Anseios Crípticos 2- Paulo Leminski

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    Paulo Leminski

    Anseios Crpticos2

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    Copyright 2001 Paulo Leminsky

    Todos os direitos desta edio reservados :

    CRIAR EDIES LTDA.

    Rua Jos de Mello Braga Jr., 279

    81.540-280 Curitiba PR

    Fone/Fax: (41) 362 0468 / 362 6756

    homepage: www.sintomnizado.com.br/criaredicoes

    e-mail: [email protected]

    Capa: Nexo Design

    Programao Visual: Criar Edies

    Editorao: Jefferson Schnaider

    Reviso: Iria Zanoni Gomes

    Atendemos pelo reembolso postal

    PROIBIDA A REPRODUO TOTAL OU PARCIAL DESTA OBRA, ATRAVS

    DE QUALQUER MEIO, SEM AUTORIZAO DO EDITOR.

    Impresso no Brasil

    Printed in Brazil

    2001

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    OORREELLHHAASS DDOOLLIIVVRROO

    Em 1986, a convite de Criar Edies, Paulo Leminski

    organizou, em dois volumes, textos nos quais deixara fluir seu

    talento de polemista-ensasta-demolidor-criador: seus anseios. O

    resultado foram duas pastas abarrotadas com recortes de jornais,

    cpias de posfcios e prefcios, e textos datilografados. O primeiro

    volume Anseios Crpticos 1 / anseios tericosfoi editado em

    1986. O segundo, os anseios prticos, deveria sair no ano

    seguinte.

    No entanto, s hoje chega aos leitores. Por um lado, osazares dos planos econmicos colocaram a Criar numa

    quarentena da qual s retornou em outubro de 2000. Por outro,

    em 1989, Paulo resolveu polemizar em outras dimenses. No

    bastasse, os originais sumiram, resistindo a trs mudanas e, 15

    anos depois, se materializaram no fundo de uma caixa na qual

    deveriam estar apenas exemplares de antigos suplementos

    literrios.

    So estes os anseios/ensaios que publicamos agora.

    Diferentemente dos que esto no primeiro volume, no qual

    Leminski dizia ter reunido as noes tericas bsicas a partir

    das quais pensava, estes, os prticos, esto voltados para a

    anlise de obras e de autores.

    Reunidos pela primeira vez em livro e na ordem queLeminski estabeleceu, discutem obras de Brecht, Rimbaud,

    Haroldo de Campos, Sartre, Guimares Rosa, Euclides da Cunha,

    Dante, Whitmann, Fante, Jarry, Ferlinghetti, John Lennon,

    Mishima, Becket, Joyce, Petrnio.

    Alguns so inditos, outros so inditos em livro, outros

    foram publicados em jornais e revistas de circulao nacional

    (Folha de S.Paulo, Leia Livros, Veja), e outros saram em jornais de

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    tiragem restrita ao Paran (Gazeta do Povo, Correio de Notcias).

    Em todos, a marca que fez de Leminski um polemista de talento,

    colocando em questo as obviedades literrias do momento, do

    que estamos todos muito carentes nos dias de hoje, quando opensamento nico nos provoca infindveis bocejos de tdio.

    Outras obras da CRIAREDIES:

    Crtica da Razo Tupiniquim, de Roberto Gomes

    Mal Comportadas Lnguas, de Srio Possenti

    Riachuelo, 266, de Carlos Dala Stella

    Alma de Bicho, de Roberto Gomes

    Nuvem Feliz, de Alice Ruiz

    Paulo Leminski Filho nasceu em

    Curitiba, em 24 de agosto de 1944. O

    pai descendia de poloneses e, a me,

    urea Pereira Mendes, de portugueses,

    ndios e negros. Aos 8 anos, fez oprimeiro poema. Dos 12 aos 14 anos

    permaneceu como oblato no Mosteiro

    de So Bento/SP. Aos vinte anos j

    participa de eventos relacionados

    literatura. Iniciou duas faculdades direito e letras ,

    abandonando ambas. Foi professor de cursinho, jornalista,

    redator de publicidade, tradutor, compositor, letrista. Traduziu,

    entre outros, Um atrapalho no trabalho, de John Lennon, Sol e ao,

    de Mishima, e Satyricon, de Petronius. Foi parceiro de Moraes

    Moreira, Itamar Assumpo, Arnaldo Antunes, Guilherme Arantes

    e Ivo Rodrigues. Como compositor, teve canes gravadas por

    Caetano Veloso e Ney Matogrosso, entre outros. Apresentou o

    polmico Jornal de Vanguarda, na TV Bandeirantes, em 1988.

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    Catatau (prosa experimental) foi publicado em 1975. Seus

    poemas esto em vrios livros: Quarenta cliques, 1979, No fosse

    isso e era menos/No fosse tanto e era quase, 1980, Polonaises,

    1981, Caprichos e relaxos, 1983, Agora que so elas, 1984,Distrados venceremos, 1987, Guerra dentro da gente, 1988.

    Faleceu em 7 de junho de 1989, aos 44 anos.

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    sumriom, de memria

    latim com gosto de vinho tinto

    um texto bastardo

    taiyo to tetsu: entre o gesto e o texto

    lennon rindo

    ferlinguete-se!

    o uivo e o silncio

    jarry, supermoderno

    folhas de relva forever: a revelao permanente

    mxico

    sertes anti-euclidianos

    trans/paralelas

    significado do smbolo

    o veneno das revistas da inveno

    grande ser, to veredas

    e o vento levou a divina comdia

    poeta roqueiro

    aventuras do ser no nada: quem tem nusea de Sartre?

    tmidos e recatados

    traduo dos ventos

    prosa estelar

    bonsai: niponizao e miniaturizao da poesia brasileira

    histria mal contada

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    m, de memria.

    Os livros sabem de cor

    milhares de poemas.

    Que memria!

    Lembrar, assim, vale a pena.

    Vale a pena o desperdcio,

    Ulisses voltou de Tria,

    assim como Dante disse,

    o cu no vale uma histria.

    Um dia, o diabo veio

    seduzir um doutor Fausto.

    Byron era verdadeiro.

    Fernando, pessoa, era falso.

    Mallarm era to plido,

    mais parecia uma pgina.

    Rimbaud se mandou pra frica,

    Hemingway de miragens.

    Os livros sabem de tudo.

    J sabem deste dilema.

    S no sabem que, no fundo,ler no passa de uma lenda.

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    latim com gostode vinho tinto

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    as veias abertas da roma antiga

    De C. Petrnio no h muito que dizer. Dormia o dia

    inteiro e dedicava a noite para seus trabalhos e prazeres. Muitos

    ficam famosos por seus empenhos (industria). Ele era famoso porsua preguia (ignavia). No era considerado um homem que corre

    atrs do proveito, mas dos prazeres sutis (erudito luxu).Tudo que

    dizia e fazia era descontrado e sem esforo, e sua simplicidade

    cativava como uma gentileza. Mas soube ser enrgico quando no

    servio pblico, primeiro como procnsul na sia, depois como

    cnsul. A seguir, retirou-se para a vida privada e seus vcios

    favoritos e, como tal, foi aceito no crculo mais ntimo do

    imperador Nero, onde reinou como um verdadeiro rbitro da

    elegncia (el egantiae arbiter). Nero nada fazia sem antes consultar

    seu sofisticado corteso. Isso suscitou a inveja de Tigelino, outro

    corteso, que contra Petrnio arma uma intriga, envolvendo seu

    nome com conspiradores. Sabendo-se perdido, antes da ordem do

    prncipe, Petrnio decide suicidar-se, abrindo as veias do brao.

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    Um mdico grego abria-as, o sangue corria, e ele as fechava

    depois. Voltava a abri-las, e as fechava, assim muitas vezes.

    Enquanto isso, impvido, Petrnio no se entregava a conversas

    sobre a imortalidade da alma. Na realidade, fazia versos lbricos efteis. E assim fazendo morreu, com a maior naturalidade. Nunca

    lisonjeou os poderosos, nem o prprio Nero. Ao contrrio.

    Escreveu uma narrativa onde descreve os excessos do imperador,

    atribuindo-os a jovens depravados. E ao morrer enviou-lhe a

    narrativa. Assim Tcito, o maior dos historiadores romanos,

    descreveu, em seus Anais, a vida e o fim de Petrnio, e a gneses

    do Satyricon.

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    Poucos livros tm biografia to acidentada como este

    Satyricon, o primeiro dos romances, a obra mais

    escandalosamente original da literatura latina.

    Oficialmente, consta como sendo o romance escrito porCaius Petronius dito Arbiter, corteso e ntimo do imperador Nero,

    que este condenou ao suicdio, no ano de 65, por se achar

    envolvido na conspirao da famlia dos Pises contra o louco

    imperador poeta.

    Mas na ficha do Satyricon, tudo so conjecturas e

    hipteses que j produziram rios de tinta entre os sbios, do

    Renascimento para c: o livro, alis, foi um dos primeiros textos

    impressos; sua primeira edio, em Milo, de 1477.

    O texto que hoje temos , certamente, parte de um texto

    maior, que se perdeu nos azares da Histria, talvez um quinto

    apenas do original (fragmentos dos captulos XV e XVI). Mesmo

    assim, esse texto se sustenta como uma obra inteira.

    A autoria tambm no segura.

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    Toda a argumentao sobre a autoria se baseia num

    clebre trecho do historiador romano Tcito, que viveu por volta de

    120 da nossa era, cinqenta e cinco anos depois da morte de

    Caius Petronius.Nele, Tcito fala do corteso voluptuoso que, condenado

    ao suicdio por Nero, escreve ao morrer uma longa stira para

    zombar do ridculo tirano.

    Certas evidncias, porm, laboram contra a identificao

    do Satyricon, que temos hoje, com essa stira do corteso de Nero.

    Primeiro, porque no verossmil que um homem pouco

    antes de morrer tenha foras para compor uma obra que, no

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