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  • Anais do III Encontro de Pesquisas Histricas - PPGH/PUCRS.

    Porto Alegre, 2016. p.178-192. .

    ARTE SACRA EM PORTO ALEGRE:

    A OBRA DE JOO DO COUTO E SILVA

    SACRED ART IN PORTO ALEGRE: THE WORK OF JOO DO COUTO E SILVA

    Sofia Inda

    Bacharelanda em Histria da Arte pela UFRGS

    [email protected]

    RESUMO

    Este trabalho investiga a obra do entalhador e carpinteiro Joao do Couto e Silva (1826 1883). De origem

    portuguesa, chegou a Provncia de So Pedro na dcada de 1840 e foi responsvel pela talha de duas das igrejas

    mais antigas de Porto Alegre: Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora da Conceio, ambas do sculo XIX.

    Alm de se destacar pelos ornatos, flores, portas e tribunas esculpidas, Joo do Couto e Silva deixou entalhado

    seu nome, sob o piso do coro das duas igrejas, atestando, com isso, no apenas o orgulho de tal realizao, como

    uma nova condio de artista no ambiente local e, com ela, a concepo de autoria marcada por essa assinatura.

    A pesquisa apresenta o percurso deste entalhador e membro da Irmandade Nossa Senhora da Conceio. Por

    meio de testemunhos e documentos encontrados e arquivos da histria da cidade e das irmandades, esta

    investigao reconstitui parte da trajetria do artista, colaborando para a compreenso da histria da arte no

    sculo XIX, tomando como escopo a arte sacra.

    Palavras-chave: Joo do Couto e Silva. Arte Sacra. Arte luso-brasileira. Talha. Porto Alegre.

    ABSTRACT This paper investigates the work of the woodcarver and carpenter Joo do Couto e Silva (1826 1883). Born in

    Portugal, he came to the Provincia de So Pedro in the late 1840s and was responsible for the talha

    (woodcarving) existent in two of the oldest churches in Porto Alegre: Nossa Senhora das Dores and Nossa

    Senhora da Conceio, both of them built in the Nineteenth Century. In addition to the doors, ceiling medallions

    and tribunes that he carved, Joo do Couto e Silva engraved his own name under the chorus at both churches,

    that which evidences a sense of pride and also, a new condition for the local artist, thus, his signature acts as an

    indication of his authorship. The research presents the trajectory of this woodcarver, a member of Nossa Senhora

    da Conceio fellowship. By the meanings of testimonials and documents found at the citys historical archives,

    this investigation tries to reconstitute part of his life, aiming towards collaborating to expand Brazilian

    nineteenth century arts history studies, especially regarding sacred art.

    Keywords: Joo do Couto e Silva. Sacred Art. Luzo-Brazilian Art. Woodcarving. Porto Alegre.

    Introduo

    Joao do Couto e Silva foi um mestre de obras e entalhador portugus que realizou

    trabalhos em duas das igrejas mais antigas da cidade de Porto Alegre: a Igreja Nossa Senhora

    das Dores, localizada na antiga Rua da Praia, atual Rua dos Andradas, e a igreja Nossa

    Senhora da Conceio, assentada na Avenida Independncia. Alm disso, tambm foi

    responsvel pela decorao interna da antiga Capela Senhor do Passos da Santa Casa de

    Misericrdia, bem como do Salo Nobre da Beneficncia Portuguesa. Embora executor

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    Anais do III Encontro de Pesquisas Histricas - PPGH/PUCRS.

    Porto Alegre, 2016. p.178-192. .

    desses importantes projetos, sua obra e trajetria foi muito pouco estudada, existindo apenas

    uma breve referncia de seus trabalhos na obra escrita por Athos Damasceno, Artes Plsticas

    no Rio Grande do Sul. De fato, o nico aspecto que documenta e atesta a autoria de sua obra

    a assinatura, realizado pelo prprio entalhador, sob o coro de ambas as igrejas, ou seja, no

    nrtex, primeiro espao que habitamos ao adentrar o templo. Ali, possvel ler, incrustado na

    madeira: Joo do Couto e Silva mestre desta obra. Esta marca de singularidade, que

    documenta uma autoria e modo pelo qual Couto e Silva coloca-se como artista, foi o motivo

    que inspirou a investigao da trajetria deste portugus que, como veremos, foi um dos mais

    disputados entalhadores de Porto Alegre durante o sculo XIX.

    Arte sacra no Rio Grande do Sul

    A primeira questo que parece surgir quando o tema talha ornamentao esculpida

    na madeira e arte sacra (crist) em Porto Alegre a respeito de sua existncia ou aparente

    inexistncia. Pouco se pesquisa e discute sobre esta produo no Rio Grande do Sul e em sua

    respectiva capital; talvez, porque a maneira pela qual se estruturou a religiosidade e suas

    respectivas edificaes, no Rio Grande do Sul, ocorreu de forma distinta do resto Brasil,

    especialmente quando comparamos esta produo com os centros aurferos ou canavieiros.

    Nestes, a construo dos templos era alavancada pelas ordens religiosas, primeiramente,

    ordens primeiras, de frades jesutas, franciscanos e carmelitas e, mais tarde, pela comunidade

    devota instituda em irmandades religiosas1.

    De maneira diversa, na antiga Provncia de So Pedro, as irmandades se estabeleceram

    aps as colnias de povoamento, nas quais, as freguesias e respectivas capelas eram erguidas

    pela Coroa, numa estratgia hbrida de colonizao, a de criar postos militares junto com

    aldeamentos. Estes templos religiosos foram construdos atravs do trabalho de importantes

    engenheiros-militares a servio da Coroa, como Jos Fernandes Pinto Alpoim (17001765);

    Jos Custdio de S e Faria (17101792), Manoel Vieira Leo (17271803) e Francisco Joo

    Roscio (1733 1805). Esses militares constituam um grupo dos mais destacados engenheiros

    que atuaram na colnia, realizando importantes trabalhos em Minas Gerais e Rio de Janeiro.

    Os engenheiros elencados acima foram os responsveis pelo trao de quase todas as 14 igrejas

    1 Em sntese, eram grupos de leigos que se reunio em torno de uma devoo comum. As irmandades funcionavam como agentes de solidariedade grupal, congregando, simultaneamente, anseios frente religio e a

    perplexidades frente realidade social. Segundo o Cdigo do Direito Cannico: as associaes de fiis que

    tenham sido eretas para exercer alguma obra de piedade ou caridade se denominam pais unies, as quais, se

    esto construdas em organismos, se chamam irmandades. E as irmandades que tambm tenham sido eretas para

    o incremento do culto pblico recebem o nome particular de confrarias. (BOSCHI,1986, p.14-15)

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    Anais do III Encontro de Pesquisas Histricas - PPGH/PUCRS.

    Porto Alegre, 2016. p.178-192. .

    coloniais da provncia durante os sculos XVIII e XIX2. Comedidas na ornamentao e

    pragmticas no desenho arquitetnico, eram construes regidas pela funcionalidade e

    austeridade, semelhantes a fortalezas militares. Este o trao singular das igrejas coloniais do

    Rio Grande do Sul e que hoje as distinguem de outros templos religiosos no Brasil. Elas

    destacam-se pela sua aparncia contida e rgida, que guardam expressiva relao tcnica e

    formal com o aparato de defesa dos portugueses.3

    As primeiras igrejas do Rio Grande do Sul, portanto, esto mais vinculadas

    centralidade administrativa e s estratgias de povoamento por parte da Coroa; ao contrrio do

    que ocorreu em Porto Alegre, a partir do sculo XIX, quando as irmandades4 de Nossa

    Senhora das Dores, fundada em 1800, Nossa Senhora do Rosrio, 1786 e Nossa Senhora da

    Conceio, 1790, arrecadam fundos para construrem seus prprios templos. Seus altares

    ficavam junto igreja Matriz de Madre Deus5, cuja irmandade principal era a do Santssimo

    Sacramento.

    A construo de igrejas por parte das irmandades religiosas, que competiam entre si

    pela beleza de seus templos, era parte de uma estratgia simblica na qual a elevao do

    espao religioso estava atrelado definio de status social junto s comunidades locais.

    Crescendo em nmeros de irmos e arrecadao, muitas delas conseguiam erguer e

    ornamentar suas prprias igrejas. O primeiro passo era reunir patrimnio a fim de suprir os

    gastos iniciais da licena, compra do terreno e a elaborao do risco e do contrato da obra. As

    encomendas de ornamentao, altares, retbulos, flores, tribunas, portanto, eram realizadas

    em nome das irmandades.

    Joo do Couto e Silva e o crculo de relaes lusitano

    Na Porto Alegre do sculo XIX, essas irmandades religiosas constituam-se a partir de

    um crculo de relaes luso-brasileiro, nas quais, a maioria dos cargos principais (prior e

    juzes da devoo) eram ocupados por portugueses. importante lembrar que essas

    2 Permanecem hoje sete: So Pedro do Rio Grande, 1736; N. S. da Conceio de Viamo, /1747; Senhor Bom

    Jesus do Triunfo, 1754; N.S. do Rosrio de Rio Pardo, 1762; So Jos de Taquari, 1765; Santo Amaro, 1773 e

    N.S. da Conceio de Cachoeira, 1777. 3 RAMOS, Paula Viviane. Rio Grande de So Pedro: uma provncia e suas torres. In: Magno Moraes Mello.

    (Org.). Formas, Imagens, Sons - O universo cultural da histria da arte. 1 ed. Belo Horizonte, 2015, v. 1 4 As principais irmandades de Porto Alegre eram Santssimo Sacramento e Nossa Senhora Madre de Deus de

    Porto Alegre, 1774; So Miguel e Almas de Porto Alegre, 1774; Nossa Senhora do Rosrio de Porto Alegre,

    1786; Nossa Senhora da Conceio de Porto Alegre, 1790; Santa Casa de Misericrdia de Porto Alegre, 1803;

    Ordem Terceira Nossa Senhora das Dores de Porto Alegre, 1800 e transformada em ordem terceira em 1819 e

    Espirito Santo de Porto Alegre, 1820.

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