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Almino entrevista

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Text of Almino entrevista

  • 1. 1 CONVULSES INTESTINAS O ex-ministro e deputado federal Almino Affonso, um dos ltimos protagonistas vivos do Governo Joo Goulart, analisa as entranhas do processo que levou deposio do presidente, em 2 de abril de 1964. (Entrevista a Gabriel Priolli, em fevereiro de 2014.) O presidente trabalhista e seu ministro do trabalho
  • 2. 2 RAZES DO GOLPE Dr. Almino, quando comeam os problemas polticos que vo levar queda do governo Joo Goulart? Acho que as motivaes vm desde 1950, por incrvel que parea, quando Getulio Vargas chega ao poder, j ento numa eleio com uma vitria excepcional. Entre os temas mais significativos do seu governo naquele perodo, houve a proposta da Petrobrs, a criao de uma empresa diretamente vinculada s questes do petrleo. Ela provocou uma diviso de opinies, a respeito de como proceder, muito radical. Havia a tese que ns sustentvamos, os nacionalistas, em favor do monoplio estatal do petrleo, e uma tese dos setores mais conservadores e dos interesses americanos, que optavam por uma sada privatista, capaz de permitir a participao do capital privado nacional e, na prtica, do capital estrangeiro. Outro ponto a Eletrobrs, que tambm nasce como proposta do perodo Getulio Vargas, l atrs, em 1950. Esses dois temas, que foram muito polmicos, atravessam todo aquele perodo, com uma enorme influncia nas questes polticas e, de uma maneira muito direta, nas eleies. Quando Goulart chega ao poder, j traz consigo resistncias ponderveis dos setores conservadores do pas, e dos Estados Unidos em particular, por conta desses dois temas. Esta a origem que realmente precisa ser levada em conta, para que no parea que tudo foi um acaso em 1964. O pano de fundo da poltica, ento, nesse perodo de 1950 a 1964, seria o debate a respeito de uma economia totalmente livre e internacionalizada, aberta ao capital estrangeiro, versus uma poltica de fortalecimento do poder de estado e de defesa de interesses nacionais? quela poca, de fato, a viso de como proceder o desenvolvimento econmico do pas tinha duas premissas. Uma atravs da interveno da iniciativa privada em todos os ramos e uma outra que reclamava uma interveno direta do estado, como fator propulsor do desenvolvimento econmico. A segunda chamamos de nacionalista e realmente marca, de maneira muito aguda, a elaborao dos nossos projetos polticos e econmicos. Discutamos se devamos ter ou no a iniciativa privada em tantas atividades econmicas importantes. Alm do petrleo e da energia eltrica, perguntvamos se outros setores tambm no deveriam se desenvolver com a presena predominante do estado, como a indstria farmacutica, a Aerobrs e outras tantas.
  • 3. 3 Essa questo do nacionalismo e do fortalecimento do papel do estado que dividia os campos polticos, esquerda, direita? Como era o quadro poltico, em relao a essa questo? O Partido Trabalhista Brasileiro era aquele que mais de perto encarnava uma viso nacionalista, ao lado do Partido Nacionalista Brasileiro. Mas todos os partidos, menos talvez o de origem integralista, subdividiram-se internamente em faces de carter nacionalista e no-nacionalista. O PTB, a UDN, o PSB, todos ganharam uma faco nacionalista, que passou a ter peso significativo. Da nasceu a Frente Parlamentar Nacionalista, precisamente incorporando esses grupos, que eram a rigor embries de um futuro partido que no nasceu. A Frente nasce em 1958, portanto ainda no perodo Juscelino Kubitschek. Mas ela prorroga-se em seguida no governo Joo Goulart, com muita nfase. GUERRA FRIA Nesse contexto de que estamos falando, o auge da Guerra Fria, anos 50, embate forte entre Estados Unidos e Unio Sovitica, tudo que soasse como nacionalismo era perseguido ou combatido como comunismo potencial? Isso realmente tinha uma cara paradoxalmente ligada ao choque entre os Estados Unidos e Unio Sovitica, no ciclo que se chamou de Guerra Fria. Eram duas potncias disputando o poder, inclusive em termos da bomba atmica, e por conta disso havia sempre a questo econmica. Uma viso nacionalista, que implicasse limites entrada do capital estrangeiro na economia nacional, criava um choque maior. Para os Estados Unidos, o monoplio estatal do petrleo era algo que contrariava os seus interesses e de alguma forma parecia favorecer a Unio Sovitica. A poltica americana para o Brasil era diferente do restante da Amrica Latina? Ou, no contexto da guerra fria, os Estados Unidos tratavam de assegurar que todo o continente estivesse sob a sua influncia? Nada era realmente limitado ao Brasil. Ao contrrio, como projeo da guerra fria, os Estados Unidos passaram a ter uma poltica rigorosamente de estmulo, de apoio intensivo a golpes de estado na Amrica Latina, que pudessem conter polticas limitadamente nacionalistas. Isso se deu de maneira quase absoluta na regio. Comea pela Argentina. Nosso golpe foi em 1964, a Argentina tinha sido em 1963. Em seguida, voc tem na Bolvia, no Paraguai, no Peru, depois mais tardiamente no Chile. A viso era a mesma. Alm de outras razes de ordem poltica global, havia a questo
  • 4. 4 econmica, a de ter pases abertos ao capital privado. Vale dizer, ao capital americano. Esse papel dos Estados Unidos na Amrica Latina j era claramente percebido nesse perodo? Sem dvida, no era uma viso s minha. Era a viso coletiva dos chamados setores nacionalistas. Mas importante destacar tambm que no era algo to globalizado, a ponto de no haver excees. Por exemplo, o Governo Juscelino Kubitschek claramente dividiu-se. Ele tinha um compromisso nacionalista absoluto no mbito do monoplio estatal do petrleo, mas no mexeu uma palha para que se constitusse a Eletrobrs. O projeto de Getlio Vargas atravessou daquela poca at o Governo Joo Goulart, para se converter em lei. O governo do Juscelino caracteriza-se pelo chamado Plano de Metas, uma abertura clarssima ao capital estrangeiro. No mbito do automvel, da indstria naval, nas mais diferentes reas da economia industrial, Juscelino abriu espaos significativos. Eu diria que ele faz o equilbrio entre a abertura do capital ao mundo estrangeiro e a preservao do monoplio estatal do petrleo. Ou porque acreditava realmente nisso ou porque tinha ao lado um ministro da guerra, Teixeira Lott, que era absolutamente favorvel ao monoplio. Como o senhor avalia a figura de Joo Goulart nesse perodo? A demonizao que ele enfrentou quando presidente j comea nesses anos 1950, quando defendia bandeiras nacionalistas? Joo Goulart tem uma carreira poltica que comea muito jovem, como deputado estadual no Rio Grande do Sul. Depois, como deputado federal e mais ainda como um aliado direto de Getlio, inclusive cumprindo tarefas na campanha que ele travou contra o General Dutra. Jango foi umas das lideranas talvez mais significativas, na tarefa de levar ao pas a mensagem de Getlio, quando ele era candidato a voltar ao poder. Nesse segundo governo de Getlio, Jango ministro do trabalho, diretamente ligado questo social, ao dilogo com dirigentes sindicais. Tem a audcia de tentar fazer de imediato um aumento substantivo do salrio mnimo, na ordem de 100%. Ou seja, ele era percebido, inicialmente, por um conjunto de aspectos na rea social, mais do que pela tentativa de implementar um projeto nacionalista. O deputado Leonel Brizola disse que Jango trazia a marca poltica do nacionalismo da juventude, por conta das grandes empresas que transacionavam na rea da carne no Rio Grande do Sul e atingiam interesses pessoais dele. Brizola j previa o confronto de Jango com as empresas internacionais. Eu no sei. Mas, a partir do instante em que Joo Goulart assume a Presidncia, anos depois, a sua face nacionalista fica evidente. Era uma projeo ntida do que ele tinha aprendido ao lado de Getulio Vargas.
  • 5. 5 VICE-PRESIDNCIAS Estamos nos anos 1950 e, na poca, presidente e vice-presidente eram votados separadamente, no formavam uma chapa. Jango torna-se vice-presidente de Juscelino e depois, de Jnio. Como se d esse processo? O quadro poltico desses anos tem vrias nuances, que nem sempre so fceis de explicar. Num certo momento, a candidatura que o Juscelino Kubitschek propunha nos bastidores era a de Juraci Magalhes, a grande figura da UDN. Era um paradoxo total, ele indicar como seu sucessor um adversrio poltico! Mas era o rumor que corria naquela poca e que depois Jnio Quadros confirma nas suas memrias, com a mais absoluta clareza. Juscelino imaginava que, atravs da candidatura de uma liderana da UDN, o pas passaria por um perodo de calma maior, porque a UDN deixaria de ter qualquer inteno conspiratria para chegar ao poder. Chegaria pelas urnas, se conseguisse. Ele tambm achava que uma candidatura udenista no levaria contestao permanente do governo, por conta do petrleo. Mas essa ideia no prevaleceu. Juscelino apia por fim a candidatura do Marechal Teixeira Lott, com Joo Goulart de vice, casados estreitamente pela questo do petrleo. Lott era a grande figura, que dizia a Petrobrs intocvel!, e Jango j tinha se convertido numa das grandes vozes do monoplio da Petrobras. Esse foi o centro daquela campanha, em 1956. Numa eleio que permitia uma chapa autnoma, candidato a presidente e candidato a vice, Joo Goulart teve mais votos que o prprio Lott. Superou o titular. Isso para dizer que Jango tinha realmente uma capacidade de comunicao popular razoavelmente alta, para lhe dar vitrias desse tipo. Isso tudo tinha ou no aspectos negativos? Eu diria que tinha e continuo a achar. A chapa deve ser unitria, para que um e outro representem o todo de uma preposio poltica diante do povo. Mas no foi que aconteceu nessa eleio e na seguinte, quando tivemos a vitria de Jnio Quadros para presidente e, de novo, a vitria de Jan

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