Apontamentos Criminologia

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1. Breve Histria do Pensamento sobre o CrimeA historiografia das ideias sobre o crime foi muito tempo obscurecida pelo mito do progresso. Os antigos estariam mergulhados nas trevas da superstio, da ignorncia e da barbrie, atingindo a luz graas marcha inexorvel da razo, da tolerncia e da compaixo. Na realidade, a histria do pensamento sobre o crime est pontuada de fases de progresso e de retrocesso, de verdades descobertas e depois esquecidas, de grandes oscilaes pendulares.

2. O Antigo RegimeO discurso sobre o crime homogneo. Os telogos, os filsofos e os juristas escrevem sobre a questo criminal. Ao no distinguirem de modo claro a religio, a moral e o direito, vem nela, ao mesmo tempo, um pecado, uma falta e uma infraco. Explicam-na pela invocao indistinta de Deus, Satans, as paixes, as tentaes, a perversidade e o pecado original. Definio de Jousse no Novo Comentrio sobre a Ordenao Criminal do ms de Agosto de 1670: Designamos por crime ou delito toda a aco injusta e proibida pelas leis que tende a ferir asociedade e a perturbar a tranquilidade pblica. O delinquente no concebido como algum diferente dos outros homens. Afirma-se a sua liberdade e responsabilidade; no uma liberdade absoluta, mas a suficiente para justificar o castigo. O castigo explicado como qualquer outro pecado. O homem est condenado ao sofrimento e morte pelo pecado original que o corrompeu. Est votado ao mal desde o seu nascimento. A viso pessimista de um ser humano mau e de um mundo habitado pelo mal acentua-se nos sculos XV e XVI. O crime explicado, em larga medida, pela paixo. O homem cede tentao, movido por um mpeto que lhe domina o esprito. A determinao da gravidade dos tipos de crime e de cada crime em particular era a questo primordial para os antigos juristas. O direito penal antigo, com excepo do processo penal, era em grande medida construdo com base em numerosas e subtis distines que procuravam ponderar a gravidade das infraces. Quando a culpabilidade do acusado no oferecia dvidas, estabelecia-se a proporcionalidade entre a severidade da pena e a gravidade do delito.

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Escala de severidade das penas: execues capitais acompanhadas de tormentos e suplcios; forca, galeras, amputaes, ferrete, recluso em casa de correco, chicote, pelourinho, retractao, reparao do dano causado vtima, multa e admoestao. Escala de gravidade de crimes violentos: homicdio atroz, crime de lesa-majestade, homicdio agravado, violao de uma virgem, homicdio voluntrio simples, agresses que fazem sangrar, as que no fazem sangrar, agresses com ou sem arma e injrias verbais. Como a honra um bem to precioso quanto a vida, quando mata em combate leal o ofensor que o desonra publicamente, os juzes distinguem o homicdio cometido em resposta a injrias e no calor dos acontecimentos do homicdio premeditado cometido falsa f sobre vtimas indefesas. Escala de gravidade dos furtos e roubos: assaltos a edifcios, roubos cometidos nas estradas ou perpetrados por bandos de malfeitores, furto de charrua e furto de alimentos por necessidade. Nos casos de reincidncia, terceira condenao por furto simples, o culpado corria o risco de ser enforcado. Bases para o estabelecimento de proporcionalidade entre crimes e penas: - leis do reino; - costume; - prudncia do juiz. Entre os sculos XIII e XVI, a justia francesa evolui no sentido do arbitrrio do juiz. Goza do poder discricionrio de apreciao dos factos conforme os casos apresentados: mbil, modo de execuo do crime, comportamento e caractersticas da vtima, tempo, local, reincidncia do autor, antecedentes, reputao, idade. Para esta anlise, socorre-se da teoria das circunstncias de S. Toms de Aquino. O costume local, a jurisprudncia e a equidade permitem-lhe estabelecer a proporcionalidade mais justa entre a severidade da pena e a gravidade real do delito. O acto de realizao de justia encontra-se intimamente ligado ao exerccio da autoridade. a prerrogativa que cabe aos monarcas e aos senhores por razes financeiras e polticas. Recheiam os

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seus cofres com as multas cobradas e com os bens confiscados aos culpados de crimes graves. Ao fazerem-no, reforam o seu poder sobre os sbditos, garantindo que feita justia no seu territrio. Entre a populao, a sede de solues justas e equitativas elevada. Senhores, mercenrios e bandidos fazem reinar a lei do mais forte. Se o crime no sancionado de modo equitativo e no respeito pelo costume, os parentes da vtima enveredam pela vindicta. Nesta poca, a violncia , em grande medida, solidria, vindicativa e retributiva. No sculo XV, em Artois, as decises judiciais visam estabelecer um equilbrio entre a ordem pblica e a vingana privada. O rei apenas concede a sua graa na condio de que a parte seja satisfeita, isto , de que o acusado e os que so prximos cheguem a acordo com a parte ofendida. Assim, a soluo reconhecida como justa pelas partes concorre para a pacificao da comunidade. A funo da pena , pois, corrigir a injustia derivada do dano causado pelo criminoso vtima. Visa a igualdade de proporo. Trata-se de uma questo de equilbrio, de justia comutativa, de retribuio. imperioso que a sentena no parea, aos olhos das partes, demasiado injusta. Em suma, durante o Antigo Regime, o justo prevalece sobre o til. O juiz deseja que o castigo sensibilize os espritos e aproveita a ocasio para avisar todos os que se sintam tentados a imitar o culpado. a exemplaridade. As festas punitivas constituem um meio de vingar a autoridade escarnecida, uma exibio de poder, um meio de incutir obedincia. Se os magistrados do Antigo Regime apostam na severidade das penas porque no possuem meios para garantir a sua certeza: demasiados criminosos escapam sua aco. A vigilncia policial e judiciria do territrio irrisria. S em ltimo recurso um crime participado s autoridades. A misericrdia, no entanto, tempera a exemplaridade e a retribuio. O juiz tenta descobrir o ponto de equilbrio em que a conciliao ente as partes e a paz civil tem maior probabilidade de ser restaurada. At os crimes graves so mais punidos com a multa e o banimento do que com a morte. A reabilitao uma questo religiosa e de justia eclesistica. , antes de mais, a alma que tem de ser reabilitada; acessoriamente, ajudar-se- o pecador a retomar o seu lugar na sociedade.

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Segundo Garland, as noes usadas pelos tericos e filsofos do Antigo Regime nada tm a ver com as dos criminlogos contemporneos. Ainda assim procuram responder a questes actuais. O sculo XIX varre as noes de gravidade, proporcionalidade, retribuio e reparao. Mas esto de volta neste final de sculo. Desde que Von Hirsch (1976) relana a retribuio sob o just desert (justo mrito) e que estudos recentes sobre o sentencing demonstram que a proporcionalidade guia com mo de ferro as decises da justia, j no possvel ao criminlogo proceder como se as questes do justo e do injusto fossem relquias do passado.

Sentencing a palavra usada para designar o processo de deciso da sano a aplicar a um crime ou uma infraco. Estuda designadamente os factores que influenciam as decises judiciais, o prprio processo de deciso e os seus resultados.

3. As LuzesAo longo da segunda metade do sculo XVIII, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Beccaria, Bentham contribuem para a mudana das ideias sobre os delitos e as penas. Montesquieu, filsofo sem esprito de sistema, amadurece longamente uma obra baseada na sua experincia de magistrado no Parlamento de Bordus e nas viagens pela Europa: O Esprito das Leis (1748), que contm vrios captulos breves sobre as leis criminais e as penas. Dezasseis anos mais tarde, Cesare Beccaria, sistematiza as ideias das Luzes sobre a poltica criminal. um esprito contemplativo, pouco atento s realidades concretas. A sua obra Dos Delitos e das Penas exerce uma profunda influncia, nomeadamente em 1791, quando os revolucionrios dotam a Frana de um cdigo penal. Em Inglaterra, Jeremy Bentham desenvolveria uma longa reflexo sobre a legislao, a moral, os crimes e as sanes, utilizando um mtodo dedutivo e classificatrio rigoroso mas abstracto. As Luzes denunciam severamente o obscurantismo religioso, o absolutismo real e os erros da justia penal. A submisso vontade do prncipe ou do juiz entendida como negao da liberdade poltica. Arbitrrio torna-se um termo pejorativo. essencial lanar as bases intelectuais de uma ordem poltica que proporcione a felicidade maioria.4

O instrumento desta luta a razo. Da cincia e do pensamento brota a luz dissipadora das trevas da ignorncia, da superstio e da misria. Baseiam-se num sistema dedutivo que parte de um pequeno nmero de princpios para deles deduzir uma srie de consequncias. A utilidade constitui a base de qualquer raciocnio. A finalidade suprema de um governo deve ser a maior felicidade para o maior nmero de pessoas. Um acto s pode ser considerado bom ou justo se for, em primeiro lugar, til, isto , se contribuir para a felicidade da maioria. A filosofia penal das Luzes inscreve-se no contexto da poca: - a esperana de vida aumenta; - o nmero de pessoas que sabe ler quadruplica; - a populao das cidades cresce para o dobro; - a produtividade agrcola aumenta um pouco por todo o lado; - a Inglaterra faz a sua revoluo industrial; - a criminalidade transforma-se. Nas cidades, os furtos e os roubos suplantam os crimes violentos. Londres, Paris e outras grandes cidades atraem a riqueza, mas tambm os ladres, que se aproveitam do anonimato para se apoderarem dos bens expostos, cada vez mais numerosos. A mobilidade populacional e o anonimato no permitem a manuteno da operacionalidade dos controlos sociais. A exemplaridade dos castigos, encenada pelo Estado, desajustada. Passamos de comunidades aldes orgnicas, capazes de resolverem os seus conflitos prprios, a sociedades administradas verticalmente. Ainda assim, a polcia continua a ser embrionria, os tribunais raros, e o arsenal de medidas penais insuficiente. Emerge a vontade de uma filosofia penal mais moderada e de uma administrao da justia