Apontamentos sobre a "coisa julgada inconstitucional"

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Texto de Marcelo Alexandrino da Costa Santos

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APONTAMENTOS SOBRE A COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL (Rio de Janeiro, 2005)

Marcelo Alexandrino da Costa Santos

SUMRIO

INTRODUO

CAPTULO 1. COISA JULGADA 1.1 CONCEITO E NATUREZA JURDICA 1.2 COISA JULGADA FORMAL E COISA JULGADA MATERIAL

1.3 A COISA JULGADA NAS RELAES JURDICAS CONTINUATIVAS

CAPTULO 2. ASPECTOS CONSTITUCIONAIS

2.1 JURISDIO CONSTITUCIONAL 2.2 DECLARAO DE INCONSTITUCIONALIDADE EM CONTROLE CONCENTRADO PELO STF 2.3 EFEITOS DA DECLARAO DE INCONSTITUCIONALIDADE

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EM CONTROLE CONCENTRADO

CAPTULO 3. A COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL 3.1 A COISA JULGADA NA CONSTITUIO DA REPBLICA 3.2 RELATIVIZAO DA COISA JULGADA E COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL 3.3 DEFEITOS DA COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL 3.4 MEIOS DE IMPUGNAO 3.5 CRTICAS TRIA DA RELATIVIZAO DA COISA JULGADA CAPTULO 4. A INOVAO LEGISLATIVA TRAZIDA PELA MEDIDA PROVISRIA N. 1.997-37, DE ABRIL DE 2.000 4.1 A SENTENA EIVADA DE INCONSTITUCIONALIDADE E OS PARGRAFOS PRIMEIRO DO ARTIGO 475-L DO CPC E 5 DO ARTIGO 884 DA CLT 4.2 LIMITES APLICAO DO NOVO DISPOSITIVO 4.3 INOVAO INCONSTITUCIONAL? CONCLUSO

REFERNCIAS

INTRODUO

Este trabalho tem o objetivo de apresentar o esboo de um dos temas mais polmicos do direito processual na atualidade: a mitigao da coisa julgada material na hiptese de ofensa da sentena Constituio, independentemente do ajuizamento de ao rescisria.

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Para realizar nosso intento, dividimos este estudo em quatro captulos, nos quais os temas que se entrelaam so apresentados em uma seqncia lgica. Assim, o primeiro captulo tratar do instituto da coisa julgada, abordando seu conceito, sua natureza jurdica e suas manifestaes formal e material, bem como discorrendo sobre o trnsito em julgado de sentenas que disciplinam relaes continuativas. O segundo captulo tratar de aspectos constitucionais inerentes ao tema, notadamente a supremacia da constituio, os mecanismo do controle de constitucionalidade das leis e atos normativos do Poder Pblico e seus efeitos, sintetizando diversas e relevantes opinies doutrinrias. O terceiro captulo por em foco a coisa julgada inconstitucional, inserindo-a na to discutida tese de relativizao da coisa julgada, indicando os meios de impugnao sugeridos pela doutrina e apontando crticas a essa teoria. Por fim, o quarto captulo tratar da insero, respectivamente, dos pargrafos primeiro e quinto aos artigos 475-L do CPC e 884 da CLT, respectivamente, apresentando uma anlise de seu alcance, de suas limitaes e de sua suposta inconstitucionalidade. A pesquisa efetuada foi do tipo exploratria, pois os debates sobre o tema so recentes e no-consensuais; descritiva, pois visava, desde o incio, a determinar a correlao entre os fatos e as questes formuladas, ou seja, se e em que situaes o vcio de inconstitucionalidade tem o condo de esvaziar a coisa julgada material. Tratou-se, ainda, de pesquisa parcialmente bibliogrfica, porque, alm de livros, foram consultadas a legislao, a jurisprudncia e a concluso de seminrios, a fim de colmatar lacunas e elucidar dvidas sobre o tema proposto. Como fontes de pesquisa, foram utilizadas livros de Direito Constitucional e Processual, coletneas, peridicos, portais especializados e seminrios.

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Desta forma, buscamos examinar a assim-chamada coisa julgada inconstitucional de acordo com as classificaes e teorias doutrinrias em voga, sem, contudo, furtarmo-nos apresentao de nossas prprias concluses, as quais deixamos apreciao crtica do leitor.

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CAPTULO 1 - COISA JULGADA

1.1 Conceito e natureza jurdica.

Por meio da sentena1, o rgo judicial emite o preceito imperativo que h de disciplinar a situao litigiosa trazida sua apreciao.2 Por razes de ordem prtica3, essencialmente ligadas idia da noperpetuao do litgio4 e da univocidade das decises judiciais5, a lei confere imutabilidade tutela jurisdicional assim dispensada, tornando a soluo dada crise jurdica imune a futuros questionamentos. No momento em que j no se possa interpor qualquer recurso contra a sentena, diz-se que ela faz coisa julgada ou transita em julgado.6 Coisa julgada, portanto, a deciso judicial de que j no caiba recurso 7, ou, mais precisamente, a imutabilidade da sentena (coisa julgada formal) e de seu contedo (coisa julgada material), quando no mais cabvel qualquer recurso.81 2

O que se diz, neste trabalho, sobre sentena igualmente vlido para acrdo. MOREIRA, Jos Carlos Barbosa. A eficcia preclusiva da coisa julgada material no sistema do processo civil brasileiro. In: ______. Temas de direito processual. 1 srie. So Paulo: Saraiva, 1988. p. 97. 3 Segundo Couture,a coisa julgada [...] uma exigncia poltica e no propriamente jurdica; no de razo natural, mas sim de exigncia prtica. COUTURE, Eduardo J. Fundamentos do direito processual civil. Campinas: Red, 1999. p. 332. 4 Ibid., p. 99. 5 Sustenta Liebman que o verdadeiro problema da coisa julgada, caracterstico e nico da atividade jurisdicional: o de que se possa um outro ato da mesma autoridade reexaminar o caso j decidido e julgar de modo diferente, sem infirmar assim a validade do ato precedente, mas criando um conflito entre duas decises, com todos os seus conhecidos inconvenientes que da promanam. LIEBMAN, Enrico Tullio. Eficcia e autoridade da sentena e outros escritos sobre a coisa julgada. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1984. p. 49. 6 Ibid., idem. 7 Art. 6, 3o da Lei de Introduo do Cdigo Civil. 8 CMARA, Alexandre Freitas. Lies de direito processual civil. v. I. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1998, p. 416. Especialmente relevante a crtica lanada pelo autor contra a lio de Liebman, para quem a coisa julgada implicaria a imutabilidade dos efeitos da sentena: estes podem se alterar a qualquer tempo, conforme salienta o processualista carioca, bastando que se pense na hiptese de o devedor cumprir o comando da sentena condenatria tal comando, em si mesmo considerado subsistiria, mas no a sua eficcia.

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Duas posies tericas se destacam quando se perquire acerca da natureza jurdica da coisa julgada: para a primeira, trata-se de um efeito da sentena; para a segunda, de uma qualidade que a ela adere9. Assim que Chiovenda afirmava ser a coisa julgada a eficcia da sentena que se tornou definitiva10, ao que se contrape Liebman, salientando quea eficcia de uma sentena no pode por si s impedir o juiz posterior, investido tambm ele da plenitude dos poderes exercidos pelo juiz que prolatou a sentena, de reexaminar o caso decidido e julg-lo de modo diferente. Somente uma razo de utilidade poltica e social intervm para evitar essa possibilidade tornando o comando imutvel quando o processo tenha chegado sua concluso, com a precluso dos recursos contra a sentena nela pronunciada.11

Sustenta o inspirador da Escola Paulista de Direito Processual Civil, ento, que a coisa julgada nada mais que essa indiscutibilidade ou imutabilidade da sentena e dos seus efeitos, aquele atributo que qualifica e potencializa a eficcia que a sentena naturalmente produz, segundo a sua prpria essncia de ato estatal12. Abriu-se, desta forma, caminho tese segundo a qual a coisa julgada a qualidade que reveste, a um s tempo, a sentena e seus efeitos.13 Cabe, ainda, mencionar a teoria de que a coisa julgada uma situao jurdica que se configura com a irrecorribilidade da deciso judicial. o que sustenta, amparando-se em Barbosa Moreira, Alexandre Cmara para quem com o trnsito em julgado da sentena, surge uma nova situao, antes inexistente, que consiste na imutabilidade e indiscutibilidade do contedo da sentena, e a imutabilidade e a indiscutibilidade que so, em verdade, a autoridade de coisa julgada.14

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Ibid, op. cit. p. 417. CHIOVENDA, Giuseppe. Instituies de direito processual civil. v. III. Campinas: Bookseller, 1998. p. 94 e 249 (referncias, respectivamente, coisa julgada material e formal). O Cdigo de Processo Civil consagra essa posio terica, conforme se extrai da redao do art. 467. 11 LIEBMAN, op. cit. p. 55. 12 Idem, p. 53. Parece ser esse, tambm, o pensamento de Carnelutti, quando afirma que a frmula da coisa julgada emprega-se para significar [...] a deciso dotada de tal [vinculativa] eficcia. Cf. CARNELUTTI, Francesco. Instituies do processo civil. v. I. Campinas: Servanda, 1999. p. 185. 13 CMARA, op. cit. p. 418. 14 Ibid., p. 418.10

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Como se percebe, h ainda acesa discusso sobre a natureza jurdica da coisa julgada, razo da admoestao de Barbosa Moreira, de que definir a natureza da coisa julgada material [...] se trata de uma controvrsia a cujo respeito s mesmo o juzo final que dar uma palavra de pacificao; e mesmo esse talvez comporte, pelo menos, embargos de declarao.15

1.2 Coisa julgada formal e coisa julgada material.

Ressalta Dinamarco com amparo na lio de Liebman que, quer a estabilidade e a imutabilidade atinjam somente a sentena como ato processual, quer atinjam ela prpria e tambm seus efeitos, haver sempre coisa julgada, o que revela, diante da distino entre coisa julgada formal e material, somente que a imutabilidade uma figura de duas faces, no institutos diferentes.16 A propsito de tal distino, refere a doutrina duas espcies de coisa julgada: a formal, cuja eficcia meramente endoprocessual, e a material, que tambm se projeta para fora do processo eficcia panprocessual17. A coisa julgada formal torna a deciso indiscutvel, to-somente, no prprio processo em que foi proferida, assumindo feies puramente tcnico-processuais18. Assim, qualquer sentena vocacionada a adquirir a autoridade da coisa julgada formal, pois o efeito

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MOREIRA, Jos Carlos Barbosa. Antecedentes da reforma processual e sistemtica geral do novo cdigo de processo civil. In: ______ Estudos sobre o novo cdigo de processo civil.Rio de Janeiro: Lumen Juris, 1974. p. 38. DINAMARCO, Cndido Rangel. Instituies de direito process