As cidades invisíveis

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As cidades invisveis. Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra . - Mas qual a pedra que sustenta a ponte?, pergunta Kublai Kan . - A ponte no sustentada por esta ou aquela pedra responde Marco -, mas pela curva do arco que estas formam. - PowerPoint PPT Presentation

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Italo Calvino (1923 1985)

As cidades invisveisMarco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.

- Mas qual a pedra que sustenta a ponte?, pergunta Kublai Kan.- A ponte no sustentada por esta ou aquela pedra responde Marco -, mas pela curva do arco que estas formam.

Kublai Kan permanece em silncio, refletindo. Depois acrescenta:- Por que falar das pedras? S o arco me interessa.

Polo responde:- Sem pedras o arco no existe.Italo Calvino (1923 1985)Filho de 2 cientistas, nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba

Cresceu em San Remo, norte da Itlia

Combateu na guerra da Resistenza (contra os fascistas e a ocupao nazista no norte da Itlia)

Viveu em San Remo, Torino, New York, Roma, Paris, Siena

Escreveu romances, contos, ensaios, artigos sobre literatura e sociedade, crtica e teoria literria, roteiros para teatro e cinema, msica...

Foi editor e consultor da Editora Einaudi por quase 40 anos

Produo anos 40 - 50Il sentiero dei nidi di ragno (1947), romance.Ultimo viene il corvo (1949), contos.Il visconte dimezzato (1952): romance.La formica argentina (1952), conto longo ou romance breve.L'entrata in guerra (1954), conjunto de trs contos longos.

Le fiabe italiane (1956), antologia de fbulas populares selecionadas, traduzidas e reescritas por Calvino.

Il barone rampante (1957), romance.La speculazione edilizia (1957), conto longo ou romance breve.La nuvola di smog (1958), conto longo ou romance breve.Il cavaliere inesistente (1959), romance.

La strada di San giovanni (1962), quase-romance autobiogrfico.La giornata di uno scrutatore (1963), romance (iniciado em 1953).Marcovaldo ovvero le stagioni in citt (1963), contos.

Le cosmicomiche (1965).Ti con zero (ou T0, 1967). Tambm o ensaio Cibernetica e fantasmi de 1967.La memoria del mondo e altre storie cosmicomiche (1968).

Il castello dei destini incrociati (1969). A segunda edio, ampliada, traz como segunda parte: La taverna dei destini incrociati (1973).

Gli amori difficili (1970), contos.

Le citt invisibili (1972).Se una notte d'inverno un viaggiatore (1979), hiper-romance. Palomar (1983).Cosmicomiche vecchie e nuove (1984).

Produo anos 60 70(Literatura combinatria)As cidades invisveis o incipit No se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas misses diplomticas, mas o imperador dos trtaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e ateno do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores. Existe um momento na vida dos imperadores que se segue ao orgulho pela imensa amplitude dos territrios que conquistamos, melancolia e ao alvio de saber que em breve desistiremos de conhec-los e compreend-los, uma sensao de vazio que surge ao calar da noite com o odor dos elefantes aps a chuva e das cinzas de sndalo que se resfriam nos braseiros, uma vertigem que faz estremecer os rios e as montanhas historiadas nos fulvos dorsos dos planisfrios, enrolando um depois do outro os despachos que anunciam o aniquilamento dos ltimos exrcitosinimigos de derrota em derrota, e abrindo o lacre dos sinetes de reis dos quais nunca se ouviu falar e que imploram a proteo das nossas armadas avanadas em troca de impostos anuais de metais preciosos, peles curtidas e cascos de tartarugas: o desesperado momento em que se descobre que este imprio, que nos parecia a soma de todas as maravilhas, um esfacelo sem fim e sem forma, que a sua corrupo gangrenosa demais para ser remediada pelo nosso cetro, que o triunfo sobre os soberanos adversrios nos fez herdeiros de suas prolongadas runas. Somente nos relatrios de Marco Polo, Kublai Khan conseguia discernir, atravs das muralhas e das torres destinadas a desmoronar, a filigrana de um desenho to fino a ponto de evitar as mordidas dos cupins.

num discurso que ocorria por conta prpria na cabea do Grande Khan. Ou seja, entre eles no havia diferena se questes e solues eram enunciadas em alta voz ou se cada um dos dois continuava a meditar em silncio. De fato, estavam mudos, os olhos entreabertos, acomodados em almofadas, balanando nas redes, fumando longos cachimbos de mbar.Marco Polo imaginava responder (ou Kublai Khan imaginava a sua resposta) que, quanto mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que havia atravessado para chegar at l, e reconstitua as etapas de suas viagens, e aprendia a conhecer o porto de onde havia zarpado, e os lugares familiares de sua juventude, e os arredores de casa, e uma pracinha de Veneza em que corria quando era criana. Neste ponto, Kublai Khan o interrompia ou imaginava interromp-lo ou Marco Polo imaginava ser interrompido com uma pergunta como:

Os dilogos: II, 1- Os outros embaixadores me advertem a respeito de carestias, concusses, conjuras; ou ento me assinalam minas de turquesa novamente descobertas, preos vantajosos nas peles de marta, propostas de fornecimento de lminas adamascadas. E voc? o Grande Khan perguntou a Polo. Retornou de pases igualmente distantes e tudo o que tem a dizer so os pensamentos que ocorrem a quem toma a brisa noturna na porta de casa. Para que serve, ento, viajar tanto?- noite, estamos sentados nas escadarias do seu palcio, inspira um pouco de vento respondeu Marco Polo. Qualquer pas que as minhas palavras evoquem ser visto de um observatrio como o seu, ainda que no lugar do palcio real exista uma aldeia de palafitas e a brisa traga um odor de esturio lamacento.- O meu olhar de quem est absorto e medita, admito. Mas e o seu? Voc atravessa arquiplagos, tundras, cadeias de montanhas. Seria melhor nem sair daqui. O veneziano sabia que, quando Kublai discutia, era para seguir melhor o fio de sua argumentao; e que as suas respostas e objees encontravam lugarse tivesse parado no tempo tanto tempo atrs, ou ento se tanto tempo atrs numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praa.Agora, desse passado real ou hipottico, ele est excludo; no pode parar; deve prosseguir at uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possvel futuro e que agora o presente de outra pessoa. Os futuros no realizados so apenas ramos do passado: ramos secos.- Voc viaja para reviver o seu passado? era, a esta altura, a pergunta do Khan, que tambm podia ser formulada da seguinte maneira: - Voc viaja para reencontrar o seu futuro? E a resposta de Marco:- Os outros lugares so espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que seu descobrindo o muito que no teve e que no ter.

Os dilogos: II, 1- Voc avana com a cabea voltar para trs? ou ento: - O que voc v est sempre s suas costas? ou melhor: - A sua viagem s se d no passado?Tudo isso para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado explicando ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava medida que ele prosseguia a sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerrio realizado, no o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que no lembrava existir: a surpresa daquilo que voc deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, no nos conhecidos. Marco entra numa cidade; v algum numa praa que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem A cidade implcita- J aconteceu de voc ver uma cidade semelhante a esta? Kublai perguntava a Marco Polo, estendendo a mo cheia de anis para fora do baldaquino de seda do bucentauro imperial, apontando para as pontes arqueadas sobre os canais, os palcios principescos com umbrais de mrmore imersos na gua, o vaivm de pequenos barcos que giram em ziguezague movidos por longos remos, as chatas que descarregam cestas de hortalias nas praas dos mercados, os balces, os terraos, as cpulas, os campanrios, os jardins das ilhas que verdejam o cinza da laguna.O imperador, acompanhado de seu dignitrio estrangeiro, visitava Quinsai, antiga capital de dinastias destronadas, ltima prola engastada na coroa do Grande Khan.-No, sire respondeu Marco , jamais poderia imaginar que existisse uma cidade parecida com esta.O imperador tentou perscrutar o seu olhar. O estrangeiro abaixou os olhos. Kublai permaneceu em silncio o dia todo.Aps o pr-do-sol, nos terraos do palcio real, Marco Polo expunha ao soberano o resultado de suas misses diplomticas. Normalmente, o Grande Khan conclua as suas noites saboreando essas narraes com os olhos entreabertos at que o seu primeiro bocejo desse o sinal para que o cortejo de pajens acendesse os fachos para conduzir o soberano ao Pavilho do Sono Augusto. Mas desta vez Kublai no parecia disposto a ceder fadiga.-Fale-me de outra cidade insistia.- ...O viajante pe-se a caminho e cavalga por trs jornadas entre o vento nordeste e o noroeste... prosseguia Marco, e relatava nomes e costumes e comrcios de um grande nmero de terras.A cidade implcitaPodia-se dizer que o seu repertrio era inexaurvel, mas desta vez foi ele quem se rendeu. Ao amanhecer, disse: - Sire, j falei de todas as cidades que conheo.- Resta uma que voc jamais menciona. Marco Polo abaixou a cabea.- Veneza disse o Khan. Marco sorriu.- E de outra cidade imagina que eu estava falando? O imperador no se afetou.- No entanto, voc nunca citou o seu nome. E Polo:- Todas as vezes que descrevo uma cidade digo algo a respeito de Veneza.- Quando pergunto de outras cidades, quero que voc me fale a respeito delas. E de Veneza quando pergunto a respeito de Veneza.- Para distinguir as qualidades das outras cidades, devo partir de uma primeira que permanece implcita. No meu caso, trata