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1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13 th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X AS RELAÇÕES DE GÊNERO NO ESPAÇO DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR NO MUNICÍPIO DE PIO XII MA Rarielle Rodrigues Lima 1 Resumo: Este estudo é uma reflexão sobre os processos de produções de gênero na escola, em especial, nos espaços da Educação Física Escolar/EFE no Município de Pio XII/MA. Em uma perspectiva pós-estruturalista de compreensão de produção de gênero, o trabalho analisa as concepções de gênero dos professores de EF sobre os modos como direcionam a sistematização dos conteúdos nas aulas práticas que diferenciam atitudes e práticas em função do gênero. Elencando os discursos e representações constituídas, elaboradas e reificadas de professores/as, gestores/as e alunos/as, o estudo se coloca como um trabalho etnográfico visibilizando as inter-relações inerentes ao cotidiano escolar que atualizam, deslocam e reproduzem as concepções dos papeis sociais do que deve ser “um homem” ou “uma mulher”. O transitar nos espaços da EFE, visibili zando as práticas dos/as professores/as que constroem em um campo de disputa de poder as concepções de gênero, possibilitou destacar ações do cotidiano da escola que, por suas reproduções automatizadas e rotineiras, assumem um caráter naturalizante em suas práticas, como a permanência da divisão das turmas por “sexo”, seja por critérios estabelecidos pelos/as professores/as seja pelos/as próprios/as alunos/as no decorrer das aulas mistas. O movimento de imersão no campo investigativo ocorreu entre agosto de 2014 e março de 2015, nas idas e vindas durante o processo de construção dos dados por intermédio de entrevistas, grupos focais e observações participantes. Palavras-chave: Relações sociais de gênero. Produções de gênero. Educação Física Escolar. Educação básica. Rememorando 2 as vivências em Educação Física em Pio XII como aluna de ensino fundamental, em meados da década de 1990, onde as aulas eram distribuídas por “sexo” e como professora de Educação Física no ano de 2010; inúmeras foram as minhas indagações iniciais quanto à prática docente e as discussões sobre as relações de gênero e seu aspecto construtivo. Tal fato levou-me à construção dos seguintes questionamentos: Por que em Pio XII a prática docente enfatiza os discursos de separação das turmas pela diferença de gênero? Qual a justificativa de tal separação? Quais as reais diferenças que são levadas em consideração para determinar o que pode e o que não pode ser feito? Quais as limitações estabelecidas para cada conteúdo? Por que limitar a prática de Educação Física aos conteúdos que não possibilitam uma vivência motora e cognitiva ampla? Por que escolher determinado conteúdo e não outro? As constantes problematizações do cotidiano (BOURDIEU, 1983a) nas aulas práticas culminaram com a proposição deste trabalho. Partindo da concepção de Joan Scott (1995) sobre a construção social e as relações de poder, que podem ser desveladas com o uso da categoria analítica gênero, posso demonstrar a conexão 1 Doutoranda em Ciências Sociais (UFMA). Professora de Educação Física em Pio XII/MA (SEDUC/MA), São Luís, Brasil. 2 Utilizando as perspectivas de Halbwachs (2006) sobre a compreensão de memória apresentadas em seu livro a Memória coletiva.

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    Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

    Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

    AS RELAES DE GNERO NO ESPAO DA EDUCAO FSICA

    ESCOLAR NO MUNICPIO DE PIO XII MA

    Rarielle Rodrigues Lima1

    Resumo: Este estudo uma reflexo sobre os processos de produes de gnero na escola, em

    especial, nos espaos da Educao Fsica Escolar/EFE no Municpio de Pio XII/MA. Em uma

    perspectiva ps-estruturalista de compreenso de produo de gnero, o trabalho analisa as

    concepes de gnero dos professores de EF sobre os modos como direcionam a sistematizao dos

    contedos nas aulas prticas que diferenciam atitudes e prticas em funo do gnero. Elencando os

    discursos e representaes constitudas, elaboradas e reificadas de professores/as, gestores/as e

    alunos/as, o estudo se coloca como um trabalho etnogrfico visibilizando as inter-relaes inerentes

    ao cotidiano escolar que atualizam, deslocam e reproduzem as concepes dos papeis sociais do que

    deve ser um homem ou uma mulher. O transitar nos espaos da EFE, visibilizando as prticas

    dos/as professores/as que constroem em um campo de disputa de poder as concepes de gnero,

    possibilitou destacar aes do cotidiano da escola que, por suas reprodues automatizadas e

    rotineiras, assumem um carter naturalizante em suas prticas, como a permanncia da diviso das

    turmas por sexo, seja por critrios estabelecidos pelos/as professores/as seja pelos/as prprios/as

    alunos/as no decorrer das aulas mistas. O movimento de imerso no campo investigativo ocorreu

    entre agosto de 2014 e maro de 2015, nas idas e vindas durante o processo de construo dos

    dados por intermdio de entrevistas, grupos focais e observaes participantes.

    Palavras-chave: Relaes sociais de gnero. Produes de gnero. Educao Fsica Escolar.

    Educao bsica.

    Rememorando2 as vivncias em Educao Fsica em Pio XII como aluna de ensino

    fundamental, em meados da dcada de 1990, onde as aulas eram distribudas por sexo e como

    professora de Educao Fsica no ano de 2010; inmeras foram as minhas indagaes iniciais

    quanto prtica docente e as discusses sobre as relaes de gnero e seu aspecto construtivo. Tal

    fato levou-me construo dos seguintes questionamentos: Por que em Pio XII a prtica docente

    enfatiza os discursos de separao das turmas pela diferena de gnero? Qual a justificativa de tal

    separao? Quais as reais diferenas que so levadas em considerao para determinar o que pode e

    o que no pode ser feito? Quais as limitaes estabelecidas para cada contedo? Por que limitar a

    prtica de Educao Fsica aos contedos que no possibilitam uma vivncia motora e cognitiva

    ampla? Por que escolher determinado contedo e no outro? As constantes problematizaes do

    cotidiano (BOURDIEU, 1983a) nas aulas prticas culminaram com a proposio deste trabalho.

    Partindo da concepo de Joan Scott (1995) sobre a construo social e as relaes de poder,

    que podem ser desveladas com o uso da categoria analtica gnero, posso demonstrar a conexo

    1 Doutoranda em Cincias Sociais (UFMA). Professora de Educao Fsica em Pio XII/MA (SEDUC/MA), So Lus,

    Brasil. 2 Utilizando as perspectivas de Halbwachs (2006) sobre a compreenso de memria apresentadas em seu livro a

    Memria coletiva.

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    entre escola e diretrizes curriculares de ensino para a propagao e consolidao de discursos

    normatizadores. Logo, a escola, por ser concebida como instituio que tem como princpio

    norteador a modificao social e a preparao do indivduo enquanto cidado, se apresenta como

    principal instrumento socializador e construtor de normas regulamentadoras de comportamentos.

    Tendo como base os interesses histricos e as relaes de poder existentes no ambiente educacional,

    os estudos de gnero subvertem alguns discursos e prticas no intuito de visibilizar uma

    problemtica secular: a diversidade na educao e as desigualdades construdas.

    De acordo com o posicionamento de Guacira Lopes Louro (2007) quando argumenta sobre a

    construo escolar das diferenas, a escola produtora de desigualdades, distines e diferenas.

    Acrescenta que

    [A escola] concebida inicialmente para acolher alguns mas no todos ela foi,

    lentamente, sendo requisitada por aqueles/as aos/s quais havia sido negada. Os novos

    grupos foram trazendo transformaes instituio. Ela precisou ser diversa: organizao,

    currculos, prdios, docentes, regulamentos, avaliaes iriam, explcita ou implicitamente,

    garantir - e tambm produzir as diferenas entre os sujeitos (LOURO, 2007, p. 57).

    Desse modo, o ambiente escolar constitudo como espao de construo, atualizao e

    reproduo de discursos e conceitos, a permanncia da diviso das atividades diferenciadas por

    sexo na Educao Fsica escolar no permite a interlocuo das diferentes possibilidades de

    interao/relaes sociais, decorrendo assim, a reproduo de hierarquizaes pelas diferenas.

    Utilizando o posicionamento de Foucault (1987) para pensar sobre o surgimento da

    Educao Fsica como forma de domesticao dos corpos e como a escola pode ser utilizada e

    apresentada como instituio regulamentadora, possvel destacar as aes de resistncia, de

    subverso da ordem quanto s possibilidades de ensino da Educao Fsica. Os estudos de gnero

    me permitem essa visibilidade, a motivao para o estudo e a discusso deste tema.

    A definio da diferenciao pautada no sexo, presente nas prticas da Educao Fsica -

    que aqui destaco - a Educao Fsica escolar, orienta-se pela perspectiva de uma separao entre

    sexo e gnero, considerando este ltimo como atribuio de significados culturais, enquanto o

    sexo seria a base natural. Desse modo, se inscreveriam nos corpos as representaes de gnero.

    Teresa de Lauretis (1994) nos aponta que o gnero produzido em tecnologias e discursos

    institucionais que controlam, em disputa de poderes, o campo do significado social, promovendo,

    produzindo e instituindo essas representaes do que vem a ser e do que se espera que seja um

    homem ou uma mulher.

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    Partindo da perspectiva na qual a escola pode ser percebida como uma tecnologia do gnero

    (instituio discursiva de produo e reificao de conceitos e normas), os discursos e as aes

    sociais contidas no processo de ensino-aprendizagem, por intermdio da experincia produzem

    subjetividades e participam da acumulao do capital cultural3 de percepo do mundo. Logo, a

    prtica docente inserida nesse contexto de socializao e de reproduo/atualizao de discursos

    pode ser compreendida como expresso de um capital cultural, adquirido institucionalmente, onde o

    local social do professor pode ser visto como ponto de partida para a elaborao e construo de

    uma sequncia didtica de valores e crenas.

    Jurandir Freire Costa (1996), em seu texto O referente da identidade homossexual traz

    informaes quanto formao do discurso sexual naturalizado/naturalizante, afirmando que

    Aprendemos que nascemos homens e mulheres e que homens e mulheres so radicalmente

    diferentes do ponto de vista sexual, por uma imposio das leis biolgicas. Mas esta

    concepo de sexo baseada numa suposta bissexualidade original nem sempre existiu

    (COSTA, 1996, p.66).

    O discurso da diferenciao por sexo estabelecido na Educao Fsica como critrio de

    escolha para determinados exerccios e intensidade de interveno tem razes fincadas na

    construo histrica nos discursos das cincias mdicas de classificao dos corpos iniciada no

    sculo XV e com o avanar das grandes navegaes nos processos de colonizao e modernizao

    das colnias nos sculos XVIII e XIX que se propagaram por todo Ocidente.

    O percurso histrico estabelecido por Laqueur (2005, p. 31) para a compreenso da

    construo do sexo nos permite uma visualizao ampla nos discursos produzidos, revelando as

    relaes de poder constitudas nas atribuies de significados que produzem a diferena de gnero:

    Para ter certeza, a diferena e a igualdade mais ou menos recnditas esto por toda parte;

    mas quais delas importam e com que finalidade, determinada fora dos limites da

    investigao emprica. O fato de que em certa poca o discurso dominante interpretava os

    corpos masculino e feminino como verses hierrquicas e verticalmente ordenadas de um

    sexo, e em outra poca como opostos horizontalmente ordenados e incomensurveis, deve

    depender de outra coisa que no das grandes constelaes de descobertas reais ou supostas.

    []. S houve interesse em buscar evidncias de dois sexos distintos, diferenas

    anatmicas e fisiolgicas concretas entre o homem e a mulher, quando essas diferenas se

    tornaram politicamente importantes [] e quando as diferenas foram descobertas elas j

    eram, na prpria forma de sua representao, profundamente marcadas pela poltica de

    poder do gnero.

    3Ver Bourdieu (2005b), em escritos da educao, sobre os trs estados do capital cultural, onde apresenta as formas de

    existncia e como esto interligadas e indissociveis, para mais informaes.

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    Argumenta ainda que, as transformaes sociais e polticas ocorridas no sculo XVIII4

    catalisaram novas compreenses e posicionamentos quanto ao corpo, intrnsecos a cada um desses

    desenvolvimentos acrescentando desta forma que o sexo, tanto no mundo do sexo nico como no

    de dois sexos, situacional [e] explicvel apenas dentro do contexto da luta sobre gnero e poder

    (LAQUEUR, 2005, p. 33)

    Partindo desses posicionamentos quanto construo da diferenciao dos sexos, baseada na

    interpretao da constituio orgnica da natureza humana, marcada pela desigualdade hierrquica

    entre os polos masculinos e femininos, marcao poltica de poder na construo social do gnero,

    constato a presena de um discurso de separao e organizao de turmas por sexo nas escolas da

    rede de educao bsica no municpio de Pio XII. Esta constatao me levou a investir na

    problemtica da investigao, buscando compreender como os professores e professoras de

    Educao Fsica significam e avaliam as suas prticas docentes; quais explicaes e interseces

    discursivas utilizam para distribuio das turmas por sexo; como est constituda a organizao

    pedaggica da elaborao e distribuio dos contedos e o que norteia esse posicionamento na

    construo das percepes de gnero no cotidiano escolar.

    Utilizando-me da concepo de Norbert Elias (1994) de teias de relaes e

    interdependncias na construo de uma configurao, onde no h um isolamento das relaes,

    mas uma cadeia, acrescento minha perspectiva de constituio e de produo do gnero em aulas

    de Educao Fsica, no municpio de Pio XII, a tentativa de compreenso do espao escolar

    trazendo para o debate deste tema os/as gestores/as e os/as alunos/as. Como Foucault (1988)

    comenta sobre a construo de discursos e o entendimento dele, no necessariamente devemos

    centrar o olhar e a escuta sobre um nico ato discursivo, mas percorrer toda uma rede de cadeias

    estabelecidas. Nesse sentido, elenco como importante o acolhimento dos discursos de diversos

    sujeitos que fazem parte da instituio escolar.

    Partindo destas questes iniciais, sistematizei as anlises e interpretaes, aproximando-as

    de uma perspectiva ps-estruturalista por esta apresentar a possibilidade de entendimento dos fatos

    sociais com suas interseces poltica, cultural e social, em relaes de poder, rompendo com a

    viso dualista [de produo dos sujeitos de gnero], [...] que remete a ideia de essncia [...] dando

    4A ascenso da religio evanglica, a teoria poltica do iluminismo, o desenvolvimento de novos tipos de espaos

    pblicos [], as ideias de Locke de casamento como um contrato, as possibilidades cataclsmicas de mudana social

    elaborada pela Revoluo Francesa, o conservadorismo ps-revolucionrio, o feminismo ps-revolucionrio, o sistema

    de fbricas com sua reestruturao da diviso sexual do trabalho, o surgimento de uma organizao de livre mercado de

    servios ou produto, o nascimento das classes, separadamente ou em conjunto (LAQUEUR, 2005, p. 33) (traduo

    minha).

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    lugar subjetividade como produo de diferenas em um espao de criao e inveno, de

    movimento de foras e fluxos (CARVALHO, 2010, p. 21).

    O aspecto terico-prtico da Educao Fsica Escolar, de acordo com Kunz (1993) se

    constitui o carter fundamental de treinamento de corpos e aquisio de habilidades que, quando

    direcionado exclusivamente por critrios biolgicos de diferenciao, reduz a compreenso de

    cultura de movimento. Assim, as produes discursivas sobre gnero no espao da Educao Fsica

    escolar objeto deste estudo que tem como objetivo: Compreender as concepes de gnero dos/as

    professores/as de Educao Fsica, sobre os modos como direcionam a sistematizao dos

    contedos das aulas prticas no Municpio de Pio XII, tendo em vista, o destaque que tem o aspecto

    prtico na disciplina, diferenciando atitudes e prticas em funo do gnero.

    Metodologia

    Nesse sentido, busquei conhecer as metodologias adotadas pelos (as) professores (as) para o

    ensino prtico da Educao Fsica em Pio XII, pois como venho destacando, a diferenciao por

    sexo das aulas prticas o aspecto que considero fundamental para o entendimento tambm do

    modo de se produzir o gnero. Os elementos significativos ou categorias que possibilitam a

    compreenso e o desenvolvimento desse objetivo so como expressam Neira e Nunes (2008), as

    possibilidades de utilizao de metodologias, sejam elas estritamente prticas na execuo da aula

    ou tericas em sua construo.

    O estudo foi divido em trs fases (15 de agosto a 15 de setembro de 2014; 10 de outubro a

    15 de dezembro e 10 e 30 de maro de 2015) com objetivos especficos: 1) firmar o primeiro

    contato e construir as informaes sobre os (as) professores (as) que estavam atuando em sala de

    aula, identificao das escolas que possuam a disciplina de Educao Fsica em sua grade

    curricular e acompanhar/participar de algumas aulas prticas; 2) observao participante, a

    realizao das entrevistas e a organizao para as reunies dos grupos focais com os/as estudantes

    das escolas identificadas e 3) preencher algumas dvidas e lacunas que surgiram no decorrer das

    transcries das entrevistas e dos grupos focais, alm de acompanhar o planejamento letivo para o

    ano de 2015 na semana pedaggica. As entrevistas com os/as professores/as e gestores/as e os

    grupos focais (quadro grupos5) foram gravados e tiveram durao mdia de 40 minutos, j as

    observaes participantes e conversas informais foram registradas no caderno de campo no

    5 Cada grupo focal correspondeu a uma escola participante, com mdia de 15 estudantes regularmente [email protected]

    independente do turno, em dois encontros correspondente a segunda etapa da pesquisa.

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    transcurso da pesquisa. [email protected] @s participantes assinaram o termo de consentimento livre e

    esclarecido.

    Algumas informaes produzidas...

    Os espaos para as aulas prticas de educao fsica escolar so limitados. As escolas

    estaduais possuem quadra poliesportiva, apenas uma coberta e as escolas municipais no possuem

    espao prprio, o que demanda deslocamento para a AABB6 que estabeleceu um convnio com a

    prefeitura municipal para utilizao de suas dependncias (campo society, quadra de vlei de areia,

    quadra de futebol de areia, pois rea da piscina o acesso no permitido). Pela conformao dos

    espaos as aulas prticas so distribudas em horrios contra turnos nas escolas municipais e nos

    ltimos horrios nas estaduais. O deslocamento do/a aluno/a para as aulas prticas se caracteriza

    como principal justificativa para a execuo de aulas no contra turno pelos/as professores/as do

    municpio, tendo em vista a disperso gerada at a chegada ao local.

    No municpio de Pio XII, possvel destacar dois polos de execuo para as aulas prticas,

    tendo em vista os espaos e estruturas fsicas: 1) o modo como regido nas instituies estaduais e

    2) o modo de fazer Educao Fsica na rede municipal. A diferenciao de execuo e distribuio

    das aulas incide tanto na disponibilidade de material quanto no acesso ao espao de prtica. O

    componente terico ministrado dentro da grade regular de horrios no turno, em todas as escolas

    envolvidas, mas em contra turno a atividade prtica. O aspecto prtico predomina nas escolas

    municipais

    A distribuio das turmas na organizao metodolgica das aulas de Educao Fsica, de

    acordo com o posicionamento dos/as professores/as, se d por questo de convenincia, ou seja, por

    ser mais fcil trabalhar com as turmas separadas por sexo, onde o controle exercido pela

    autoridade do/a professor/a mais efetivo, o que percebido nas falas dos/as professores/as.

    Utilizando o posicionamento de Bolino (2004) que apresenta a construo metodolgica da

    educao no seu processo de afirmao enquanto disciplina, podemos destacar que a diferenciao

    dos sexos, no contexto da Educao Fsica, sempre se fez presente e que com o passar das

    geraes tornou-se conveniente fazendo desta prtica uma rotina aceitvel e legitimada no mbito

    das instituies escolares.

    6 Associao Atltica do Banco do Brasil.

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    Segundo Janurio (2012), esses aspectos fazem parte da construo da identidade do/a

    professor/a de Educao Fsica no processo de formao de professores/as. A reproduo das

    experincias e do referencial de ser professor/a intensifica a marcao dos esteretipos

    profissionais estabelecidos no decorrer da construo da Educao Fsica, enquanto profisso e

    disciplina escolar, o que se reproduz tambm no sistema educacional de Pio XII.

    A delimitao dos contedos para meninos e meninas tem como critrio central a

    disponibilidade de material de acordo com o posicionamento dos/as professores/as, porm a

    definio das atividades direcionadas baseada na subjetividade dos/as docentes que apresentam

    como caractersticas femininas representaes como docilidade, a suavidade e a delicadeza em

    contraponto s representaes masculinas, tais como agressividade, fora e indisciplina. Nesse

    sentido, a manuteno desses esteretipos no cotidiano dos/as alunos/as fortalece a compreenso de

    comportamento natural imutvel dos sexos (ROMERO, 1990; 2001). Quanto a este aspecto, Judith

    Butler (2004) nos inspira a problematizar a construo da naturalizao dos sexos/gneros em uma

    hierarquizao de poder, onde o feminino subjugado pelo masculino.

    Ao focalizar nas falas dos/as professores/as quanto ao comportamento e predisposio

    facilitada da participao para o ensino e os comentrios proferidos pelos/as alunos/as, partindo da

    proposio de Foucault (2012) sobre as construes discursivas como produtoras daquilo que

    nomeiam, materializam coisas e sujeitos, entendo que o posicionamento dos/as professores/as,

    direta ou indiretamente, reproduz e atualiza os ditos (as representaes) sobre as expectativas de

    comportamento de meninos e meninas. A este respeito, podemos utilizar o argumento de Louro

    (2000) que apresenta a Educao Fsica como disciplina corporal que permite a construo efetiva

    dos corpos no espao escolar como encaixe s normas heteronormativas visualizando o feminino

    como dcil e gentil e os meninos como fortes, tendentes agressividade e policiando os desviantes.

    Acrescenta-se ainda, nessa discusso, a tentativa de insero de meninos e meninas no

    transcorrer do processo de ensino das escolas de ensino mdio. Ao ocuparem o mesmo espao, o

    posicionamento do/a professor/a quanto forma de distribuio dos contedos alterada na

    tentativa de motivar a participao de meninas e meninos nas mesmas atividades. Mas o que chama

    ateno que durante todo o decorrer da vida escolar as vivncias em Educao Fsica so pautadas

    na diviso sexual das turmas, j que o contato inicial estabelecido no ensino fundamental demarca

    esta separao, direcionando os interesses dos/as alunos/as. O que de algum modo proporciona

    maior visibilidade prtica do futebol em detrimento das demais modalidades.

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    Nessa perspectiva, possvel contrapor o posicionamento dos (as) professores (as) quanto

    participao dos/as alunos/as. Embora as escolhas sejam direcionadas, havia momentos no decorrer

    da aula em que as meninas, por exemplo, solicitavam o futebol. Porm, no identifiquei esse mesmo

    posicionamento em relao aos meninos quanto s atividades executadas pelas meninas.

    Desse modo, podemos conceber que a demarcao dos papis sociais de gnero (gnero

    inteligvel) construda na produo/reproduo performativa das expectativas estipuladas pela

    heteronormatividade compulsria dos padres constitudos de referncia (BUTLER, 2003). Assim,

    as meninas deveriam permanecer na vivncia dos jogos ldicos e demais modalidades, mas o

    futebol e o futsal seriam exclusividade dos meninos.

    Quando a prtica voltada para uma atividade rotineira o futebol as construes sobre o

    desempenho das meninas destacadas pelos meninos se exacerbam ao afirmarem que meninas no

    sabem jogar, o que refora as representaes da educao fsica consonante com concepes

    heteronormativas em torno da prtica esportiva, sobretudo em relao ao futebol, naturalizado como

    coisa de homem.

    Os burburinhos percebidos no grupo focal 3 quando se colocou prova a feminilidade das

    meninas que jogavam futebol certinho, adjetivos como mulher macho e sapato foram

    destacadas pelas alunas e confirmados pelos alunos. A associao do desempenho tcnico e ttico

    sexualidade das meninas foi marcante na fala dos garotos, embora alguns tambm chamassem

    ateno para as aes inversas quando eles praticavam as atividades tidas como femininas, a

    exemplo da brincadeira de pular elstico, reiterando a diviso baseada na diferena sexual.

    Em estudo realizado para identificar as motivaes para a auto excluso de alunas nas aulas

    de Educao Fsica, Andrade e Devide (2006) expressam que o posicionamento dos/as

    professores/as quanto s metodologias de ensino e o cuidado em perceberem as dificuldades

    expressas pelas alunas para a participao nas aulas precisam ser revistos e, acrescentam, que as

    discusses sobre as construes sociais das diferenas nas relaes de gnero no devem ser

    renunciadas, pois, impedem a elaborao de processos crticos quanto naturalizao das diferenas

    e das desigualdades na prtica corporal. Corroborando com estes autores, Costa e Silva (2002)

    afirmam que no cotidiano escolar preciso que existam oportunidades de aprendizados e

    aprendizagem que sejam significativas, que visibilizem o outro com respeito instituindo um

    trabalho conjunto, caso contrrio, a escola continuar a segregar, dividir e dificultar as prticas que

    subvertem a ordem estabelecida de homogeneizao.

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    Outro aspecto que deve ser apresentado corresponde ao silenciamento dessas discusses

    pelos/as professores/as de Educao Fsica, j que no decorrer das aulas prticas os/as alunos/as

    caoam, esbravejam adjetivos pejorativos e os/as professores/as entendem como brincadeira.

    Algumas consideraes

    A utilizao dos lugares e as disposies que os sujeitos estabelecem durante as aulas

    prticas so produtos de um longo processo de assimilao, internalizao e naturalizao dentro da

    rede de ensino bsico no qual as prticas em Educao Fsica so experimentadas e cuja repetio

    do fazer, presente na disciplina, demarca e engendra comportamentos que sero a cada novo

    ciclo, realimentados e reforados.

    A adoo do procedimento metodolgico de separao das turmas pode ser categorizada e

    compreendida em duas vertentes. A primeira sendo percebida como estratgia para efetivao das

    aulas tendo em vista a escassez de espaos estruturais apropriados (ausncias de materiais

    esportivos e espaos fsicos, como quadra poliesportiva) dentro da escola e a segunda (por sinal,

    mais incisiva), como facilidade pedaggica de controlar e estabelecer a ordem disciplinar de

    controle dos movimentos e delimitao das atividades justificadas pela ao de um planejamento

    fcil e simples, que leva em considerao informaes de vivncias anteriores, especialmente

    dos/as professores/as.

    O estabelecimento dos contedos direcionados aos/s alunos/as com base nas marcaes de

    gnero que possuem os/as professores/as (o que de menino e o que de menina) se destaca como

    empecilho para as vivncias dos/as estudantes na educao fsica, alm de reforar esteretipos

    associando a prtica de atividade fsica com identidades de gnero e sexualidades, colocando em

    prova as feminilidades e masculinidades dentro de quadra e fora dela. O encobrimento dos debates

    (ou mesmo ausncia destes) que problematizem as construes sociais de gnero e os esteretipos

    vinculados prtica de Educao Fsica escolar ou at mesmo do esporte, no qual destaco o futebol,

    dificulta e de certa maneira impossibilita a criticidade quanto aos construtos de desigualdade de

    gnero e da fixao de caractersticas do ser homem ou mulher.

    O estudo realizado no limita e nem pretende fixar as construes sociais de gnero no

    espao da Educao Fsica escolar em Pio XII, mas permite um ponto de partida, uma discusso

    sobre o papel desta e qual a importncia de sua insero no currculo obrigatrio, visibilizando

    algumas problematizaes sobre o modo de fazer a Educao Fsica suas metodologias e prticas

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    que leve em conta, o gnero como categoria que deve ser questionada quando se trata de assent-

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    Gender relations in the space of physical education in the municipality of pio xii ma

    Abstract: This study is a reflection on the processes of gender productions in school, especially in

    the areas of Physical Education School/PES in the Municipality of Pio XII/MA. In a

    poststructuralist perspective of understanding gender production, the paper analyzes the gender

    conceptions of PE teachers about the ways they guide the systematization of content in practical

    classes that differentiate attitudes and practices according to gender. By listing the constituted,

    elaborated and reified discourses and representations of teachers, managers and students, the study

    is presented as an ethnographic work visibilizing the interrelations inherent to the school daily life

    that update, displace and reproduce the conceptions of the roles Of what should be "a man" or "a

    woman." The transit in the spaces of the PES, making visible the practices of the teachers who

    construct in a field of dispute of power the conceptions of gender, made possible to emphasize

    actions of the daily life of the school that, by their automated and routine reproductions, assume a

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    naturalizing character In their practices, such as the permanence of the division of the classes by

    "sex", either by criteria established by the teachers or by the students themselves during the mixed

    classes. The immersion movement in the investigative field occurred between August 2014 and

    March 2015, in the comings and goings during the data construction process through interviews,

    focus groups and participant observations.

    Keywords: Social relations of gender. Productions of gender. Physical School Educatio., basic

    education.