aPontamEntoS introdutórioS SobrE a EPiStEmologia rEligioSa dE

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  • FIDES REFORMATA XIV, N 2 (2009): 65-94

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    aPontamEntoS introdutrioS SobrE a EPiStEmologia rEligioSa dE Joo Calvino

    naS InstItutas da RelIgIo CRIstFabiano de Almeida Oliveira*

    RESUMOO presente artigo tem a finalidade de apresentar aos leitores, introduto-

    riamente, alguns aspectos fundamentais da concepo de Calvino a respeito da natureza e caractersticas do conhecimento de Deus e do autoconhecimento. A fim de atingir esse objetivo, ateno especial dada aos elementos constitutivos da epistemologia religiosa de Calvino, como, por exemplo, a relao entre os conceitos de f, vontade e razo luz de um registro pr-lapsrio e ps-lapsrio.

    PALAVRAS-CHAVEEpistemologia Religiosa; Conhecimento de Deus; Autoconhecimento;

    Vontade; Razo e f.

    IntROdUO A epistemologia, tambm conhecida como teoria do conhecimento,

    historicamente alcanou sua proeminncia como uma das principais reas da filosofia na modernidade, a comear de pensadores como Ren Descartes (1596-1650) e John Locke (1632-1704) no sculo 17, alcanando seu pice no pensamento crtico de Immanuel Kant (1724-1804). Como disciplina filosfica, a epistemologia tem o objetivo de analisar todas as questes en-volvidas no processo de conhecimento da realidade, incluindo suas condi-es de possibilidade e critrios de justificao. Por epistemologia religiosa

    * O autor professor assistente da rea de teologia e filosofia do CPAJ, professor do Seminrio Presbiteriano Rev. Jos Manoel da Conceio e pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Ebenzer de So Paulo.

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    denominamos a rea que trata da explorao das caractersticas e condies epistmicas das crenas e experincias religiosas. Este artigo, obviamente, no consiste, stricto sensu, numa anlise epistmica das crenas de Calvino sobre a existncia de Deus, pelo menos no luz de um registro filosfico-analtico como aquele no qual os filsofos analticos da religio ou epistem-logos religiosos tm transitado. No entanto, tal contexto filosfico atual, bem como a constante remetncia dos especialistas atuais s questes postas de maneira recorrente por pensadores do passado que trabalhavam com a intera-o entre filosofia e religio, como Agostinho, Toms de Aquino e Calvino, dentre outros, nos autoriza a situar este artigo, bem como a sua temtica, na conexo entre a teologia e a epistemologia da religio, alm de tambm nos autorizar a denominarmos de epistemologia religiosa o tratamento dado por Calvino questo da natureza e caractersticas do conhecimento de Deus.1

    1. A ObRA EM fOCO: O MtOdO LItERRIO dE CALVInO nAS InstItUtas

    De todas as obras escritas por Calvino, as Institutas da Religio Crist a que melhor reflete a suma do seu pensamento teolgico e de sua piedade crist na sua integralidade. Suas sucessivas edies representam o desenvolvimento do pensamento de Calvino durante os vinte e trs anos em que se dedicou ao aperfeioamento de sua obra (1536-1559). Certamente que o pensamento de Calvino e sua experincia religiosa no foram forjados num vcuo intelectual e nem tampouco do dia para a noite, como demonstra o desenvolvimento das Institutas. Diversos fatores diretos e indiretos influram na formao do pen-samento e da piedade crist do reformador de Genebra.2 Do ponto de vista de

    1 Sobre o carter prprio da epistemologia religiosa, ver WOLTERSTORFF, Nicholas. Episte-mologia da religio. In: GRECO, John; SOSA, Ernest (Orgs.). Compndio de epistemologia. So Paulo: Loyola, 2008, p. 469-502. O argumento falsificacionista se constitua num dos principais critrios contemporneos de justificao epistmica de crenas, ao mesmo tempo em que se apresentava como um dos principais obstculos s pretenses de verdade das crenas religiosas. Com o declnio atual da objeo falsificacionista, uma enxurrada de estudos sobre o carter epistmico das crenas teolgicas e experincias religiosas tem sido realizada, tendo surgido, no interior da prpria filosofia analtica, uma sub-rea de estudos denominada Filosofia Analtica da Religio ou Epistemologia da Religio. Para maiores detalhes sobre esta questo, ver MICHELETTI, Mrio. Filosofia analtica da religio. So Paulo: Loyola, 2002, p. 43-45.

    2 H diversas hipteses sobre as fontes diretas ou indiretas que, possivelmente, influram na formao da teologia e da piedade de Calvino. No entanto, de comum nestas hipteses parece ser a ex-tensa influncia de alguns temas agostinianos que foram muito marcantes nos sculos 14, 15 e 16. Em especial, dois movimentos de inspirao agostiniana, iniciados na Baixa Idade Mdia, provavelmente incidiram na formao do pensamento de Calvino. Um deles, de natureza teolgico-filosfica, consistiu no encontro da via moderna com o reavivamento do pensamento antipelagiano de Agostinho, que hoje denominado por alguns especialistas no pensamento da Reforma de Schola Augustiniana Moderna. O outro foi um movimento de redescoberta da devoo religiosa e da prtica da f pautadas no exerccio da humildade e de uma piedade simples e prtica. Tal movimento, de forte inspirao na mstica agostiniana,

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    sua composio e metodologia, a 1a edio das Institutas foi escrita em latim e publicada em maro de 1536 em Basilia. As Institutas de 1536 lembravam mais um catecismo de instruo crist. Essa edio seguia uma estrutura meto-dolgica fundada na tradio catequtica, cuja nfase repousava, basicamente, na apresentao dos princpios fundamentais da f crist presentes no Credo Apostlico, no Declogo de Moiss e na Orao do Senhor ensinada nos evan-gelhos.3 Alm de seguir a tradio catequtica, muito provvel que, nesse

    manifestou-se inicialmente como contraponto ao tipo de espiritualidade clerical e especulativa que vinha sendo praticada por setores da Igreja Catlica Romana nos sculos 14 e 15. Esse movimento originado na Holanda entre os Irmos da Vida Comum ficou conhecido como Devotio Moderna e uma de suas obras mais representativas foi De Imitatione Christi de Thomas Kempis. Segundo Torrance, embora no haja nenhuma meno explcita nas obras de Calvino ao De Imitatione Christi, h uma aproximao muito estreita entre os temas e o tratamento que envolvem a doutrina do conhecimento de Deus na sua relao com este ideal renovado de espiritualidade crist proposto por Thomas Kempis em sua obra. Ambos concebem, de maneira geral, o conhecimento verdadeiro de Deus e suas relaes ao modo agostiniano, identificando-o com a prpria sapientia, e o distinguem do conhecimento da realidade terrena (scientia). Sendo de natureza muito mais prtica do que especulativa, o fim desse conhecimento moldar os crentes na verdadeira piedade. Outro aspecto de extrema semelhana a nfase, colocada por ambos, na correlao existente entre o conhecimento de Deus e o autoconhecimento, cuja apropriao resulta de um ato gracioso e condescendente de Deus em comunicar internamente aos crentes a sua summa Veritas, por meio da internalizao da mensagem revelada nas Escrituras e tambm de sua recepo humilde por parte do crente em sujeio e obedincia sua vontade. Ver, por exemplo, De Imitatione Christi I.3.1,2; I.5.1; III.2.1; III.43.3; III.4.1ss; III.48.1ss; III.46.1ss; III.48.1ss; I.5.1; I.9.1s; II.2.1s; III.13.1s; III.14.2s. Sendo as Escrituras a fonte suprema por meio da qual Deus comunica sua verdade espiritual ao homem, verdade esta que transcende toda forma de percepo humana, sua mensagem s pode ser adequadamente compreendida e aplicada atravs da ao iluminadora do Esprito Santo. Ver, por exemplo, De Imitatione Christi I.1.1,2; I.5.1; III.31,2s; 53.3; cf. II.1.6; IV.4.1; cf. III.23.8; III.31.2 cf. III.54.1; 58.6. Outra grande semelhana entre a Devotio Moderna, tal como representada pelo pensamento de Thomas Kempis em sua obra clssica, e o pensamento de Calvino, o fato de haver entre ambos uma forte resistncia em associar o verdadeiro conhecimento de Deus, que a sabedoria, com aquele tipo de inquirio meramente intelectual e especulativa sobre as realidades divinas. Ver, por exemplo, De Imitatione Christi I.25.2; III.24.1; III.58.1s; IV.18.1 cf. III.3.1; 43.1s. Apesar disso, ambos tambm veem na scientia (conhecimento) um dom de Deus ao homem quando aplicada ao domnio das investigaes bblicas e teolgicas, sob a conduo da prpria f, pois seu exerccio pressupe as realidades que vm da divina graa. Ver, por exemplo, De Imitatione Christi I.3.4; III.43.2 cf. I.7.1; III.21.1; III.54.17s. Para maiores detelhes ver TORRANCE, Thomas F. The Hermeneutics of John Calvin. Edinburgh: Scottish Academic Press, 1988, p. 72-95; OZMENT, Steven. The Age of Reform 1250-1550: An intellectual and religious history of late medieval and reformation Europe. New Haven: Yale University Press, 1980, p. 73-134. Para um tratamento mais extensivo sobre os provveis movimentos precursores da Reforma do sculo 16, recomendo as seguintes obras: MCGRATH, Alister E. Reformation Thought: An introduction. Malden: Oxford University Press, 1999; MCGRATH, Alister E. Origens intelectuais da Reforma. So Paulo: Cultura Crist, 2007; OBERMAN, Heiko A. The Dawn of the Reformation: Essays in late medieval and early reformation thought. Grand Rapids: Eerdmans, 1992; OBERMAN, Heiko A. Forerunners of the Reformation: The shape of late medieval thought. New York: Holt, Rinerhart and Winston, 1966. OBERMAN, Heiko A. The Reformation: Roots and ramifications. Grand Rapids: Eerdmans, 1994.

    3 MULLER, Richard A. The Unaccommodated Calvin: Studies in the foundation of a theologi-cal tradition. New York, Oxford: Oxford University Press, 2000, p. 101,113; DE GREEF, Wulfert. The Writings of John Calvin: An introductory guide. Grand Rapids: Baker, 1993, p. 196, 197.

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