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Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano Centro de Artes e Comunicação Universidade Federal de Pernambuco Arquitetura e Cidade na Tratadística do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima Recife – PE Maio – 2007

Arquitetura e Cidade na Tratadística do Renascimento Italiano · Arquitetura e Cidade na Tratadística do Renascimento Italiano – Fellipe de Andrade Abreu e Lima “Le bellezze

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  • Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Urbano

    Centro de Artes e Comunicao Universidade Federal de Pernambuco

    Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano

    Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    Recife PE Maio 2007

  • Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Urbano MDU/UFPE

    Universidade Federal de Pernambuco Centro de Artes e Comunicao

    Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Urbano

    Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano

    Dissertao de Mestrado apresentada ao Programa de

    Ps-Graduao em Desenvolvimento Urbano (MDU) da

    Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pelo

    candidato Fellipe de Andrade Abreu e Lima, sob

    orientao do Prof. Fernando Diniz Moreira.

    Recife PE Maio 2007

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  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    Abreu e Lima, Fellipe de Andrade

    Arquitetura e cidade na tratadstica dorenascimento italiano / Fellipe de AndradeAbreu e Lima. Recife : O Autor, 2007.

    200 folhas : il.

    Dissertao (mestrado) Universidade Federal de Pernambuco. CAC. Desenvolvimento Urbano, 2007.

    Inclui bibliografia e anexos.

    1. Arquitetura - Teoria. 2. Arquitetura - Itlia. 3.Renascimento italiano. I.Ttulo.

    72 CDU (2.ed.) UFPE 720 CDD (22.ed.) CAC2007-

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  • Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Urbano MDU/UFPE

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  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    Le bellezze d'uno vecchio stimer siano nella prudenza, amorevolezza e ragione delle sue parole e consigli; e qualunque altra si reputi bellezza in uno vecchio certo sar molto dissimile a quella d'un giovane cavaliere. Cos stimo le bellezze in una femmina si possono giudicare non pure ne' vezzi e gentilezza del viso, ma pi nella persona formosa e atta a portare e produrti in copia bellissimi figliuoli. E sono tra le bellezze a una donna in prima richiesti i buon costumi; ch gi una barbara, scialacquata, unta e ubriaca poter nelle fattezze essere formosa, ma sar mai chi la stimi bella moglie.

    Leon Battista Alberti Della Famiglia

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    Dedicatria

    Esta dissertao de Mestrado , assim como todos os meus esforos,

    dedicada minha Amada Noiva Luciana Benevides Campos.

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  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    Agradecimentos

    H muitas pessoas a quem devo agradecer neste volume. A ordem que est descrita aleatria

    e no pretendo definir nenhum grau de importncia aos que, de qualquer forma que seja,

    ajudaram-me nesta dissertao. Assim sendo, agradeo a: Prof. Elvan Silva (in memoriam) e

    sua famlia; alunos de mestrado e doutorado do Programa de Ps-Graduao em

    Desenvolvimento Urbano da UFPE que colaboraram criticamente com meus estudos; Ilma.

    Irm Miriam da Instituio Damas, onde estudei por toda a vida at ingressar na UFPE; Prof.

    Fernando Diniz Moreira; Prof. Luiz Amorim; Profa. Cludia Loureiro; Profa. Virgnia

    Pontual; Prof. Maurcio Rocha; Prof. Toms de Albuquerque Lapa (Coordenador do

    MDU/UFPE). Ao meu pai Ephrem Abreu e Lima Filho; Prof. Lionello Puppi (Universidade

    de Veneza e CISAP); famlia Meneggazzi (Doriano, Ana e Luca) de Verona (Itlia); Senhora

    Elena Poli (Secretria do CISAP); Instituto Ricardo Brennand; Dr. Ricardo Brennand; Sra.

    Snia Ribeiro; minha irm Marcella de Andrade e minha me Carolina de Andrade;

    funcionrios do Programa de Ps-Graduo em Desenvolvimento Urbano da UFPE; Dr.

    Dorani Sampaio; Dr. Cludio Marinho; Profa. Norma Lacerda; Sra. Ida Palumbo; Mario

    Marratta; Matteo Marratta e Martina Marrata; Adelaide Perez; Prof. Enio Laprovitera; Prof.

    Bruno Ferraz; Prof. Ronald Vasconcelos; Dr. Romrio Dias; amigos Lucas da Costa Machado

    Rios e Pedro Jorge Costa; Arnaldo e Ins da editora Bagao; ao meu av Hugo de Andrade

    Amorim (in memoriam), aos meus tios Nelson Marcelo Castor de Andrade (in memoriam),

    Daniel Castor de Amorim, Maral Bezerra Lima e Hugo de Andrade Amorim Filho; e, para

    coroar esta lista, minha Amada Noiva:

    Luciana Benevides Campos.

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    Resumo

    Uma constante preocupao, no estudo da teoria da arquitetura a relao entre os edifcios e

    o espao urbano. Neste campo podem ser tomados como objeto de estudo alguns tratados

    escritos durante o Renascimento italiano, onde se manifesta pela primeira vez a preocupao

    de relacionar a arquitetura com o espao urbano. Os primeiros tratadistas consagrados do

    Renascimento italiano, Leon Battista Alberti, Francesco di Giorgio Martini e Antonio di

    Pietro Averlino anunciaram, nos seus escritos, que a relao envolvendo arquitetura e espao

    urbano, uma das condies para a qualidade espacial da cidade. Todavia, essa

    correspondncia entre arquitetura e cidade diluiu-se na cultura tratadstica ao longo do

    Renascimento, devido a condicionantes tcnicos, culturais e econmicos que transformaram a

    maneira de pensar a arquitetura e a cidade. Autores como Andrea Palladio e Sebastiano

    Serlio, que escreveram seus tratados no final do Renascimento j no dissertaram mais sobre a

    relao entre o espao urbano e os edifcios. O objetivo desta dissertao analisar a relao

    entre arquitetura e cidade em cinco tratados do Renascimento italiano e esclarecer os motivos

    que levaram a esta mudana, segundo a tica da teoria da arquitetura.

    Palavras-chave: Arquitetura. Cidade. Teoria da Arquitetura. Tratados.

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  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    Abstract

    One of the major concerns in architectural theory is the relation between buildings and urban

    space. In order to study this relationship, we can take as study object some treatises written

    during the Italian Renaissance, where if manifest for the first time the concern of if relating

    the architecture with the urban space. The first recognized authors of architectural treatises of

    the Italian Renaissance, Leon Battista Alberti, Francesco di Giorgio Martini and Antonio di

    Pietro Averlino, had announced in their writings that the appropriate relationship between

    architecture and urban space, is one of the chief conditions for the spatial quality of the city.

    However, during the Renaissance, the treatise culture of relating architecture and city was

    dissolved being challenged by technical, cultural and economic conditions, transforming the

    way of thinking architecture and city. Authors such Andrea Palladio and Sebastiano Serlio,

    who had written their treatises at the end of the Renaissance, did not focus on this relationship

    between urban space and buildings. The objective of this study is to analyze the complex

    relationship between architecture and city in five treatises of the Italian Renaissance clarifying

    the reasons that caused this transformation in the field of architectural theory.

    Key-Words: Architectural. City. Architectural Theory. Treatise.

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    Lista de Ilustraes

    Imagem 1. Villard de Honnecourt. Bibliothque Nationale de Paris. Folio 10. Torre de uma

    Catedral.

    Imagem 2. Villard de Honnecourt. Bibliothque Nationale de Paris. Folio 20. Construes

    Geomtricas.

    Imagem 3. Leonardo da Vinci. O Homem Vitruviano. A proporo das partes igual ao

    nmero de ouro ().

    Imagem 4. Leon Battista Alberti. Arranjo da planta da Igreja de San Sebastiano, em Mntua.

    A srie de razes usadas foi a seqncia de Nicmaco. O espao central mede

    7+6+8+6+7=34, ou seja, 34:21=1.618. Um dos exemplos que apresenta uma relao que

    segue o nmero .

    Imagem 5. Leon Battista Alberti. Capa do De Re Aedificatoria. Edio em Lngua Florentina,

    1550.

    Imagem 6. Alberti. Prefcio da primeira edio tipogrfica do De Re Aedificatoria. Edio em

    Latim, 1485.

    Imagem 7. Leon Battista Alberti. Edio Francesa do De Re Aedificatoria. Por Jean Martin,

    1553. Livro 1. p.39. Formas geomtricas bsicas descritas no Livro 1.

    Imagem 8. Idem. Livro 1. p.51. Desenho de formao de figuras harmnicas.

    Imagem 9. Alberti. Ibidem. Livro 3. p.120. Desenhos de capitis de acordo com as descries

    de Alberti.

    Imagem 10. Idem. Livro 3. p.124. Desenho de um pequeno templo com cpola esfrica.

    Imagem 11. Alberti. Ibidem. Livro 4. p.149. Desenho do sistema construtivo de contrafortes

    em guas.

    Imagem 12. Idem. Livro 4. p.155. Desenho do sistema construtivo de pontes sobre rios.

    Imagem 13. Alberti. Ibidem. Livro 5. p.168. Desenho de uma cidade ideal fortificada,

    segundo o texto.

    Imagem 14. Idem. Livro 5. p.172. Desenho do sistema virio com os quarteires. Alberti

    previa a locao dos servios e habitantes para o melhor funcionamento da cidade.

    Imagem 15. Alberti. Ibidem. Livro 7. p.284. Desenho dos detalhes decorativos e sua relao

    proporcional com o mdulo, seguindo as orientaes descritas no texto.

    Imagem 16. Idem. Livro 7. p.312. Desenho da planta de uma igreja e sua relao proporcional

    com o mdulo.

    Imagem 17. Alberti. Ibidem. Livro 8. p.356. Desenho da planta um palcio com ptio interno.

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  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    Imagem 18. Alberti. Ibidem. Livro 10. p.439. Desenho do mtodo de medio topogrfica.

    Imagem 19. Alberti. Ibidem. Livro 10. p.438. Desenho do mtodo de medio topogrfica e

    planimetria.

    Imagem 20. Alberti. Ibidem. Livro 10. p.443. Desenho de uma cidade fortificada, seu

    abastecimento de gua, muralha, torres de vigilncia e estradas de acesso.

    Imagem 21. Citt Ideale di Urbino. Cidade ideal de Urbino. Composio feita entre 1470 e

    1480, segundo os conceitos de Leon Battista Alberti. Na composio percebe-se o Palazzo

    Rucellai (segundo edifcio esquerda) e fachada de Santa Maria Novella (fundo direita).

    Imagem 22. Filarete. Trattato di Architettura. Tavola 93. Permetro esquemtico da cidade de

    Sforzinda.

    Imagem 23. Idem. Tavola 23. Esquema planimtrico da cidade de Sforzinda. Aqueduto na

    parte inferior esquerda e estradas radiais e praa central colocada a 1500 braas das portas.

    Imagem 24. Filarete. Ibidem. Tavola 93. Desenho do Palcio do jardim com monumento

    interno.

    Imagem 25. Idem. Tavola 50. Igreja da Praa do Mercado, planta da Praa e do Frum.

    Arquitetura pensada juntamente com o espao urbano.

    Imagem 26. Filarete. Ibidem. Tavola 32. Desenho das colunas drica, jnica e corntia, com

    planta da casa Rgia descrita no texto, porm sem fidelidade descrio.

    Imagem 27. Idem. Tavola 38. Desenho de cornija, arquitrave e elementos decorativos do

    embasamento.

    Imagem 28. Francesco di Giorgio Martini. Trattati di Architetura, Igegneria e Arte Militare.

    Folio 42v. Relaes modulares do corpo humano para concepo arquitetnica.

    Materializao do ideal antropocentrista.

    Imagem 29. Idem. Folio 3r. Desenho interpretativo do discurso humanista de ver a cidade

    como um corpo humano, com todas as suas partes articuladas entre si.

    Imagem 30. Martini. Ibidem. Folio 42v. Desenho de mquinas. Navio, catapultas, e

    guindastes mecnicos.

    Imagem 31. Idem. Folio 3r. Desenho de mquinas. Moinhos, relgios e cavadeiras.

    Imagem 32. Martini. Ibidem. Folio 12v. Desenho de topologias religiosas baseadas no mdulo

    proveniente das relaes antropomtricas.

    Imagem 33. Idem. Folio 15. Desenhos de colunas baseadas nas medidas do corpo humano.

    Imagem 34. Francesco Colonna. Hypnerotomachia Poliphili, 1499. Folio 8r. Prtico do

    monumento central.

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    Imagem 35. Cesare Cesariano. Homo ad Circulum. P.50. O corpo humano inscrito num

    crculo e num quadrado, de acordo com a descrio feita em Vitrvio, Livro III, Captulo 1.

    Imagem 36. Sebastiano Serlio. Il Primo Libro. 1545. Capa.

    Imagem 37. Idem. Il Terzo Libro. 1540. Capa.

    Imagem 38. Antonio Rusconi. Da Architectura. 1590. Capa.

    Imagem 39. Daniele Barbaro. I Dieci Libri della Architettura. 1567. Capa.

    Imagem 40. Sebastiano Serlio. Il Quarto Libro. 1537. p.3. As cinco ordens canonizadas pela

    primeira vez. Da esquerda para direita: toscana, drica, jnica, corntia e compsita.

    Arquitetura com elementos estandardizados.

    Imagem 41. Idem. 1537. p.6. Ordem toscana com e sem pedestal. A ntasis indicada com a

    sombra.

    Imagem 42. Sebastiano Serlio. Il Terzo Libro. 1540. p.5. Exemplo arquitetnico romano. O

    panteo.

    Imagem 43. Idem. p.38. Ordem toscana com e sem pedestal. Tempietto de Bramante. Isolado

    do entorno.

    Imagem 44. Sebastiano Serlio. Il Primo Libro. 1540. p.22. Desenhos sobre geometria

    euclidiana.

    Imagem 45. Idem. p.53. A aplicao da geometria para desenhar um portal com o uso do

    traado regulador.

    Imagem 46. Sebastiano Serlio. Il Secondo Libro. 1540. p.75. Desenho em perspectiva. O

    espao visto como uma composio de volumes. A arquitetura analisada a partir de

    modelos abstratos.

    Imagem 47. Idem. p.109. A aplicao do mtodo de desenho de planos em perspectiva.

    Imagem 48. Serlio. Ibidem. Livro 4. Exemplos antigos de ordem compsita.

    Imagem 49. Serlio. Livro 5. Plantas de templos de um nico corpo. Flios: 3v, 5v, 7v, 9v,

    11v, 14v e 17v. Incluindo escala grfica nos desenhos. Inovao do Livro 5.

    Imagem 50. Serlio. Livro Extraordinrio. Seis exemplos entre os 50 descritos no Libro

    Extraordinario.

    Imagem 51. Sebastiano Serlio. Il Settimo Libro. Tavola 20. Residncia nobre. Planta, fachada

    e corte.

    Imagem 52. Idem. Tavola 22. Villa. Residncia nobre. Fachada e dois corte.

    Imagem 53. Sebastiano Serlio. Il Sesto Libro. Tavola 4. Residncia comum. Planta e fachada.

    Imagem 54. Idem. Tavola 6. Residncia nobre. Planta e fachada.

    Imagem 55. Idem. Tavola 11. Trs variaes de Fachada de um palcio com a mesma planta.

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  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    Imagem 56. Idem. Tavola 12. Planta de um palcio com trs fachadas diferentes.

    Imagem 57. Sebastiano Serlio. Ibidem. Tavola 28. Villa Fortificada com muralha e basties.

    Imagem 58. Idem. Tavola 45. Tipologias de pequenas residncias geminadas unifamiliares.

    Imagem 59. Sebastiano Serlio. Livro 8. Tavola 1. O acampamento militar de Polbio, segundo

    Serlio.

    Imagem 60. Sebastiano Serlio. Ibidem. Tavola 21. Tipologias de pequenas residncias

    geminadas do acampamento de Polbio, segundo Serlio.

    Imagem 61. Idem. Tavola 22. Desenho de duas tipologias de edifcioso pblicos do

    acampamento de Polbio.

    Imagem 62. Andrea Palladio. I Quattro Libri della Architettura. 1570. Capa.

    Imagem 63. Giacomo Barozzi da Vignola. Regola delli Cinque Ordini dArchitettura. 1562.

    Capa.

    Imagem 64. Giacomo Barozzi da Vignola. Folio 1. As cinco ordens da arquitetura e sua

    modulao.

    Imagem 65. Idem. Folio 2. A modulao, o pedestal e a base da ordem toscana.

    Imagem 66. Andrea Palladio. I Quattro Libri della Architettura. Livro 1. Folio 17. Desenho da

    ordem toscana sem cotas e com as relaes modulares.

    Imagem 67. Idem. Folio 18. Desenho da ordem toscana com arcos, sem cotas e com as

    relaes modulares.

    Imagem 67. Andrea Palladio. Ibidem. Folio 20. Relaes modulares dos detalhes da ordem

    toscana.

    Imagem 68. Idem. Folio 21. Relaes modulares do entablamento da ordem toscana.

    Imagem 69. Andrea Palladio. Livro 2. Folio 5. Fachada e Planta do Palazzo Antonini. Sem

    cotas e com as relaes modulares. Sem diferenciao na espessura das linhas.

    Imagem 70. Idem. Folio 10. Detalhe do Palazzo della Torre.

    Imagem 71. Andrea Palladio. Livro 3. Folio 42. Planta e fachada da Baslica de Vicenza. Sem

    cotas e com as relaes modulares. Sem diferenciao na espessura das linhas.

    Imagem 72. Idem. Folio 43. Detalhe da Baslica de Vicenza.

    Imagem 73. Andrea Palladio. Livro 4. Folio 42. Planta do Templo de Fortuna Virilis, em

    Roma. Desenho sem cotas e com relaes modulares.

    Imagem 74. Idem. Folio 43. Fachada e detalhes do Templo de Fortuna Virilis.

    Imagem 75. Andrea Palladio. Livro 4. Folio 131. Fachada e detalhe do Templo de Netuno.

    Desenho sem cotas e com relaes modulares.

    Imagem 76. Idem. Folio 126. Fachada do Templo de Netuno.

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  • Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Urbano MDU/UFPE

    Sumrio

    Dedicatria................................................................................................................................ 4

    Agradecimentos........................................................................................................................ 5

    Resumo...................................................................................................................................... 6

    Abstract......................................................................................................................................7

    Lista de Ilustraes.................................................................................................................. 8

    Introduo........................................................................................................................... 14

    Captulo 1. A Formao do Renascimento.............................................................. 20

    1.1. Cultura e Sociedade do Quattrocento Italiano.............................................................. 23

    1.2. O Renascimento da Cultura Clssica Greco-Romana................................................. 31

    1.3. Antropocentrismo e Humanismo................................................................................... 35

    1.4. Os Princpios Arquitetnicos do Renascimento........................................................... 39

    Captulo 2. Alberti Arquitetura: A Maior das Cincias.................................. 47

    2.1. O Contedo e a Diviso do De Re Aedificatoria............................................................ 50

    2.2. Os Conceitos Fundamentais do De Re Aedificatoria.................................................... 67

    2.3. Alberti como Precursor de uma Teoria........................................................................ 73

    2.4. A Importncia da Cidade para Alberti......................................................................... 77

    2.5. A Tratadstica de Filarete e Giorgio Martini............................................................... 83

    Captulo 3. O Apogeu da Cincia: As Especialidades......................................... 96

    3.1. Cultura e Sociedade no Cinquecento Italiano. O Individualismo............................... 99

    3.2. A Proliferao das Ordens e a Regresso Vitruvizante............................................. 111

    3.3. A Difuso dos Tratados Ilustrados.............................................................................. 123

    14

  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    Captulo 4. Serlio e Palladio Tipos Arquitetnicos.......................................... 131

    4.1. Diviso, Forma e Contedo do Tratado de Serlio...................................................... 134

    4.2. Diviso, Forma e Contedo do Tratado de Palladio.................................................. 155

    4.3. A Difuso dos Tipos Arquitetnicos............................................................................ 168

    Considseraes Finais.................................................................................................... 174

    Referncias Bibliogrficas........................................................................................... 179

    Apndice 1 (Contedo dos dez livros do De Re Aedificatoria) ..................................... 195

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  • Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Urbano MDU/UFPE

    Introduo

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  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    Introduo

    A dignidade consiste em merecer honra, no em t-la. Aristteles

    Este estudo lana o foco sobre a relao entre a arquitetura e a cidade nos tratados de

    arquitetura publicados durante o Renascimento italiano. O objeto de estudo consiste em cinco

    tratados de arquitetura, tendo em vista sua importncia para a teoria e prtica da arquitetura e

    sua repercusso ao longo do tempo, a saber: o De Re Aedificatoria de Leon Battista Alberti

    (1404-1472), o Tratato di Architettura de Antonio di Pietro Averlino (1400-1465),

    cognome Filarete, os Trattati di Architetura, Igegneria e Arte Militare de Francesco di

    Giorgio Martini (1439-1501), o Tratato di Architettura de Sebastiano Serlio (1475-1554) e,

    por fim, I Quattro Libri della Architettura de Andrea Palladio (1508-1580) publicado em

    1570. Abrange-se, deste modo, o perodo entre 1452 (publicao do tratado de Leon Battista

    Alberti) e 1570 (publicao do tratado de Andrea Palladio).

    Tomados como objeto de estudo, os cinco tratados foram estudados considerando as

    condies nas quais foram escritos, ou seja, as condies sociais dos seus autores, os agentes

    ou pessoas que financiaram estes livros, as condies econmicas da regio onde foram

    desenvolvidos, ou a histria dos autores. A filosofia e histria da cincia sustentam que a

    histria, como uma cincia autnoma, muda suas formas e maneiras de abordar os seus

    objetos de estudo. Se for verdadeira a afirmao de mile Durkheim de que as categorias do

    pensamento humano nunca so fixadas de forma definitiva; elas se fazem, desfazem e

    refazem incessantemente: mudam com o lugar e com o tempo1, este estudo no teria tanta

    importncia se os objetos de estudo no fossem comparados entre si e se as condies

    fornecidas pela historiografia no estivessem nas bases epistemolgicas das anlises contidas

    nestas linhas.

    Algumas questes foram importantes para a estruturao desse trabalho. Quais as bases

    cientficas ou conceitos fundamentais que foram necessrios para Alberti, Filarete, Giorgio

    Martini, Serlio e Palladio elaborarem seus tratados? Qual a finalidade destes tratados? Quais

    variveis esto presentes em todos os tratados de arquitetura do Renascimento? As respostas a

    estas questes so as luzes para definio das variveis e categorias do estudo. As respostas

    so to amplas quanto afirmao de Durkheim, contudo h algumas certezas. As duas

    1 DURKHEIM, mile. A diviso do trabalho social. Lisboa: Presena, 1984. p.98.

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  • Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Urbano MDU/UFPE

    questes iniciais enunciam que o estabelecimento de uma composio arquitetnica ou

    frmula que manifeste a perfeio de uma categoria o objetivo de todos os tratadistas do

    Renascimento Italiano. A frmula, segundo Elvan Silva, o processo de determinao da

    Ordem, baseando-se nos estudos matemticos e geomtricos, que constituem a esttica

    pitagrica, ou seja, o processo de transmisso de uma regra enquanto doutrina1. J Para

    Wittkower, a Composio a maneira como o Arquiteto relaciona as partes do edifcio2.

    Assim sendo, a categoria de anlise deste estudo circunda a idia de Composio

    Arquitetnica e Frmula, considerando que so dois conceitos que pretendem traduzir uma

    mesma idia, ou seja, a perfeio arquitetnica.

    Outro problema deve ser considerado, que o das variveis tempo e espao. Foi necessrio

    ento navegar por outros campos do saber, pontualmente o campo da sociologia e filosofia,

    para esclarecer as questes levantadas, considerando as variveis histricas e culturais que

    perpassam os mencionados tratados de arquitetura. Neste contexto, chama a ateno o fato

    que a sociologia do conhecimento procura compreender o pensamento dentro da moldura

    concreta de uma situao histrico-social, de que o pensamento individualmente diferenciado

    emerge gradualmente. Segundo Karl Mannheim, no so os homens em geral que pensam,

    nem mesmo os indivduos isolados, mas os homens dentro de certos grupos que elaboram um

    estilo peculiar de pensamento graas a uma srie interminvel de reaes a certas situaes

    tpicas, caractersticas de sua posio comum.3

    Os campos da filosofia e sociologia do conhecimento4 trazem, portanto, ferramentas capazes

    de nortear o sistema do conhecimento propriamente dito. Neste sentido, as concepes do

    sistema do saber conceituadas por Hegel5 e Mannheim distinguem trs idias que norteiam

    este estudo: as idias de validade universal, como as formulaes postuladas da matemtica;

    as idias de validade temporria, que pretendem, contudo, ter uma validade at que se prove o

    contrrio; e a idia de dialtica do conhecimento, observando que o saber segue aspiraes e

    variaes ao longo do tempo e do espao. 1 SILVA, Elvan. A Forma e a Frmula. Sagra, Porto Alegre, 1991. p.59. 2 WITTKOWER, Rudolf. Architectural Principles in the Age of Humanism. London: W. W. Norton & Company, 1971. p.79. 3 MANNHEIM, Karl. Ideologia e utopia. Porto Alegre: Globo, 1952. p.3. 4 Para Raymond Boudon e Franois Bourricaud, A chamada sociologia do conhecimento no propriamente um campo da sociologia como a sociologia do lazer ou da educao, por exemplo. Ela constitui um programa, no sentido de Lakatos, isto , um conjunto de questes e de orientaes metodolgicas que tm por objeto o estudo dos determinantes sociais do conhecimento e especialmente do conhecimento cientfico. BOUDON, Philippe et BOURRICAUD, Franois. Dicionrio crtico de sociologia. So Paulo: tica, 1993. p.90. 5 HEGEL, Georg W.F. Fenomenologia do Esprito. Petrpolis: Editora Vozes, 2000. MANNHEIM, Karl. Ibidem.

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  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    Neste conjunto esto as variveis que, de acordo com a terceira questo anunciada, devem ser

    extradas a partir da comparao entre os conceitos defendidos pelos prprios tratadistas.

    Deste modo, as variveis deste estudo correspondem aos conceitos presentes na tratadstica do

    Renascimento. Os conceitos de ordem1, perspectiva2 e mdulo3 so fundamentais para os

    tratadistas elaborarem e relacionarem os edifcios ao espao urbano, seja no plano do tratado,

    do desenho ou da idia. Deste modo, desde as composies intelectuais do espao imaginadas

    por Alberti at os desenhos dos tipos arquitetnicos isolados de Palladio e Serlio fazem uso

    estes conceitos, cada um de modo particular, variando de acordo com as condies histricas

    e sociais.

    Sob este ponto de vista, as condies scio-culturais, material-econmicas e esttico-

    religiosas esto, de algum modo, relacionadas com a produo da tratadstica da arquitetura.

    O problema do conhecimento tem como um dos seus fundadores Karl Mannheim. Como

    teoria, a sociologia do conhecimento procura analisar as relaes entre conhecimento e

    existncia; como pesquisa histrico-sociolgica, busca a origem das formas que essas relaes

    tm assumido no desenvolvimento intelectual da humanidade.4

    Como condies materiais e econmicas que influram na difuso e produo dos tratados de

    arquitetura esto a difuso da imprensa e o desenvolvimento econmico que ocorreu na Itlia

    do sculo XIV em diante. O desenvolvimento da perspectiva e a mudana no juzo esttico da

    sociedade de ento esto diretamente ligados aos aspectos esttico-religiosos. Por fim, os

    condicionantes scio-culturais relacionam-se com a evoluo na educao, favorecida pela

    difuso da imprensa e pelo desenvolvimento econmico, e a transformao do juzo esttico.

    A mudana do juzo esttico do Renascimento, com reflexos no campo da teoria da

    arquitetura, seguiu um caminho que conduziu fragmentao da relao entre arquitetura e

    cidade. No sculo XV, Filarete e Giorgio Martini escreveram seus tratados seguindo as idias

    anunciadas por Alberti no De Re Aedificatoria, considerando a arquitetura e a cidade como

    entes inseparveis na concepo do projeto. Suas frmulas ou composio consideravam o

    1 SUMMERSON, J. A linguagem Clssica da Arquitetura. So Paulo: Martins Fontes, 2002. p.6. A ordem foi definida por Summerson como: a unidade coluna-superestrutura que compe a colunata de um templo. 2 BENEVOLO, L. Storia dellArchitettura del Rinascimento. Bari: Laterza, 2002. p.3. A perspectiva vista como instrumento de anlise, e, de acordo com Leonardo Benevolo, foi a mais importante contribuio do sculo XV para o futuro da arquitetura. 3 SILVA, Elvan. Ibidem. p.199. O mdulo , desde Vitrvio, um valor numrico que serve de subsdio para elaborao da ordem, baseada em relaes matemticas e geomtricas. Desde os gregos, a relao entre o dimetro e a altura da coluna chamada de mdulo. 4 MANNHEIM, Karl. Ibidem. p.245.

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    edifcio e o espao urbano. J Serlio e Palladio desenvolveram em seus respectivos tratados os

    tipos arquitetnicos, ou seja, edifcios sem relao com o ambiente urbano, dando maior

    nfase aos materiais e s tcnicas construtivas. Estes cinco tratados so os mais significativos

    para se entender a fragmentao entre arquitetura e cidade na teoria da arquitetura do

    Renascimento italiano.

    O individualismo social surgido ao longo do sculo XV e XVI condicionou as transformaes

    no campo da arquitetura: no ofcio do arquiteto, na teoria da arquitetura e na prpria

    construo. Os tratados de Serlio e Palladio, escritos no sculo XVI, surgiram como resposta

    s transformaes sociais ocorridas no sculo anterior. Como observou Hegel, as

    transformaes sociais so, ao mesmo tempo, causa e conseqncia das mudanas deste juzo

    esttico. O processo dialtico do conhecimento dentro do campo da teoria da arquitetura

    produziu unidade e fragmentao a partir da prpria conscincia social.

    A unidade entre arquitetura e cidade, considerada por Alberti, Martini e Filarete, no se

    encontra mais nos tratados de Serlio e Palladio. A ateno dos tratadistas sai da cidade e seus

    edifcios para desembarcar nos tipos arquitetnicos isolados, ou melhor, nos edifcios sem

    relao com o ambiente urbano. Este estudo foi dividido em quatro captulos alm da

    introduo e concluso. O primeiro captulo trata da formao do Renascimento, focando nos

    aspectos sociais, polticos e econmicos do sculo XV. Neste contexto foi enfatizado o

    renascimento da cultura clssica greco-romana, que resultou no humanismo e nos princpios

    arquitetnicos do Renascimento.

    O segundo captulo aborda especficamente o De Re Aedificatoria de Leon Battista Alberti,

    seu contedo, diviso e conceitos. Em seguida tratada a importncia da cidade para Alberti.

    Por fim, analisam-se os tratados de Filarete e Giorgio Martini que, como Alberti, enxergavam

    a cidade e a arquitetura como entes inseparveis. Neste momento, percebemos que o ideal de

    perfeio estava na harmonia do todo, atingida a partir de uma relao perfeita entre as partes

    de uma obra de arquitetura e o todo construdo, ou seja, entre arquitetura e cidade. O mdulo

    deveria reger toda a concepo do projeto. O ser humano devia seguir esta manifestao de

    um ideal, e o arquiteto era um humanista responsvel por esta tarefa. Como tal, deveria ser

    o grande pensador de todas as construes: desde uma coluna at uma cidade; desde os

    detalhes decorativos at os sistemas de abastecimento de gua, portos, mquinas de guerra,

    navios; enfim, toda a matria que compe a vida humana.

    20

  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    O terceiro captulo aborda as transformaes ocorridas nos campos social, poltico e

    econmico do sculo XVI, analisando as novas foras que condicionaram a fragmentao

    entre arquitetura e cidade ao longo do Renascimento. Neste contexto, est o surgimento do

    individualismo social, do capitalismo e da indstria. Dentro do campo da arquitetura, a

    proliferao das ordens arquitetnicas e a conseqente regresso vitruvizante justificaram a

    difuso dos tratados ilustrados do sculo XVI.

    No quarto captulo, focando na anlise dos tratados de Andrea Palladio e Sebastiano Serlio,

    verificam-se suas forma, contedo e diviso, relacionando seus surgimentos s questes

    anunciadas no captulo anterior. Assim sendo, a anlise da difuso dos tipos arquitetnicos

    so tratadas de acordo com as transformaes econmicas, scias e polticas do sculo XVI.

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    Captulo 1. A Formao

    do Renascimento.

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    Captulo 1. Origem e princpios do Renascimento.

    O gnio surge subitamente, e fala a partir de um vcuo. Paul Johnson Historiador Universidade de Oxford

    A tese de que as idias so formadas por vises de mundo, defendida por Karl Mannheim1 no

    incio do sculo XX, pode ser aplicada na formao do Renascimento. Naquele perodo, as

    inteligncias flutuantes (freischwebend Intelligenz) estiveram menos submissas s regras do

    conhecimento e colaboraram para superar os obstculos epistemolgicos2. Ao longo dos

    sculos XII e XIII, as cidades e suas respectivas universidades desenvolveram-se por toda a

    Europa. Famosas universidades como Bolonha e Paris serviram de modelo para Salamanca

    (1219), Npoles (1224), Praga (1347) e Pavia (1361). Naquela poca, a preocupao central

    estava na difuso do conhecimento, no na sua criao. Autores como Aristteles, Toms de

    Aquino, Hipcrates, dentre outros, foram os cones de referncia do escolasticismo. Apenas

    trs cursos eram oferecidos pelas universidades: teologia, direito e medicina. Alm disso, as

    nicas disciplinas que podiam ser ensinadas eram as artes liberais.

    Na Europa medieval, as novas universidades estavam, na verdade, diretamente relacionadas

    com uma instituio secular, a Igreja, cujo domnio se deveu, principalmente, por ser a

    detentora do conhecimento. As maiores bibliotecas estavam escondidas em mosteiros e

    abadias por toda a Europa. Alm do saber secular havia apenas o conhecimento oral, passado

    do mestre para o aprendiz, atravs das oficinas, guildas ou academias. Junto s universidades

    surgiram os mestres artsticos, conhecidos como humanistas, que passaram a deter

    conhecimento em todas as artes liberais. Os humanistas formaram um movimento que,

    inicialmente, foi mais de ressurgimento de uma tradio que de inovao. Posteriormente, este

    movimento foi muitssimo inovador e, mais ainda, consciente deste fato, na medida em que se

    opunha ao convencionalismo dos escolsticos.3

    A maior parte dos humanistas havia estudado nas prprias universidades que criticavam.

    Petrarca, Lorenzo Valla e Leonardo Bruni so exemplos dos que abandonaram suas

    universidades por no encontrarem nelas as condies necessrias para o desenvolvimento

    1 MANNHEIM, Karl. Ideologia e utopia. Porto Alegre: Globo, 1952. p. 137-138. 2 Este termo foi cunhado em meados de 1930 pelo filsofo Francs Gaston Bachelard. 3 Segundo Burke, os termos escolstico e Idade Mdia surgiram durante o Renascimento por criao dos prprios humanistas, a fim de definir a si mesmos em contraste com o passado medieval. Os escolsticos, como ficaram conhecidos, eram os telogos e filsofos da Idade Mdia. BURKE, Peter. Uma Histria Social do Conhecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2003. p. 40.

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    cientfico. Erasmo de Roterdam, por exemplo, um dos maiores exemplos de humanista fora da

    Itlia, recusava-se a permanecer muito tempo em uma nica universidade, considerando as

    inmeras ofertas de trabalho que ele possua. Estes humanistas comearam a criar espaos

    para discutir novas questes que no eram aceitas nas universidades, condicionando o

    surgimento das academias, baseadas no modelo platnico de difuso do saber.

    Pouco a pouco, as academias deram incio a uma nova universidade, na qual a criao era a

    palavra reinante entre os estudantes e professores. Por volta de 1600, mais de 400 academias

    haviam sido fundadas na Itlia1. Este perodo foi de imensa revoluo cientfica, porm sem

    abranger um grande nmero de pessoas, tendo em vista que poucos podiam ler os manuscritos

    em grego e latim, conservados na sua maioria em mosteiros e monastrios por toda a Europa.

    Foi no norte da Itlia que esta revoluo cientfica tomou corpo e vida no fim do sculo XIV.

    Em termos gerais, era difcil ter acesso aos livros e educao. As prprias universidades

    criaram os obstculos para a difuso do conhecimento na medida em que tenderam a

    conservar o seu capital intelectual. Alm disso, a maioria dos alunos e professores que

    freqentavam estas universidades eram membros do clero. Homens de letras, como se

    autodenominavam os professores clrigos, dedicavam-se menos s cincias humanas, ao

    contrrio dos chamados humanistas (humanistae).

    Sem outra forma de produzir conhecimento, os humanistas do incio do Renascimento italiano

    iniciaram uma interao intensa com artistas e com os acadmicos. Neste contexto, muitas

    dificuldades tinham de ser transpostas pelos humanistas. Por exemplo, no incio do sculo

    XV, a Itlia no tinha uma unidade social, cultural ou territorial e vrias lnguas eram faladas

    em toda a pensola, principalmente os dialetos Fiorentino, Napoletano e Toscano. Contudo, a

    interao entre os povos e culturas no norte italiano era enorme devido s relaes comerciais.

    Veneza, Gnova, Livorno e Florena desempenharam um papel de liderana no que foi

    chamado de revoluo comercial do sculo XIV. Com o comrcio, surgiu a classe burguesa,

    financiadores do conhecimento e da arte, que tendiam a romper com a tradio do passado

    medieval e, modelado na Antiguidade clssica, desenvolver uma nova forma de ver o

    mundo2.

    1 BURKE, Peter. Ibidem. p. 40. 2 Podemos citar a relao entre condies econmicas e transformaes culturais dentro do Renascimento Italiano. Para este tema ver: WILLIAMS, R. Culture and Society. WEBER, Max. Economia e Sociedade.

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    1.1. Cultura e Sociedade do Quattrocento Italiano.

    O exerccio do poder cria perpetuamente conhecimento e, ao contrrio, o conhecimento constantemente gera efeitos de poder.

    Michel Foucault

    Um bom nmero de historiadores considera o Renascimento como um marco no mundo

    moderno. O florescimento da sociedade renascentista no quer dizer que o perodo

    antecedente foi de estagnao ou no tenha produzido elementos de alto valor cultural. O

    Renascimento italiano foi um perodo no qual as conquistas artsticas e cientficas se

    intensificaram, o que reconhecvel em muitos campos: literatura, pintura, arquitetura,

    escultura e at poltica.

    A Toscana e o Veneto foram as duas regies italianas onde a revoluo cultural chamada

    Renascimento tomou corpo. Florena, por volta de 1500, era uma cidade de fervor cultural

    onde artistas eram financiados pelos burgueses comerciantes, pelos prncipes e condes para

    executarem suas obras. A sociedade florentina, com um sistema poltico j bastante

    desenvolvido para a poca, possua embaixadores, secretrios de governo, exrcito, dentre

    outros rgos que tornavam a sociedade mais dinmica e produtiva. Ao contrrio dos reinados

    absolutistas da Frana, Espanha e sul da Itlia, os estudiosos que haviam passado pelas

    universidades de teologia, filosofia e direito, deram a estas seletas cidades um avano enorme

    nos campos cultural e social.

    A literatura deste perodo j mostra uma preocupao com a mobilidade social, com a

    importncia da arte para uma sociedade e o aumento do interesse pela Antiguidade clssica.

    Apesar do domnio cultural e intelectual da Igreja, o Renascimento iniciou-se com a mudana

    dos valores sociais. A nova classe burguesa passou a perder a religiosidade medieval e iniciou

    uma espiritualizao do capitalismo. O antropocentrismo que reinou nos sculos XV e XVI

    comeou a tomar o espao do teocentrismo medieval. Alm desta preocupao em emancipar

    a sociedade de uma viso extremamente religiosa da vida, a literatura dos sculos XV e XVI

    produziu obras de carter tcnico, como evidencia Paolo Rossi:

    A literatura dos sculos XV e XVI extraordinariamente rica em

    Tratados de carter tcnico, que so s vezes autnticos manuais, s

    vezes consideraes esparsas sobre o prprio trabalho ou os

    procedimentos empregados nas vrias artes. Obras deste tipo

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    representaram uma contribuio decisiva ao contato entre o saber

    cientfico e o saber tcnico artesanal, e tiveram um efeito determinante

    no nascimento da cooperao entre cientistas e tcnicos, entre cincia

    e indstria.1

    Esta cultura de desenvolvimento literrio foi favorecida pela divulgao dos livros. Como

    centro artstico, a Itlia deste perodo desenvolveu novas tcnicas de pintura, estilos artsticos

    e gneros literrios. Graas aos avanos dos humanistas, a produo musical e literria, a

    poltica e a sociedade, foram, relativamente, autnomas das influncias medievais e religiosas.

    O ressurgimento da tragdia, do drama e da comdia marcou a literatura. Nas academias e

    universidades, os studia humanitatis ascenderam e comearam a tomar o lugar das disciplinas

    de teologia. Gramtica, poesia, histria, tica e retrica surgiram como disciplinas novas.2

    A retomada de valores culturaisclssicos na sociedade deu-se na Itlia, onde houve uma

    atitude relativamente ousada em relao ao passado medieval. De fato, pases como

    Alemanha, Frana e Inglaterra eram mais ligados tradio gtica medieval do que a Itlia.

    Deste modo, a Itlia possua as condies favorveis ao desenvolvimento do comrcio, da

    economia e, conseqentemente, do Renascimento. A inovao cultural italiana no deu as

    costas tradio antiga, j que houve o abandono de uma cultura medieval em favor de uma

    outra muito anterior, a cultura clssica, que valorizava o homem e a cincia.3

    A exegese dos humanistas em procurar nos textos antigos as referncias clssicas est

    diretamente relacionada com a falta de livros durante a Idade Mdia. No que tange

    arquitetura, do perodo medieval, sobreviveram apenas uma coleo de desenhos e uns poucos

    manuscritos feitos pelo matre-maon Villard de Honnecourt, que viveu no sculo XIII, e o

    manuscrito de Slestad4, datado do dcimo sculo. Marcel Aubert menciona sobre a obra do

    1 ROSSI, Paolo. Os filsofos e as mquinas. So Paulo: Companhia das Letras, 1989. p.30. 2 Os studia humanitatis possuam dois currculos, o trivium e o quadrivium. No trivium estavam as disciplinas de gramtica, retrica e dialtica. No quadrivium estavam as disciplinas de aritmtica, geometria, msica e astronomia. Contudo, eram acrescentadas histria, filosofia, poesia e poltica. 3 H subsdios para considerarmos que o processo dialtico da histria tende a transformar senhor em escravo e vice-versa. Esta apenas uma observao que considero pertinente. Para tal escopo ver o captulo Dominao e Escravido. HEGEL, Georg W.F. Fenomenologia do Esprito. Petrpolis: Editora Vozes, 2000. 4 Codice di Slestad. Biblioteca Municipal de Slestad. Referncia em: CARPO, Mario. Architettura dellEt della Stampa. Milano: Jaca Book, 1998. p. 158.

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    autor medieval que, impropriamente chamado lbum de Villard, no se comparava a um

    tratado de arquitetura1.

    Imagem 1. Villard de Honnecourt. Bibliothque Nationale de Paris. Folio 10. Torre de uma Catedral.

    Imagem 2. Villard de Honnecourt. Bibliothque Nationale de Paris. Folio 20. Construes Geomtricas.

    Sabemos que neste perodo, o conhecimento era transmitido oralmente, de mestre para

    aprendiz, ou absorvido pela imitao e observao prtica. Sobre este processo de educao

    no medievo, Maurice Vieux escreve que de companheiro a aprendiz, de mestre a discpulo,

    eis a escola tcnica na qual os mestres de obra e seus sucessores aprendem o seu ofcio, os

    seus processos2. A difuso da imprensa transformou o conhecimento em uma novidade

    transmissvel atravs de livros. A difuso do conhecimento era facilitada e dava aos

    aprendizes a possibilidade de ascender profissionalmente. Em outro momento Vieux

    menciona que:

    O prprio conceito do manual escrito e impresso, como elemento de

    difuso da cincia aplicada arte edificatria, era uma novidade

    renascentista, pois, na tradio dos mestres-de-obras medievais, o

    1 AUBERT, Marcel. O gtico no seu apogeu. Lisboa: Verbo, 1983. p.19. 2 VIEUX, Maurice. Os segredos dos construtores. Rio de Janeiro: Difel, 1977. p.117.

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    conhecimento era ciosamente preservado, devendo ser transmitido

    somente aos discpulos de confiana. Como j vimos, o dever do sigilo

    fazia parte da condio de membro da corporao de ofcio, como

    forma, inclusive, de preservar um certo monoplio sobre o mercado de

    trabalho.1

    Como foi mencionado anteriormente, Veneza e Florena tiveram grande importncia no

    desenvolvimento cultural do Renascimento. A prpria noo de historiografia renasce em

    Florena, que se torna o centro de surgimento e desenvolvimento de artistas nos sculos XIV

    e XV. Jacob Burckhardt afirma que:

    A mais elevada conscincia poltica, a maior riqueza em mobilidades

    de desenvolvimento humano encontram-se reunidas na histria de

    Florena, que, nesse sentido, por certo merece o ttulo de primeiro

    Estado Moderno do Mundo.2

    A cultura de se construir a partir de uma tradio oral foi interpretada por Krautheimer como

    um reflexo da cultura crist medieval3. Segundo Elvan Silva, a Idade Mdia desconheceu uma

    tradio literria na rbita do discurso terico da arquitetura4. O fato que quando se

    redescobriu uma cpia do tratado de Vitrvio:

    ... os homens interessados pela arquitetura no estavam preparados

    para enfrentar nem a difcil tarefa de traduzir para termos modernos

    uma linguageme uma profisso esquecidas, nem uma esttica

    arquitetnica baseada, em grande parte, em um modelo, uma tcnica e

    um sistema de desenho ornamental que lhes eram desconhecidos.5

    Com a posterior difuso do De Re Aedificatoria, de Leon Battista Alberti, a tradio medieval

    de construo baseada no conhecimento oral se transformou. A difuso dos livros possibilitou

    uma at ento desconhecida forma de transmisso do conhecimento. Contudo, estes fatos por 1 VIEUX, Maurice. Ibidem. p.121. 2 BURCKHARDT, Jacob Christoph. A Cultura do Renascimento na Itlia. So Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.71. Fundador da Histria Cultural, este autor escreveu A Cultura do Renascimento na Itlia e A Arquitetura do Renascimento, dentre outros livros, no sculo XIX. 3 KRAUTHEIMER, Richard. Introduction to an Iconography of Medieval Architecture. Jounal of the Warburg and Courtauldt Institutes, V, 1942, p. 1-33. 4 SILVA, Elvan. O Imaginrio do Ofcio na Arquitetura. Tese de Doutorado. Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Cincias Humanas da UFRGS. Porto Alegre, 2005. p. 224. 5 WIEBENSON, Dora. Los Tratados de Arquitectura. Madrid: Hermann Blume, 1988. p.11.

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    si ss, no justificam um grupo to vasto de gnios como houve na Itlia do Renascimento.

    Desde ento, esta questo intriga historiadores e socilogos. Leonardo Bruni, humanista do

    perodo, achava que a resposta estava na atuao poltica do Estado Florentino. Outros

    especialistas acham que o comrcio e o desenvolvimento atuam na produo cultural. De uma

    forma ou de outra, o importante foi o esprito crtico que surgiu nos primeiros humanistas, a

    inquietao frente aos escolsticos e o amor ao conhecimento.

    O Renascimento foi um perodo particularmente favorvel para a maior identificao do

    Homem como referncia espiritual para si mesmo, devido s reflexes filosficas que

    antecederam o sculo XIV, ou seja, que evoluram deste a Idade Mdia. O ideal do

    antropocentrismo, que estava adormecido, ressurgiu, e favoreceu o surgimento das artes que

    expressavam mais claramente a relao entre homem e natureza e, conseqentemente, entre

    homem e sociedade1. Hegel2 defendeu que a conscincia que transforma a vida, ou seja, a

    vida social teocrtica medieval fez surgir o Renascimento dentro de uma perspectiva

    revolucionria, onde o homem se reconhece como conscincia autnoma, tornando-se

    referncia para si mesmo. Senhor do saber, o clero fez surgir, com a sua dominao, os

    humanistas, que estavam determinados a superarem seus senhores e produzirem, em seus

    prprios objetos, o reconhecimento de si mesmo.

    O renascimento das tradies clssicas foi favorecido por fatores culturais e econmicos. As

    cidades de Veneza e Florena, principalmente, deram condies aos artistas de produzirem

    suas obras financiadas pelos condes, prncipes, burgueses e at mesmo pela prpria Igreja.

    Mas antes deste florescimento, necessrio fazer certas consideraes sobre a influncia da

    perspectiva e da pintura nas transformaes tcnicas e cientficas no Renascimento.

    Pintores e pedreiros eram profissionais reconhecidos e defendidos pelas suas guildas.

    Contudo, no havia guilda de arquitetos nem escolas de arquitetura. Para se praticar a

    construo eram convidados os mestres construtores ou, quando muito, artistas que haviam

    estudado e trabalhado em atelis ou academias. Como exemplo podemos citar Michelangelo

    que iniciou os estudos como aprendiz de Ghirlandaio e Palladio que, comeou a lavrar pedras

    em um canteiro. Neste crculo fechado, os mestres das artes que conhecemos hoje formaram-

    1 Karl Marx dedicou restrita ateno a este tema, reforando a idia de que a economia diretamente responsvel pela evoluo artstica. In: MARX, K.; ENGELS, F. A Ideologia Alem. So Paulo: Martins Fontes, 1998. 2 HEGEL, G.W.F. Filosofia da Histria. Parte 4. Neste trecho, o autor menciona que a evoluo da cincia e das artes est relacionada com a expanso espiritual da sociedade.

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    se como alunos de outros pintores e escultores. Dentre as importantes redescobertas deste

    perodo devemos mencionar a perspectiva como ferramenta de desenho.1

    A sociedade do Renascimento estava preparada para produzir uma arte que demonstrasse a

    terceira dimenso espacial, materializada atravs da perspectiva. Alis, o estudo da geometria

    era parte das disciplinas ensinadas pelos mestres aos seus alunos. Dentre os que contriburam

    na pintura, ressaltamos Giotto, que j no sculo XIV iniciou a renovao nos planos e fundos

    de seus trabalhos. Masaccio e Donatello no sculo XV deram a Brunelleschi2 as ferramentas

    necessrias para construir o domo da Catedral de Santa Maria dei Fiori, em Florena. No

    campo da arquitetura, pode-se mencionar o esforo de Brunelleschi na emancipao do

    magister operis medieval, em verdadeiro architector renascentista. A cpula projetada,

    com o dimetro de quarenta e trs metros, tinha sua base a cerca de quarenta metros acima do

    piso, situao para a qual os construtores da poca no tinham soluo. A partir de ento, foi

    concebido um processo construtivo revolucionrio, que dispensava o cimbramento, o que

    possibilitou a concluso da obra em 14643. Neste momento, inicia-se a grande revoluo da

    arquitetura do Renascimento.

    A mudana cultural deste procedimento foi sentida em pouco tempo. A tcnica, produto de

    um procedimento intelectual, fortaleceu a imagem do arquiteto como o profissional capaz

    de resolver problemas construtivos nunca antes imaginados. Sobre esta construo, Elvan

    Silva menciona que:

    O notvel na faanha desse ourives florentino o fato que seu

    processo foi concebido inteiramente no plano intelectual, como um

    projeto que se elabora primeiro na mente para depois passar para o

    papel e da para o canteiro. Ao que consta, pela primeira vez na

    histria se trata de resolver um complexo problema construtivo sem a

    adoo do empirismo medieval, baseado no mtodo da tentativa-erro-

    tentativa.4

    1 A perspectiva, j conhecida deste a Grcia antiga, foi usada na arquitetura do Renascimento por vrios artistas, dentre eles o mais famoso Filippo Brunelleschi, que menciona esta ferramenta como operazione geometrica. 2 Filippo Brunelleschi (1377-1446) era ourives de profisso. Foi o vencedor do concurso pblico para a concluso da catedral de Santa Maria del Fiori, que se arrastava desde o sculo XIII. 3 Delumeau registra que os florentinos viram com espanto e no sem inquietao () a grandiosa cpula erguer-se sem um andaime exterior, sem contrafortes e sem arcobotantes. DELUMEAU, Jean. A Civilizao do Renascimento. Lisboa: Editora Estampa, 1984. Vol. 2. p.162. 4 SILVA, Elvan. Ibidem. p. 245.

    30

  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    Juntamente com Brunelleschi, Leon Battista Alberti contribuiu decicivamente para estas

    transformaes. O tratado de arquitetura de Alberti, o De Re Aedificatoria, foi o primeiro

    marco da tratadstica do Renascimento. Esta obra tornou-se o mais importante manual tcnico

    e filosfico da arquitetura do sculo XV. Tanto Alberti quanto Brunelleschi contriburam para

    a conceituao da arquitetura como cincia. Mas h diferenas entre estes dois gnios. Alberti

    estabeleceu uma diferena em relao quele papel exercido por Filippo Brunelleschi,

    pioneiro inconteste da arquitetura renascentista, que comandava in loco as operaes de

    construo da cpula da catedral de Florena. A sociedade renascentista viveu uma

    transformao intensa em apenas um sculo, se compararmos aos dez sculos passados desde

    a Idade Mdia, transformando sua apreenso de si mesma. O arquiteto surgiu como uma nova

    profisso em alta qualificao social. A educao, em conseqncia, transformou-se

    rapidamente.

    Em menos de 100 anos, a Itlia transformou-se no bero cultural do mundo ocidental. Com

    toda esta efervescncia, o redescobrimento de Plato e Aristteles confirmou o que os

    humanistas tanto desejavam: o papel fundamental do arquiteto como pensador de uma

    sociedade, fundindo todas as variveis contidas para o funcionamento harmnico de uma

    cidade. Plato, por exemplo, menciona que:

    ... as artes ou as cincias que se relacionam com a arquitetura ou com

    qualquer outra forma de construo manual, esto ligadas

    originalmente ao e seu concurso cincia faz com que sejam

    produzidos corpos que antes no existiam.1

    O termo arkhitekhton, em Plato e Aristteles, designa, por oposio ao operrio ou ao

    arteso que executa o trabalho, o profissional que dirige os trabalhos do alto: sua atividade

    intelectual, essencialmente matemtica. Para Aristteles, o arquiteto mais sbio que o

    trabalhador manual. Na sua Metafsica, Aristteles diz que o homem de experincia parece ser

    superior ao possuidor de conhecimentos sensveis, o artista ao homem de experincia, o

    arquiteto ao artfice, e as cincias tericas s cincias prticas2.

    1 PLATO. Dilogos. Porto Alegre: Globo, 1961. p.271 2 ARISTTELES. Metafsica. Madrid: Gredos, 1987. p.7.

    31

  • Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Urbano MDU/UFPE

    A cultura grega e romana antiga no via na arquitetura uma cincia especulativa. A

    arkhitektonike techne1, isto , o ofcio arquitetnico ou ofcio do arquiteto, era reconhecido

    como uma cincia que podia, inclusive, ser transmissvel. Sobre o conceito de arkhitekhton

    referido por Aristteles e Plato, Vernant diz que:

    Possuindo os elementos de um saber terico, ele pode transmiti-lo por

    um ensinamento de carter racional, muito diferente da aprendizagem

    prtica. Tal como em medicina, o verdadeiro iatros distingue-se do

    prtico comum por seu conhecimento da natureza e das causas gerais

    das doenas, o arkhitekhton, no mbito da sua atividade (...), apoia-se

    em uma techne que se apresenta sob a forma de uma teoria mais ou

    menos sistemtica.2

    Foi este o modelo que seguiram os humanistas do Renascimento, na tentativa de tornar a

    arquitetura e as outras artes, uma cincia transmissvel. Neste caminho, ao serem

    redescobertos e difundidos, os textos antigos evidenciaram o espelho clssico aos olhos da

    Idade Moderna. A arquitetura renasceu com princpios clssicos. Os textos antigos foram

    difundidos pela imprensa. Uma nova sociedade requisita, necessariamene, uma inovao na

    maneira de representar-se. neste sentido que a tcnica da perspectiva pode ser entendida

    como uma ferramenta de materializao dos anseios sociais. A revoluo artstica causada

    pela perspectiva foi, em verdade, o reflexo da mudana de percepo da realidade pela

    sociedade.

    1 O termo arkhitektonike techne ( ) traduzvel como arte do mestre-carpinteiro ou tcnica do mestre-carpinteiro. SILVA, Elvan. Ibidem. p. 220. 2 VERNANT, Jean Pierre. Mito e pensamento entre os gregos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. p.288.

    32

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    1.2. O Renascimento da Cultura Clssica Greco-Romana.

    Imagina que algum expe por escrito as regras da sua arte e um outro aceita o livro como sendo a expresso de uma doutrina clara e profunda; esse homem seria um tolo, pois no entendendo a advertncia proftica de mon, atribuiria a teorias no escritas mais valor do que o de um simples lembrete do assunto tratado. Uma vez escrito, o discurso sai a vagar por toda parte, no s entre os conhecedores mas tambm entre os que no entendem, e nunca se pode dizer para quem serve e para quem no serve.

    Plato

    O estudo dos autores gregos e latinos antigos reforou a idia de se retornar a uma tradio

    mais antiga que a medieval. Petrarca, um dos maiores nomes da cultura formadora do

    Renascimento, conceituou a Idade Mdia como tempos obscuros, exaltando uma admirao

    romntica pela Antiguidade romana e grega. Iniciou-se uma grande valorizao da cultura

    antiga e uma tendncia ao esquecimento da cultura medieval. De fato, poucos autores

    medievais foram cultuados pelos humanistas e, ao contrrio, muitos autores gregos e romanos

    estiveram cada vez mais presentes nas bibliotecas dos palcios, dos duques, dos prncipes e

    das prprias escolas.

    A essncia do Renascimento estava na viso humana do mundo. A filosofia retomou o estudo

    dos gregos antigos, onde a tica e os problemas da alma humana eram os temas centrais. As

    artes, de um modo geral, no tratavam mais de divindades, mas do ser humano, do corpo

    humano, dos problemas cotidianos e da paisagem real. Em todos estes temas, a perspectiva

    era a materializao de uma nova forma de apreenso da realidade. Neste sentido, Delumeau

    menciona que:

    Abandonando gradualmente os caminhos do idealismo, os artistas

    abriam os olhos para a realidade cotidiana, tomavam dela a medida e

    da a busca da perspectiva , interessavam-se pelo homem, pelo seu

    corpo, pala sua face mesmo quando feia , descobriam a paisagem.

    Estava nisso um aspecto essencial do Renascimento.1

    Neste contexto h ainda trs consideraes a serem feitas. Primeiro que a Antiguidade

    clssica nunca foi esquecida. Segundo, que mesmo em obras religiosas o homem se tornou

    centro e objeto de reflexo. Terceiro, e fundamentalmente importante, a contribuio que a

    1 DELUMEAU, Jean. A Civilizao do Renascimento. Lisboa: Editora Estampa, 1984. Vol. 2. p.92.

    33

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    arqueologia deu ao renascimento da cultura clssica. Neste perodo, as escavaes revelaram

    sociedade teatros, baslicas, anfiteatros, residncias e esculturas romanas.1

    Obviamente, a publicao de livros da Antiguidade foi de enorme influncia na adoo de

    uma linguagemclssica nas artes de modo geral. Para a civilizao do Renascimento, que

    buscava a erudio cientfica do saber, na teoria e na prtica, a base epistemolgica fornecida

    pelos textos antigos e, no campo da arquitetura pelo texto vitruviano, foi de incalculvel

    contribuio. Estas transformaes culturais, alm de preservarem um puro assentamento do

    desenvolvimento terico da arquitetura da Antigidade greco-romana, proporcionaram

    arquitetura as condies de se tornar um conhecimento erudito similar s studia humanitatis.

    Ressaltamos a observao de Delumeau2 no que se refere ao aspecto essencial do

    Renascimento: a valorizao do mundo clssico, com a conseqente exaltao do ser humano

    e da natureza. O renascimento da cultura clssica greco-romana, centro da ideologia dos

    humanistas, est diretamente relacionado com o redescobrimento da literatura antiga. Deste

    modo, a percepo dos humanistas estava tambm pautada na cultura social do perodo

    clssico. De modo unvoco, o Renascimento foi uma reinterpretao do perodo clssico, e

    ambos refletiam um mesmo anseio cultural3. H ainda, duas questes a serem mencionadas

    sobre o processo de releitura da cultura clssica. O financiamento de tradues dos textos

    antigos e sua disseminao e a influncia dos humanistas, em especial, de Leon Battista

    Alberti, j que foi ele quem teorizou o status do artista do Renascimento, como um uomo

    universalis, e fundou a tradio tratadstica a partir de ento. Segundo o historiador John Hale,

    Alberti escapa a qualquer classificao rgida: pensador humanista,

    cientista natural, matemtico, arquiteto, criptgrafo, pioneiro do

    vernculo italiano e autor de pastiches latinos, ele tambm transformou

    a teoria e a prtica das artes visuais com seus tratados sobre pintura e

    arquitetura.4

    1 Roma Instaurata: Obra escrita por Biondo da Forli, que foi publicada em 1447. Roma Triumphans: Obra escrita por Biondo da Forli e publicada em 1482. Este segundo livro de Forli um estudo descritivo das reformas urbanas e das descobertas arqueolgicas na Roma do Sculo XV. 2 DELUMEAU, Jean. Ibidem. p.162. 3 Vitrvio foi, no Renascimento, o objeto de referncia dos tratadistas e arquitetos eruditos, na mesma medida em que Palladio foi, na modernidade arquitetnica, o espelho para Le Corbusier e outros modernistas clssicos. 4 HALE, John. Dicionrio do Renascimento Italiano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. p.19.

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    A liberdade e o respeito do artista era uma afirmao de seu valor social. A cultura literria

    estava diretamente relacionada com esta emancipao. A erudio da arte e da arquitetura foi

    cada vez mais concretizada ao longo do Renascimento. Alberti elevou o artista a um novo

    degrau. A imprensa e a disseminao dos livros no teriam tido o mesmo impacto sem a

    devida erudio atingida pelos artistas. A produo literria de Alberti foi de significativa

    importncia para as transformaes culturais no sculo XV, incluindo a adoo dos modelos

    da antiguidade, mais que outras produes de campos diferenciados do conhecimento. Esta

    concluso confirmada por Albert Labarre quando escreve que:

    Os primeiros textos impressos provam que a descoberta de Guttenberg

    foi um acontecimento medieval; no sculo XV, trs quartos

    permanecem em latim, e a metade depende da esfera religiosa...

    Prestou maior servio aos tcnicos publicando, por exemplo, os

    tratados de arquitetura de Alberti e as obras de arte militar de

    Valtrio1.

    mister mencionarmos que dentre todos os campos do conhecimento, a arte e arquitetura

    tiveram um papel preponderante. Deste mesmo modo, os redescobrimentos arqueolgicos e

    literrios, a mudana cultural na forma como a sociedade se reconhecia e a capacidade

    intelectual dos artistas, so condicionantes que tornaram a produo impressa de arte e

    arquitetura, uma dominante nos sculos XV e XVI. Manfredo Tafuri, num dos seus estudos

    sobre o perodo do Renascimento, menciona que:

    O florescimento de uma vasta produo terica no sculo XV est

    relacionado com as prprias bases sobre as quais se apia a hiptese

    classicista. Assumir o papel do intelectual significava, na realidade,

    para o artista do 400 e do 500, no apenas reivindicar uma nova

    dignidade pessoal, como tambm, e principalmente, reconhecer na arte

    um valor propulsor e ativo no seio das perspectivas oferecidas pelas

    novas classes no poder, traduzindo em programas ideolgicos as mais

    progressivas instncias.2

    1 LABARRE, Albert. Histria do Livro. So Paulo: Editora Cultrix, 1981. p.60. 2 TAFURI, Manfredo. La Arquitectura del Humanismo. Madrid: Xarait, 1978. p.120. Traduo Nossa.

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    O Renascimento da literatura e, de modo geral, da produo bibliogrfica no norte da Itlia

    neste perodo foi enorme. Humanistas foram pessoalmente a Grcia e a Constantinopla para

    estudarem grego e trazerem textos desconhecidos no ocidente. Autores eram financiados para

    vasculharem as bibliotecas antigas e recuperarem os textos de uma poca urea da

    Antiguidade clssica. Guarino da Verona, por exemplo, retornou ao Veneto com 54

    manuscritos que incluam Plato e Aristteles1. relevante mencionar que em 1453 os turcos

    invadiram Constantinopla, o que favoreceu a imigrao de muitos eruditos para a Itlia

    Renascentista no sculo XV.

    os Mdici de Florena e os Sforza de Milo esto entre os grandes financiadores de muitas

    destas aventuras em busca do saber. Cosimo de Medici (1389-1464), por exemplo, financiava

    as artes por admirao e entusiasmo. Ele prprio era um erudito famoso, encomendando

    tradues por Marslio Ficino, Poggio Bracciolini e Vespasiano da Bisticci. H ainda outros

    financiadores como Federigo da Montefeltro, Francesco Gonzaga, Lorenzo de Medici, neto de

    Cosimo e os prprios papas Clemente VII e Leo X, todos estes, apenas no sculo XV.

    Graas aos financiamentos destes patriarcas surgiram obras como Il Principe e Il

    Cortegiano2. Esta misso do humanismo em recuperar os escritos antigos estava associada

    ao reconhecimento de uma civilizao em que a cultura expressou suas verdadeiras

    excelncias: Roma. Deste modo, o humanismo no foi apenas um movimento que

    reinterpretou valores culturais e filosficos sepultados, mas uma ideologia artstica, esttica e

    intelectual que pretendia reativar algo adormecido: a renovatio humanitas. A difuso dos

    textos clssicos era apenas mais uma arma na luta a favor de uma nova esttica. Nestes

    termos, Georges Duby comenta que:

    No passado, todo renascimento tinha como objetivo restaurar, arrancar

    a inelutvel deteriorao, para devolver-lhes o brilho primitivo, obras

    que se julgavam admirveis porque eram a herana de uma era anterior

    e, por isso, melhor; renovar era uma exumao. Doravante, todo o

    renascimento foi tido como generativo.3

    1 Dito em: BURKE, Peter. Uma Histria Social do Conhecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2003. 2 O Prncipe foi escrito por Niccol Machiavelli (1469-1527) e publicado em 1513. O Corteso foi escrito por Baldassare Castiglione (1478-1529) e publicado em 1528. 3 DUBY, Georges. O tempo das catedrais. Lisboa: Estampa, 1979. p.148.

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    1.3. Antropocentrismo e Humanismo.

    O artista deve imitar no o trabalho de outros artistas, mas a prpria natureza.

    Plnio

    O antropocentrismo do Renascimento se funde com o humanismo. Nas palavras de Raymond

    Bayer, Alberti, precursor de Leonardo, o primeiro terico do classicismo1. A contribuio

    de Alberti marcou a transio da histria, inaugurando um novo movimento revolucionrio

    que se ope ao ideal medieval teocntrico. A nova palavra de ordem cantada pelos humanistas

    foi progresso. A cincia era o caminho deste progresso e, a nova esttica que deveria surgir

    era a esttica da perfeio. O humanismo tornou-se o primeiro intrprete de um racionalismo

    cujo gnio identifica o belo e o perfeito no ser humano.

    O termo humanismo vem de humanitas, que significa etimologicamente a educao do

    homem de acordo com a verdade humana, com o seu autntico ser. Esta idia ao longo do

    Renascimento variou, mas manteve sua identidade prpria, considerando o universal acima do

    individual2. Inspirando-se nesta ideologia, artistas, poetas, filsofos e arquitetos tratadistas

    invocavam cada vez mais o ser humano como referncia para sua prpria evoluo. Alm

    disso, o ressurgimento da literatura antiga clssica revelou que a cultura da Antiguidade

    valorizava cada vez mais o corpo humano enquanto referncia.

    Muitos autores se referem produo artstica e arquitetnica deste perodo como sendo

    humanstica. Scott e Wittkower, por exemplo, assumem uma correlao ntima entre o sistema

    artstico e filosfico e a representao arquitetnica do perodo. Claro que o termo

    humanismo foi, desde ento, empregado com diversos sentidos, principalmente pelas

    cincias sociais. O importante entendermos que o humanismo significou muito mais que

    um movimento. Ele representou uma ideologia social, caracterizada por uma fora tica de

    valorizao do ser humano, da sua capacidade criativa, de sua inteligncia e de sua

    capacidade de transformar o mundo. Mas esta nova conscincia significou mais que uma

    concepo antropocntrica do universo. Rosa Maria Letts escreveu que o antropocentrismo

    foi: 1 BAYER, Raymond. Histria de la esttica. Mxico: Fondo de Cultura Econmica, 1965. p.105. 2 Apesar de o humanismo valorizar o universal mais que o individual, estes dois termos no tm sentido oposto. O crescente individualismo que surgiu ao longo dos sculos XV e XVI foi justificado pelo desenvolvimento cientfico atingido neste perodo. A criao de idias, mesmo sendo de carter universal, gera a preponderncia e os conflitos. neste aspecto que merece ateno a interpretao de Friedrich Nietzsche e seu bermensch (super-homem). Vontade e poder, vontade de poder: Wille zur Macht.

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    ... o desenvolvimento metafsico de um conceito ideal de que o homem

    no um elemento marginal no concerto da existncia. No h

    humanismo seno como desdobramento de uma metafsica em que o

    homem se atribui um papel, que no necessariamente central ou

    exclusivo.1

    H muitas razes para imaginarmos que o humanismo foi muito mais que uma ideologia

    filosfica, arquitetnica ou artstica. A valorizao do ser humano e o cuidado com a

    ideologia inumana, defendida pelo mundo teocntrico, est no cerne do humanismo. Como

    mencionou Martin, o humanismo representou uma ideologia que realiza uma funo muito

    determinada na luta pela emancipao e a conquista do poder pela camada social burguesa em

    progresso ascendente.2

    Esta ideologia mais humanizada de uma sociedade no nica ou nova3. A noo evoluiu

    juntamente com a sociedade, atingindo um conceito tico e poltico que se fortaleceu nas

    obras de Ccero, tornando-se referncia para os humanistas do Renascimento. O amor dos

    deuses pelos homens, perpassa pelo amor dos soberanos pelos sditos e chega ao amor do

    homem pelo bem do homem, pelo bem social. Neste sentido, os humanistas do Renascimento,

    capazes de traduzir os textos originais sem submisso ao pensamento e interpretao da

    igreja, reabilitaram o sentido do termo para valorizao do ser humano. Como mencionou

    Terncio: Sou Homem: no considero nada disso que humano como uma coisa que no me

    possa tocar4. Deste modo, foi de fundamental importncia para a revalorizao do ser

    humano, a difuso dos textos antigos. Esta ressurreio constante do valor humano foi

    provocada pela lenta, porm, persistente difuso da literatura da Antiguidade pag por

    filsofos, fillogos, poetas e estudiosos dos sculos XIV e XV.5

    O humanismo foi novamente entendido como um ideal em que a tica social conduziria a uma

    esttica do homem. Concretamente, o antropocentrismo do Renascimento foi uma ideologia

    social, materializada pelos artistas, filsofos e poetas ao longo dos sculos XV e XVI. De

    forma nenhuma podemos separar o humanismo da vida cotidiana, imaginando que este tenha

    1 LETTS, Rosa Maria. O Renascimento. Rio de Janeiro. Zahar, 1984. p.7. 2 MARTIN, Alfred Von. New York: The Sociology of the Renaissance, 1963. p.46. 3 Os gregos no perodo helenstico tinham j um conceito semelhante, o de philantropia - este termo surge inicialmente no Prometeu de squilo -, que naquele perodo significava o amor dos deuses pelo homem. 4 TERNCIO. Il Punitore di se Stesso. Texto original: Homo sum: Cogito et humani nihil a me alienum puto. Traduo Nossa. 5 SILVA, Elvan. A Forma e a Frmula. Sagra, Porto Alegre, 1991. p.81.

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    sido um movimento restrito camada mais erudita ou mais rica. A estrutura social foi a

    maior responsvel pelas transformaes ocorridas no Renascimento.

    Deve-se salientar ainda que o humanismo no contribusse diretamente para o

    desenvolvimento cientfico da poca, mas serviu de base para a superao da viso medieval

    de mundo, pois o foco dos humanistas era a Antiguidade. O individualismo que, no

    Renascimento, atingiu seu pice no sculo XVI, foi, por outro lado, o grande incentivador do

    progresso cientfico. O surgimento das engenharias militares e de mquinas estava

    relacionada s fortificaes e invases ocorridas a partir da primeira metade do sculo XVI.

    Como nos confirma Albert Labarre:

    O humanismo exerceu uma ao menor no domnio cientfico, porque

    a sua ligao com os autores antigos dificultava o progresso da

    pesquisa; a imprensa do sculo XVI no contribuiu tanto para

    favorecer os conhecimentos novos como para consolidar antigos

    preconceitos vulgarizando noes adquiridas.1

    A respeito do individualismo, produto de um aperfeioamento do conhecimento, podemos

    mencionar que foi o grande criador de um egosmo positivo. Este egosmo do

    Renascimento era um egosmo de criao. O individualismo no Renascimento, exaltado por

    Burckhardt no sculo XIX,

    No estava orientado meramente para a particularidade do ser humano

    individual, mas primeiramente e acima de tudo para o seu trabalho. O

    trabalho em causa era, no entanto, o trabalho de um indivduo e o seu

    xito inseparvel do xito do indivduo.2

    No incio do sculo XV, o homem tomou conscincia de si mesmo atravs do trabalho que

    executava, tornando-se, cada vez mais, consciente das questes sociais e da dependncia que

    seus governantes tinham da prpria sociedade. O senhor se tornou cada vez mais escravo,

    como afirmou Georg Hegel3. A relao entre sociedade e ideologia explica o florescimento do

    humanismo. A viso crist medieval foi superada, tendo em vista as necessidades sociais por

    tanto tempo reprimidas. Era natural que a sociedade aspirasse melhoria das prprias

    1 LABARRE, Albert. Histria do livro. So Paulo: Cultrix, 1981. p.64. 2 HELLER, Agnes. O homem do Renascimento. Lisboa: Presena, 1982. p.165. 3 HEGEL, Georg W.F. Fenomenologia do Esprito. Petrpolis: Editora Vozes, 2000. Parte I-IV.

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    condies de existncia. Estas necessidades surgiram, inicialmente, na imaginao coletiva.

    Neste sentido, Abercrombie escreveu que:

    Todas as crenas, cientficas e ideolgicas, so causadas ou

    determinadas socialmente; no possvel identificar uma crena ou

    conjunto de crenas que no surja e sobreviva como resultado de uma

    determinao social.1

    O antropocentrismo redescoberto no Renascimento nunca esteve perdido, mesmo ao longo

    dos sculos da Idade Mdia. As bibliotecas dos mosteiros sempre mantiveram guardadas as

    chaves da liberdade de conscincia de todos os fiis. O senhor sempre possua as armas que

    iriam libertar o escravo. Este fato talvez possa explicar o sigilo que existiu durante tanto

    tempo em torno dos textos da Antiguidade.

    Deve-se salientar que o antropocentrismo foi uma ideologia que no se restringiu literatura

    ou s artes. Ele fez uso da sabedoria dos textos antigos para redescobrir a referncia

    necessria para a sociedade. Conhecer as fontes de exaltao do ser humano era a chave do

    progresso social. Neste contexto, o redescobrimento do texto vitruviano deu arquitetura as

    ferramentas para se criar os princpios de uma arquitetura humanstica, em que o ser humano

    seria, mais uma vez, a referncia.

    De fato, sem o exaustivo trabalho para a exegese dos textos antigos pelos humanistas, no se

    poderia falar dos princpios arquitetnicos do Renascimento, ou do humanismo. A ideologia

    social do sculo XV e XVI, ou seja, o antropocentrismo renascentista, pretendia criar uma

    nova sociedade, reinterpretando valores antigos, tornando o homem, novamente, a referncia

    para si mesmo.

    1 ABERCROMBIE, Nicholas, HILL, Stephen & TURNER, Bryan S. La tesis de la ideologa dominante. Mxico: Siglo Veinteuno, 1987. p.217. Traduo Nossa.

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    1.4. Os Princpios Arquitetnicos do Renascimento. As categorias do pensamento humano nunca so fixadas de forma definitiva; elas se fazem, desfazem e refazem incessantemente: mudam com o lugar e com o tempo.

    mile Durkheim

    A linguagem arquitetnica do Renascimento evoluiu junto com a viso esttica da sociedade.

    Neste caminho, os tratadistas do Renascimento citaram enfaticamente Vitrvio como sendo o

    livro referncia para o estudo da histria da teoria da arquitetura, bem como a base

    epistemolgica para conceituao dos princpios arquitetnicos que viriam a ser

    aperfeioados. Como mencionou Elvan, a viso de Vitrvio da arquitetura como imitao da

    natureza, que implicava a observncia de princpios racionais no sentido que ento se dava

    ao termo seria endossada por Alberti e por outros tericos posteriores. Mesmo que o

    conceito de imitao da natureza, e da prpria natureza, no se enuncie de modo claro na

    arquitetura de ento, a tese era atraente, pois tem um substrato filosfico bastante difundido

    entre os humanistas dos sculos XIV em diante.1

    Outro fator de fortalecimento da teoria da arquitetura, alm dos financiamentos para tradues

    dos textos antigos e criao de novos livros, foi a conceituao da profisso, feita por Alberti.

    Para este erudito, o desenho a ferramenta fundamental que est em seu domnio,

    considerando omnia materia exclusa, ou seja, abstraindo toda a matria. A arte e,

    conseqentemente, a arquitetura tornaram-se cincia durante o Renascimento, incorporando a

    viso humanista do mundo, tomando o ser humano como referncia para a cincia e

    afastando-se da cultura medieval2. O magister operis medieval estava definitivamente

    separado do artista intelectual da Renascena. O ponto fundamental reconhecer que Alberti

    converteu a ars aedificandi em uma cincia pragmtica, coordenada pela razo e pela lgica

    cientfica, do mesmo modo como se tentava fazer com temas filosficos, jurdicos ou

    teolgicos. Uma ao que resultou na transposio qualitativa perceptvel na anlise histrica.

    A arte de ento foi responsvel pela mudana do gosto esttico social e este colaborou para a

    afirmao de princpios estticos na arquitetura. Esta arte demonstrava a perfeio do homem,

    baseada nas medidas perfeitas, nas medidas divinas, manifestadas atravs das leis da cincia:

    1 SILVA, Elvan. O Imaginrio do Ofcio na Arquitetura. Tese de Doutorado. Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Cincias Humanas da UFRGS. Porto Alegre, 2005. p.230. 2 At hoje, pode-se dizer que o arquiteto se reconhece como um homem culto e detentor de um conhecimento alm do superficial.

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  • Programa de Ps-Graduao em Desenvolvimento Urbano MDU/UFPE

    da matemtica e da geometria. Como fundamento maior desta cincia estava o nmero de

    ouro , que traria luz uma relao entre o divino e o humano.

    Imagem 3. Leonardo da Vinci. O Homem Vitruviano. A proporo das partes igual ao nmero de ouro ().

    Apesar da dificuldade em sintetizar os princpios arquitetnicos do Renascimento, possvel

    entend-los como uma viso esttica social, baseada em conceitos matemticos e geomtricos

    que tm como objetivo demonstrar a racionalidade artstica1. Contudo, autores como Geoffrey

    Scott2, por exemplo, criticam a arquitetura do Renascimento como sendo uma arquitetura de

    formas. Num primeiro momento ele menciona que:

    O Renascimento no criou nenhuma teoria da arquitetura. Produziu

    tratados sobre arquitetura: Fra Giocondo, Alberti, Palladio, Serlio, e

    muitos outros, construram e escreveram obras. Porm o estilo que

    elaboraram era demasiado vivo para admitir uma anlise, demasiado

    popular para requerer defesa. Deram-nos regras, mas no princpios. 1 ABREU E LIMA, Fellipe de Andrade. Estudo dos Conceitos de Ordem e Relao, Esttica Pitagrica e Frmula nas Tratadsticas de Leon Battista Alberti e Andrea Palladio. Trabalho Final de Graduao, UFPE/CAC/DAU. Recife, 2004. Consideramos dois autores como fundamentais para compreenso deste tema. WITTKOWER, Rudolf. Arquitectural Principles in the Age of Humanism. SILVA, Elvan. A Forma e a Frmula. 2 SCOTT, Geoffrey. Arquitectura del Humanismo. Barcelona: Barral, 1970. p.41. Traduo Nossa.

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  • Arquitetura e Cidade na Tratadstica do Renascimento Italiano Fellipe de Andrade Abreu e Lima

    No necessitavam de teoria por que se dirigiam ao gosto. Os perodos

    de incansvel produo, absortos no prtico e no concreto, no

    facilitam um pensamento de tipo universal.1

    A afirmao de que o Renascimento no produziu nem princpios arquitetnicos nem uma

    teoria prpria , hoje, completamente refutada por todos os especialistas. John Summerson,

    por exemplo, diz que:

    O tratado de Alberti, ainda que utilizando exaustivamente o texto de

    Vitrvio, uma obra muito original que formula os princpios da

    arquitetura luz da prpria filosofia do autor e de suas anlises de

    edifcios romanos.2

    A observao dos tratados da arquitetura do Renascimento faz perceber que havia princpios

    para nortear o processo projetual, pois, o antropocentrismo do Renascimento emergiu,

    tornando o homem a referncia para si mesmo. A sociedade perfeita, formada por homens

    perfeitos, deveria expressar uma arquitetura que espelhasse esta harmonia. Com a

    redescoberta do texto vitruviano que exaltava a natureza e o ser humano, os tratadistas do

    Renascimento tiveram nas runas romanas o contedo material para testar as propores e as

    medidas descritas por Vitrvio. Para esclarecer os princpios da arquitetura do Renascimento,

    deve-se ento, tomar por base as tratadsticas de Vitrvio e Alberti. Vitrvio foi a base

    epistemolgica para a teoria da arquitetura no Renascimento e Alberti foi o precursor desta

    teoria no sculo XIV. Ao longo do De Architectura Libri Decem, Vitrvio menciona que:

    A arquitetura depende da ordem (ordinatione), da simetria (eurythmia

    et symmetria et decore et distributione), da propriedade (dispositione),

    da economia e do ritmo.3

    A parte II do Livro I do tratado de Vitrvio influenciou enormemente os tratadistas do

    Renascimento, pois defendeu que existe uma diferena entre arquitetura e construo. Esta

    distino se apia, alm da emoo, na categoria da beleza, manifestada atravs de uma

    1 SCOTT, Geoffrey. Ibidem. p.41-42. Traduo e Grifo Nossos. 2 SUMMERSON, J. A linguagem Clssica da Arquitetura. So Paulo: Martins Fontes, 2002. p.150. Grifo Nosso. 3 Texto Original: Architectura autem constat ex ordinatione, quae graece dicitur, et ex dispositione, hanc autem Graeci vocitant, et eurythmia et symmetria et decore et distributione, quae graece dicitur (Vitrvio. Livro I, Parte II). Traduo Nossa. Os textos em Grego so includos no texto em latim, por Vitrvio.

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    harmonia universal que manifestada na natureza e no homem. O redescobrimento dos

    textos antigos1, anteriores mesmo ao prprio Vitrvio, que mencionam a harmonia existente

    no ser humano, foi esclarecedor para os tratadistas formularem novos princpios, ou melhor,

    criarem uma linguagemarquitetnica nova baseada em princpios eternos.

    Vitrvio via na natureza a fonte de inspirao para a arquitetura. Esta viso, baseada nas

    regras e propores da matemtica e da geometria euclidiana, foi adotada por Alberti e

    manifestou-se no seu tratado de arquitetura. Esta nova forma de difuso