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Bezouro Nº5

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Nesta edição da revista, vamos revisar o Crime da Ulen, que pode ter sido o início da trágica história de mortes na família Kennedy. Vamos, também, mostrar como se vestem e se inspiram os jovens que estão dando seus primeiros passos para fora de casa. Tem ainda uma entrevista com Rubens Salles, músico, arranjador e compositor que se apresentou no Teatro Municipal da Cidade, trazendo novidades diretamente de Nova Iorque. Além de algumas reflexões sobre a estética do período eleitoral, esta Bezouro, um ensaio fotográfico de Taciano Brito e como as outras, traz sugestões de discos.

Text of Bezouro Nº5

  • O caminho para se construir a Bezouro n5 foi longo e tortuoso. Tangenciamos a hiptese de encerrar as nossas atividades jornalsticas e partir, at, em busca de novos horizontes. Felizmente obtivemos uma soluo para cada desafio que se apresentou. Agora, como uma equipe de colaboradores em permanente renovao, prosseguimos deixando a nossa marca na cobertura artstica e cultural de todos os nufragos e sobreviventes de So Lus.

    Nesta edio da revista, vamos revisar o Crime da Ulen, que pode ter sido o incio da trgica histria de mortes na famlia Kennedy. Vamos, tambm, mostrar como se vestem e se inspiram os jovens que esto dando seus primeiros passos para fora de casa. Tem ainda uma entrevista com Rubens Salles, msico, arranjador e compositor que se apresentou no Teatro Municipal da Cidade, trazendo novidades diretamente de Nova Iorque. Alm de algumas reflexes sobre a esttica do perodo eleitoral, esta Bezouro, um ensaio fotogrfico de Taciano Brito e como as outras, traz sugestes de discos.

    Entre em contato conosco pelo email [email protected] ou pela nossa pgina no facebook e tragam as suas contribuies e impresses sobre o nosso trabalho.

    Pablo HabibeEditor

  • REVISTA BEZOURO #5

    Maro de 2013

    http://www.bezouro.com

    UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHOwww.ufma.br

    REITORNatalino Salgado Filho

    VICE-REITORAntnio Jos Silva de Oliveira

    CHEFE DO DEPARTAMENTODE COMUNICAO

    Rosenete Ferreira

    COORDENADOR DE CURSOSlvio Rogrio

    COORDENAO EDITORIALProf a Vera Lcia Rolim Salles

    COORDENAO DE PRODUOPablo Habibe Figueiredo

    EDITOR CHEFEPablo Habibe Figueiredo

    CONSELHO EDITORIALProf a Vera Lcia Rolim Salles

    Pablo Habibe FigueiredoFranklin Veiga

    MATRIASRaysa Guimares

    Dmaris CostaPablo Habibe

    Paulo Henrique Moraes

    PROJETO GRFICOFranklin Veiga

    FOTOGRAFIASFlvio Salles

    Taciano Brito9D Studio

    Tieza Cutrim

    REVISOProf a Vera Lcia Rolim Salles

    Pablo Habibe Figueiredo

  • D M ARIS COSTA

    R AYSA GUIMAR ES

    Estudante de Jornalismo prestes a completar 19 anos, e que nessa edio, assina sua primeira matria. Ama tudo que envolve arte e tem uma queda assumida por moda. Acredita profundamente que estar na moda no se trata apenas de seguir tendncias e vestir roupas de grife, mas sim de ter personalidade para assumir um estilo prprio. justamente sobre isso que ela fala na matria Como e porqu se vestir em So lus dos 20 aos 30 anos. No mais, pratica yoga, apaixonada por animais e sonha em viajar pelo mundo.

    Estudante de Jornalismo que, nas horas de folga, divide o tempo entre buscar referncias de moda e exercer seu lado cinfilo. Acredita que moda pode ser acessvel a todos os bolsos e que nunca foi algo suprfluo, mas uma forma diferente de expresso e arte. Nesta edio, ela tambm assina a matria Como e porqu se vestir em So lus dos 20 aos 30 anos.

  • Fotgrafo profissional, Taciano Brito trabalha na 9D studio e colabora pela primeira vez com a Bezouro. Para ele, a arte em geral no te limita, no diferente na fotografia...tenho preferncia por fotos artsticas, tento sempre seguir essa linha, mas todo caso um caso!. sintomtico que uma cidade que vive um novo momento em sua produo artstica se apresente tambm capturada sob um novo olhar.

    TACIANO BRITO

    FLVIO SALLES

    PAULO HENRIQUE MORAES

    Ps-graduado em Histria.Faz msica por insistncia.L e escreve como se necessitasse.

    Flvio colabora pela segunda vez com a Bezouro e gosta de fotografar espetculos artsticos. Cores, movimentos, formas multiplicadas em muitas imagens. Luz e sombra. Movimento e pausa. S ensaes transmitidas pela arte de fotografar.

  • Em 2012, o msico e compositor re-tornou a So Lus para apresentar o disco Gravidade Lquida, gravado nos EUA com uma formao multinacio-nal. No show que realizou no Teatro da Cidade, Salles foi acompanhado por Daniel Santos (clarinete e saxo-fone), Isaias Alves (bateria), Jayr Torres (guitarra), Luiz Cludio (percusso) e Mauro Sergio (contrabaixo).

    BEZOURO: intencional esta proposta de interagir com temas

    conhecidos, trabalhando mais a dinmica nos arranjos?

    RS: Sim. Fiz isso muito isso em NY. Peguei o verso de Tom Jobim da ga-rota de Ipanema e rearranjei de ca-bea pra baixo. Uma coisa dos anos 50, 60, por exemplo, a obra do Jobim muito conhecida, mas eu no pensei a garota loira andando na praia e sim uma mulher meio punk, agressiva. um show power, a bateria forte, a percusso pegada, foge do que se es-

    pera de uma apresentao instrumen-tal mais convencional. A ideia foi trazer a complexidade mas, aliviar com outras coisas, ritmos com os quais as pessoas podem vibrar, meio rock roll esse show. No para ser leve e sim denso, um pouco agressivo at.

    BEZOURO: Essa abordagem de pegar esses temas que at j foram assassinados quando relidos comomsica de elevador e apostar na

    ENTREVISTA PABLO HABIBE FOTOS FLVIO SALLES

    Depois de estudar piano clssico no Brasil, Rubens Salles foi estudar jazz nos EUA em 99, na conceituada College of Music, em Boston. Em um de seus retornos ao Brasil, conheceu o percussionista Lus Claudio, com quem desenvolveu um trabalho marcado pelos ritmos maranhenses entre outros, gravado no disco Liquid Gravity. Ainda nos EUA fez mestrado em improvisao contempornea e se mudou para Nova Iorque, aonde reside.

  • Algumas faixas do lbum Gravidade lquida esto disponveis no site: http://www.rubenssalles.com/

    dinmica me lembrou Keith Jar-rett, na formao da banda, no resultado de dar um movimen-to que um instrumento esttico como o piano parece no ter. Fale um pouco das suas influncias.

    RS: Sou muito f do Keith Jarrett e acho que tem muita influncia sim, exatamente do toque e do jeito dele que mais suave que eu, mas no sentido da improvisa-o livre e eu gosto muito disso. Eu sou mais agressivo. Tem muita coisa planejada no som mas tem muito que vai acontecer. Isso que eu gosto, tem uma hora que tem de largar, vamos embora. Pra que lugar? Vamos, se der errado a gente volta. Correr o risco. Nossa

    improvisao de jazz, no jazz. Jazz outra coisa. A gente usa, mas tambm a msica brasileira, out-ras msicas americanas como o folk, samba, msica maranhense, usa tudo, a tcnica, a improvisa-o. A dinmica essa, dar liber-dade para as pessoas se soltarem tocando e sendo felizes. Claro que tem uma organizao. No posso deixar o cara tocar duas horas, mas os msicos so muito compe-tentes. Inclusive, foi uma surpresa encontrar uma banda desse nvel por aqui, depois de tantos anos fora do Maranho. Os caras foram incrveis. Fizemos apenas trs ensaios e o show. Eu acho interessante que o Mara-

    nho tenha essa via, de msicas que possam fazer voc pensar, re-fletir e trazer informaes. Nossa cultura popular, nosso jazz, tem outras coisas acontecendo no mundo. Os prprios msicos vi-eram perguntar se minha msica era experimental. um pouco, mas tem muita coisa acontecendo no mundo nesse nvel. Coisas incrveis que o pessoal tem de conhecer. No s os mais famosos, as lendas do jazz. Hoje em dia se tem muito acesso, tem internet, se pode baix-ar, se pode fazer. questo de pes-quisar e ter a informao. O mun-do caminha e se voc no caminha com ele, fica para trs.

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  • claro que o mesmo constrangimento nem sempre aparece no dia de cobrar a mesada. Tem uma hora que voc cansa de pedir, do dinheiro contado, da dependncia. Quando os pais cobram que voc arrume um emprego, mais do que uma maneira discreta de a natureza completar um ciclo. Normalmente voc est nos primeiros perodos da faculdade e se d conta das vantagens de ter seu prprio dinheiro para gastar com o que voc quiser. Mas, calma a! A grana ainda muito curta para quem est apenas comeando. preciso saber o que e aonde comprar para no pagar o mico de ter de pedir para os pais.

    A soma da vontade com a baixa ren-da produz as solues mais interessantes. Desde roubar uma roupa de algum ven-cido pela balana e adaptar, a garimpar ofertas em lojas de departamentos. Existem aqueles que apelam para os brechs e outros que levam as suas ideias diretamente para as costureiras do bairro. Enfim, como se vestem hoje os jo-vens entre 20 e 30 anos? Quais so suas influncias? O que hoje os leva a seguir um estilo ou criar o seu prprio?

    Pois , existe um momento na vida em que fica chato a nossa me escolher nos-sas roupas. Aquela combinao de blusa com saia que ainda serve, mas causa um constrangimento to grande quanto estar abraada com um mico enorme! Aquela vontade de fingir que no conhece o seu pai quando ele grita que vem lhe buscar antes da meia noite. Entendeu, no ?

    POR RAYSA GUIMARES E DMARIS COSTA

  • Aritanna Varney, 23 anos, no segue um estilo e no se deixa influ-enciar por banda ou cantora, mas, afirma que mistura estilos. , eu misturo. Tem dia que me d a louca e saio no estilo pin up, ou ento no estilo oitentista, vai muito da vibe, entendeu? ... Assim, eu sempre gos-tei muito da Dita Von Teese, eu me amarro em rockabilly, psychobilly, essa cultura musical dos anos 50, 60. Talvez a maior influncia seja disso. Se voc for ver o estilo dos psychobilly, aqui no Brasil, mesmo a galera usa muito o cabelo no esti-lo shelzy, uma coisa mais diferente. H tambm quem goste de se afirmar enquanto representante de uma determinada esttica ou tribo. Nega Glcia, DJ de 35 anos, ostenta com orgulho uma indumentria influenciada pelo reggae.

    Desde pequena eu j usava tranas no cabelo, a histria do reggae liga bem a, a galera tambm assim. Agora, as cores me encantam o vermelho, verde, amarelo e preto, tanto que meu filho quando olha essas cores j fala mame, mame, tenho pulseira, roupa, muita coisa assim. A a gente j pode dizer que tem uma influncia do reggae, do movimento. J Emerson Machado, de 23 anos, estudante de Jornalismo da UFMA, acha que todo mundo que chamado de estiloso sem-pre cai no senso-comum de dizer que no segue tendncia nem regras, mas acaba seguindo, querendo ou no.

    O calendrio fashion divide o ano em dois grandes eventos, o SPFW e Fashion Rio, que se ba-seiam nas estaes primavera/vero e outono/inverno para lanarem tendncias. Os blogs, redes sociais e a televiso so os principais difusores desse circui-to fashion. Muitas pessoas em So Lus usam esses meios como referncia para montar seu guar-da roupa, mas como adaptar o que sai das passarelas reali-dade ludovicense? At onde vo as influncias e onde comea a originalidade de cada um? Para comeo de conversa, ficou claro, pelas entrevistas, que existe um conflito latente entre um discur-so de originalidade e o desejo, s vezes inconfessvel, de fazer parte de um grupo.

    O Fetiche daoriginalidade

  • preciso lembrar, que a msica ja-maicana, suas cores e seus smbo-los, j no causam qualquer alvo-roo, assimilados como parte da paisagem cultural da cidade. Mes-mo assim Glcia ainda reclama de

    comentrios ridculos a respeito de seus cabelos em espaos

    pblicos (uma mistura de caretice extempornea e racismo). O que esperar ento destas vozes quan-do encontram uma jovem tatuada dos ps cabea (ou quase) por a?

    Elas olham e ficam Meu Deus, um circo de horrores, a cutuca o outro e fica Olha l! Tu viu?. Rola demais aqui em So Lus, mas no s aqui. Em So Luis a galera olha, aponta porque no tem muito disso aqui. Mas l em Braslia, por exemplo, eu ficava parada no ponto de nibus e as pessoas ficavam olhando assim, sabe?, disse Aritana enquanto arremedava os seus detratores. Enfrentar o preconceito parece ser uma experincia compartilhada por todos os grupos.O orgulho em no se deixar abater pela discriminao tambm comum. Pode ser qualquer coisa que interfira ou parea interferir na maneira de se vestir, desde a sexualidade do

    indivduo, passando pelas suas preferncias musicais, pela cor da pele e, finalmente, a preferncia geral da mdia pelas magrinhas. Raissa de Oliveira tem 19 anos, cursa Direito na UNDB e segue as tendncias sem fugir muito do que se espera dela, quando muito, misturando algumas estampas, para desespero da me, sem chocar a opinio pblica at por falta de opo. O maior obstculo que ela enfrenta so roupas de tamanhos maiores.Pra se adequar ao meu corpo e tambm ao meu estilo muito difcil, porque as lojas vendem mais roupa casual e no um estilo prprio, se eu quiser me vestir

    Orgulho e preconceito

  • de pin-up eu no vou achar, vai ser muito difcil, os meus

    culos, por exemplo, eu no comprei aqui eu comprei em Teresina, mais fcil comprar pela internet.Para Raissa, h muita diferena entre So Lus

    e, por exemplo, a Europa (aonde fez intercmbio). L

    eu podia misturar estampa do jeito que quisesse, usar a roupa que quisesse que ningum se importava.So Lus est crescendo, mas ainda vai demorar, o que

    poderia influenciar mais a televiso, mas aqui eles no fazem muito isso, eles tem medo de inovar.

    Na hora de montar o look, Emerson acredita que o problema no nem tanto essa enxurrada que se recebe da televiso, mas voc saber fazer o crivo. Na verdade tem que ter personalidade pra saber criar o estilo. E deixa claro que, quando o assunto filtrar as tendncias, o importante priorizar aspectos como bitipo, posio geogrfica e clima. Eu sempre fui magrelo e antes eu gostava muito de preto, mas consegui adaptar essas roupas ao meu corpo e a minha localidade porque andar o tempo todo de preto em So Lus que esse calor miservel, no rola.

    Sem deixar de lado o fator fi-nanceiro, o estudante de jornalis-mo alega que para ser estiloso no precisa necessariamente ter dinheiro, tem que ter gosto. Tem como fazer vrios looks sem ga-star muito. Porm, alerta sobre o preconceito das pessoas em achar que lojas de departamentos so mais acessveis, o que nem sempre acontece. No porque popu-lar que significa barateamento, conclui. Raissa, que assume uma opinio parecida, revela o que faz para ter um guarda-roupa invejvel: O segredo pra tu teres vrios looks diferentes, poder montar, no repetir tantas roupas comprar vrias peas baratas pra misturar com as caras.

    Quem no tem cocaa com gato

  • principalmente as que no so de banda, querendo ou no as mal-harias no produzem as camisas de outras cores. Tem, mas so poucas. s vezes a prpria malharia no d essa opo para gente. Quer pela influncia da mdia, pela grana curta ou por limitaes impostas pela prpria indstria, vestir-se como se quer nesta fase de autoafirmao desafio formidvel. Um verdadeiro embate entre a dignidade de comprar as prprias roupas e o conformismo de apelar para a grana do pai tem como prmio a conquista de seu reflexo no espelho.

    E no para por a, reaproveitar outra dica curinga quando se trata de economizar e ter es-tilo. Para Emerson no diferente, ele assume com orgulho a criativi-dade ao reaproveitar roupas usadas: o que eu chamo de re-leitura, tipo, essa ber-muda aqui ela nem era minha, era do meu

    primo a eu adaptei, cortei, comecei a usar

    com a barra itali-ana e j uso ela faz 6 meses. Eu no acredito na

    inventibilidade(sic) da moda, acho que tudo uma releitura. Se o problema for falta de opo e/ou dinheiro, uma sada apontada por Aritanna, apelar para a costureira: Geralmente assim que eu fao, short de cintura alta, blusa mais retr que difcil de encontrar aqui e quando encontra caro pra caramba a eu acabo mandando fazer tudo. Essa falta de opo no sentida somente por quem com-pra, mas igualmente por quem vende em lojas. Nynrod Weber, 26 anos, radialista e scio da Mad Rock Store tambm reclama. A gente tem um problema muito srio sobre a roupa, ainda no foi adequado um padro. (...) O nor-destino tem a mdia de 1,70m, l no sul a mdia quase 1,80m. A gente fica a merc do padro

    que eles usam no mercado deles. A galera do hard rock que gosta de camisa mais apertada, compra a camiseta pensando como que eles vo cortar. Com a mulher tam-bm. Por exemplo, a maioria das camisas baby look e elas geral-mente no tm funo nenhuma, porque uma baby look P, M ou G grande, ou compra uma masculina P e manda diminuir. Mas a gente tem esse problema de tamanho, a forma que tem que adaptar. Assim como Emerson disse que andar de preto em So Luis no rola, Nynrod tambm lida com esse problema na loja. Como o seu pblico alvo o pessoal que curte o rock, as malharias acabam levando isso a srio demais. A gente sem-pre procura trabalhar com vrias cores, tem branco, cinza, vermelho,

  • Quando s 17h30min do dia 30 de setem-bro de 1933, o ma-ranhense Jos de Ribamar Mendona disparara quatro

    tiros do seu revlver OV, calibre 32, contra o norte-americano John Harold Kennedy, mal sabia ele que aquele era o incio de uma trajetria marcada pela tragdia de uma das famlias mais importantes do s-culo XX. assim, pelo menos, que reza a lenda pelas bandas de c. O crime da Ulen, como ficou conhecido, aconteceu nas instalaes da Ulen Company, empresa em que trabalhavam os dois personagens principais nele

    envolvidos: o maranhense como bilheteiro e o norte-americano como contador. Certamente, este um dos crimes mais comentados da histria de So Lus, j foi tema de documentrio e livro, faz parte do imaginrio dos mais velhos da cidade e continua despertando curiosidade nos mais jovens por ser uma histria repleta de personagens e tramas que misturam fatos polticos e econmicos pontuais com elementos sociais de cunho quase folclrico. Misto de vingana pessoal,luta por soberania, jogo poltico inter-nacional, interesses econmicos e disputas jurdicas, a histria desse crime vai muito alm do fatdico

    assassinato. E em uma cidade sedi-m e n t a d a sobre tantos mitos e len-das, o crime da Ulen pode ser usado para reforar alguns deles. Mas ser mesmo o bilheteiro Jos de Ribamar Mendona um autn-tico representante da ilha rebelde? E ser o contador John Harold Ken-nedy, tio do presidente mais famoso dos Estados Unidos? Na dcada de 1920, So Lus tinha pouco mais de 50 mil habitan-tes, e, apesar de capital do Estado, sua situao socioeconmica no

  • era das melhores: condio estru-tural urbana precria aliada a poucas possibilidades de trabalho. Somado a isso, uma populao com alto n-dice de analfabetismo, comandada por figuras polticas oligrquicas que dominavam o Maranho. Foi neste cenrio que a Ulen Manage-ment Company, empresa com ori-gem em Nova York, representante do processo de expanso do capital americano com foco na indstria da energia eltrica, veio parar. Em 1922, foram estabelecidos os primeiros contatos com o norte-americano Henry Charles Ulen

    para a instalao da sua empresa na cidade. Magalhes de Almeida, ento oficial da Marinha brasileira, e que seria, quatro anos mais tarde, governador do Maranho, foi o in-termedirio da negociao que cul-minou, em 1923, com a assinatura do contrato que garantia compan-hia americana, primeiramente, a responsabilidade pela construo de obras referentes aos servios ur-banos, como o abastecimento de gua, luz e transporte, e, depois, pela administrao desses mesmos servios em So Lus. A chegada de uma companhia

    com a perspectiva de melhora, atravs dos seus servios, da condio de vida na capital, ainda mais com o status de ser originria de uma das maiores potncias do mundo, a principio, pareceu ser um avano para a sociedade ludovicense. Com o passar do tempo, a Ulen se mostrou um fardo para as contas do estado e motivo de revolta para a populao de So Lus. Os con-tratos firmados entre a empresa e o governo estadual eram, no mnimo, abusivos. Alm da completa isen-o de impostos e custeamento das despesas administrativas referentes execuo dos seus servios, a Ulen ainda tinha o privilgio, interme-diado pelo governo maranhense, de contar com somas altssimas de dinheiro advindas de emprstimos muitas vezes conseguidos junto a bancos norte-americanos. E no parava por a; caso houvesse o rom-pimento unilateral de contrato, o es-tado se sujeitaria ao pagamento de multas exorbitantes. Tudo isso em nome de um projeto de progresso, que infelizmente nunca aconteceu. A imprensa, cumprindo seu papel, tomou a frente nas denn-cias. No raro era encontrar nos dirios jornalsticos maranhenses, textos de repdio aos acordos firma-dos entre o governo e a Ulen: Um atentado dignidade, soberania de um povo, que viu a fonte princi-pal da sua riqueza pblica ven

    dida criminosamente aos agentes do capital de Wall Street, diria O Combate em 1933, j no auge dos descontentamentos com a situao. No mesmo passo, preocupa-da com os pssimos servios ofer-ecidos pela companhia americana, a populao revoltava-se cada vez mais. O aumento frequente de tari-fas, o no cumprimento da promes-sa de melhoria na condio urbana da cidade, o descaso no trato com os funcionrios da empresa, enfim, tudo isso amontoou-se de forma a tornar a presena da Ulen na ci-dade indesejvel. O assassinato do contador da companhia americana, John Harold Kennedy, pelo maran-hense Jos de Ribamar Mendona, tambm funcionrio da empresa, s que muitos escales abaixo, foi o pice da revolta que acometeu a so-ciedade ludovicense quela altura. Um ato movido pelo sentimento de vingana, para muitos, tanto pesso-al como social. Nos autos da priso em fla-grante, Jos de Ribamar Mendon-a mostrou-se ciente do crime que acabara de cometer: Matei agora mesmo o bandido que mais me per-seguia, mas no estou arrependido. O que ele no fazia ideia era que

  • seu ato teria desdobramentos que iriam alm das consequncias ju-rdicas concernentes ao crime. Jos de Ribamar, nome do padroeiro do Maranho, e, por isso, o nome mais comum entre os habitantes desta terra, foi transformado, ainda que de forma espontnea, sem nenhu-ma predeterminao poltica, em smbolo de luta social da populao de So Lus contra os desmandos

    da empresa americana, a poltica econmica dos EUA e a submisso do governo brasileiro na figura dos polticos maranhenses. O simples bilheteiro de bond-es, ento com 25 anos, viu seu julga-mento ser transformado num cam-po de batalhas no apenas jurdico, mas tambm social e poltica. Os argumentos de defesa forjados pelo hbil advogado Waldemar Brito, um especialista do direito criminal-ista no Maranho poca, apelaram para o sentimento de solidariedade social da populao ludovicense. Waldemar utilizou a relao catica

    da cidade com a Ulen para justificar o crime: A vingana reprovada, porm quando excitada por in-justia e insultos uma das fragili-dades mais desculpveis da nature-za, argumentaria ele aos jurados do primeiro dos trs julgamentos pelos quais passaria o maranhense. O crime da Ulen teve uma motiva-o pessoal: a demisso de Jos de Ribamar quando perto de completar seu dcimo ano de servios presta-dos companhia norte-americana, ttica utilizada pela Ulen, tambm com outros funcionrios, para fu-gir das obrigaes trabalhistas de ento, que garantiam estabilidade ao trabalhador que tivesse dez anos completos de servios prestados a uma mesma empresa. O norte-americano John Kennedy, contador da Ulen, era o responsvel direto por suas demisses; tornou-se o alvo da ira de Mendona depois de uma discusso nas instalaes da administrao da companhia, em que se recusou a pagar os ltimos meses de trabalho do bilheteiro. John Harold Kennedy, nascido no estado americano de Massachu-setts (assim como seu suposto so-brinho presidente), trabalhou na Ulen Company durante oito anos at o seu assassinato. Veio para So Lus com a comitiva administra-tiva da companhia. Solteiro, aqui se estabeleceu, tendo participao marcante na vida social da cidade.

    Apesar de sua seriedade e dureza na direo da Ulen, frequentemente era visto na Praa Joo Lisboa, lo-cal de reunio da boemia da cidade na poca. Fez parte do clube Os Lunticos, que reunia os jovens bomios da elite ludovicense; por ocasio de sua morte, algumas ho-menagens lhes foram prestadas pelo clube: a cadeira no 6, ocupada por ele, permaneceu vaga at a ex-tino do clube em 1941. O assassinato de Harold Ken-nedy foi noticiado em alguns dos principais jornais do seu pas, como o New York Times, e gerou certo desconforto diplomtico entre os EUA e o Brasil. A cada absolvio de Jos de Ribamar, era maior a presso da embaixada americana para que se realizasse um novo julgamento com resultado diferente. Durante onze anos, foram trs os julgamen-tos pelos quais passou Mendona - em todos eles, absolvido. Sucessi-vamente, nove Ministros de Estado e trs embaixadores envolveram-se na questo do crime da Ulen, em uma ofensiva poltico-diplomtica americana contra as decises do governo e da justia brasileira que tinha objetivos complementares: exigir a condenao do maranhense e garantir a total segurana dos con-tratos firmados e do funcionamento da companhia em So Lus. Apesar de acusaes de erros judiciais no tribunal do jri do Ma-

    A Ulen se localizava onde hoje se encontra a Secretaria de Planejamento, Oramento e Gesto do Estado, na esquina da Rua da Estrela com a Rua Direita (Henrique Leal).

  • ranho, que teria tomado sua deciso por influncia do clamor social que o crime causou na populao de So Lus, e da massiva presso feita so-bre o Itamaraty pelos representantes do governo americano para que esse clamor no interferisse na atuao da companhia na cidade, Jos de Rib-amar Mendona no fora condenado em nenhum dos julgamentos, e a Ulen, depois de algumas suspenses contratuais, finalmente deixaria So Lus no ano de 1946. Como resultado de um esforo de pesquisa elogioso, o pesquisador paraibano Jos Joffily publicou uma srie de documentos (ofcios, tele-gramas, fotografias e impressos de poca) em seu livro Morte na Ulen Company (RECORD, 1983), que mostram quase tudo referente pre-sena da Ulen em So Lus, alm de recontar com mincia a histria do crime e seus personagens. Maiores detalhes dos desdobramentos jurdi-cos e diplomticos do crime podem ser encontrados, tambm, no docu-mentrio O crime da Ulen (2007) dirigido pelo cineasta Murilo Santos, que recria, atravs de um jri simu-lado realizado em uma universidade maranhense, a atmosfera dos julga-mentos de Jos Mendona. Os dois trabalhos, apesar de recontar com cuidado o que h de lendrio e fol-clrico na histria e personagens que envolvem o crime, concentram-se no seu aspecto social e poltico, como

    forma de reafirm-lo. Sob a luz implacvel da histria, no h como negar que, a despeito de qualquer inteno de Jos de Ribamar ao assassinar John Kennedy, se agira apenas motivado por vingana pessoal, por questo de honra, ou por desespero frente ao futuro incerto sem o emprego que durante anos fora sua nica renda. fato que os limites do crime da Ulen foram alargados, ou mesmo ultra-passados. Tornou-se motivo da luta social de uma populao que bus-cava melhoria geral na qualidade de vida em So Lus na poca. Que fique claro, entretanto,

    que o entendido aqui como luta so-cial foi se gerando de forma espon-tnea sem contornos polticos pr-determinados ou intencionais, nem poderia ser diferente - em sua maio-ria, a sociedade ludovicense era quela altura uma massa disforme e analfabeta. O que aconteceu foi que a revolta pessoal de Mendon-a contra uma situao especfica, a sua demisso da companhia em que trabalhou durante longos dez anos, estendeu-se e transformou-se, atravs de um processo de soli-dariedade e identificao com o bi-lheteiro maranhense, na revolta de uma populao contra os problemas causados cidade por essa mesma companhia. O crime da Ulen foi o clmax dessa dupla revolta. Quanto ao suposto parentesco doKennedy assassinado no Mara-nho com a famlia Kennedy que deu aos Estados Unidos figuras do seu alto escalo poltico, no h qualquer documento oficial conhe-cido que comprove este fato - o que no significa absolutamente que no exista o parentesco. H de ser lembrado que, alm do sobrenome, tinham em comum a origem no es-tado americano de Massachusetts. Em 1933, ano do crime da Ulen, Joseph Patrick Kennedy, o patriarca e iniciador da trajetria de fama de uma das famlias mais importantes do sculo passado, cada vez mais as-cendia socialmente com o aumento

    de sua fortuna e sua entrada na vida poltica americana atravs da di-plomacia - seria embaixador no fim da dcada. Com tanto poder, no difcil imaginar que, caso houvesse realmente um parentesco prximo entre Joseph e Harold, uma histria indesejvel envolvendo a famlia fosse rapidamente jogada para de-baixo do tapete, l permanecendo quanto tempo fosse necessrio. poca, no havia qualquer interesse em saber se o John assas-sinado aqui no Maranho era um Kennedy, afinal a famlia ainda es-tava construindo sua celebridade na Amrica, no se sabia nada a respeito do futuro dos que carrega-vam esse sobrenome. Dispensou-se ateno maior para o nome John Harold Kennedy somente quando em 1963, assim como ele, o presi-dente americano John Kennedy, o seu homnimo famoso e suposto sobrinho, fora brutalmente assassi-nado. s a partir da que a histria do crime da Ulen ganha esse con-torno de lenda e mistrio, compro-vado o parentesco entre os dois.

  • POR TACIANO BRITO

    Amo o que fao, Sou apaixonado pela possibilidade de congelarsituaes eternizandomomentos

  • Vivo de fotografia, larguei tudo para me dedicar a arte como profisso!

    Eu me vejo velhinho,olhando minhas fotografias

    e sempre querendo fazer uma nova

    Desde a primeira vez que peguei em uma mquina e comecei a brincar eu j me

    considerei um fotgrafo

  • por Pablo Habibe

    Seria a gravata mais do que um cachecol vestigial? Como se deu a transio simblica de se dar maior importncia para uma utilidade esttica e secundria do que para as urgncias da proteo contra o frio?

    Lembro de, alguns anos atrs, trabalhando como as-sistente de direo na campanha de um candidato a cargo majoritrio, ter entrado em contato com um fato que se desenvolveu a partir desse mesmo dilema da gravata. Uma pessoa do ncleo duro da entourage do candidato fez questo de demonstrar sua preo-cupao a respeito da campanha contar com menos carros de som do que deveria.

    A questo no era ter plataformas o suficiente para le-var a mensagem do candidato para um nmero maior de eleitores, mas sim de demonstrar fora financeira. No se podia permitir que as pessoas dessem crdito a boatos de falta de recursos do postulante.

    importante lembrarmos que Chapeuzinho sempre teve a opo de acreditar no Lobo. Foi mais do que cu-rioso acompanhar o esforo que aquela campanha fez, multiplicando as presenas dos carros de som atravs de itinerrios que deixariam Napoleo Bonaparte num misto de confuso e inveja. No se tratava de uma rela-o de presa e predador do mundo animal, mas de um ritual de seduo e conquista interesseiro, sem amor.

    Da mesma maneira que um triunfo romano se desen-volveu a partir da ritualizao do retorno de um exrcito vitorioso com seus despojos, as carreatas so qualquer coisa menos uma manifestao espontnea. Em Roma, com o tempo, os triunfos ganharam carros alegricos e foram complementados com jogos de gladiadores e afins. Espero que as carreatas no cheguem a tanto, mas ser que precisam?

  • Z DE VINGANAMARCOS MAGAH

    VALSA E VAPORPHILL VERAS

    por Pablo Habibe por Gustavo Sampaio

    O primeiro disco de Marcos Magah vem despertando leitu-ras curiosas em ouvintes sinceros. Veterano do punk na So Lus dos anos 80, o compositor classifica seu disco como um trabalho de rock bregadlico, sendo o Z parte de uma trilogia conceitual _ algo que poderia insinuar um p no rock progressivo se no se tratasse de um letrista acessvel em seus temas e de um msico que sabe manejar os clichs do country e do bom e velho rock & roll (com pitadas de outros estilos) com o respeito que falta aos oportunistas que ridicu-larizam o que no entendem ou buscam dinheiro fcil na nostalgia dos outros...O Z pra valer, lembrando os melhores momentos de Raul Seixas sem procurar imitar o verdadeiro e nico Pai do Rock no Brasil. Trata-se de um trabalho confessional imperdvel e concatenado, que merece ser ouvido do incio ao fim tanto quanto um Dark Side of the Moon, mesmo correndo-se o risco de perder o nibus. Lanado no apagar das luzes de 2012, Z de Vingana pode ser comprado no Chico Discos ou com o prprio Marcos Magah com os detalhes a serem combinados via facebook.

    Dono de uma voz sedutora, que chega a lembrar Zach Con-don (Beirut) e Marcelo Camelo (ex-Los Hermanos), o can-tor maranhense Phil Veras encanta j nos primeiros versos de Dia Dois, cano que abre o primeiro disco do msico, intitulado Valsa e Vapor.Brincando de MPB, folk e bossa nova, Phil Veras tem o mrito de transitar por estes estilos de forma bem sucedida. Em Como Nos Meus Sonhos, o cantor brinca de bolero e emerge em um dilogo, tipicamente brasileiro, sem regional-ismos. Nada sai forado ou impostado. A maneira como Phil fala que tem contas pra pagar e de que descobriu a cura, flui como uma conversa direta entre o cantor e o ouvinte.Phil Veras chega a emocionar na faixa-ttulo que, indubitavel-mente, o ponto alto do disco. Com versos tristes, o cantor demonstra afinao e bom gosto na escolha dos arranjos e das melodias.Vale a pena acompanhar este artista que busca detalhes nos cantores que admira (Chico Buarque e Caetano Veloso, por exemplo) e utiliza a voz como instrumento, atingindo em cheio os ouvidos mais atentos.