presidente tenha feito em relao a essas doaes. E isso venha a ocorrer por parte de um subordinado, que no chega nem a ser subordinado, que seria o tesoureiro da campanha. Depoente No fez. O senhor me desculpe, mas tem muita coisa que parece absurda nesse mundo, mas eu acho que as propinas que so o mais absurdo de tudo. Ministro Aqui ns no estamos, segundo suas palavras, ns no estamos falando de propina. Estamos falando de doaes oficiais que, segundo seu depoimento hoje, ficou muito claro, no tinham nenhuma vinculao com propina. Depoente Sim, mas as doaes, quando ns amos fazer doaes, por exemplo, para a Presidente Dilma, os 20 (vinte) milhes que fizemos, bvio, eu no tinha a chave do cofre para sair tirando dinheiro do cofre. lgico que eu comunicava ao Conselho que ns estvamos dando mais 5 (cinco) milhes, que ns estamos dando mais 3 (trs) milhes, mais 2 (dois) milhes. bvio! Isso eu comunicava.

Ministro O que eu estou querendo entender : enquanto as doaes da Andrade Gutierrez feitas pelo senhor, ou pelo menos organizadas pelo senhor, eram em carter espontneo, ao ponto de o senhor mesmo ir oferecer doao, ao contrrio do que seria a regra de os "pedintes fazerem fila no seu gabinete", l na Andrade Gutierrez, aqui ns temos uma candidata a presidente da Repblica que amiga pessoal do seu chefe, o dono da empresa, ou pelo menos tem uma relao... Depoente Uma relao boa. Amiga, eu... Ministro , uma relao pessoal, no ? Depoente . Ministro Que o senhor no tinha... Depoente No. Ministro E, no entanto, a presso insuportvel feita por um subordinado. Depoente Que no era o Vaccari. Ministro Que no era o Vaccari. Que, neste caso, eram o Edinho e o Giles. Depoente Exatamente. A presso foi feita pelo Giles e o Vaccari. Pelo Giles, desculpe, Giles e pelo Edinho. Ministro Isso causa alguma perplexidade que difcil de entender. Depoente Olha... , eu no sei. Eu no teria como explicar ao senhor por qu. O fato que ela nunca me ligou. E ela at poderia ter me ligado. Eu nunca recebi do Srgio uma orientao assim: , a Presidenta me ligou, falando que ns no estamos contribuindo. Nunca eu recebi essa orientao. E sempre a presso era em cima de mim, do Edinho e do Giles, porque eles sabiam que eu organizava isso dentro da Andrade Gutierrez. Ento, eles no tinham, nenhum dos dois tinha nenhuma relao com o Srgio tambm, o Vaccari muito menos. Ento, tinham uma relao, tinham conhecimento comigo e com o Flvio Machado, conforme eu j expliquei, ento, era atravs do Flvio, em primeira instncia, e de presso. Agora, ns... eu recomendei fazer, e o Conselho achou que devia fazer. E fizemos.

Do exame dos depoimentos acima que, afinal, so os mais

relevantes no que diz respeito alegao de doaes oficiais como esquema

de distribuio de propinas , possvel concluir o seguinte:

a) havia esquema de distribuio de propinas em obras da

Petrobras; que em alguns casos atingia o percentual de 5% e era direcionada

a diretores indicados por partidos polticos, pelos prprios partidos polticos e

para dirigentes partidrios;

b) grande parte dos recursos era direcionada para os dois

principais partidos do governo de ento, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o

Partido do Movimento Democrtico Brasileiro (PMDB);

c) as empresas, quando no eram aliciadas a doar para as

campanhas, o faziam espontaneamente, para estreitar os laos com os

partidos componentes do governo;

d) os recursos eram direcionados s agremiaes por vrios

mtodos, desde doaes oficiais ou por meio de recursos no contabilizados.

Todavia, no h prova segura e cabal de que as doaes para a campanha eleitoral de 2014 tenham decorrido do esquema ilcito de propinas que ocorreu no mbito dos contratos com a Petrobras ou mesmo de

que os recursos repassados pelas empresas teriam necessariamente origem

ilegal e, portanto, contaminariam a campanha.

Alis, registro que vrios delatores, ouvidos nos autos na

condio de testemunhas, assentaram que, embora a distribuio de propinas

a partidos polticos e seus membros fosse a praxe no mbito da Petrobras,

no sabiam afirmar se elas teriam ocorrido no ano de 2014, na eleio presidencial de 2014, e muito menos se esses recursos de origem ilcita

teriam de fato aportado no dito Caixa 1 da campanha. Cito, por exemplo, os

seguintes trechos:

Alberto Youssef

O SENHOR NICOLAU LUPIANHES NETO (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Porque consta que o senhor operava uma parcela desse dinheiro que era arrecadado, destinado para campanha Presidncia da Republica O senhor pode esclarecer isso melhor? Qual foi a sua participao, se e que ela houve, at quando, de que forma?

O SENHOR ALBERTO YOUSSEF (depoente): No. Eu operei para o Partido Progressista desde 2006 a 2012 - final de abril de 2012 esse esquema da Petrobras. E fiz alguns pagamentos, a pedido do Paulo Roberto Costa, nesse tempo, a alguns candidatos do Partido Trabalhista. Se no me engano, um s um ou dois. Mas foi em... foi na campanha de 2010 e no na campanha de 2014, onde eu estava...

(...)

Jlio Gerin de Almeida Camargo

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): E esses contratos, essa participao em contratos, o senhor consegue mensurar que isso durou at quando? O SENHOR JLIO GERIN DE ALMEIDA CAMARGO (depoente): Durou at 2010, talvez at 2011. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Ento, a participao do senhor nesses contratos, nesse pagamento de propina foi at 2011? O SENHOR JLIO GERIN DE ALMEIDA CAMARGO (depoente): At 2011.

Augusto Ribeiro de Mendona Neto

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): E se desenvolveram esses pagamentos, fez a contratao at quando? O SENHOR AUGUSTO RIBEIRO DE MENDONA NETO (depoente): Eles foram da contratao at a concluso da obra. A concluso se deu, acho que no ano de 2012. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Aps 2012 algum novo contrato, que envolvia... O SENHOR AUGUSTO RIBEIRO DE MENDONA NETO (depoente): Sim, eram outros contratos que ns tomamos parte depois de 2012, mas que no tiveram mais esse tipo de relao.

Ricardo Ribeiro Pessoa

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): E essas relaes, essas previses de percentuais que o senhor relatou, elas duraram ao longo de toda essa relao ou... O SENHOR RICARDO RIBEIRO PESSOA (depoente): No. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): ... teria algum momento, algum perodo em que ela se intensificou? O SENHOR RICARDO RIBEIRO PESSOA (depoente): Essa relao, ela teve o incio, essa perenidade, a partir de 2006. O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Dois mil e seis. E durou at? O SENHOR RICARDO RIBEIRO PESSOA (depoente): Dois mil e doze. Dois mil e onze. Dois mil e doze. Dois mil e onze, dois mil e doze.

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Ento, a partir de 2012, no houve mais previso de comisses entre os contratos assinados pela UTC com a Petrobras? O SENHOR RICARDO RIBEIRO PESSOA (depoente): Mesmo porque a gente no assinou quase nada. [...] Flvio David Barra

O SENHOR MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Corregedor-Geral Eleitoral): ... e no ter que voltar... nesse dimetro, os pagamentos eram feitos sob que base percentual e a quem esses pagamentos eram feitos? Foram at o final de 2013 e entrou alguma coisa em 2014? O SENHOR FLVIO DAVID BARRA (depoente): No. No entrou. Em 2014, logo em maro, ns tomamos uma deciso, o contrato tinha uma srie de dificuldades na sua implantao - falta de projetos, falta de autorizaes, de liberaes e uma restrio financeira do prprio cliente, do contratante, no caso, a Eletronuclear -, mas os resultados se confirmaram num prejuzo bastante significativo e, no comeo de 2014, eu comuniquei a alguns dos interlocutores, com quem tnhamos esses compromissos, que ns no amos dar sequncia e tomamos uma atitude at drstica: ns interrompemos a execuo do contrato, porque algumas das pendncias que diziam a respeito a condies necessrias para uma boa performance, para que a gente no ocorresse em novas perdas de recursos, precisassem ser sanadas para uma boa continuidade. E nesse momento, eu interrompi o pagamento desses valores. Zwi Sckornicki

O SENHOR BRUNO CSAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Ento, na Petrobras, a partir de 2011, o senhor disse que, em contratos com a Keppel, no houve nenhum tipo de distribuio? O SENHOR ZWI SKORNICKI (depoente): No, senhor. Pedro Jos Barusco Filho

Corregedoria-Geral Eleitoral): E o senhor j presenciou em alguma ocasio, principalmente em poca eleitoral, algum tipo de pedido de reunio, algum pedido direto: "Olha, estamos em campanha, precisamos de mais recursos..." O senhor vivenciou algum tipo de situao como essa, ou no? SENHOR PEDRO JOS BARUSCO FILHO (depoente): Sim. Quando havia campanha... 2014, infelizmente, eu no posso dar um depoimento muito detalhado, porque eu j tava, inclusive tinha sado

da Sete, n? Mas eu me lembro de 2010. Sim, e tambm 2006, t? Havia assim uma movimentao maior. Havia assim.., as cobranas eram maiores, a intensidade era maior, a periodicidade era maior. [...] O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Qual o ano exato que foi isso, Senhor Barusco? O SENHOR PEDRO JOS BARUSCO FILHO (depoente): Olha, o ltimo depsito que eu recebi, t? - at no era pra ter recebido. Fiquei surpreso, porque j tinha comeado a Lava Jato. Foi maro de 14, maro de 2014. Foi o ltimo recebimento. [...] Corregedoria-Geral Eleitoral): T E o senhor tambm no tem informao se... porque o senhor disse que recebeu a ltima parcela do senhor em maro de 2014, foi isso, no ? O SENHOR PEDRO JOS BARUSCO FILHO (depoente): Exato. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): O senhor no tem como associar se a essa poca ainda se mantinham os pagamentos da rea poltica? O SENHOR PEDRO JOS BARUSCO FILHO (depoente): No, eu no tenho essa informao. Dalton Dos Santos Avancini

Corregedoria-Geral Eleitoral): E o senhor j presenciou em alguma ocasio, principalmente em poca eleitoral, algum tipo de pedido de reunio, algum pedido direto: "Olha, estamos em campanha, precisamos de mais recursos..." O senhor vivenciou algum tipo de situao como essa, ou no? SENHOR PEDRO JOS BARUSCO FILHO (depoente): Sim. Quando havia campanha... 2014, infelizmente, eu no posso dar um depoimento muito detalhado, porque eu j tava, inclusive tinha sado da Sete, n? Mas eu me lembro de 2010. Sim, e tambm 2006, t? Havia assim uma movimentao maior. Havia assim.., as cobranas eram maiores, a intensidade era maior, a periodicidade era maior. Paulo Roberto Costa

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Senhor Paulo, nessa ao, basicamente, o objeto envolve a alegao de que a campanha de 2014 teria recebido algum tipo de comisso, propina, envolvendo contratos da Petrobras, entre outras pessoas jurdicas de direito pblico. Nesse sentido, o que o senhor pode nos relatar acerca de contratos, no perodo que o senhor esteve frente da Diretoria de Abastecimento - no isso? Qual era a sistemtica desses contratos em relao ao pagamento de comisses e propinas a, enfim, a

funcionrios da empresa e, eventualmente, a polticos e partidos polticos? O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): Isso no referente a 2014? Seria um histrico, isso? O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Sim. [...] O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Hum-hum. O senhor, por conhecimento de fatos, o senhor no sabe se algum desses valores chegou a 2014 o pagamento, pelo menos, dessas duas obras que o senhor mencionou? O senhor sabe dizer se algum valor de propina, de pagamento para poltico ou partido poltico, chegou a 2014? O SENHOR PAULO ROBERTO COSTA (depoente): Eu no tenho como lhe afirmar, porque, como eu lhe falei, eu sa da companhia em abril de 12 e a me desliguei completamente, no tenho mais nem contato com as empresas, em termos de perguntar uma coisa dessa, eu nunca perguntei. Ento, eu no tenho essa informao. [...] Rogrio Nora de S

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): O senhor disse que saiu em 2012. Foi isso? SR. ROGRIO NORA DE S: Na realidade, eu deixei a presidncia em 2011, em setembro de 2011. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): Durante todo esse perodo o acordo foi cumprido? SR. ROGRIO NORA DE S: . Na realidade, a obra, efetivamente, ela... No me lembro exatamente as datas, mas o acordo foi cumprido. Enquanto a obra executou, no meu perodo ele foi cumprido. O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar da Corregedoria-Geral Eleitoral): E depois o senhor sabe se continuou sendo cumprido normalmente, ou no? SR. ROGRIO NORA DE S: No sei informar se continuou sendo cumprido, porque tenho informao de que a obra foi paralisada, por conta de que no estava tendo lucratividade, e eu no sei se depois isso continuou, ou por que perodo continuou. Nestor Cerver

O SENHOR BRUNO CESAR LORENCINI (Juiz Auxiliar): Ento, senhor Nestor, o senhor no capaz de afirmar, por fatos que o senhor conhea, que houve algum tipo de distribuio de valores de

propina, derivados de contrato da Petrobras ou da BR Distribuidora, que o senhor estava frente, para a campanha eleitoral de 2014? SR. NESTOR CERVERO: Eu no posso... Realmente, todo 2014, a vou me considerar totalmente inabilitado a... Porque eu sa da BR em maro de 2014 fui desligado e a eleio foi em outubro, ento, eu no tive nenhum envolvimento. Eu desconheo como foi a negociao. Nos meus depoimentos constam pagamentos de propinas, durante o perodo em que eu estive l, a determinados polticos, mas, especificamente para a campanha de 2014, eu no conheo. MINISTRO HERMAN BENJAMIN: O senhor saiu em maro, no foi isso? Em maro de 2014, as mquinas partidrias j estavam a todo vapor. Eu indago se no houve, at a sua sada, mas, sobretudo, no ano de 2014, contribuies para os partidos ou os polticos independentemente de uma destinao especfica para as eleies em outubro. SR. NESTOR CERVERO: Doutor Benjamin, eu acabei de dizer exatamente isso. Eu falei que ao longo da minha.... Eu fiquei seis anos como Diretor Financeiro da BR. Houve contribuies para polticos, mas no caracterizando, no chegou a ser discutido, sei que houve pagamento e isso consta dos meus depoimentos, para determinados polticos, mas no visando... Eram contribuies que eram feitas regularmente. Se esses recursos foram usados depois, na campanha de 2014, eu no sei dizer. MINISTRO HERMAN BENJAMIN: Mas, especificamente, sendo muito direto, algum pediu recursos ao senhor nesse perodo mais prximo das eleies de 2014, seja no final de 2013, seja nos trs primeiros meses de 2014? Algum pediu para o senhor contribuies para a campanha da Presidente Dilma ou do Presidente Michel Temer? SR. NESTOR CERVER: No. Isso eu posso afirmar que no. As contribuies que cito nos meus depoimentos, especificamente sobre a BR, so feitas ao longo desses anos: 2010, 2011. Inclusive, no incio, nem se cogitava da... No houve nenhum pedido especfico, pelo menos para mim estou dizendo a meu respeito , "ns precisamos fazer caixa para a campanha," No. No houve.

No ponto, vale ressaltar que o depoimento de Marcelo Bahia

Odebrecht, cujo teor se transcreve mais adiante neste voto, no enftico

quanto relao entre os recursos direcionados campanha por meio de

doaes oficiais, da ordem de R$ 150.000.000,00, e os contratos ilcitos com a

Petrobras.

Pelo que se depreende, essa contribuio teria decorrido do

que qualificou como relao intensa com o governo, bem como de aes

governamentais especficas, como a edio do REFIS de 2009, que serviriam

de contrapartida para doao dessa magnitude e para o repasse de outros

valores, esses a ttulo de recursos no contabilizados (Caixa 2).

Ainda que se tratem de revelaes graves, que podem

inclusive influir em uma tica mais aberta quanto ao objeto da causa j por

mim rejeitada alhures , as declaraes de Marcelo Odebrecht no tm correlao, nem mesmo indireta, com a alegao narrada na inicial e ora apreciada, qual seja, a doao oficial por parte de contratadas da Petrobras como esquema de distribuio de propina.

Enfim, ainda que a tese da representante seja plausvel,

presumvel at, no se pode afirmar categoricamente que: a) recursos saram ilicitamente de contratos com a Petrobras, b) foram repassados a partidos polticos e c) aportaram necessariamente na campanha de 2014, com reflexos na legitimidade do pleito.

Essa concluso somente seria vivel por meio do uso da

presuno e de regras de experincia para se assentar, por exemplo, que se

os partidos receberam os recursos, s-lo-ia para fins eleitorais e de campanha

, as quais so rechaadas pela jurisprudncia desta Corte em matria de

abuso de poder. Cito, nessa linha:

ELEIES 2012. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. NEGATIVA DE SEGUIMENTO. AIJE. CAPTAO ILCITA DE SUFRGIO. ABUSO DE PODER. USO INDEVIDO DOS MEIOS DE COMUNICAO SOCIAL. NO CONFIGURAO. PROVA ROBUSTA. AUSNCIA. REEXAME DE FATOS E PROVAS. IMPOSSIBILIDADE. DESPROVIMENTO.

1. In casu, a Corte Regional entendeu ser insuficiente o conjunto probatrio para a condenao dos agravados por abuso do poder poltico/econmico, captao ilcita de sufrgio e uso indevido dos meios de comunicao social. Pela moldura ftica delineada no acrdo recorrido, no h como adotar concluso diversa, sob pena de revolvimento de fatos e provas, o que inadmissvel na via estreita do recurso especial (Smulas nos 7/STJ e 279/STF).

2. O entendimento do Tribunal a quo est em consonncia com a jurisprudncia desta Corte, segundo a qual, para a caracterizao do abuso de poder e da captao ilcita de sufrgio, faz-se necessria a

existncia de prova robusta(Precedente: AgR-REspe n 924-40/RN, Rel. Min. Joo Otvio de Noronha, DJe de 21.10.2014).

3. Agravo regimental desprovido.

(Recurso Especial n 150921, rel. Min. Luciana Lssio, Acrdo, Relator(a) Min. Luciana Lssio, j. em 7.6.2016)

ELEIES 2012. RECURSO ESPECIAL. AO DE INVESTIGAO JUDICIAL ELEITORAL. ABUSO DO PODER POLTICO. NO CONFIGURAO. PROVIMENTO.

1. O abuso de poder demanda a existncia de prova robusta para ficar configurado, sendo vedada a imposio de penalidades com base em presuno.

2. No caso, no restou comprovado que o comparecimento de servidores reunio ocorreu em horrio de expediente, de forma coercitiva e em grande nmero, o que evidncia o abuso de poder poltico.

3. Recurso especial provido.

(Recurso Especial n 28588, rel. Min. Luciana Lssio, DJE 21.3.2016) AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ORDINRIO. CAPTAO ILCITA DE SUFRGIO. PROVA ROBUSTA. AUSNCIA. ABUSO DE PODER ECONMICO. NO CONFIGURAO. DESPROVIMENTO.

1. Consoante jurisprudncia do Tribunal Superior Eleitoral, a condenao por captao ilcita de sufrgio exige prova robusta e no pode ser baseada em mera presuno. Precedentes.

2. Na espcie, a distribuio pontual de 50 camisetas a cabos eleitorais e equipe de campanha no configura vantagem oferecida a eleitor. Isso porque se trata de "mecanismo de organizao de campanha" (RO 1507, Rel. Min. Ricardo

Lewandowski, DJe de 1.10.2010).

3. Desse modo, tambm no se configura o suposto abuso de poder econmico, que exige comprovao da "utilizao excessiva, antes ou durante a campanha eleitoral, de recursos materiais ou humanos que representem valor econmico,

buscando beneficiar candidato, partido ou coligao, afetando a normalidade e a legitimidade das eleies" (AgRg no RCED 580, Rel. Min. Arnaldo Versiani, DJe de 1.11.2011).

4. Agravo regimental no provido.

(Recurso Ordinrio n 167589, rel. Min. Joo Otvio de Noronha, DJE de 27.10/2015) ELEIES 2010. RECURSO ORDINRIO. AO DE INVESTIGAO JUDICIAL ELEITORAL. CANDIDATOS A GOVERNADOR DE ESTADO, A VICE-GOVERNADOR, A SENADOR DA REPBLICA E A SUPLENTES DE SENADORES. ABUSO DO PODER POLTICO, ECONMICO E USO INDEVIDO DOS MEIOS DE COMUNICAO. UTILIZAO DE SERVIDORES PBLICOS EM CAMPANHA. COAO SOBRE EMPRESRIOS DO ESTADO PARA FAZEREM DOAO CAMPANHA DOS RECORRIDOS. ARREGIMENTAO E TRANSPORTE DE FUNCIONRIOS DE EMPRESAS PRIVADAS E DE COOPERATIVAS PARA PARTICIPAREM DE ATO DE CAMPANHA. USO INDEVIDO DOS MEIOS DE COMUNICAO. DEPENDNCIA ECONMICA DA IMPRENSA ESCRITA EM RELAO AO ESTADO DO ACRE. ALINHAMENTO POLTICO DE JORNAIS PARA BENEFICIAR DETERMINADA CAMPANHA.

1. Com base na compreenso da reserva legal proporcional, a cassao de diploma de detentor de mandato eletivo exige a comprovao, mediante provas robustas admitidas em direito, de abuso de poder grave o suficiente a ensejar essa severa sano, sob pena de a Justia Eleitoral substituir-se vontade do eleitor. Compreenso jurdica que, com a edio da LC n 135/2010, merece maior ateno e reflexo por todos os rgos da Justia Eleitoral, pois o reconhecimento do abuso de poder, alm de ensejar a grave sano de cassao de diploma, afasta o poltico das disputas eleitorais pelo longo prazo de oito anos (art. 1, inciso I, alnea d, da LC n 64/1990), o que pode representar sua excluso das disputas eleitorais.

2. Abuso do poder poltico na utilizao de servidores pblicos em campanha: competia ao Ministrio Pblico Eleitoral provar que os servidores pblicos ou estavam trabalhando em campanha eleitoral no horrio de expediente ou no estavam de frias no perodo em que se engajaram em determinada campanha. O recorrente no se desincumbiu de comprovar o fato caracterizador do ilcito eleitoral, nem demonstrou, com base na relao com o horrio de expediente de servidores, que estariam trabalhando em perodo vedado, tampouco pleiteou a oitiva dos servidores que supostamente estariam envolvidos ou que comprovariam os ilcitos. A prova emprestada somente admissvel quando formada sob o crivo do contraditrio dos envolvidos, possibilitando parte contrria impugnar o seu contedo, bem como produzir a contraprova, com base nos meios de provas admitidos em direito. No configura ilcito eleitoral o fato de uma jornalista, tambm servidora da assessoria de comunicao de municpio, opinar favoravelmente ou criticar

determinado candidato em jornal privado, pois, na lio do Ministro Seplveda Pertence, a imprensa escrita tem a "quase total liberdade" (MC n 1.241/DF, julgado em 25.10.2002), mas o transbordamento poder ensejar direito de resposta ao ofendido (art. 58 da Lei n 9.504/1997), medida cujo manejo pelos adversrios dos recorridos no foi noticiado pelo Ministrio Pblico Eleitoral.

3. Abuso do poder poltico e econmico na coao sobre empresrios do Estado para fazerem doao campanha dos recorridos: impossibilidade de se analisarem interceptaes telefnicas declaradas ilcitas pela Justia Eleitoral. O modelo constitucional de financiamento de disputa de mandatos eletivos, seja pelo sistema proporcional, seja pelo sistema majoritrio, no veda a utilizao do poder econmico nas campanhas eleitorais; cobe-se to somente, em respeito normalidade e legitimidade do pleito, o uso excessivo ou abusivo de recursos privados no certame eleitoral, o que no ficou demonstrado pelo Ministrio Pblico Eleitoral, a quem competia provar a alegada ilicitude. O fato de determinada empresa privada possuir contrato com o poder pblico no impede a pessoa jurdica de participar do processo eleitoral na condio de doadora, salvo se "concessionrio ou permissionrio de servio pblico", nos termos do art. 24, inciso III, da Lei n 9.504/97, tampouco autoriza concluir necessariamente que as doaes foram fruto de coao ou troca de favores.

4. Abuso do poder poltico e econmico na arregimentao e transporte de funcionrios de empresas privadas e de cooperativas para participarem de ato de campanha dos recorridos: a configurao do abuso de poder, com a consequente imposio da grave sano de cassao de diploma daquele que foi escolhido pelo povo afastamento, portanto, da soberania popular , necessita de prova robusta da prtica do ilcito eleitoral, exigindo-se que a conduta ilcita, devidamente comprovada, seja grave o suficiente a ensejar a aplicao dessa severa sano, nos termos do art. 22, inciso XVI, da LC n 64/1990, segundo o qual, "para a configurao do ato abusivo, no ser considerada a potencialidade de o fato alterar o resultado da eleio, mas apenas a gravidade das circunstncias que o caracterizam". Requisitos ausentes no caso concreto.

5. Uso indevido dos meios de comunicao: dependncia econmica da imprensa escrita em relao ao Estado do Acre e alinhamento poltico de jornais para beneficiar os recorridos. No h provas nos autos acerca da dependncia financeira

dos veculos de comunicao em relao ao Estado do Acre, tampouco h ilicitude no fato de candidatos ou coligao contratarem para a campanha empresa de publicidade que tem contrato com o Executivo. A liberdade de informao jornalstica, segundo a qual, "nenhuma lei conter dispositivo que possa constituir embarao

plena liberdade de informao jornalstica em qualquer veculo de comunicao social, observado o disposto no art. 5, IV, V, X, XIII e XIV" (art. 220, 1, da CF/88), permite, na seara eleitoral, no apenas a crtica determinada candidatura, mas tambm a adoo de posio favorvel a certo candidato, salvo evidentes excessos, que sero analisados em eventual direito de resposta ou na perspectiva do abuso no uso indevido dos meios de comunicao. No h prova nos autos que demonstrem o uso indevido dos meios de comunicao, mas matrias favorveis aos candidatos da situao e da oposio ao governo estadual.

6. Uso indevido dos meios de comunicao: utilizao de emissora pblica de TV em benefcio dos recorridos e enaltecimento das obras do governo do Estado pela referida emissora: o Supremo Tribunal Federal suspendeu a eficcia da expresso "ou difundir opinio favorvel ou contrria a candidato, partido, coligao, a seus rgos ou representantes" constante do art. 45, inciso III, da Lei n 9.504/1997, afirmando que "apenas se estar diante de uma conduta vedada quando a crtica ou matria jornalsticas venham a descambar para a propaganda poltica, passando nitidamente a favorecer uma das partes na disputa eleitoral. Hiptese a ser avaliada em cada caso concreto" (ADI n 4451 MC-REF/DF, rel. Min. Carlos Ayres Britto, julgado em 2.9.2010). No h vedao legal a que as emissoras de rdio e de televiso, mesmo no perodo eleitoral, noticiem e comentem fatos e atos de governo que ocorram no curso das disputas eleitorais, mas cobe-se o abuso, inexistente no caso concreto. No configura abuso no uso dos meios de comunicao o chefe do Executivo no candidato reeleio conceder a jornalista entrevista sem conotao eleitoral. Precedentes. No configura abuso no uso dos meios de comunicao social reportagem que se encontra nos limites da informao jornalstica, demonstrando a trajetria e os desafios de uma grande obra, o que no autoriza concluir que os eleitores associaram aquela reportagem necessria continuidade dos candidatos apoiados pelo ento governador, mormente quando se sabe que se trata de obra do governo federal iniciada em governos anteriores, sem vinculao a pleito ou candidatos, ainda que de forma subliminar. No configuram abuso no uso dos meios de comunicao social, entendido como grave quebra da igualdade de chances, as notcias de telejornais que, apesar de se excederem em alguns momentos, no significam, no caso concreto, automtica transferncia eleitoral aos candidatos, sobretudo quando se verifica que, nem de forma dissimulada, h sugesto de disputa eleitoral, ou referncia, ainda que indireta, a candidatura, ou slogan de campanha, nem mesmo o Ministrio Pblico Eleitoral noticiou alguma circunstncia que revelasse isso.

7. Recurso ordinrio desprovido.

(Recurso Ordinrio n 191942, rel. Min. Gilmar Mendes, DJe de 16.9.2014) RECURSO ESPECIAL. AO DE IMPUGNAO DE MANDATO ELETIVO. ELEIES 2006. DEPUTADO FEDERAL. RECURSO ORDINRIO. CABIMENTO. ART. 121, 4, IV, DA CONSTITUIO FEDERAL. ABUSO DO PODER ECONMICO, POLTICO E DE AUTORIDADE. CAPTAO ILCITA

DE SUFRGIO. PROVA ROBUSTA. AUSNCIA.

1. cabvel recurso ordinrio quando a deciso recorrida versar matria que enseja a perda do mandato eletivo estadual ou federal, tenha ou no sido reconhecida a procedncia do pedido.

2. incabvel ao de impugnao de mandato eletivo com fundamento em abuso do poder poltico ou de autoridade strictu sensu, que no possa ser entendido como abuso do poder econmico.

3. A ao de impugnao de mandato eletivo exige a presena de prova forte, consistente e inequvoca.

4. Do conjunto probatrio dos autos, no h como se concluir pela ocorrncia dos ilcitos narrados da inicial.

Recurso ordinrio desprovido.

(Recurso Especial n 28928, rel. Min. Henrique Neves, DJE de 25.2.2010) INVESTIGAO JUDICIAL ELEITORAL. ART. 22 DA LC N 64/90. REQUISITOS. NOTICIRIO DA IMPRENSA. PROVA TESTEMUNHAL. ENCARGO DA PARTE (INCISO V DA MESMA NORMA). OMISSO. IMPROCEDNCIA.

1. A Representao Judicial Eleitoral, cogitada no art. 22 da LC n 64/90, configura-se como ao cognitiva com potencialidade desconstitutiva e declaratria (art. 30-A, 2, da Lei n 9.504/97), mas o seu procedimento segue as

normas da referida norma legal, mitigados os poderes instrutrios do juiz (art. 130 do CPC), no que concerne iniciativa de produo de prova testemunhal (art. 22, V, da LC n 64/90).

2. Sem prova robusta e inconcussa dos fatos ilcitos imputados aos agentes, descabe o proferimento de deciso judicial de contedo condenatrio.

3. Se a parte representante deixa de diligenciar o comparecimento de testemunhas audincia de instruo, como lhe imposto por Lei (art. 22, V, da LC n 64/90), no lcito ao rgo judicial suprir-lhe a omisso, dado ser

limitada a iniciativa oficial probatria, a teor do referido dispositivo legal.

4. Representao Eleitoral improcedente.

(Representao n 1176, rel. Min. Francisco Cesar Asfor Rocha, DJ de 26.6.0217) Embargos de declarao. Recurso especial. Agravo regimental. Ao de impugnao de mandato eletivo. Poder econmico e poltico. Abuso. Prova robusta. Ausncia. Obscuridade. Inexistncia. Novo julgamento. Impossibilidade.

1. A ao de impugnao de mandato eletivo no se satisfaz com mera presuno, antes, reclama a presena de prova forte, consistente e inequvoca.

2. O recurso especial no se mostra apto para o reexame do acervo ftico-probatrio, conforme teor do Verbete n 279 da Smula do Supremo Tribunal Federal.

3. Os embargos declaratrios no se prestam para o rejulgamento da causa, seno para afastar do julgado dvida, contradio ou omisso.

Embargos de declarao rejeitados.

(Recurso Especial n 25998, rel. Min. Caputo Bastos, PSESS de 11.12.2006) AO DE INVESTIGAO JUDICIAL ELEITORAL. Eleies de 2002. Recurso ordinrio. Preliminares afastadas. Poder poltico. Abuso. No-caracterizao. Provimento.

- A declarao de inelegibilidade requer prova robusta da prtica dos fatos abusivos.

(Recurso Ordinrio n 739, rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJ de 17.9.2014)

No se trata, aqui, de negar valor prova testemunhal ou

mesmo de aplicar a ressalva do 16 do art. 4 da Lei 12.850/2013 cuja

aplicao restrita esfera criminal , mas de assentar que no h nos

depoimentos colhidos nos autos prova robusta, segura, inconteste, ou mesmo

indcios harmnicos e concordantes, no sentido de que os recursos desviados

da Petrobras compuseram doaes oficiais das empresas campanha

eleitoral dos representados.

Esclareo mais uma vez que o exame do feito no presente

tpico se restringe ao quanto narrado nas exordiais, na parte atinente ao

suposto financiamento oficial de campanha por meio de doaes decorrentes de esquema de distribuio de propinas na Petrobras.

Isso no impede que o Colegiado, a partir de concepo mais

ampla da cognio judicial possvel, considere as provas acima citadas como

suficientes para a condenao, potencializando-se o aparente aporte massivo

de recursos nos caixas dos principais componentes da chapa nos anos

anteriores eleio.

Tambm no impede que o contexto acima narrado seja

considerado em eventual anlise de fatos desvelados apenas no curso da

ao, tais como o recebimento de recursos no contabilizados (caixa 2)

tpico que ser abordado adiante no voto.

A meu juzo, porm, essa linha de raciocnio violenta no

apenas a adstrio da sentena ao pedido, a regra da estabilidade objetiva da

demanda e os marcos preclusivos do processo eleitoral, mas tambm a regra

de distribuio do nus probatrio, segundo a qual cabe ao autor o nus da

prova do fato constitutivo de seu direito (art. 373, I, do Cdigo de Processo

Civil). Ou seja, cabia representante diligenciar para oferecer ao Tribunal

provas robustas, seguras, incontestes, de sua pretenso.

bem verdade que, por circunstncias muito bem conhecidas

por todos, a representante passou a no ter tanto interesse na cassao de

toda chapa na forma que preconizado nas exordiais e que, por essas e outras

razes, a instruo do feito e a pesquisa da prova ficou quase exclusivamente

a cargo do eminente relator, o qual reitere-se fez um trabalho

extraordinrio na conduo do feito.

No entanto, a despeito desse denodo de Sua Excelncia,

entendo que a representante no se desincumbiu do nus de comprovar, por

meio de prova qualificada e indene de razovel dvida, que os recursos

oriundos de contratos ilcitos de empreiteiras com a Petrobras

necessariamente aportaram na campanha dos representados mediante

doaes oficiais.

Vale lembrar que, na linha da jurisprudncia do Tribunal, cabe

ao autor demonstrar a existncia do ilcito eleitoral. Cito, nesse sentido

julgados que trataram dois mais diversos ilcitos eleitorais:

Agravo de Instrumento. Recurso Especial. Representao. Conduta vedada. Art. 73, inciso VI, letra b, da Lei n 9.504/97. Publicidade institucional. No-caracterizao. Ausncia. Ato administrativo. Agente pblico. Autorizao. Presuno. Responsabilidade. No-comprovao. Dispndio. Recursos pblicos. 1. No admissvel a cassao de diploma pelo ilcito do art. 73, inciso VI, letra b, da Lei n 9.504/97, com fundamento em presuno. 2. Esta Casa j assentou que, para restar caracterizada a infrao do art. 73, inciso VI, letra b, da Lei n 9.504/97, necessria a comprovao do ato de autorizao de veiculao de publicidade institucional. 3. A conduta vedada prevista no art. 73, inciso VI, letra b, da Lei n 9.504/97, somente se caracteriza nas hipteses de publicidade institucional, o que implica necessariamente dispndio de recursos pblicos autorizado por agentes pblicos. 4. Cabe ao autor da representao o nus da prova tanto do ato de autorizao quanto do fato de a publicidade ser custeada pelo Errio, na medida em que se cuida de fatos constitutivos do ilcito eleitoral. 5. Esta Corte Superior, no julgamento dos Embargos de Declarao no Recurso Especial n 21.320, rel. Min. Luiz Carlos Madeira, de 9.11.2004, decidiu que compete a este Tribunal determinar os termos da execuo das suas decises. Agravo provido. Recurso Especial provido. (AI n 5565, Acrdo de , Relator(a) Min. Carlos Eduardo Caputo Bastos, Publicao: DJ - Dirio de justia, Volume 1, Tomo -, Data 26/08/2005, Pgina 175) ELEIES 2006. RECURSO ORDINRIO. AO DE INVESTIGAO JUDICIAL ELEITORAL. GOVERNADOR. AUSNCIA. PROVA. CONFIGURAO. ABUSO DO PODER POLTICO. CONDUTA VEDADA. I - nus do investigante carrear aos autos provas que demonstrem haver sido transgredida a legislao eleitoral.

II - Para configurao do abuso de poder poltico, alm da prova de sua materializao, faz-se necessrio demonstrar se a conduta teve potencialidade para gerar desequilbrio no pleito. III - Recurso a que se nega provimento. (RO 1.432, Acrdo, Relator(a) Min. Fernando Gonalves, Publicao: DJE - Dirio de justia eletrnico, Data 17/06/2009, Pgina 5) ELEIES 2010. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL CONVERTIDO EM RECURSO ORDINRIO. PARTICIPAO EM INAUGURAO DE OBRA PBLICA. FATO ISOLADO EM DATA DISTANTE DO PLEITO ELEITORAL. AUSNCIA DE POTENCIALIDADE LESIVA. ABUSO DE PODER POLTICO.INOCORRNCIA. FUNDAMENTOS NO AFASTADOS. SMULA 182/STJ. DESPROVIMENTO. 1. Para a procedncia da AIJE, sob o enfoque do abuso de poder poltico juridicamente relevante, alm da prova da existncia do fato, exige-se a potencialidade de a conduta influenciar no resultado do pleito, o que no se verifica na espcie.Precedentes. 2. Inexiste violao ao artigo 22, inciso XIV, da LC n 64/90, pois no h prova da reiterao da conduta pelos Agravados. 3. Fato isolado inaugurao de obra pblica ocorrido a quase um ano do pleito de 2010 (9.10.2009) e em municpio do interior do Estado no evidencia, por si s, a existncia de abuso de poder poltico capaz de influir no resultado das eleies para o cargo de deputado federal ou comprometer sua legitimidade e lisura. Alm disso, o Recorrente no se desincumbiu do nus de provar, de forma cabal, que tal fato denota finalidade eleitoral. 4. Diante da ausncia de argumentao relevante, apta a afastar a deciso impugnada, esta se mantm por seus prprios fundamentos.. Agravo interno desprovido. (RO n 4843-85, Acrdo, Relator(a) Min. Laurita Hilrio Vaz, Publicao: DJE - Dirio de justia eletrnico, Data 04/02/2014.) ELEIES 2012. REPRESENTAO COM BASE NO ART. 30-A DA LEI N 9.504/1997. PREFEITO E VICE-PREFEITO CASSADOS. CONDENAO POR PRESUNO. IMPOSSIBILIDADE. [...] 8. O Tribunal Regional Eleitoral incorreu em verdadeira inverso do nus da prova, exigindo do candidato, no mbito da representao fundada no art. 30-A da Lei n 9.504/1997, a comprovao da origem lcita dos recursos doados pelo vice-prefeito, quando competia ao autor da representao provar que decorreram de fontes vedadas pela legislao eleitoral, provenientes de "caixa 2", ou a m-f do candidato, marcada pela tentativa de embaraar, induzir a erro ou evitar a

fiscalizao pelos rgos de controle da Justia Eleitoral, conforme tem exigido a reiterada jurisprudncia do TSE. 9. Recursos providos para julgar improcedente o pedido formulado na representao. Cautelar prejudicada. (Ao Cautelar n 93313, Acrdo, Relator(a) Min. Gilmar Ferreira Mendes, Publicao: DJE - Dirio de justia eletrnico, Data 29/04/2015, Pgina 172-17)

Desse modo, ausente a prova da vinculao necessria entre

os contratos ilcitos no mbito da Petrobras e o aporte de recursos na

campanha dos representados por meio de doaes oficiais, no reconheo a prtica de abuso de poder em decorrncia do fato em anlise.

Concluso.

Por todo do exposto, no comprovadas as prticas de abuso

de poder poltico e econmico, segundo os fatos narrados nas Aes de

Investigao Judicial Eleitoral 1547-81 e 1943-58, bem como a Representao

8-46 e a Ao de Impugnao de Mandato Eletivo 7-61, julgo improcedente os pedidos nelas formulados.

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