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1 ANA CRISTINA PEREIRA TEIXEIRA DE MORAES POLITICAS PUBLICAS DE JUVENTUDE: UM ESTUDO SOBRE A QUALIFICAÇÃO SOCIAL E PROFISSIONAL NO PROGRAMA BOLSA TRABALHO EM BELÉM-PA. UFPA BELÉM-PARÁ SETEMBRO/2011

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    ANA CRISTINA PEREIRA TEIXEIRA DE MORAES

    POLITICAS PUBLICAS DE JUVENTUDE: UM ESTUDO SOBRE A

    QUALIFICAO SOCIAL E PROFISSIONAL NO PROGRAMA BOLSA

    TRABALHO EM BELM-PA.

    UFPA

    BELM-PAR

    SETEMBRO/2011

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    ANA CRISTINA PEREIRA TEIXEIRA DE MORAES

    POLITICAS PUBLICAS DE JUVENTUDE: UM ESTUDO SOBRE A

    QUALIFICAO SOCIAL E PROFISSIONAL NO PROGRAMA BOLSA

    TRABALHO EM BELM-PA.

    Dissertao apresentada ao Programa de

    Ps-graduao em Educao da

    Universidade Federal do Par como

    requisito parcial obteno do titulo de

    Mestre em Educao.

    Orientador: Prof Dr. Gilmar Pereira da Silva

    Belm-Par

    2011

  • 3

  • 4

    Para Ana e Manuel, meus pais

    Exemplo de dedicao, sabedoria e coragem

  • 5

    AGRADECIMENTOS

    A realizao deste trabalho teve o apoio de muitas pessoas queridas que, em momentos

    distintos e de maneiras especficas, contriburam para a elaborao desta dissertao.

    Agradeo, primeiramente, ao Pai criador por iluminar a minha conscincia, dando-me

    nimo, serenidade e pacincia. Obrigada, meu Deus, por todas as oportunidades

    concedidas.

    Agradeo minha famlia, especialmente ao meu pai e minha me, pelas incontveis

    demonstraes de carinho e o incentivo constante. Que essas pginas justifiquem a

    minha falta durante minha vida acadmica e retribuam, de alguma forma, os seus

    esforos para propiciar a mim e aos meus irmos uma educao mais humanitria.

    Aos meus irmos Carlinhos, Lourdinha, Deolinda, Dinho, Adriana e Alexandre todo o

    apoio e por compreenderem minhas faltas. Obrigada por terem compartilhado comigo

    sonhos e expectativas. Vocs sempre faro parte de minha histria.

    Ao meu orientador, Professor Gilmar Pereira da Silva, por toda a sua dedicao,

    generosidade e pacincia. Obrigada, pelas ricas discusses que tem contribudo para o

    meu amadurecimento acadmico e pessoal.

    Ao professor Ronaldo Marcos Arajo pela prontido em auxiliar e incentivar mesmo

    queles que no so seus orientandos e, sobretudo, pelas contribuies muito pertinentes

    a esse trabalho por meio do GEPTE, que se configuraram em aulas e discusses sempre

    to ricas e relevantes. Valeu professor! s um exmio Educador.

    A Professora Ivany Pinto por suas contribuies no aperfeioamento deste trabalho. A

    sua colaborao foi essencial para o estudo.

    Ao Professor Ramon Oliveira pelas consideraes iniciais e essenciais a este trabalho no

    momento da qualificao.

  • 6

    Agradeo, de maneira muito especial, amiga Celestina Moraes o incentivo nesse

    processo. E por ter permitido importun-la vrias vezes com as minhas inquietaes e

    no auxlio com nosso filho Raphael. Obrigada, mais muito obrigada mesmo, pelo

    companheirismo, pacincia e carinho em todos os momentos!

    Sou grata, sobretudo ao Anselmo que com uma imensa sensibilidade soube estar, ao

    mesmo tempo, to perto e to distante nestes tempos de mestrado. Agradeo por voc

    estar presente neste momento (e em muitos outros) o qual representa, antes de tudo, um

    passo importante rumo ao futuro que almejamos. Obrigada pelo companheirismo, pela

    pacincia, mas principalmente, pelo bom humor frente as minhas constantes angstias

    durante todo o mestrado.

    Ao Raphael a compreenso nas minhas ausncias. Mesmo sem compreender a

    relevncia deste estudo para a mamezinha, fostes meu maior incentivo. Seu sorriso e

    sua alegria me preenchiam sempre de estmulos mesmo na correria contra o tempo para

    cumprir metas e prazos.

    Equipe do Programa Bolsa Trabalho a ateno e presteza que sempre nos reservaram

    e por nos atender to solicitamente todas as vezes que a procuramos.

    Ao Rgis Horta, a carinhosa prontido em me auxiliar nas primeiras caminhadas em

    busca de dados sobre a pesquisa.

    Aos jovens participantes desta pesquisa, por me confiarem algumas de suas experincias

    de vida, dando-me uma colaborao imprescindvel. Obrigada pela compreenso e,

    principalmente, pela sinceridade que demonstraram em seus depoimentos.

    Coordenao de Aperfeioamento de Pessoal de Nvel Superior CAPES, pelo apoio

    financeiro desse trabalho, por meio da Bolsa de Mestrado recebida durante o perodo em

    questo e que tanto contribuiu para a realizao desse trabalho.

    Ao PPGED/UFPA, como um todo, pelo trabalho brilhante que tem desenvolvido,

    contribuindo para a construo de uma viso crtica da nossa realidade e nos alertando

    sobre a nossa responsabilidade social.

  • 7

    Aos companheiros de Mestrado, em especial, rbio e Heloisa. Obrigada, pelas

    discusses, risos, e pela amizade. Foi uma grande satisfao compartilhar com vocs

    momentos de alegria e de presso durante esse perodo.

    Enfim, a todos, que contriburam direta ou indiretamente na construo dessa

    dissertao, minha sincera gratido!

  • 8

    RESUMO

    Polticas Pblicas de Juventude, com nfase no Programa Bolsa Trabalho, se constitui

    no objeto de estudo desta dissertao, cujo objetivo geral consistiu em analisar a

    pertinncia social do Programa como instrumento de Poltica Pblica de Qualificao

    Profissional e Social para Juventude. A questo norteadora da pesquisa pode ser assim

    sintetizada: o Programa Bolsa Trabalho se constitui num instrumento de poltica

    pblica de juventude que aponta para a incluso social de jovens na cidade de Belm-

    Pa? A pesquisa teve o intuito de analisar o Programa Bolsa Trabalho, como poltica

    pblica estadual de insero de jovens de baixa renda entre 18 e 29 anos no mercado de

    trabalho, no municpio de Belm-PA. Considerando o Estado como um agente de

    promoo de polticas de Emprego e Renda, o estudo norteou-se pela hiptese de que o

    jovem, mesmo aquele considerado vulnervel socialmente, no uma

    homogeneidade, tampouco constitui uma perfeita unidade do ponto de vista scio-

    cultural. Neste sentido, a necessidade de considerao da diversidade ao se falar de

    juventude imperativa para o sucesso de uma ao poltica conduzida pelo Estado.

    Portanto, h de se investigar em que medida as polticas pblicas para a juventude

    interagem com as questes sociais da juventude. Os resultados nos indicaram que o

    Programa atende bolsistas dos bairros mais pobres e violentos, predominando o sexo

    feminino. Cerca de um quarto dos jovens inseriram-se no mercado de trabalho. Os

    cursos que mais qualificaram no so detectveis com dados do mercado formal o que

    demanda o desenvolvimento de critrios de avaliao. Com os dados analisados

    podemos concluir que o PBT acarretou um impacto positivo para inserir o jovem no

    mercado de trabalho no municpio de Belm-PA.

    Palavras-chave: Polticas Pblicas, Qualificao Profissional, Juventude, Programa

    Bolsa Trabalho.

  • 9

    ABSTRACT

    Public Policies for Youth Scholarship Program with an emphasis on work, constitutes

    the subject matter of this dissertation, whose general objective was to analyze the social

    relevance of the program as a tool for Public Policy and Social Vocational Training for

    Youth. The question guiding the research can be summarized as follows: Work Grant

    Program constitutes an instrument of public policy for youth that points to the social

    inclusion of youth in the city of Bethlehem, Pa? The research aimed to analyze the

    Work Grant Program, as state public policy for entering low-income youth between 18

    and 29 years in the labor market in the city of Belm-PA. Considering the state as an

    agent promoting policies of employment and income, the study was guided by the

    hypothesis that the young, even those considered socially vulnerable, is not a

    "uniformity", neither is a perfect unity in terms of social and cultural. In this sense, the

    need to consider diversity when speaking of youth is imperative for the success of a

    political action conducted by the State. Therefore, one should investigate the extent to

    which public policies for youth interact with the "social issues of youth." The results

    indicated that the Fellows Program serves the poorest and most violent neighborhoods,

    predominantly female. About a quarter of young people were part of the labor market.

    The more courses that qualify are not detectable with data from the formal market

    which demands the development of evaluation criteria. With the data analyzed we can

    conclude that the PBT has led to a positive impact on the young to enter the labor

    market in the city of Belm-PA.

    Keywords: Public Policy, Vocational Training, Youth Work Grant Program.

  • 10

    LISTA DE GRFICOS

    GRFICO 1: Regio de Integrao - PA......................................................................80

    GRFICO 2: Estrutura do Programa.............................................................................81

    GRFICO 3: Metodologia do Programa.......................................................................82

    GRFICO 4: Concesso de Bolsas...............................................................................94

    GRFICO 5: Demonstrativo em que o benefcio foi usado em Belm........................94

  • 11

    LISTA DE QUADROS

    QUADRO 1: PEA- Ocupados e Desocupados...........................................................91

  • 12

    LISTA DE TABELAS

    TABELA 1: Participao dos jovens no mercado de trabalho, segundo sexo e faixa

    etria 1997 e 2007..........................................................................................................................................58

    TABELA 2: Condio de atividade e de estudo por sexo e faixas etrias em

    2007.................................................................................................................................59

    TABELA 3: Posio na ocupao 1997 e 2007..........................................................62

    TABELA 4: Rendimentos mdios reais recebidos no ms pelo trabalho principal,

    segundo sexo, faixa etria, e raa/cor 1997 e 2007.....................................................63

    TABELA 5: Participao da populao jovem no desemprego, segundo faixa etria

    2006 e 2007....................................................................................................................64

    TABELA 6: Atores Sociais envolvidos........................................................................88

    TABELA 7: Grupos de Interesse.................................................................................89

  • 13

    LISTA DE ABREVIATURAS

    ATER- Agncias de Trabalho, Emprego e renda

    BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento

    BIRD - Banco Mundial

    CAGED- Cadastro Geral de Empregados Desempregados

    CAPES Coordenao de Aperfeioamento de Pessoal de Nvel Superior

    CEAN Ciclo de Ensino e Aprendizagem Noturna

    CEJUVENT Comisso Especial de Polticas Pblicas de Juventude da

    Cmara dos Deputados

    CEPES- Centros Pblicos de Economia Solidria

    CLT Consolidao das Leis do Trabalho

    CODEFAT Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador

    CONJUVE Conselho Nacional de Juventude

    CPAs- Centrais de Profissionais Autnomos

    DIEESE Departamento Intersindical de Estatstica e Estudos Scio Econmico

    DTE- Diretoria de Trabalho e Emprego

    ECA Estatuto da Criana e do Adolescente

    EJA Ensino de Jovens e Adultos

    FAT Fundo de Amparo ao Trabalhador

    FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Servio

    FJP Fundao Joo Pinheiro

    FMI - Fundo Monetrio Internacional

    GIJ - Grupo Interministerial de Juventude

    IBASE - Instituto Brasileiro de Anlises Sociais e Econmicas

    IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica

    ICMS Imposto sobre Circulao de Mercadorias e Servios

    IDH - ndice de Desenvolvimento Humano

    INSS Instituto Nacional de Seguridade Social

    IPEA Instituto de Pesquisas Econmicas Aplicadas

    IPI Imposto de Importaes

    IPTU Imposto Predial e Territorial Urbano

    IRT Instituto de Relaes de Trabalho

    ISSQN Imposto Sobre Servios de Qualquer Natureza

  • 14

    LDB Lei de Diretrizes e Base da Educao Nacional

    MTE Ministrio do Trabalho e Emprego

    OCDE Organizao de Cooperao para o Desenvolvimento Econmico

    ONG Organizao no governamental

    ONU Organizao das Naes Unidas

    OIT Organizao Internacional do Trabalho

    OIJ - Organizao Ibero-americana da Juventude

    ONG Organizao no-governamental

    PBE Programa Bolsa-Emprego

    PEA Populao Economicamente Ativa

    PEQ Programa Estadual de Qualificao

    PIA Populao em Idade Ativa

    PIB Produto Interno Bruto

    PLANFOR Plano Nacional de Formao Profissional

    PMB Prefeitura Municipal de Betim

    PME Pesquisa Mensal de Emprego

    PNAD - Pesquisa Nacional de Amostra de Domiclio

    PND Plano Nacional de Desenvolvimento

    PNUD- Programa das naes Unidas para o Desenvolvimento

    PNPE Programa Nacional Primeiro Emprego

    PPE Programa Primeiro Emprego

    PRTI Programa de Erradicao do Trabalho Infantil

    PROGER Programa de gerao de emprego e renda

    PTB- Programa Bolsa Trabalho

    PNPE - Programa Nacional de Estmulo ao Primeiro Emprego para os Jovens

    PPJs Polticas Pblicas de Juventude

    ProJovem - Programa Nacional de Incluso de Jovens

    RAIS Relao Anual de Informaes Sociais

    SEAPLAN Secretaria Adjunta de Planejamento

    SEBRAE Servio Brasileiro de Apoio s Micro e Pequenas Empresas

    SEFOR Secretaria de Formao e Desenvolvimento Profissional

    SEMAS Secretaria Municipal de Assistncia Social

    SENAI Servio Nacional de Aprendizagem Industrial

    SENAC Servio Nacional de Aprendizagem do Comrcio

  • 15

    SENAR Servio Nacional de Aprendizagem Rural

    SENAT Servio Nacional de Aprendizagem do Transporte

    SESI Servio Social da Industria

    SESC Servio Social do Comrcio

    SEST- Servio Social do Transporte

    SETER- secretaria de Estado de trabalho, Emprego e Renda

    SIGAE- Sistema de Gesto de Aes de Emprego

    SINE Sistema Nacional de Emprego

    SM Salrio mnimo

    SMDE Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econmico

    SNIU Servio Nacional de Informao Urbana

    UNESCO Organizao das Naes Unidas para Educao, Cincia e Cultura

    UNICEF Fundo das Naes Unidas para a Infncia

    http://www.mte.gov.br/pnq/sigae.asp

  • 16

    SUMRIO

    1. INTRODUO

    1.1. Origem do Estudo........................................................................................ 17

    1.2. Aproximaes em torno do tema................................................................. 21

    1.2. A Trajetria da Pesquisa.............................................................................. 23

    2. CAPTULO I: JUVENTUDE E POLTICA SPBLICAS

    2.1. Juventude: Conceitos e Vises.....................................................................26

    2.2. Estado e Polticas Pblicas...........................................................................33

    2.3. Antecedentes: histrico sobre a Atuao do Estado nas Polticas

    Pblicas...............................................................................................................43

    2.4. Consideraes sobre a tematizao da juventude no contexto das polticas

    pblicas...............................................................................................................51

    3. CAPITULO II: JUVENTUDE, TRABALHO E QUALIFICAO

    PROFISSIONAL

    3.1. As mudanas no mundo do trabalho no Brasil e as conseqncias para a

    juventude.............................................................................................................57

    3.2. Trabalho, Formao Humana e Qualificao Profissional: compreendendo

    significados..........................................................................................................66

    3.3. Juventude e Qualificao para o trabalho.....................................................70

    4. CAPTULO III: A QUALIFICAO PROFISSIONAL DO PROGRAMA

    BOLSA TRABALHO NO MUNICPIO DE BELM-PAR

    4.1. O Programa Bolsa Trabalho (L E I N 7.036, de 14 de setembro de

    2007)...................................................................................................................75

    4.2. Qualificao Social e profissional do Programa Bolsa Trabalho.................84

    4.3. Desvelando o objeto da Pesquisa.................................................................91

    4.4. O Programa Bolsa Trabalho no Par: uma experincia de Poltica Pblica

    ............................................................................................................................97

    5. CONSIDERAES FINAIS

    5.1. O Programa Bolsa Trabalho como ao de poltica pblica de juventude.......104

    6. REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS...........................................................108

  • 17

    1- INTRODUO

    1.1. Origem do Estudo

    As mudanas em curso no mundo do trabalho, sobretudo desde a dcada de 1970,

    decorrentes em grande medida da revoluo cientfico-tecnolgica, evidenciaram a

    necessidade de adequao do trabalho, e tambm do trabalho docente, s novas

    exigncias profissionais emanadas do Capital com vistas superao de suas crises

    estruturais, cabendo ao Estado o papel de regular, avaliar e implementar polticas de

    acordo as demandas dos organismos financeiros multilaterais (Fundo Monetrio

    Internacional, Banco Mundial, etc.), que atuam como braos do Capital internacional na

    periferia do sistema capitalista, onde se situa o Brasil.

    As recentes mudanas no mundo do trabalho, que delineiam novas configuraes na

    organizao da produo, nas relaes entre Capital, Trabalho e Estado, na (des)

    regulao dos direitos trabalhistas, na relao entre as inovaes tecnolgicas e as

    formas de organizao e gerenciamento do trabalho

    O estudo sobre Polticas Pblicas de Juventude no Estado do Par: a

    Qualificao Profissional do Programa Bolsa Trabalho se deu a partir da reviso

    bibliogrfica sobre o tema, das contribuies, sugestes e orientaes das disciplinas

    cursadas durante o curso de Mestrado em Educao da UFPA, das aprendizagens

    relacionadas Misso de estudos na UFMG1 e, especialmente, aquelas originadas dos

    debates realizados nos seminrios de dissertao I /II/ III e de leituras especficas. Mas

    tambm, de certa forma, fruto de todo um processo de envolvimento com o tema

    Juventude e sua insero na pauta das polticas pblicas que ao longo dos ltimos

    anos tem ocupado minha ateno, no sentido de aprofundar a reflexo e ampliar o

    repertrio de temticas e questes que so cruciais para a compreenso da temtica

    juvenil no mbito das Polticas pblicas.

    Situar a questo da Juventude na sociedade sempre foi vista por mim como uma

    preocupao devido aproximao do meu percurso acadmico com projetos sociais e

    de extenso envolvendo a comunidade (crianas e adolescentes) da periferia de Belm e

    a educao de jovens e adultos. Momento em que a preocupao com o futuro dessas

    1 Realizada na UFMG- Universidade Federal de Minas Gerais, a qual tive oportunidade de estar

    em dedicao exclusiva no perodo de trs meses (Agosto a novembro/ 2009). Na oportunidade, pude

    realizar um aprofundamento de estudos acerca da temtica qualificao profissional junto ao Programa de

    Ps-graduao da UFMG, por meio do Projeto Laboratrio em Rede de Polticas e Prticas de Formao

    do Trabalhador (Laborar), financiado pelo PROCAD/CAPES.

  • 18

    crianas, adolescentes e jovens- considerando a repercusso e as conseqncias das

    experincias vivenciadas por cada indivduo, sobretudo o jovem, na sociedade-

    motivou-me a buscar a tematizao da juventude, justificada pela sua crescente relao

    como problema social.

    Nesse processo emerge o interesse pela retomada da temtica da juventude na

    esfera das polticas pblicas, pois, o tema da juventude tem ocupado a pauta de

    preocupaes dos mais variados setores da sociedade associado a problemas

    relacionados ao universo juvenil, tais como: as questes do mundo do trabalho; os

    padres de desigualdade e de discriminao vigentes; situaes de fragilizao social,

    pobreza e desamparo familiar; gerao de oportunidades educacionais; as expectativas

    quanto ao desempenho de determinados papis sociais enfim, as diversas dimenses

    que caracterizam a dinmica social brasileira, em seus avanos e conflitos,

    compreendidos muitas vezes como entraves para a promoo do desenvolvimento

    sustentvel.

    Nesse sentido, a compreenso da categoria Juventude e condio juvenil

    tambm imprescindvel, posto que diz respeito maneira de ser, a situao de algum

    perante a vida e sociedade, bem como s circunstncias necessrias para que se

    verifique essa maneira ou tal situao (DAYRELL, 2007). A partir deste ponto de

    partida poderemos estruturar alguns conceitos bsicos tambm que vo elucidar o

    desenvolvimento do presente estudo.

    Entender o que significa Juventude ou Juventudes o ponto de partida para este

    estudo. O significado de juventude no pode ser associado a um carter universal, mas

    deve ser compreendido em suas mltiplas dimenses, como grupos situados em espaos

    sociais e temporalidades que lhes atribuem significados prprios. A noo de infncia,

    juventude e maturidade resultante de construtos histricos e culturais, portanto

    mutveis em diferentes sociedades.

    Morin (1999) define que:

    A adolescncia seria a fase em que o jovem humano, j meio desligado

    do universo da infncia, mas ainda no integrado ao universo do adulto,

    sofre indeterminaes, bi-determinaes e conflitos. Por conseguinte, s

    pode haver adolescncia onde o mecanismo de iniciao, transformando

    a criana em adulto, se deslocou ou decomps-se, e onde se

    desenvolveu uma zona de cultura e de vida que no est engajada,

    integrada na ordem social adulta. (p.137)

  • 19

    Ainda, no que se refere condio juvenil e aquilo que faz parte do universo do

    jovem, Ianni (1968) ao discutir a radicalidade juvenil, afirmara que:

    A histria do regime capitalista tem sido a histria do advento poltico

    da juventude. Em cada pas em que se desenvolve o sistema capitalista

    de produo, os jovens assumem importncia crescente no campo da

    ao poltica. (p.225)

    Nesse sentido, deve-se levar em considerao, em referencia temtica da

    juventude, a complexidade, a heterogeneidade da realidade contempornea. Negar esse

    pressuposto implica em lanar os jovens condio reducionista de ponte entre a

    infncia e a fase adulta, destituda de identidade.

    A esse respeito, Abramo (1997) assim se manifesta:

    Como a juventude pensada como um processo de desenvolvimento

    social e pessoal de capacidades e ajuste aos papis adultos so as falhas

    nesse desenvolvimento e ajuste que se constituem em temas de

    preocupao social. nesse sentido que a juventude s esta presente

    para o pensamente e para a ao social como um problema: como um

    objeto de falha, disfuno ou anomia no processo de integrao social;

    e, numa perspectiva mais abrangente, como tema de risco para a prpria

    continuidade social.(p.29)

    Os esteretipos que impregnam a viso do universo juvenil tendem a rotular e

    imputar os jovens, associados s camadas mais empobrecidas, condio de violentos

    ou marginais.

    Outra importante questo que emergiu no processo de discusso sobre a

    Juventude, foi a tematizao da juventude no contexto das polticas pblicas. Sem

    pretender um balano sobre o tema, pontuo alguns elementos que considero

    importantes, no que se refere efetividade das polticas pblicas destinadas a

    qualificao profissional.

    A juventude brasileira vive uma realidade bastante desconfortvel. Vive os

    problemas da globalizao acelerada que lana excluso social pases e regies

    inteiras do planeta e impe condies de existncia extremamente desigual, impondo,

    sobretudo juventude a falta de uma perspectiva de futuro. Com essa condio de

    existncia crescem as insatisfaes, os conflitos, ansiedades e angstias e, no raro, a

    violncia. Infelizmente, esse o panorama geral da realidade dos jovens brasileiros.

    Na tentativa de reverter este panorama, percebemos as aes desencadeadas

    pelas polticas pblicas voltadas para a juventude. Muitas vezes carentes de uma viso

    integral e articulada, essas aes se concentram em aspectos particulares da dinmica

  • 20

    juvenil - educao, emprego, sade, atividades culturais, esportivo e outros- sem uma

    perspectiva de conjunto. Embora as polticas pblicas mais recentes focalizem seus

    esforos nos setores juvenis que enfrentam mais dificuldades e carncias, preciso

    lembrar que essas polticas devem ser propositivas, e no reativas. Pois, na maioria dos

    casos, a juventude s se torna objeto de uma poltica quando associada a esteretipos

    negativos, como a delinqncia, violncia, drogas e etc.

    Assim, aumenta a perspectiva de polticas que assegurem ao jovem: uma escola

    acessvel e de qualidade, formao profissional adequada, oportunidades dignas de

    trabalho e renda, alternativas de lazer saudvel. O jovem necessita de apoio, ateno e

    perspectivas de auto-realizao.

    Por isso, a ausncia ou a no efetividade de polticas pblicas especficas para

    esta faixa da populao um antigo problema, fazendo com que os jovens brasileiros

    mostram-se vulnerveis a questes como desemprego, violncia e drogas, que vm

    somar-se s mazelas decorrentes da falta de investimentos em educao e em programas

    de complementao de renda.

    Essas observaes so importantes para a compreenso da trajetria recente das

    polticas pblicas destinadas aos jovens no Brasil no final dos anos de 1990 e no incio

    da dcada atual, no caso deste estudo destaca-se o estado do Par.

    Este estudo pretende, tambm, analisar efetividade das polticas pblicas

    destinadas a qualificao profissional para a juventude, considerando . Nessa direo,

    considerando a dimenso e a diversidade do estado do Par, com tamanhas

    desigualdades sociais e com uma juventude inserida nos ndices alarmantes de

    vulnerabilidade social2 e com poucas oportunidades de insero no mundo do trabalho,

    procedente questionar se h uma proposta de mudana desta realidade a nvel local,

    atravs de polticas pblicas para a juventude no mbito da qualificao profissional.

    nesse sentido que iremos estudar o Programa Bolsa Trabalho3.

    Observa-se hoje o engajamento de muitos jovens em movimentos religiosos,

    culturais, voltados para a msica, dana, entre outros, como um meio de romper com a

    excluso juvenil e a insegurana pblica, vinculados a problemas sociais muito

    2 A situao de vulnerabilidade aliada s turbulentas condies socioeconmicas ocasiona uma

    grande tenso entre os jovens que agravam diretamente os processos de integrao social e, em algumas

    situaes, fomenta o aumento da violncia e da criminalidade. (ABRAMOVAY et al. 2002, p.14) 3 Objeto de estudo deste trabalho o Programa Bolsa Trabalho (L E I N 7.036, DE 14 DE

    SETEMBRO DE 2007) um programa do governo do Par, lanado em 2007 e com participao de 27

    municpios paraenses selecionados em funo de seu potencial de empregabilidade.

  • 21

    preocupantes como a violncia, em que tanto na qualidade de vitimas como na de

    agressores os jovens so atores destacados.

    Que perspectiva de futuro tem o jovem de hoje? Como criar um campo capaz de

    motivar o jovem a participar da definio do rumo e da construo de uma sociedade

    que atenda a seus anseios e lhe d a perspectiva de uma vida mais justa? Como as

    polticas para a juventude tm respondido problemtica de incluso e atendimento dos

    jovens nos servios e aes desenvolvidas pelo Estado? Essas so algumas das questes

    que motivaram a pesquisa que deu origem a esse estudo.

    1.2- Aproximaes em torno do tema

    O Programa Bolsa Trabalho, que definido como uma poltica pblica estadual,

    de incluso social e de investimento em qualificao social e profissional4, que visa dar

    oportunidade de acesso ao mundo do trabalho aos jovens paraenses de baixa renda.

    Nesse sentido, cabe levantar a seguinte questo: O Programa Bolsa Trabalho se

    constitui num instrumento de poltica pblica de juventude que aponta para a incluso

    social de jovens na cidade de Belm-Pa? Em face deste questionamento, importante

    primeiramente que vislumbremos a situao de vulnerabilidade social que se mostra

    como um fator decisivo para entender o impacto deste benefcio na vida das pessoas.

    Isto , precisamos primeiramente conhecer o perfil do jovem no estado do Par; suas

    principais necessidades no que se refere s perspectivas de futuro, trabalho e vida no

    contexto do nosso Estado.

    Tratar dos reflexos do Programa Bolsa Trabalho, embora parea uma tarefa

    bastante simples, uma vez que, na mentalidade da maioria das pessoas, h evidncias de

    prevalecer a idia de que a bolsa5 apenas uma ajuda financeira para o jovem bolsista

    permanecer no programa. No entanto, o estudo nos indicou que o alcance do programa

    4 A qualificao social e profissional, segundo informaes dos tcnicos da (SETER- Secretaria

    do trabalho Emprego e Renda do Par) refere-se no s a qualificao tcnica, mas tambm formao

    humana. 5 Incentivo financeiro temporrio no valor de R$ 70,00 mensais, condicionado participao do

    jovem nas etapas do programa que so, a saber: qualificao social e profissional, cadastramento nas

    Agncias de Trabalho, Emprego e Renda ATER visando a intermediao de mo-de-obra para o

    emprego formal ou o encaminhamento para a concesso do microcrdito visando o desenvolvimento de

    uma atividade empreendedora de pequeno porte individual ou coletiva;

  • 22

    mais vasto do que tal ao de Pagamento de Incentivo Financeiro, Temporrio e

    Condicionado (dar Bolsa para o Jovem). A dimenso desta temtica amplia-se pelo fato

    de englobar elementos diversos que se interagem e que vo, desde a ajuda em dinheiro,

    at a possibilidade deste bolsista receber cursos de qualificao social e profissional de

    acordo com as demandas identificadas em pesquisas relativas ao mundo do trabalho;

    receber acompanhamento para acesso ao mundo do trabalho e at mesmo de criar uma

    cultura do estudo, entre outros fatores.

    A partir dessas consideraes foi formulado o problema de pesquisa do

    presente estudo, expresso na seguinte indagao: o Programa Bolsa Trabalho se

    constitui num instrumento de poltica pblica de juventude que aponta para a incluso

    social de jovens na cidade de Belm-Pa? A partir deste problema, outras questes

    tambm vm tona no intento de buscar argumentos que sustentem a pesquisa:

    * Quais os indicadores que apontam para a efetividade das aes do PBT como poltica

    pblica de juventude?

    * Como acontece a qualificao profissional oferecida pelo programa Bolsa trabalho?

    * Qual a contribuio da qualificao profissional oferecida pelo Programa, no que diz

    respeito ao aperfeioamento da qualificao tcnica e insero no mundo do trabalho?

    A partir dessas questes, definimos como objetivos da pesquisa:

    Geral:

    * Identificar e analisar a proposta de qualificao social e profissional oferecida pelo

    programa Bolsa trabalho.

    Especficos:

    * Identificar os indicadores que demonstram a efetividade do PBT como poltica pblica

    de juventude e incluso social de jovens na cidade de Belm-Pa.

    * Analisar o alcance deste programa, refletindo sobre um contexto de carncias e

    demandas extremas como a regio norte- Par.

    * Descrever e Analisar ao do Programa como de poltica pblica para a juventude;

  • 23

    1.3- A trajetria da Pesquisa

    Encontramos no escopo da pesquisa qualitativa a opo terico-metodolgica que

    contempla os objetivos deste estudo. O ponto de partida para a definio do desenho

    metodolgico e escolha dos procedimentos foi a reviso da literatura sobre a pesquisa

    qualitativa e seus enfoques, o que lana um olhar sobre a problematizao temtica, a

    questo da pesquisa e as interaes sobre o campo da pesquisa.

    A nfase na pesquisa qualitativa reside mais no processo do que no produto. No

    significa, no entanto, que a pesquisa qualitativa no envolva nmeros ou dados

    quantificveis, pois como acentua Andr (1995 associar quantificao com positivismo

    perder de vista que quantidade e qualidade esto intimamente relacionadas (p. 24).

    Ainda sobre investigao qualitativa e seus diferentes enfoques e denominaes,

    Chizzotti (2000) ressalta que a pesquisa qualitativa tem na fenomenologia e na dialtica

    suas principais orientaes filosficas.

    Como enfoque metodolgico norteador da presente pesquisa optou-se pelo estudo

    de caso, um dos enfoques que se alinha com a pesquisa qualitativa. Na anlise de Ludke

    e Andr (1986) o estudo de caso visa a descoberta, enfatiza a interpretao em

    contexto, que requer para a apreenso do objeto de pesquisa, a compreenso do

    contexto no qual est inserido.

    A escolha do enfoque metodolgico implicou tambm na opo pela dialtica, que

    considera no apenas a experincia vivida e a significao atribuda pelos sujeitos, mas

    a dinmica da relao entre o sujeito e o contexto no qual est inserido, na compreenso

    de sua realidade, que totalizante e historicizada.

    Frigotto (1989) confere que:

    a dialtica para ser materialista e histrica (...) no pode ser constituir

    numa camisa de fora fundada sob categorias gerais no-historicizadas.

    Para ser materialista e histrica tem de dar conta da totalidade, do

    especfico, do singular e do particular (p. 73)

    Para dar base terica ao estudo iremos utilizar pesquisa bibliogrfica, pesquisa

    documental e as entrevistas.

    A pesquisa bibliogrfica deu suporte terico ao longo de todo o processo da

    pesquisa e auxiliou as discusses centrais (conceitos, concepes, fundamentos),

    correlacionando-as com as fontes documentais oficiais e com a realidade vivenciada em

    campo.

  • 24

    Na pesquisa documental, dentre outros, analisou-se o documento-proposta que

    d bases ao Programa Bolsa Trabalho no Estado do Par, sobretudo, o que referencia a

    sua proposta de qualificao profissional. Outros documentos de especial relevncia

    sobre o assunto tambm foram considerados como: fontes primrias (documentos

    expedidos pelo Programa (Relatrio de Avaliao), Legislaes, entre outros) e

    secundrias (artigos cientficos e livros).

    A pesquisa em campo realizada a partir de constantes idas a sede da SETER,

    momentos rico em dilogos informais, sem se constituir em entrevistas, porm de posse

    de um questionrio semi-estruturado6 com a finalidade de monitorar a pesquisa de

    campo e, com o objetivo de investigar empiricamente os ndices de insero,

    permanncia e excluso dos bolsistas7 a partir da implantao do programa.

    Houve a inteno de envolver os jovens participantes do PBT como sujeitos no

    processo de pesquisa, mas essa possibilidade foi descartada pela dificuldade de reunir

    um grupo significativo de jovens participantes do programa, considerando o nmero

    total de matrculas no Programa. Nesse sentido, consideramos ser extremamente

    exaustivo aplicar entrevistas ou reuni-los para responder questionrios. O que seria

    inexeqvel para o presente estudo, considerando os prazos para serem cumpridos.

    A pesquisa contou com o apoio e com a participao da equipe gestora e

    executora das aes do Programa Bolsa Trabalho, os quais nos possibilitaram identificar

    e conhecer como se realizam as aes do programa e todo tipo de informao referente

    misso, objetivos e metas do programa; bem como para confrontar ou argumentar a

    respeito dos dados revelados nas fontes documentais e registros da SETER. Alm do

    contato com a equipe gestora foi possvel conhecer os espaos onde acontecem as aes

    do Programa e acompanhar como estas aes se desenvolvem no cotidiano.

    Essa dissertao ser dividida em trs captulos. No primeiro deles que tem

    como ttulo: Juventude e Polticas Pblicas sero abordados os conceitos e vises

    sobre Juventude; consideraes sobre a tematizao da juventude no contexto das

    6 Questionrio constitudo por, aproximadamente, 12 (doze) perguntas de fcil compreenso que

    foi aplicado junto equipe gestora do Programa. 7 Jovens entre 18 e 29 anos residentes no Par h pelo menos 03 anos e pertencentes a famlias de

    baixa renda, preferencialmente inseridas no Programa Bolsa Famlia, desempregados no mnimo h

    seis meses; que possuam no mnimo 05 anos de escolaridade, dando prioridade queles que estejam

    concluindo o ensino mdio ou que o tenham concludo no mximo h 02 anos e que no estejam

    cursando ensino superior; e que no estejam recebendo o Seguro-Desemprego.

  • 25

    polticas pblicas; alm da tentativa de apresentar uma viso geral sobre o significado

    conceitual das polticas pblicas, bem como a evoluo do Estado enquanto

    formulador de polticas pblicas no Brasil.

    O segundo captulo abordar a proposta de poltica Pblica de qualificao

    profissional para a juventude no contexto do Estado do Par, apresentando o retrato da

    juventude no Estado; as perspectivas atuais e novas Exigncias da qualificao do

    trabalhador e o mundo do trabalho no estado do Par.

    O terceiro captulo, por sua vez, contextualiza o Programa Bolsa Trabalho como

    uma poltica pblica de qualificao profissional, a qual vem estabelecendo novas

    demandas de qualificao ao jovem trabalhador, sobretudo no que diz respeito

    qualificao tcnica. Ainda assim, atravs de dados estatsticos e de outras pesquisas

    objetivamos enriquecer a anlise sobre A qualificao profissional do jovem

    trabalhador no estado do Par, buscando analisar os elementos que contribuem ou

    no para insero ou permanncia dos egressos do programa no mundo do trabalho.

    Por fim, apresentamos a anlise em conjunto e as constataes da pesquisa.

  • 26

    CAPTULO I

    JUVENTUDE E POLTICAS PBLICAS

    O texto que segue abaixo visa apresentar alguns indicativos terico-

    bibliogrficos sobre o tema juventude. O texto est organizado para contribuir com a

    fundamentao sobre a tematizao da juventude no contexto das polticas pblicas.

    Sero abordadas as categorias juventude (conceitos e vises) e condio

    juvenil, contextualizando sua emergncia enquanto objeto de pesquisa, bem como os

    pressupostos norteadores da anlise. Ao trmino, algumas consideraes sobre as

    Polticas pblicas de enfoque na juventude a fim de problematizar o objeto de estudo.

    2.1- Juventude: Conceitos e Vises

    A juventude pode ser considerada como um momento bastante significativo.

    Carregada de caractersticas especficas e com representaes diversas, a categoria

    juventude expressa uma forma prpria de viver o tempo.

    Na tentativa de dar incio discusso terica sobre Juventude consideramos

    distintas perspectivas, modelos de anlise e interpretao sobre juventude, tendo como

    referncia as formas de percepo da juventude e a condio juvenil.

    Ao se tratar a questo da juventude preciso considerar a diversidade social,

    econmica e cultural que faz parte da categoria juventude. Pois, estamos nos referindo a

    sujeitos essencialmente ativos, que possuem peculiaridades, que esto inseridos em

    determinado grupo social e possuem sua prpria identidade.

    impossvel generalizar e afirmar que todos os jovens se comportam

    do mesmo jeito. Que os jovens que trabalham no Nordeste, no Sul ou no

    Centro Oeste tm comportamentos similares; pois, afinal de contas,

    esto todos submetidos a uma sociedade de consumo, massificada, por

    meio da qual se padroniza o comportamento dos jovens, definindo

    aquilo que passa a ser entendido como norma. Creio que no possvel

    falar em uma cultura juvenil, que homogeiniza a juventude. preciso

    reconhecer as diferenas (MARTINS, 2000, p. 21-22)

    Nesse sentido, podemos considerar que so contemporneos os estudos com o

    intuito de dar um significado para a juventude- principalmente no que se refere s

    cincias sociais- percebe-se maior nfase apenas no sculo XX.

    Os ensaios de cientistas sociais que at o final dos anos 70, tentavam

    entender esse fenmeno, afirmavam que a cultura jovem ou

  • 27

    adolescente teria sido formada no seio da cultura de massa, a partir de

    1950 e que h civilizaes sociologicamente sem adolescncia. Alm

    disso, as sociedades sempre constituram a juventude como um fato

    social intrinsecamente instvel (VIANNA, 1997, p.10)

    Ainda no que se refere ao olhar sobre o Jovem, devemos lanar um olhar

    cuidadoso como muito bem j advertiu Bourdieu (1980) ao retratar que uma fase

    biolgica e social no tem exatamente o mesmo significado para um jovem operrio e

    outro jovem campons e o fato de ambos estarem na mesma faixa etria no

    necessariamente os aproxima em diversos aspectos da vida social.

    No que se refere condio juvenil, bastante recorrente no senso comum

    considerar a adolescncia e a Juventude como via de transio entre a vida da infncia e

    a vida adulta respectivamente. Nas palavras de Erikson (1987):

    A fase da adolescncia torna-se um perodo ainda mais acentuado e

    consciente, e como sempre aconteceu em algumas culturas, em certos

    perodos passou a ser quase um modo de vida entre a infncia e a vida

    adulta. Assim nos ltimos anos de escolaridade, os jovens, assediados

    pela revoluo fisiolgica de sua maturao genital e a incerteza dos

    papis adultos sua frente, parecem muito preocupados com as

    tentativas mais ou menos excntricas de estabelecimento de uma

    subcultura adolescente e com o que parece ser mais uma fase final do

    que transitria ou inicial, na formao de sua identidade. (p.128)

    Percebe-se desse modo que a compreenso acerca do significado da

    adolescncia e juventude sempre esteve carregada de ambigidades ao longo da histria.

    A maneira de ser e de manifestar dos adolescentes e jovens, nos seus espaos de

    vivncia, conferem a eles caractersticas que os diferenciam dos adultos e das crianas.

    Adolescentes e jovens tambm podem ser diferenciados pelas condies sociais,

    pelas escolas que freqentam, por um movimento religioso que participam, pela

    participao e militncia poltica e, tambm, por meio dos bairros onde residem. Todas

    essas particularidades conferem ao jovem caractersticas indispensveis para a

    construo de uma condio juvenil.

    A construo da condio juvenil, tal como esboamos, expressa

    mutaes mais profundas nos processos de socializao, seus espaos e

    tempos. Nesse sentido, a juventude pode ser vista como uma ponta de

    iceberg, no qual os diferentes modos de ser jovem expressam mutaes

    significativas nas formas como a sociedade "produz" os indivduos.

    Tais mutaes interferem diretamente nas instituies tradicionalmente

    responsveis pela socializao das novas geraes, como a famlia ou a

  • 28

    escola, apontando para a existncia de novos processos (DAYRELL,

    2007, p. 12)

    Nesse sentido, podemos crer que as relaes que o jovem estabelece com a

    realidade em que convive -com o meio familiar e com as pessoas com as quais

    necessitam se relacionar no cotidiano- ajudam a perceber e compreender o mundo.

    Assim, suas representaes vo se manifestando e podem orientar o percurso das suas

    vidas.

    Numa dimenso sociolgica, o conceito de juventude representa o processo de

    preparao para as responsabilidades da vida adulta, compreendendo, muitas vezes, uma

    faixa etria diferente da concebida pelo Estatuto da Criana e do Adolescente (Lei n

    8069) no Brasil, que considera a adolescncia, perodo entre 12 a 18 anos de idade. No

    mbito social e no contexto das polticas pblicas para a juventude, por exemplo,

    considera-se jovem a faixa etria de 15 a 24 anos.

    Vianna (1997, p.12) comenta que:

    Alguns socilogos, cientistas polticos e antroplogos codificam a

    juventude como sendo um estado de rebeldia, revolta,

    transitoriedade, turbulncia, agitao, tenso, mal estar, possibilidade

    de ruptura, crise psicolgica, conflito (instabilidade, ambigidade,

    liminariedade, flexibilidade, inquietude), resumindo: mudana.

    No mbito da sade, o conceito de juventude no est restrito a preparao para

    as responsabilidades da vida adulta ou como estado de transio. Consideram-se, assim,

    outros fatores que distinguem adolescncia e juventude pelas suas especificidades

    fisiolgicas, psicolgicas e sociolgicas.

    Numa outra perspectiva, Souza (1999) nos alerta sobre a significao de

    caractersticas prprias da juventude e aponta que o lugar e o tempo so fatores

    determinantes para a definio do conceito de juventude:

    O jovem foi visto de diversos modos, mas nem sempre fica evidente nas

    interpretaes, que apesar de algumas noes serem consideradas como

    prprias da juventude, elas no so generalizveis a ponto de se

    tornarem conceitos. O que parece interferir de modo determinante em

    sua definio o lugar e o tempo onde se encontra, e

    conseqentemente, as condies em que vive (SOUZA, 1999, p.16)

    Assim, uma percepo singular ou generalista sobre a juventude , portanto, uma

    condio injusta imposta ao jovem, no que diz respeito a sua prpria vida e a situao

    social na qual est inserido. Um exemplo a condio diferenciada em que vivem

  • 29

    jovens da periferia e os jovens de classe mdia, considerando a situao scio-

    econmica e cultural, oportunidades tambm diferenciadas de acesso aos nveis mais

    elevados de escolaridade e insero e permanncia no mundo do trabalho.

    Nesse contexto, a trajetria de vida dos jovens ser determinante na

    concretizao de seus ideais. Assim,

    [...] podemos dizer que, no Brasil, o princpio da incerteza domina o

    cotidiano dos jovens, que se deparam com verdadeiras encruzilhadas de

    vida, nas quais as transies tendem a ser ziguezagueantes, sem rumo

    fixo ou predeterminado. Se essa uma realidade comum juventude,

    no caso dos jovens pobres os desafios so ainda maiores, uma vez que

    contam com menos recursos e margens de escolhas, imersos que esto

    em constrangimentos estruturais. (DAYRELL: 2007, p. 9)

    Carrano (2000) aponta que os pressupostos preconceituosos de alguns

    estudiosos, podem estigmatizar os jovens quando os associam violncia ou a uma

    ameaa social, sem consider-los em um contexto sociocultural. Para este autor esse

    viso limitada ao retratar o jovem, possibilita dificuldades para se chegar conceituao

    do tema juventude:

    Grande parte das dificuldades em se definir os contornos da juventude,

    como objeto social, resultante da insistncia dos estudos em associar a

    juventude com a violncia. A juventude tratada muito mais como um

    problema do que como um campo possvel de problematizao. As

    anlises sobre as condies concretas de existncia e os sentidos

    culturais das aes dos jovens, em suas realidades cotidianas, so

    comprometidas por essa monocultura analtica. A discusso sobre a

    realidade da juventude no pode ser apartada do contexto global de

    realizao das sociedades contemporneas. Muito dos problemas que

    so atribudos aos jovens so, na verdade, elementos sociais e

    ideolgicos que atravessam a totalidade das estruturas e

    relacionamentos sociais (CARRANO, 2000, p.4)

    Na realidade, embora tenhamos um variado aporte terico no que tange a

    temtica da Juventude, verificamos, porm, uma homogeneizao do termo juventude, o

    que nos indica uma categoria dinmica com conceitos variados e acompanhados de

    ambigidades e preconceitos estabelecidos.

    Bourdieu (1983) considera que A juventude no apenas uma palavra. Assim,

    a juventude dever ser olhada no apenas na sua aparente unidade, mas tambm na sua

    diversidade. No h, de fato, um conceito nico de juventude que possa abranger os

  • 30

    campos semnticos que lhe aparecem associados. As diferentes juventudes e as

    diferentes maneiras de olhar essas juventudes correspondero, pois, necessariamente,

    diferentes teorias.

    Como j foi dito anteriormente juventude no categoria unvoca ou universal,

    de um nico sentido. Mauger (apud SPOSITO, 2000) evidencia que uma das

    dificuldades presentes nos estudos que investigam a questo da juventude gravita em

    torno da indefinio dessa categoria, considerada pelo autor como

    epistemologicamente imprecisa. Assim, corroborando com a posio deste autor,

    Sposito (2000,p.2) afirma que ... a prpria definio da categoria juventude encerra um

    problema sociolgico passvel de investigao.

    Nesse sentido, a juventude tem sido analisada por diversas perspectivas tericas

    das cincias sociais: a antropologia, a sociologia, a psicologia, a pedagogia, a histria da

    juventude, entre outras (ALVARADO et all, 2009), com diferentes recortes tericos,

    ressaltando distintas dimenses da juventude.

    A abordagem e a pretensa conceituao de juventude demandam uma

    aproximao necessria e crtica desses diferentes modos de olhar a juventude, de

    forma que esta categoria possa ser apreendida na sua complexidade. Os pontos de

    partida deste debate so diversos, destacando-se: o enfoque nas condies e

    possibilidades da participao dos jovens na conservao ou transformao da

    sociedade; a juventude como contingente demogrfico; o jovem como sujeito de

    direitos, dentre outros (ABRAMO, 2005).

    Entre os consensos construdos sobre a temtica, destaca-se a necessidade de

    falar de juventudes, haja vista a multiplicidade do perfil da juventude no que tange

    classe social, gnero, etnia, meio em que vive etc., alm da variedade de prticas e

    opinies (ABRAMO; BRANCO, 2005).

    Compartilhamos da concepo de Peralva (1997), Groppo (2000), Dayrell

    (2003), de que a categoria social juventude , ao mesmo tempo, uma representao

    social e uma situao/condio social. Conforme Dayrell (2003) se as transformaes

    pelas quais passam os indivduos em determinada faixa etria lhe conferem um carter

    universal, mas a forma como cada sociedade se relaciona com esse momento muito

    variada, posto que esta diversidade se concretiza nas condies sociais, culturais, de

    gnero, regionais, geogrficas, entre outras.

  • 31

    Conforme este autor, juventude parte de um processo mais amplo de

    constituio de sujeitos, que tem especificidades que marcam a vida de cada um.

    A juventude constitui um momento determinado, mas no se reduz a

    uma passagem; ela assume importncia em si mesma. Todo esse

    processo influenciado pelo meio social concreto no qual se

    desenvolve e pela qualidade das trocas que este proporciona. Os jovens

    constroem determinados modos de ser jovem que apresentam

    especificidades (DAYRELL, 2003, p.42).

    Nesta direo, a compreenso da categoria condio juvenil tambm

    imprescindvel, posto que diz respeito maneira de ser, a situao de algum perante a

    vida e sociedade, bem como s circunstncias necessrias para que se verifique essa

    maneira ou tal situao (DAYRELL, 2007). Para Branco (2005, p.42), refere-se ao

    modo como uma sociedade constitui e atribui significado a esse momento do ciclo da

    vida, que alcana uma abrangncia social maior, referida a uma dimenso histrico-

    geracional a autora faz uma distino entre condio e situao juvenil. Esta

    ltima revela o modo como a condio social vivida, a partir dos diversos recortes

    referidos s diferenas sociais classe, gnero, etnia etc.. Desta forma, possvel levar

    em conta a dimenso simblica da condio juvenil, bem como, conforme afirma

    Margulis (apud ABRAMO, 2005, p.42) aspectos fticos, materiais, histricos e

    polticos, nos quais toda produo social se desenvolve.

    Sob esta perspectiva, o jovem vai construindo sua identidade na relao que

    estabelece com o mundo e com o(s) outro(s). Desta forma, de acordo com Dayrell

    (2005), quanto mais o jovem se conhece, experimenta as suas potencialidades

    individuais, descobre o que sente prazer em fazer; quanto mais o jovem conhece a

    realidade em que se insere, compreende o funcionamento da estrutura social com seus

    mecanismos de incluso e excluso e tem conscincia dos limites e possibilidades

    abertas pelo sistema na rea em que deseja atuar, maiores sero as suas possibilidades

    de elaborar e implementar o seu projeto. Identidade e conhecimento da realidade so,

    portanto, elementos imprescindveis no processo de projeo do futuro.

    Martinez (2008) afirma que no caso dos jovens, o projeto de vida constitui um

    dos vnculos mais diretos com seu processo de identificao, pois com ele se prefiguram

    como adultos.

    Guerrero (2008) afirma que existem casos em que se observa a ausncia de

    planos de vida entre jovens estudantes, que optam por no t-los. So jovens para os

    quais a ausncia de um plano de vida tem amparo em certa filosofia de vida, resultado

  • 32

    de uma reflexo sobre o sentido de pensar ou no no futuro. Outros jovens apresentam

    incertezas quanto ao futuro, que envolvem questes objetivas como questes

    acadmicas ou econmicas e, subjetivas, que dizem respeito a concepes sobre suas

    capacidades, prioridades de interesses, entre outros. H tambm os jovens que se

    propem metas a curto e mdio prazo, a fim de assegurar-se das possibilidades de

    caminhar com segurana. A autora alerta que mais do que identificar se os jovens tm

    ou no projeto de vida importa saber como se posicionam frente ao futuro.

    Este autor assinala que questionar sobre os projetos de vida dos estudantes

    implica explorar a forma com que visualizam seu horizonte de oportunidades e se

    posicionam frente s possibilidades que seu capital simblico e suas condies materiais

    lhe permitem.

    Dentre as perspectivas postas aos jovens nessa fase da vida, a valorizao da

    educao escolar aparece como algo distante, como promessa de futuro. Contudo, o

    acesso e permanncia dos jovens nos diferentes nveis de ensino se do, ainda, de forma

    muito desigual, especialmente os oriundos das classes populares, embora as estatsticas

    oficiais venham registrando uma sensvel ampliao dos ndices de escolaridade no pas.

    Em relao ao ensino mdio, a universalizao e progressiva obrigatoriedade

    deste nvel de ensino, estabelecida na Emenda Constitucional N 14, de 13/09/96 e pela

    Lei 9.394/96 Lei de Diretrizes e Bases da Educao, respectivamente, no implica em

    expanso real do ensino para os jovens, posto que ainda h um nmero significativo

    deles fora da escola, com poucos anos de estudo, alm dos ndices de analfabetismo,

    evaso e repetncia.

    Como podemos evidenciar muitas vezes a alternativa que resta ao jovem -

    particularmente aqueles pertencentes as classes populares- inserir-se nas

    oportunidades de trabalho que lhes so apresentadas, quer seja para se manter

    economicamente, quer seja para se sentirem numa posio mais confortvel em seu

    grupo. Nessa direo, a qualificao para o mundo do trabalho ganha mais nfase do

    que a educao escolar.

    Contudo, Novaes (2006) afirma que os jovens de hoje esto muito mais

    escolarizados do que os de h poucas dcadas. No entanto, ressalta que enfatizar muito

    na escolaridade pressupor que existam empregos disponveis para os escolarizados,

    alm disso, alguns estudos indicam que os jovens mais pobres no se iludem, no

    embarcam no mito da escolaridade. Para esta autora, as expectativas de mobilidade

    social interferem nas possibilidades de a juventude projetar o futuro [...]. A diminuio

  • 33

    das possibilidades de mobilidade social gera pessimismo e ausncia de perspectiva em

    relao ao futuro (NOVAES, 2006, p.108). No geral, conforme afirma Dayrell (2007),

    se configura uma ambigidade caracterizada pela valorizao do estudo como uma

    promessa futura, uma forma de garantir um mnimo de credencial para pleitear um lugar

    no mercado de trabalho, e pela possvel falta de sentido que encontram no presente.

    Quanto a isto, Pais (2006) afirma que entre alguns jovens surge uma forte

    orientao em relao ao presente, visto que as possibilidades de concretizao das

    aspiraes que tem em relao ao futuro tendem a no acontecer como o esperado.

    Segundo o autor, nestes casos, os projetos de futuro encontram-se relativamente

    ausentes. Ou, existindo, so de curto prazo. O importante viver o dia-a-dia (PAIS,

    2006, p. 10) 8.

    Assim, deve-se considerar que a juventude constitui um perodo privilegiado de

    elaborao de projetos de futuro, que implicam pensar a trajetria e o presente vivido,

    permeados pela prpria construo da identidade juvenil, bem como pela qualidade das

    relaes estabelecidas com o outro (indivduo ou instituies) em sociedade. neste

    limiar que esta a relevncia da efetividade das polticas pblicas para a juventude.

    2.2- Estado e Polticas Pblicas

    As relaes entre o Estado, o mercado e a sociedade civil, que consolidaram as

    diferentes formas de realizao do Estado de Bem-Estar Social em vrias partes do

    mundo, resultaram em conquistas sociais e democrticas, que buscavam reduzir as

    desigualdades sociais criadas pelo capitalismo, por meio de mecanismos amplos de

    proviso de bens e servios concebidos como direito (BARBOSA e MORETTO, 1996-

    1998a).

    A partir dos anos 1970 com a crise do Estado de Bem-Estar Social, segundo

    Esping-Andersen (1991), ocorreu uma grande variao de polticas implementadas por

    diversos Estados Nacionais, que foram denominadas de modelo Welfare state9.

    8 Dados da Pesquisa Perfil da Juventude Brasileira demonstram que 82% dos jovens concordam que

    pensar no futuro apresenta mais dvidas que certezas, alm de 52% verem mais riscos do que

    possibilidades no futuro. Nesta direo, 57% dos jovens concordam que as experincias interessantes no

    presente so mais importantes que a preocupao com o futuro. Sobre os projetos de futuro, 42% dos

    jovens pesquisados concordam que no adianta fazer projetos porque o que acontece depende mais de

    sorte do que de esforo (ABRAMO e BRANCO, 2005, p. 384). 9 O Welfare State surgiu nos pases europeus devido expanso do capitalismo aps a Revoluo

    Industrial e o Movimento de um Estado Nacional visando a democracia. Segundo (DRAIBE: 1988, 21)

    seu incio efetivo d-se exatamente com a superao dos absolutismos e a emergncia das democracias

    de massa.

  • 34

    A crise do capitalismo contemporneo, a globalizao e a derrocada do

    socialismo no Leste Europeu nos anos 1980 abrem caminho para as teses neoliberais de

    desmontagem do Estado, enquanto instncia mediadora da universalizao dos direitos

    e da cidadania. Diante desse quadro, a questo social assume novas configuraes na

    sociedade capitalista, em decorrncia da imposio dos ajustes econmicos, como

    requisitos ditados pela globalizao.

    De acordo com Ianni (1997), na mesma escala em que ocorre a globalizao do

    capitalismo, verifica-se a globalizao do mundo do trabalho. As mudanas afetam no

    s os arranjos e a dinmica das foras produtivas, mas, tambm, a composio da classe

    trabalhadora. Ainda segundo este autor as conseqncias da implementao do iderio

    neoliberal expressam-se pelo acirramento das desigualdades, da reduo dos direitos

    sociais e trabalhistas, aprofundamento dos nveis de desemprego, pobreza e excluso

    social que se acentuam nos anos 90.

    Na dcada de 1990, o Brasil aderiu ordem neoliberal que prometia uma

    soluo para a retomada do crescimento econmico, uma ampla modernizao e

    avanos no que se refere tambm questo social. Essas mudanas se dariam mediante

    a integrao do pas ao movimento geral da globalizao e da implementao de um

    conjunto de reformas estruturais, como a reforma gerencial do Estado, a abertura

    comercial e financeira, a privatizao, e, uma ampla reforma social.

    De forma geral, a questo social em meio a movimentos regressivos foi sendo

    redimensionada e se adequando s possibilidades oferecidas pela ordem econmica.

    Neste sentido, a estratgia governamental caminhou simultaneamente em duas direes,

    como descreve Fagnani:

    De um lado, ela foi marcada pela formulao de uma nova agenda de

    reformas, visando reviso constitucional, prevista para ocorrer em

    1993. De outro lado, enquanto as elites engendravam essa reviso que

    acabou no ocorrendo a estratgia do governo visava a obstruir ou

    desfigurar os direitos sociais no processo de regulamentao da

    legislao constitucional complementar. (FAGNANI, 2005, p. 396).

    Assim, sob a lgica do projeto neoliberal hegemnico, as transformaes de

    ordem econmica mundial mudaram completamente a agenda social governamental. O

    debate sobre a forma de como retomar o crescimento, ser competitivo, combater a

    pobreza e reduzir as desigualdades passou a ser prioritrio, na reestruturao dos

    programas sociais.

  • 35

    Foi neste contexto de uma ampla reestruturao de aes voltadas para

    enfrentamento da pobreza que ocorre os chamados programas sociais focalizando suas

    aes em grupos diferenciados, de acordo com as polticas pblicas adotadas e

    direcionados para a reduo da pobreza.

    Para Marta Arretch (1995) os servios sociais surgem para dar respostas s

    dificuldades individuais, visando garantir a sobrevivncia das sociedades. E ainda

    salienta que As medidas de proteo aos pobres foram progressivamente deixando de

    trat-los indistintamente, isto , passaram a surgir polticas de ateno

    heterogeneidade da pobreza (1995:11)

    Nessa direo, o Brasil chega ao sculo XXI com um modelo de proteo social

    complexo que conta com diversos programas sociais em desenvolvimento nas esferas

    municipais, estaduais e federais. Assim, a cidadania que cada vez mais reivindicada

    pela populao para a garantia dos mesmos direitos para todos posta em cheque nas

    aes de polticas pblicas. Desse modo, as polticas pblicas estimuladoras do

    desenvolvimento social- como o caso das polticas para a juventude, por exemplo-

    realizaram um papel estratgico.

    As transformaes econmicas, polticas, sociais e culturais que ocorreram ao

    longo dos ltimos anos resultaram na expanso das cidades, no aumento demogrfico e

    no aprofundamento da situao social. Assim, as altas taxas de pobreza, do desemprego,

    da falta de moradia, entre outras, colocaram em evidncia a questo social e o papel do

    Estado. Nas palavras de POCHMANN (2005, p. 23) [...] construiu-se um pas para

    poucos, em que a maior parte das transformaes ocorridas aconteceu sem mudanas de

    natureza estrutural, bloqueando a incluso social plena.

    A ao do estado de estruturar um conjunto de polticas e programas,

    especificamente os das reas sociais previdncia, assistncia social, trabalho,

    alimentao, sade, educao, alm de habitao e saneamento, destinados prestao

    de bens e servios, bem como transferncia de renda teve como objetivo garantir

    direitos sociais; equalizar as oportunidades; reduzir os riscos sociais; e, enfrentar as

    condies de pobreza.

    Na tentativa de compreender o significado de Polticas pblicas, vamos indicar

    alguns elementos do conceito. Assim, para ajudar na reflexo, os referencias tericos

    que ajudam analisar a idia sobre o conceito de Polticas Pblicas sero autores que

    discutem sobre esta temtica, tais como MEKSENAS (2002), RUA (1998) ROCHA

  • 36

    (2001), SOUZA (2006) entre outros que vo ajudar a entender sobre o conceito de

    polticas pblicas.

    SOUZA (2006) diz que as polticas pblicas na sua essncia esto ligadas

    fortemente ao Estado que determina como os recursos so usados para o beneficio de

    seus cidados. Nesse entendimento, as polticas pblicas visam responder a demandas,

    principalmente dos setores marginalizados da sociedade, considerados como

    vulnerveis. Embora essas demandas -que vo se consolidar em polticas pblicas-

    sejam interpretadas por aqueles que ocupam o poder (quem faz a poltica) so

    influenciadas pelo desejo de ampliar e efetivar direitos de cidadania, motivados, no

    entanto, pela presso e mobilizao social.

    Segundo Rocha (2001) a poltica social uma modalidade de poltica pblica

    que visa fornecer condies bsicas de vida populao. Visa buscar uma situao de

    maior igualdade e fornecer um nvel bsico de segurana socioeconmica. Pode

    envolver diversas modalidades, como polticas de sade, educao, habitao, amparo a

    desempregados, crianas, velhos, programas de renda mnima, dentre outras. Assim,

    visam dar conta do problema da desigualdade e da pobreza. As polticas pblicas, nesse

    sentido, seriam, ento, reaes do Estado s demandas da sociedade.

    Conforme Rua (1998), uma vez que as polticas so respostas, essas no

    ocorrero a menos que haja uma provocao. As polticas pblicas destinam-se a

    solucionar problemas polticos, que so as demandas que lograram ser includas na

    agenda governamental. Enquanto no entram nesse patamar, so consideradas estados

    de coisas, situaes diversas que atingem grupos mais ou menos amplos da sociedade,

    mas que no chegam a mobilizar as autoridades polticas.

    Assim, Ao considerar o carter reativo das polticas pblicas, principalmente no que se

    refere juventude, as definimos como:

    Conjuntos de decises e aes destinadas resoluo de problemas

    polticos. Essas decises e aes envolvem a atividade poltica

    compreendida como um conjunto de procedimentos formais que

    expressam relaes de poder e se destinam soluo pacfica de

    conflitos relacionados com bens pblicos (RUA, 1998, p.731).

    MEKSENAS (2002) influenciado por uma viso marxista vai dizer que as

    polticas pblicas no so um mecanismo utilizado pelo Estado para ajudar os mais

    excludos a ascender socialmente, mas um modo usado pelo capital para se manter no

    poder sem a reclamao da parte perifrica da sociedade. Como pode ser observado no

    trecho seguinte:

  • 37

    O conceito de polticas pblicas aparece vinculado ao desenvolvimento

    do Estado capitalista e esse s relaes de classe. No sculo XX, as

    polticas pblicas so definidas como um mecanismo contraditrio que

    visa garantia da reproduo da fora de trabalho. Tal aspecto da

    organizao do Estado nas sociedades industriais, no traduz um

    equilbrio nas relaes entre o capital e o trabalho. (2002 p.77)

    Segundo este autor, em alguns momentos a populao excluda das decises do

    Estado que usa os recursos pblicos para outros investimentos, excluindo a maioria da

    populao, que deveria ser os primeiros beneficirios dos recursos pblicos.

    Um outro aspecto das contradies presente nas relaes polticas do Estado implica a excluso das classes trabalhadoras nas instancias de

    deciso e gerenciamento das polticas pblicas e, ao mesmo tempo no

    apelo para a incorporao das demandas dessas classes na extenso dos

    direitos sociais. Tal aspecto integra o receiturio de medidas que

    garantem a legitimidade das condies de governabilidade presentes no

    Estado frente ao conjunto da sociedade. Assim a interveno estatal que

    ocorre por meio das polticas pblicas emerge numa complexa disputa

    pelo poder relacionado s contradies econmicas e polticas.

    (MEKSENAS 2002 p 77- 78)

    MEKSENAS (2002) mostra, ainda, como as polticas pblicas desde suas

    origens esto ligados ao capital e como este o utiliza como uma forma de aumentar mais

    seu domnio e manter o seu controle sobre os mais excludos, mantendo uma iluso que

    este pode futuramente ascender socialmente, algo que no vai ocorrer.

    Mas, afinal sempre houve uma preocupao em implementar polticas em

    beneficio ao social?

    Segundo Rua (1998), as polticas pblicas em geral, e especificamente as

    polticas juvenis, no Brasil, so fragmentadas, esto merc da competio

    interburocrtica, padecem da descontinuidade administrativa, agem em resposta a certas

    ofertas e no a demandas especficas, e revelam as clivagens entre a sua formulao e a

    sua implementao.

    Contudo, na prtica, a presso de setores da sociedade sobre o Estado, que d

    incentivo e origem s Polticas Pblicas. Nos ltimos anos, observa-se ainda o aumento

    no nmero de iniciativas que so resultado de uma cooperao entre governo e

    sociedade.

  • 38

    No Brasil tradicionalmente o poder pblico no esteve voltado para a

    implementao e dinamizao de polticas pblicas para o seguimento juvenil. Em seu

    estudo sobre a tematizao da juventude no Brasil, Abramo (1997) alinhava esta recente

    preocupao e iniciativas governamentais focadas na formulao de polticas pblicas

    voltadas para os jovens, evidenciando aes municipais e estaduais envolvendo

    programas de qualificao profissional e acesso a servios de sade, cultura, lazer.

    A autora aponta em seu estudo que aes voltadas para a juventude despontam

    com mais vigor nas Organizaes No-Governamentais- ONGs e instituies de

    trabalho social, cujo foco de ao est centrado no atendimento de jovens em situao

    de desvantagem social 10

    ou risco social 11

    .

    Madeira (1998) considera ainda tmida ateno dispensada no Brasil para as

    questes da juventude, numa demonstrao de incompreenso da relevncia poltica e

    social que tm os jovens na nossa sociedade. No entanto, a opinio desta autora sobre a

    excluso social juvenil 12

    tem acentuado a preocupao dos governos e da sociedade,

    exigindo, por exemplo, a capacitao e o emprego dos jovens, o desenvolvimento de

    mltiplas capacidades e aprendizagens continuadas.

    Esse cenrio passa a se alterar no final dos anos de 1990 e no incio da dcada

    atual quando iniciativas pblicas so observadas, algumas envolvendo parcerias com

    instituies da sociedade civil, e as vrias instncias do Poder Executivo federal

    estadual e municipal.

    Na tentativa de traar um panorama do tratamento dado s temticas

    relacionadas aos jovens no Brasil, observa-se que, apesar da preocupao mais

    sistemtica dos governos brasileiros, a partir dos anos 90, em formular e programar

    polticas especficas voltadas para os jovens, essas preocupaes no se concretizaram,

    de fato, em polticas pblicas, mas em programas geralmente desconectados,

    focalizando grupos de jovens que compartilham determinada condio, tratados quase

    sempre de forma estereotipada.

    10

    Desvantagem social nesse contexto refere-se ao jovem carente, de famlia de baixa condio

    socioeconmica 11

    Risco social o termo usualmente empregado para designar os adolescentes que vivem

    privados do convvio familiar, os meninos de rua, aqueles que so vtimas de abuso sexual, esto

    envolvidos no consumo e ao do trfico de drogas, etc. 12

    Expresso cunhada por Madeira (1998), traduzida pelas dificuldades enfrentadas pelos jovens na

    atualidade, para se inserirem na sociedade.

  • 39

    A maior mobilizao para discutir uma Poltica Nacional de Juventude s foi

    realmente acontecer nos ltimos anos, com vistas a elaborar um Plano Nacional de

    Polticas Pblicas que contemple e aprofunde as questes que afetam os jovens e um

    Estatuto dos Direitos da Juventude.

    O foco das polticas para os jovens dirigia-se, ento, para a profissionalizao, a

    ocupao produtiva do tempo livre e a educao dos jovens, atendendo lgica

    desenvolvimentista.

    O jovem deveria ser preparado para se tornar um adulto produtivo,

    responsvel pelo progresso nacional. Nota-se, portanto, a construo

    social da juventude como gerao a ser integrada sociedade para ela

    servir, priorizando-se na interao indivduo e sociedade, um modelo

    ideal de sociedade, ou seja, a norma da sociedade produtiva (CASTRO

    & ABROMOWAY, 2002, p. 22).

    Um importante referencial sobre a infncia e a adolescncia no Brasil o

    Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA). Desde a sua publicao, em 1990, passou-

    se a considerar crianas e adolescentes como cidados em desenvolvimento, ancorados

    numa concepo plena de direitos. No entanto, a juventude no lembrada, nesse

    contexto.

    O ECA que muito contribuiu para garantir os direitos e deveres da criana e do

    adolescente, ao incorporar o conceito de cidadania - embora tenha feito avanar de

    modo significativo a discusso sobre as polticas de juventude no foi um fator

    determinante para balizar a discusso sobre os direitos dos jovens que atingem a

    maioridade legal.

    O que, por sua vez, parece reforar a imagem do jovem como um problema,

    especialmente em questes relacionadas violncia, ao crime, explorao sexual, s

    drogas, sade e ao desemprego. A partir dessa concepo limitada, os programas

    governamentais procuraram apenas e nem sempre com sucesso minimizar a

    potencial ameaa que os jovens parecem representar para a sociedade.

    Apesar de tudo, nos ltimos anos o tema da juventude foi enfim inserido na

    agenda pblica, no Brasil, especialmente no reconhecimento de problemas que mais

    diretamente afetam os jovens: sade, violncia e desemprego, e na considerao do

    jovem como protagonista13

    ativo na implementao destes programas.

    13

    SPOSITO (2003) argumenta que o protagonismo no espelha, de fato, uma relao pautada pela idia de autonomia e participao dos jovens. Parece tratar-se mais de uma metodologia de ao com

    o trabalho dos jovens, do que um princpio tico-poltico que pressupe o reconhecimento dos mesmos

    como atores coletivos, relevantes e, por isso mesmo, com direito autonomia.

  • 40

    Para tanto, torna-se necessrio romper com a fragmentao das polticas de juventude,

    romper com a viso estigmatizada ou utilitarista da condio juvenil, estimular uma

    melhor relao entre a sociedade civil e os jovens, promovendo a participao dos

    jovens na construo de sua cidadania.

    As polticas pblicas para a juventude brasileira: o ponto de partida

    Apesar de ter o Estado brasileiro nas ltimas dcadas empreendido vrias

    polticas pblicas voltadas para as crianas e os jovens do nosso pas, a sociedade como

    um todo reivindica, de maneira crescente, medidas mais eficientes e cleres.

    O mundo civilizado, em seus principais pases, tem buscado solues no sentido

    de sanear as condies que violam ou ameaam os direitos das crianas e dos

    adolescentes. Todavia, sem desmentir as tendncias, mas buscando questionar o papel e

    a misso histrica dos Estados e propor solues de compromisso, optou-se por fazer

    uma pesquisa para analisar a trajetria das polticas pblicas destinadas aos jovens, mais

    especificamente no Par, buscando verificar as principais tendncias de

    projetos/programas destinados a promover e assegurar condies satisfatrias que

    efetivem a incluso social dos jovens a nvel local, por meio da qualificao

    profissional.

    No faz muito tempo que o debate pblico sobre a temtica Juventude surgiu. As

    discusses em torno do tema provocam reflexes e pavimentam o caminho para a

    construo de um modelo brasileiro de polticas pblicas para os jovens. Pesquisas

    apontam que Os jovens de 15 a 24 anos representam cerca de 20% da populao do

    pas. So 33 milhes de brasileiros, dos quais 80% vivem na rea urbana14

    .

    Em vista deste cenrio, quais as diferenas e desigualdades sociais que mais

    afetam o jovem brasileiro? O cotidiano nos aponta inmeras, mas certamente as que so

    mais recorrentes so: desemprego, pobreza, falta de perspectiva, agravamento de

    violncias e excluso social. Alm disso, a forma - por vezes preconceituosa - como a

    sociedade interpreta os jovens interfere destrutivamente na construo de suas relaes

    sociais com o mundo. Segundo Kerbauy:

    [...] o imaginrio social continua associando a juventude transgresso,

    curiosidade, s buscas fora dos referenciais de normalidade, sem atentar para a

    tentativa angustiada dos jovens de serem includos, ouvidos e reconhecidos

    como membros da sociedade em que vivem. (2005, p. 196)

    14

    Disponvel em http://www.projetojuventude.org.br - Acesso em 02 de julho de 2009.

  • 41

    O Estado precisa adotar novas polticas pblicas. Polticas estas adaptadas aos

    novos tempos, s novas necessidades, ao um contexto inteiramente novo. Os gestores

    necessitam de uma mudana na forma como entendem os jovens, suas necessidades,

    suas demandas mais primrias, seus desejos, sonhos e capacidades. Para conceber

    polticas pblicas dirigidas aos jovens preciso conhecer a realidade vivenciada por eles

    e suas especificidades.

    Quais seriam, ento, os principais desafios no que se refere elaborao de

    polticas pblicas para a juventude no Brasil? Essa questo nos remete maneira como

    concebemos os jovens. H que se desenvolver uma compreenso mais realista (e

    humana) sobre o mundo juvenil. No basta interpretar os jovens somente como

    pblico-alvo. Esses sujeitos de direito necessitam, na prtica, de marcos legais, de

    instrumentos jurdicos e polticas capazes de garantir o respeito desses direitos.

    Na opinio de Maria Alda Sousa (2008), em Juventude e a Noo de

    Protagonismo nas Polticas Pblicas Brasileiras, de certo modo, a diversidade de

    relaes vivenciadas no mbito do universo juvenil (escola, trabalho, cultura, poltica,

    sexualidade, violncia) permite traar perfis juvenis e orientar as polticas pblicas para

    esse segmento.

    Pensar em polticas pblicas para a juventude refletir seriamente sobre a

    participao desses jovens na sua elaborao. Eles tm capacidade de se organizar,

    apresentar questes, propor novos caminhos, alm de manter dilogo franco e aberto

    com outros atores sociais, que efetivamente decidem estratgias e planos de ao.

    O Brasil tem mais de 170 milhes de habitantes. Metade dessa populao

    constituda por crianas e jovens com menos de 25 anos. Os dados apresentados a seguir

    so preocupantes: [...] Mais de 18 milhes de jovens (estavam) fora da escola e, que

    desses, quase dois milhes eram analfabetos, 91,9% viviam em famlias com renda per

    capita de at um salrio mnimo e 70% habitavam a regio mais pobre do pas, a regio

    nordeste [...] O IBGE aponta que dos quase 16 milhes matriculados nas escolas

    brasileiras, 66,3% estavam na faixa etria entre 15 e 19 anos e 24,3% entre 20 e 24

    anos. No ensino superior, apenas 10,9% desse total (BRENNER, et al, 2005, p. 196)

    Entre as diversas desigualdades que afetam a juventude no Brasil em relao

    educao, a situao de renda e cor especialmente determinante

    (BRENNER, et al, 2005, p. 196). De acordo com o IBGE, os jovens que vivem em

    famlias com renda per capita de at do salrio mnimo tinham, em mdia, cinco anos

  • 42

    de estudo. Em contrapartida, os jovens provenientes de famlias com renda acima de um

    salrio mnimo tinham 9,5 anos de estudo.

    Fica evidente, portanto, a importncia da escolarizao no enfrentamento da

    situao de pobreza. A populao negra e parda - com mais de 10 anos de idade - tem

    em mdia cinco anos de estudo, contra 7 anos de estudo entre a populao branca

    (BRENNER, et al, 2005, p. 196).

    Atualmente, os jovens possuem mais acesso escolarizao formal e nela

    permanecem por mais tempo; contudo, a permanncia ainda se caracteriza, em larga

    escala, por reprovaes sistemticas, abandono e evaso que criam graves distores

    entre idade ideal e srie escolar (BRENNER, et. al, 2005, p. 196).

    Quanto distribuio etria do desemprego, os ndices totais de desemprego

    chegaram a 27,3% para os jovens entre 15 e 19 anos e 18,9% para os entre 20 e 24 anos

    de idade. Os jovens representaram 62,2% no montante global dos que perderam

    emprego assalariado (BRENNER, et al, 2005, p. 196).

    Os autores assinalam a seguinte realidade: dos 17,2 milhes de jovens

    ocupados, 10,5 milhes tinham entre 20 e 24 anos e apenas seis milhes estavam em

    empregos formais. Entre os jovens desocupados, aproximadamente 50% deles estavam

    procura do primeiro emprego. (BRENNER, et al, 2005, p. 197).

    O alto ndice de mortalidade entre os jovens surge como um outro aspecto

    relevante na discusso sobre a juventude brasileira. Os autores citam dados apresentados

    na publicao Mapa da Violncia (2002), da Unesco: (...) a taxa de mortalidade por

    homicdio de jovens entre 15 e 24 anos no Brasil era a terceira do mundo, ficando atrs

    apenas da Colmbia e Porto Rico. Os homicdios, em especial, incidem diretamente

    sobre a populao jovem dos setores mais marginalizados social e economicamente da

    sociedade brasileira. (BRENNER, et al, 2005, p. 197).

    Outra questo preocupante a alta incidncia de jovens encarcerados. De um

    total de 301 mil presos, 65% tem entre 18 e 30 anos de idade. Alm disso, (...) esse

    contingente majoritariamente jovem, masculino e de baixa escolarizao.

    (BRENNER, et al, 2005, p. 197).

    Em sntese, os autores chegam seguinte concluso: o quadro demogrfico e os

    indicadores sociais que acompanham a situao da juventude neste incio de sculo so

    bastante complexos e, em grande medida, dramticos. (BRENNER, et al, 2005, p.

    198).

  • 43

    2.3. Antecedentes: histrico sobre a atuao do Estado na formulao de polticas

    pblicas para a juventude brasileira

    No artigo intitulado A Arena das Polticas Pblicas de Juventude no Brasil:

    processos sociais e propostas polticas (2005) os autores traam os antecedentes das

    polticas nacionais da juventude no Brasil. A esse respeito, destacam trs perodos da

    histria relativos s aes governamentais no mbito federal para a populao juvenil, a

    saber:

    A promulgao da Constituio Federal de 1988 e (ii) do ECA em 1990;

    O segundo mandato do governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) de 1999

    a 2002;

    O incio do governo Lula

    Nesse sentido, podemos considerar que:

    No que se refere a promulgao da Constituio Federal, na dcada de 1980 emergiu

    uma nova noo de cidadania no Brasil, forjada pelas lutas dos movimentos sociais por

    liberdades democrticas e garantias de direitos. O processo constituinte de 1988, alm

    de alterar as bases constitucionais dos direitos sociais, civis e polticos, provocou um

    impacto decisivo nas Constituies Estaduais, nas leis orgnicas municipais e em sua

    prpria regulamentao legislativa. Esse novo ordenamento, alm de incorporar agenda

    universalista de direitos e proteo social, trouxe como marca exigncias legais da

    participao na formulao de polticas e gerenciamento da coisa pblica, acenando,

    assim, com possibilidades de construo partilhada e negociada de uma legalidade que

    se orientava para a conciliao entre democracia e cidadania.

    A nova Constituio privilegiou a paridade de participao entre governo e

    sociedade civil em conselhos responsveis por formular, gerir e estabelecer controle

    social sobre polticas pblicas descentralizadas. A municipalizao foi diretriz instituda

    com o intuito de estimular a participao cidad no trato da coisa pblica. Nesse

    contexto da ampliao da conscincia dos direitos, a sociedade brasileira repensou a

    fragilidade histrica da situao das crianas e adolescentes, especialmente as oriundas

    das classes populares.

    A partir desse momento, a atuao dos movimentos sociais no processo de

    promoo e monitoramento (controle social) das polticas pblicas para a juventude foi

    determinante.

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    A promulgao do ECA- O Estatuto da Criana e do Adolescente (Lei Federal

    no. 8.069, promulgada em 1990) trata-se de um marco legal de um processo prtico

    reflexivo que se disps a transformar o estatuto da menoridade brasileira, especialmente

    naquilo que se refere aos excludos socialmente ou em conflito com a lei. (...) alm de

    representar radical mudana de rumo tico e poltico frente ao antigo ordenamento

    jurdico-institucional configurado no segundo Cdigo de Menores (1979), gerou

    estruturas colegiadas nos mbitos nacional, estadual e municipal (Conselhos nacional,

    estaduais e municipais de direitos da criana e do adolescente).

    No segundo mandato do governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC) de 1999

    a 2002, surgem aes pblicas no mbito do governo federal destinadas juventude, em

    parceria com governos estaduais, municipais e organizaes da sociedade civil. Alguns

    princpios nortearam essas iniciativas, tais como: focalizao em populaes

    consideradas em condio de vulnerabilidade e risco social, diminuio do aparato

    estatal e a realizao de parcerias do setor pblico com os setores privados.

    Este foi um momento, no apenas no plano das polticas de juventude,

    caracterizado por um modelo de administrao pblica em forte sintonia com os

    princpios de reorientao da ao do Estado preconizado pelas grandes agncias de

    desenvolvimento social e econmico da globalizao capitalista, notadamente o Banco

    Mundial (BIRD), o Fundo Monetrio Internacional (FMI) e o Banco Interamericano de

    Desenvolvimento (BID).

    Naquela poca, o tema juventude eclodiu no governo federal. Ao final de 2002,

    eram 33 programas e/ou projetos governamentais, dos quais 18 criados no segundo

    mandato do Presidente Fernando Henrique. Os indicadores sociais do IDH (ndice de

    Desenvolvimento Humano) auxiliaram na focalizao das