ARQUÉTIPOS, FANTASMAS E ESPELHOS*

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Text of ARQUÉTIPOS, FANTASMAS E ESPELHOS*

  • ARQUTIPOS, FANTASMAS E ESPELHOS*

    Maurcio Waldman**

    *Socilogo (USP), Mestre em Antropologia (USP) e Doutor em Geografia (USP). Dentre muitas publicaes, Maurcio Waldman autor de Ecologiae lutas sociais no Brasil (Contexto, 1992), Meio ambiente e antropologia (SENAC, 2006), co-autor da Coleo tecendo o saber (Fundao

    Roberto Marinho, 2007) e de Memria dfrica - A temtica africana em sala de aula (Cortez, 2007, juntamente com Carlos Serrano). Atualmente,desenvolve projeto na rea de relaes internacionais enfocando a frica austral e possui uma home page, a http://www.mw.pro.br.

    E-mail: mw@mw.pro.br

    RESUMO:Este texto o desdobramento final de Imaginrio, Espao e Discriminao Racial, artigo publicado noexemplar n 14 da Revista GeoUsp (2003, pp. 45-63). Assim sendo, em continuidade este textoassinala os vnculos existentes entre o espao, tanto nas suas dimenses concretas quanto nasimaginrias, com a questo da discriminao racial, articulando ambas temticas por sua vez com arelao mantida entre as sociedades e a natureza. Para alm da localizao do racismoexclusivamente em nvel da concretude social, o ensaio busca evidenciar, pois uma cartografia e auma geografia imaginria, entendida como matriz para a revivificao e/ou ressemantizao dedinamismos espaciais excludentes. Neste contexto, a ecloso de uma interpretao linear eprogressiva do tempo social, firmada na supresso do espao pelo tempo, uma inferncia entendidaneste material como especfica modernidade, vista como bsica para a origem de formasgenuinamente racistas de discriminao. Por conseguinte, o racismo seria pertinente exclusivamenteao padro civilizatrio ocidental e a nenhum outro. A discriminao racial seria resultante de umacivilizao que suprimiu o espao em funo do tempo, processo este articulado com a negao dooutro e das pulses da natureza. Por fim, o texto busca esclarecer a respeito das conseqnciasda discriminao e sobre a reconstruo das diferenas, tais como estas se especificam no contextoda GlobalizaoPALAVRAS-CHAVE:Imaginrio; Arqutipo espacial; Territorialidade; Tempo-espao; Civilizao Ocidental; Discriminao racial.

    ABSTRACT:These are the final considerations of Imaginary, Space and Racial Discrimination, article published onGeoUsp, n 14 (2003, 45-63), the academic journal of University of So Paulos Geography College.Therefore this text assigns, in continuity, the relation of space, even in concrete dimensions as if inhis imaginary one, with racial discrimination, and also articulates both themes within the relationsamong societies and environment. More than localize the racism exclusively in a concrete sociallevel, this essay seeks to evidence the cartography and imaginary geography, understood as a matrixto revivification and/or re-conception of excluding spatial dynamism. In this context, the emergingof linear and progressive interpretation of social time, based on suppression of space by time, aninference understood in this material as a modern specificity, exclusively for the western civilizedpattern and no other. The racial discrimination would result of a civilization that took of the spacefor time, articulated with other negation process and nature rhythm. Eventually, this text seeksclarify the consequences of racial prejudice and the reconstruction of differences, as these specificitiesin a Globalization context.KEY WORDS:Imaginary; Spatial archetype; Territoriality; Time-space; Western civilization; Racial prejudice.

    GEOUSP - Espao e Tempo, So Paulo, N 23, pp. 44 - 64, 2008

  • Arqutipos, fantasmas e espelhos, pp. 44 - 64 45

    Ensaio dedicado ao schtetl de Lagoff, naPolnia do Congresso, que durante sculos foio espao de vida dos meus ancestrais paternos.Juntamente com seus moradores, ele foieliminado na voragem da Segunda GrandeGuerra. Desde ento, seus est ilhaossobrevivem apenas na memria dos tempos-espaos idos. Mas mesmo assim,compartilhando de outros tempos e de outrosespaos, estes fragmentos so uma advertnciaeterna de que os ausentes, quandosignificativos, esto sempre presentes (1993/5753).

    ESPAO E IMAGINRIO DA NEGAO

    As concepes de tempo e de espaosempre estiveram na base da organizao dasdiferentes sociedades humanas. Elas estomaterializadas na organizao do espaogeogrfico e encontram expresso emarqutipos figurativos, como na iconologia e naiconografia.

    O aparato simblico, mais que umamanifestao cultural, responde pelasnecessidades objet ivas de reproduo dequalquer sistema. O poder lembra CarlosSERRANO, no se caracteriza apenas pelaapropriao do espao, a sujeio de pessoas ougrupo de pessoas, mas tambm, pela manipulaode signos e smbolos, numa apropriao destes(1989: 89).

    Todas estas inferncias esto ordenadasem padres percept ivos, aos quais temosdenominado de Arqutipos Espaciais. A partirdestes arqut ipos, discernimos modelosidentitrios atravs dos quais so colocados emao os mecanismos modeladores dos corpos,tanto do social, no seu aspecto propriamentesociolgico, quanto dos humanos em seu strictusensu, processos de modelagem que atuam emparalelo e esto intimamente relacionados entresi.

    Expresso de um determinado Modo deRelao com a Natureza, o Arqutipo induzdirecionamento dos f luxos presentes no

    inconsciente, ele mesmo parte da natureza quehabita o corpo do homem, emanao sem a qualno seria possvel pensar a dimenso dohumano.

    No caso do sistema capital ista, talarqutipo estabeleceu, a partir de seu processode mundial izao, vrias estratgias deexcluso. Dentre estas, a nota mais importantereportaria a um territrio imaginrio para o qualforam deportados todos os inimigos potenciaisda artificialidade, noo esta, j observamos,matriz da formulao de uma hierarquia racial.

    Desta forma, o repdio do natural emfavor do artificial, redundou em prefiguraessobrenaturais, localizadas em uma topologia doinconsciente geralmente denominada como esferado irracional . Esta racionalizao,desdobramento direto da noo deprogressividade, no-perdurabilidade e maisadiante, no-natureza, coloca a dessacralizaodo mundo como o cerne das atenes do novosistema em expanso. Nesta perspectiva, oirracional passou a representar os mitos queforam varridos com o advento da razo livre,l ivre dos deuses, l ivre de concepesmetafsicas, livre do alm-homem (DIGENES,1992:3).

    Esta profunda alterao dos padressensveis que sempre caracterizaram associedades humanas em geral e que hojedemarcam a maior encruzilhada de que ahumanidade jamais teve notcia, atenderam auma estratgia deliberada de colocar povos aregies a servio da acumulao de capital. Emfuno desta necessidade, foram profanados emortif icados todos os espaos, criados oureelaborados outros signos, smbolos eestigmas, cruciais para a organizao do espaohabitado e qualificao de seus habitanteshumanos e no-humanos.

    A ecloso do tempo linear e progressivo,que sucede a partir das cidades - o espao deliberdade do capital - como sublinhavam Karl Marxe Friedrich Engels - vai originar uma vastaoperao de ressemantizao do excludo, dooutro em geral, em vias de ser submetido ou j

  • 46 - GEOUSP - Espao e Tempo, So Paulo, N 23, 2008 WALDMAN, M.

    subjugado. Certamente, na antiguidade clssicae durante toda a Idade Mdia, nos momentosnos quais os europeus viam-se como vtimasiminentes de movimentos em larga escala depovos aliengenas que ameaavam submergi-los (caso, por exemplo, dos persas, dos hunos,dos rabes, dos mongis, dos trtaros e dosturcos), foram elaboradas imagensestereotipadas do outro.

    A atribuio de esteretipos negativos(to mais negativos quanto maior fosse aameaa, aparente ou real) estava presentena repulsa que os gregos devotavam aospersas, no preconceito dos romanos contra asinquietas tribos germnicas que pressionavama longnqua fronteira norte do imprio, no anti-semit ismo do cr isto medieval, quecaracterizava os judeus como povo deicida ealiados do anti-Cristo.

    Entretanto, nada foi semelhante nopassado da humanidade reinveno dadiferena estabelecida a par t ir doRenasc imento. Respondendo pelasnecessidades de um sistema - o Capitalista -que emerge de dentro das entranhas doFeudal ismo, o novo imaginrio vol ta-se,desenfreadamente, no s contra o outro defora (o no-europeu em geral), mas tambmcontra o outro de dentro (o europeu no-burgus).

    Esta genera lizao visceral danegatividade, explica-se pela propenso doespao capital ista reproduzir-se tanto naescala do horizontal (atravs das GrandesDescobertas, por exemplo), quanto navertical (pelo revolucionamento das relaesde produo). O fortalecimento do capitalismos poderia advir do desmantelamento dec lulas espac iais autrquicas e auto-suficientes, da desagregao daheterogeneidade das concepes de tempo-espao que grassavam de alto a baixo noedifcio da sociedade feudal. Ao mesmo tempo,voltava-se contra o negro-africano, o ndio, oasitico, seus tempos e seus espaos.

    A criao de um novo imaginriohistrico-cultural dito nacional, foi a principal peaelaborada com vistas a excluir tudo o que nofosse branco, ocidental e burgus. Nesteimaginrio, a burguesia reinventou a totalidadeda histria humana, criou personagens novos,privilegiou os detalhes que melhor se ajustavamao padro proposto e ao mesmo tempodesqualif icou ou negou o que no lheinteressava. Atuando como plo organizador, oimaginrio ocidental gestou novos modelosident tr ios, inspirados no geral, naressemantizao da herana lingstica e dealguns ancestrais mticos, hipotticos povosfundadores das diversas nacionalidades.

    Por isso mesmo, uma mitologia nacionalpassa a provar que bretes, provenais,alsacianos, borgonheses e normandos, seriamfranceses (isto , descendentes dos francos), eque bvaros, renanos, turngios, pomeranos,silesianos e prussianos, seriam todos alemes(ou seja, descendentes dos alamanos). Melhorainda, esta pretensiosa mitologia prescrevia queem cada destes novos espaos nacionais, emgeral um conjunto dispare de dialetos, detradies locais e de particularismos, sempret