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  • An Bras Dermatol. 2009;84(1):71-4.

    71

    Acne induzida por amineptina *

    Acne induced by amineptine

    Antonio Carlos Martins Guedes 1 Aline Almeida Bentes 2

    Jackson Machado-Pinto 3 Maria de Lourdes Ribeiro de Carvalho 4

    Resumo: Relata-se um caso grave de leses acne-smile associada a amineptina (Survector), proeminentes naface e dorso, acometendo outros stios no afetados pela acne vulgar, como perneo, braos e pernas. As lesesapareceram aps a auto-administrao crnica de altas doses do medicamento. Leses ceratoacantoma-smiletambm estavam presentes, tendo as leses menores resposta satisfatria ao tratamento com imiquimod tpico.O relato significativo pela raridade da doena.Palavras-chave: Acne vulgar; Ceratoacantoma; Erupo por droga

    Abstract: We report one case of very severe acne-like lesions associated with amineptine (Survector). Theywere most prominent on the face and back, but were also observed on sites not affected by acne vulgaris, suchas perineum, arms and legs. The lesions appeared after long-term self-medication of high doses.Keratoacanthoma-like lesions were also present, and the small ones were successfully treated with topicalimiquimod. The case is significant since the disease is quite rare.Keywords: Acne vulgaris; Drug eruptions; Keratoacanthoma

    Recebido em 16.09.2005.Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicao em 26.08.07. * Trabalho realizado no Servio de Dermatologia Hospital das Clnicas (UFMG) Belo Horizonte (MG), Brasil.

    Conflito de interesse: Nenhum / Conflict of interest: NoneSuporte financeiro: Nenhum / Financial funding: None

    1 Professor adjunto de Dermatologia do Departamento de Clnica Mdica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutor emDermatologia pela UNIFESP So Paulo (SP), Brasil.

    2 Acadmica de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Belo Horizonte (MG), Brasil.3 Doutor em Medicina pela Santa Casa de Belo Horizonte. Chefe da Clnica Dermatolgica da Santa Casa de Belo Horizonte. Professor da Faculdade de Cincias Mdicas

    de Minas Gerais Belo Horizonte (MG), Brasil.4 Dermatologista. Doutora em Cincias, rea de Concentrao: Imunoparasitologia, do Instituto de Cincias Biolgicas da Universidade Federal de Minas Gerais

    (ICB/UFMG) Belo Horizonte (MG), Brasil.

    2009 by Anais Brasileiros de Dermatologia

    CASO CLNICO

    INTRODUOA acne vulgar inflamao das unidades pilosseb-

    ceas de algumas reas do corpo (face, tronco e raramen-te na regio gltea), que ocorre mais frequentemente naadolescncia e apresenta formas clnicas bem definidaspela leso preponderante: acne comedoniana, acneppulo-pustulosa, acne ndulo-cstica e acne conglobata.As leses podem levar a cicatrizes escavadas, deprimidase hipertrficas, sendo essas seqelas particularmentecomuns na acne ndulo-cstica e na acne conglobata. Aacne grave inclui manifestaes nodulares inflamatriaspersistentes ou recidivantes, leses ppulo-pustulosasextensas, cicatrizao exuberante e/ou fstulas. 1

    Em 1987 foi relatado um tipo especial de acneinduzida por um antidepressivo tricclico (amineptina).2

    A acne induzida por amineptina bastante peculiar porsua gravidade, sendo qualificada de monstruosa3 noscasos mais exuberantes; surge em idade tardia e apsuso prolongado de altas doses deste antidepressivo.4,5 forma caracterstica e especial de acne que pode ter suacausa primria identificada ao exame clnico. Atinge pre-ferencialmente as mulheres, na idade de involuo natu-ral da acne juvenil. particularmente explosiva, profusa,ultrapassando os territrios habituais da acne, aparecen-do essencialmente na face, pavilho auricular, pescoo,trax, dedos e, por vezes, nos membros e perneo.5-7

    Geralmente do tipo retencional, micro e macro-cs-tica, tendo leses de dois a oito milmetros, comedes fecha-dos, brancos ou pretos e, muito raramente, inflamada. 3, 6-9

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  • FIGURA 1: Leses micro e macrocsticas e ceratoacantoma-smile no dorso

    FIGURA 2: Aspecto histopatolgico apresentando tampes crneos,leso cstica e, no centro, ilhotas de clulas disqueratticas (HE 100x)

    FIGURA 3: Detalhe de rea disquerattica com aspecto de vidro esmerilhado, ceratoacantoma-smile (HE 400x)

    72 Guedes ACM, Bentes AA, Machado-Pinto J, Carvalho MLR

    An Bras Dermatol. 2009;84(1):71-4.

    Na grande maioria dos casos, os doentes deprimi-dos consomem de dois a quatro comprimidos de ami-neptina por dia; trata-se de antidepressivo prescrito roti-neiramente em alguns paises, como a Frana.6 muitoapreciado pelos pacientes por sua ao muito rpida,euforizante e tem atividade tipo anfetamina, levando atoxicomania verdadeira, por vezes dose-dependente. 6

    O tratamento da erupo acneiforme induzidapela amineptina consiste em supresso da droga, redu-o da toxicomania associada, abertura cirrgica dos cis-tos e uso de isotretinona 1mg/Kg/dia por tempo prolon-gado. 5,6

    RELATO DE CASOPaciente de 52 anos, branca, sexo feminino, natu-

    ral e procedente de Belo Horizonte, MG, apresentandodepresso crnica, em uso de amineptina (Survector

    100mg) por aproximadamente 30 anos (sic). Nos lti-mos anos, por automedicao, estava com uma dose deoito comprimidos ao dia. Subseqentemente, em virtu-de do efeito cumulativo da droga, desenvolveu erupoacneiforme, tendo predomnio de leses csticas, locali-zadas na face, regio cervical, membros superiores,regio gltea e vulva. Aps seis anos passou a apresentarleses ceratoacantoma-smile nas mesmas localizaes(Figura 1). O quadro histopatolgico das leses ceratoa-cantoma-smile apresentava dilatao dos stios dasglndulas sebceas ou crinas preenchidas por tampescrneos e hiperplasia acentuada da camada malpighianapor possvel queratinizao metaplsica ou epidermidesugerindo, por vezes, ceratoacantoma (Figura 2 e 3).Nessa ocasio, fez uso de isotretinona (1,0mg/Kg/dia) etetraciclina nas doses usuais para acne (500 a 1000mg/dia), por aproximadamente dois anos, de formaintercalada, sem resposta teraputica adequada. Asleses eram pruriginosas e dolorosas. As maiores foramretiradas cirurgicamente para alvio dos sintomas, e as

    menores foram tratadas topicamente com imiquimod a5% (3x/semana), levando regresso clnica e deixandoatrofias residuais (Figura 4 e 5). Porm, em momentoalgum a paciente deixou de usar amineptina. Evoluiupara o bito devido a problemas crdio-circulatrios. Oexame de ressonncia magntica mostrava imagens poli-plides de padro no definido no ventrculo direito etrios. A necropsia no foi permitida.

    DISCUSSOOs riscos potenciais do uso de amineptina so o

    desenvolvimento de leses acneiformes, alteraes neu-rofisiolgias e dificuldade de desmame. A acne induzi-da de forma iatrognica aparece tardiamente (em mdiaaos 42 anos de idade, extremos de 26 e 76 anos) e predo-mina no sexo feminino. So leses exclusivamente dotipo retencional, micro e macrocsticas, e aparecem de

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  • Acne induzida por amineptina 73

    FIGURA 4: Leses ceratoacantoma-smile no dorso, antes (A) e aps (B) o uso tpico de imiquimod

    FIGURA 5: Leso ceratoacantoma-smile no brao, antes (A) e aps (B) o uso tpico de imiquimod

    An Bras Dermatol. 2009;84(1):71-4.

    forma profusa e, nos casos mais graves levam a alteraesfaciais desfigurantes, denominadas por alguns autores demonstruosa.5 Aparecem depois de meses ou anos,quando o consumo ocorre em doses supra-teraputicasou txicas.7,8 A intensidade das leses est diretamenterelacionada dose diria e ao efeito cumulativo da medi-cao.4,5,10 O prognstico est relacionado com a possibi-lidade de um desmame completo e definitivo da droga.4 A anlise de espectometria de massa permite identificarno plasma, na urina e at mesmo no contedo do cisto apresena de amineptina e seus metablitos, o que pode-ria explicar a persistncia da acne depois da abstinnciada droga.4,7,10,11 O medicamento se concentra no somen-te nas glndulas sebceas, mas igualmente no suor. 4

    O ceratoacantoma tumor de origem provvel noinfundbulo folicular de crescimento rpido e predomi-nando nas reas expostas ao sol. controversa a suabenignidade, pois alguns o tm como benigno comaspecto pseudomaligno, malignidade em regresso e,mesmo, uma variante do carcinoma escamoso. afecodo idoso, com uma taxa de incidncia anual de 104 /100.000. Os ceratoacantomas podem se desenvolver emlocais de trauma prvio. A maioria do tipo craterifor-

    me, que cresce rapidamente, apresenta perodo de esta-do curto e ento sofre regresso espontnea. Menos de2% pertencem a variantes destrutivas, sem regresso ecom crescimento invasivo persistente.12

    A doente descrita, aps anos de uso e de dose ele-vada de amineptina, mostrou mltiplas leses semelhan-tes ao ceratoacantomas, tanto do ponto de vista clnicoquanto histopatolgico. Sendo reconhecida a origemfolicular do ceratoacantoma no se poderia ser taxativoquanto sua origem em relao a esta doente, pois assuas leses tambm ocorriam em reas sem pelos, comoas palmas e plantas, bem como se associavam s dilata-es tanto dos stios das glndulas sebceas como dascrinas preenchidas por tampes crneos. Admite-se tra-tar de hiperplasia acentuada da camada malpighiana porpossvel queratinizao metaplsica ou epidermide,lembrando ceratoacantoma. No foi possvel pesquisarmetablitos da droga no interior dessas leses. Como adroga pode ser encontrada na secreo sebcea e nosuor, haveria uma queratinizao metaplsica nas lesesppulo-queratticas, tanto na glndula crina (siringo-metaplasia) como na glndula sebcea, dando o aspectoacanttico hiperplsico e aparncia vtrea. Este tipo dequeratinizao benigno e no exclusividade destadroga, pois pode ocorrer em diversas dermatoses tumo-rais e inflamatrias, aps a administrao de substnciasexgenas txicas como quimioterpicos (doxorubicina,cytarabine), 2,3,7,8-tetrachlorodibenzeno-p-dioxine (cloracne),pantomima (in