As Virtudes do Homem Bom - .i i i i i i i i As Virtudes do Homem Bom Um paralelismo entre Platão

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    As Virtudes do Homem BomUm paralelismo entre Plato e Aristteles

    Hugo Lopes

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    Covilh, 2014

    FICHA TCNICA

    Ttulo: As Virtudes do Homem BomUm paralelismo entre Plato e AristtelesAutor: Hugo LopesColeco: Artigos LUSOSOFIADesign da Capa: Antnio Rodrigues TomComposio & Paginao: Filomena S. MatosUniversidade da Beira InteriorCovilh, 2014

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    As Virtudes do Homem BomUm paralelismo entre Plato e Aristteles

    Hugo Lopes

    ndice

    1. Introduo 42. Plato 52.1. Grgias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52.2. A Repblica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

    3. Aristteles 163.1. tica a Nicmaco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163.2 Poltica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22

    4. Consideraes crticas 285. Referncias Bibliogrficas 325.1. Bibliografia Primria . . . . . . . . . . . . . . . . . 325.2. Bibliografia Secundria . . . . . . . . . . . . . . . 33

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    1. Introduo

    O presente texto encontra como tema central o debate em torno dohomem bom platnico e aristotlico. O primordial objectivo sertratar o conceito de virtude e excelncia em Plato e Aristteles, deforma a encontrar o ideal tico e poltico que constitui a aco dopolitikon zoon, dando enfse a alguma bibliografia secundria parasustentar a nossa interpretao, o comentrio expositivo e a anlisecrtica.

    Este ensaio est organizado em trs partes distintas, das quaisas duas primeiras se dividem em dois subcaptulos. Inicialmente,ser desenvolvida a tese de virtude platnica em Grgias e naRepblica. Apesar de existir um leque mais abrangente de livrossobre o autor que tratam o tema em questo, optei por me restringira estes dois dilogos, por forma a assegurar uma maior coernciaintelectual e rigidez organizativa. O autor apresenta alguma incon-sistncia e dicotomia, na medida em que d um enfase a diferentesvirtudes em cada dilogo, como ser desenvolvido adiante. Noentanto, existem pontos fulcrais e consistentes. Para Plato edu-car formar um homem virtuoso, pela sabedoria a filosofia con-duz felicidade e virtude, permitindo uma aco justa e corajosacom moderao. Posteriormente, sero abordadas as obras tica aNicmaco e Poltica, de Aristteles. Este, por sua vez, apresentauma maior coerncia terica e distingue dois tipos de virtudes ouexcelncias: ticas e tericas. O homem, para ser bom ter quedispor de determinadas condies inatas, que se desenvolvem aolongo do tempo pela experincia, mas tambm ter que desenvolveruma natureza diferente como resultado da aprendizagem e hbitosque, uma vez consolidados, passam a fazer parte da aco humana.Para o autor a virtude um meio-termo entre excesso e defeito.

    Quanto a metodologia de trabalho, o mtodo utilizado, alm dapesquisa na bibliografia primria (referida anteriormente), passapelo uso de uma srie de obras referenciadas. Estas permitiram

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    um enquadramento terico e uma melhor compreenso dos tex-tos, bem como a sua anlise crtica. Sero abordadas apenas astemticas consideradas relevantes para este trabalho e no um re-sumo integral dos pensadores, e privilegiarei tambm o enquadra-mento das temticas nos livros. Desta forma, ao longo do textofarei referncia localizao dos conceitos na obra original, bemcomo comentrios construtivos e expositivos, de forma a explicaras definies.

    Alm desta exposio terica, na concluso crtica ser adi-cionado ao que foi j desenvolvido e comentado ao longo do texto,um paralelismo entre os dois autores. Procurarei focar as princi-pais semelhanas e diferenas entre os pensadores, e comprovar seAristteles poder ser considerado um platnico ou no, e se sim,em que sentido, j que nunca o poderia ser de uma forma absoluta.

    2. Plato

    2.1. Grgias

    Este dilogo tem como tema central a retrica1 e o seu fundamentocomo arte e instrumento poltico, uma avaliao dos que exercemesta actividade e a sua tica2 na actividade poltica. No obstante,num autor to importante e complexo como Plato esto sempre

    1Conjunto de regras relativas eloquncia com o objectivo de tornar o dis-curso convincente. a arte de persuadir pelo discurso. Serve-se, sobretudo, dosprincpios provveis admitidos por todos e, principalmente, do entimema comoopinio; utilizada a induo no sentido lato, que procede por exemplos, e re-gula o emprego dos lugares dialcticos tendo em conta as condies prprias dodiscurso. (Lobo, 1991: 142).

    2Domnio da filosofia que se dedica ao estudo dos valores referentes con-duta humana. (Lobo, 1991: 63).

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    presentes perguntas como o que a virtude, a justia, o bem ouo belo. no seguimento destas questes que apresentada umatese, segundo a qual os homens desconhecem a verdadeira naturezado bem e da virtude (aret)3. Nenhum verdadeiro bem, poder oujustia est ao alcance de quem no tem conhecimento filosfico,na medida em que a filosofia a cincia do que permanece ver-dadeiro, o caminho para uma vida boa e virtuosa. Constata-se,assim, a necessidade de ensinar a virtude, orientar no caminho dafilosofia para que o bom orador seja aquele que pratica aces jus-tas, ao contrrio dos defensores da retrica. Embora quem praticaa retrica aparente ser sbio e justo, isso no se verifica na pr-tica. Por conseguinte, e posto que a retrica no uma coisa bela(Plato, 2004: 463a4), ela no ser, certamente, uma virtude.

    Os homens procuram a felicidade, no entanto, como condioda prpria felicidade, estes no podem cometer injustias: o ho-mem e a mulher so felizes quando so bons e virtuosos, infelizesquando so injustos e maus (470e). A felicidade reside numaaco de acordo com a sabedoria e a justia. A injustia, almde no trazer felicidade ao homem, o maior dos males: na suaaco, o homem bom deve visar o conceito de justia (dikaiosyne).A sabedoria, por seu termo, tem um carcter importante para opensador porquanto o homem bom ser o mais inteligente: ums homem sbio tem mais poderes do que milhares de homens queno o so, a ele que cabe comandar e aos outros obedecer (490a).No entanto aqueles que podem ser chamados os mais poderosos emelhores so inteligentes, mas tambm corajosos (491c), logo, ohomem bom dever ser sbio e corajoso. Noutras palavras, a co-ragem (andreia) e a sabedoria (sophia) revelam-se como duas vir-tudes constitutivas do homem virtuoso.

    3Capacidade ou excelncia, seja qual for a coisa ou o ser a que pertena.Os seus significados especficos podem ser a capacidade ou potncia em geral,a capacidade ou potncia prpria do ser humano ou a capacidade de naturezamoral, prpria do Homem (Lobo, 1991: 159).

    4Doravante, todas as referncias a esta obra iro enunciar apenas a quota.

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    O prazer e o bem tm naturezas diferentes. Prazer algo deimediato, que deriva de uma sensao, enquanto o bem algoeterno. A virtude reside numa vida moderada e sem excesso, pro-curando o bem em vez do prazer. Sendo a filosofia sinnimo desabedoria, o bem em si mesmo, ser ela o fim ltimo da acohumana, aquilo a que o homem aspira para se tornar virtuoso. Afilosofia coloca-se ento no plano inteligvel, e no no sensvel.

    A virtude deriva da ordem, do castigo, da harmonia e da pro-poro. O homem bom aquele que pratica o bem, o nico capazde ser feliz. O objectivo do indivduo deve ser alcanar a justiae a temperana como condio para a felicidade. Um homem es-cravo das suas paixes no pode ser amado. Se merecer um cas-tigo, deve aceit-lo, porquanto este tem um valor educativo: a vir-tude pode e deve ser ensinada. mais feio cometer uma injustiado que sofr-la (489a), mas ser justo implica sabedoria e conhec-imento do bem. Como apenas o mais sbio (filsofo) tem esseconhecimento, dever ser ele a governar, de modo a tornar a polise os cidados melhores, educando-os e ensinando a virtude. Oscidados devem esforar-se para serem bons, mas se praticarem omal devem ser castigados como um pagamento pela aco, j queo bem, a seguir ao de ser justo, consiste em tornar-se justo, pa-gando a sua falta com a punio (527b). O homem injusto nopode ser feliz enquanto no expiar a sua culpa, enquanto a almano se libertar dos males (477b).

    Neste ponto encontra-se a Paideia platnica, uma noo deeducao e cultura sobre o homem como ser individual, social epoltico: a instruo no como uma mera transmisso de tcnica,mas como formao global e universalizante do ser humano. Apaidia est assente na filosofia como prpria condio da edu-cao, a nica via que pode conduzir o homem ao bem e justia,pois sendo a virtude una e podendo ser ensinada, fruto da sabedo-ria e fonte de felicidade. A verdadeira educao ento aquelaque orienta o indivduo no caminho da filosofia, para o bem uno e

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    imutvel, para a virtude. E o educador, por conseguinte, dever seraquele que possui o conhecimento da justia. Esta importncia daeducao em Plato deriva do facto de ela ser fruto de um conheci-mento racional, que faz com que o autor combata a ignorncia, demodo a levar os homens a procurar o prazer em vez do bem.

    O autor predispe aqui que a virtude de cada coisa consistenuma ordem e numa feliz disposio resultante da ordem (506d).Esta ordem destaca-se como um conceito que se tornar primor-dial neste dilogo: a temperana (sophrosyne); conceito referidoanteriormente, mas que merece uma explicao mais aprofundada.Aquele que possuir temperana, que seja sophron, ou seja, mode-rado e com autocontrolo, ser necessariamente um homem