África no Brasil: mapa de uma área em expansão

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  • frica no Brasil: mapa de umarea em expanso

    Beatriz Gallotti Mamigonian

    Pouco se conhece sobre a experincia dos homens, mulheres e crian-as das diferentes etnias africanas que colonizaram o Brasil por mais de 300anos. Apesar do reconhecimento de genricas heranas africanas namestiagem cultural brasileira, a imagem dos africanos de primeira gera-o se diluiu rapidamente na memria popular ao longo do sculo XX,depois que a lembrana de sua presena viva morreu com aqueles que ti-nham conhecido os ltimos africanos sobreviventes, trazidos ainda crian-as nos ltimos anos do trfico de escravos. Hoje, renovado interesse porparte dos descendentes de africanos nas Amricas e indita colaborao entreafricanistas e especialistas nas populaes negras nas Amricas e em outroscontinentes apontam para uma redescoberta da frica espalhada pelomundo. O Brasil, tendo recebido aproximadamente um tero de todos osescravos trazidos para as Amricas durante os trs sculos de durao dotrfico atlntico, terreno importante desta busca.1

    Com efeito, nos ltimos dez anos, a colaborao entre historiadoressediados em diferentes regies deu fora s investigaes detalhadas sobreas relaes comerciais das regies africanas com outros continentes, sobreo volume, direo e funcionamento do trfico de escravos atravs do Atln-tico e na direo do Mediterrneo, e especialmente sobre a experincia daspessoas envolvidas nestes intercmbios comerciais e culturais, com focoespecial, naturalmente, sobre as pessoas escravizadas levadas como merca-doria para outras partes do mundo. A experincia dos africanos na dispora o objeto central e unificador dos interesses dispersos e multidisciplinaresengajados nesta ampla investigao.2 Envolvendo metodologias diversas,das pesquisas demogrficas quantitativas microhistrica reconstituiode trajetrias de vida, este campo de estudos j tem algumas questes eachados comuns. Tem tambm muitas lacunas. Este trabalho pretendediscutir o caminho percorrido e as perspectivas da histria da dispora afri-

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    cana no Brasil, os autores e obras que lhe servem de referncia, as fontes esuas limitaes e a potencial contribuio desta rea para a historiografiabrasileira.

    Os africanos na historiografia brasileira

    Os estudos pioneiros sobre a experincia africana no Brasil perten-cem ao campo da antropologia e tm no livro Os Africanos no Brasil, domdico Nina Rodrigues, um de seus marcos iniciais.3 Resultado de pesquisaconduzida por Nina Rodrigues entre africanos remanescentes na Bahia dofim do sculo XIX, mas s publicada, postumamente, em 1932, o livrotinha objetivos claros: identificar os traos fsicos e culturais africanos quehaviam se infiltrado na raa brasileira durante os sculos anteriores, re-sultante da macia importao de africanos pelo trfico atlntico e de in-tensa miscigenao. A reflexo do mdico era inspirada pela ideologia ra-cista que atribua miscigenao os males e entraves ao desenvolvimentodo pas, porque a civilizao estava associada a uma populao de corbranca e hbitos europeus. O estudo cientfico dos costumes indesejveispermitiria avaliar quanto tempo sua influncia marcaria negativamente acultura brasileira.4 O trabalhoso inventrio de informaes e informantesacerca dos africanos compilado por Nina Rodrigues provou ser muito maisvalioso do que suas interpretaes e prognsticos e serviu de inspirao parauma gerao subseqente de investigadores.

    Nina Rodrigues traou amplo quadro da presena africana no Brasilao discutir suas regies de procedncia conforme a distribuio do trficode escravos, ao inventariar as lnguas e grupos tnicos africanos existentesno Brasil e ao reconhecer a complexidade de suas manifestaes artsticas ereligiosas. O mdico tambm abordou a presena de muulmanos entre osescravos baianos e seu engajamento na resistncia escravido nas clebresrevoltas que culminaram em 1835 com o levante dos mals em Salvador. NinaRodrigues atribua aos africanos da Costa Ocidental iorubs, jejes, tapas,hausss superioridade cultural em relao aos bantos, provenientes da fricaCentro-Ocidental, que eram maioria no centro-sul do Brasil.

    As investigaes de Nina Rodrigues abriram caminho para outrosautores explorarem as manifestaes culturais de origem africana no Bra-

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    sil. Na segunda gerao estes estudos tiveram motivao diferente, uma vezque as cincias sociais no Brasil rejeitaram a viso negativa corrente damiscigenao racial e passaram a v-la, ao contrrio, como ponto funda-mental da identidade brasileira. A transformao operada no pensamentosocial brasileiro pelo relativismo cultural trazido da antropologia america-na por Gilberto Freyre foi crucial para a valorizao da herana africanana cultura brasileira. A nova perspectiva contribuiu para o nascimento deum ramo de estudos afro-brasileiros, que foi bastante frtil nos anos 1940e 1950. Os trabalhos, em geral de cunho etnogrfico, tm explcita con-centrao em temas relativos s prticas religiosas afro-brasileiras, conside-radas as remanescentes mais vivas da cultura africana. Aos poucos, o inte-resse pelos africanos de primeira gerao se transferiu para os negros emgeral e se diluiu em tais investigaes de uma cultura negra genrica.5

    Nas dcadas de 1950 e 1960, pesquisa e intenso debate acerca dasrelaes raciais no Brasil marcou o ramo dos estudos afro-brasileiros: trata-va-se de contestar a idia difundida a partir da obra de Gilberto Freyre, deque o Brasil constitua uma democracia racial, porque a miscigenaoteria prevenido o racismo americana. Pesquisa sociolgica rigorosa de-monstrou os mecanismos sutis da discriminao racial no pas e alimen-tou pesquisas histricas que procuravam dissipar as imagens de uma escravi-do benevolente ao mostrar a violncia envolvida na relao senhor-escravoe na manuteno do sistema escravista.6 Foi atravs desta preocupao comas relaes raciais e com o objetivo de explicar o funcionamento do siste-ma escravista que a experincia das populaes de origem africana passoua ser explorada por historiadores no Brasil.7

    Depois de uma gerao de historiadores engajada em desmontar o mitoda escravido benevolente, atravs de estudos sobre a violncia no sistemae sobre a resistncia escrava, sobretudo violenta, assumiu o debate uma novagerao preocupada com o cotidiano dos escravos e com a variedade derelaes dentro do sistema escravista. A nova perspectiva da escravido seabre com pesquisa emprica intensiva em materiais manuscritos antesinexplorados, como inventrios post-mortem, processos-crime, aes de li-berdade, correspondncia policial, alm de uma leitura a contrapelo derelatos de viajantes e de documentos oficiais.8 A pesquisa revela com riquezade detalhes o funcionamento das relaes no sistema escravista e a vida dos

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    escravos propriamente. Enquanto antes os escravos eram vistos como umamassa uniforme, agora percebe-se uma hierarquia entre escravos, e oentrecruzar de identidades, baseadas em gnero, idade, ocupao (escra-vos rurais, urbanos, domsticos, artesos, ganhadores etc.) e origem (afri-canos de diversas etnias ou nascidos no Brasil). Assim, na busca da diversi-dade das experincias histricas da populao escravizada, os historiadoreschegaram aos africanos e sua experincia distinta, para a qual Nina Ro-drigues havia apontado quase um sculo atrs.

    Caminhos delimitados de uma busca

    Apesar da existncia de alguns marcos na historiografia sobre afri-canos no Brasil, a maior parte das referncias experincia africana estdispersa na literatura que lida com os vrios aspectos da escravido: traba-lho, famlia, resistncia, religio etc. Graas ao intercmbio entre historia-dores brasileiros e especialistas na histria dos africanos em outras regiesda dispora, a rea de estudos propriamente africanistas no Brasil comeaa se constituir em rea destacada da grande rea de estudos da escravido.Isso porque a prpria comparao das experincias dos africanos nas diver-sas regies fora da frica suscita debates prprios, relacionados com a ex-perincia escrava, mas no centrados apenas nela.9

    O objeto de estudos tem imposto um recorte temtico e uma meto-dologia prprios. A busca pela experincia propriamente africana a ten-tativa de distingui-la da experincia dos seus descendentes nascidos no lo-cal onde se fixaram, dos colonizadores europeus e dos nativos, e mais tardedos imigrantes. Isso significa centrar-se somente nos africanos de primeiragerao: seguir seus passos relutantes, seu desenraizamento forado, sua res-socializao em terras estrangeiras. Implica estudar pelo perodo de umavida apenas as sucessivas levas de homens, mulheres e crianas trazidos pelotrfico transatlntico desde o sculo XVI at meados do sculo XIX. Almdisso, implica tentar descobrir as marcas e memrias deixadas por esta pri-meira gerao nas geraes subseqentes. A busca segue em dois nveis: umcoletivo, agregado, o das relaes comerciais, intercmbios diplomticos eculturais e das rotas do trfico de escravos; outro individual, microscpi-co, que procura por pessoas, ou pequenos grupos. Isso porque cumpre sem-

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    pre identificar os africanos, seja em trajetrias individuais ou coletivas.Cumpre lig-los pelo menos ao continente, mas idealmente identificar suaregio de origem, seno cidade, vilarejo e etnia. Ainda que esta propostasuscite alguns problemas tericos e metodolgicos, o conjunto das pesquisasrecentes tem mostrado sua viabilidade.

    Um roteiro da investigao da histria da experincia africana no Brasilcomea necessariamente pelas rotas do trfico de escravos. De onde vinhamos escravos africanos que para c foram trazidos entre os sculos XVI e XIX?Quais as condies de sua escravizao? De que portos embarcaram? Qualsua experincia na travessia atlntica? Onde desembarcaram e quais as ro-tas terrestres que fizeram at chegar ao local onde se encontravam traba-lhando? Essas questes foram abordadas recent