Bioética, vulnerabilidade e dignidade humana

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  • 1. Pe. Christian de Paul de Barchifontaine

2. Enfermeiro, Mestre em Administrao Hospitalar e da Sade, Doutorando em Enfermagem na Universidade Catlica Portuguesa (UCP). Docente no Mestrado e no Doutorado em Biotica do Centro Universitrio So Camilo. Superintendente da Unio Social Camiliana e Reitor do Centro Universitrio So CamiloSo Paulo - Brasil Pe. Christian de Paul de Barchifontaine 3. INTRODUO As questes que angustiam o ser humano so o sentido da vida, a busca da verdade e a busca da felicidade. Enfrentar estes questionamentos, pens-los criticamente, postular alternativas requer um entrelaamento das reas de conhecimento e exige um dilogo entre o social, o econmico e o poltico. 4. 5. Uma auscultao prospectiva inquietante se apresenta a respeito do legado que estamos deixando para as geraes vindouras. Comea-se a falar em justia transgeracional! Como ser o mundo neste sculo XXI? Que desafios enfrentaremos? Que condies de vida e sade? Estas so apenas algumas das interrogaes emergentes! 6. Obviamente que no se trata pura e simplesmente de temer os perigos, mas de perceber tambm os benefcios e novas esperanas que surgem. Sem dvida, os conhecimentos podem ser utilizados para a preveno e cura de doenas incurveis que infernizam hoje os seres humanos, para melhorar a qualidade de vida das pessoas, em fim, facilitar a vida humana.Mas bom lembrar que nem tudo o que cientificamente possvel, logo,ipso facto , seria eticamente admissvel. 7. I - A PS-MODERNIDADE A Ps- modernidade:as novas tecnologias, como a informtica, a ciberntica, a telemtica, o descartvel, transformam a organizao social.- Em nvel filosfico, vive-se o niilismo, o nada, o vazio, a ausncia de valores e sentido da vida. 8. A pessoa ps-moderna j sabe que no existe cu nem sentido para a histria, e assim se entrega ao presente e ao prazer, ao consumo e ao individualismo.- Em nvel psicolgico, a sociedade aprisiona as pessoas atravs de regras morais, valores sociais e religiosos. A pessoa ps-moderna deve dar mais importncia sua sensibilidade do que sua inteligncia, deve viver procurando sensaes e emoes sem limites com o mnimo de dor. A pessoa ps-moderna cultiva uma mentalidade imediatista em que tudo relativo e ilusrio, sem ideologia e ideais verdadeiros, onde o que se deve fazer libertar os instintos reprimidos e deixar-se levar pela sensibilidade. 9. A pessoa ps-moderna vive um pacifismo consensual: Paz e Amor (1968), 10. A grande justificativa para a ps-modernidade seria queo mundo moderno no conseguiu cumprir suas promessas com o paradigma do crescimento econmico infinito, da erradicao das doenas, prolongamento da vida e at a extino da morte. 11. II. GLOBALIZAO: No Brasil, por exemplo, registrava-se em 1940 cerca de 42 milhes de habitantes. Esse nmero subiu para 90 milhes em 1970,para aproximadamente 188 milhes em 2005 e 192 milhes em 2010. O mundo precisou adaptar-se a esse movimento populacional.Crescer tornou-se, ento, sua nica alternativa. O propsito do progresso deveria estar em proporcionar a essa populao melhores condies de vida.Enfim, dignidade, igualdade e liberdade para todos . 12. O capitalismo, teoria que se fortaleceu no sculo XIX, pode ser o grande responsvel por esse progresso desenfreado, o que, na gerao de 80, era normalmente apelidado de capitalismo selvagem. O apelido selvagem parece refletir com propriedade o sentimentohobbesbianode que o homem lobo para o prprio homem. Nesse contexto de luta pela sobrevivncia e adaptao necessria ao sistema, perderam-se de vista os ideais nobres como respeito e dignidade pela vida e pelo outro, uma vez que somos, por esse princpio, adversrios comuns uns dos outros. 13. A crise do paradigma tico encontra-se igualmente atrelada a todo esse movimento desenfreado de busca por um lugar ao sol.O individualismo ocupa um lugar de destaque em todo esse cenrio social. Poderamos iniciar tentando explicar o fenmeno do sistema que se instaurou no final do sculo XX:a globalizao. Os estudos sobre esse tema tm em comum a definio de que uma economia planificada gera um maior controle sobre as foras produtivas e, com isso, fica o Estado centrado somente nas questes sociais e no exerccio pleno da tutela da democracia. 14. No entanto, a deciso de aceitarmos ou no a interferncia da globalizao em nossa economia esteve alheia vontade popular. Ela ocorreu, ocorre e ocorrer independente de nossas convices ideolgicas, afinal o mundo ciberntico alcanou nossas casas, nossas vidas e, portanto, nossos hbitos e costumes. A questo que se coloca outra: como podemos construir, a partir desses avanos tecnolgicos, dessa aproximao com a aldeia global, um mundo mais justo, com menos desigualdade social? 15. O controle coletivo de aes que colocam em risco a dignidade humana e a qualidade da vida no planeta exige uma srie de procedimentos nos planos socioeconmico e poltico. Precisamos pensar que a economia deve estar a servio de um bem-estar social. Para isso no podemos deixar que os filhos das trevas sejam mais espertos que os filhos da luz. 16. Uma maioria que no desejou ser excluda, mas que muitas vezes se acostumou com o assistencialismo social que a colocou margem de qualquer tentativa de incluso. Se a voz da maioria configura o sistema democrtico, elege seus governantes, constitui o Estado de Direito, por que no ouvir essa mesma maioria que vive margem da sociedade? 17. hora de consumirmos esse artigo de luxo que o pensar, pois afinal no somos mquinas, homens que somos! A cidadania expressa um conjunto de direitos e deveres que d pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo. Quem no exerce sua cidadania fica marginalizado ou excludo da vida social e da tomada das decises. 18. Somos acostumados a apanhar calados, a dar um jeitinho para tudo, e no levar a srio a coisa pblica. Achamos que direitos so privilgios de uma minoria. E se as coisas esto como esto por vontade de Deus. A cidadania no nos dada, mas construda e conquistada a partir da capacidade de organizao, participao e interveno social. 19. III. DIGNIDADE HUMANA Humanismo e dignidade Partindo da primcia de que a biotica, tica da vida, da sade e do meio ambiente, um espao de dilogo transprofissional, transdisciplinar e transcultural na rea da sade e da vida, um grito pelo resgate da dignidade da pessoa humana, dando nfase na qualidade de vida, todo processo de dignidade e humanismo passa pela proteo vida humana e seu ambiente, atravs da acolhida, do cuidado e da solidariedade. 20.

  • Passamos por uma profunda crise de humanismo. Em escala mundial, presenciamos grandes transformaes em vrias instncias tais como,
  • economia,
  • poltica,
  • desenvolvimento tecnolgico,
  • direitos e deveres dos cidados,
  • funes familiares,
  • sade e
  • sobrevivncia de muitos povos,
  • entre outras.

21. Da globalizao excludente seria possvel passar globalizao da solidariedade?O que est acontecendo com as pessoas? Onde est o humano? O simples estar com o outro, a compaixo, a tolerncia, a solidariedade se tornaram valores descartveis que contam pouco ou nada?At quando? 22. Uma pessoa digna, ou sua conduta digna, quando segue os ditados da racionalidade ou os princpios da moral vigentes no lugar. Digno o comportamento adequado aos olhos do cidado honesto.A referncia ao mesmo tempo individual e coletiva, sujeita internalizao da lei do pai (superego), ainda que possa surgircerto desnvel entre as duas avaliaes, desnvel tributrio no apenas do carisma ou do capricho individual, mas tambm da educao recebida. 23. A noo de dignidade humana, que varia consoante as pocas e os locais, uma idia fora que atualmente possumos e admitimos na civilizao ocidental.O conceito de dignidade humana introduz um elemento de ordem e de harmonizao no conflito das relaes das comunidades humanas, atravs da tolerncia, do cuidado e da solidariedade. 24. Devemos referir ainda o lugar que o homem se atribuiu a si prprio no mbito de um mundo tecnicizado, que perdeu a ligao ao mundo sensvel, ao mundo vivo, cometendo atos indignos contra a vida animal, vegetal. Nesse sentido, a sobrevivncia da nossa espcie est associada sobrevivncia da natureza e, deste modo, ao alargarmos o conceito de dignidade, estamos a assegurar a continuidade dos seres humanos numa tica de responsabilidade pelo futuro, num alargamento no s da concepo do que ser humano mas tambm do que a comunidade sem a qual o ser humano no subsiste. 25. A dignidade humana tambm um conceito evolutivo, dinmico, abrangente, a tomada de conscincia da pertena de todos ao gnero humano confrontado na comunidade de destino, que se foi alargando a grupos diferenciados, dando-lhes um outro estatuto. Outro elemento no processo dignidade e humanismo: a idia de cuidado, que refora os campos ticos de ateno ao singular, abre a partilha e a solidariedade, afeta o modo, o olhar com que os outros so vistos. 26. O termoDignidade Humana o reconhecimento de um valor. um princpio moral baseado na finalidade do ser humano e no na sua utilizao como um meio. Isso quer dizer que a Dignidade Humana estaria baseada na prpria natureza da espcie humana a qual inclui, normalmente, manifestaes de racionalidade, de liberdade e de finalidade em si, que fazem do ser humano um ente em permanente desenvolvimento na procura da realizao de si prprio. 27. Esse projeto de auto-realizao exige, da parte de outros, reconhecimento, respeito, liberdade de ao e no instrumentalizao da pessoa.Essa auto-realizao pessoal, que seria o objeto e a razo da dignidade, s possvel atravs da solidariedade ontolgica com todos os membros da nossa espcie. Tudo o que somos devido a outros que se debruaram sobre ns e nos transmitiram uma lngua, uma cultura, uma srie de tradies e princpios. 28. Uma vez que fomos constitudos por esta solidariedade ontolgica da raa humana e estamo