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Almas Mortas - Orelha de Livro · 2014. 12. 10. · Almas Mortas Nicolai Gógol Adaptação de Gian Danton. Índice Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo

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Text of Almas Mortas - Orelha de Livro · 2014. 12. 10. · Almas Mortas Nicolai Gógol Adaptação de Gian...

  • Almas Mortas

    Nicolai Gógol

    Adaptação de Gian Danton

  • Índice Capítulo 1Capítulo 2Capítulo 3Capítulo 4Capítulo 5Capítulo 6Capítulo 7Capítulo 8Capítulo 9Capítulo 10Capítulo 11

  • Capítulo 1

    Pelos portões de uma estalagem da pequena cidade de N entrou umacarruagem de molas, bastante vistosa daquelas em que costumam viajar homensabastados. Nela viajava um cavalheiro nem bonito nem feio, que teria passadodespercebido em qualquer lugar.

    Aliás, sua chegada passou totalmente despercebida, exceto por dois mujiquesnum bar em frente, que aliás, repararam mais na roda da carruagem que no ocupante:

    - E então o que acha daquela roda? Chegaria em Moscou? Ou não chegaria?- Em Moscou chegaria, mas em Kazan, nem pensar.- Não chegaria mesmo. – concordou o outro, e os dois se felicitaram por serem

    tão bons conhecedores de carruagens.Assim que a carruagem entrou no pátio, o viajante foi recebido por um criado de

    cabelos compridos, que acompanhou o cavaleiro até seu quarto.O alojamento era do tipo que todos vocês conhecem, de modo que eu não

    perderia uma única linha descrevendo-o. Não mesmo. Todos sabem que nessesalojamentos, em troca de dois rublos o viajante pode alugar um quarto com baratas dotamanho de ameixas observando-o durante a noite. Um quarto com uma porta barradapor um armário, dividindo-o do apartamento contíguo, onde se encontra um vizinhopacato, mas muito curioso, que costuma espiar o viajante pelos vãos. Uma estalagem,em fim, com longa fachada de dois pavimentos e andar debaixo sem reboco, deixandoà mostra tijolinhos vermelhos. O andar superior era pintado de amarelo e o andardebaixo tinha várias lojinhas nas quais se vendia grande variedade de quinquilharias.Como se vê, uma estalagem como qualquer outra, de modo que não vou perder meutempo ao descrevê-la para não aborrecer o leitor.

    O homem examinava o seu quarto – enquanto as baratas examinavam a pessoacom a qual iriam dividir o quarto – e suas coisas foram trazidas pelo cocheiro Selifan epelo criado Petruchka. Eram uma mala e um baú de mogno, um par de formas paracolocar botas e uma galinha assada embrulhada em papel azul.

    Todas as coisas foram deixadas no quarto e os criados foram se ajeitar. Ococheiro foi para as estrebarias e o criado Petruchka instalou-se num pequenovestíbulo para o qual trouxe seu capote e seu fedor.

    Assim que se viu instalado, nosso herói pôs-se a passear pelo salão comum. Eraum salão comum tão comum como qualquer outro e, para avançar a narrativa, nãovamos descrevê-lo. O leitor não precisa saber que as paredes eram pintadas a tinta aóleo, escurecidas em cima pela fumaça e ensebadas embaixo pelas costas dosviajantes. Tinha o mesmo teto fuliginoso que todos conhecem e o mesmo lustre cheio

  • de penduricalhos de vidro, os mesmos quadros ocupando a parede inteira, pintados aóleo. Em suma, um salão tão comum que não tenho a menor necessidade de descrevero que quer que seja, e é bom que o leitor se acostume, pois não vou descrever o quenão for necessário e nem me perder em digressões. Não mesmo, caros senhores. Aquiterão uma narrativa totalmente limpa de tudo que for desnecessário!

    O cavaleiro tirou da cabeça o gorro e um xale de lã desses que as esposascostumam tricotar para os maridos, acompanhados de conselhos muito proveitosos,mas não posso descrever o xale nem dizer que conselhos são esses porque nunca fuicasado e, por Deus, nunca usei um xale desses!

    Livrando-se do xale, o cavalheiro pediu o almoço. O garçom lhe trouxe os pratosnormalmente servidos nessas ocasiões, tais como sopa de repolho, pasteis folheadosguardados por semanas na despensa, miolos com ervilha, salsicha com chucrutes,frango assado, pepino salgado e pastéis folheados doces, ainda mais antigos que ossalgados. Enquanto comia, o forasteiro ia fazendo perguntas ao garçom. Perguntavaquem tinha sido o dono da estalagem, quem era o dono atual, se o patrão atual eramalandro, ao que o garçom respondia com um sorriso:

    - Ah, esse é um espertalhão que só quer se dar bem à custa dos empregados!Em toda a Rússia é quase impossível encontrar pessoas que não se distraiam,

    durante as refeições, conversando com os empregados, mas o nosso herói parecia iralém da simples curiosidade. Perguntava quem era o governador da cidade, que era oprocurador, quem era o presidente da câmara, indagou sobre todos os funcionáriospúblicos, enfim. Perguntou ainda sobre os proprietários rurais. Se tinham muitas terras,se eram donos de muitas almas, pois almas era como se chamavam os camponesesna Rússia antiga. Indagou ainda se havia tido alguma epidemia e se morreram muitoscamponeses.

    Para conseguir a simpatia do criado, e .portanto, mais informações, ele assoavao nariz com grande efeito, o que provocou grande admiração por parte do garçom,tanto que sempre que ouvia aquele som ele sacudia a cabeleira, inclinava-se muitoobediente e perguntava se o cavalheiro queria alguma coisa.Depois do almoço o cavalheiro sentou-se no sofá e colocou atrás das costas umaalmofada que os proprietários de estalagem costuma forrar não com algodão, mas comtijolos. Tomou uma xícara de café e então foi para seu quarto, onde descansou por umtempo. Refeito, escreveu em um papel, a pedido do criado, seu nome e cargo, para serlevado ao chefe de polícia.Enquanto levava o papelucho, o criado, não podendo segurar sua curiosidade, leu:“Conselheiro civil Pável Ivanovitch Tchitchicov, proprietário rural, viajando a negócios”.Enquanto o criado lia o que não era da sua conta, o próprio Tchitchicov saiu para ver acidade, com a qual ficou muito satisfeito. Não ficava em nada a dever a outras casasda província, com suas casinhas de alvenaria pintadas com um amarelo de doer osolhos e as de madeira de um encardido cinzento.Aqui e ali havia placas comerciais, muitas delas já apagadas pelo tempo. Uma delasmostrava uma mesa de bilhar com cavalheiros desenhados como costumam apareceros convidados especiais nos teatros. Os jogadores eram representados com os tacosapontados, os braços torcidos e os pés levantados. Debaixo de tudo isso, a

  • esclarecedora placa: “Eis aqui um estabelecimento”.O viajante viu também o parque público, onde repousavam algumas árvores

    esqueléticas. Os jornais costumavam se referir a essas árvores em termos elogiosostais como: “A cidade se enfeitou de maneira extraordinária graças ao senhor prefeito,que mandou plantar nela árvores frondosas para refrescar os dias de verão. Quandoda sua inauguração, os cidadãos vertiam lágrimas por tamanha obra e davam graçasaos céus por terem tão competente e honrado prefeito”.

    Encontrando um policial, Tchitchicov informou-se com ele sobre como chegar nasprincipais repartições públicas. Pregado num poste encontrou um velho cartaz deteatro, que ele arrancou e enrolou, levando-o para casa, para poder lê-lo melhor.

    Enfim, olhou tudo como se quisesse memorizar todo o cenário no qual sepassará nossa história.

    Depois voltou para a estalagem e pediu um chá. Tendo-se fartado, pediu umavela e ficou lendo o cartaz. Era uma peça qualquer, sem qualquer personagem ou nomefamoso, mas mesmo assim ele leu tudo, inclusive o preço dos ingressos e o nome datipografia que o imprimira. Depois virou o cartaz para ver se havia algo escrito do outrolado, não encontrando nada, enrolou-o e guardou em seu baú.

    O dia terminou com uma costela frita, uma sopa de repolho já meio azeda e umronco puxado, como se diz na nossa querida Rússia.

    No dia seguinte, dedicou-se exclusivamente a visitar os principais funcionárioslocais. Primeiro foi a governador. Era um homem nem gordo nem magro, não de todosevero e até um pouco bonachão, tanto que chegava a bordar. Depois foi na casa dovice-governador, do presidente da câmara, do chefe de polícia, do procurador. Nãohouve uma única autoridade que não tenha sido visitada e em todos os locais.Tchitchicov não só conseguia informações, como, principalmente, disparava elogios atorto e a direito.

    Ao governador disse, assim meio que sem querer que entrar na província eracomo ingressar no paraíso, que as estradas eram veludos e que era uma honra para aRússia ter um governador como ele.

    Ao chefe de polícia disse elogios a respeito dos uniformes dos guardas.Ao vice-governador e ao presidente da câmara, tratou-os equivocadamente de

    Vossa Excelência, um equívoco que muito os agradou.Como conseqüência, o governador lhe fez o convite para um sarau em sua casa.

    Os outros também lhe fizeram convites, um para um jogo de cartas, outro para um chá.Embora falasse muito e sua boca estivesse sempre muito disposta a derramar

    elogios, o forasteiro, na verdade, falava muito pouco de si. Dizia-se modesto eargumentava que não compensava perder tempo com ele. Pressionado, apresentavauma história padrão: era um funcionário público que tivera muitos inimigos pela maneirailibada com que cumpria suas obrigações, que chegaram a atentar contra sua vida, masque estava cansado dessa vida agitada e queria sossego e que, chegando naquelacidadezinha agradável, sentia-se na obrigação de ir apresentar seus respeitos àaugusta autoridade presente (fosse ela o governador, o procurador ou qualquer outra).

    Eis tudo que se ficou sabendo do recém-chegado, mas foi suficiente para deixartodos curiosos para vê-lo no sarau.

  • O viajante arrumou-se para o sarau com um cuidado de toalete que nunca se viu igual.Depois da sesta, mandou que lhe trouxessem um lavatório e ficou longo tempoesfregando as bochechas com um sabonete fino. Depois, pegando uma toalha noombro do criado, enxugou-se com cuidado até mesmo atrás das orelhas. Em seguidacolocou o peitilho, cortou dois pêlos que se assanhavam para fora do nariz e envergouum fraque cor de framboesa.Em pouco tempo, lá estava ele, em traje de gala, percorrendo as ruas da cidade comsua carruagem. As ruas eram escuras, em contraste com a casa do governador, tãoiluminada que chega doía nos olhos.Tchitchicov mal teve tempo de entrar no salão quando foi pego pelo braço pelo própriogovernador, que o apresentou à governadora. O nosso herói não se atrapalhou edisparou um galanteio qualquer, muito discreto e pertinente para um funcionário público.Logo os casais se puseram a saracotear pelo salão e Tchitchicov encostou na parede,as mãos às costas, olhando-os com muita atenção.As damas estavam tão bem vestidas quanto é possível estar em uma cidade comoaquela e os homens eram de dois tipos.

    Havia os fininhos, muito galantes, sempre andando em volta das damas, muitorefinados e agradáveis. Sentavam-se ao lado das damas e falavam francês com elas,divertindo-as muito.

    O outro tipo eram os gordos ou aqueles do tipo de Tchitchicov, ou seja, que nãose pode dizer se eram gordos ou magros. Estes, ao contrário dos primeiros,afastavam-se das damas e só olhavam em volta para ver se os criados já tinhamarrumado as mesas para o jogo de cartas. Tinham rostos redondos e seus cabeloseram cortados à maneira “que me leve o diabo!”, como dizem os franceses. Essesegundo tipo eram os funcionários mais respeitáveis da cidade, pois os gordos sabemse arranjar nesse mundo bem melhor do que os magrinhos. Os magros são usados emserviços especiais e precisam se deslocar daqui para lá para conseguir alguma coisa.Já os gordos sempre têm cargos permanentes e quando se instalam num emprego, ofazem com força e solidez, de modo que fica mais fácil o cargo ceder ao peso deles doque saírem do lugar.O magrinho, ao final de um ano não tem uma única alma que não esteja empenhada,mas o gordo, ah o gordo prospera no serviço público e em pouco tempo estáassentado em uma casa confortável e em pouco tempo se torna fazendeiro comcentenas de almas, só para que seus filhos magrinhos depois esbanjem tudo em farrase mulheres.Pensamentos desse tipo invadiam a mente de Tchitchicov enquanto ele observavaaquela reunião e, como conseqüência, aproximou-se, claro, dos gordos, ondeencontrou muitas caras conhecidas: o procurador, com sobrancelhas de taturana e olhoesquerdo que piscava sem parar como quem diz: “Ei, meu amigo, venha cá para oquarto onde lhe direi uma coisa”; o chefe dos correios, baixinho, espirituoso e dado aarroubos de filosofia; o presidente da câmara, sempre muito amável. Todoscumprimentaram o recém-chegado e lhe apresentaram o proprietário rural Manilov, odesajeitado Sobakevitch, que logo lhe pisou o pé e em seguida pediu desculpas.Logo estavam em volta da mesa, envoltos no jogo. Já não conversavam, pois na Rússia

  • os homens sérios costumam silenciar quando se ocupam de atividades sérias, como ojogo de cartas. O máximo que se ouvia eram exclamações próprias do jogo. O diretordos Correios, por exemplo, sempre que pegava uma dama, dava um soco na mesa egritava: “Avante, velha coroca!”. O presidente da Câmara preferia um “Arranco osbigodes deste aqui!”. Outros exclamavam, enquanto batiam as cartas na mesa: “Já quenão tem outro, vai este mesmo!”.O nosso herói também discutia, mas de modo muito agradável, para que todospudessem perceber o quanto ele era agradável. Nunca dizia, por exemplo: “O senhorsaiu?”, e sim “O senhor houve por bem sair?”. Para tornar a estada ainda maisagradável, ele lhes oferecia de tempos em tempos sua tabaqueira de prata, de ondetiravam cigarros perfumados por duas violetas colocadas no fundo.Mas no fundo, Tchitchicov tinha atenção redobrada sobre os dois proprietários rurais.Logo soube tudo sobre eles, chamando de lado o diretor dos Correios e o presidenteda Câmara. Fazia perguntas sobre a propriedade rural, o número de almas de cada umde maneira muito meticulosa, de modo em que pouco tempo já estava plenamenteinteirado da situação dos dois. Além disso, fez questão de agradá-los. Manilov ficou tãoapaixonado por ele que o intimou a fazer uma visita a sua vila. O estrangeiro não sóaceitou, como disse que esse seria um dever sacrossanto para ele.

    Sobaketich soltou um lacônico “Também o estou convidando”.No dia seguinte, Tchitchicov almoçou na casa do chefe de polícia, que sempre

    comia à farta às custas dos mercadores da cidade.No outro dia, passou a noite na casa do presidente da Câmara. Mais tarde, foi a

    uma recepção na casa do vice-governador e um pequeno almoço – que aliás valia porum grande – na casa do procurador. Depois da missa ainda teve de ir na casa doprefeito, para um pequeno lanche que servia por outro almoço. Em suma, ele não podiaficar no alojamento, tantas eram suas obrigações sociais.

    O recém chegado logo se mostrou uma visita agradável, capaz de conversarsobre qualquer coisa de maneira muito agradável. Se falavam de cavalo, ele semostrava um expert em cavalos. Se falavam de cachorros, ele mostrava todos os seusconhecimentos sobre o assunto. Nem mesmo quando o assunto era bilhar ele errava oalvo. Mas o assunto sobre o qual ele melhor se expressava era a moral e a ética.Falava sobre o assunto com lágrimas nos olhos, lamentando que seus contemporâneosjá não mostrassem noções elementares de ética. “Só a ética e a moral salvará aRússia!”, dizia. Se o assunto era a Alfândega, Tchitchicov falava como se fosse elemesmo um funcionário da Alfândega. .E a cada frase ele sabia imprimir uma impressão especial, falando num tom apropriadoe muito agradável, tanto que todos tinham boa opinião sobre ele. O chefe dos correiosdizia que era um homem correto, o governador que era um homem honesto, o chefe depolícia que era um homem respeitoso e amável, a mulher do chefe do correio que eraum homem muito gentil. Em suma, todos concordavam que ele era uma companhiamuito agradável.Até mesmo Sobakevitch, que nunca falava bem de ninguém, sob qualquer hipótese, atéele quando deitou naquela noite, disse para a esposa:- Sabe, querida, conhecia hoje uma pessoa realmente agradável.

  • Ela deve ter ficado muito satisfeita com isso, pois lhe deu um tranco com o pé e voltoua roncar.

  • Capítulo 2 Depois de uma semana na cidade, freqüentando saraus e pequenos almoços queserviam por grandes almoços, Tchitchicov resolveu ir visitar os proprietários rurais.O cocheiro Selifan recebeu ordens de atrelar os cavalos e preparar a carruagem ePetruchka recebeu ordem de ficar e cuidar do quarto.O leitor certamente não quer saber nada sobre essas duas figuras e, de fato, elas nãomerecem nenhuma linha para descrevê-los e na verdade, eles terão pouca importânciana trama, mas como os cavalos estão sendo atrelados e não há nada para sercontado, vamos nos ocupar dos dois.Petruchka usava um sobretudo herdado do amo e gostava de ler. Na verdade, elepouco se importava com o que estava lendo. Poderia ser uma obra-prima ou umromance barato. Se lhe colocassem diante do nariz um livro de química ele o leria. Naverdade, ele se ocupava muito pouco do conteúdo. O que lhe encantava era o fato de,no meio daquele monte de caracteres saírem palavras com algum significado –significado aliás que ele na maioria das vezes não pescava. Além de gostar de ler, eletinha mais duas singularidades. Uma delas era dormir sempre vestido. A outra eranunca tomar banho. A fedentina era tanto que ao entrar num lugar ele logo o deixavainfestado e o cheiro característico muitas vezes demorava dias para passar, mesmodepois de uma visita de apenas alguns minutos.

    Tchitchicov, que tinha costumes refinados, encontrando-o pela manhã, virava onariz e resmungava: “Você, hein, companheiro... já pensou em fazer uma visita aosbanhos públicos?”. Petruchka não retrucava, apenas ia fazer outra coisa, como escovaro fraque do patrão, enquanto pensava: “Agora essa é boa! Esse aí não se cansa derepetir a mesma coisa!”, mas estamos apenas deduzindo, pois é impossível descobrir oque se passa na cabeça de um servo doméstico.

    O cocheiro Selifan era pessoa totalmente diversa, pois... mas fico encabuladode continuar a perder o tempo do leitor com alguém de categoria inferior. Já trago atécomigo o receio de que este romance não seja bem-recebido por seu herói ser apenasum conselheiro civil e, além disso, a carroça já está arrumada para a viagem eTchitchicov já embarca nela, dando as últimas ordens para os dois servos.

    A sege saiu pelos portões da hospedaria e foi recepcionada na rua por um grupode garotos com camisas sujas, que estendiam as mãos e pediam:

    - Uma esmola para um pobre órfão, senhor...O cocheiro reparou que um deles fazia menção de subir na carruagem e fez com

    que ele desistisse da idéia com uma chicotada.A carruagem foi sacolejando no calçamento, fazendo com que nosso

    personagem batesse a cabeça no teto várias vezes e foi com alívio que ele viu a

  • estrada pavimentada ser substituída pelo caminho de terra.De tempos em tempos aparecia uma casa, com seus camponeses com suas

    peles de carneiros e camponesas de caras redondas e peitos apertados que olhavampela janela.

    Mas a carruagem seguia e não encontravam a aldeia de Manilov, de modo queforam obrigados a parar para perguntar:

    - É aqui perto da aldeia de Zamanilovka?Os camponeses balançaram a cabeça e levantaram os ombros, o que queria

    dizer que não sabiam, mas um deles, mais esperto, disse:- Não seria Manilovka ou invés de Zamanilovka?- Sim, isso mesmo, Manilovka.- Ande mais um pouco e vire à direita no primeiro ramal. Esse é o caminho para

    Manilvka. Lá vão encontrar uma casa de pedra no alto de uma colina. É lá que mora osenhor Manilov. Mas quanto a Zamanilovka, confesso que não conheço nenhuma e nemnunca ouvi falar de uma. Se estiverem procurando Zamanilovka, não é por aqui...

    - Não, é Manilovka mesmo. – respondeu o cocheiro.- Ah, sim, por que Zamanilovka não existe nenhuma, não por aqui. Vocês já

    ouviram falar de alguma Zamanilovka?E os mujiques levantaram os ombros e balançaram a cabeça, querendo dizer

    que não sabiam. O cocheiro não esperou para ouvir a opinião deles e já esporeava oscavalos.

    Ao contrário do que havia dito Manilov, a sua aldeia não era logo ao lado dacidade, tanto que tiveram que andar mais alguns quilômetros antes de dar com tal casade pedra. O local não era muito convidativo, pois a casa estava instalada no alto de um morro eexposta a todo tipo de vento que quisesse soprar.A paisagem era animada por duas camponesas, que, com a barra de suas saiaslevantadas à altura da cintura, ocupavam-se de vadear o lago com uma rede no qual sepodia ver duas lagostas e um peixe. Aparentemente elas estavam brigadas e soltavaminsultos mútuos.Até o tempo era melancólico, com um céu que não era nem azul nem claro, mas cinza enão faltava nem mesmo o galo, anunciador dos dias instáveis.A carruagem entrou no pátio e Tchitchicov viu o próprio dono parado na escada, desobretudo verde, a mão na testa, afiando os olhos para tentar descobrir quem chegava.- Pavel Ivanovitch! Finalmente lembrou-se de nós! – festejou ele.Os dois trocaram abraços e beijos fortes e Manilov levou seu hóspede para a sala.Já que estão os dois a andar até a sala, podemos falar um pouco sobre a propriedadee seu dono.Manilov era aquele tipo de caráter que chamamos de “assim assim”. Nem na cidade deBogdan, nem na vila de Selifan, como diz o ditado. Ou seja, não tinha grandescaracterísticas que o definiriam. Era loiro de olhos azuis. No primeiro momento deconversa com ele se pensava: “Ora vejam, que homem agradável...”, mas em menosde cinco minutos se pensava “Caramba, isso não acaba nunca?” e o interlocutorarranjava um jeito de se afastar dele o mais rápido possível.

  • Era esforço vão esperar dele uma palavra mais viva ou uma expressão mais irritada.Todos os homens têm sua especialidade: um adora cachorros e só fala neles;

    outro é amante de música, outro não consegue controlar a vontade marcar as cartascom as quais joga. Ou seja, cada um tem sua singularidade, mas Manilov, nada. Emcasa ele falava pouco e aparentemente ficava longo tempo meditando, mas só Deuspoderia saber sobre o que ele meditava, pois ele jamais usou o resultado dessasmeditações em suas conversas. Não se poderia dizer que ele era vazio de assunto porse preocupar muito com sua propriedade porque, na verdade, ele mal saia para ver oque os mujiques estavam fazendo.

    Quando um servo vinha com ele e dizia:- Senhor, preciso sair para trabalhar, para pagar o imposto...- Vá, pode ir. – respondia ele, e nem por um momento imaginava que na verdade

    o malandro estava saindo, mas era para se embriagar na primeira taberna.Às vezes, olhando o terreno do alto da estrada, ele comentava como seria bom

    fazer uma passagem subterrânea ligando a casa a sabe-se lá onde, ou construir sobreo ribeirão uma ponte de pedra bem larga na qual os vendedores poderiam se instalarpara vender aos mujiques tudo que eles precisavam e seus olhos adquiriam aqueleolhar doce, mas tão doce que enjoava, que lhe era característico.

    No seu gabinete ele trazia um livro aberto sempre na página quatorze, que ele liahá dois anos.

    Em sua casa sempre faltava alguma coisa: se tinha pratos de porcelana,faltavam talheres, se tinha talheres, faltavam pratos. Na sala de estar havia umamobília excelente, mas duas poltronas estavam sem forro e haviam sido cobertas porsimples esteiras.

    Sua mulher... basta dizer que estavam plenamente satisfeitos um com o outro.Mesmo já tendo se passado oito anos das bodas, eles sempre traziam um mimo umpara o outro, fosse um pedaço de maçã ou uma balinha uma avelã, e diziam:

    - Abre a boca, benzinho, que vou te dar um bocadinho.Evidente que nesses casos a boca sempre se abria e recebia o regalo.No natal, um sempre preparava surpresinhas singelas um para o outro.Acontecia até que, estando sentados no sofá, o marido largava o cachimbo e a

    senhora largava o bordado para trocarem um beijo tão prolongado que se poderiafumar uma cigarrilha inteira e ainda sobrava tempo.

    Eram, em suma, um casal feliz.O leitor poderia argumentar no entanto, que um casamento não ser resume a

    beijinhos ou boquinhas e perguntar por que a cozinha funcionava tão mal, ou porque adespensa estava sempre vazia, ou porque a despenseira é uma ladra, ou porque osbêbados são bêbados ou porque toda a criadagem dorme desavergonhadamente atétarde e passa o resto do tempo na vadiagem... mas a verdade é que o casal sepreocupava muito pouco com isso.É bem verdade que a senhora Manilova é muito bem educada. Como se sabe, aeducação que se recebe nos pensionatos prepara a mulher para o casamentoensinando-lhe francês, item indispensável para a harmonia do lar, o piano e, finalmentea parte de economia doméstica propriamente dita: a arte de tricotar surpresas

  • agradáveis.Mas vamos voltar a nosso heróis, pois os dois já estavam para entrar na sala e não ofaziam porque um queria dar passagem ao outro:- Por gentileza, não se preocupe comigo, eu passarei depois. – dizia Tchitchicov.- Não, de maneira nenhuma. – respondia Manilov, apontando a porta com a mão direita.- Não se incomode. O senhor é dono da casa. Deve passar primeiro.- Oh, não, eu nunca permitiria que um visitante tão respeitável, tão ilustrado passassepor último.- Mas por que ilustrado? Sou um pobre funcionário público. Passe antes!- De maneira nenhuma. Na verdade seria uma grande desonra para mim se o senhornão passasse primeiro.- Não, por favor, passe antes!E ficaram nisso por um bom tempo, até que decidiram passar juntos, de lado. - Deixe-me apresentar-lhe minha esposa. – disse Manilov. Benzinho, este é PavelIvanovitch.Tchitchicov espantou-se ao descobrir que a mulher até que era jeitosa e foi comverdadeiro prazer que se inclinou sobre ela para beijar-lhe a mão.- Meu marido não passa um dia sem falar de você. – disse a senhora Manilova.- É verdade. E ela tem me perguntado quando íamos ter o prazer de sua visita. E eudizia: paciência, benzinho, ele virá. É como se diz... um dia de maio... uma festa nocoração.Tchitchicov, vendo que as coisas já estavam no ponto da festa do coração, fingiu estarencabulado:- O que é isso? Não sou merecedor... não sou portador de títulos ou de nada...- O senhor é portador de tudo. – respondeu Manilov.A mulher era só sorrisos:- E então, qual a sua opinião sobre nossa cidade?- É uma ótima cidade. Muito agradável. – respondeu Tchitchicov.- O que achou de nosso governador? – indagou Manilova.- Um homem muito competente e muito fino. Até faz bordados!- Realmente, um homem digníssimo e muito gentil. – completou Manilov.- E o vice-governador? Não acha que é um homem encantador?- Sem dúvida, nunca vi homem tão encantador. Uma obra-prima.- E o chefe de polícia? Qual a sua opinião sobre o chefe de polícia?- Muito agradável e, além disso, inteligente e muito lido. Uma enciclopédia ambulante!- O senhor conheceu a sua esposa?- Oh, sim, uma senhora muito agradável, muito digna.E da mesma forma eles passaram em revista todos os funcionários da cidade, que semostraram pessoas muito dignas e agradáveis.- E o senhor, passa a maior parte do seu tempo no campo? – indagou por fimTchitchicov.- Sim, mas às vezes vamos à cidade para encontrar com pessoas refinadas. O senhorbem sabe, morando no campo, acabamos por ficar embrutecidos.- É verdade, é verdade. – concordou Tchitchicov.

  • - Seria bom se tivéssemos uma boa vizinhança, alguém com quem pudéssemosdebater algo que permitisse uma elevação moral, algo... – mas nesse ponto ele parou,percebendo que estava já atrapalhado e mudou o foco: evidentemente o campo nosoferece muita coisa agradável... mas não nos resta ninguém com quem conversar... sónos resta ler o jornal Filho da Pátria.Tchitchicov concordou com isso e disse que nada podia ser melhor que o isolamento,no qual se poderia ler um bom livro.- Sim, sim... mas isso de nada vale sem um amigo...- Sim, concordo. Totalmente justo. Como diz o ditado: De nada valem os tesouros senão temos amigos...- Devo confessar-lhe, amigo, que é um verdadeiro deleito espiritual poder ter umaconversa amena com alguém como você... – disse Manilov com uma expressão docecomo um xarope que o médico dá para a criança que não quer tomar remédio.- Como assim? Sou apenas um homem insignificante. - Oh, Pável Ivanovitch! Eu daria metade dos meus bens só para ter todas as suasqualidades morais e intelectuais...- Pelo contrário, eu é que...Nenhum escritor pode prever até onde chegaria aquela mútua rasgação de seda, nãofosse a chegada do criado anunciando o almoço.- Por favor, nos desculpe se aqui não oferecemos um jantar tão refinado quanto oservido nas capitais, mas espero que o senhor goste de nossa sopa de repolho.Os dois ficaram ainda algum tempo discutindo sobre quem entraria primeiro na sala dejantar, até que entraram os dois, de banda. Lá encontraram dois garotos, filhos deManilov. Tinham aquela idade em que já se colocam crianças na mesa de jantar, masem cadeiras altas. Ao lado deles estava o preceptor, que cumprimentou o recém-chegado com uma vênia e um sorriso.- Que crianças engraçadinhas! – exclamou Tchitchicov. Quantos anos?- O mais velho já tem sete anos. O menor fez seis.- Que formosura. – elogiou Tchitchicov.- Femistóklius! – chamou Manilov, dirigindo-se ao mais velho.Tchitchicov levou um susto com esse nome grego, mas tratou de recompor aexpressão.- Femistóklius, diga-me: qual é a maior cidade da França?Nesse ponto o preceptor concentrou toda a atenção sobre o garoto, como se fossepular no seu pescoço caso ele respondesse errado, mas tranqüilizou-se quando ogaroto soltou um:- Paris.Todos aplaudiram.- E qual é a nossa capital? – indagou Manilov.- Petesburgo. – respondeu o garoto.- E a outra?- Moscou.- Que menino inteligente! Puxou ao pai! – festejou Tchitchicov. Já tão jovem e comconhecimentos tão amplos. Sou obrigado a dizer-lhe que esse garoto promete grandes

  • feitos! Sim senhor!- Oh, é um gênio, meu amigo. Um gênio. Vou fazer uma pergunta diplomática...E nisso todos concentraram sua atenção, esperando a tal pergunta diplomática e suaresposta genial.- Femistóklius, você quer ser embaixador?- Quero. - respondeu o garoto, tirando algo do nariz.Todos aplaudiram essa resposta tão sábia, enquanto o criado assuava o nariz doembaixador.A refeição correu sob uma conversa amena sobre os prazeres da vida no campo. Opreceptor seguia atentamente a conversa e só interferiu quando Feministóklius mordeua orelha de Alkid, que se preparava para estourar numa choradeira sem fim, mas,percebendo que isso lhe custaria a perda de pratos do almoço, contentou-se em roerum osso de carneiro.A esposa constantemente repreendia Tchitchicov por ele estar comendo pouco, ao queele retrucava que uma boa conversa é melhor que qualquer comida.Satisfeitos, os dois já iam para a sala de estar quando Tchitchicov disse que pretendiafalar com Manilov um negócio muito importante.- Nesse caso, vamos para meu escritório. – respondeu o dono da casa, conduzindo-opor uma porta pela qual os dois tiveram que passar de banda.- Que salinha agradável! – disse Tchitchicov.- Fico muito agradecido com o elogio, e, por favor, tenha a bondade de sentar nestapoltrona.- Se o senhor não se incomodar, eu preferia sentar na cadeira.- Com a sua licença, eu não lhe dou licença para sentar-se na cadeira. Por favor, estapoltrona está reservada para o senhor.Vendo que não tinha saída, nosso herói sentou-se.- Por favor, fume um cachimbo. – disse o dono da casa, estendendo-lhe um.- Oh não. Eu não fumo. Não adquiri esse hábito, que, dizem, faz mal à saúde.- Puro preconceito. Posso garantir que quem fuma cachimbo tem mais saúde do quequem não fuma. No nosso regimento havia um tenente que não tirava o cachimbo nempara aquilo, com o perdão da palavra. Agora ele já está com quarenta anos e é maissaudável que um cossaco...- Sim, tais coisas acontecem e são sempre muito inexplicáveis. Mas permita que eumude de assunto. Diga, há quanto tempo o senhor entregou o seu relatório derecenseamento?- Há tanto tempo que, confesso, já nem me recordo.- E houve mortes entre os seus camponeses... digo, desde o recenseamento?- Não posso ter certeza. Precisaria me informar com meu intendente. – e gritou pelointendente.O homem se apresentou. Estava claro que era um intendente como todos os outros:começara com moleque doméstico alfabetizado, casara com uma Maria despenseira ea seguir chegara ao atual cargo, através do qual ficara amigo dos mais ricos da aldeia,ao mesmo tempo em que carregava nas taxas dos mais pobres e acordava às nove damanhã.

  • - Quantos camponeses já morreram desde o recenseamento? – perguntou Manilov.- Como assim? Muito morreram...- Sim, foi isso mesmo que eu pensei. Muitos morreram. É o que eu ia dizer.- Mas quantos mesmo, em números? – perguntou Tchitchicov.- Como assim, em números? Ninguém contou os que morreram...- Sim, ninguém contou. É isso mesmo... – concordou Manilov.- Então, por favor, o senhor faça uma lista nominal dos que morreram.- Isso mesmo. Faça uma lista nominal. – concordou manilov.Quando o intendente saiu, o dono da casa virou-se para o visitante:- Mas afinal, para o que o senhor precisa dessas informações?Essa pergunta, aparentemente, abalou seu interlocutor, que exibiu uma expressãomuito tensa, e os ouvidos de Manilov escutaram uma explicação tão extraordinária quenenhum ouvido já havia escutado:- Eu gostaria de comprar os camponeses. – gaguejou Tchitchicov.Manilov ficou sem entender:- Permita que eu lhe pergunte: o senhor quer comprar as terras onde moravam essescamponeses?- Não, eu não quero as terras...- Então o senhor quer os camponeses vivos...- Não, na verdade eu gostaria de comprar aqueles que já morreram.Houve um longo silêncio. O cachimbo de Manilov caiu, assim como seu queixo.Depois de um longo tempo, Manilov olhou fixamente para o rosto do amigo para saberse não havia nenhum sorriso que revelasse que, afinal de contas, tratava-se de umabrincadeira. Mas os olhos de Tchitchicov não revelavam nem graça, nem loucura. - Então o senhor quer...- Eu gostaria de saber se o senhor poderia me vender os seus camponeses quemorreram. Claro que são almas vivas na forma legal...Manilov não sabia o que responder ou o que fazer e só olhava para com cara de bobopara seu interlocutor.- Parece-me que o senhor encontra-se em dificuldade... – disse Tchitchicov- Eu? Eu não... é que... não é todo dia que aparece alguém querendo comprar almasmortas... penso que talvez eu tenha entendido mal e o senhor apenas esteja seexpressando assim por uma questão de elegância e estilo...- Não, não é nada disso. Não há nenhum mal entendido. Quero comprar suas almasmortas...O dono da casa não conseguia responder ou mesmo dizer nada, apenas soltavafumaça pelo nariz.- Então podemos proceder o contrato de compra e venda.- Um contrato para almas mortas?- Não, isso não. Vamos escrever no contrato que elas estão vivas, como aliás,oficialmente estão. Enquanto não houver um novo censo, perante a lei, essescamponeses ainda estão vivos. E eu tenho hábito de jamais me afastar da lei...- Mas esse negócio é legal? – indagou Manilov.- Ele está absolutamente dentro das regras civis e devo dizer que governo até sairá

  • ganhando, pois serão recolhidos todos os impostos... então, o que o senhor acha?- Bem, se é uma negociação legal...- Ótimo! Agora só resta entrarmos num acordo quanto ao preço...- Preço? O senhor acha que eu daria um preço a almas que, digamos assim, não estãovivas... e ainda mais para um amigo? Não, de maneira nenhuma. Na verdade, deixe atépor minha conta as despesas com o contrato.Tchitchicov exibiu um sorriso de satisfação e, abandonando o ar contido que sempredemonstrava, levantou-se e foi apertar a mão do fazendeiro a ponto de deixá-lo semjeito:- Senhor, não sabe como estou grato... que grande serviço o senhor me presta. E quegrande serviço presta à nação!E Tchitchicov passou tanto tempo apertando a mão de seu benfeitor que este já nãosabia o que fazer. Finalmente, lembrou-se que era necessário lavrar o contrato ecombinou com o fazendeiro de encontrá-lo na cidade. Depois pegou seu chapéu ecomeçou a se despedir.- Como assim, já vai embora?- Negócios urgentes pedem a minha presença.Nisso entrava a senhora Manilova.- Benzinho, Pavel Ivanovitch vai nos deixar...- Mas já? Por certo nós o aborrecemos...- Minha senhora, nesta casa vivi alguns dos melhores momentos de minha vida. Estãotodos, todos, dentro do meu coração. – disse Tchitchicov, apontando o lado esquerdodo peito.Manilov gostou disso:- Oh, senhor... que maravilha seria se pudéssemos viver todos sob o mesmo teto...filosofando sobre coisas...- Oh, seria o paraíso! O paraíso na terra... agora preciso ir... e, por favor, não seesqueça daquele favor...- Não se preocupe. Em dois dias estarei na cidade...Tchitchicov foi saindo e deu com os meninos.- Adeus meus petizes! Adeus! Sinto por não ter trazido nenhum presente. É que nemsabia da existência de vocês. Mas da próxima vez que vier, trarei um sabre para você.Quer um sabre?- Quero. – respondeu Femistóklius.- E para você um tambor. Quer um tambor?- Tambor... – repetiu Alkid, abaixando a cabeça e voltando a brincar com um soldadinhode chumbo.- Que crianças maravilhosas! Que grandes prodígios! – e beijou a cabeça das crianças.- Ivanovitch, reconsidere. Veja aquelas nuvens. Vai chover forte.- Não, são apenas algumas nuvenzinhas. Meu coração dói, mas preciso ir. Fiquei depassar hoje na casa de Sobakevitch...- E o senhor conhece o caminho para a casa de Sobakevitch?- Confesso que não.- Deixe que vou explicar ao seu cocheiro.

  • Manilov, com a mesma solicitude que lhe era característica, explicou ao caminho aococheiro e até o chamou de senhor uma ou duas vezes. Informou-o que era precisodeixar passar duas curvas e entrar na terceira.Assim, Tchitchicov partiu, despedindo-se do dono da casa, que agitava um lenço paraele.Manilov ficou ainda algum tempo fumando seu cachimbo nos degraus e depois entrou esentou-se numa poltrona, onde seus pensamentos voaram. Imaginou-se construindo aponte sobre o rio, ou a passagem subterrânea. Imaginou construindo uma imensa casaonde moraria com Tchitchicov. Imaginou os dois chegando numa reunião social e todosficariam tão encantados com aquela sincera amizade que o Czar lhes concedia ogeneralato. Sim, tais pensamentos eram muito agradáveis...

  • Capítulo 3 Tchitchicov ia muito satisfeito em sua carruagem. Tudo ia como tinha planejado. Se comos outros proprietários rurais fosse tão fácil quanto havia sido com Manilov...Ia tão contente que não prestava atenção aos gritos do cocheiro. Este eraparticularmente implicante com um cavalo pedrês atrelado à direita dos outros dois.Este cavalo era muito esperto e só fingia que puxava, deixando na verdade todo oserviço para um cavalo baio para um alazão chamado Presidente.- Eu já te ensino, seu vagabundo germânico! – dizia o cocheiro e estalava umachicotada no lombo do animal. O baio é que é um cavalo de verdade. Também oPresidente é um bom cavalo, mas você... você é um tremendo gaiato, seu Bonapartenojento! Já te ensino! Não finja que não está ouvindo. Só vou lhe ensinar coisas boas! Opatrão que visitamos, esse tem gente boa a seu serviço! O tipo de gente que se podefazer amizade, e eu logo fico amigo de gente direita e é bom ser amigo de gente boa,com quem se possa aprender alguma coisa. Aqui o nosso patrão, por exemplo, mereceo respeito de todos, pois já serviu no serviço público e é um conselheiro, entende?Tchitchicov teria descoberto muitas coisas a respeito de si mesmo se estivesseprestando atenção, mas ele estava absorto em seus próprios pensamentos, tanto quenão percebeu a chuva se aproximando. Só foi tirado de suas reflexões com o forteribombar de um trovão. Nisso a chuva começou a tamborilar no teto, forçando-a afechar a janela.Selifan também estava tão entretido em falar com os animais que não havia contadoquantas curvas haviam passado. Sabia que eram muitas, então virou na primeira àdireita. A chuva ia forte e a estrada transformara-se em um lamaçal, do modo que oscavalos tinham grande dificuldade para arrastar a carruagem. Tchitchicov estavapreocupado, pois, segundo seus cálculos, já deviam ter chegado á aldeia, assim, abriua janela e gritou para o cocheiro:- Selifan, consegue ver a aldeia?- Não consigo ver nada, patrão.Dizendo isso, o cocheiro pôs-se a chicotear os cavalos, chamando-os de todos osnomes usados para motivar cavalos.Parece que a estratégia não deu certo, pois logo a sege estava balançando comolouca, sinal de que haviam saído da estrada.- Seu pilantra! Olha para onde está indo!- Mas patrão, a escuridão é tanta que mal dá para ver o chicote... – respondeu Selifan,nitidamente embriagado.Em seguida, ele forçou a carruagem de tal forma que ela ameaçou tombar.- Seu idiota, vai virar a sege!

  • - Mas patrão, não seja injusto comigo... como pode dizer que vou tombar? Logo eu quesou tão cuidadoso... que eu nunca tombei uma carruagem!Como que para coroar esse discurso, a sege virou, derrubando seu ocupante no meioda lama.- Mas olha só... quem diria... tombou mesmo! – espantou-se Selifan.Tchitchicov levantou-se, passando a mão suja de lama na roupa, numa tentativa vã dese limpar.- Seu bandido! Está bêbado como um sapateiro!- Eu, patrão? Bêbado? Não seja injusto. Eu não tomei um só gole...- Vou te mostrar! Vou tirar o seu couro e lhe dar uma surra que nunca se esquecerá!- Como quiser, patrão... se quiser me bater, não tenho nada contra. É necessário umasurra de vez em quando para colocar o criado nos eixos, não é mesmo? Por que nãome surrar, se mereço?Diante de tais argumentos, Tchitchicov não teve o que responder e já ia perdendo asesperanças quando ouviu latidos de cachorros.- Toca para lá! – gritou.Selifan tratou de levantar a carruagem e fustigou os cavalos, indo meio a cega e meioorientado pelo barulho dos cães.Por fim, deram com uma casa da qual Tchitchicov só via o telhado.Selifan correu a bater na porta, mas sua presença já tinha sido anunciada peloscachorros.Surgiu a voz de uma camponesa:- Quem bate?- Viajantes perdidos, titia. Por favor, nos deixe passar a noite aqui.- Isso são horas de chegar? Aqui não é uma estalagem. Quem mora nesta casa é adona destas terras...- O que podemos fazer, titia? Nós nos perdemos no caminho e fomos pegos pelatempestade... por favor, não nos deixe ao relento numa noite como essa...- disseTchitchicov, aproximando-se.- Quem é você?- Sou um fidalgo, titia...A palavra fidalgo pareceu exercer um efeito mágico. A velha pensou um pouquinho evoltou-se para dentro:- Vou falar com minha patroa...Pouco tempo depois ela voltava com uma vela na mão e uma mulher menos velha, masmuito parecida com ela, que levou o conselheiro até seu quarto. O quarto era forradode papel de parede listrado, já bem encardido e descascado nos cantos. Na paredehavia um quadro representando pássaros e um espelho entre as janelas. Não foipossível notar muito mais coisas, pois os olhos de Tchitchicov já estavam cansados equerendo se fechar. Nisso entrou a dona da casa, uma velha de touca na cabeça. Erauma daquelas velhas matronas, que vivem apenas para lamentar as más colheitas e afalta de sorte, mas que acumulam riquezas em saquinhos de pano.- Desculpe, minha senhora, pelo incômodo. – disse Tchitchicov, curvando-se. É que nósnos perdemos...

  • - Não é nada. É uma tempestade feia lá fora. Foi sorte de vocês encontrarem a minhacasa. Creio que esteja com fome, mas é impossível preparar o que quer que seja aesta hora...- Não se preocupe comigo, minha senhora. Não preciso de nada. Só gostaria de saberse estou longe da fazenda de Sobakevitch...- Nunca ouvi falar desse tal Sobakevitch...- E Manilov, a senhora conhece?- Também nunca ouvi falar desse proprietário rural.- Há outros proprietários por aqui?- Sim, muitos.- Ricos? Com muitas almas?- Nada, meu senhor. Só gente pobre. Um tem vinte almas, outro trinta, mas desses quepossuem centenas de almas... é uma pena que eu não possa servir alguma refeição. Osenhor deve estar faminto...- Obrigado, mas não preciso de nada, minha senhora.- Mas o que é isso? Sua roupa está toda suja de lama!- Minha senhora, tenho sorte de ainda estar vivo. Minha carruagem tombou...- Oh, que coisa horrível? O senhor quer que eu lhe faça uma massagem nas costas?- Não, senhora. Basta que a senhora peça à sua criada que limpe minha roupa.- Pois bem. Fetínia, limpe a roupa deste senhor e coloque para secar junto à lareira.Quanto ao senhor, não quer mais alguma coisa? Não quer que eu lhe coce oscalcanhares? Meu marido não dormia se eu não coçasse os calcanhares dele...- Não, minha senhora. Pode ter certeza de que não preciso de nada. Agradeço muito aatenção.- Que seja.Assim a patroa retirou-se e Tchitchicov retirou toda a roupa, entregando pela vão daporta para a empregada. Então foi deitar sobre o leito e descobriu que a criada lhepreparara uma cama com tantos travesseiros que chegava quase até o teto. Subindonuma cadeira ele galgou a cama e deitou, cedendo até quase o chão e fazendo voarplumas por todos os lados.Nosso herói acordou tarde no dia seguinte. O sol já estava alto e entrava pela janela,acordando as moscas, que vinham pousar em seu rosto.Um rosto espiava-o nu pelo canto aberto da porta, mas logo se escondeu. Tchitchicovpôs-se a pensar quem era e logo chegou à conclusão de que se tratava da dona dacasa.Sua roupa, seca e limpa, estava estendida ao seu lado. Olhando-se no espelhou deuum enorme espirro, de modo que um peru que se aproximara da janela gorgolejou-lheum bom-dia, ao que Tchitchicov o chamou de bobo. A janela dava para um galinheiro eera possível observar toda uma miríade de animais domésticos em grande quantidade.Atrás, via-se as casas dos camponeses, todas em bom estado. As porteiras nãoestavam tortas e havia até carroças de reserva e alguns casos até duas.“Eh, essa velha chora miséria, mas tem uma boa aldeia...”, pensou Tchitchicov eresolveu estreitar as relações com a patroa.

    Esticando a cabeça pelo vão da porta, viu-a sentada na mesinha de chá e

  • aproximou-se dela com ar alegre.- Bom dia, paizinho! Como foi sua noite? – disse a velha.- Dormi bem. E a senhora, mãezinha?- Mal, muito mal, paizinho.- Mas mal por quê?- Insônia, paizinho. A cintura dói, esse ossinho da perna dói, o braço dói... não

    para de doer...- Não se preocupe, mãezinha. Isso passa. É só não dar atenção.- Deus te ouça. Eu bem que me untei com banha de porco. Deus queira que faça

    efeito. Mas o que o senhor vai querer para o café? Aqui nesse frasco tem aguardentede frutas...

    - É, aguardente de frutas pode ser, mãezinha.O leitor irá perceber que Tchitchicov já tratava a velha com menos

    cerimônia do que usara com Manilov. É que na Rússia nós mudamos de acordo com ocargo ou a importância da pessoa com a qual falamos. De vez em quando encontramosalguém e dizemos: este não pode ser Ivan Petrovitch. Ele é muito mais baixo e não temesse ar arrogante quando está com seus superiores. Mas então chegamos perto econstatamos: “É sim, Ivan Petrovitch. Que coisa!”.- A sua aldeia é até grande, mãezinha. Quantas almas tem?- Tenho pouco menos de oitenta almas, mas os tempos estão tão ruins e as colheitassão tão... que Deus me livre e guarde...- Apesar disso, a vila parece em boas condições. Permita-me perguntar-lhe seu nome.Estava distraído ontem à noite quando cheguei.- Sou Nastácia Petrovna Korobotchka, secretária ministerial. E o senhor? Parece-meque é um assessor. - Não, mãezinha. Não sou assessor, mas viajo, digamos assim, a negóciosparticulares...- Ah, o senhor é um comprador! Pena que já vendi todo o meu mel e muito barato.Poderia vender ao senhor...- Bem, é que não estou interessado em mel.- Não quer mel? Talvez cânhamo? Mas confesso que tenho pouco cânhamo...- Não, minha senhora. Não quero mel nem cânhamo... diga-me: tem morrido muitos deseus camponeses?- Nem me fale! Nem me fale. Só este ano foram dezoito, todos homens, bonstrabalhadores. Uma desgraça! Verdade que nasceram outros, mas de que adianta?Tudo crianças... e chega o fiscal e manda pagar os impostos... pouco importa seestejam vivos ou mortos... paga-se o mesmo por um vivo ou por um morto. - Não quer cedê-los a mim, mãezinha?- Ceder quem, paizinho?- Esses aí, que estão mortos?- Os mortos, paizinho?- Esses mesmo, mãezinha.- Mas ceder como?- A senhora pode me vender eles.

  • - Confesso que não estou entendendo. O senhor vai desenterrá-los? Não sei, talvez euesteja perdendo dinheiro deixando o senhor levar assim os meus mortos...Tchitchicov inquietou-se. A velha não estava pescando nada. Ele teve que explicar quecompraria as almas apenas no papel e que os mortos ficaram em suas sepulturas,sendo vendidos como se estivessem vivos.- Mas para o que o senhor precisa desses mortos?- Isso é assunto meu.- Mas essas almas estão mortas, paizinho!- Eu sei que estão mortas. Nunca disse que estavam vivas. Por estarem mortas é quelhe dão prejuízo. A senhora paga imposto por elas, mesmo estando mortas. Eu comproe a senhora fica sem preocupações e sem pagamentos. A senhora só ganha,entendeu?- Eu não sei. Talvez eu tenha prejuízo. Nunca vendi almas mortas...- Mas... pense bem, seria um milagre se a senhora já tivesse vendido alguma. Asenhora por acaso acha que existe fila para comprar camponeses defuntos?- Não, Deus me livre de achar tal coisa. O que me confunde é que eles estão mortos.“Ai meu Deus”, pensou Tchitchicov. “Peguei uma boa...” .- Escute, mãezinha, a senhora mesmo disse que está se arruinando por causa da taxapaga pelos que já estão mortos...- Nem me fale. Há três semanas paguei cento e cinqüenta rublos... e isso porqueengraxei a mão do fiscal!- Pois veja só! A senhora está sendo arruinada, pagando por gente que não vale maisnada. Eu venho aqui e me ofereço para livrá-la dessa dificuldade... eu vou comprar e euvou pagar os impostos, entendeu? E então, o que me diz?A velha ficou pensativa. Sabia que o negócio era vantajoso, ou pelo menos assimparecia, mas por outro lado, havia a chance de estar sendo ludibriada por um homemque nunca vira...- Não sei não. Já vendi almas vivas. Há três anos vendi duas raparigas ao Protopope eele, parece ficou muito satisfeito, pois elas bordam guardanapos com as própriasmãos, moças prendadas... mas camponeses mortos... talvez... não sei. Tenho medo delevar prejuízo. Talvez o senhor esteja tentando me enganar. Preciso ver quanto é quecustam no mercado as almas mortas.Tchitchicov sentiu vontade de esganar a velha.- Escute aqui, mãezinha... essas almas de nada valem. Um pedaço de pano pode servendido para uma fábrica de papel, mas me diga: para quem a senhora irá conseguirvender um camponês morto? Ele não é nada, só pó... - Realmente, eles não valem nada, mas o que me incomoda é que eles estão mortos...eu não sei os preços que se paga por um camponês morto...“Diabo de velha cabeça-dura!”, pensou Tchitchicov e nessa hora já sentia vontade nãosó de esganá-la, mas de afogá-la, queimá-la e submetê-la a todos os suplícios jáimaginados pelo homem. A situação era tão difícil que o suor já começava a brotar emsua testa. Depois de enxugar o suor com um lenço, ele voltou à carga:- Mãezinha. Escute. Estou lhe pagando quinze rublos por essas almas mortas. Ou asenhora não me entendeu, ou está me fazendo de boba. Veja, eu lhe dou quinze rublos

  • por algo que não vale nada... por quanto a senhora vendeu o seu mel?- Doze rublos.- Não minta. Mentir é feio.- Juro por deus. Doze rublos.- Está certo. Doze rublos. Mas com o mel a senhora teve trabalho. Teve várioscuidados com as abelhas, teve de colher o mel. Já com as almas mortas a senhora nãovai ter trabalho nenhum, pelo contrário, vai até ficar livre dos impostos...Diante desse argumento tão cristalino, Tchitchicov jurava que a velha entregava ospontos, mas ela voltou à carga:- Veja bem... a minha situação de viúva é tão difícil. Não sei de nada. Talvez fossemelhor eu esperar chegarem outros compradores, para eu poder comparar o seu preçocom o que eles se oferecem...- Que vergonha, mãezinha! Veja o que está dizendo! Quem é que vai querer comprargente morta?- Não sei, talvez sirvam para alguma coisa na economia rural...eu realmente não estouplenamente a par do uso de defuntos numa fazenda...Tchitchicov coçou a cabeça:- Mãezinha... por favor, me diga para que a senhora vai usar esses defuntos... só sefor para espantar os pássaros da horta, como se fossem espantalhos...- Deus me livre. - disse a mulher, benzendo-se com um pai nosso.- E onde mais a senhora poderia aproveitá-los, mãezinha? E olhe, os mortos e suassepulturas e até seus ossos ficam aqui para a senhora aproveitá-los como quiser. Asenhora me vende eles apenas no papel. O que me diz?A velha ficou novamente pensativa.- Eu não sei. Talvez seja melhor vender-lhe o cânhamo mesmo.- Mas mãezinha, já estou perdendo a paciência! O que eu vou querer com cânhamo!Vamos diga, vende ou não vende?- Eu não sei, é uma mercadoria que nunca vendi, não sei o preço...Tchitchicov perdeu as estribeiras nesse ponto. Bateu a cadeira no chão e mandou avelha para o diabo.- Ai, não mencione esse nome, pelo amor de Deus! – exclamou a velha, fazendo o sinalda cruz. Ainda ontem sonhei com o tinhoso. Confesso que fiquei com vontade de porcartas para saber o futuro... e Deus deve ter me castigado.- Pois me admira que a senhora não sonhe com centenas de diabos todas as noites.Eu, aqui, querendo fazer uma caridade e a senhora me trata assim? Pois que vá paraos quintos do inferno a senhora, sua aldeia e todas as suas almas mortas!- Ai, que palavras horríveis! Se eu soubesse que o senhor era assim tão irritável, nãocomeçaria a contradizê-lo...- Eu, irritável? Esse negócio não vale nem uma casca de ovo, por que eu haveria deficar irritado? Sinceramente!- Está bem, está bem. Eu vendo minhas almas mortas, mas prometa que se tiver anecessidade de comprar trigo, vai comprar um pouco de mim.- Está bem, mãezinha. Então estamos combinados. Diga, a senhora tem alguém nacidade que possa representá-la?

  • - Tenho, tenho sim. O filho do protopope. É funcionário da Câmara Municipal...- Este serve. Por favor, mãezinha, escreva para ele uma procuração para elerepresentá-la nessa venda. Melhor, deixe que eu mesmo redijo e a senhora só assina.“Ah, talvez ele compre para o governo também minha farinha e meu gado. Deve ser umvendedor importante. É preciso agradá-lo. Vou mandar fazer um pastelão. Não custanada”, pensou a velha, e saiu para cuidar disso. Quando voltou, a procuração já estavapronta, só faltando assinar.- Assine aqui, mãezinha. Além disso, quero uma relação dos seus camponeses mortos.Nisso houve uma dificuldade. A velha não fazia anotação qualquer a respeito de seuscamponeses, mas felizmente sabia tudo de cabeça e só precisou ditar para queTchitchicov fizesse a lista. De vez em quando ele parava de escrever para apreciar onome de um ou outro camponês. Havia Piotr Savielhev Não-respeita-a-gamela, outrotinha um Tijolo-de-vaca no sobrenome. Outro chamava-se simplesmente Roda-Ivan.Quando terminava a lista, sentiu um cheiro gostoso de fritura.- O senhor faça um favor de experimentar um bocadinho. – disse a velha, e mostrou amesa repleta de quitutes: cogumelos, pasteizinhos, queijadinhas, pãezinhos, rosquinhas,torradinha, bolinhos, requeijão.Tchitchicov comeu até o umbigo fazer bico, gabando a gostosura daquilo tudo.- Ah, tudo aqui é muito gostoso. Talvez o senhor queira experimentar algumaspanquecas. – disse a proprietária.Em resposta, Tchitchicov enrolou três panquecas, molhou-as na manteiga e colocou-asna boca, devorando-as de uma só mordida.

    - Mãezinhas, são deliciosas. Por favor, mande atrelar minha carruagem. E, porfavor, mais algumas panquequinhas...

    A velha chamou a criada e deu-lhe as ordens com relação à sege. Nisso, onosso herói já atacava mais três panquecas.

    - É, verdade, as panquecas são muito gostosas, mas seriam melhores se acolheita de trigo... mas porque essa pressa toda, paizinho?

    Ela se espantara porque Tchitchicov já se levantava, colocava o gorro edepositava mais três panquecas na boca, para viagem, naturalmente.

    - Comigo essas coisas são rápidas mesmo, mãezinha. A carruagem já deveestar atrelada. Além disso, tenho outras coisas a fazer.

    - Por favor, não se esqueça de mim se precisar de banha de porco.- Nem penso em esquecer, mãezinha.- Talvez o senhor precise de pena de aves...- Vou precisar, mãezinha. Por favor, quero que me explique como se chega na

    estrada principal.- Mas como é que eu vou explicar? Tem tantas curvas. Só se eu mandar uma

    rapariga.- Uma rapariga está ótimo.Nastácia olhou-o desconfiada:- O senhor não está pensando em me roubar essa rapariga, está?- Minha senhora, o que eu iria fazer com a sua rapariga? Prometo que assim que

    chegarmos à estrada principal, eu a mando de volta.

  • A proprietária se tranqüilizou um pouco a ouvir essas palavras. Nisso já vinhachegando a carruagem.

    - Eh, Selifan! Por que demorou tanto? Ainda não se curou da bebedeira deontem? Quer que eu lhe cure com uma surra?

    O cocheiro não respondeu a isso e simplesmente abaixou a cabeça,envergonhado.

    - E a menina, mãezinha?- Pelagueia! Vai mostrar o caminho a esse senhor!Apareceu uma menina vestida com pano rústico e com os pés tão sujos de lama

    que pareciam botas.Selifan seguiu muito calado, o que sempre fazia quando se sentia culpado. No

    máximo, fazia alguma observação ao pedrez, estalando o chicote no lombo dopreguiçoso.

    - Viro à direita? – perguntou ele finalmente à menina.- Não, eu digo quando for a hora. Algum tempo depois a menina apontou com o dedo.- Mas que boba! Aqui é a direita! Não sabe o que é direita e esquerda?

    Algum tempo depois a menina apontou uma construção escura e distante:- Lá é a estrada principal.- E o que é aquela casa?- É a taverna.- Daqui para a frente podemos ir sozinhos. – decidiu Selifan, e ajudou a menina adescer da boleia.Tchitchicov deu-lhe uma moeda de cobre e lá se foi ela, feliz da vida por ter andando decarruagem e ainda lucrado com isso.

  • Capítulo 4 Tchitchicov mandou parar o carro na taverna por dois motivos: para dar comida aoscavalos e para ele mesmo comer um pouco. O autor deve confessar que sente invejado apetite e do estômago desse tipo de gente. Para o autor de nada significam os ricossenhores de Moscou e de São Petesburgo, com seus palácios e comida requintada.Esses senhores nunca despertaram sua inveja. Mas os senhores de classe média, quenuma parada pedem presunto, na outra pedem leitão, depois, numa outra parada, umalingüiça e, quando parece que estão satisfeitos, nós os vemos sorvendo uma sopa deesturjão com tanto gosto que desperta o apetite do espectador – esses sim gozam dainveja do autor.Nosso herói galgou as escadas da casa escura e deu com uma velha gorda, vestida dechita colorida.- Por aqui, por favor! – disse ela.- Tem leitão? – perguntou o viajante.- Sim, leitão, sem dúvida.- Acompanhado de raiz forte e creme azedo?- Sim, raiz forte e creme azedo.- Mande um.A velha trouxe um prato, um guardanapo tão engomado que se podia colocar em pé namesa e, ao contrário, um saleiro que ninguém conseguiria colocar de pé.Tchitchicov entabulou conversa com a velha. Fez várias perguntas pessoais e depoisenveredou pelo que lhe interessava: se havia proprietários rurais naquela região. Soubeque havia vários.Enquanto conversavam, chegou uma carruagem. Dela desceram dois homens. Umdeles era loiro, de porte alto. O outro era mais baixo e moreno.O loiro subiu logo as escadas, mas o moreno se demorou acariciando algo dentro dasege.O loiro cumprimentou Tchitchicov, o que era bom sinal, início de uma boa conversa,mas antes que pudessem entabulá-la, chegou o moreno, arrancou o boné da cabeça,jogou-o sobre a mesa e afofou com gesto vaidoso a vasta cabeleira.Tchitchicov logo reconheceu nele Nozdriov, que conhecera na casa do Procurador.- Ora, mas vejam quem encontro aqui! Por onde estava? Nós viemos da feira! Perditudo que tinha! Tive até que alugar uns cavalos, pois joguei os meus. Meu amigo,precisava ver. Perdi até o meu relógio! E pensar que se tivesse apenas mais vinterublos no bolso, teria recuperado tudo...- Foi isso que você me disse quando eu lhe emprestei cinqüenta rublos.- Eu fiz uma jogada errada, mas dessa vez eu não ia mais errar. Mas, meu amigo

  • Tchitchicov, que farra fizemos nos primeiros dias! Vendi tudo que trouxe da minhaaldeia. Bebemos com um oficial do exército. Para ele os melhores vinhos eram sóbordozinho: “Traga aqui um bordozinho, mano!”. Você acreditaria que eu sozinho fuicapaz de esvaziar dezessete garrafas de champanhe durante o almoço?- Qual nada, você não é capaz de beber nem dez garrafas!- Consigo!- Não consegue!- Vamos apostar, então!- Apostar o quê?- A espingarda que você comprou...- Eu não quero apostar nada!- Ah, meu amigo Tchitchicov, como lamentei que você não estivesse lá! O que teriacustado ir até lá? Digo que você é um porqueira! Um sujeitinho sem valor! Vem, beija-me, eu te quero tão bem! Meu amigo! Meu grande amigo! Olha, você não tem idéia decomo havia carruagens lá. Fomos a muitos bailes. Havia ali uma senhorita vestida debabados e franzidos e eu pensei comigo: “Que diabo!”, mas o oficial sentou-se ao ladodela e levou-a no papo. Aquele ali não deixa escapar nem uma camponesa! Chama aisso de aproveitar os moranguinhos! Mas me diga, meu amigo, para onde você vaiagora?- Vou visitar uma certa pessoa.- Que diabos! Então vai deixar o seu amigo sozinho? Venha à minha casa!- Impossível, tenho negócios a tratar.- Você está mentindo!- Juro que é verdade!- Ah é? Então me diga: com quem você vai fazer negócios, meu grande negociante?- Com Sobakevitch.Nozdriov explodiu numa gargalhada.- Sobakevitch! Há há há! Essa é boa! Pois eu lhe digo: vai se arrepender de ter ido láassim que chegar. Aquele é um avarento de marca maior! Aposto que vai searrepender! Vamos, venha comigo à minha casa. Prometo que temos o melhor esturjãoda região! Na feira tinha um comerciante e nós comíamos em sua barraca e ele diziaque era o melhor esturjão da região e eu dizia na cara dele: você é um safado! Umsujeitinho mentiroso! Pois se todos sabem que o melhor esturjão é o da minha fazenda!Ah, já ia me esquecendo... vou mostrar, mas aviso desde já que não vendo por menosde dez mil rublos. Eh, Porfírio! – gritou ele, para um criado que estava ao lado dacarruagem. Traz aqui o cachorrinho! Foi roubado. O dono não queria me vender. Tenteiaté trocar pela minha égua alazã, lembra-se dela?Tchitchicov não se lembrava de nenhuma égua alazã, mas não teve tempo de dizerisso. A dona da taverna já se aproximava.- O patrão vai querer comer alguma coisa?- Comer? Não. Mas se tiver aí uma vodka...- Sim, senhor...Nisso chegava Porfírio com o filhotinho.Nozdriov fez-lhe um carinho, de modo que ele se colocou de barriga para cima, para

  • receber melhor as cócegas.- Porfírio! Você não vale o que come! Eu não lhe mandei catar as pulgas dele?- Eu catei, meu senhor!- Catou nada! E o que são essas pulgas na barriga dele? Acho mesmo que vocêpassou algumas de suas próprias pulgas para o cachorrinho! Vamos, Tchitchicov, pegana orelha dele e veja como é um cachorro de raça.Nosso herói levou a mão ao cachorro e acariciou-o muito a contra-gosto:- Sim, é de ótima raça...- Vamos, toca no focinho dele. Veja como é frio!Para não melindrar o interlocutor, Tchitchicov tocou no focinho.- Tem bom faro...- Sim, vai dar um ótimo perdigueiro. Juro por Deus que há tempos estava atrás de umperdigueiro... mas ouve, Tchitchicov, você tem que vir comigo à minha casa. Não vouperdoá-lo se não vier.Nosso herói pensou no assunto: “Talvez seja um bom negócio ir com ele. Parece queperdeu tudo no jogo e vai querer me vender suas almas...”- Está bem, eu vou!- É assim que fala! E você também vem comigo, meu cunhado!O loiro se esquivou:- Não, eu tenho que voltar para casa...- Nada disso, vou ficar muito magoado se me fizer essa desfeita!- Minha mulher vai ficar uma fera!- Nada disso! Esqueça sua mulher! Você vai para minha casa comigo!O loiro era daquele tipo de gente que começa discordando. Mal o outro fala e ele jáestá dizendo que não, mas mal ouve as primeiras palavras e já está dançado conformea música alheia. Era como aquele que começa mandando e termina borrando.- Então vamos, meus amigos!- Patrão, o senhor esqueceu-se de pagar a sua vodka!- Oh, sim. Meu cunhado! Por favor, pague para mim...- Quanto é a conta? – perguntou o cunhadinho.- Quase nada, meu senhor. Só vinte copeques.- Que roubo! Pague só metade. Dá e sobra...O cunhado pagou e a senhora não só não fez cara feia como ainda correu para abrir-lhes a porta. Na verdade ela tinha cobrado quatro vezes o valor da vodka.Durante o caminho, as duas carruagens foram alinhadas, de modo que podiamconversar.Já que a conversa deles vai ter pouco interesse para a trama, vamos aproveitar parafalar um pouco de Nozdriov. É um tipo que todo mundo conhece. Não há quem nãotenha tido um colega de escola como ele: fazem amizade com facilidade e são grandescompanheirões, mas nem por isso deixam de ser espancados. Aliás, com a mesmafacilidade com que fazem amigos, brigam com eles. Mal conhecem alguém e já otratam com absurda intimidade. São gente tagarela, enxerida, boêmia, farrista. Ocasamento não o modificou em nada, tanto que a mulher logo resolveu comprar umapassagem para outro mundo, deixando-o com duas crianças que eram criadas por uma

  • ama de leite jeitosa.Nozdriov não conseguia ficar em casa um dia sequer. Na verdade, uma única hora jáera um suplício para ele. Mal chegava e já estava farejando uma feira, um baile, umencontro para carteado. Aliás, no jogo de cartas não costumava ser muito honesto, demodo que a aventura geralmente terminava em uma surra ou, quando pouco, lhearrancavam as suíças, deixando uma menor que a outra. O mais engraçado é quequando ele se encontrava com os que o haviam surrado, ele os tratava na maiorintimidade e nem parecia que ele já tinha conhecido a força dos socos daquelesqueridos amigos.Convidá-lo para uma festa era ter a certeza de que ele seria carregado e jogado parafora assim que passasse dos limites.

    Às vezes contava tantas patotas que até ele mesmo depois, sóbrio, acabava seenvergonhando de suas mentiras e não acreditava que as havia contado. E mentia semnecessidade nenhuma: contava que tinha um cavalo com asas, ou com pelo cor-de-rosa, do modo que os outros iam se afastando cautelosamente.

    Aqueles que dele se aproximavam, logo sofriam com sua ação daninha: era umcasamento desfeito, um negócio que falia, uma intriga sem pé nem cabeça. E o pior éque ele nem considerava as vitimas como seus inimigos. Se as encontrasse na rua, ialogo abraçando e reclamando, com a maior cara-de-pau:

    - Mas então, meu tratante? Você não ficou de me visitar?Se ganhava no jogo, comprava milhares de coisas na feira, até ficar sem

    nenhum, mas não chegava com essas coisas em casa: era logo depenado por um maisesperto. Tinha fraco por apostas e seria capaz de apostar até a mãe, se ela estivesse viva.Assim que chegaram, Nozdriov se pôs a mostrar-lhes a fazenda, gabando tudo queencontrava pela frente, mas quando afirmou que pagara dez mil rublos por umpotrozinho remelento, o cunhado não se conteve:- Que o quê! Mas quando que você pagou dez mil rublos nesse pangaré!- Eu juro que paguei!- Não pagou!- Vamos fazer uma aposta, então.O cunhado não queria saber de apostas, de modo que ficou o dito pelo não dito. Entãoo anfitrião se sentiu à vontade para mostrar os seus queridos cachorros. Fez com queos dois amigos acariciassem os animais para sentir-lhes o pêlo macio e tocassem emseus focinhos.- Aqui nesse campo há tantos coelhos que dia desses peguei um com as mãos. –afirmou Nozdriov.- Ah meu Deus! Um coelho com as mãos! – suspirou o cunhado.- Juro que peguei. Se duvida, mais tarde posso fazer de novo. Ou podemos fazer umaaposta...Depois levou-os para ver os limites:- Estão vendo aquele bosque? Também é meu!- Com o quê! – reclamou o cunhado. Se não era seu quando viajamos para feira!- Que bobalhão! Deixei dinheiro com o administrador para comprar essas terras, está

  • claro.- Só se foi o administrador... – resmungou o outro.Depois mostrou sua coleção de cachimbos e um realejo que começava uma música eterminava outra, além de ter adquirido vida própria, ficando tocando muito tempo depoisde ter terminado a corda.Já era quase cinco horas quando se sentaram para comer. A comida, ou estavaqueimada, ou crua. O cozinheiro parece que era cego, pois colocava na comida aquiloque estivesse mais perto. Se desse com banana enquanto estava fazendo sopa, lá ia abanana para a sopa... se descuidava da comida, o proprietário primava por um bomvinho. E era vinho forte, batizado com vodka.O repasto já terminara, os vinhos todos já haviam sido provados, mas os convivascontinuavam à mesa.Tchitchicov não queria tocar no assunto perto do cunhado, que era pessoa estranha epodia botar tudo a perder. Felizmente, o outro já estava mesmo doido para ir embora.- Não, não vai embora. Já vou arrumar a mesinha de jogo. – disse Nozdriov.- Deixe-me ir, cunhado. Preciso contar para minha mulher como foi a feira...- Mande sua mulher para o diabo!- Não fale isso. Ela é uma mulher tão boazinha, tão fiel. Presta-me tantos serviços...fico até com lágrimas nos olhos. Não, por favor, não me segure mais aqui.- E o que é que você tem de tão importante para fazer com sua mulher, hein?- Por favor, cunhado. Não me faça isso. Preciso ir. Não é bom magoar minhaesposinha... ela é tão boazinha, fico até com lágrimas nos olhos...- Está bem, que vá para o diabo, molengão! Vai voando para ela, anda!O outro pegou o gorro e foi embora, repetindo suas desculpas, mesmo depois desentado na carruagem.- Molengão! – resmungou Nozdriov quando o outro partiu.Quando entraram de novo na casa já ia escurecendo e Porfírio trouxe algumas velas.Tchitchicov viu de repente aparecer nas mãos do anfitrião, não se sabe de onde, umbaralho de cartas.- E então, meu amigo... vamos jogar um pouquinho só para abrir o apetite? Eu abrocom trezentos rublos.- Está bem, mas antes quero lhe fazer um pedido.- Que pedido?- Um pedido simples. Primeiro promete que vai atendê-lo...- Prometo.- Jura?- Juro.- Então o pedido é o seguinte: você deve ter muitos camponeses mortos que ainda nãoforam riscados da lista do governo... - Certamente. O que quer?- Quero que os passe para meu nome.- Mas para que você precisa de tal coisa?- Preciso porque preciso...- Sei não, você deve estar tramando alguma coisa...

  • - Tramando alguma coisa? O que se pode tramar com almas mortas? Uma ninharia...- Mas então por que não quer me dizer?- É um capricho, só isso.Nozdriov olhou, desconfiado.- Capricho nada. Você está aprontando alguma... vamos, diga, ou nada feito.- Está bem, está bem... é que estou apaixonado, mas os pais da noiva exigem que onoivo tenha 300 almas, e não tenho nem 150. Essas almas mortas me ajudariam amanter as aparências. Eis aí. Não disse isso nada a ninguém. Só você sabe...- Companheiro, você está mentindo!- Mas... por que cargas d´água eu iria mentir? É a verdade verdadeira. Nunca houveoutra verdade!- Aposto a cabeça como é tudo mentira!- Isso já está virando ofensa pessoal. Por que acha que não faço outra coisa, senãomentir?- Por que eu te conheço, mano. Sei que é um grande malandro. Se eu fosse o chefe depolícia, mandava enforcá-lo na primeira árvore.Tchitchicov sentiu-se ofendido. Ele não gostava de familiaridades, a não ser que ointerlocutor fosse de uma posição mais elevada.- Isso já está passando dos limites! Essa é linguagem para usar com um amigo? Masvamos, se não quer me dar as almas de presente, por que razão não as vende?- Vender? Mas estou certo de que você não pagará o preço justo...- Mas essa é boa! Afinal, do que são feitas as suas almas? De ouro?- Escuta, mano. Vou mostrar que sou um amigo de verdade: compra o meu potro e eute dou as almas de presente.- Mas... o que eu vou fazer com um potro? Valha-me Deus!- Mas é um negócio imperdível! Eu paguei dez mil rublos e vendo para você por apenasquatro mil...- Mas o que eu vou fazer com o seu potro? Eu não faço criação...- Você não está entendendo. Você só me paga três mil rublos. O restante você mepaga depois...- Já disse que não preciso de nenhum potro!- Certo, certo... então você me compra a égua alazã.- Não quero nada com sua égua alazã.- Então me compra uns cães. Tenho ótimos cães, tão bons que me arrepia a pele sóde pensar...- Para que eu vou querer um cão? Nem mesmo caço...- Meu amigo, estou fazendo um favor. Eu gostaria muito que você tivesse um cachorro.Uma vida sem um cachorro não é vida que se viva! Mas, vamos... então me compra orealejo.- Mas o que eu vou fazer com um realejo, que, além de tudo, está quebrado?- Não diga isso! É uma obra-prima!E aqui Nozdriov passou a mostrar o realejo para o amigo. Tchitchicov sacudia acabeça.- Está bem, eu te dou o realejo e todas as almas mortas em troca da sua carruagem.

  • - Mas como eu vou me locomover depois?- Eu te dou outra carruagem. Vem, eu te mostro...E lá se foram para o pátio, onde se depararam com uma carruagem caindo aospedaços. As partes de madeira estavam tomadas de cupins e as de metal erammorada de ferrugem.- É só pintar que fica nova! – exclamou Nozdriov.- De jeito nenhum!- Então, façamos o seguinte. Vou fazer uma proposta de amigo... vamos jogar acarruagem. Eu aposto o realejo e todas as almas mortas.- Não.- Mas não porque?- Porque no jogo se arrisca a sorte. Eu só quero fazer um negócio...- Você é mesmo um moleirão de pior marca! Por que não joga?- Não gosto de jogo de cartas!- Antes eu pensava que era um homem direito, mas agora vejo que é mesmo ummoleirão! Não temos mais nenhuma relação! Porfírio, vai dizer ao cavalariço que não dêaveia aos cavalos desse moleirão!Por essa Tchitchicov não espera. Apesar disso, os dois jantaram, embora não tenhaaparecido na mesa nenhum vinho de nome diferente.Depois do jantar, Nozdriov acompanhou o visitante até seu quarto.- Aqui está sua cama. Faça bom proveito. Não te desejo nem boa noite!Tchitchicov mal dormiu aquela noite. Recriminava-se por ter perdido seu tempo vindo àfazenda de Nozdriov. Além disso, milhões de insetos minúsculos o atacaramincessantemente, de modo que ele passou a noite se coçando e mandando tudo aodiabo.Acordou bem cedo. Colocou um roupão e saiu para o pátio, para ordenar a Selifan queatrelasse logo a carruagem. Voltando ao pátio, encontrou com Nozdriov, também deroupão, pitando um cachimbo.- Então, meu querido amigo, como passou a noite?Tchitchicov resmungou alguma coisa.- Pois eu dormi muito mal. Uns bichos me atormentaram a noite inteira. Além disso,sonhei que me davam uma surra...“Era bom mesmo que te curtissem o couro!”, pensou Tchitchicov.- É verdade, não acredita? Até acordei todo dolorido. Pode ir se vestir, mano. Já meencontro contigo para comermos alguma coisa.Tchitchicov entrou no quarto e se vestiu e lavou-se. Quando saiu, a mesa estavapronta. A sala ainda mostrava vestígios do almoço, do jantar e do café-da-manhã dodia anterior. Ao que parecia, a vassoura era um instrumento totalmente desconhecidonaquela casa.- Então, meu amigo, já pensou melhor? Não quer jogar umas cartas?- Já disse que não, mano. Se quiser vender, eu compro, mas cartas não.- Então vamos abandonar as cartas. Vamos jogar damas! Se você ganhar, as almassão todas suas. Porfírio, traz aqui o tabuleiro de damas!- Esqueça, não vou jogar!

  • - Mas, mano, assim você me ofende. Que custar jogar damas? Em damas não podehaver azar ou trapaça. E eu ainda dou uma vantagem inicial.“Pois bem”, pensou Tchitchicov. “Nesse jogo é difícil ele trapacear”.- Está bem, aceito.- Ótimo. As almas por 100 rublos.- Por que tanto? Basta 50...- Que seja, mas quanto é que você vai me dar adiantado? – disse Nozdriov.- Nada. Para que isso?- Então pelo menos me dá dois lances de vantagem...- Já começou mal...- Já estava sabendo que ia jogar mal. – afirmou Nozdriov, iniciando a partida.- Realmente, faz um tempo que não jogo.- Já se via logo que você joga mal. – disse Nozdriov, movendo uma pedra e, ao mesmotempo, puxando outra com o punho da manga.- Ei, o que foi isso, mano? Põe de volta!- Pôr de volta? O quê?- A pedra que você moveu com a manga da camisa. Ei, e aquela ali se fazendo passarpor dama?- Mas você não se lembra que eu acabei de fazer dama?- Acabou de fazer dama o que! Mal começamos o jogo! Desisto! Não se pode jogarcom alguém que move três peças ao mesmo tempo!- Por quem você me toma? Acha que eu uso de trapaça?- Não te tomo por coisa nenhuma! Só sei que por mim o jogo acabou.- Não se pode desistir de um jogo no meio!- Pode-se desistir quando o outro não se contenta em jogar uma peça de cada vez...- Eu não trapaceei e você vai ter que terminar essa partida.- Não termino nada. – disse Tchitchicov, misturando as peças no tabuleiro.- Vai terminar sim. Não adianta misturar as peças, que eu me lembro da ordem detodas elas!- Não mano. Acabou. Não vou jogar nada contigo.- Então repete para mim.- Eu não quero jogar. – disse Tchitchicov, afastando-se um passo e colocando as mãosdiante do rosto.Foi uma precaução de grande utilidade, pois logo Nozdriov avançava com uma bolacha,mas nosso herói segurou-lhe ambas as mãos.- Porfírio! Pávluchka! - gritou Nozdriov, forçando para libertar-se.Vendo a situação que se metera, Tchitchicov largou as mãos do proprietário, aomesmo tempo em que os dois criados entravam na sala. Pávluchka era um rapagãoreforçado, de modo que não havia nenhuma vantagem de entrar em atrito com ele.- Vamos, responde-me: quer ou não quer terminar o jogo?- Impossível continuar! Não posso jogar com um homem desonesto.- Canalha, quando percebeu que estava perdendo, me saiu com essa. Vamos dar umasurra nesse tratante!E os três avançaram como se fossem tenentes atacando uma fortaleza inexpugnável.

  • Mas a fortaleza não tinha nada de inexpugnável. Pelo contrário, a fortaleza sentia tantopavor que o coração parecia ter ido parar nos calcanhares. Ele já se preparava parareceber uns cascudos quando o soar de uns guizos salvaram-no. Nisso um oficial entrouno recinto.- Queiram me informar se é a aqui que mora o senhor Nozdriov. – disse o homem,olhando ao mesmo tempo para Nozdriov que brandia o cachimbo e para Tchitchicov,cujas pernas tremiam como vara verde.- Permita-me indagar primeiro: com quem tenho a honra de falar?- Com o capitão da polícia distrital.- E o que o senhor deseja?- Vim para notificar o senhor Nozdriov a respeito de um processo de agressão contra oproprietário Maximov...Enquanto os dois entabulavam conversa, Tchitchicov aproveitou a oportunidade eescafedeu-se pela porta. Ligeiro como uma lebre, meteu-se na carruagem e ordenou aSelifan que saísse dali o mais rápido possível.

  • Capítulo 5 Nosso herói continuava apavorado. Embora a carruagem já estivesse bem distante daaldeia de Nozdriov, ele olhava o tempo todo para trás, temendo estar sendoperseguido. Ao colocar a mão no coração, descobriu que ele retumbava como umtambor. “Podem pensar o que quiserem, mas se o Capitão não tivesse chegadonaquele momento, juro que não teria mais visto a luz do dia!”, e emitiu uma série depalavras impublicáveis contra Nozdriov.

    Selifan também soltava imprecações contra o proprietário:- Que patrão ruim! Deixar os cavalos sem aveia! Não se pode fazer isso, pois a

    aveia é a comida do cavalo. É como o mingau para nós. Bem merecia que lhecuspissem na cara!

    Os cavalos, pelo jeito, também estavam pensando mal de Nozdriov. Não só obaio, mas também o presidente e o pedrês estavam de mau humor. Se bem que esseúltimo sempre recebesse a pior parte, mas ainda assim era aveia e ele mastigava comprazer, e não feno.

    Mas todos os descontentes foram interrompidos em suas meditações por umincidente. De repente viram-se abalroados por uma carruagem de seis cavalos eouviram os gritos de um cocheiro:

    - Ei, você aí, patife! Não ouviu quando eu gritei: “À direita. Vira à direita!”. Estásurdo ou bêbado?

    Selifan percebeu que bobeara, mas como bom russo, não quis dar o braço atorcer:

    - E você, seu tratante? Aonde vai com tamanha pressa?Depois de muitos desaforos mútuos, os cocheiros decidiram que o melhor a

    fazer era tentar desembaraçar os cavalos. Mas não era fácil, pois estava tudoemaranhado. Enquanto isso, as duas senhoras dentro da sege olhavam tudo comexpressão de medo. Uma delas era a velha, mas a outra era uma mocinha muitobonita, de uns dezesseis anos, de cabelos dourados e rosto oval e pele branquinhacomo um ovinho. Com aquela expressão de medo era tão encantadora que o nossoherói ficou a olhar para ela durante vários minutos, sem prestar atenção à confusão quese formava em volta das duas carruagens.

    O tumulto chamara atenção dos camponeses. Como nessas aldeias nãoacontece nada, um fato desses é coisa para se contar para os netos. Assim, cada umque se aproximava queria dar sua opinião, pois, como é comum ao caráter russo, logose tornaram especialistas em resolver situações como essa.

    No decorrer de todas essas manobras, Tchitchicov olhava interessado para adesconhecida. Tentou mesmo entabular conversa com ela, mas antes que conseguisse,

  • as duas carruagens já tinham se soltado e as duas mulheres já desapareciam nohorizonte.

    “Jeitosinha”, pensou Tchitchicov, abrindo a tabaqueira. E o que havia de jeitosonela era justamente seu jeito jovem, natural, ainda não desvirtuado pela sociedade.Dela se poderia moldar qualquer coisa, e ela poderia vir a ser uma maravilha, assimcomo poderia ser uma porcaria. Aliás, provavelmente virá a ser uma porcaria. Em umano a encheriam de tanta futilidade que nem mesmo o pai será capaz de reconhecê-la.“Mas seria curioso saber quem é ela e a que família pertence”, pensou nosso herói.“Se ela tiver um dote de duzentos milheiros de rublos, poderia fazer a felicidade dequalquer homem. Ah se poderia...”, e continuou com essas reflexões carinhosasdurante todo o caminho.

    Mas logo a aldeia de Sobakevitch apareceu diante dele. Pareceu-lhe grande eestranha. O arquiteto, ao que parecia, era pedante e queria simetria, mas o dono tinhaoutras idéias e o resultado era um monstrengo que oscilava entre vários estilos. Afachada frontal não ficara no centro do prédio, pois o dono mandara tirar uma dascolunas laterais, resultando em uma frente com três colunas em vez das quatroevidentemente haviam sido previstas. O quintal era cercado por uma grade de madeiraforte e grossa. Tudo ali parecia refletir solidez. Até mesmo os isbás dos camponesesnão eram casebres comuns. Não ostentavam entalhes de madeira e outras fantasias,mas tudo era reforçado e admiravelmente construído.

    Ao entrar na casa, Tchitchicov foi recebido por um criado e depois o próprioSobakevitch veio ao seu encontro. Desta vez pareceu-lhe positivamente um urso. Paraaumentar ainda mais a semelhança, vinha com uma roupa de cor de urso. Pisava forte,fazendo estalar a madeira do piso e de vez em quando pisando nos pés dos outros.Conhecendo esse costume do o anfitrião, Tchitchicov mantinha-se à distância e deixavasempre o outro ir na frente.

    Foram para a sala de visitas, toda enfeitada por retratos de generais e outrosvalentões. Todos esses heróis tinha coxas tão grossas e bigodes tão indescritíveis, queaté davam arrepios no corpo todo. Mal chegaram e adentrava a sala a dona da casa.Era uma mulher bastante alta e andava majestosamente, empinada como umapalmeira.

    - Essa é a minha Feodúlia Ivanovna. – disse o anfitrião, apresentando-a.Nosso herói se inclinou e beijou-lhe a mão.- Queridinha, este é Pavel Ivanovitch Tchitchicov, que conheci na casa do

    Governador. – disse o urso.- Encantada. – exclamou a senhora e sentou-se, fazendo um movimento de

    cabeça daqueles que fazem as atrizes quando representam papel de rainhas. Depoisdisso não moveu uma única sobrancelha.

    Durante quase cinco minutos todos se conservaram em silêncio.- Falamos do senhor na casa do senhor Presidente da Câmara. – disse por fim

    Tchitchicov, querendo puxar conversa. Passamos momentos agradáveis. Que homemexcelente!

    - Quem? O Presidente?- Isso.

  • - Bem, o senhor pode pensar o que quiser, mas para mim ele é um verdadeiroimbecil.

    Tchitchicov ficou abalado com aquela definição tão áspera, mas tratou logo decorrigir-se:

    - Claro, ninguém é perfeito... mas, em compensação, o governador...- Aquele bandido?- Bandido? Como assim? – gaguejou nosso herói, sem saber como o governador

    fora parar na categoria dos bandidos.- Tem também cara de bandido. É colocar uma faca na mão dele e deixá-lo na

    estrada que ele esfaqueará o primeiro que encontrar.“Errei o caminho. Com esses ele não tem boas relações”, pensou Tchitchicov.

    “Vou tentar o chefe de polícia. Esse parece que é seu amigo”.- Mas confesso que de todos, gosto mais do chefe de polícia. Parece um

    caráter reto.- É um trapaceiro! É capaz de trair uma pessoa e depois almoçar com ela

    depois de tudo. Um gatuno, assim como os outros. Todos um Judas. Só existe nacidade um homem decente.

    - Ah é? – exclamou Tchitchicov, cheio de esperanças.- Sim, o procurador.- Que boa pessoa!- Pena que seja um porcalhão!

    Após tão elogiosas biografias, Tchitchicov convenceu-se de que não era boa estratégiacitar outros funcionários.

    - Como é, queridinho? Vamos almoçar? – disse a esposa.- Por favor. – respondeu o marido.Chegando à mesa, hóspede e anfitrião tomaram um gole de vodka,

    acompanhando-o com toda sorte de salgadinhos e petiscos. Depois começaram acomer. E era muito comida.

    - A sopa de repolho, queridinha, está boa hoje.- disse Sobkevitch. Comida comoa daqui o senhor não encontrará na cidade.

    - Na casa do Governador se come bem...- Mas se o senhor soubesse como é preparada a comida lá, não teria coragem

    de comer nada.- Confesso que não sou especialista, mas as almôndegas e o peixe cozido

    estavam excelentes.- É o que parece, mas se soubesse... O cozinheiro dali é um esperto, que vai ao

    mercado, compra um gato e serve como lebre.- Meu queridinho, que coisas desagradáveis está dizendo aí? – perguntou a

    esposa.- O que você quer que eu faça, minha querida? Não é culpa minha se todos eles

    são assim. Tudo que minha cozinheira joga no lixo, eles colocam na sopa. Juro que éassim.

    - Sempre fala essas coisas à mesa. – reprovou a esposa.- Minha queridinha, não tenho culpa se as coisas são assim. Só falo o que é

  • verdade. Veja uma perna de rã... podem empanar em açúcar que eu não coloco naboca, pois sei que bicho que é... agora, prove esse lombo de carneiro com molho detrigo! Isso sim é comida! Agora estão com essa história de progresso, de servirdelicadezas! Bando de germânicos! Aqui, quando servem porco, quero que tragam oporco inteiro para a mesa. Quando servem carneiro, comemos o carneiro inteiro.

    E o anfitrião confirmou suas palavras com atos, colocando metade do carneirono prato e devorando-o até o último ossinho.

    Tchitchicov espantou-se: “Esse sim é um bom garfo!”.- Aqui em casa não é assim. Não sou como Pliuchkin, não senhor. Esse homem

    é dono de oitocentas almas, mas come pior que meus pastores. Além disso, trata seusservos a pão e água.

    Tchitchicov interessou-se:- Quem é esse?- É um gatuno avarento! Mata de fome seus empregados.- Morrem muitos?- Como moscas!Tchitchicov sentiu uma alegria no coração:- E mora longe?- É nosso vizinho.- Saindo daqui, é à direita ou à esquerda?- Eu não o aconselharia a fazer negócios com ele..