Afastamentos composicionais no Choro Torturado de Camargo ... UNIVERSIDADE DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE ARTES PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM MSICA Afastamentos composicionais no Choro

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    UNIVERSIDADE DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE ARTES

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM MSICA

    Afastamentos composicionais no

    Choro Torturado de Camargo Guarnieri

    Artigo submetido como requisito parcial para

    a obteno do ttulo de Mestre em Msica; rea de concentrao: Prticas Interpretativas.

    Mestranda: Elaine Milazzo Orientao: Profa. Dra. Any Raquel Carvalho

    Porto Alegre 2004

  • 2

    AGRADECIMENTOS

    Agradeo a Deus pelas pessoas que me cercaram durante todo este curso:

    Por meus pais que, apesar de no serem msicos, sempre me apoiaram e me

    incentivaram no caminho da msica;

    Pela Llian, minha irm que esteve presente todos os dias destes dois anos de curso,

    me ajudando nos afazeres dirios e juntamente com o Ismael, facilitando a minha vida pra

    que eu pudesse me concentrar em meus estudos;

    Pelo Tiago, meu namorado que pde compartilhar comigo este passo to importante

    na minha vida, por seu carinho, pacincia e presena, apesar da minha ausncia em tantos

    momentos;

    Por todos os meus familiares, especialmente meus avs Paulo e Lila que me apoiaram

    e me incentivaram de forma imprescindvel para que fosse possvel digitar este trabalho;

    Pela Juciane e pela Vnia que marcaram de forma inesquecvel os desafios dos

    ltimos dias com um apoio, uma ateno e um carinho constrangedores;

    Pelo Tales, com a ajuda irrestrita e carinhosa na gravao e produo do cd;

    Pela Ftima, secretria do PPG, por no negar ajuda principalmente nas ltimas

    horas;

    Pela Any Raquel Carvalho, minha orientadora, com sua disposio incondicional

    sempre me atendendo com um sorriso apesar da seriedade do trabalho e da corrida contra o

    tempo e,

    Pelos professores Maria Bernadete Castelan Pvoas, Ney Fialkow e Celso Loureiro

    Chaves que compuseram a banca examinadora deste trabalho contribuindo com comentrios

    e sugestes que vieram a enriquecer e melhorar este trabalho.

  • 3

    RESUMO

    O presente trabalho consiste em examinar a presena dos elementos caractersticos

    do choro tradicional nos mbitos meldico, harmnico, rtmico e formal no Cho o Torturado

    de Camargo Guarnieri buscando investigar os afastamentos composicionais em relao ao

    paradigma da definio de choro vigente em sua poca. Estes afastamentos esto

    fundamentados basicamente no conceito de Pantonalidade estabelecido por Rudolph Reti em

    Tonality, Atonality, Pantonality A s udy of some trends in Twentieth Century Music (1958).

    r

    t

    PALAVRAS-CHAVE: choro, Guarnieri, pantonalidade.

  • 4

    ABSTRACT

    This study aims at identifying the presence of characteristic elements of the

    traditional choro in the melodic, harmonic, rhythmic and formal aspects in Camargo

    Guarnieris work Choro Torturado. The purpose is to determine the level of compositional

    departure in this piece by establishing a relationship with a paradigm of the choro genre of

    the same period. These compositional departures are based on the definition of pantonality

    as established by Rudolph Reti in his bookTonality, Atonality, Pantonality A Study of some

    trends in Twentie h Cen ury Music (1958).

    t - t

    KEY WORDS: choro, Guarnieri, pantonality.

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    SUMRIO

    1 O CHORO ...............................................................................................................8 1.1 ORIGEM E CARACTERSTICAS .................................................................................8 1.2 O PIANO NO CHORO............................................................................................. 10 1.3 GUARNIERI, O CHORO E O CHORO TORTURADO ................................................... 11

    2 REFERENCIAL TERICO ......................................................................................13 2.1 O GNERO CHORO ............................................................................................... 13 2.2 A PANTONALIDADE .............................................................................................. 18

    3 ANLISE DO CHORO TORTURADO ......................................................................26 3.1 DESCRIO ANALTICA ........................................................................................ 26 3.2 APLICAO DO REFERENCIAL TERICO NA ANLISE ............................................. 38

    3.2.1 Aproximaes do choro ...............................................................................38 3.2.2 Afastamentos do choro................................................................................45

    CONSIDERAES FINAIS.......................................................................................55

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS ...........................................................................58

    ANEXOS ..................................................................................................................61

  • 6

    INTRODUO

    Em meus primeiros contatos com o Choro Torturado no foi possvel perceber uma

    relao clara da obra com o gnero choro. Porm, atravs do estudo da obra, de uma escuta

    mais apurada e de leituras sobre o gnero foi possvel perceber a presena discreta, mas

    inconfundvel, de elementos prprios do choro. No entanto, estes elementos pareciam estar

    imersos num contexto que, de alguma maneira, afastava-se do prprio choro. Na inteno

    de entender quais eram esses recursos que no permitiam que a pea fosse compreendida

    como choro primeira escuta, mas que ao mesmo tempo no eram suficientemente fortes

    para negar essa natureza, foi que nasceu este trabalho.

    O prvio conhecimento do idioma composicional de Guarnieri, aliado leitura,

    audio e execuo do Choro Torturado, levaram-me a relacionar seus procedimentos

    composicionais com os conceitos pantonais propostos por Rudolph Reti em seu livro Tonality,

    Atonality, Pantonality A Study of some trends in Twentie h Century Music (1958),

    especialmente no que se referia s escolhas harmnicas feitas pelo compositor. Por isso, o

    referencial terico escolhido refere-se pantonalidade que, neste trabalho, utilizada

    predominantemente no campo da harmonia.

    t -

    O objetivo desta pesquisa investigar o nvel de afastamento composicional de

    Camargo Guarnieri na pea Choro Torturado para piano em relao ao paradigma de

    definio de choro vigente em sua poca. O termo afastamento aqui se refere queles

    recursos utilizados que no so prprios da linguagem musical do choro. O trabalho justifica-

    se por consistir na anlise de uma obra representante da msica erudita nacional na qual um

    gnero genuinamente popular brasileiro utilizado como alicerce composicional.

  • 7

    O trabalho est estruturado em quatro etapas:

    1. Identificao dos elementos que definem a linguagem musical do choro como gnero

    nos mbitos da melodia, harmonia, ritmo, forma, baixaria, instrumentao e

    improvisao;

    2. Identificao da constncia de tais elementos na obra Choro Tor urado de Guarnieri; t

    3. Relao entre os recursos composicionais de Guarnieri no Choro Torturado e os

    elementos caractersticos do choro para verificar o nvel de afastamento

    composicional existente entre a obra e o gnero no qual est baseada e,

    4. Anlise desses afastamentos sob a tica de Rudolph Reti (1958) acerca do conceito

    de pantonalidade.

  • 8

    1 O CHORO

    1.1 ORIGEM E CARACTERSTICAS

    O choro, por volta de 1870, era entendido como a maneira prpria pela qual os

    msicos cariocas interpretavam os gneros danantes procedentes da Europa. At a dcada

    de 1920 houve vrias aplicaes para o termo, o qual se referia tanto ao grupo instrumental

    quanto ao seu repertrio e s festas onde era executado. As caractersticas composicionais

    que definiam uma pea como choro ainda no estavam estabelecidas e as composies

    eram quase sempre subintituladas valsa, tango, polca, maxixe, mas nunca choro. Com o

    decorrer do tempo, as composies, arranjos e execues dos chores1 pioneiros acabariam

    por fixar determinadas frmulas que vieram definir o estilo choro.

    Na dcada de 1910 Pixinguinha formalizou e amalgamou todas essas frmulas em

    suas obras e, a partir de ento, o choro comeou a ser encarado como uma forma de

    composio, estabelecendo-se definitivamente como gnero (CAZES, 1998, p. 19). O

    repertrio do choro passou a incluir tanto o prprio choro quanto as antigas danas

    europias polca, valsa, schottisch, minueto, quadrilha assim como os novos gneros que

    foram se estabelecendo a partir das misturas de danas europias e africanas maxixe,

    tango brasileiro, samba, etc.

    Luis Filipe de Lima resume a trajetria do choro:

    voz corrente entre msicos e estudiosos da msica brasileira que o choro uma maneira de tocar, antes de constituir um gnero musical em si. [...] Ao interpretar de maneira prpria todo este repertrio de msica ligeira, os msicos cariocas criam o choro, por volta de 1870. Num primeiro momento, o termo serve para designar o sotaque carioca emprestado ao repertrio de danas europias, referindo-se, ao mesmo tempo, formao instrumental que tinha por base os violes, o cavaquinho e comumente uma flauta (ou outro instrumento de sopro) solista, dedicada a interpretar este tipo de repertrio. Em pouco tempo, o choro viria a constituir um gnero prprio, porm sempre mutante e apto a incorporar as influncias mais diversas - uma vez que guarda em si seu carter de maneira de tocar (LIMA, 2001, http://www.samba-choro.com.br/debates).