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Ano 4 (2018), n 1, 635-668

ALEXY, DWORKIN E OS PODERES

ATRIBUDOS AO STF

Helen Correa Solis Neves1

Carla Cristina de Sousa2

Resumo: Em tempos de protagonismo judicial e de decises

construdas atravs da imensurada utilizao de princpios, co-

mea-se a questionar a sobriedade e a confiabilidade do Judici-

rio brasileiro. O Supremo Tribunal Federal, em especial, diutur-

namente tem sido palco das mais variadas decises de cunho dis-

cricionrio, cujo resultado, no raras vezes, provoca as mais di-

versas crticas e discusses. As teorias de Ronald Dworkin e de

Robert Alexy, nesse contexto, ganham destaque ao argumento

de que uma daria maior liberdade de deciso quele ente judi-

cante do que outra. A necessidade de se impor limites atividade

jurisdicional citada tornou imperioso o estudo de tal situao a

fim de que uma soluo adequada seja alcanada. Deste modo o

presente artigo objetiva analisar o alcance do poder conferido ao

STF pelas teorias de Dowrkin e Alexy, comparando-as de modo

a averiguar se realmente haveria uma, dentre estas, capaz de con-

ter e resolver o preocupante cenrio acima apontado. Para o de-

senvolvimento deste estudo utilizou-se o mtodo dedutivo-bibli-

ogrfico analisando-se julgados e material terico em geral.

Com a pesquisa, semelhanas e diferenas foram vislumbradas,

concluindo-se, ao final, que a teoria de Alexy confere maior li-

berdade decisria ao julgador.

ALEXY, DWORKIN AND THE POWERS ASSIGNED TO

STF

1 Professora Doutoranda do Centro Universitrio de Patos de Minas. 2 Graduanda em Direito pelo Centro Universitrio de Patos de Minas.

_636________RJLB, Ano 4 (2018), n 1

Abstract: In times of judicial protagonism and decisions built

through the immense use of principles, we begin to question the

sobriety and reliability of the Brazilian Judiciary. In particular,

the Federal Supreme Court has been the scene of a wide range

of discretionary decisions, the outcome of which, not infre-

quently, provokes the most diverse criticism and discussion. The

theories of Ronald Dworkin and Robert Alexy in this context

gain prominence to the argument that one would give greater

freedom of decision to that adjudicating entity than another. The

need to impose limits on the aforementioned judicial activity

made it imperative to study such a situation in order that an ad-

equate solution could be reached. In this way the present article

aims to analyze the scope of the power conferred on the STF by

the theories of Dowrkin and Alexy, comparing them in order to

see if one of them could actually contain and solve the worrying

scenario mentioned above. For the development of this study we

used the deductive-bibliographic method, analyzing judgments

and theoretical material in general. With the research, similari-

ties and differences were glimpsed, concluding, in the end, that

Alexy's theory confers more decisive freedom on the judge.

Palavras-Chave: Ronald Dworkin. Robert Alexy. Supremo Tri-

bunal Federal. Poder. Discricionariedade.

Keywords: Ronald Dworkin. Robert Alexy. Federal Court of

Justice. Power. Discretionary.

INTRODUO

Supremo Tribunal Federal, Corte mxima do Poder

Judicirio brasileiro, dada a sua posio de superio-

ridade na escala jurisdicional, sempre foi tido como O

RJLB, Ano 4 (2018), n 1________637_

parmetro para os demais tribunais, sendo os seus entendimen-

tos uma referncia nacional.

Em razo disso, acreditava-se que as decises por tal r-

go emanadas seriam balizas para a adequada aplicao e efeti-

vao do Direito, tendo essa expectativa, entretanto, se esvado

com o passar do tempo.

Com efeito, nos ltimos anos, uma srie de decises pro-

feridas pelo Poder Judicirio, notadamente atravs de seu i. r-

go mximo, tm sido questionadas pela comunidade jurdica e

pela sociedade, ensejando controvertidos posicionamentos, a es-

tremecer parte da confiabilidade e credibilidade outrora vislum-

bradas.

A existncia de tal situao muito se deve superao do

positivismo jurdico e consequente incorporao, ao Direito,

de inmeras diretrizes de cunho axiolgico/valorativo que, hoje,

parecem conferir um poder decisrio assaz abrangente ao julga-

dor.

De fato, no Brasil, possvel vislumbrar a utilizao

imoderada de princpios no seio das decises judiciais, estando

os juzes e tribunais a valerem-se destes como meio para delibe-

rar o caso concreto de acordo com a sua conscincia/vontade.

O uso indiscriminado desta espcie de norma tem dado

azo discricionariedade no mbito do Judicirio, ferido os ideais

democrticos da Constituio da Repblica e obstado a necess-

ria aplicao de alguns direitos fundamentais dos cidados no

feito sob anlise.

Robert Alexy, em meio a esse contexto, tem sua teoria

encartada pelos julgadores para justificar as decises prolatadas,

argumentando-se em suma a existncia de ponderao.

A crtica firmada em desfavor deste fenmeno inculcou

dvida quanto ao alcance do poder dado ao Supremo Tribunal

Federal pela teoria alexyana, culminando ainda na defesa feita

por alguns juristas de que os ideais de Dworkin dariam menos

liberdade ao Judicirio e que, portanto, deveriam ser utilizados

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em detrimento daquela.

O questionamento levantado tornou imperioso o desen-

volvimento do presente artigo que, nesse sentido, visa a expor as

ideias centrais das teorias de Robert Alexy e de Ronald Dwor-

kin, analisando o alcance do poder conferido ao STF por tais

tericos para, ao final, avaliar se uma atribuiria maior liberdade

de deciso do que a outra ao Judicirio.

1 RONALD DWORKIN

Ronald Myles Dworkin foi um filsofo do Direito norte-

americano dos sculos XX e XXI. Faleceu na Cidade de Londres

em 14 de fevereiro de 2013 e teve como principal obra o livro

Laws Empire, publicado em 1986 na Cidade de Londres/In-

glaterra, sendo posteriormente traduzido para o portugus como

Imprio do Direito (1999).

Nesta obra o autor solidifica as bases de sua teoria, apre-

sentando a necessidade de se ter um direito calcado na integri-

dade. A teoria de Dworkin perpassa ainda pela ideia de se levar

os direitos a srio impedindo, com isso, que as normas positiva-

das sejam tidas e tratadas como meros enunciados.

A necessidade da efetivao dos direitos e de sua aplica-

o sria e coerente no caso concreto revelou para Dworkin a

imperiosidade de tratar dos princpios jurdicos e, notadamente,

da atual forma de utilizao destes nas decises judiciais.

Afinal, o papel hoje desempenhado pelos princpios na

definio dos direitos inegvel, cada vez mais os juzes e os

tribunais apelam a essa espcie normativa na soluo de casos

judiciais (FERRI, MARTINS, 2006, p. 266).

Para Dworkin, princpios so um padro que deve ser

observado, no porque v promover ou assegurar uma situao

econmica, poltica ou social considerada desejvel, mas porque

uma exigncia de justia ou equidade ou alguma outra dimen-

so da moralidade (DWORKIN, 2002, p. 36).

RJLB, Ano 4 (2018), n 1________639_

Segundo ele, a diferena entre regras e princpios seria

lgica.

As regras so aplicveis maneira do tudo-ou-nada.

Dados os fatos que uma regra estipula, ento ou a regra vlida,

e neste caso a resposta que ela fornece deve ser aceita, ou no

vlida, e neste caso em nada contribui para a deciso (DWOR-

KIN, 2002, p. 39).

Ou seja, sempre que uma situao jurdica estiver pre-

vista numa regra vlida, deve a mesma ser aplicada, o que, en-

tretanto, no ocorre com os princpios.

Estes, diferentemente das regras, ainda que apresentem

enunciado compatvel com a situao analisada no tm de ser

necessariamente aplicados. Isso se d pelo fato de os princpios

possurem uma dimenso que as regras no tm, qual seja, a do

peso ou da importncia.

Para Dworkin, [os princpios] inclinam a deciso em

uma direo, embora de maneira no conclusiva. E sobrevivem

intactos quando no prevalecem (DWORKIN, 2002, p.57).

Nesse sentido, quando h conflito entre princpios o que ir de-

terminar a escolha sobre qual deles utilizar ser o peso ou rele-

vncia que cada um deles possui no caso sob anlise.

No conflito entre regras, lado outro, tem-se que uma dar

lugar outra, dando-se preferncia regra promulgada pela au-

toridade de grau superior, regra promulgada mais recente-

mente, regra mais especfica ou outra coisa desse gnero

(DWORKIN, 2002, p. 43).

Isso porque, como dito alhures, as regras so aplicadas

no modo tudo-ou-nada, enquanto que os princpios so utili-

zados naqueles casos difceis, cuja soluo exige uma maior ati-

vidade criativa dos juzes e tribunais.

Para Dworkin os princpios devem receber o mesmo tra-

tamento que destinado s regras, [...] como se normas fossem.

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