Análise Econômica do Programa Brasileiro de Sustentação do Café

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  • Anlise Econmica do Programa Brasileiro de Sustentao do Caf - 1906-1945: Teoria, Polftica e Medio

    Carlos Manuel Pelez *

    1. Introduo: a teoria dos choques adversos e a industrializao do Brasil. 2. Mercado livre do caf e interveno governamental 1906-1924. 3. Pollticas cafeeiras do Brasil durante a Grande Depresso. 4. O AcOrdo Interamericano de Caf e o caf brasileiro durante a 11 Guerra Mundial. 5. Rendas do caf, relaes de troca, politicas do comrcio e o argumento da recuperao. 6. Reajustamento econOmico dos agricultores, o crescimento das exportaes de algodo e o argumento da transferncia. 7. Concluso.

    Prefcio

    Compreende-se que haja quem diga que os estruturalistas nada mais fazem do que construir teorias obscuras para justificar os desmandos dos governos de sua simpatia

    Os remdios estruturalistas recomendados para o Brasil so de inspirao nItidamente keynesiana. Mas a transposio de uma heterodoxia que talvez horripilasse o autor da Teoria Geral.

    Mario Henrique Simonsen, Brasil 2001.

    Uma parte do trabalho de pesquisa para o presente artigo foi realizada na Fundao Getulio Vargas, no projeto Fatres do Crescimento Econmico do Brasil de 1889 a 1970 dirigido pelo Professor Annibal Villela no perodo de janeiro a junho de 1970. Sinto-me particularmente grato ao Instituto Brasileiro de Economia da Fundao Getulio Vargas por me ter propiciado essa oportunidade de elevado estmulo intelectual. O pessoal da biblioteca do Ministrio da Fazenda do Brasil foi extremamente prestativo, forne-cendo-me excelentes fontes de estudo. Do Instituto Brasileiro do Caf, devo agradecer bibliotecria-chefe, Senhora Lenir, ao Senhor Joo e

    Da Vanderbilt University, e pro tempore PUC, Rio.

    R. bras. Econ., Rio de Janeiro, 25 (4) :5/211, out./dez. 1971

  • aos outros funcionrios de uma das mais organizadas e eficientes biblio-tecas que conheo.

    Algumas das idias referentes microeconomia da sustentao do caf foram-me transmitidas pelos Professres Stanislaw Wellisz e Robert Zevin. No decorrer de estimulantes cursos ministrados pelo Professor Peter B. Kenen, das Universidade de Columbia e Princeton, fui formalizando os meus conceitos intuitivos. Desejo manifestar a minha gratido ao Pro-fessor Albert G. Hart, da Universidade de Columbia, pelas suas inmeras crticas construtivas minha tese doutoral. Muitas esto incorporadas ao presente artigo, mas o Professor Hart no responsvel por qualquer rro meu, principalmente tendo em vista que discordamos sbre alguns pontos, nos quais provvelmente estou errado.

    Pela minha especializao em histria econmica, estmulo nas fases incipientes dos trabalhos de pesquisa e atravs dos anos, exemplo de erudio, estudo e dedicao, devo agradecer ao eminente historiador econmico, Professor Rondo E. Cameron. A maior parte de minhas idias foi desenvolvida na poca em que fui seu aluno no Programa de ps-graduao de Histria Econmica, na Universidade de Wisconsin. O Pro-fessor Jos Maria Gouva Vieira ofereceu-me um estmulo constante para continuar as pesquisas ds te artigo e muito me beneficiei de sua erudio, honestidade, capacidade analtica, conversas e pacincia. Tudo o que h de contribuio neste artigo, deve-se ao meu amigo Pro f. Gouva Vieira. Em conseqncia, dedico-lhe ste trabalho. Ao reconhecer os pacien-tes conselhos dsses colegas, devo salientar que todos os erros do texto so inteiramente de minha responsabilidade.

    O manuscrito foi excelentemente datilografado pela Sra. Lcia Paiva de Souza Pinto, a quem muito agradeo.

    Aos meus amigos George e Mary Pease, e Edlow e Carmen Parker, os meus agradecimentos pelo seu bondoso estmulo.

    1. Introduo: a teoria dos choques adversos e a industrializao do Brasil

    1.1 A decomposio da Diviso Internacional do Trabalho

    A nica escola de pensamento dedicada economia na Amrica Latina talvez seja a do estruturalismo. , porm, difcil empreender um estudo do estruturalismo, tanto da exposio escrita quanto da tradio oral. 1

    1 Para uma excelente critica do estruturalismo, principalmente no que tange sua aplicao no Brasil, ver o melhor trabalbo brasileiro de economia normativa: SIMONSEN, Mario Henrique. O pensamento estruturalista. Bra.

  • A teorizao estruturalista no consiste em uma caixa compacta de "ferramentas" tais como, por exemplo, a da Chicago School dos Estados Unidos, mas sim em uma srie de generalizaes isoladas acrca dos problemas de desenvolvimento que afligem os pases latino-americanos_ Existe, porm, um acontecimento histrico comum a grande parte do pensamento estruturalista: a Grande Depresso. Na primeira exposio do estruturalismo, um dos mais influentes economistas dos pases sub-desenvolvidos inicia seu "manifesto" da seguinte forma: 2

    "Na Amrica Latina, a realidade est desmentindo o esquema ultra-passado da diviso internacional do trabalho, que assumira enorme importncia no sculo XIX e, como conceito terico, continuou exercendo uma considervel influncia at anos bem recentes. Segundo sse esquema, a funo especfica que coube Amrica Latina, como parte da periferia do sistema econmico mundial, foi a de produzir alimentos e matrias-primas para os grandes centros industriais. Nle no havia lugar para a industrializao dos novos pases. Entretanto, os aconte-cimentos esto forando-os a se industrializarem. Duas guerras mundiais em uma s gerao e a grande crise econmica que se desencadeou entre as guerras mostraram aos pases latino-americanos que chegara o momento de enveredarem pelo rumo das atividades industriais."

    ste o fundamento emprico do estruturalismo. Salientou-se, ainda, que a dcada da Depresso foi mais importante do que qualquer outro perodo, tendo em vista que "a depresso da dcada de 1930 constituiu um incentivo industrializao atravs de um mecanismo automtico de proteo que ainda mais interessante do que as duas guerras mundiais, pois temos aqui duas fras econmicas internas influenciando as ativi-dades econmicas internas ... preciso salientar que essa industrializao foi quase totalmente financiada pelas poupanas internas ... " 3

    A afirmativa de que a subdiviso da diviso internacional do trabalho durante a dcada da Depresso teve como conseqncia a industrializao da Amrica Latina introduz um srio conflito entre a teoria do comrcio exterior e a teoria do balano de pagamentos. Embora a curto prazo, com vistas a ajustarem seus problemas de balano de pagamentos, as eco-nomias latino-americanas devessem ter aumentado sua produo das mer-

    PREBISCH, Raul. The economic development of Latin America and its Principal Problems. Naes Unidas, Lake Success, 1950. p. 1. Ver tambm FtmTADO, Celso. Formao econmica da Amrica Latina. Rio de Janeiro, Editra Lia, 1969. capo 5.

    I BAER, Werner Bc KERsrENETZKY, laaac. Patterns of Brtuilian economic growth. ComeU Univenity, 1966. p. 2, 6. Estudo mimeogr. depois publicado em DAVIS, Tom, ed. The next ten )/ears of Latin American grou-th. ComeU University Press, 1967.

    SUSTENTAO DO CAF 1906-1945 7

  • cadorias que era preciso importar, em resposta s variaes de lucros de-vidas s restries ao comrcio exterior e desvalorizao cambial, uma in-dstria nacional s teria sido justificvel por um fenmeno de maior du-rao, qual seja, uma mudana nos custos comparativos internacionais. Para efeitos de verificao emprica, se os estruturalistas se houvessem de-tido nesse ponto, a teoria teria perdido sua significao econmica, tor-nando-se impossvel de testar e, provvelmente, incompatvel com os fatos e o raciodcio.

    12 Formalizao do estruturalismo

    Quase uma dcada aps a formulao original do estruturalismo, reali-zou-se uma tentativa de explicar o desenvolvimento da Amrica Latina atravs de hipteses estruturalistas, a chamada "teoria dos choques ad-versos".4 De acrdo com essa teoria, o resultado da queda nas impor-taes depois das guerras e a depresso foi um aumento no preo de produtos manufaturados importados concorrentes com produtos nacionais, em relao ao preo das importaes. Houve, conseqentemente, um aumento no ndice de rentabilidade dos produtos importados concorrentes com os nacionais em relao agricultura de exportao, ocasionando uma transferncia de recursos da agricultura de exportao para as atividades industriais-urbanas. O resultado final foi a formao de um setor industrial interno. Enquanto a escassez de importaes durante as duas guerras mundiais fra o resultado de problemas de transportes e contrles estabe-lecidos na poca das guerras (um fator externo que o Brasil no teve condies de influenciar), a escassez da Depresso foi provocada por con-trles sbre o comrcio exterior e cmbio deliberadamente impostos.

    1.3 Estruturalismo empfrico e a industrializao do Brasil

    A aplicao da teoria dos choques adversos no Brasil tornou evidente que a Grande Depresso constituiu o nico perodo formativo em que

    , to preciso reconhecer que uma "formalizao", do ponto de vista emprico, foi apresentada por Celso Furtado. (A economia brasileira. Rio, A Noite, 1954), mas no uma formalizao, do ponto de vista claro e terico. A base emplrica de Furtado e Prebisch foi: CoMISSO ECONMICA PAIlA A AMtIuCA LATINA. Survey Df Latin America 1949. Naes Unidas, New York, 1951. A primeira formalizao encontrase em KAPItA, Alexandre. Interpretao terica do desenvolvimento latinoamericano. In ELLIS, H.S. ed. Desenvolvimento econmico para a Amrica Latina. Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1964. capo 1. bse ensaio foi elaborado para uma reunio da Associao Econmica Internacional celebrada no Rio de Janeiro em 1957. Desta forma, as idias acrca da Grande Depresso tm dominado sse campo durante mais de 20 anos, desde a primeira exposio de Prebisch.

    8 R.B.E. 4/71

  • ocorreram mudanas significativas na estrutura econmica. 5 Essas mu-danas consistiram, primordialmente, no desenvolvimento do setor indus-trial interno. Para efeitos de convenincia expositiva, convm dividir a tese Furtado em