As cabanas do Castro de Penices, e a evolução da arquitectura

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  • Queiroga, Francisco As cabanas do Castro de Penices, e a evoluo da arquitectura domstica dos castrosPortvgalia, Nova Srie, vol. 36, Porto, DCTP-FLUP, 2015, pp. 263-276

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    as CaBanas do Castro de PeniCes, e a eVoluo da arquiteCtura doMstiCa dos Castros

    Francisco Queiroga1

    Ao Fernando Acua, pela amizade e partilha de momentosde um tempo em que a Arqueologia ainda era um sacerdcio.

    Donec eris felix multos numerabis amicos (Ovidio).

    resumo:Breve abordagem evoluo da arquitectura domstica da rea meridional da cultura castreja. Referncia s tipologias construtivas em materiais perecveis e o seu enquadramento cronol-gico. Apresentao de evidncias de construes em materiais perecveis detectadas no castro de Penices.Palavras chave: Cultura castreja; Arquitectura domstica; Cabanas em materiais perecveis.

    abstract:Brief approach to the evolution of the domestic architecture within the southern area of castro culture. Reference to the typologies of building with perishable materials and its chronological framework. Presentation of some evidence of huts built with perishable materials uncovered at the Penices Iron Age hillfort.Keywords: Castro Culture; Domestic architecture; Huts.

    introduo

    A cultura castreja do noroeste foi, muito justamente, caracterizada como uma civilizao da pedra (Almeida 1984) em virtude da omnipresena da pedra em todas as estruturas que formam a sua unidade de povoamento: o castro. As muralhas e as habitaes, os balnerios e a estaturia, tudo o que dela temos como caracterstico est plasmado na pedra. De resto, j Romero Masi (1976) o tinha salientado, na sua compilao sobre a arquitectura castreja, enquanto que Christopher Hawkes (1984) manifestava a sua perplexidade sobre a origem de um tamanho volume de pedra empregue nas estruturas de um povoado, sugerindo a obrigatoriedade da sua extraco em pedreiras.

    1 Professor Associado, Universidade Fernando Pessoa, Porto.

  • Queiroga, Francisco As cabanas do Castro de Penices, e a evoluo da arquitectura domstica dos castrosPortvgalia, Nova Srie, vol. 36, Porto, DCTP-FLUP, 2015, pp. 263-276

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    Os materiais de importao, mormente os de origem romana, mas tambm os pnicos e gregos, foram determinantes para a construo das diacronias arqueolgicas dos castros anteriormente generalizao das dataes pelo Carbono 14, prtica que se foi afirmando lentamente a partir dos in-cios da dcada de 1980. Foi, de facto, muito comum a excessiva prudncia na proposta de datas para contextos sem materiais romanos ou de importao, que raramente se recuava a perodos anteriores campanha de D.J. Bruto.

    Vencida a perplexidade face antiguidade de algumas dataes, foi -se construindo um corpo substancial de datas (Fbregas - Carballo 1991; Queiroga 1992/2003) cumulativamente ampliado com dataes de novas escavaes, e comeou ento a ganhar adeptos a ideia da ampla diacronia de ocupao de muitos castros, j anteriormente sugerida (Calo - Sierra 1983), que em vrios casos abarca a quase totalidade do primeiro milnio a.C. Face a estas evidncias, colocadas pelas cronologias absolutas, foi necessrio repensar a articulao entre os finais da Idade do Bronze e os incios da Idade do Ferro, pois as cronologias indicavam que seriam, afinal, os habitantes destes povoados fortificados os artfices do variado manancial de metalurgia em bronze (Coffyn 1983 e 1985) atribuda ao final desta fase to emblemtica. De resto, esta ideia foi sendo consubstanciada com apoio da evidncia arqueolgica, como a do caso excepcional do castro de Baies (Silva et al. 1984; Silva 1986; Figueiredo et al 2010), ao que se foram juntando dados pontuais, obtidos nas numerosas escavaes arqueolgi-cas em castros, e dispersos por vasta bibliografia, indicadores da generalizao da auto suficincia de cada castro face produo metalrgica do bronze (Queiroga 1993/2003, 67), qui acompanhada de melhoramentos (Rovira Llorns 1993, 53) da tecnologia metalrgica.

    No contexto da ampla diacronia de ocupao de alguns povoados, encontramos registos das modificaes culturais que neles se foram operando. A Arqueologia tem valorizado sobremaneira as produes cermicas, pela sua plasticidade e permeabilidade a expresses, individuais e colectivas, e portanto pelo seu potencial como elemento tipolgico e cronolgico. Contudo, a construo domstica tambm um importante indicador das individualidades culturais, pela sua relao simblico/funcional, com as vivncias quotidianas da unidade social primria, e pela sua ntima e permanente interaco com o ecossistema, desde o clima economia produtiva, e demografia. Por isso se constitui como um elemento de anlise privilegiado, apesar deste potencial nem sempre ter eco no cuidado metodolgico2 que se vota sua escavao, pois as estruturas em pedra so comparativamente fceis de escavar, e a elas se circunscreveu a arqueologia castreja.

    Ao longo das ltimas dcadas, e na esteira de um sculo de pesquisa profcua, intensificou se o trabalho sobre a cultura castreja, e mormente o esforo de tipificao dos seus diversos aspectos atra-vs da elaborao de snteses temticas. Estes trabalhos, de abordagens diversificadas, representam tentativas srias e empenhadas de entender a Idade do Ferro do Noroeste peninsular, e constituem o pilar sobre o qual assenta o conhecimento actual. Este esforo de sistematizao de largas reas e unidades geogrficas teve o inconveniente, a nosso ver talvez o nico, de obliterar uma realidade que s lentamente se foi descortinando: a da individualidade micro -regional que caracteriza a cultura material castreja, a qual se pode mesmo manifestar ao nvel de cada unidade de povoamento. Com efeito, olhando atentamente para a cultura material castreja, vemos as grandes linhas tipolgicas, que conferem um ar de famlia ao conjunto dos povoados de amplas regies. Porm, quando mergulhamos no processo de escavao dos stios, vamos constatando as solues que, quer pelos recursos locais quer pela criatividade dos seus habitantes, conferem uma individualidade inquestionvel a cada castro.

    A presente nota tem como objectivo apresentar as evidncias de cabanas em materiais perecveis exumadas no castro de Penices, as quais tomamos como elementos de reflexo sobre este perodo cultural da vida dos castros, e tambm sobre as direces metodolgicas que ser imprescindvel

    2 Evocamos a veemncia com que o salientava Jean -Pierre Pautreau, com quem partilhmos a direco de duas campanhas de escavao no castro das Ermidas.

  • Queiroga, Francisco As cabanas do Castro de Penices, e a evoluo da arquitectura domstica dos castrosPortvgalia, Nova Srie, vol. 36, Porto, DCTP-FLUP, 2015, pp. 263-276

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    encetar para se enfrentarem os desafios colocados pela escavao deste modelo de arquitectura. Com base no acima enunciado, defendemos ainda que, nesta fase da investigao sobre o tema, impor-tar circunscrever as tipificaes escala local e regional, em detrimento de generalizaes pouco consubstanciadas. Desta forma, limitamo -nos rea meridional da cultura castreja (Almeida 1973, 1983a, 1983b), na qual se articulam sobejos traos caracterizadores de uma unidade cultural (Soeiro 1997) e, dentro desta, evocaremos a evidncia recolhida no castro de Penices, comparando -a sempre que oportuno com a que foi surgindo em outros povoados coevos da faixa sul do Entre Douro e Minho.

    a arQuitectura domstica

    A tipificao da arquitectura domstica da rea meridional da cultura castreja foi preocupao de alguns autores (Romero Masi 1976; Almeida 1984), ainda que na abordagem generalista acima evo-cada, contribuindo para uma perspectivao espacial e cronolgica desta importante parte do habitat, e dando corpo aos dados esparsos que ao tempo eram conhecidos. Naturalmente que a grande maioria dos contextos em anlise se reportavam s fases contemporneas da romanizao, reconhecidamente as mais dinmicas no volume das construes e no trabalho da pedra (Almeida 1984).

    Neste perodo, no qual o processo de dataes pelo radiocarbono no estava ainda generalizado e acessvel, e tampouco o seu imperativo de calibrao entendido pelos arquelogos (Cabral - Soares 1984; Soares - Cabral 1984; Fbregas 1992, 18 -9) constatamos a notvel consistncia e actualidade dos postulados avanados por Almeida (1984) sobre a evoluo da arquitectura castreja, os quais foram sendo confirmados pelos dados que, ao longo de mais de uma dcada, recolhemos em quatro castros de Vila Nova de Famalico.

    Reconhece se que os povoados castrejos so definidos por um permetro de estruturas defensi-vas, e o seu interior est organizado em espaos pblicos, estes mais dificeis de identificar nas fases antigas de ocupao, e em espaos privados, ou casas. Estas, enquanto dependncias funcionais, e constituintes de uma unidade familiar, so compostas por vrias construes. Nas fases anteriores romanizao a articulao destas dependncias entre si pouco evidente ao primeiro olhar (Queiroga 1993/2003, Fig. 19), mas uma anlise mais atenta permite constatar a existncia da casa composta desde as primeiras fases da construo em pedra. Com o processo de romanizao clarifica se esta organizao, na tentativa de individualizar os espaos familiares, com a vulgarizao de muretes separadores entre os ncleos domsticos, ou a regularidade ortogonalizante na qual estes espaos familiares se afirmam nas citnias, que cada vez mais vemos como urbes calaico romanas (Silva 1995), cabendo, talvez apenas nestes exemplos, a designao de bairros, no s unidades familiares (Romero Masi 1986) mas sim aos verdadeiros quarteires visveis em Sanfins, e tambm em Briteiros, onde neste ltimo povoado alguns ficaram por urbanizar.

    A relativa desenvoltura com que podemos escrutinar estas fases mais recentes de ocupao dos castros j no possvel nas fases mais antigas, da construo em materiais perecveis, bem como os ritmos que presidiram ao cmbio de materiais construtivos da madeira/saibro para a pedra/saibro.

    A muralha do castro de Penices constitui