Algumas considera§µes sobre a articula§£o na flauta transversal[1]

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Algumas consideraes sobre a articulao na flauta transversalPor : Raul Costa dAvila Universidade Federal de Pelotas PPGMUS UFBa / 2007 Tirocnio Docente costadavila@gmail.com

ALGUMAS CONSIDERAES SOBRE A ARTICULAO NA FLAUTA TRANSVERSAL

Raul Costa dAvila / UFPEL

SUMRIO

1. Expressividade e analogias linguagem falada ____________________ 3 2. Conceitos e a lngua como meio ___________________________________ 6 3. Observao do processo ___________________________________________ 7 4. A Utilizao dos Fonemas e Slabas ________________________________ 8 5. Os Golpes de Lngua, segundo Alts ______________________________ 135.1 O Golpe de Lngua Simples____________________________________________ 13 5.2 O Golpe de Lngua Lour ou Mezzo-Staccato __________________________ 16 5.3 O Golpe de Lngua Composto _________________________________________ 16 5.4 O Duplo Golpe de Lngua ______________________________________________ 18 5.5 O Triplo Golpe de Lngua _____________________________________________ 23

6. Os Golpes de Lngua Mistos ou Complexos _______________________ 26 7. Coda: a queixa mais comum e algumas propostas ________________ 28 8. Concluso ________________________________________________________ 29 9. Referncias Bibliogrficas ________________________________________ 30

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1. Expressividade e analogias linguagem faladaQuando se fala de articulao na msica considero fundamental associar o estudo deste elemento discursivo expressividade e, conseqentemente, interpretao. A importncia da articulao como elemento fraseolgico e expressivo salientada por Artaud (1996, p.110) que afirma: Il est important ds le debut dinsistir sur la valeur musicale du cup de langue, le premier lment de phras acquis pendant les tudes. [ importante desde o incio insistir sobre o valor musical do golpe de lngua, o primeiro elemento do fraseado adquirido durante os estudos]. Assim, naturalmente, se estabelece uma relao intrnseca entre articulao, fraseado, expresso musical e interpretao musical. A relao entre a linguagem falada e a linguagem dos sons musicais foi levada em considerao desde a Antigidade Grega, demonstrando uma identidade entre a articulao das slabas e a articulao, separao dos sons musicais. A este respeito, Balssa (1995, p.49) diz o seguinte:Durant lAntiquite Grecque, si les joueurs daulos empruntaient la voix des lments du langage articul pour construire des squences mlodiques qui imitaient lnonciation en syllabes, la voix son tour (dans des chants pour accompagner des danses), se rappropriait ces squences a-smantiques pour imiter linstrument. Lun des aspects les plus caractristiques de cette ancinne pratique tait donc larticulation. [Durante a Antigidade Grega, se os tocadores de aulos tomavam emprestados da voz os elementos da linguagem articulada para construir seqncias meldicas que imitava a enunciao em slabas, a voz, por sua vez (em canto para acompanhar danas), se reapropriava dessas seqncias no-semnticas para imitar instrumento. Um dos aspectos mais caractersticos dessa antiga prtica era ento a articulao]

Harnoncourt (1988, p. 49) tambm menciona o paralelo entre a linguagem falada e a linguagem musical, afirmando:Deparamos-nos com o problema da articulao principalmente na msica barroca, mais precisamente na msica de 1600 at 1800, pois esta fundamentalmente orientada pela linguagem. Os paralelos com a linguagem foram acentuados por todos os tericos daquele tempo, e a msica era freqentemente descrita como uma linguagem dos sons. Grosso modo, eu diria que a msica anterior a 1800 fala e a msica posterior a esta pinta.

Inmeros tratados e mtodos relatando experincias sobre a arte de tocar flauta foram escritos desde o perodo pr-barroco, fazendo sempre uma aproximao entre a articulao musical e a linguagem falada. Castellani e Durante (1987, p.119-122) citam diversos tratados e mtodos que abordam a articulao nos instrumentos de sopro, em particular a flauta transversal, desde o sculo XVI at o sculo XIX. Nesse trabalho, Sylvestro Ganassi Dal Fontego, atravs de sua obra Fontegara (Veneza, 1535), citado como o autor mais antigo de um tratado ensinando como tocar flauta.

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Assim, para os instrumentistas de sopro, muito curioso e, ao mesmo tempo, muito importante observar o fato de que a maneira como se toca uma conseqncia direta da maneira como se fala. Nenhum outro aspecto sobre o tocar mais afetado pela fala do que a articulao; assim, a conexo entre a lngua falada e a execuo instrumental torna-se a raiz de onde se originam as diferentes maneiras de expressar-se atravs do som, as quais, por sua vez, esto vinculadas diretamente lngua materna do instrumentista. Ainda que exista uma aproximao, muito importante esclarecer que esta analogia cessa na fonao. Tanto na fala quanto no canto, a articulao ocorre aps a fonao, isto , o som primeiro produzido pelas cordas vocais e depois recebe as caractersticas sonoras de acordo com a articulao desejada. Na flauta transversal o processo diferente, pois o som no produzido pelas cordas vocais, e sim pela vibrao do ar no bocal e a articulao ocorre simultaneamente com a formao do som. importante chamar ateno ainda que na articulao produzida por um instrumento de sopro deve ser observado no apenas o impulso disparado, mas tambm a sua parte sonora, fato que pode ser comparvel com a pronncia de uma slaba. Portanto, nessa comparao, o impulso inicial de um som de um instrumento de sopro corresponde ao ataque o qual corresponde a uma consoante, j o seu prolongamento corresponde a uma vogal. A este respeito Richter (1986, p.108-109) declara:Der Unterschied zwischen den Sprachlauten und den Lauten der Blsserautikulation lieget einfach darin, da letztere in Wirklichkeit lautlos sind. Dazu kommont, da sie w6ahrend des Blasens durchweg mit gespannten und (bis auf den Blasspalt) geschlosenen Arbeiten bernommen werden.(....) (A diferena entre os fonemas da fala e os fonemas da articulao da flauta reside simplesmente na razo de que os ltimos so, na realidade, mudos (silenciosos). Acrescente-se a isto que, na execuo, so formados com os lbios fechados e tensionados.

Assim, a articulao instrumental, na verdade, est mais prxima da articulao fonatria na modalidade denominada como murmrio. A este respeito, Castellani e Durante (1987, p.16-17) declaram:Lanalogia cessa comunque a questo ponto: nella fonazione ordinaria infatti la udibilit garantita dalla presenza del suono prodotto dalla vibrazione delle corde vocai, si che si protrebbe meglio parlare di um flusso daria che pu o meno caricarsi di sonorit, rispettivamente nelle vocali e nelle consonanti sonore nella prima ipotesi, nelle consonanti sorde nella seconda. Queste ultime per il vero hanno in isolamento una scarsissima udibilit, e si rendono chiaramente percettibili soltanto in nesso com vocale, cio en quanto modalit di attacco o di stacco di una vocale. La consonante [p] ad esempio appena percettibile se pronunciata per s solo; me diviene chiaramente udibile en sillabe come [pa] o [ap], dove essa costituisce per lappunto ka modalit di attacco e di sttacco rispettivamente della vocale [a]. Nel primo caso locclusione bilabiale si resolve bruscamente fino a raggiungere il grado diafragmmatico della vocale [a] (consonante esplosiva), nel secondo cao movendo dal grado diaframmatico della

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vocale [a], si realizza una brusca chiusura delle labbra com arresto della corrente daria (consonante implosiva). Relativamente alla articilazione strumentale si dovr in primo luogo notare che le vibrazioni glottidali vanno assolutamente escluse perch, amplificate da corpo dello strumento, si sommerebbero ai suoni che com questo si producono generando un effetto cacofonico: si postula dunque un flusso daria egressivo afono che pu incontrare nel suo percorso cavit di varia forma e volume (secondo la qualit della vocale scelta nella articolazione), e ostacoli di vario genere (secondo il tipo consonantico). Sotto questo profilo strette appaiono le analogie com quella particolare modalit fonatoria che va sotto il nome di bisbiglio, in cui il messaggio reso appena udibile grazie alla soppressione della sonorit, che si ottiene rinunciando alla vibrrazione delle corde vocali. [...] Considerati i cospicui tratti comuni tra bisbiglio e articolazione strumentale, si potr osservare una seconda sostanziale divergenza rispetto alla fonazione normale: in questa infatti si in presenza di una colonna daria sonorizzata che viene articolata,, mentre nellemissione strumentale si trata de aria afona articolata che entra in vibrazione, fazendosi suono in corrispondenza della imboccatura dello strumento; [...] 1.

A grande dificuldade no processo de articulao dos sons para os flautistas est em saber qual o melhor fonema ou slaba que deve ser utilizado para que a lngua exera sua funo da melhor forma possvel, resultando em uma articulao que soe de acordo com as necessidades expressivas do contexto musical e que no implique em esforo ao instrumentista. Evidentemente aqui que se originam as diferentes maneiras de expressar-se atravs do som, uma vez que a produo dos fonemas e slabas est vinculada, alm de lngua materna do flautista, s1

A analogia cessa, de qualquer modo, neste ponto: na fonao comum, de fato, a audibilidade garantida pela presena do som produzido pela vibrao das cordas vocais, o que se poderia dizer melhor de um fluxo de ar que pode ou no carregar-se de sonoridade, respectivamente nas vogais e nas consoantes sonoras, na primeira hiptese, nas consoantes surdas, na segunda. Estas ltimas, na verdade, tm, em isolamento, uma pouqussima audibilidade, e se f