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BEM DE FAMLIA E HOLDING FAMILIAR:

O LIMIAR ENTRE A PROTEO DO ESTADO E A ORGANIZAO FAMILIAR

Eduardo Cordeiro Soares Miranda1

O artigo visa reflexo sobre a proteo do patrimnio familiar e sua efetivao prtica na sociedade brasileira. Os conceitos, como no poderiam deixar de ser, partem de breve estudo histrico sobre a proteo dos bens familiares, passando pela atual relao do Instituto do Bem de Famlia e da Holding Familiar. O Estado garante atravs da Lei 8.009/90 o Bem de Famlia Legal e, atravs do Cdigo Civil de 2002, o Bem de Famlia Voluntrio. O estudo realiza um paralelo entre a previso legal e a utilizao prtica do Bem de Famlia Voluntrio em decorrncia das exigncias legais para sua criao e das vantagens nfimas que o mesmo pode trazer ao instituidor. Temos, ento, o objeto central do presente estudo, aproximar e tecer comparaes entre o bem de famlia e a Holding Familiar. O artigo tem como referncias tericas, principalmente, MAMEDE, AZEVEDO, RITONDO, VENOZA, DIAS e DINIZ.

PALAVRAS-CHAVES : sociedade, Estado, bem de famlia (legal e voluntrio);

propriedade; proteo; impenhorabilidade; inalienabilidade; organizao familiar;

holding familiar.

INTRODUO

O artigo versa sobre a proteo dos bens da famlia, uma das bases

fundamentais do Estado brasileiro.

E, para compreender como a propriedade da famlia no Brasil tutelada pelo

Estado, h que se estudar a cronologia com que esta proteo se apresenta nos

dias atuais.

Nossa atual Constituio, conhecida por sua qualidade social, o ponto de

partida para a compreenso da necessidade de se garantir a propriedade da famlia,

neste caso, verificamos que pelo princpio da ponderao ou da proporcionalidade,

1 Bacharel em Direito, 2011, pelo Instituto Superior do Litoral do Paran ISULPAR. Artigo apresentado ao Centro de Estudos Jurdicos do Paran Curso Prof. Luiz Carlos, como requisito parcial obteno de ttulo de Ps-Graduao latu sensu em Direito Civil e Processo Civil, orientado pela professora Liliane Maria Busato Batista.

que a tutela da segurana familiar possui relevncia sobre a tutela da segurana

econmica e civil, a inovadora funo social trazida pelo texto constitucional.

A famlia, hoje compreendida sobre um prisma de possibilidades, atrai a

ateno do Estado por ser a clula da sociedade brasileira, uma micro sociedade

composta por pessoas com afinidade e propsito de cooperao.

O objetivo do estudo compreender qual a melhor forma de proteger a

propriedade da famlia, haja vista, que a legislao possibilita algumas variveis que

sero abordadas e, portanto, buscar a soluo para o problema apresentado, qual

seja, escolher a melhor forma de garantir a perpetuao do patrimnio e da clula

familiar.

A estrutura do artigo baseou-se no estudo de doutrinas especficas sobre o

assunto, legislaes, artigos, jurisprudncia e doutrinas diversas que tratam de

assuntos como famlia, sucesso, empresa, testamento, dentre outros.

2 BEM DE FAMLIA, BREVE OLHAR HISTRICO.

O Estado brasileiro tem especial ateno proteo da famlia, um dos

alicerces de nossa sociedade que, por seu turno, fruto do desenvolvimento

ocidental globalizado.

O principal marco para o atual entendimento da matria foi o trmino da

Segunda Grande Guerra Mundial, pois se formaram dois principais modelos poltico

econmicos mundiais, o Socialismo e o Capitalismo, evidente que no foram

formas absolutas, h variaes de sua utilizao para cada Estado e sociedade,

mas enfim, utilizaremos os modelos bsicos para formar o pensamento antagnico

que se conflitava naquele momento histrico.

Por um lado, tnhamos uma sociedade basicamente europeia sovitica que

desenvolvia um Governo baseado no ideal socialista em que o Estado concentrava

as aes no Governo e, depois, dividia as obrigaes e direitos para a sociedade.

De outro, havia o modelo norte americano baseado no ideal capitalista, em

que o Estado deveria interferir o mnimo possvel, deixando aos particulares a

organizao social.

Ocorre que, por diversos fatores histricos, o modelo socialista perdeu fora,

vindo a entrar em colapso no final dos anos 1980.

Mas em que pese o modelo norte americano, at mesmo pela menor

necessidade de gastos com o Governo, ter se estabelecido como a principal

referncia mundial de forma poltico econmico governamental, no se pode olvidar

que as influncias da origem do socialismo refletiram diretamente no nosso modelo

atual de sociedade.

Aps a Guerra a Sociedade Ocidental viu-se diante de realidades que, se

antes j haviam ocorrido, nunca antes afetaram tamanha rea territorial e grupos

sociais distintos. O sentimento no ps Guerra era de impotncia diante dos

resultados para ambos os lados.

Assim, mesmo os grupos sociais capitalistas perceberam que seu modelo

no poderia evitar a sensao de insegurana que o controle mnimo estatal

privilegia, pois a ausncia de governo no mais respondia s necessidades dos

indivduos e, pelo lado socialista, temia-se novamente o aumento do poder

governamental e de seus representantes.

A pacificao destes modelos resultou no Estado do bem estar social e da

estabilizao do modelo democrtico de governo. Neste desenvolvimento, vamos

utilizar a expresso mesmo sabedores que a histria cclica e no possui evoluo

constante, passamos por diversas geraes de direitos.

A Constituio Federal de 1988 nasceu, portanto, sob as influncias destas

mudanas conceituais que a sociedade ocidental sofreu nos ltimos anos.

Por certo, a Constituio foi promulgada com uma essncia social,

democrtica e igual, um modelo de legislao. O Prembulo da Promulgao a

define de forma elementar:

Ns, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrtico, destinado a assegurar o exerccio dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurana, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justia como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a soluo pacfica das controvrsias, promulgamos, sob a proteo de Deus, a seguinte Constituio da Repblica Federativa do Brasil.2

2 BRASIL, Constituio da Repblica Federativa do Brasil , 1988.

Diante da necessidade de proteo dos indivduos e da sociedade, o

legislador ampliou garantias e direitos vinculados famlia, base da sociedade

brasileira.

O Estado brasileiro, para proteger a famlia, garantiu na Constituio o

direito propriedade e, mais especificamente, moradia. A casa tornou-se asilo

inviolvel, conforme o art. 50, caput da Constituio Federal de 1988 e inciso XI do

mesmo artigo:

Art. 5 Todos so iguais perante a lei, sem distino de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no Pas a inviolabilidade do direito vida, liberdade, igualdade, segurana e propriedade, nos termos seguintes: ... XI - a casa asilo inviolvel do indivduo, ningum nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinao judicial; ... XXII - garantido o direito de propriedade;3

No artigo 6 da CF, encontramos, como um direito social, a moradia,

conforme segue:

Art. 6 So direitos sociais a educao, a sade, a alimentao, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurana, a previdncia social, a proteo maternidade e infncia, a assistncia aos desamparados, na forma desta Constituio.4

Em que pese a previso Constitucional em defesa da moradia, sua aplicao

prtica depende de leis infraconstitucionais para sua aplicao e, neste caso,

estudaremos algumas legislaes especficas, dentre elas, o Cdigo Civil de 2002 e

a Lei 9.009/90, respectivamente a previso legal do bem de famlia voluntrio e a

previso do bem de famlia involuntrio ou legal.

Outra variao da proteo da moradia e ou do patrimnio familiar a

instituio da Holding Familiar que tambm substancia o estudo do presente artigo.

A histria relata a importncia da famlia conforme ensina lvaro Villaa

Azevedo, na obra Bem de Famlia Com Comentrios Lei 8.009/90:

Toda vez que se desgastou a instituio da famlia , mostra-nos a Histria, desmoronaram-se imprios, perderam sua base, seu sustentculo.

3 BRASIL, Constituio da Repblica Federativa do Brasil , 1988. 4 BRASIL, Constituio da Repblica Federativa do Brasil , 1988.

O bem de famlia representa um meio de assegurar essa mais cara instituio, quanto ao mnimo necessrio, quanto ao mnimo suficiente sua existncia, equilibrando os interesses particulares com os coletivos.5

Vale ressaltar que a Constituio protege o direito ao bem, mas o acesso ao

mesmo continua limitado a uma pequena parcela da populao, que conforme

veremos, est automaticamente protegida pelo bem de famlia legal.

3 CONCEITO DO BEM DE FAMLIA

Muito se debate a doutrina para definir o momento histrico do nascimento

do conceito de famlia, inmeros so os doutrinadores que influenciaram e

continuam influenciando na sua determinao, dentre eles, os socilogos, os

filsofos, os antroplogos, os bilogos, os operadores do dir