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ATUALIDADE< •04
Descobertalusa dá novaspistas paratratar malária
Mais perto da vacinaDescoberta feita porportugueses pode«revolucionar» o quese sabe sobre a maláriae a forma de a combater.CARLA MARINA [email protected]
•É, dizem os investigadores doInstituto de Medicina Molecular(IMM), uma descoberta revolucionáriaaquela que foi ontem publicada na re-vista científica Nature Medicine. Feitaem Portugal, a investigação mostra quea fase hepática da malária, que mata600 mil pessoas por ano, não é, ao con-trário do que se acreditava, invisível.
A informação, que «promete revolu-
cionar o conhecimento científico sobrea malária», segundo o comunicado dainstituição, vai influenciar a forma comodevem ser desenhadas as estratégiasde intervenção para eliminar eficaz-mente o parasita que causa a doença.
É que antes de infetarem os glóbulosvermelhos e causarem malária, os pa-rasitas precisam de infetar as célulasdo fígado (hepatócitos). Nesta fase, cadaum divide-se em milhares, sem causarquaisquer sintomas clínicos, levandoa crer que esta fase era invisível. O queos investigadores descobriram é quenão é assim, algo que «pode ajudara desenvolver novos tratamentos evacinas antimaláricas mais eficientes»,explica o investigador Peter Liehl.
A malária, causada pela picadela de um mosquito, mata 600 mil todos os anos
Parasita da malária,afinal; não tem capade Harry Potter
Equipa de Maria Mota descobriu que, ao contrário do que se pensava,o parasita não é invisível para o sistema imunitário na primeira fase da infeção
FIIOMENA NAVES
Era uma espécie de dogma. Como du-rante os primeiros sete a dez dias emque o parasita da malária se encontrano fígado a reproduzir-se, depois de apessoa ter sido infetada, não há sinto-mas da doença, pensava-se que nessafase ele ficava ali escondido e o organis-mo não conseguia detetá-10. Afinal nãoé assim. O Plasmodium, o parasita damalária, não tem nenhuma capa de in-visibilidade à Harry Potter e o sistemaimunitário não só reconhece a sua pre-sença como ainda consegue matar me-tade deles ainda no fígado.
Esta é mais uma importante desco-berta da equipa coordenada pela inves-tigadora Maria Mota, do Instituto deMedicina Molecular (IMM) da Univer-sidade de Lisboa, que abre novos cami-nhos de trabalho para desenvolver tera-pêuticas inovadoras contra a doença.
Quando um mosquito infetado como parasita da malária pica os seres hu-manos e lhes e transmite a doença, a in-feção não se declara de imediato. O Plas-
modiumvia]a. através do sangue até ao
fígado e durante dez dias re-produz-se ali aos milhares,sem que haja quaisquer sin-tomas. Eles só surgem passa-dos esses dez dias, quando oparasita, então já transformado num exército, volta aosangue. Pensava-se que ain-da no fígado o Plasmodiumconseguia iludir o sistemaimunitário, mas o trabalho
da equipa de Maria Mota,publicado ontem na revistaNatiire Medicine, mostra queo parasita é detetado por umtipo específico de células edepois combatido.
"O nosso trabalho faz aprimeira descrição de quehá uma resposta imunitáriacontra o parasita ainda no fígado, e al-guns dos parasitas são mortos nestafase", afirmou Maria Mota ao DN. "Ouseja, ele não tem um manto de in visibi-lidade à Harry Potter como se pensava",sublinhou a investigadora.
Com esta descoberta, a sua equipaquebra um mito com muitas décadas eabre novas perspetivas para o combate
à doença."O tipo de antenas do
sistema imunitá-rio que de-
teta o
Plasmodium ainda no fí-gado é o mesmo que iden-tifica também um tipo devírus no qual se inclui o ví-rus da hepatite C e isso émuito importante porqueneste mesmo artigo de-monstramos também queas pessoas com hepatite Cestão menos infetadas coma malária", adianta MariaMota.
Em estado de alerta de-vido à presença desses vi-
rus no organismo, essas cé-lulas acabam por estarmais preparadas quandosurge o parasita no fígado,e isso aumenta a capacida-de de resposta imunitária.
Dois estudos epidemiológicos reali-zados há alguns anos em populaçõeshumanas indicavam justamente que aspessoas infetadas com hepatite C ti-nham menos infeções de malária. "Nãose percebia porquê, agora o nosso tra-balho explica esse resultado", sublinha,satisfeita, Maria Mota.
Aporta que aqui se abre no combateà malária é muito clara. "Se conseguir-mos pôr estas antenas a funcionar an-tes de o parasita chegar, poderemos au-mentar a resposta imunitária e em vezde se eliminar metade dos parasitas nofígado poderemos eliminá-los todos enão chega a haver infeção", explica Ma-
ria Mota. Nos modelos animais que aequipa testou é exatamente isso
que acontece.Peter Liehl, da equipa, e oprimeiro autor do artigo,
também está satisfeito.Esta é uma "descober-
ta inesperada quepoderá ajudar a
desenvolver no-vos tratamen-
tos e vacinasantimalári-
cas mais efi-cientes nofuturo",diz.
600 MILVítimas mortais calcula-se que anual-
mente morram em todo o mundo mais de600 mil pessoas devido à malária. Cercade 90% destas vítimas mortais, que sãona maioria crianças, ocorrem nos paísesda África subsariana, segundo a Organiza-
ção MundiaLde Saúde (OMS).
300 MILHÕESInfetados com malária em estado agudo
em todo o mundo e em cada ano, segundodados da Organização Mundial de Saúde.
30Crianças morrem a cada trinta
segundos devido à malária, segundocáLculosda OMS.
40%População mundial em risco, segundo
dados da Organização Mundial de Saúde,embora a malária seja hoje uma doençasobretudo das regiões tropicaise subtropicais
Estudoda malária temmais de cem anos
Foi há mais de cem anos, em1880, que o médico francês Charles La-veran descobriu que as pessoas infeta-das com malária apresentavam um pa-rasita no sangue, o Plasmodium ,e de-finiu-o então como causa doença.Poucos anos depois, ainda no séculoXIX, um outro médico, o inglês Sir Ro-nald Ross, que trabalhou muitos anosna índia, descobriu que estes parasitassão transmitidos aos seres humanospela picada dos mosquitos Anopheles,quando eles estão infetados. Por causados seus trabalho, os dois receberammais tarde o Prémio Nobel da Medici-na. Mas o ciclo de vida do parasita noorganismo humano era um mistério.Foi preciso esperar por 1947 para queoutros dois médicos ingleses, HenryShortt e Cyril Garnham, fizessem umanova descoberta: a de que durante osprimeiros dez dias da infeção, que sãoassintomáticos, o parasita está no fíga-do a replicar-se aos milhares. Sabe-se
agora que ele não fica indetetado peloorganismo, como se acreditava.
Maria M . MotaUma vacinapara a malária
UMA EQUIPA de in-vestigadores do Insti-tuto de Medicina Mo-lecular de Lisboa, lide-rada por Maria M.Mota, protagonizoumais um passo na lutacontra a malária, comdescobertas que po-dem ajudar a desen-volver uma vacina efi-caz. Resultados anun-ciados dias depois da
investigadora ter sidoescolhida para o pres-tigiado Prémio Pessoa.
//FIGURADO DIA
Maria M. Mota coordena a equipa de investigadores
Mais um passo,português, na lutacontra a maláriaINVESTIGAÇÃO
PROMETE ser mais um gran-de passo na luta contra a ma-lária. Uma equipa de investi-gadores do Instituto de Me-dicina Molecular (IMM), daFaculdade de Medicina deLisboa, chegou a uma conclu-são que poderá desencadear
avanços nos tratamentos evacinas contra aquela doen-
ça. Dirigida por Maria M.Mota, a equipa de investiga-dores descobriu que, afinal, o"hospedeiro" é capaz de de-tetar os parasitas que chegamao fígado e tenta combatê-losativamente. Fá-lo é da mes-ma forma que o faz para com-bater certos tipos de vírusque em nada se assemelham
àqueles parasitas.A malária foi detetada há
cerca de 100 anos e definidacomo uma infeção dos glóbu-los vermelhos provocada porparasitas "plosmodium".Meio século depois, desco-briu-se que essa infeção eraprovocada pelos mosquitos"anopheles". Nessa altura,ainda não se sabia onde se ins-talavam os parasitas nos pri-meiros dez dias após a "mor-
didela", antes de se espalha-rem pelo sangue e provoca-rem a febre fatal. Em 1947,dois cientistas descobriram
que se instalava no fígado e se
propagava através do sangue.Sem sintomas. O que levou ageneralizar-se a ideia de queo corpo (hospedeiro) não era
capaz de o detetar nessa fase.A equipa de Maria Mota
veio agora afirmar que sim,que o deteta e combate, masda mesma forma que identi-fica outras infeções viraisque nada têm a ver com osparasitas transmitidos pelosmosquitos. O que poderápermitir desenvolver umavacinação eficaz, c.v.
VENCEDORADO PRÉMIOPESSOAMaria Manuel Motafoi distinguida recen-temente com o pré-mio Pessoa deste ancdevido a esta investi-gação. O trabalho vaiser brevemente pu-blicado na revista"Nature Medicine".
Descoberta. E se amalária deixar de seruma doença fatal?
Equipa de Maria Manuel Mota publica trabalhoque abre novos caminhos para combater doençaMARTA F. REISmana. [email protected]
E se o parasita da malária puder ser derro-tado à chegada ao organismo e antes de semultiplicar pela corrente sanguínea, cau-sando a doença que todos os anos mata 600mil pessoas? Um trabalho publicado ontemna edição online da "Nature Medicine", ante-cipando a publicação de Janeiro, sugere queisso pode ser possível e que o sistema imu-nitário parece estar equipado para isso. Aspistas que poderão revolucionar o tratamen-to da malária chegam do laboratório da inves-tigadora Maria Mota, este ano distinguidacom o prémio Pessoa, e vão continuar a seraprofundadas no Instituto de Medicina Mole-
cular, em Lisboa.Antes de entender esta novidade, é preci-
so lembrar como o parasita actua. Depois deser depositado na pele através de uma pica-da de mosquito - na malária os vectores sãoas fêmeas da espécie Anopheles - o parasitavai directamente para o fígado, onde infec-ta células hepáticas. Após uma fase que durapelo menos uma semana e durante a qual ainfecção é assintomática - começa a dividir--se em milhares e são estes parasitas queacabam por atingir os glóbulos vermelhos,entrar na corrente sanguínea e intoxicar oorganismo, causando infecções agudas quepodem causar a morte. Até aqui, pensava--se que esta fase inicial da infecção era "invi-
sível" às defesas do hospedeiro. É essa pre-missa da investigação do combate à doençaque o trabalho do IMM vem alterar. A ideiacomeçou a ser explorada por Peter Liehl,investigador de pós-doutoramento na equi-
pa de Maria Mota e primeiro autor do estu-do. Depois de Liehl detectar uma respostaimunitária nesta fase, começaram a testarratinhos deficientes nessa resposta e cons-tataram que havia mais do dobro dos para-sitas nos fígados manipulados. Daí, deramoutro salto. Manipulando diferentes senso-res do sistema imunitário dos ratinhos con-seguiram identificar um que está por detrásda detecção e ataque.
Por agora, a equipa conclui que o sistema
imunitário detecta o parasita e conseguematar mais de metade no fígado. Provavel-mente, por duas razões, explicou ao í MariaMota: uma questão de tempo - entre mon-tar a resposta e matar, o parasita pode já estara sair do fígado - e/ou porque o parasita de-senvolveu formas de escapar.
Tornar esta primeira linha de defesa maiseficaz, quando a aposta tem sido evitar a pica-da ou controlar a infecção a jusante, é o novoobjectivo. Pensar num cenário em que mes-mo sem erradicar o mosquito todos os casosseriam assintomáticos e a malária deixariade ser uma doença potencialmente letal é anova hipótese. 'Teoricamente seria possível,mas ainda não estamos lá. Esperamos umdia conseguir", diz a cientista.
Fase inicial da infecção pode ser combatida pelo sistema imunitário
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