Anlise grfica e composi§£o de p .na pgina do lado direito (Figura 7) e em Hist³ria do

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  • Originalmente publicado em: Actas do 6 Encontro Nacional (4 Internacional) de Investigao em Leitura, Literatura Infantil e Ilustrao.

    A ilustrao de Maria Keil:Anlise grfica e composio de pgina

    Susana Silva*

    RESUMO

    Maria Keil sobressaiu no panorama da ilustrao nacional com um desempenho revelado pela

    frequncia e diversidade de publicaes, sugerindo um pioneirismo que a sua extensa obra tem vindo

    a confirmar.

    Neste estudo pretendeu-se analisar graficamente as suas ilustraes, bem como a composio das

    pginas que as contm.

    Esta anlise permitiu verificar que a estetizao que denotamos em todo o esplio de ilustraes

    criadas pela artista especificamente para a infncia no mais do que a sua transformao num meio

    de divulgao artstica, retomando, deste modo, o ideal morisiano de valorizar, plasticamente e para

    todos, os objectos quotidianos, numa tentativa subtil de democratizar a arte. Constatou-se, tambm,

    que o conjunto de estratgias grficas criadas pela artista prope ao leitor novas e muitas vezes

    inesperadas relaes, na procura de novos, e, muitas vezes, tambm inesperados, significados.

    Assim, a obra de Maria Keil rene um conjunto de exerccios grficos complexos, que se constituem

    como chaves para o entendimento do seu pioneirismo quer na rea da ilustrao, quer na rea do

    arranjo grfico de pgina, tendo criado para o efeito novas estratgias de comunicao, s quais

    recorre sistematicamente ao longo da sua carreira.

    1. Introduo

    Maria Keil inicia os seus estudos em pintura na Escola de Belas Artes de Lisboa em 1929, concluindo apenas o primeiro ano. O abandono do ensino artstico institucional testemunha uma personalidade irreverente e uma forte conscincia poltica e social da realidade vivida pelo pas neste incio da dcada de 30.

    A artista denuncia, j nesta altura, uma enorme vontade de quebrar as regras institudas e procura circuitos alternativos para completar a sua formao artstica, abandonando definitivamente os ambientes acadmicos, promotores de uma cultura esttica clssica, estagnada e baseada em citaes do passado.

    Assim, o nome de Maria Keil junta-se ao de muitos outros artistas que, tal como ela, pretenderam romper com o sistema edificado e procuraram alternativas de aco nos hiatos criados pelas opinies desacertadas de Antnio Ferro1 e de Salazar2, nomeadamente

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    * Escola da Ponte, EB1 Alves, S. Tom de Negrelos1 Antnio Ferro trouxe ao regime cerimoniosamente coimbro uma rstia de modernismo que a sua entusistica admirao por Mussolini caracterizava, in FRANA, Jos-Augusto (2000, p.31). A Arte Portuguesa no Sculo XX (1910-2000).(6 ed.) Livros Horizonte: Lisboa.2 A poltica cultural de Salazar apoiou-se em organismos cuja funo era garantir que o presente se legitimava pela reabilitao de um passado herico e grandioso.

    ABZ da Leitura | Orientaes Tericas

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  • na revista Panorama, nos pavilhes de feiras internacionais, na decorao de alguns edifcios pblicos, pousadas e lojas, nos sales de Arte Moderna, etc.

    Foi nesta altura que entrou para o Estdio de Artes Grficas do suo Fred Kradolfer3, o qual lhe abriu as portas ao universo, ainda virgem, do design em Portugal. Este foi tambm um momento determinante para o incio de uma actividade artstica original e, sobretudo, pluridisciplinar.

    Da obra multifacetada que nos ofereceu (cermica, figurinos, desenho, pintura, gravura, cenografia, design de interiores e de mobilirio, design grfico, etc.), destaca-se aqui a Ilustrao.

    Maria Keil foi a responsvel pelo reconhecimento da Ilustrao enquanto meio de produo artstica com um lugar prprio. Ao assumi-la exactamente como a pintura, a escultura ou a arquitectura, retirou-a do estatuto de menoridade que at a vinha mantendo.

    Maria Keil sempre trabalhou em ilustrao ( qual dedica mais de meio sculo da sua vida) recusando utilizar os registos e os mediadores caractersticos da expresso das chamadas artes maiores. Enveredou conscientemente por uma linguagem que vive da sua madura e assumida ingenuidade, em registos que raramente usaram a tela e o leo como suporte de expresso, vindo, no entanto, a tornar-se num nome sonante no panorama artstico nacional. O referido carcter multifacetado das actividades artsticas desenvolvidas por Maria Keil reflectiu-se, inevitavelmente, nas ilustraes que realizou para a infncia, tendo-se empenhado na estetizao de todas as suas produes (independentemente do gnero praticado), transformando-as em meios de divulgao artstica, valorizando plasticamente os objectos quotidianos, numa tentativa subtil de democratizar a arte4.

    2. Anlise Grfica e Composio de Pgina

    Histrias da Minha Rua5, escrito em 1953 por Maria Ceclia Correia (Figura 1), foi o primeiro projecto da autora integralmente pensado para crianas, destacando-se no s por este facto, como tambm pela originalidade das ilustraes (realizadas a tinta-da-china e a guache) e pelas solues grficas apresentadas.

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    3 O suo Fred Kradolfer distinguiu-se pelo pioneirismo nas Artes Grficas em Portugal.4 A Ilustradora preocupa-se com questes dos foros sociolgico, tecnolgico e composicional.5 Trata-se de um livro impresso com cores planas que compila diferentes histrias, mas que encontram um fio condutor nas opes grficas definidas pela ilustradora e no forte carcter neo-realista da representao do contedo das histrias narradas. Este manifesta-se (no pretendendo, de forma alguma, fazer a anlise literria da obra) na singeleza da narrativa e na simplicidade dos enredos. Tais caractersticas parecem-nos relevantes, sobretudo porque sublinham uma inteno clara de afastamento quer de temas folclricos, ou mesmo pseudofolclricos, quer dos temas nacionalistas e histricos que alguns autores desenvolviam (com melhor ou menor qualidade) para a infncia e adolescncia em consonncia com o esprito da poca. Assim se cumpre a frmula neo-realista: usando como instrumentos temas e imagens populares, facilmente reconhecidas por uma massa social praticamente iletrada que com eles se identifica. Simplifica-se, deste modo, a difuso dos novos ideais.

  • Figura 1

    A experincia vivida por Maria Keil no Estdio de Artes Grficas de Fred Kradolfer foi fundamental para que este trabalho fosse um ensaio maduro, mesmo ao nvel da composio de pgina. A ilustradora teve a possibilidade de ensaiar diferentes propostas de colocao de texto na pgina de modo a tirar maior partido da relao formal e/ou de sentido entre texto (mancha grfica) e imagem (ilustrao).

    Assim, consideramos este livro a chave para o entendimento das obras que a artista ilustrou posteriormente, uma vez que anuncia e afirma um mtier que Maria Keil viria a assumir ao longo da sua carreira.

    Por conseguinte, a proposta de anlise que apresentamos da obra de ilustrao para a infncia, metodologicamente, partir sempre de Histrias da Minha Rua. Sempre que se justifique sero apresentadas outras obras com o intuito de exemplificar novas estratgias e solues grficas encontradas pela ilustradora ao longo de toda a sua carreira.

    Como produto das pesquisas levadas a cabo por Maria Keil, Histrias da Minha Rua resultou num livro trabalhado segundo tipologias que vo sendo chamadas boca de cena conforme as suas intenes comunicativa e esttica.

    Assim, podemos enumerar, nesta obra, oito esquemas possveis a que Maria Keil foi recorrendo, de forma mais ou menos sistemtica:

    1) imagem no topo da pgina e texto no p da pgina (imagem/topo texto/p);2) imagem no p da pgina e texto no topo da pgina (imagem/p texto/topo);3) texto sem imagem (s texto);4) imagem que contorna a coluna de texto (simulando um meio caixilho)

    (imagem 1/2 caixilho);5) texto que contorna uma imagem (simulando um meio caixilho)

    (texto 1/2 caixilho);6) imagem separada do texto (ocupam pginas diferentes) (s imagem);7) imagem intercalada com o texto (texto/imagem/texto);8) Imagem e texto colocados em duas colunas verticais na mesma pgina

    (texto e imagem coluna).

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  • Deste modo, em Histria da Rosa, por exemplo, o texto abre-se na pgina recortando o contorno do cromo que contm a ilustrao, cumprindo o esquema (5) (texto 1/2 caixilho) (Figura 2), uma vez que o que se pretende mostrar somente a imagem de uma rosa cortada dentro de uma jarra, ou seja, um pormenor do que vai ser ilustrado logo a seguir (Figura 3) (este esquema repete-se em Histria do Chico e da Angelina, onde podemos visualizar um zoom out dos dois a carregar o carrinho da feira (Figura 4); em Histria do Cndido e da sua Lojinha, mostrando-nos o pormenor dos limes (Figura 5) que esto a ser vendidos na loja representada na pgina contgua (Figura 6); em Histria da Flor Amarelinha onde passarinhos parecem voar em direco floresta representada na pgina do lado direito (Figura 7) e em Histria do Coelhinho Verde em que o zoom in do coelho que est em cima de uma cmoda no topo da pgina do lado esquerdo, surge no canto inferior direito da pgina direita, sugerindo a sua evaso (Figura 8).

    Figura 2 Figura 3

    Figura 4 Figura 5

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  • Figura 6 Figura 7 Figura 8

    Na pgina sequente (2 pgina da histria) o esquema inverte-se e passa a ser a ilustrao a abraar o texto (4) (imagem 1/2 caixilho), num jogo grfico/formal em que a artista desenha uma janela, uma cama e uma mesa que, pela ausncia da representao de paredes e de cho, garante a sua existncia apenas por sugesto. Queremos dizer que o cho e as paredes no esto representado