Auxilio Reclusao Previdencia Social

  • View
    823

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of Auxilio Reclusao Previdencia Social

O auxlio-recluso na previdncia social brasileira e estrangeiraRoberto Luis Luchi Demo*

SumrioProlegmenos 2. O auxlio-recluso nos regimes prprios de previdncia social dos servidores pblicos 3. O auxlio-recluso nos regimes prprios de previdncia social dos militares 4. O auxliorecluso no regime geral de previdncia social 5. O auxlio-recluso no direito comparado.

ProlegmenosA previdncia social dos servidores pblicos e dos militares antecede a previdncia social dos trabalhadores da iniciativa privada. Isso porque a proteo social dos servidores pblicos e dos militares historicamente mais organizados que os trabalhadores da iniciativa privada - sempre foi considerada, dentro de uma poltica de pessoal, como benesse estatal a fim de compensar algumas restries impostas a eles e desse modo atrair e manter bons quadros no servio pblico e nas Foras Armadas. Nesse sentido, as aspiraes dos servidores pblicos e militares por aumentos de remunerao e melhorias das carreiras desembocavam, muita vez, em benefcios previdencirios. Alis, o pioneirismo da previdncia social dos servidores pblicos e dos militares se reflete j no art. 75 da Constituio Federal de 1891, a estabelecer que a aposentadoria s poder ser dada aos funcionrios pblicos em caso de invalidez no servio da nao, enquanto a previdncia social dos trabalhadores da iniciativa privada s ganhou envergadura constitucional com a Constituio Federal de 1934, cujo art. 121, 1, alnea h, determinava a instituio de previdncia, mediante contribuio igual da Unio, do empregador e do empregado, a favor da velhice, da invalidez, da maternidade e nos casos de acidentes de trabalho ou de morte.

trilhados pelo regime geral de previdncia social, sendo os caminhos dos regimes prprios, por assim dizer, mais generosos, implicando um desequilbrio na despesa do Estado. A partir desta constatao, sobreveio a Emenda Constitucional 20/1998 nominada Reforma da Previdncia Social -, a fim de aproximar aqueles caminhos e que bem demonstra a evoluo da legislao previdenciria brasileira, assim como em diversos outros pases, na direo de um sistema nacional nico de proteo social. Tanto assim que a Lei 9.717/1998, uma das leis que regulamentam a aludida emenda constitucional estabelece no seu art. 5 que os regimes prprios de previdncia social dos servidores pblicos da Unio, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municpios e dos militares dos Estados e do Distrito Federal no podero conceder benefcios distintos dos previstos no regime geral de previdncia social, de que trata a Lei 8.213/1991, salvo disposio em contrrio da Constituio Federal. De outra parte, merece registro a iniciativa do Conselho Nacional de Justia que, sob a presidncia do Ministro Gilmar Mendes, lanou luzes para o problema crnico da situao dos presos no Brasil, especialmente a permanncia em presdios daqueles que, nos termos da legislao, j deveriam ter sido beneficiados com a liberdade ou com progresso de regime, situao que corresponde a cerca de 30% da populao carcerria. Nesse sentido, o Conselho Nacional de Justia implementou um conjunto de medidas voltadas para a insero social dos presos, a humanizao do crcere, a modernizao das varas de execuo penal e a informatizao dos presdios. Um exemplo dessas medidas a realizao de mutires carcerrios com a reviso de processos em curso nas varas de execuo criminal. Esse o contexto e considerando que um dos aspectos previdencirios da priso, qual seja, o auxliorecluso ganhou evidncia com a recente deciso do Supremo Tribunal Federal no RE 486.413 e no RE 587.365, ambos relatados pelo Ministro Ricardo Lewandowski na assentada do dia 25 de maro de 2009, quando o Plenrio ps termo discusso sobre o parmetro de concesso ser a renda do segurado preso ou de seus dependentes, tenho como alvissareira

Tpicos jurdicos 56

Nesse passo, convm salientar que os regimes prprios de previdncia social dos servidores pblicos e dos militares seguiram caminhos diversos daqueles

*

Juiz Federal Substituto em Braslia-DF

Revista do Tribunal Regional Federal da 1 Regio, v. 21, n. 6/7, jun./jul. 2009

uma abordagem do auxlio-recluso nos regimes prprios de previdncia social dos servidores pblicos e dos militares para, em seguida, aprofundar o exame dos seus contornos jurdicos no regime geral de previdncia social. Essa metodologia se justifica at para estimular um estudo conjunto dos diversos regimes de previdncia e, partindo de uma viso holstica ou panormica, aferir suas divergncias e convergncias ao longo do tempo e verificar suas atuais semelhanas e diferenas de maneira crtica1. Outrossim, no poderia encerrar o presente trabalho sem tecer algumas consideraes sobre o equivalente ao auxlio-recluso no direito comparado, o que fao no ltimo captulo.

2. O auxlio-recluso nos regimes prprios de previdncia social dos servidores pblicosCada ente federativo pode instituir um regime prprio de previdncia social para seus servidores pblicos, que dever obedecer s regras gerais dispostas no art. 40 da Constituio Federal de 1988 e na Lei 9.717/98. Especificamente em relao ao auxliorecluso, h de se observar tambm o art. 13 da Emenda Constitucional 20/1998, que limita este benefcio previdencirio aos dependentes dos segurados de baixa renda. Embora no se trate de obrigao, mas de mera faculdade, a Unio, todos os Estados, o Distrito Federal e 2.186 Municpios instituram regimes prprios de previdncia social2. No mbito da Unio, o regime prprio dos servidores pblicos atualmente regulado pela Lei 8.112/1990, cujo art. 229 estabelece que o auxlio1

recluso devido famlia do servidor ativo, nos seguintes valores: [i] dois teros da remunerao, quando afastado por motivo de priso, em flagrante ou preventiva, determinada pela autoridade competente, ou seja, no caso de priso processual, enquanto perdurar a priso; e [ii] metade da remunerao, durante o afastamento, em virtude de condenao, por sentena definitiva, a pena que no determine a perda de cargo, ou seja, no caso de priso penal. No primeiro caso, vale dizer, no caso da priso processual, o servidor ter direito integralizao da remunerao, desde que absolvido. O pagamento do auxlio-recluso cessa a partir do dia imediato quele em que o servidor for posto em liberdade, ainda que condicional. No caso de priso de servidor aposentado, sua famlia no ter direito a auxlio-recluso, j que o servidor continuar recebendo normalmente seus proventos da inatividade. Passemos em revista agora os regimes prprios de alguns Estados. Da regio sul, cite-se a Lei 12.398/1998, que cria o Sistema de Seguridade Funcional do Estado do Paran e nomina o auxlio-recluso de penso por priso do segurado, que ser concedida, nos termos do art. 59, ao conjunto de dependentes do segurado recolhido priso, que no receba remunerao, vencimentos ou proventos de inatividade. A penso decorrente de priso consistir em renda mensal equivalente a dois teros da remunerao, vencimentos ou proventos do segurado e subsistir enquanto perdurar o seu recolhimento priso. A penso decorrente de priso ser devida a contar da data em que for requerida pelos dependentes do segurado, que devero instruir seu pedido com certido do efetivo recolhimento do segurado priso, sendo obrigatria, para a manuteno do benefcio, a apresentao peridica de declarao de permanncia na situao de preso. O direito penso decorrente de priso extinguir-se- no dia imediato quele em que o segurado for posto em liberdade, ainda que condicional. Se, cumulativamente com condenao penal, o segurado sofrer perda da funo pblica, a penso decorrente de priso ser devida at o terceiro ms subsequente ao da sua libertao. No caso de falecimento do segurado enquanto preso, a penso decorrente de priso ser convertida em penso por morte, salvo na hiptese de perda da funo pblica em virtude da condenao penal, caso em que o benefcio ser pago at o terceiro ms seguinte ao do bito do

2

De se observar, entretanto, que os regimes prprios de 276 Municpios se encontram em extino. Todos esses dados constam do Anurio da Previdncia Social de 2007, disponvel em www.mps.gov.br.

Revista do Tribunal Regional Federal da 1 Regio, v. 21, n. 6/7, jun./jul. 2009

Tpicos jurdicos

At porque j no se pode mais considerar a previdncia social dos servidores pblicos e dos militares como matria exclusiva de direito administrativo. Nesse sentido, no raro encontrar, nos atuais manuais de direito previdencirio, captulos tratando dos regimes prprios de previdncia social. Do mesmo modo, os atuais manuais de direito administrativo dedicam algumas pginas para explicar conceitos clssicos do direito previdencirio, como carter contributivo, equilbrio financeiro e atuarial e previdncia complementar. E essa imbricao inclusive foi considerada pelo Plenrio do Supremo Tribunal Federal no referido julgamento do RE 486.413 e do RE 587.365, cuja discusso da matria, a envolver o auxlio-recluso no regime geral de previdncia social, somente foi encerrada quando o Ministro Carlos Britto invocou e leu o art. 229 da Lei 8.112/1990, ou seja, o auxlio-recluso no regime prprio dos servidores pblicos federais.

57

segurado. A fuga da priso, por parte do segurado, implicar a suspenso da penso. Na regio sudeste, a Lei 285/1979 dispe sobre o regime previdencirio dos servidores pblicos do Estado do Rio de Janeiro e estabelece, no seu art. 43, que, quando o segurado perder a condio de servidor em virtude de condenao em processo criminal, ser pago auxlio-recluso aos seus dependentes, desde que no disponham de meios para prover sua mantena. J no seu art. 44 registra que o auxlio-recluso ser devido, aps 24 contribuies mensais, desde que o segurado detento ou recluso no perceba qualquer espcie de remunerao nem esteja no gozo de benefcios de outra instituio previdenciria. O auxilio-recluso ser pago durante o cumprimento da pena e cessa imediatamente no dia em que o ex-segurado for posto em liberdade. O auxlio-recluso s ser pago a partir do