Almanaque dos Quadrinhos

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Tudo sobre o mundo dos HQs

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  • 67Almanaque dos quadrinhos

    UM PSSARO? UM AV IO? NO ! O SUPERMAN!Em 1938, uma mudana drstica alterou o panorama da HQno planeta. O terreno estava frtil. A hora havia chegado eno de estranhar que seu aparecimento tenha se dadocom o estrpito de uma nave espacial caindo na Terra: sur-gira o Superman, personagem que mudou a fisionomiados quadrinhos para sempre. Aqui, a simplificao icnicade que temos falado no se deu pela via da sofisticao dotrabalho dos artistas, mas pela sensibilidade dos autoresJerry Siegel, o roteirista, e Joe Shuster, o desenhista, emperceberem a indigncia cultural, emocional, e econmicado tempo em que viviam. Em suas primeiras aventuras, ofilho de Krypton sacudiu sem d nem piedade o senhoriosovina acima dos telhados, para que devolvesse o dinheiroconseguido com a explorao dos inquilinos, para supremaalegria dos inadimplentes, a includos, com toda a proba-bilidade, os pais dos criadores adolescentes que serviramcomo antenas ao captarem o Zeitgeist, o esprito de seutempo no ar, e criaram o personagem.

    Os desenhos e textos eram bem mais toscos do queo que havia nos jornais, para os quais, alis, o Supermanfoi recusado diversas vezes, sob a alegao de que o pbli-co jamais acreditaria o suficiente num personagem topoderoso e to primrio. A alegao era ingnua aoextremo, como os fatos demonstraram. O trabalho eraimaturo, era outra alegao, esta nem to ingnua.Possivelmente, contudo, ter sido essa mesma imaturi-dade que caiu na veia do pblico: o personagem foi umimediato sucesso de vendas. Atingiu a imaginao popu-lar, gerando imitaes e todo o gnero de quadrinhos desuper-heris. Os donos da revista no notaram aimportncia do heri de imediato e demoraram uns qua-tro nmeros para voltar a p-lo na capa. O Superman seapoderou dela e no a largou mais.

    Quanto ao ttulo desse texto, naturalmente ele nasceucomo bordo de rdio, mdia qual a popularidade do per-sonagem logo o alou...

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    NASCE A INDSTRIA. A possibilidade de trabalho pagoa realizar fez com que diversos jovens criassem estdiosde produo de quadrinhos, e isso numa economiadeprimida, onde as aventuras em HQs funcionavamcomo vlvula de escape, inclusive para quem as gerava.Os dois jovens judeus, Siegel & Shuster, invocaram ummessias, e quando ele veio, alimentado que foi pelaleitura contumaz de folhetins de fico cientfica (asaspas se devem ao fato de que era muito tosco esse uni-verso bastante involudo com relao a Verne e Wells,na poca) que grassavam na imprensa popular, chegoucom capa e superpoderes. O caldo de cultura no qualnasceu Clark Kent, o Superman, confessamente deve-dor do folhetim Gladiator, de Philip Wylie. Todos os ini-ciadores dos quadrinhos de gibi amavam seu trabalho,ainda que fossem muito explorados pelas editoras emiddlemen. No havia devoluo dos originais e era rarohaver qualquer crdito para os realizadores, a no sernas assinaturas feitas no prprio desenho; e estas eram,muita vezes, apagadas. Isso sem falar na minsculafatia que cabia a esses criadores, dos proventos que seutrabalho gerava. No importava. Picotassem seus originais,fizessem o diabo. Eles estavam pagando suas contas eeram fs que comeavam a se apossar de sua mdia deforma impetuosa e frtil, exprimindo nem tanto umaviso original do mundo, mas algo que estava no ar.

    No s proliferaram personagens, como estdios dedesenhistas progressivamente profissionalizados aden-traram o mundo mal impresso dos gibis em quatrocores e padres grficos pedestres. O Superman e osoutros personagens que surgiram imediatamente nasua esteira foram de fato um surto de criatividade malpaga, tosca, que de tal forma aderiu ao imaginrio po-pular que se tornou o subgnero mais longevo dosquadrinhos norte-americanos: os quadrinhos de super-heris. Em pases culturalmente perifricos como onosso, tende-se a considerar que a nica produonorte-americana de HQs pertence a esse segmento, mash inmeros exemplos de outros gneros.

    A SOMBRA DE BATMAN. Em 1939, um ano aps oSuperman, surgiria outro plo da equao constitutivados superpoderosos. Entrava em cena, Batman, dese-nhado por Bob Kane e escrito por Bill Finger. Batmanera sombrio, sem poderes super-humanos e herdeiro doquadrinho e do romance policiais, tanto quanto oSuperman o era da fico cientfica tosca de seu tempo.Veremos que, durante as dcadas seguintes, os perfisde quase todos os super-heris foram modelados a par-tir de semelhanas ou diferenas com relao aSuperman e Batman. Entre esses dois extremos tpicos,dotados de forte valor icnico, nasceu a fisionomia detoda a gerao inicial de super-heris.

    Ambos os personagens, assinale-se, de propriedadede uma mesma editora, a National Periodical Publications,mais tarde DC Comics, por conta do sucesso da revistaDetective Comics, onde nasceu o homem-morcego.

    AUTORIZAO PARA MATAR. Superman e Batmanapresentam vrios aspectos constitutivos dos super-heris como um todo: habilidades fora do comum euma origem traumtica. Superman exilado interpla-netrio com uma srie de capacidades improvveis.Batman o sobrevivente do assassinato de seus pais nomeio da rua. Identidades secretas, motivaes centradasem episdios fundadores de mitologias pessoais, galeriade superinimigos exticos e de personagens coadju-vantes para o leitor se identificar enquanto o homem deao, ou o paladino da justia, ou o cruzado de capa, oinocente til e/ou o salvador da ptria, cuidava de con-sertar a situao. Nos seus momentos iniciais nenhumdos dois personagens pioneiros se furtava em matar.Batman chegou a dar tiro em magnata corrupto.

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