ALEXY, Robert. Teoria Dos Direitos Fundamentais

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Text of ALEXY, Robert. Teoria Dos Direitos Fundamentais

Obras da Coleo.

teoria & direito pblico -----

coleo dirigida porVIRG1UO AFONSO DA SILVA JEAN PAUL

C. VEIGA

DA ROCHA

Faculdade de Direito da Universidade de So Paulo

Ncleo "Direito & Democracia", Cebrap

ROBERT ALEXY

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I

c,~o ~I~a~;;;\REGISTRO

r:;;(,~4obd---

1. ROBERT MEXY -

Teoria dos Direitos Fundamentais A Vinculao dos Particulares a Direitos Inter,pretao Constitucional do Direito

2. WILSON STEINMETZ -

Fundamentais3. VIRGluo 4. VIRGluo AFONSO DA SILVA(org.) AFONSO DA SILVASAMPAIO -

TEORIA DOSDIREITOS FUNDAMENTAIS

A Constitucionalizao A Medida Provisria no

5. MARCO AUlilluo

Presidencialismo Brasilerio traduo de

. ,;, .

.

VIRGLIO AFONSO DA SILVA

2" edio

UNIFACS

* www.teoriaedireitopublico.com.br

- - MALHEIROS ;;;;;EDITORES

Centro Cullural-Sisl. Bbliolecas

Doao

Nome

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d TE ORIAD . dOS DIREITdOS ~NDAMENTAlS

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d tI d o e ar ltrane a e ou e mero eClSlOOlsmo.A base aqui apresen.tada fomec~ argumentao no mbito dos direitos fundamentais uma certa establhdade e, por melO das regras e formas da argumenta prtka geral e da argumentao jurdica, a argumentao no m~it~ dos drreltos fundamentals que ocorre sobre essa base racionalmente estruturada.!88

A insegurana quanto aos resultados do discurso no mbito dos direitos fundmnentais leva necessidade de decises dotadas de auto~da?e. Se a maioria parlmnentar no deve controlar a si mesma, o que Slgmf1cana ser JUIZ em causa prpria,189 sobra apenas a alternativa de alguma forma de jurisdio constitucional. O fato de um tribunal constitucional no apenas argumentar, mas tambm decidir, nada tem de irracional. De forma geral, vale a idia de que a razo prtica pode ser realizada apenas no mbito de um sistema jurdico que vincule, de forma raCIOnal, argumentao e deciso.!90 A luz desse reflexo a instituc~onalizao de uma jurisdio constitucional cujas decise~ sejmn passlvels e carentes de fundmnentao e crtica em um discurso racional no mbito dos direitos fundmnentais algo inteirmnente racional.

POSFCIOI

(2002)

t

A tese central deste livro a de que os direit6s fundmnentais, independentemente de sua formulao mais ou menos precisa, tm a natureza de princpios e so mandamentos de otimizao. Desde o seu surgimento, em 1985, a tese da otimizao foi alvo de inmeras crticas. Algumas delas dizem respeito a problemas gerais da teoria das normas. I A maioria, no entanto, gira em tomo da questo sobre se a tese da otimizao conduz a um modelo adequado dos direitos fundamentais. Essas crticas transitmn entre dois plos ou linhas.

I - INSUFICINCIA

E DEMASIA

A primeira linha crtica alega que o modelo de princpios baseado na tese da otimizao retira fora dos direitos fundmnentais. Essa objeo foi formulada com toda agudeza por Habermas: "Se princpios estabelecem valores que devem ser realizados de forma tima, e se a . medida da. satisfapo desse mandamento de otimizao no pode ser obtida a partir da prpria norma, ento, a aplicao desses princpios no mbito do faticamente possvel exige uma quantificao orientada por finalidades".' Essa "quantificao orientada por finalidades" implicaria a possibilidade de que "direitos individuais sejam, em alguns casos, sacrifi1. Cf., a esse respeito Robert Alexy, "Zue Struktur der Rechtsprinzipien", in Bemd SchllcherlPeter KollerlBernd.Christian Funk (orgs.), Regeln, Prinzipien und Elemente im System des Rechts, Wien; Verlag l>sterreich, 2000, pp. 31 e ss. 2. Jrgen Habermas, Faktizitt und Geltung, 4- ed., Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1994, p. 310.

I,;!: :188. Cf. Robert Alexy, !heorie der juristischen Argumentation, pp. 345 e " . ,J89 .. t. Ronald Dworkm, Taking Righls Seriously, pp. 142-143. 190. Cf. Martm Kriele, Recht und praktische Vernun]t, pp. 40 e 55.

55.

POSFCIO (2002)576 TEORlA DOS DIREITOS FUl'l'DAMENTAIS

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cados em favor de finalidades coletivas".' Com isso, no entanto os direitos fundamentais perderiam a sua solidez, que s pode ser g~anl1da por meIO de uma estrutura estritamente deontolgica, ou seja, pela estrutura de regras. O carter principiolgico derrubaria um "muro protetor": "Se, nos casos de coliso, todas as razes puderem adotar o carter de argumentos definidores de finalidades, derruba-se ento ~q~ele muro protetor q~e uma compreenso deontolgica das normas Jundlcas mtroduz no discurso jurdico".' E O sopesamento de ?ireitos fundamentais no ameaaria apenas a sua fora em geral. Ele Impllcana tambm o risco de que os direitos fundamentais fossem vtimas de "juzos irracionais" 5 pois no ha . h na ?en um parametro raCIOnal para esse sopesamento: "como faltam parame.trosraclonaIs para tanto, o sopesamento reaJizado ou de forma arbItrrIa ou mefletida, baseado em standards e hierarquias sedimentados"." Em resumo: em primeiro lugar, os direitos fundamentais s? fl~xibiliza~os, ao serem transformados em mandamentos de otinnzaao; depOIS, ficam ameaados de desaparecer no turbilho do sopesamento irracional.A' ' ~

mizao, sem se fixar, no entanto, em um contedo determinado; elas so - necessariamente - passveis de serem sopesadas".' BockenfOrde admite que csse carter principiolgico "adequado para reproduzir O conceito dogmtico bsico dos direitos fundamentais, porque capaz de abarcar todas as funes desses direitos de forma abrangente e, de maneira conversa, permite que todas essas funes se desenvolvam de forma varivel a partir dele".' Mas isso teria amplas conseqncias que, no fim, seriam inaceitveis. O papel dos direitos fundamentais no sistema jurdico seria alterado profundamente. Enquanto os direitos fundamentais clssicos estavam limitados a uma parte do sistema jurdie;p.- a relao entre Estado e cidado -, os direitos f\lndamentais enqultnto princpios produziriam seus efeitos por todo o sistema jurdico. Haveria um efeito irradiador em todos os ramos do direito, O que necessariamente conduzira a uma produo de efeitos dos direitos fundamentais em face de terceiros (ou efeitos horizontais), bem como a contedos de direitos fundamentais como proteo, segurana sociaJ e organizao e procedimento, os quais demandariam uma ao positiva do Estado e no se limitariam - como os direitos clssicos de liberdade - a uma exigncia de absteno estat~9 Dessa forma, os direitos fundamentais transformar-se-iam em "princpios supremos da ordem jurdica como um todo" .'0 Enquanto tais, eles j conteriam tudo em si mesmos. Necessria seria apenas uma concretizao por meio de um sopesamento: "No nvel das normas-princpios com tendncia otirnizadora, a ordem jurdica j est inteiramente contida na constituio. Ela apenas carece de uma concretizao" li Isso corresponderia exatamente quilo que Forsthoff sarcasticamente chamou de "constituio como genoma jurdico (...) do qual tudo deriva, do Cdigo PenaJ at a lei sobre a fabricao de termme7, Emst-Wolfgang B6ckenfrde, "Gnmdrcchte aIs Grondsatznonnen: Zur gegenwartigen Lage der Grundrechtsdogmatik", in Emst-Wolfgang Bckenfrde, Staat, Verfassung, Demokratie, Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1991, p. 185.

possvel.:hamar a ~rtica de Habermas de alerta para o perigo de urna msuficlencla de dIreItos f~ndamentais. O seu oposto, o perigo de um exces~o desses dIreItos, e o cerne da crtica de BockenfOrde. O ponto de partIda de BockenfOrde a distino entre direitos fundame~ta.ls como direitos clssicos de defesa do cidado contra o Estado e direItos fundamentais como normas de princpios. Direitos fundamentaIS c?mo normas de princpios - ou, como Bockenforde as denomma, apOIando-se na terminologia do TribunaJ Constitucional FederaJ co~o "normas objetivas de princpios" -.correspondem "exatament~ ~qU1lo" ~ue na teoria dos princpios denominado "mandamento de ol1rmzaao'" '. "Normas _..... .. .,........ pnncIplOs sao mandamentos de ol1rmZaao, que pode,:, se~ sahsfeltos em graus diversos, e cuja medida devida de sal1sfaao n~o depende ,apenas das p,ossibilidades fticas, mas tambm d~s pOSSIbilIdades JundIcas. Elas tem uma tendncia normativa otiW r 3. Jrg~n. a~ennas."Replik auf Beitrage H zu einern Symposion der Cardozo L..a. SSCh. oO: il 10 Jrgen Habermas, Die Einbeziehung des Anderen Frankfurt am M amo li hr amp, 1996, p. 368. ' k

~ . 4. Jr~en'Habennas, Faktizittit und Geltung, p. 315. -,nl)\o::S.(lIdem[ip.316. '. 6. Idem, pp. 315-316.

8. Idem. 9. Idem, pp. 168 e ss. lO. Idem, p. 188. lI. Idem, p. 189.

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TEORIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

POSFCIO (2002)

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tros para febre"." A compreenso dos direitos fundamentais como mandamentos de otimizao conduziri, assim, a um modelo de constituio com conseqncias fatais. O legislador parlamentar perderia toda a sua autonomia. Sua atividade esgotar-se-ia na mera constatao daquilo que j foi decidido pela constituio. O processo poltico democrtico perderia consideravelmente em importncia," e no seria mais possvel deter a "transio do Estado legislativo parlamentar para um Estado judicirio constitucional":" "Se os direitos fundamentais expressam normas de princpios com tendncia otimizadora, o tribunal constitucional invocado para dotar de validade o seu con-

tedo normativo" .15Por isso, segundo BockenfOrde, h apenas duas possibilidades: decidir-se por direitos fundamentais como princpios e, com isso, por um Estado judicirio, ou decidir-se pela limitao dos direitos fundamentais sua clssica funo como direitos de defesa e, com isso, por um Estado legislativo parlamentar." Neste ponto, necessrio indagar se de fato existem apenas essas duas possibilidades.

II -

MOWURA

E FUNDAMENTO

tante distintas entre si. Nesse ponto, teoria dos princpios..atribuido o ~onceito oposto, isto , ~ c.onceito ~~ ordem-fundamento.