As apropria§µes da obra de Pierre Bourdieu no campo educacional

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Text of As apropria§µes da obra de Pierre Bourdieu no campo educacional

  • Revista Portuguesa de Educao

    ISSN: 0871-9187

    rpe@ie.uminho.pt

    Universidade do Minho

    Portugal

    Catani, Afrnio; Catani, Denice; Pereira, Gilson

    As apropriaes da obra de Pierre Bourdieu no campo educacional brasileiro

    Revista Portuguesa de Educao, vol. 15, nm. 1, 2002, pp. 05-25

    Universidade do Minho

    Braga, Portugal

    Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=37415102

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  • Revista Portuguesa de Educao, 2002, 15(1), pp. 05-25 2002, CIEd - Universidade do Minho

    As apropriaes da obra de Pierre Bourdieuno campo educacional brasileiro

    Afrnio Mendes Catani & Denice Barbara CataniFaculdade de Educao da Universidade de So Paulo, Brasil

    Gilson R. de M. PereiraUniversidade Regional de Blumenau, Brasil

    Resumo

    A partir de pesquisa realizada em 20 revistas especializadas em educao

    editadas entre 1971 e 2000, o presente texto analisa as formas de

    apropriao da obra de Pierre Bourdieu no campo educacional brasileiro. O

    conjunto dos 355 artigos publicados nesses peridicos e que fazem

    referncias ao socilogo constitui o corpus bsico para a anlise das

    peculiaridades das interpretaes brasileiras do autor.

    [...] para entender a recepo [de um autor] deve-se entender as foras da norecepo, a recusa em saber. [...] Sartre, em uma nota de A crtica da razodialtica disse, a propsito de suas leituras juvenis de Marx (que no se lia nauniversidade): eu compreendia tudo e no compreendia nada. Quer dizer queh uma compreenso, um fazer como se se compreeendera, uma falta decompreenso fundada em resistncias profundas. (P. Bourdieu. O que fazerfalar a um autor? A propsito de Michel Foucault)

    O presente texto articula os resultados da pesquisa que se realiza

    acerca da obra de Pierre Bourdieu, buscando compreender as vrias

    modalidades de apropriao que marcaram o ingresso dos estudos do

    socilogo francs no campo educacional brasileiro. Com a finalidade de tornar

    exeqvel esse estudo opera-se por etapas que prevem o exame das

    especificidades brasileiras da leitura de Bourdieu, nos peridicos

    especializados em educao, na utilizao do autor em teses, dissertaes e

  • estudos publicados sob a forma de livros, em trabalhos apresentados em

    congressos, no movimento editorial do campo e na bibliografia de cursos

    universitrios. Essa diviso, que diferencia as fontes mediante as quais

    possvel ter acesso aos processos de apropriao da obra do autor, no

    pretende autonomizar as diferentes instncias de uma mesma dinmica

    caracterstica de um espao de produo intelectual. Assim, mantendo a

    ateno para com a simultaneidade, as relaes e a interdependncia dessas

    instncias, pode-se proceder ao estudo especfico da produo divulgada em

    vinte publicaes peridicas educacionais de circulao nacional e

    amplamente reconhecidas (indexadas pela Associao Nacional de Ps-

    Graduao e Pesquisa em Educao ANPEd), embora algumas j tenham

    tido sua publicao interrompida1. Essa anlise o que se apresenta aqui. O

    perodo escolhido para exame so os anos de 1971 a 2000 e, nos vinte

    peridicos examinados, foram localizados 355 trabalhos (dentre os quais seis

    resenhas) com referncias obra de Bourdieu. Como se pretendeu tratar da

    apropriao no campo educacional brasileiro, analisaram-se apenas os textos

    de autores nacionais com referncias ao socilogo (totalizando 288 artigos),

    sendo descartados do conjunto dos trabalhos localizados 67 escritos de

    autores estrangeiros publicados, no mesmo perodo, nas revistas

    consultadas.

    Alm disso, o presente trabalho levou em considerao, em grande

    parte, os ensinamentos contidos na anlise realizada por Loc Wacquant

    (1993) sobre as condies de recepo da obra de Bourdieu nos Estados

    Unidos. Escreve ele, citando Bourdieu, que se verdade que o sentido de

    uma obra (artstica, literria, filosfica etc.) muda automaticamente a cada

    mudana no campo em que est situada para o espectador ou leitor

    (Bourdieu. The field of cultural production, or the economic world reversed.

    Poetics, 12, nov., 1993, pp. 311-56), ento a adequada compreenso de um

    determinado autor impe um duplo trabalho de elucidao: de suas idias e

    do universo intelectual no qual elas chegam a circular. Requer que

    codifiquemos o espao mental do autor isto , as categorias e postulados

    que o sustentam ou sua maneira de pensar e teorias substantivas e requer,

    tambm, que consigamos alguma informao acerca do espao acadmico

    no qual seus escritos esto inseridos (Wacquant, 1993, p. 235).

    Evidentemente nos informamos acerca das idias e do universo intelectual no

    6 Afrnio Catani, Denice Catani & Gilson Pereira

  • qual as idias de Bourdieu circulam, bem como procedemos decodificao

    do espao mental do autor. Para isso, alm da leitura da obra do pensador

    francs, nos valemos de bons comentaristas, a saber: Miceli (1987; 1999),

    Ortiz (1983), Pinto (2000). Utilizamo-nos, igualmente, de vrias anlises

    empricas desenvolvidas por Bourdieu e pelos seus colaboradores.

    * * *

    Escolheu-se falar aqui em apropriao da obra de Bourdieu para,

    justamente, indicar a variedade das formas de recepo e as formas

    peculiares de inveno na leitura que se fez do autor. O sentido do termo

    parte do esquema conceitual forjado por Roger Chartier para explicitar os

    processos de produo de sentido que configuram a leitura como criao

    matiza a compreenso das vrias interpretaes feitas entre ns. Chartier

    refere-se ao conceito sustentando que [...] a apropriao tal como a

    entendemos visa a uma histria social dos usos e interpretaes referidos a

    suas determinaes fundamentais e inscritos nas prticas especficas que os

    produzem. Dar, assim, ateno s condies e aos processos que, muito

    concretamente, conduzem as operaes de construo do sentido (na relao

    de leitura e nos outros casos tambm) reconhecer, contra a antiga histria

    intelectual, que nem as inteligncias nem as idias so descarnadas e, contra

    os pensamentos do universal, que as categorias dadas como invariantes,

    sejam filosficas ou fenomenolgicas, esto por se construir na

    descontinuidade das trajetrias histricas (1998, p. 74). O prprio Bourdieu

    no se afasta dessa interpretao, na oportunidade em que examina as

    relaes mantidas pelos indivduos com as prticas culturais em Lecture,

    lecteurs, letrs, littrature (1987) e ao dialogar com R. Chartier (Bourdieu e

    Chartier, 1985) acerca da questo da leitura ou do consumo cultural.

    Assim que buscamos explicitar as caractersticas da apropriao

    feita do pensamento de Bourdieu no Brasil, mediante a anlise dos textos nos

    quais h referncias ao autor, incorporao de conceitos e/ou assimilao do

    seu modo de trabalho. Os textos analisados permitem identificar trs

    categorias, de acordo com os tipos de apropriao que se evidenciaram. A

    forma mais freqente de apropriao aqui designada como apropriaoincidental, caracterizada por referncias rpidas ao autor, geralmente ao livroA Reproduo (constituem 67% dos artigos consultados). Nessas

    modalidades de apropriao so freqentes as seguintes ocorrncias:

    7Apropriaes da obra de Pierre Bourdieu no Brasil

  • comum o socilogo ser arrolado nas referncias bibliogrficas e no aparecer

    mencionado no corpo do texto; vir referido apenas de passagem, junto com

    outros autores (em geral, Althusser, Baudelot e Establet, Bowles e Gintis),

    quase sempre de modo classificatrio (reprodutivista); surgir em notas no

    substantivas. Nas apropriaes incidentais no possvel estabelecer relao

    entre a argumentao empreendida no texto e a meno referncia, ou,

    ento, a referncia guarda relao muito tnue com o argumento

    desenvolvido. Classificamos a outra forma sob a denominao de

    apropriao conceitual tpica, caracterizada pelo fato de deixar entrever autilizao, conquanto no sistemtica, de citaes e, eventualmente, de

    conceitos do autor, como o de capital cultural, por exemplo (constituem 18%

    dos artigos consultados). Nessa forma de apropriao, as aquisies

    conceituais do socilogo so mobilizadas, com maior ou menor intensidade,

    para reforar argumentos ou resultados obtidos e desenvolvidos num quadro

    terminolgico que no necessariamente o do autor. Ampliam o leque de

    obras citadas, aparecendo textos como A economia das trocas simblicas, O

    poder simblico, Coisas ditas, etc. A terceira forma recebe o nome de

    apropriao do modo de trabalho, constituindo-se em maneiras deapropriao reveladoras da utilizao sistemtica de noes e conceitos do

    autor, tais como campo, estratgia, habitus, etc., bem como mostram

    preocupao central com o modus operandi da teoria (construo do objeto,

    pensar relacional, anlise reflexiva, objetivao do sujeito objetivante, etc.)

    Nessa forma de apropriao (15% dos artigos consultados) acionam-se os

    utenslios tericos desenvolvidos por Bourdieu em realidades empricas

    precisas, sendo maior a diversidade de obras