Acerca de Storytelling

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J. D. Sunwolf, PhD Departamento de Comunicaes, Universidade Santa Clara. E-mail: sunwolf@scu.edu

Na frica Ocidental, quando uma pessoa da aldeia adoece, o curandeiro pergunta-lhe: Quando foi a ltima vez que voc cantou? Quando foi a ltima vez que voc danou? Quando foi a ltima vez que voc contou uma histria?. Cox1

Agora, s vezes Deus cansa de deixar as pessoas felizes e sempre mistura um pouco de azar com a boa sorte, como a chuva com o sol. A rainha sentiu-se mal, mas nem os doutos mdicos nem os curandeiros podiam fazer qualquer coisa por ela. Donkeyskin, de uma lenda popular oral

HOmO nArrAns: HISTRIAS DA MENTE E DA ALMAEntre o povo, que sabe dessas coisas, diz-se que o primeiro contador de histrias, noite, se aproximou dos deuses e ficou ouvindo-os falar enquanto dormiam assim, todos os contos que o contador colecionou continham o flego dos deuses. Seres humanos so criaturas que contam histrias. De fato, estes foram descritos por MacIntyre2 como animais que contam histrias. As pessoas tm necessidade de possuir smbolos que as ajudem a entender e a interpretar o mundo. Fisher3, um estudioso que colocou os sistemas de narrativa em primeiro plano para a compreenso da comunicao, sugeriu que o ser humano pode ser mais bem entendido como homo narrans, pois organizamos nossas experincias em histrias que tm tramas, personagens centrais e seqncias de ao que

artigo internacional* O ato de contar hist rias. [N.E.] 1. COx, A. A journey down the healing path through story (Uma viagem pelo caminho curativo da hist ria). Diving in the Moon, 1, 1023, 2000. 2. MacINTyRE, A. After virtue: a study in moral theory (Aps a virtude: um estudo em teoria moral). 2. ed. Notre Dame: Uni ver sity of Notre Dame Press, Paris, 1981. 3. FISHER, W. R. The narra tive paradigm: in

Era uma vez, para a alma: uma reviso dos efeitos do storytelling* nas tradies religiosas

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comunicao

& educao

Ano

X

Nmero

3

set/dez 2005

the beginning. journal of Commu nication, 35(4), 7489, 1985. Id. Human communication as narra tion: toward a philosophy of reason, value, and ac tion (Comunicao huma na como narrao: para uma filosofia da razo, valor e ao). Columbia: Press University of South Carolina, 1987. 4. FISHER, W. R. The narra tive, op. cit. 5. SARBIN, T. R. Narrative psychology: the storied nature of human conduct (Psicologia narrativa: a natureza da conduta hu mana contada). New york: Praeger, 1986. 6. SUNWOLF, J. D. The pedagogical and per suasive effects of Native American lesson stories, African dilemma tales, and Sufi wisdom tales (Os efei tos pedaggicos e persua sivos de histrias morali zantes americanas nativas, contos de dilema africanos e contos de sabedoria Sufi). Howard journal of Communications, 10, 4771, 1999. 7. Id. Grief tales: the the rapeutic power of folk tales to heal bereavement and loss. (Contos de tris teza: o poder teraputico de contos folclricos para curar luto e perda). Diving in the Moon, Honoring Story, Facilitating Healing, 4, 3642, 2003. 8. CAMPBELL, A. F., sj. The storytellers role: reported story and biblical text (O papel do contador de histrias: histria contada e texto bblico). The Catholic Biblical Quarterly, v. 64, 427441, 2002. 9. NIDITH, S. Oral world and written word: ancient israelite literature (Mundo oral e palavra escrita: literatura israelita antiga). Louisville, Westminster: John knox Press, 1996. 10. CANDA, E. R. Spiri tuality, religious diversity, and social work practice

trazem lies implcitas e explcitas. Se, como argumentou Fisher, as pessoas buscam instintivamente uma lgica narrativa, e todos os seres humanos so em essncia contadores de histrias, ento compartilh-las uma ferramenta poderosa para ajudar a conferir sentido a valores espirituais, dividir essas crenas com outros e, assim, entender profundamente suas prprias mentes e almas. As histrias esto entre nossas unidades mais bsicas de comunicao. Somos socializados atravs da narratividade, embora possamos ser educados por meio da racionalidade 4. O papel das histrias, sob uma perspectiva social, foi analisado em campos to diversos como psicologia, sociolingstica, cincias polticas, histria, antropologia, direito e comunicaes. Os seres humanos pensam, percebem, imaginam e fazem escolhas morais de acordo com as estruturas narrativas5. Ainda que os efeitos de compartilhar narrativas visando transmisso de cultura entre crianas em ambientes educacionais e entre aqueles que esto doentes tenham sido bem documentados, pouca ateno acadmica direciona-se questo de como ouvir narrativas afeta os membros de tradies e comunidades espirituais. Os prprios contadores de histrias, entretanto, h muito tempo reconhecem o poder de as narrativas transportarem os ouvintes do momento da dor a um e todos viveram felizes para sempre6, com poderosos relatos provocando intensos flashes de introspeco para os ouvintes com necessidades, fsicas ou espirituais. Desespero, trauma, doenas e luto criam florestas amedrontantes de dor, com trilhas desconhecidas; em tal contexto, ouvir histrias, para aqueles que sofrem, pode significar novos caminhos para sair da escurido7. Os contos orais vieram antes dos textos escritos em todas as tradies religiosas. H muito reconhecido na espiritualidade judeo-crist, por exemplo, que os prprios textos sagrados originaram-se de histrias orais que traziam no apenas proezas, mas tambm os ensinamentos tradicionais8, uma vez que as narrativas maiores (o Pentateuco ou as histrias deuteronmicas, isto , aquelas dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento atribudos a Moiss: Gnesis, xodo, Levtico, Nmeros e Deuteronmio) careciam da estrutura enxuta das histrias orais do dia-a-dia, a partir da qual esses picos foram compostos. Um histrico maior sobre as tradies orais e escritas, e o efeito da ausncia de aptido literria geral, fornecido por Nidith9. Para iniciar a discusso, sero esclarecidos trs termos: espiritualidade, f e religio. O termo espiritualidade tem diversos significados, muitas vezes utilizados erroneamente, como sinnimos de religio ou, pejorativamente, como sinnimos de religies no-tradicionais e no-institucionalizadas (experincias da Nova Era, por exemplo). Aqui, utilizaremos vrias definies teis de praticantes externos s organizaes religiosas. Canda10 define espiritualidade como a busca humana pelo significado pessoal e pelos relacionamentos mutuamente recompensadores entre pessoas, o ambiente no-humano e, para alguns, Deus. J Bullis11 a conceitualiza como os sentimentos e experincias internas de proximidade com

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um poder superior [...] como o relacionamento da pessoa humana com algo ou algum que a transcende, sugerindo que a espiritualidade um estado de conscincia focado divinamente, mas alterado. Ao discutir a necessidade essencial de aplicar a espiritualidade a um trabalho social compassivo, Angell, Dennis e Dumain12 argumentam que esta se resume em uma busca ou necessidade intrnseca da humanidade, e tecida na resposta da pessoa sua prpria percepo de Deus. A espiritualidade concebida aqui, de modo amplo, como uma busca dinmica e contnua no ntimo das pessoas pelo significado de sua relao particular com um poder divino superior. Como a f o tema central das histrias contadas nas tradies espirituais, torna-se til analisar seu significado geral. Dentro da tradio judeo-crist, a Carta aos Hebreus declara que f ter certeza daquilo que esperamos e daquilo que no vemos (11,1). As pessoas passam a acreditar na provvel ocorrncia ou existncia de eventos13. Dos trs termos, religio parece ser o mais fcil de definir, pois, de modo geral, aceita-se que ela se manifesta em uma associao daqueles que compartilham valores e crenas. H uma argumentao geral, tanto dentro quanto fora de certas entidades religiosas, de que religio um grupo de fiis que, dentro de uma organizao ou instituio, aceita um conjunto comum de crenas, prticas e rituais relacionados aos interesses espirituais e s questes ticas14. Como resultado, a espiritualidade constitui uma prtica e um sistema de crena menos doutrinais, ritualizados e, talvez, menos tangveis. Aqui, uma interseo oferecida para enquadrar a discusso acerca de histrias; d-se ateno ao uso de relatos orais com vistas a gerar a f nas instituies religiosas. Minha posio a de que as pessoas precisam de espiritualidade para dar sentido ao mundo, guiar suas escolhas sobre o que crer ou rejeitar, determinar o que valorizar e sinalizar opes comportamentais. As religies oferecem estrutura, apoio e alicerces especficos para a necessidade espiritual. Storytelling uma ferramenta vital para satisfazer essas necessidades e metas. Histrias orais, de fato, podem ser um recurso mpar para alimentar o esprito, pois produzem impacto emocional. Um conto poderoso sempre fundamentado, no na trama, mas na emoo, que a oralidade da narrativa destaca. A emoo, por sua vez, o local exclusivo de morada da alma. O modo pelo qual a emoo de um conto comunicada, porm, torna-se mais difcil de compreender. A investigao da trama emocional de uma histria envolve prestar ateno sua essncia. Harold Scheub, professor de humanidades e de lngua e literatura africana Evje-Bacom da Universidade de Wisconsin, em Madison, colecionou contos orais ao caminhar mais de seis mil milhas15 pela frica do Sul, Suazilndia, Zimbbue e Lesoto. Ele era motivado pela pergunta: Qual a essncia da histria?. Como o contador de histrias transmite significado? Aprendeu isso por meio de Nongenile Masithathu Zenani, uma mulher que, dentre esses contadores de histrias, admitiu que freqentemente se via em uma batalha entre a tradio e as tendncias sociais contemporneas. Ela ex-

(Espiritualidade, diversida de religiosa e prtica de assistncia social). Social Casework, 69(4), 238247, 1988. 11. BULLIS, R. k. Spiri tua lity in social work practice (Espiritualidade em prtica de assistncia social).