Biblioteca Digital 31... · Este artigo também destaca características específi cas do mercado

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Mercado brasileiro de biodiesel e perspectivas futuras

Andr Pompeo do Amaral Mendes

Ricardo Cunha da Costa

Mercado brasileiro de biodiesel e perspectivas futuras

Andr Pompeo do Amaral MendesRicardo Cunha da Costa*

Resumo

O presente artigo tem por objetivo atualizar informaes sobre o mer-cado de biodiesel, mostrando o relativo sucesso na implementao do programa de governo, uma vez que a meta de mistura de 5% de biodiesel no diesel mineral, prevista para 2013, foi antecipada para 2010. Isso foi possvel graas proatividade dos produtores de biodiesel, notadamente aqueles ligados ao ramo da soja, visando diversifi cao de seus produtos, bem como contando com o aumento do percentual de mistura autorizado e com a possibilidade de exportaes.

Hoje, observa-se um excesso de capacidade instalada para a produo de biodiesel, o qual no deve ser eliminado no curto e no mdio prazo. Essa afi r-mao baseada em cenrios prospectivos apresentados no presente artigo.

Este artigo tambm destaca caractersticas especfi cas do mercado de biodiesel, como a negociao via mecanismo de leilo, preservando parcela importante de agricultores familiares no fornecimento de matrias-primas, a formao de preos e margens, a estrutura da indstria, a localizao das plantas e escala tima de produo. Alm disso, resaltam-se os mritos, riscos, oportunidades e ameaas produo nacional de biodiesel.

* Respectivamente, economista do Departamento de Gs e Petrleo e Cadeia Produtiva da rea de Insumos Bsicos e assessor da rea de Infraestrutura do BNDES. Este artigo foi escrito originalmente em dezembro de 2009. Por essa razo, os dados estatsticos disponveis poca e aqui apresentados referem-se a at setembro ou novembro de 2009.

BNDES Setorial 31, p. 253-280

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254 Introduo

O biodiesel foi introduzido na matriz energtica brasileira, no ano de 2005, pela Lei 11.097 de 13 de janeiro de 2005, por meio da adio do biodiesel ao diesel mineral consumido no pas. O governo federal enten-deu ser estratgico para o Brasil promover um combustvel renovvel que pudesse fomentar o desenvolvimento regional, reduzir as desigualdades sociais, gerar emprego e renda no campo e reduzir a necessidade de divisas para importao de diesel.

Entre os anos de 2005 e 2007, a mistura de 2% (B2) no diesel comer-cializado foi autorizada de forma no compulsria (perodo voluntrio). O perodo de obrigatoriedade comeou em janeiro de 2008 com a mistura a 2% (B2), tendo de passar a 5% at 2013. No segundo semestre de 2008, o governo elevou a mistura para 3% (B3), e no segundo semestre de 2009 para 4% (B4). Embora inicialmente a mistura a 5% (B5) estivesse prevista para vigorar somente em 2013, durante o ano de 2009 esse prazo foi revisto, antecipando a meta de B5 a partir de janeiro de 2010.

Para organizar esse novo mercado obrigatrio e fi scalizar a qualida-de do biodiesel produzido, o governo atribuiu essa responsabilidade Agncia Nacional de Petrleo, Gs Natural e Biocombustveis ANP. Uma das principais incumbncias da ANP realizar periodicamente os leiles de compra e venda de biodiesel. Esses leiles foram formatados para o perodo no obrigatrio entre 2005 e 2007, mas, para preservar a participao da agricultura familiar no fornecimento de matrias-primas, o governo preferiu manter a sistemtica de compra por meio de leiles no perodo obrigatrio, em detrimento de negociao direta entre produtores e distribuidores ou refi narias, tal como ocorre no mercado de etanol.

O objetivo do presente artigo atualizar as informaes relativas ao mer-cado de biodiesel no Brasil,1 fazendo um retrospecto de fatos relevantes que aconteceram at a presente data, como a estratgia das empresas em assegurar market share, a volatilidade dos preos de matria-prima, a supremacia da cadeia produtiva da soja nesse estgio inicial do mercado e a importncia da manuteno do mecanismo de leilo para preservar a competio entre os mais diversos produtores. Ademais, o artigo aponta os principais riscos

1 Para maiores informaes sobre a estruturao do mercado de biodiesel, ver Costa, Prates e Pierobon (2007).

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255e oportunidades para o setor, bem como apresenta uma anlise prospectiva do mercado de biodiesel no Brasil com base em trs cenrios.

O artigo est estruturado de forma a apresentar especifi cidades da produo, como: (i) a possibilidade de produo de biodiesel a partir de diversas matrias-primas, em diferentes regies do Brasil; (ii) a volatilidade dos preos, ainda muito sensveis ao preo da soja; (iii) a importncia do mecanismo de leilo; (iv) a estrutura da indstria; (v) a localizao e o tamanho das plantas; (vi) os mritos, riscos, oportunidades e ameaas; e (vii) as perspectivas futuras para o setor.

Principais matrias-primas empregadas na produo de biodiesel no Brasil

O biodiesel pode ser produzido a partir de diversos tipos de leos vegetais (soja, canola, girassol, mamona, pinho-manso, algodo, dend, etc.) ou de gordura animal. Por exemplo, em setembro de 2009, no Brasil, o leo de soja representava cerca de 75% da matria-prima utilizada para produzir biodiesel, seguido por 16% de gordura bovina e 6% de algodo, conforme pode ser observado no grfi co a seguir.

Figura 1 | Participao relativa dos leos brutos na produo de biodiesel

Fonte: ANP setembro/2009.

No restam dvidas de que os produtores da cadeia produtiva da soja exerceram papel fundamental para o xito do programa, visto que, quan-do do lanamento do programa de biodiesel, o setor da soja era o que se

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256 encontrava mais bem preparado para atender ao mercado de biodiesel. O setor j produzia em escala, estava consolidado, apresentava alta per-formance e era competitivo no mercado internacional.

Apesar dessas vantagens, a soja no deve permanecer dominante como a principal matria-prima de produo do biodiesel, por causa da baixa produ-tividade de leo por rea plantada.2 A Tabela 1 apresenta produtividades de diversas oleaginosas. Conforme pode ser visto, vrias culturas conseguem produzir mais leo vegetal por hectare plantado do que a soja.

Tabela 1 | Caractersticas das oleaginosas

Espcies Teor de leo (%) Ciclo (anos) Meses de colheitaProdutividade (ton leo/ha)

Dend 20 8 12 3,06,0

Babau 66 7 12 0,10,3

Girassol 3848 Anual 3 0,51,9

Canola 4048 Anual 3 0,50,9

Mamona 4345 Anual 3 0,50,9

Soja 17 Anual 3 0,20,4

Algodo 15 Anual 3 0,10,2

Fonte: Costa e Santos (2008).

O custo do leo vegetal representa cerca de 80% a 85% do custo de produo do biodiesel. Para aumentar a competitividade do biodiesel em relao ao diesel mineral, o Brasil deveria buscar uma cultura ou outra fonte mais efi ciente do que a soja.

Inicialmente, o governo federal procurou promover, por meio de incentivos fi scais, a produo de biodiesel em reas degradadas do Nordeste, em pequena escala, a partir da mamona. Porm, o biodiesel produzido a partir desse fruto apresenta viscosidade elevada. Por isso, o leo de mamona deve ser misturado a outros leos para se obter um biodiesel de melhor qualidade3 e no comprometer o bom desempenho e a durabilidade dos motores.

2 De fato, o principal produto da soja o farelo, utilizado na alimentao de animais.3 A Resoluo 7/2008 da ANP estabeleceu limites para a viscosidade do biodiesel puro (B100), de 3,0 mm/s a 6,0 mm/s, revogando a Resoluo 42/2004 dessa mesma agncia, que no fi xava limite de viscosidade para o B100, mas estabelecia que a mistura teria de atender aos limites de viscosidade do diesel mineral. Os limites impostos para o biodiesel impedem a utilizao exclusiva de leo de mamona na sua produo.

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257Atualmente, existem iniciativas para desenvolver e utilizar o pinho-manso na produo de biodiesel que, em princpio, apresentaria produtividade maior que as demais culturas vegetais, exceto a do dend. As vantagens de empreg-lo so: i) no utilizado como alimento; ii) baixo custo de implantao e manuteno agrcola; iii) intensivo em mo de obra no qualifi cada (colheita manual); iv) possibilidade de cultivo no semirido; v) cultura perene (produo durante todo o ano); e vi) elevada produtividade (em torno de 1,5 ton a 2 ton de leo/ha).

Apesar das qualidades do pinho-manso, pouco se sabe sobre sua cultura, as resistncias a doenas e pragas e as reas mais adequadas para plantio, alm do fato de que h um perodo inicial de dois a trs anos de baixa produtividade. Isso signifi ca que h elevada necessidade de capital de giro no incio da atividade agrcola.

Para o longo prazo, h pesquisas com o objetivo de desenvolver bio-diesel a partir de algas, que supostamente devem apresentar produtividade superior de qualquer cultura vegetal tradicional. Hoje, a pesquisa sobre o biodiesel de algas considerada a nova fronteira do setor. A expectativa em relao a esse biodiesel enorme, pois as algas (i) absorvem o CO

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(ii) crescem de forma rpida e exponencial; (iii) so ricas em lipdios (leo); (iv) podem ser cultivadas em piscinas ou lagoas abertas ou em fotobiorreatores; (v) podem apresentar grandes produtividades por hec-tare por necessitar relativamente de pouco espao fsico (terra), o que no ocorre com as culturas vegetais tradicionais; e (vi) no so utilizadas como alimento de uma forma geral.