Beyond Eyes e a Fenomenologia de Merleau-Ponty: Jogos ... ?· Beleza Exorbitante), Adauto Novaes (Mutações),…

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  • Beyond Eyes e a Fenomenologia de Merleau-Ponty:

    Jogos Digitais Como Metforas Conceituais

    Guaracy Carlos da Silveira*

    Universidade Presbiteriana Mackenzie. Doutorado Interdisciplinar em Educao, Arte e Histria da Cultura. Brasil

    RESUMO

    No amplo campo de anlise de jogos digitais, sua aplicao no ensino e consequente formao de docentes, norteado por uma perspectiva interdisciplinar entre arte, educao e histria da cultura, o presente trabalho prope o entendimento de jogos digitais como metforas conceituais a serem utilizadas em processos educacionais, exemplifica tal proposta no jogo Beyond Eyes como metfora da fenomenologia de Merleau-Ponty, apresentando relato de experincia educacional realizado com alunos da ps-graduao da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

    Palavras-chave: Fenomenologia, Merleau-Ponty, Metfora Conceitual, Beyond Eyes, Interdisciplinaridade.

    1 INTRODUO O doutorado em Educao, Arte e Histria da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie - UPM, investiga processos interdisciplinares, em especial a linha de pesquisa de formao do educador para a interdisciplinaridade almeja compreender processos de ensino e aprendizagem a partir das dimenses cognitivas, tcnicas, polticas, histrico-culturais e artsticas, tendo como eixo questes postas pela tecnologia e contemporaneidade.

    Neste campo, investiga-se a aplicao de jogos digitais a processos de ensino e mediao cultural, e para tal feito, lana-se olhar crtico aos processos educacionais vivenciados no prprio curso. O presente artigo oriundo da disciplina Contemporaneidade: percepo e crtica, ministrado pela professora doutora Elcie A. Fortes Salzano Masini, cuja fundamentao terica acerca da percepo tem lastro na fenomenologia de Merleau-Ponty.

    Compreende-se que o jogo digital pode ser utilizado como dispositivo educacional neste contexto, sendo duas suas instncias: a de elemento propositor para discusses e como metfora conceitual. No presente artigo fazemos uma breve reviso sobre a Fenomenologia da Percepo de Merleau-Ponty, analisamos o jogo Beyond Eyes luz de ambas e relatamos a vivncia educacional realizado com os alunos da disciplina.

    2 CONTEXTUALIZAO A disciplina de Contemporaneidade: percepo e crtica, ofertada na modalidade optativa para os alunos do programa de mestrado e doutorado em Educao, Arte e Histria da Cultura da UPM, prope em sua ementa o estudo e reflexo sobre temas que propiciem compreender e analisar fenmenos cotidianos da cena contempornea a partir de elementos de pesquisa cientfica e

    enfoques de diferentes autores, que lanam luzes, sobre o existir humano, na contemporaneidade do sculo XXI, no contexto cultural da educao e arte. A bibliografia inclui autores como Mikahil Bakhtin (Esttica da Criao Verbal), Jean Gallard (A Beleza Exorbitante), Adauto Novaes (Mutaes), Tzvetan Todorov (A Beleza Salvar o Mundo), Maria Helena Patto (Exerccios de Indignao) e Edgar Morin (Educar na era Planetria). Como estratgia pedaggica a disciplina estrutura-se na leitura de textos selecionados seguida de discusses temticas realizadas pelos alunos orientados pela professora.

    A discusso acerca da percepo pressupe conhecimento e familiaridade com a teoria da fenomenologia formulada por Merleau-Ponty, visto que boa parte da discusso da percepo na contemporaneidade baseia-se nesta. Acreditamos que o processo de familiarizao e conhecimento da teoria possa ser enriquecido atravs da utilizao dos jogos digitais, em especfico do jogo Beyond Eyes, para tal, nas apresentaes finais da disciplina realizadas pelos alunos, realizamos proposta de vivncia educacional, onde foi feita a experimentao do jogo, sendo que posteriormente aplicou-se questionrio para coleta de impresses.

    2.1 A Fenomenologia Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) filsofo e fenomenlogo francs buscava uma compreenso das formas mais elementares do comportamento excluindo a casualidade mecnica e o espao geometricamente entendido, o que implica no recurso de um espao ligado ao corpo como uma parte de sua carne, visto que o objeto da cincia dos seres vivos a apreenso daquilo de os torna vivos.

    Para ele a percepo implica a significao do percebido, condio de todas as associaes apreendidas como conjunto. Merleau-Ponty foi muito influenciado pela obra de seu mestre Edmund Husserl, onde este props o conceito de conscincia intencional, Ponty procura ir alm, dando corpo (carnalidade) a encarnao no mundo da vida, levando esta as ltimas consequncias.

    Segundo Chau [1] o autor confronta as posies behavioristas e gestalistas em psicologia, ao afirmar que o interesse pela noo do comportamento advm de suas possibilidades para uma compreenso do mundo humano que escape da reduo mecanicista dos acontecimentos psquicos quanto da assimilao do psiquismo conscincia pura. Principalmente, quando o faz em seus escritos, invocando a experincia do pintor, contrapondo-a ao modo como a filosofia interpreta a experincia, demorando-se nos instantes em que ver, ouvir ou falar-escrever atravessam a carapaa da cultura instituda e desnudam o originrio de um mundo visvel, sonoro e falante.

    Para Zuben [2] a fenomenologia proposta por Merleau-Ponty pode ser compreendida como Estudo das Essncias, ou seja, uma filosofia que recoloca as essncias na existncia, o papel do homem

    *e-mail: guaracycarlos@gmail.com

    SBC Proceedings of SBGames 2017 | ISSN: 2179-2259 Culture Track Short Papers

    XVI SBGames Curitiba PR Brazil, November 2nd - 4th, 2017 963

  • e do mundo so compreendidos a partir do fato, assim, tenta-se descrever diretamente a experincia, tal como ela , desconsiderando sua raiz psicolgica e as possveis explicaes causais do cientista.

    Nobrega [3] realiza estudo sobre a proposta de percepo de Merleau-Ponty como atitude corprea considerando que a percepo trata de uma expresso criadora, oriunda de diferentes olhares sobre o mundo, das coisas ao pensamento das coisas, reduz-se a experincia segundo prope. A autora enfatiza a experincia do corpo como campo criador de sentidos, as sensaes aparecem associadas a movimentos e cada objeto convida a realizao de um gesto, no havendo, pois, representao, mas criao de novas possibilidades das diferentes situaes existenciais.

    Santaella [4] expe que para Merleau-Ponty a percepo s pode se dar nos entremeios da existncia de um corpo vivo, pulsando junto com o mundo, no conceito de carne do mundo.

    Tal compreenso fundamenta-se na percepo como sensibilidade esttica que Merleau-Ponty [5] cunhou a partir de estudos da pintura de Matisse e Czanne, afirmando que a obra de arte est colocada como campo de possibilidade para a experincia do sensvel, no como pensamento de ver ou de sentir, mas como reflexo corporal. A obra de arte seria tambm, um suplemento de sentido, formulada a partir da experincia vivida, sendo esta moldura existencial o que tornaria a narrativa ou quadro significativo para ns. Afirmando que a percepo seria a coordenao entre os rgos sensoriais e os msculos, havendo entre eles uma sinergia.

    Figura 1: Jas de Bouffan (1876), Paul Czanne.

    Merleau-Ponty conclui que na pintura de Czanne e Matisse o mundo no est diante do artista por representao, mas como acontecimento febril. Sendo que a contemplao da obra permitiria a experincia da percepo de modo mais intenso e vibrante, e que ambas so adequadas a uma educao da percepo esttica, entendida como correo para o fato de que desaprendemos a conviver com a realidade corprea, com a experincia dos sentidos, por privilegiarmos uma razo sem corpo.

    2.2 Metforas Conceituais Para Lima (et al) [6] o processo de gerao de metforas conceituais deve-se a capacidade imaginativa de razo humana, uma razo corprea, no sentido de que as estruturas diretamente significativas para o ser humano derivam da sua experincia corporal. Essa experincia orienta a gerao de esquemas de imagem de natureza sinestsica, que tem o corpo como ponto de referncia. Concluindo que uma metfora conceitual uma construo cognitiva baseada nas experincias socioculturais

    vividas, um modo de construo de conhecimento na forma de um mapeamento entre domnios de conhecimento, entendendo-se como um mecanismo imaginativo da razo que se configura como um modo fundamental de compreendermos e fazermos emergir sentidos.

    Figura 2: Le Bonheur de Vivre (1906), Henri Matisse.

    De fato, Almeida [7] ao considerar sobre a legitimidade da utilizao de metforas na produo do conhecimento busca compreender o pensamento metafrico num contexto que possa ser utilizado em sala de aula, apontando para as potencialidades deste na ordenao de sentidos no ensino de matemtica, argumentando que as metforas podem desempenhar cognitivamente um papel semelhante ao indutivo.

    Arruda [8] em seu estudo acerca do uso de metforas na fsica, conclui que elas desempenham importante papel na cincia, estruturando o discurso cientfico de tal forma que uma mudana numa metfora bsica pode acarretar mudana conceitual e formal do discurso e consequentemente na teoria em questo, exemplificando sua proposta na teoria quntica e da relatividade.

    De modo geral, estes estudos fundamentam-se em Lakoff e Johnson [9] que intuam acerca da importncia do fator cultural na criao e manuteno de metforas que estruturam o pensamento humano. Ao refletir acerca das repercusses pedaggicas da teoria de ambos Almeida [10] considera que nossas prticas sociais e institucionais so informadas por nossas crenas e que estas, por sua vez, devem uma boa parte de sua composio s metforas que nos ajudam a compreender diversos conceitos. Assim, a metfora utilizada pelo professor para dar conta da natureza do conhecimento de fundamental importncia para as prticas educativas.

    Farias [11] afirma que as Teorias da Metfora Conceitual podem servir de suporte no processo de ensino e aprendizagem, principalmente se considerado que a figurati