Artigo - Pedagogia da Terra - Moacir Gadotti

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Pedagogia da terra: Ecopedagogia e educao sustentvel*Moacir Gadotti**

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia to grande como outra terra qualquer. Porque eu sou do tamanho do que vejo e no do tamanho da minha altura... Fernando Pessoa

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ivemos uma era de exterminismo. Pela primeira vez na histria da humanidade, no por efeito de armas nucleares, mas pelo descontrole da produo industrial (o veneno radioativo Plutnio 239 tem um tempo de degradao de 24 mil anos), podemos destruir toda a vida do planeta. Passamos do modo de produo para o modo de destruio. A possibilidade da autodestruio nunca mais desaparecer da histria da humanidade. Daqui para a frente todas as geraes sero confrontadas com a tarefa de resolver este problema (SchmiedKowarzik, 1999: 6). S esperamos que as providncias sejam tomadas a tempo para que no cheguemos tarde demais. Por isso precisamos ecologizar a economia, a pedagogia, a educao, a cultura, a cincia, etc.

* Reuni neste artigo diversas reflexes debatidas em diferentes encontros e congressos e particularmente na Conferncia Continental das Amricas, em dezembro de 1998, em Cuiab (MT) e durante o Primeiro Encontro Internacional da Carta da Terra na Perspectiva da Educao, organizado pelo Instituto Paulo Freire, com o apoio do Conselho da Terra e da UNESCO, de 23 a 26 de agosto de 1999, em So Paulo. Venho acompanhando esse tema desde 1992 quando representei a ICEA(Internacional Community Education Association) na Rio-92 (Conferncia das Naes Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento), chamada de Cpula da Terra, que elaborou e aprovou a Agenda 21. No Frum Global-92, na mesma poca, coordenei, ao lado Moema Viezer, Fbio Cascino, Nilo Diniz e Marcos Sorrentino, a Jornada Internacional de Educao Ambiental que elaborou o Tratado de Educao Ambiental para Sociedades Sustentveis e Responsabilidade Global. Agradeo as contribuies e sugestes recebidas, particularmente de Francisco Gutirrez, Carlos Alberto Maldonado, Fbio Cascino, ngela Antunes Ciseski, Paulo Roberto Padilha e Gustavo Belic Cherubine. Este texto retoma e desenvolve idias tratadas no meu livro Perspectivas atuais da Educao. ** Professor titular da Universidade de So Paulo, Diretor do Instituto Paulo Freire e autor de vrias obras, entre elas: A educao contra a educao (Paz e Terra, 1979: Francs e Portugus), Convite leitura de Paulo Freire (Scipione, 1988: Portugus, Espanhol, Ingls, Japons e Italiano), Histria das idias pedaggicas (tica, 1993: Portugus e Espanhol), Pedagogia da prxis (Cortez, 1994: Portugus, Espanhol e Ingls) e Perspectivas atuais da educao (Artes Mdicas, 1999).

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O potencial destrutivo gerado pelo desenvolvimento capitalista o colocou numa posio negativa frente natureza. O capitalismo aumentou mais a capacidade de destruio da humanidade do que o seu bem-estar e prosperidade. As realizaes concretas do socialismo seguiram na mesma esteira destrutiva colocando em risco no apenas a vida do ser humano mas de todas as formas de vida existentes sobre a Terra. De tal forma que hoje, a questo ecolgica, tornouse eminentemente social ou, como afirma Elmar Altvater, hoje a questo social pode ser elaborada adequadamente apenas como questo ecolgica (1992: 18). Por outro lado, vivemos tambm na era da informao em tempo real, da globalizao da economia, da realidade virtual, da Internet, da quebra de fronteiras entre naes, do ensino distncia, dos escritrios virtuais, da robtica e dos sistemas de produo automatizados, do entretenimento. O cenrio est dado: globalizao provocada pelo avano da revoluo tecnolgica, caracterizada pela internacionalizao da produo e pela expanso dos fluxos financeiros; regionalizao caracterizada pela formao de blocos econmicos; fragmentao que divide globalizadores e globalizados, centro e periferia, os que morrem de fome e os que morrem pelo consumo excessivo de alimentos, rivalidades regionais, confrontos polticos, tnicos e confessionais, terrorismo. nesse contexto, nessa travessia de milnio, que devemos pensar a educao do futuro e podemos comear por nos interrogar sobre as categorias que podem explic-la. As categorias contradio, determinao, reproduo, mudana, trabalho e prxis, aparecem freqentemente na literatura pedaggica contempornea, sinalizando j uma perspectiva da educao, a perspectiva da pedagogia da prxis . Essas so categorias consideradas clssicas na explicao do fenmeno da educao. Elas se constituem um importante referencial para a nossa prtica. No podem ser negadas pois ainda nos ajudaro, de um lado, para a leitura do mundo da educao atual e, de outro, para a compreenso dos caminhos da educao do futuro. No podemos negar a atualidade de certas categorias freireanas e marxistas, como dialogicidade e dialeticidade, a validade de uma pedagogia dialgica ou da prxis. Marx, em O Capital, privilegiou as categorias hegelianas determinao, contradio, necessidade, possibilidade. A fenomenologia hegeliana continua inspirando nossa educao e dever atravessar o milnio. A educao popular e a pedagogia da prxis, lidas de forma crtica, devero continuar como paradigmas vlidos para alm do ano 2000. Contudo, necessitamos de novas categorias explicitadoras da realidade, que no surgem idealisticamente, mas no prprio processo de sua leitura.

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Categorias para a anlise das perspectivas atuais da educaoEis algumas categorias que se apresentam mais freqentemente hoje na literatura pedaggica e que se prestam melhor para entender as perspectivas atuais da educao. Elas nos suscitam muitas interrogaes e podem nos abrir novos caminhos. Entre elas devemos destacar: 1 - Planetaridade. A Terra um novo paradigma (Leonardo Boff). Que implicaes tem essa viso de mundo sobre a educao? O que seria uma ecopedagogia (Francisco Gutirrez) e uma ecoformao (Gaston Pineau)? O tema da cidadania planetria pode ser discutido a partir desta categoria. Podemos nos perguntar com Milton Nascimento: para que passaporte se fazemos parte de uma nica nao?. Que conseqncias podemos tirar para alunos, professores e currculos? 2 - Sustentabilidade. O tema da sustentabilidade originou-se na economia (desenvolvimento sustentvel) e na ecologia, para inserir-se definitivamente no campo da educao, sintetizada no lema uma educao sustentvel para a sobrevivncia do planeta, difundido pelo Movimento pela Carta da Terra na Perspectiva da Educao e pela Ecopedagogia. O que seria uma cultura da sustentabilidade? Esse tema dever dominar muitos debates educativos das prximas dcadas. O que estamos estudando nas escolas? No estaremos construindo uma cincia e uma cultura que servem para a degradao e deteriorao do planeta? 3 - Virtualidade. Essa categoria implica toda a discusso atual sobre a educao distncia e o uso dos computadores nas escolas (Internet). A informtica, associada telefonia, nos inseriu definitivamente na era da informao. A informao deixou de ser uma rea ou especialidade para tornarse uma dimenso de tudo, transformando profundamente a forma como a sociedade se organiza, inclusive o modo de produo. Quais as conseqncias para a educao, para a escola, para a formao do professor e para a aprendizagem? Conseqncias da obsolescncia do conhecimento. Como fica a escola diante da pluralidade dos meios de comunicao? Eles nos abrem os novos espaos da formao ou iro substituir a escola? 4 - Globalizao. O processo da globalizao est mudando a poltica, a economia, a cultura, a histria... portanto tambm a educao. uma categoria que deve ser enfocada sob vrios prismas. O global e o local se fundem numa nova realidade: o glocal. Para pensar a educao do futuro, precisamos refletir sobre o processo de globalizao da economia, da cultura e das comunicaes. 5 - Transdisciplinaridade. Embora com significados distintos, certas categorias, muito prximas da transdisciplinaridade, como transculturalidade, transversalidade, multiculturalidade e outras, como complexidade e holismo, 83

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tambm indicam uma nova tendncia na educao, que ser preciso analisar. Como construir interdisciplinarmente o projeto poltico-pedaggico da escola? Como relacionar multiculturalidade, educao para todos e currculo? Como encarar o desafio de uma educao sem discriminao tnica, cultural, de gnero? Essas categorias so importantes para compreender as perspectivas atuais da educao, mas, como veremos, no so suficientes para entender a ecopedagogia como teoria da educao que promove a aprendizagem do sentido das coisas a partir da vida cotidiana. Neste caso devemos desenvolver outras categorias ligadas a esfera da subjetividade, da cotidianidade e do mundo vivido, categorias que estruturam a vida cotidiana, levando em considerao as prticas individuais e coletivas e as experincias pessoais. Essas categorias j vem sendo apresentadas por vrios filsofos, cientistas sociais e educadores, alguns deles falando de holismo ou de paradigmas holonmicos da educao. Os holistas sustentam que a utopia, o imaginrio, so instituintes da nova sociedade e da nova educao. Recusam uma ordem fundada na racionalidade instrumental que menospreza o desejo, a paixo, o olhar, a escuta. Segundo eles, os paradigmas clssicos banalizam essas dimenses da vida, sobrevalorizando o macroestrutural, o sistema, as superestruturas socioeconmico-polticas e epistmicas, lingsticas ou psquicas. Valeria a pena retomar aqui o debate de algumas categorias, tais como: imaginrio (Gilbert Durand e Cornelius Castoriadis), curiosidade (Paulo Freire), tolerncia (Karl Jaspers), acolhida (Paul Ricoeur), dilogo (Martin Buber), autogesto (Celestin Freinet, Michel Lobrot), desordem (Edgar Morin), paixo (Marilena Chau), ao comunicativa (Jrgen Habermas), radicalidade (Agnes Heller), empatia (Carl Rogers), esperana (Ernest Bloch), alegria (Georges Snyders), cuidado (Boff). Essas categorias rep