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Análise de Relato Histórico

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Text of Análise de Relato Histórico

Linguagem em (Dis)curso, Palhoa, SC, v. 10, n. 1, p. 181-205, jan./abr. 2010

UMA TENTATIVA DE ANLISE LINGUSTICA DE UM TEXTO DO GNERO RELATO HISTRICOTerezinha da Conceio Costa-Hbes *

Resumo: Desde a dcada de 1980, a partir da proposta pioneira de Geraldi (1984) de incorporar, no ensino da Lngua Portuguesa, o eixo de anlise lingustica, muitas publicaes se destacaram no meio acadmico. No entanto, a maioria delas contemplou o assunto apenas teoricamente. Esta produo, no entanto, pretende ir alm. uma tentativa de anlise de um texto do gnero Relato Histrico, tanto discutindo a orientao terica que d sustentao anlise lingustica, quanto apresentando exemplos de possveis encaminhamentos prticos para a sala de aula. Para isso, pautar-nos-emos na teoria da enunciao e dos gneros discursivos (Bakhtin, 2003 e 2004) e dos gneros textuais (Bronckart, 2003), recorrendo, em determinados momentos, Lingustica Textual (Koch, 1989, 1990; Costa Val, 1999). Na verdade, pretendemos apresentar uma amostra de anlise lingustica, sem a pretenso de torn-la nica ou exclusiva nos encaminhamentos efetuados. O propsito reside em contribuir com a orientao de possveis olhares para o texto, compreendendo-o quanto sua situao de produo e ao seu contedo temtico, quanto ao gnero que o materializa e quanto s marcas lingusticas que o constituem. Palavras-chave: gnero discursivo/textual; anlise lingustica; ensino da Lngua Portuguesa.

1 INTRODUO Ao reconstituir a histria do ensino da Lngua Portuguesa na regio Oeste do Paran, Costa-Hbes (2008) relata que quem primeiro nos orientou nessa direo foi Joo Wanderley Geraldi que, no incio da dcada de 1980, provocou uma verdadeira revoluo nas propostas de ensino da Lngua Portuguesa, traando novos paradigmas sustentados na*

Professora da Universidade Estadual do Oeste do Paran UNIOESTE. Doutora em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina UEL. Email: [email protected] yahoo.com.br.

182concepo interacionista da linguagem. E, em vez de buscar respostas a perguntas do tipo Como ensinar?, ele ousou ir alm: Para que ensinamos o que ensinamos, pois entendia que a resposta a esta questo deveria ser dada antes do como, do quando e do que ensinar. Para isso, Geraldi defendeu que ensinar a Lngua Portuguesa compreender, segundo Silva, a linguagem como forma de ao, lugar de constituio de relaes sociais (SILVA, 1994, p. 57), que s se constitui como tal quando h uma tomada de posio quanto s variaes lingusticas e uma eleio do que se julga mais importante no processo ensino-aprendizagem de lngua. Em decorrncia, centrou sua proposta em trs prticas bsicas que devem ser concretizadas por meio de atividades integradas entre si e nas relaes sociais dos sujeitos, conforme explica Galan: 1. Prtica de leitura de textos a) a leitura de narrativas longas: romance e novelas; b) a leitura de textos curtos: contos, crnicas, reportagens, lendas, notcias de jornais, editoriais etc. 2. Prtica de produo de textos orais e escritos 3. Prtica de anlise lingustica (GALAN, 1991, p. 14). Em outras palavras, o que o autor props, de acordo com Silva, foram prticas efetivas de uso da lngua (SILVA, 1994, p. 59), transpostas para as atividades de leitura, de produo de textos (orais e escritos) e de anlise lingustica. Neste texto, nos propomos a discutir uma dessas prticas a da anlise lingustica tendo em vista que, das inmeras discusses e publicaes a respeito, a maioria focaliza apenas seus aspectos tericos. Aqui, queremos ir alm, entrelaando teoria e prtica, na tentativa de apresentar uma possibilidade de anlise, a partir de determinado texto selecionado.

COSTA-HBES Uma tentativa de anlise lingustica de...

1832 EM QUE CONSISTE LINGUSTICA? A PRTICA DE ANLISE

A competncia discursiva desejada no ato da produo oral e escrita requer aprendizagem que s poder ocorrer se criarmos, em sala de aula, verdadeiras situaes de reflexo sobre o uso da lngua, as quais podero ser propiciadas por atividades de anlise lingustica que permitem, ao aluno, compreender o processo de constituio da lngua na situao de interao em foco. Assim, quando surgirem questes como por que se escreveu de tal forma nesse texto? Qual o efeito de sentido provocado por determinada palavra naquela situao de uso? Como organizar determinada ideia, tendo em vista o gnero selecionado? as respostas somente sero encontradas quando professor e aluno souberem refletir sobre a organizao da lngua dentro de determinado contexto de uso. Conforme essa compreenso, no o ensino da gramtica, por si s, que garantir a compreenso da lngua. Ao contrrio, ensinar gramtica pressupe ensinar anlise lingustica. Em outras palavras: ensinar a gramtica da lngua significa refletir sobre sua forma de organizao e uso em diferentes contextos de produo. Como Antunes (2003) sublinha, impossvel a existncia de uma lngua sem uma gramtica. Contudo, importante compreender que h uma diferena entre regras de gramtica e o ensino de nomenclaturas e classificaes. As regras, segundo a autora, servem para orientar o uso das unidades da lngua, so normas.Dessa forma, so regras, por exemplo, a descrio de como empregar os pronomes; de como usar as flexes verbais para indicar diferenas de tempo e de modo; de como estabelecer relaes semnticas entre partes do texto (relaes de causa, de tempo, de comparao, de oposio e etc); de quando e como usar o artigo indefinido e o definido; de quando e de como garantir a complementao do verbo ou de outras palavras; de como expressar exatamente o que se quer pelo uso da palavra adequada, no lugar certo, na posio certa (ANTUNES, 2003, p. 86).

Isso tudo no se ensina em frases isoladas, mas sim lendo e analisando textos de diferentes gneros que circulam na sociedade e,

Ling (Dis)curso, Palhoa, SC, v. 10, n. 1, p. 181-205, jan./abr. 2010

184tambm, analisando os prprios textos produzidos, verificando o emprego da lngua naquela situao proposta. O que significa, exatamente, analisar a lngua em determinada situao de uso? Quem responde pergunta Antunes (2007), ao explicar que lngua e gramtica no uma coisa s, uma vez que a lngua no constituda apenas pela gramtica. Ora, a lngua, por ser uma atividade interativa, direcionada para a comunicao social, supe outros componentes alm da gramtica, todos relevantes, cada um constitutivo sua maneira e em interao com os outros (ANTUNES, 2007, p 40). A autora explica que a lngua constituda de dois componentes: um lxico e uma gramtica. O lxico inclui o vocabulrio da lngua, enquanto que a gramtica inclui as regras para se construir palavras e sentenas da lngua. Alm de estudar esses componentes, como a lngua pressupe o uso e, portanto, a sua atualizao concreta, determinada pela situao e pelo contexto de produo, necessariamente estud-la significa olhar e tentar compreender a composio de textos (e sua co-relao com o gnero que o constitui) e a situao de interao na qual ele est inserido. Sob esse vis, estudar a lngua, alm da compreenso do lxico e da gramtica, compreender tambm os recursos de textualizao e as normas sociais de atuao. Eis, portanto, a prtica de anlise lingustica. Como explica Geraldi:A anlise lingustica inclui tanto o trabalho sobre as questes tradicionais da gramtica quanto questes amplas a propsito do texto, entre as quais vale a pena citar: coeso e coerncia internas do texto; adequao do texto aos objetivos pretendidos; anlise dos recursos expressivos utilizados [...]; organizao e incluso de informaes, etc. (GERALDI, 1984, p. 74)

A prtica de anlise lingustica , assim, um trabalho de reflexo sobre a organizao do texto (oral ou escrito), tendo em vista a situao social de produo e de interlocuo, o gnero selecionado, a seleo lexical que d conta da situao de interao, os mecanismos de textualizao empregados naquele contexto e as regras gramaticais necessrias para a situao de uso da lngua. As reflexes necessrias para o uso adequado de tais mecanismos podem ocorrer tanto em textosCOSTA-HBES Uma tentativa de anlise lingustica de...

185prontos, j publicados, que circulam na sociedade, quanto em textos em fase de produo. Na tentativa de explicar melhor o que entendemos por anlise lingustica, esboaremos, a seguir, um princpio de anlise que no se esgota nos elementos aqui abordados, mas que pretende demonstrar, a ttulo de exemplificao, como seria possvel orientar-se por essa prtica no ensino da Lngua Portuguesa. O texto selecionado como objeto de anlise o seguinte:

2.1 Situao social de produo O texto como surgiu o sorvete, publicado na pgina online da revista Ao mestre com carinho, foi interpretado por ns como pertencente esfera didtico-cientfica e como materialidade do gnero RELATO HISTRICO. Justificamos tal categorizao pela funoLing (Dis)curso, Palhoa, SC, v. 10, n. 1, p. 181-205, jan./abr. 2010

186social que o mesmo desempenha junto aos seus possveis leitores: relatar, de forma clara e objetiva, o surgimento do sorvete, sem perder de vista a credibilidade da informao. Sendo assim, entendemos que tal texto atende necessidade de interao estabelecida, j que se sustenta num discurso didticocientfico, revelado na seleo lexical, na organizao das informaes, nos dados apresentados no texto, o que lhe garante um valor de verdade, prprio em gneros dessa esfera, os quais pretendem tratar a cincia com uma linguagem a mais prxima possvel de seus interlocutores. Como nos diz Bakhtin: A situao social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente, e por assim dizer, a partir de seu interior, a estrutura da enunciao (BAKHTIN, 2004, p. 113). Como o mesmo foi produzido para circular em um site da internet, veculo cujo acesso ilimitado, compreendemos que atende a este meio de circulao, pois, mesmo recorrendo esfera cientfica, percebe-se a preocupao em didatizar sua linguagem, tornando-a acessvel tanto a crianas (caso o professor o leve para trabalhar com alunos das sries/anos iniciais), quanto a adolescentes, jovens e adultos (ca