“As duas espadas” – conflito na interpretação ...· Os chamados "descobrimentos" realizados

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  • Revista de Estudos da Religio N 1 / 2004 / pp. 91-112ISSN 1677-1222

    As duas espadas conflito na interpretao

    historiogrfica do Brasil ColniaWilliam Csar de Andrade* [williamc@ucb.br]

    Resumo

    Ao longo de seu pontificado, o papa Joo Paulo II por diversas vezes pediu perdo por erros

    cometidos pela Igreja Catlica no passado. Este fato significativo e tem repercusses no

    modo como a histria da Igreja no Brasil deveria ser estudada. Neste artigo aponta-se para o

    debate historiogrfico acerca de como o catolicismo conviveu com a escravido (e participou

    ativamente dela); o trabalho se sustenta a partir de trs correntes de pensamento:

    historiadores eclesisticos que partem de uma compreenso da conscincia possvel em

    cada poca; historiadores acadmicos (laicos) que buscam ver a Igreja como uma instituio

    entre outras; e historiadores da CEHILA, que, desenvolvendo pesquisas prprias e/ou

    apropriando-se do trabalho de historiadores acadmicos, buscam realizar uma leitura da

    histria da Igreja centrada nos grupos marginais e em suas lutas de libertao. O artigo

    aponta para o conflito existente entre essas escolas.

    Abstract

    For several times in the course of his pontificate, Paul Pope II had apologized for past

    mistakes of the Catholic Church. This is not only remarkable in terms of the Churchs actual

    policy but has also an impact on the study of the History of the Church in Brazil. One of the

    problems calling attention under this circumstances is the attitude of Catholicism towards

    (and its active participation in) Slavery. The article characterizes and evaluates three

    conceptual frameworks for a discussion of the aforementioned issue: The first is typical for

    historians committed to the Church who are particularly interested in the Zeitgeist as the

    overall background of concrete history. The second is favored by secular academic historians

    who consider the Church as one institution among others. Thirdly, there are historians

    associated with CEHILA (Commission for Historical Studies of the Church in Latin America

    * Professor e pesquisador no Programa Memria e Caminhada das CEBs/UCB e membro da CEHILA/Br.

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    and Caribe) whose studies show a preference for the interpretation of the Church as an agent

    for outsiders and their struggle for liberation.

    Introduo

    "As duas espadas", no entender de Bernardo de Claraval, so o exrcito de Cristo,

    entendido por ele como os soldados e os grupos que estavam organizados para as

    Cruzadas, e a presena espiritual da Igreja como sinal indelvel da vitria definitiva sobre as

    foras do mal. claro que a maldade, aqui, est associada aos infiis os muulmanos que

    "ocuparam" a Terra Santa e dificultaram aos cristos o acesso a lugares sagrados, que eram

    objeto de profunda devoo. So Bernardo no encontra nenhuma dificuldade em

    apresentar a tarefa dos cruzados e, de modo especfico, a dos Cavaleiros Templrios, como

    uma conquista abenoada, desejada pelo prprio Jesus. Ao recuperarem para os cristos a

    Terra Santa, os cruzados estariam, de fato, atuando como missionrios e evangelizadores,

    numa demonstrao viva da eficcia redentora do Cristo.

    A Igreja Catlica e as monarquias europias do sculo XII e XIII se unem contra o "inimigo

    comum" e iniciam um longo conbio que durar, em alguns pases, por mais de 500 anos.

    Desta relao, claramente demarcvel pelo conceito de cristandade, resultar um

    progressivo envolvimento do Estado nas "coisas" da Igreja e, em perodos de papado forte

    (como o de Gregrio VII), da interveno da Igreja em assuntos dos Estados Nacionais.

    claro que se pode afirmar que a cristandade, como tal, emerge a partir do Edito de Milo

    com Constantino no sculo IV, mas no medievo h uma tentativa da Igreja em controlar a

    espada dos reis europeus, tendo em vista o combate espiritual (a espada empunhada pela

    prpria Igreja) contra os inimigos da f. neste contexto que se consolidam os pases

    ibricos (Portugal e Espanha) enquanto monarquias crists, bem como, estados nacionais

    expansionistas. Nestes dois pases o padroado rgio ir passar, ao longo dos sculos XV a

    XVII, por diversas fases, mas, em geral, pode-se afirmar que ser o poder do Estado aquele

    que se sobrepor s determinaes e estruturas eclesisticas. Nesse sentido, a Igreja

    Catlica torna-se uma "fora auxiliar" no processo de expanso martima e implantao das

    colnias, legitimando as conquistas por meio do discurso e das propostas missionrias

    existentes em seu bojo.

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    Passados pouco mais de 500 anos do incio da colonizao/evangelizao, ainda difcil

    abordar este processo de modo tranqilo ou isento de paixes. As controvrsias entre

    historiadores cristos tornaram-se evidentes no modo como se avaliou e foi celebrada a

    chegada dos europeus/cristos s terras de "pachamama" identificadas pelos

    colonizadores pelo nome de Amrica. Para um grupo de historiadores prximos poltica, a

    teologia e as aes em geral empreendidas pelo atual papado, a ocasio de jbilo,

    celebrao da vitria da f no Novo Mundo (ainda que percebam alguns limites e desvios).

    a esse grupo que se pode designar, neste texto, como "oficial", pelo entendimento de que

    sua produo historiogrfica encontra na estrutura vaticana a principal forma de divulgao

    e, por reproduzir uma Histria fortemente marcada por preocupaes eclesisticas.

    Quanto ao outro grupo, formado por historiadores que consideram ser preciso pedir perdo

    pelos 500 anos de massacres e sofrimentos impostos a indgenas, africanos e seus

    descendentes, membros e/ou simpatizantes da historiografia produzida pela CEHILA, no h

    o que comemorar. Pelo contrrio, preciso buscar no passado colonial as "sementes do

    verbo" que sobreviveram, e/ou que indiquem espaos em que, efetivamente, houve

    evangelizao. Na viso desse grupo, a resistncia opresso indicativo da presena de

    sujeitos histricos at ento ignorados pela historiografia "oficial". Entende-se aqui, de modo

    amplo, o que sejam resistncias: lutas e organizao de quilombos, organizao de

    Irmandades e Confrarias de Negros e alguns aspectos da chamada religiosidade popular.

    No tenho a iluso de ser um observador (de minha janela) neutro diante dessas duas

    "correntes" historiogrficas e de seus inmeros embates. De fato, sou membro da CEHILA-

    BR e partilho da construo histrica empreendida por esse grupo. Uma ltima observao

    se faz necessria nesta introduo: tanto os historiadores "oficiais" quanto aqueles da

    CEHILA esto em dilogo e/ou confronto com os chamados "historiadores profissionais". Isto

    , os historiadores que atuam nas universidades brasileiras e que, a princpio, no

    manifestam nenhuma vinculao eclesistica. Sua produo historiogrfica aparece em

    citaes, alinhamento terico-metodolgico nas duas correntes objeto desta reflexo.

    Breves aspectos da cristandade portuguesa

    Tanto que yo no s cmo habra que

    lhamarles ,si monjes o soldados. Creo que

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    para hablar con propiedad, sera mejor

    decir que son las dos cosas, porque

    saben compaginar la mansedumbre del

    monje con la intrepidez del soldado

    (Bernardo de Claraval)

    So Bernardo pode ser considerado o maior idelogo das Cruzadas, sendo seu discurso

    uma importante ferramenta na justificao da guerra santa aos infiis e no processo de

    expanso ocidental no sculo XII. A Histria de Portugal parte do processo de expulso

    dos descendentes dos rabes da Pennsula Ibrica, sendo interpretada como uma

    "reconquista crist". Afirmar uma Europa crist era fundamentalmente recusar legitimidade a

    qualquer alteridade, fosse ela representada por rabes, judeus e, posteriormente, por

    africanos, indgenas e asiticos. A cruz, que vestia os cavaleiros e que ia frente da tropa

    enquanto estandarte, era o principal smbolo de uma "causa": assegurar a evangelizao

    entendida como expanso da f. Nas guerras santas conduzidas pela Igreja Catlica nos

    sculos XII a XVII, a cruz sempre se fez acompanhar pela espada. So Bernardo, ao

    escrever um sermo laudatrio para os Cavalheiros Templrios, situa a atuao desta milcia

    crist como uma dupla ao: a) a espada que mata os inimigos da f; b) a espada que

    evangeliza por afirmar a soberania de Cristo sobre os demais povos.

    Os chamados "descobrimentos" realizados pelos europeus entre o final do sculo XV e o

    incio do sculo XVI esto em estreita relao com o processo de expanso martima e

    comercial da Pennsula Ibrica (Portugal e Espanha). Numa linguagem atualizada, pode-se

    afirmar que esse foi um processo de globalizao da economia e da cultura europia frente

    a regies e povos submetidos sua lgica. impossvel globalizar sem submeter os povos

    tornados perifricos, subjugados pelo interesses das metrpoles e de seus grupos

    dirigentes. Entretanto, globalizar exige, alm de um grande aparato militar- portador,

    inclus