Ambivalncia e Medo Ambivalncia e Medo: faces dos riscos na

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    Sociologias, Porto Alegre, ano 10, n 20, jul./dez. 2008, p. 20-47

    DOSSI

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    DANIEL CHAVES DE BRITO*****

    WILSON JOS BARP**********

    Resumo

    No diagnstico da modernidade, incerteza e insegurana - e portanto omedo - so elementos presentes. Partindo dessa constatao, este trabalho tem porobjetivo descrever os efeitos ambivalentes do medo sobre a sociedade contempo-rnea. Nesta tentativa, busca-se o apoio de diversas teorias sociais que, emborano enfoquem o medo, mostram de certa forma os riscos constantes do processode modernizao. Por outro lado, isso permite separar a crtica social que aindatenta continuar pensando a modernidade com base nas premissas conceituais darazo ocidental, de uma outra, que por sua prpria fadiga proclama suaautodestruio. Entende-se aqui que se despedir da razo e considerar o movi-mento autnomo da modernidade fazer surgir um processo que apenas garantea modernizao do medo.

    Palavras-chave: Modernidade. Risco. Medo.

    Apenas o ente em que, sendo, est em jogo seuprprio ser, pode temer. O medo (temor) abre

    esse ente no conjunto de seus perigos (riscos), no abandono a si mesmo.

    Heidegger

    * Doutor pelo NAEA/UFPA, Prof. da Faculdade de Cincias Sociais e do Programa de Ps-Gradua-o em Cincias Sociais (PPGCS) da UFPA. Integra a linha de Pesquisa violncia e No-Violncia nosProcessos Sociais.** Doutor pela UNICAMP, Prof. da Faculdade de Cincias Sociais e do Programa de Ps-Graduaoem Cincias Sociais (PPGCS) da UFPA. Integra a linha de Pesquisa violncia e No-Violncia nosProcessos Sociais.

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    Sociologias, Porto Alegre, ano 10, n 20, jul./dez. 2008, p. 20-47

    AIntroduo

    crescente potencialidade de destruio que a humanidadeengendrou sobre ela mesma tem despertado ainda muitopouco interesse por uma reflexo do medo. Jean Delumeau(1989), em seu livro Histria do Medo no Ocidente, inda-ga-se: por que esse silncio prolongado sobre o papel do

    medo na Histria? Pode-se at acreditar que se deve ao fato de o medoestar relacionado covardia e vergonha, devendo, por isso, ser escondi-do. Mas o terico da sociedade no pode ter medo dos medos sociais.Parece mais fcil enterrar o medo dentro de ns e hipocritamente ressaltarfeitos hericos. Ora, o medo, como veremos mais adiante, inerente nossa natureza: um sentimento que nos perturba, que traz inquietao,sobressaltos, que exige providncias e o clculo de riscos, enfim, ele fazparte do cotidiano. Mesmo que o medo possa ser visto por esse ngulo, aincerteza e a insegurana so fatores que provocam medo contnuo e, porconseguinte, mal-estar permanente.

    No diagnstico da modernidade, incerteza e insegurana e portanto omedo so elementos presentes. Partindo dessa constatao, este trabalhotem por objetivo descrever os efeitos ambivalentes do medo sobre a socieda-de contempornea. Nesta tentativa, busca-se o apoio de diversas teoriassociais que, embora no enfoquem o medo, mostram de certa forma osriscos constantes do processo de modernizao. Por outro lado, isso permiteseparar a crtica social, que ainda tenta continuar pensando a modernidadecom base nas premissas conceituais da razo ocidental, de uma outra, que,por sua prpria fadiga, proclama sua autodestruio. Entende-se aqui que sedespedir da razo e considerar o movimento autnomo da modernidade fazer surgir um processo que apenas garante a modernizao do medo.

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    Sociologias, Porto Alegre, ano 10, n 20, jul./dez. 2008, p. 20-47

    1. A Busca da Autocertificao

    As narrativas da modernidade apontam para um sentimento de aven-tura. Uma nova experincia de tempo e espao vai, aos poucos, confor-mando a modernidade, uma nova cultura, que rompe com as tradies,institui novos laos sociais. Na modernidade, o mercado e o Estado assu-mem de maneira estrita a funo de princpio estruturante da sociedade.Por meio do mercado, os indivduos exercem a liberdade econmica: osindivduos, de forma fragmentada, defendem os seus interesses. Na esferada poltica, a representao tornou-se a forma mais eficiente de mediao,com o Estado assumindo o monoplio legtimo da normatizao das rela-es sociais. A impessoalidade passou a ser o princpio sobre o qual assentaa interveno normativa. A modernidade, assim pensa Habermas (1990:18), no pode e no quer continuar a ir colher em outras pocas os crit-rios para sua orientao, ela tem de criar em si prpria as normas por que serege. Ela tambm tem que trazer superfcie as categorias que permitiramo seu entendimento, a necessidade de sua autocertificao.

    Uma verificao, ainda que rpida do horizonte histrico de trs sculos,mostra, de forma inquestionvel, um forte processo de mudana. Autores tor-naram-se importantes apenas porque fizeram um enorme esforo para captar oque o filosofo G. W. F. Hegel destacou como Zeitgeist. O esprito da pocacaracterizava-se pela busca do entendimento da transio ou, como registraAnthony Giddens (1991), do desencaixe. Entretanto, o fato que diferenciaenormemente este tempo a conscincia da acelerao. Novos processos,sobretudo econmicos e polticos, surgem e rumam em um ritmo extraordin-rio para o futuro. A noo de futuro quase perde o que ela representa, pois,nesses tempos, o moderno futuro realizado ou realizvel em breve.

    O processo de mudana deixou para trs, negou ou destruiu estrutu-ras e culturas, isto , os arranjos sociais antigos, com desfechos variados da simples assimilao imposio pela violncia. O fato singular quehoje podemos trabalhar com a idia de que o mundo inteiro j fez algumtipo de experincia com a modernidade. Agnes Heller (1999) relata:

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    1 Evidentemente que essa afirmao est circunscrita a uma viso estreita. Poderamos certamentedizer que, por todo o planeta, estruturas modernas esto em conflito com outras pr-modernas.Acredito que ainda no tempo de declarar que os arranjos sociais pr-modernos j no existemmais sobre o planeta.2 Tendo em vista que, de forma genrica, essa noo concerne a um momento ou mesmo a umasituao que, embora oferea perigos, pode, de modo ambivalente, produzir tanto benefciosquanto prejuzos para o indivduo ou para a sociedade que por ela passar.

    este processo de desconstruo foi to rpido que mu-danas fundamentais foram registradas pela mesma ge-rao... E a velocidade foi constantemente acelerada.No comeo do sculo XX, o mundo pr-moderno aindano havia sido inteiramente desconstrudo nem na Eu-ropa; no entanto no final do sculo, o arranjo social pr-moderno j no existe no planeta1.(HELLER, 1999:15).

    O ritmo acelerado de mudanas imprimiu modernidade uma caracte-rstica bem peculiar. uma poca envolta e dominada por crises. A noo decrise2 faz-se presente de forma obrigatria em todos os esforos para com-preender a modernidade. Esse termo, do ponto de vista sociolgico, o quemelhor caracteriza estes tempos: trata-se de um momento histrico indefini-do ou de riscos inquietantes. O estado de incerteza influi diretamente nadimenso da vida cotidiana, mas tambm na dimenso poltica e econmica.Embora nasam livres, os homens modernos nascem contingentes, porquan-to esto imersos num mundo de relaes volatilizadas e precisam encarar ofato de que a liberdade acompanhada de riscos. Por outro lado, os proces-sos econmicos e polticos so submetidos a um procedimento decalculabilidade das aes na busca de minimizar, ainda que com sucessoquestionvel, a fora da contingncia. Assim, no podemos afastar do Zeitgeista noo de contingncia. Mas o que ela significa para a modernidade?

    A descoberta da contingncia exige uma reflexo profunda, certa-mente, no que diz respeito ao sentimento do medo. Dissolvidas as certe-zas coletivas que, no Ocidente, foram dadas pelo Cristianismo, forma-se oindivduo burgus. A subjetividade ganha autonomia, o direito ao pensa-

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    mento crtico comea a sua caminhada, e o Iluminismo o seu terrenomais frtil. Immanuel Kant (1970) saudou de forma vigorosa esse novoprojeto de sociedade e convocou todos os homens a servirem-se de simesmos, a fazerem uso de seu prprio entendimento, a vencerem a pre-guia e a covardia e com isso os incentivou ao sapere aude. O esclareci-mento uma estratgia de emancipao, que pe em mos humanas arealizao de um intento que exige do prprio homem algo extraordinrio,o esforo para se valer de sua capacidade legisladora. Sobre a conscinciado indivduo repousa o peso do imperativo categrico: age de tal modoque a mxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo comoprincpio de uma legislao universal (KANT, 1999:42). Podemos ver poresse princpio que Kant tenta recuperar valores prtico-morais que guiam oshomens na esfera pblica.

    Quando chama a ateno para esse ponto, Kant, evidentemente, estinteressado no, em retornar ao pensamento poltico clssico, mas na possibi-lidade de levar o indivduo burgus para o corao da ao poltica, desenvol-vendo amplamente a autonomia moral. O alvo em questo vencer aheteronomia estabelecida no contexto do jusnaturalismo. A teoria do direitonatural est preocupada em juntar os homens, elevando sobre eles o poder doEstado, isto , submetendo-os a uma liberdade negativa. Para vencer esseargumento heteronmico, Kant mostra uma distino entre moralidade e lega-lidade. Norberto Bobbio (2000) explica essa discusso da seguinte maneira: aconduta humana regulamentada pelas chamadas leis da liberdade e estas secontrapem s leis da necessidade, que regulam os fenmenos naturais. Mas aconduta humana regulada pelas leis da liberdade apresenta duas formas distin-tas de legislao da ao: a legislao moral