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Leandro Pereira de Barros Biopirataria: Uma questão Geopolítica Taubaté –SP 2007

Biopirataria Uma Questao Geopolitica

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Leandro Pereira de Barros

Biopirataria: Uma questo Geopoltica

Taubat SP 2007

Leandro Pereira de Barros

Biopirataria: Uma questo Geopoltica

Trabalho de Concluso de Curso de Graduao em Geografia apresentado ao Departamento de Cincias Sociais e Letras da Universidade de Taubat, como parte dos requisitos para colao de grau em Licenciatura do Curso de Geografia. Orientadora: Prof. Dr. Helena Frana

Taubat SP 2007

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Leandro Pereira de Barros

Biopirataria: Uma questo Geopoltica

UNIVERSIDADE DE TABUBA, TAUBAT, SP Taubat, /12/2007

Resultado: ___________

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Helena Frana (Orientadora) Assinatura_____________________

Prof. Mestre Carlos Eduardo Pinto Assinatura_____________________

Prof. Dr. Nelson Wellausen Dias Assinatura_____________________

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AGRADECIMENTOSA Professora Doutora Helena Frana pelo apoio tcnico que abriu caminho para o desenvolvimento deste trabalho e pela sua inestimvel ateno dada s correes, sugestes e crticas que foram de grande valia para elaborao do trabalho e que, sem dvida alguma, me serviu de incentivo para a pesquisa realizada.

Ao Professor Ms. Carlos Eduardo pelas dicas dadas sobre o assunto e, principalmente, suas opinies.

Agradeo profundamente amiga Lucimara que no momento mais difcil, espontaneamente me ajudou, pois sem seu auxlio este trabalho no seria realizado, visto que sua ajuda foi fundamental para a continuao de um sonho.

Um agradecimento especial para a Dona Laura, funcionria da biblioteca do Departamento de Cincias Sociais e Letras (DCSL) da Universidade de Taubat, que por vrias vezes se desdobrou na busca de livros, revistas, jornais e peridicos correlatos ao ttulo do TCC.

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Dedico este trabalho:

Aos

meus

pais

pela

grande

ajuda

na

concretizao de um sonho.

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SUMRIO

LISTA DE TABELAS LISTA DE FIGURAS LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

8 9 10

RESUMO 1. INTRODUO 2. OBJETIVOS 3. MATERIAIS E MTODOS 4. O QUE GEOPOLTICA 4.1 Definio de Geopoltica 4.2 Geopoltica no Brasil 4.3 Geopoltica e Brasil Potncia 4.4 A Zona Franca de Manaus Uma Manobra Geopoltica para desenvolver a Amaznia e integra-la ao restante do pas 4.5 Projeto Grande Carajs 4.6 Projeto Jar

12 13 15 15 16 16 18 19

23 24 26

5. OS PRINCIPAIS PROJETOS PARA A MONITORAO E PROTREO DA AMAZNIA 5.1 Projeto SIVAM 5.1.2 Objetivos do SIVAM 5.2 Projeto SIPAM 5.3 Projeto RADAM 5.3.1 Projeto RADAM BRASIL 5.4 Projeto CALHA NORTE 5.4.1 PRODFAO OU Calha Sul 5.4.2 Calha Sul e Calha Norte 6. Geopoltica Ambiental6.1 A Tentativa de Internacionalizao da Amaznia

28 28 30 31 32 33 33 35 3537

39

6.2 As Reaes Internacionais a Devastao Ambiental da Amaznia 39 7. Geopoltica do Narcotrfico 8. O que Biopirataria 9. Engenharia Gentica 42 44 46

6

9.1 Alguns benefcios da engenharia gentica 10. Biodiversidade e biopirataria 10.1 Alguns exemplos de Biopirataria 11. A Biopirataria atravs das Patentes 12. Os prejuzos com a biopirataria 13. Considerao Finais 14. Referncias bibliogrficas

46 48 51 55 57 59 60

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LISTAS DE TABELAS

Tabela 1 Algumas espcies da Fauna brasileira Tabela 2 Valores dos produtos Tabela 3 Principais animais retirados da fauna brasileira Tabela 4 Registro de Patentes

49 49 50 56

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LISTAS DE FIGURAS

Figura 1 - Mapa Amaznia Legal Brasileira

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

Associao Brasileira de Norma Tcnicas ABNT cido Desoxirribonuclico ADN (Ingls) DNA (Portugus) Companhia Vale do Rio Doce CVRD Centro Integrado de Defesa Area e Controle de Trfego Areo CINDACTA Comunidade Econmica Europia CEE Central de Inteligncia Americana CIA Direitos de Propriedades Intelectuais DPI Escola Superior de Guerra ESG Polcia Federal PF Departamento Nacional de Produo Mineral DNPM Estrada de Ferro Carajs EFC Exrcito de Libertao Nacional ELN Fundo Monetrio Mundial FMI Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia FARC Fora Expedicionria Brasileira FEB Instituto de Direito do Comrcio Internacional e Desenvolvimento IDCID Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis IBAMA Instituto Brasileiro de Direito do Comrcio Internacional, da Tecnologia da Informao e Desenvolvimento CIITED Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica IBGE Indstria e Comrcio de Minrios S/A ICOMI Objetivos Nacionais Permanentes ONP Organizao no Governamental ONG Organizaes das Naes Unidas ONU Organismos modificados geneticamente OGM Organizao Mundial do Comrcio OMC Programa de Desenvolvimento da Fronteira da Amaznia Ocidental PRODFAO Programa das Naes Unidas para o Meio Ambiente PNUMA Plano de Integrao Nacional PIN Projeto Calha Norte PCN Projeto Grande Carajs PGC

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Plano de Integrao Nacional PIN Radar da Amaznia RADAMRF - Receita Federal

Sistema de Vigilncia da Amaznia SIVAM Sistema de Proteo da Amaznia SIPAM Secretaria de Estudos Estratgicos SA Tribunal de Contas da Unio TCU Zona Franca de Manaus ZFM 7 Comando Militar Areo de Manaus 7 COMAR

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Resumo

O Brasil tem quase a metade de seu territrio coberta pela Floresta Amaznica, que considerada, segundo Nascimento (2004), a principal reserva biolgica do planeta.

A explorao dos recursos naturais vem ocorrendo desde tempos remotos. Muitos pases se desenvolveram explorando seus recursos [naturais] por completo. Com o avano da tecnologia, da qumica fina e da biologia, muitos outros recursos passaram a fazer parte do repertrio dos pesquisadores, principalmente, aqueles com aplicaes na indstria farmacutica.

A geopoltica empreendida na Amaznia durante o perodo militar (1964 1985), teve como objetivo o desenvolvimento da regio Norte do pas e a sua integrao com o restante da nao. Vrios projetos foram feitos para tal fim, muitos de carter estratgicos cuja finalidade era: explorao, ocupao, desenvolvimento e proteo do territrio.

Apesar de todo o empenho dado regio, a Amaznia vem sendo palco da devastao florestal e da biopirataria, onde a destruio e retirada ilegal da fauna e flora vem causando uma degradao do meio ambiente sem precedentes, pois a sua explorao feita de forma predatria. Alm dos danos ambientais, existe ainda a questo econmica, em decorrncia dos benefcios alcanados com a

industrializao dos produtos desenvolvidos nos grandes laboratrios de pesquisas, do qual o Brasil no faz parte.

Palavras-chave: Biodiversidade, Biopirataria, Explorao de Recursos Naturais

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1. IntroduoO Brasil possui uma grande diversidade biolgica, e uma reserva incalculvel de recursos, tanto vegetal, mineral quanto animal (Kowarick, 1993). Devido a essa grande reserva natural pouco explorada, tornou-se palco de manobras geopolticas para a sua ocupao, explorao e integrao.

Em termos geopolticos, a Amaznia Legal brasileira ocupa 60% do Territrio nacional. Para Antunes (1991) a Amaznia um dos mais preciosos patrimnios ecolgicos do planeta. na realidade um grande bioma, composto por diversos ecossistemas interagindo em equilbrio. Segundo Cmara (2002) em termos biolgicos, a Amaznia a regio com a maior biodiversidade de todos os continentes. Comporta metade das espcies de aves hoje conhecidas, possui a maior diversidade de insetos (especialmente borboletas), rpteis e anfbios.

Com avano nas pesquisas tanto na rea de informtica, robtica, telecomunicaes e nas cincias biolgicas, sendo esta ltima a mais importante na questo da biopirataria, e qumica fina que produtos antes sem importncia passaram a ter valores econmicos devido as suas propriedades medicinais, entre outras. Por isso, a regio norte do Brasil se tornou alvo das grandes indstrias farmacuticas, de cosmticos, perfumes e traficantes de animais e plantas, devido a sua exuberante biodiversidade.

A comunidade cientfica, ciente do potencial ecolgico, geolgico, cientfico e farmacolgico da Amaznia, tem alertado constantemente as autoridades polticas para a necessidade de uma poltica de preservao e uso equilibrado da floresta. Esta poltica deve ser implantada o mais rpido possvel para que os danos atualmente existentes sejam revertidos e os futuros evitados, visto que a Amaznia vem sendo ilegalmente explorada (Cmara, 2002).

Constantemente alguns pesquisadores percorrem a regio amaznica e se embrenham na mata a procura de novas espcies de potencial econmica. Muitos deles aproveitam-se do conhecimento dos habitantes locais, que conhecem muito bem as plantas e animais e sua utilizao. Atravs dessas novas descobertas as indstrias

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farmacuticas extraem ou isolam o seu principio ativo para comercializ-los no mundo todo, inclusive no Brasil. O conhecimento que fora passado de gerao em gerao pelos povos locais transforma-se assim em medicamentos que so patenteados internacionalmente, e para produzi-los em territrio nacional preciso pagar royalties para o detentor de sua patente, configurando, dessa forma, uma das formas de biopiratia.

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2. OBJETIVOS

Este trabalho tem como objetivo analisar a geopoltica empreendida pelo governo brasileiro, em relao Amaznia na questo de sua explorao e preservao e, em particular, biopirataraia.

3. MATERIAIS E METDOS

Para a elaborao deste trabalho, foi realizada inicialmente, uma reviso bibliogrfica acerca dos temas geopoltica e biopirataria.

Esse processo foi compilatrio, em nvel correlativo, no qual os materiais bibliogrficos selecionados proporcionaram o direcionamento da pesquisa em uma linha de estudo.

Esse processo de compilao baseou-se em normas acadmico-cientficas, tendo como parmetro, a sistematizao da Associao Brasileira de Norma Tcnicas (ABNT), e o Manual de Apresentao Grfica de Monografia documentos normatizador do Departamento de Cincias Sociais e Letras da Universidade de Taubat.

importante ressaltar ainda, que nessa etapa do trabalho, buscou-se uma rgida seleo de fontes de informao; utilizando-se, portanto, de autores conceituados e de reconhecida importncia em suas reas de estudo. Porm, em alguns momentos da pesquisa, tornou-se necessrio o uso de fontes de secundria relevncia no cenrio acadmico, como revistas, jornais peridicos e sites da internet, mantendo-se, porm, o cuidado quanto seleo e procedncia do material escolhido e limitando sua utilizao a dados quantitativos e citaes de especialidade mencionadas.

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4. O QUE GEOPOLTICA Geopoltica uma disciplina das Cincias Humanas que mescla a Teoria Poltica Geografia, considerando o papel poltico internacional que as naes desempenham em funo de suas caractersticas geogrficas como localizao, territrio, posse de recursos naturais, contingente populacional etc. o estudo da estratgia, da manipulao, da ao. Investiga o Estado enquanto organismo geogrfico, ou seja, o estudo da relao intrnseca entre a geografia e o poder. Mtodo de anlise que utiliza os conhecimentos da geografia fsica e humana para orientar a ao poltica do Estado (Ramonet, 2001). 4.1 DEFINIO DE GEOPOLTICA

Geopoltica, termo utilizado para designar a influncia determinante do meio ambiente (elementos como as caractersticas geogrficas, as foras sociais e culturais e os recursos econmicos) na poltica de uma nao. O cientista poltico sueco Rudolf Kjelln criou um sistema de cincia poltica baseado na interao das foras sociolgicas, polticas e fsicas, cunhou a palavra geopoltica em seu trabalhoStaten som Lifsformpublicado em 1916 (O Estado como um organismo). A geopoltica foi importante na Alemanha durante o perodo do nacional-socialismo, pois proporcionou uma razo pseudocientfica para justificar sua expanso territorial. Geopoltica a cincia da vinculao dos acontecimentos polticos (Chiavenatto, 1981).

De acordo com Magnoli (1994), a criao das fronteiras, Estado e respectivamente os pases, em suas linhas geodsicas, nada mais so do que presses externas. Em suas palavras: [...] fronteiras so isbaras polticas que fixam o equilbrio entre presses (Magnoli, 1994). Cabe Cartografia a formalizao sobre mapas e cartas, do traado das fronteiras. Oficiais militares dedicaram-se a esse ramo particular da geografia, configurando a cartografia como arte e tcnica autnoma. Fronteiras, mapas, as tcnicas cartogrficas: foram essas as pontes que aproximaram gegrafos e generais. A Geopoltica foi o fruto dessa aproximao entre eles, desse encontro histrico entre a Geografia e o Estado. Geopoltica a cincia que concebe o Estado como um organismo geogrfico ou como um fenmeno no espao; (Silva, 1967).

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Pode-se entender que a Geopoltica uma cincia voltada para a organizao, explorao e ocupao de um espao; cujo objetivo maior seu controle por parte do Estado. A Geopoltica no uma doutrina circunscrita aos limites alemes, ainda que os gegrafos clssicos franceses tenham se esforado para difundir essa concepo. Filiados tradio liberal e possibilista fundada por Vidal de la Blache, eles trataram de se distinguir cuidadosamente face aos ratzelianos alemes. Jean Gottmann demonstra concisamente a posio generalizada de seus compatriotas: O geopoltico um gegrafo a procura de um Estado-Maior (Magnoli, 1994).

A Geopoltica, cincia ou no, prossegue influenciando poderosamente a ao prtica dos Estados. Ao lado da Geopoltica encontra-se o Sensoriamento Remoto, uma tcnica nova de se obter informaes fsicas da superfcie da terra, tornando ainda mais eficaz o controle do Estado. [...] essas novas tecnologias conferem aos seus detentores um poder inigualvel: o poder da informao. As Geopolticas so tantos quantos so os Estados, e a existncia da prpria geopoltica est limitada temporalmente existncia do Estado (Magnoli, 1994).

A Geopoltica tem como objetivo estabelecer estratgias de proteo para o territrio; neste caso ela alia-se a Geoestratgia um ramo intrinsecamente ligado rea militar. Por isso fala-se que a Geopoltica a arma dos Militares. O General Golbery do Couto e Silva foi um dos grandes idealizadores deste pensamento no Brasil, pois suas ideologias geopolticas voltavam-se unicamente para a defesa e imposio de imperialismo do pas na Amrica Latina. Conforme Golbery [...] geopoltica uma doutrina de anlise da conjuntura mundial sobre a base do interesse nacional (Silva, 1967).

Portanto, podemos afirmar que a Geopoltica um ramo da Geografia que se utiliza dos conhecimentos geogrficos e do sensoriamento remoto, unificando-os com a poltica, cujo objetivo principal manter o controle do espao. Contudo, podemos dizer que: A Geopoltica filha dileta do imperialismo, ela nasceu para ser arma auxiliar do imperialismo (Chiavenato, 1981).

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4.2 GEOPOLTICA NO BRASIL

O pensamento Geopoltico no Brasil ganhou mais fora aps a Segunda Guerra Mundial. Foi aps este conflito que se iniciou o confronto poltico-ideolgico entre Estados Unidos e Unio Sovitica que ficara conhecida como Guerra Fria. Neste perodo, os pases alinhados com os Estados Unidos, ou seja, sob sua tutela obtiveram seu apoio econmico e tecnolgico. Foi justamente nesta poca que o pensamento geopoltico floresceu e ganhou notoriedade no pas. Durante o perodo militar no Brasil (1964 a 1985) houve uma grande preocupao com a Amaznia, principalmente, em relao segurana das fronteiras cuja falta de presena humana acabara gerando um enorme espao vazio. Contudo, a maior preocupao do governo era o interesse de outras naes em ocupar a regio e explorar sua riqueza natural.

Foi neste perodo que e o governo brasileiro concedeu atravs de vrios acordos, principalmente com empresas norte-americanas, o direito de pesquisa e explorao das riquezas no territrio amaznico e tambm no restante do Brasil, com o intuito de ocupar os espaos vazios e, conseqentemente, promover o desenvolvimento da regio.

A Geopoltica empreendida pelo governo militar caracterizou-se pela conceituao do Estado como coadjuvante da poltica em relao soberania do pas, tal como entendida por Kjelln Haushofer e seus seguidores. As polticas adotadas por eles tinham como objetivo, principal, ocupar esta regio e, sobretudo explorar todo seu potencial, especialmente o mineral, visto que fora descoberta uma grande jazida de minrio de ferro na Serra do Carajs, PA, culminando no Projeto Grande Carajs. Outra estratgia implantada neste perodo foi a Zona Franca de Manaus (ZFM) cujo modelo de desenvolvimento econmico iria viabilizar uma base econmica na Amaznia, e promover a integrao produtiva e social dessa rea ao pas, garantindo a soberania nacional sobre suas fronteiras e consequentemente integrando-a ao restante do territrio (Kowarick, 1993).

A Geopoltica aplicada ao campo interno visa integrao total, e a valorizao cada vez maior do territrio nacional em um sentido positivo de ataque (expanso de territrio) ou negativo de defesa (em caso de ataque externo), com o intuito de manter a

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soberania do pas. A regio Amaznica um grande reservatrio [Natural] que ainda no foi totalmente explorada, e, portanto desperta o interesse de outras naes. Neste caso a Geopoltica, se no fomenta o imperialismo, lhes abre o caminho a sonhos de conquista, domnio e expanso territorial (Silva, 1967). Ainda em conformidade com Silva (1967), a circulao que vincula os espaos polticos internos ou externos que conquista, desperta e vitaliza o territrio, que canaliza as presses e o orientam as reaes defensivas e que d significao concreta extenso, ou seja, mantm a soberania de uma nao!

4.3 GEOPOLTICA E BRASIL POTNCIA

Conforme Filho (2003), houve uma mudana na concepo de segurana aps a dcada de sessenta com a edio do Decreto-Lei n 314 de 1967, ou Lei de Segurana Nacional, deslocando o eixo das discusses quanto ao conceito de segurana.

Essa lei possua um alcance muito grande, segundo Filho (2003); isso era vital para que pudesse ser estabelecida uma poltica de desenvolvimento sem maiores atritos inter-classes e que possibilitaria, tambm, ao grupo hegemnico (elite capitalista), detentor do controle do aparelho do Estado, colocar em marcha seus planos de elevar o pas ao status de potncia, condio justificada - segundo a Escola Superior de Guerra (ESG), pelo fato das elites civis serem despreparadas.

A garantia da ordem para os militares era fundamental para a implementao do lema segurana e desenvolvimento, com o intuito de alcanar para o Brasil um determinado grau de desenvolvimento, almejando a categoria de potncia mdia. Para isso, era necessria a coeso interna, mesmo que ela fosse alcanada pela via autoritria, pois qualquer possibilidade de conflito interno colocaria em risco esse intento (Filho, 2003).

A respeito da estratgia do general Golbery do Couto e Silva, explicitada em seu livro Geopoltica do Brasil, publicado em 1967, a apreciao do Conceito Estratgico Nacional como a diretriz fundamental para a estratgia nacional de manuteno dos Objetivos Nacionais (Defesa, explorao e ocupao) frente s incompatibilidade que viessem a se manifestar tanto no campo interno quanto no externo, poderia trazer ou causar

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problemas quanto as suas estratgias geopolticas, caso ocorresse algum conflito. No mbito internacional, a estratgia de uma nao se confunde com a Poltica de Segurana Nacional sendo responsvel...(...) de um lado pela preparao no devido tempo e conveniente adequao do instrumento integral da ao estratgica - o Poder Nacional - mediante a elevao ou fortalecimento do potencial da nao e sua transformao oportuna em poder efetivo, de outro lado, pela concepo e conduo em tempo de paz ou guerra, do conjunto de aes estratgicas visando tanto em mbito internacional e interno a superao dos antagonismos que se manifestem contra a consecuo quanto salvaguarda daqueles objetivos nacionais.

Tais afirmaes esto presentes na Poltica de Defesa Nacional elaborada em 1976, tendo os seguintes objetivos da Poltica de Defesa (Filho, 2003):

a) a soberania por meio da preservao da integridade territorial, do patrimnio e dos interesses nacionais;

b) o Estado de Direito e as instituies democrticas;

c) a preservao da coeso e da unidade da Nao;

d) a salvaguarda das pessoas, dos bens e dos recursos brasileiros ou sob jurisdio brasileira;

e) a consecuo e a manuteno dos interesses brasileiros no exterior;

f) a projeo do Brasil no concerto das naes e sua maior insero no processo decisrio internacional;

g) a contribuio para a manuteno da paz e da segurana internacionais.

Observa-se que a orientao estratgica da Poltica de Defesa Nacional teria como finalidade a atuao do Estado brasileiro na rea de defesa para prover segurana nao, tanto em tempo de paz, quanto em situao de conflito. Para tanto, ela foi centrada em uma ativa diplomacia voltada para a paz e em uma postura estratgica de carter defensivo, baseada nas seguintes formas: 20

Fronteiras e limites perfeitamente definidos e reconhecidos internacionalmente;

Estreito relacionamento com os pases vizinhos e com a comunidade internacional, em geral, baseado na confiana e no respeito mtuos;

Rejeio guerra de conquista; e Busca da soluo pacfica de controvrsias, com o uso da fora somente como recurso de autodefesa. Para a consecuo dos objetivos da Poltica de Defesa Nacional, as seguintes diretrizes deveriam ser observadas (...)

a) proteger a Amaznia brasileira, com o apoio de toda a sociedade e com a valorizao da presena militar; priorizar aes para desenvolver e vivificar a faixa de fronteira, em especial nas regies norte e centro-oeste;

b) aprimorar a organizao, o aparelhamento, o adestramento e a articulao das Foras Armadas, assegurando-lhes as condies, os meios orgnicos e os recursos humanos capacitados para o cumprimento da sua destinao constitucional;

c) aperfeioar a capacidade de comando, controle e inteligncia de todos os rgos envolvidos na defesa nacional, proporcionando-lhes condies que facilitem o processo decisrio, na paz e em situaes de conflito;

d) aprimorar o sistema de vigilncia, controle e defesa das fronteiras, das guas jurisdicionais, da plataforma continental e do espao areo brasileiros, bem como dos trfegos martimo e areo;

e) garantir recursos suficientes e contnuos que proporcionem condies eficazes de preparo das Foras Armadas e demais rgos envolvidos na defesa nacional;

f) fortalecer os sistemas nacionais de transporte, energia e comunicaes.

Analisando os objetivos, estratgias e Diretrizes da Poltica de Defesa Nacional tais como preservao da coeso da unidade da nao e a adoo de uma postura

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estratgica de carter defensivo, que vigora plenamente - percebemos a persistncia de antigos traos de uma concepo resistente mesmo no perodo ps-autoritarismo; j que, a questo da segurana no foi de toda suprimida. O exemplo maior disso foi a divulgao do Projeto Calha Norte (PCN) em meados da dcada de 80 (Filho, 2003). Elaborado sigilosamente pela Secretaria Geral do Conselho de Segurana Nacional, o PCN ressuscitou o temor dos pases vizinhos com a poltica do governo brasileiro de dedicar suas atenes s fronteiras do Norte. Precede o Projeto Calha Norte algumas aes de Governo que acenavam para um desenvolvimento e segurana maiores da regio amaznica, como exemplos a construo das bases areas de Boa Vista e Porto Velho, a partir do ano de 1984; criao do 7 Comando Militar Areo de Manaus (7 COMAR); assim como o reativamento do Comando Militar da Amaznia, em 1992 (Filho, 2003).

Filho (2003) afirma que a mudana da poltica, ocorrida nos anos 90, da frente sul de conflito sintetizava pela rivalidade entre Brasil e Argentina - para a regio norte, mais especificamente para a regio amaznica; agora, no era mais motivada pela rivalidade e divergncia de dois pases, mas sim pela destruio da flora e fauna da Amaznia, pela presena da guerrilha colombiana ao longo das fronteiras entre Brasil e Colmbia, pela idia da criao de uma nao Yanomami em parte do territrio brasileiro, seguida da tese da internacionalizao da Amaznia. Diante disso, o governo brasileiro viu como necessria a proteo militar da regio por intermdio do PCN, considerado um empreendimento muito importante para se manter a soberania do pas.

O SIVAM viria logo em seguida, ainda sob a proteo da concepo de defesa e segurana; apesar de ser um projeto de carter civil, seus objetivos se confundem com os Objetivos Nacionais Permanentes (ONP), descritos pela ESG (Escola Superior de Guerra). Filho (2003) afirma que nos governos militares (1964 a 1985) o binmio defesa/segurana permeou todos os nveis das polticas pblicas, sendo isso fcil de ser percebido na formulao das polticas interna, externa e militar. Segundo esse autor, problemas como os das fronteiras sempre foram considerados sob esta tica binria: a Operao trinta horas, por exemplo, consistiria em uma interveno brasileira no Uruguai, caso Lber Seregni fosse vitorioso nas eleies de 1971. A interveno em assuntos bolivianos quando da ascenso de Hugo Banzer por meio da derrubada do Presidente Juan Carlos Torres tambm citada por Filho (2003). Segundo ele, essas

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intervenes encontravam-se sob o contexto da chamada teoria do cerco em que decises desse tipo eram levadas adiante por um grupo pequeno, denominado sistema. Para este, todo pas vizinho que no tivesse um governo alinhado aos interesses nacionais, deveria ser neutralizado. Segundo Filho (2003), nos anos 80 e 90, apesar de se pensar e falar que os militares estavam longe do poder, influncia destes ainda era considervel devido ao fato de ter sido traada neste perodo uma poltica mais eficaz de proteo ambiental, constituda na prtica, em projetos como o Calha Norte e o SIVAM. A questo Amaznica passou, desde os meados dos anos 80, a ser o alvo principal da atuao brasileira no que concerne segurana. Seguramente, a questo ambiental foi uma das preocupaes mundiais na dcada de 90, e, no Brasil, ela foi considerada uma questo de segurana pelas Foras Armadas (Filho, 2003).

4.4 A ZONA FRANCA DE MANAUS UMA MANOBRA GEOPOLTICA PARA DESENVOLVER A AMAZNIA

Com a ascenso dos militares ao poder em 1964, houve uma reviravolta em toda poltica do pas (Golbery, 1967). Primeiramente, no podemos deixar de lembrar que estvamos em plena Guerra fria, designao atribuda ao conflito polticoideolgico entre os Estados Unidos (EUA), defensores do Capitalismo, e a Unio Sovitica (URSS), defensora do socialismo, compreendido entre o perodo do final da Segunda Guerra Mundial e o fim da Unio Sovitica (URSS). O Brasil sempre esteve alinhado com os norte-americanos e, inclusive, durante a Segunda Guerra o pas enviou tropas para integrar as foras aliadas (EUA, Inglaterra e URSS) para combater na campanha da Itlia em 1944. Este grupo ficou conhecido como Fora Expedicionria Brasileira (FEB). Mas foi aps o trmino deste conflito que as ligaes entre Brasil e Estado Unidos se estreitaram ainda mais. Tanto que, em meados de 1947, vrios militares brasileiros foram convidados a fazer cursos na Academia Militar nos EUA (Silva, 1967).

Com a chegada dos militares ao poder, em 1964, o governo intensificou sua atuao na Amaznia. Uma nova poltica fora posta em prtica para a valorizao e integrao da regio, onde foram dados incentivos fiscais para as empresas que se instalassem na rea, neste caso atraindo investimentos privados nacionais ou estrangeiros, j que o governo no dispunha de recursos para tal fim. Com a

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implantao da Lei n. 288, de 28/02/1967, foi criada a Zona Franca de Manaus (ZFM), como rea de livre comrcio de exportao e importao. A regio tornou-se assim um grande plo industrial, promovendo o desenvolvimento e ajudando a integrar a Amaznia ao restante do pas. Tambm promoveu sua ocupao e elevou o nvel de segurana para manuteno de sua integridade. Podemos interpretar esses fatos como uma manobra geopoltica para ocupar as reas vazias da regio. O Plo Industrial de Manaus hoje constitudo de empresas limpas, ou seja, de alta tecnologia e de baixo impacto ambiental. De acordo com Miranda (2005) so cerca de 400 empresas instaladas em plena Amaznia, gerando aproximadamente 49.000 empregos de bom nvel e cujo faturamento, no exerccio de 2001, por exemplo, foi de quase 10 milhes de dlares.

A regio norte, em especial a Amaznia, por ser de grande extenso, pouca habitada e de baixa infra-estrura acabou chamando a ateno do governo, pois os militares consideram-na objeto de cobia internacional, constantemente sob a ameaa de interesses estrangeiros o que justificaria os investimentos para reforar seu controle e vigilncia, com a criao de rgos especficos, entre o quais se destacam: Sistema de Vigilncia da Amaznia (SIVAM), Projeto Calha Norte (PCN), Programa para o Desenvolvimento da Fronteira da Amaznia Ocidental ou Calha Sul etc.

4.5 PROJETO GRANDE CARAJS O Projeto Grande Carajs (PGC) um dos maiores projetos j desenvolvidos na Amaznia. Abrange cerca de 400 mil km2 do Par. Seu objetivo inicial explorar as gigantescas reservas minerais da Amaznia e, ao abrir essa nova fronteira econmica, transformar o Brasil em uma potncia mundial. A implantao do projeto custou $US 60 bilhes para o governo brasileiro. A Serra dos Carajs possui grandes quantidades de ferro, e talvez seja a maior reserva do mundo, com cerca de 18 bilhes de toneladas, potencialmente explorveis. Em 1994 a empresa chegou a vender cerca de 100 milhes de toneladas, sendo uma das maiores exportaes realizadas at a data. A regio tem ainda depsitos de mangans, cobre nquel, ouro, bauxita (alumnio) e estanho (Encarta 2000). O PGC foi um empreendimento iniciado durante o governo do presidente do Brasil General Artur da Costa e Silva, que exerceu o cargo de 1967 a 1969. Antes de

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tudo preciso deixar claro que alguns dos grandes projetos realizados pelos militares tinham como objetivo desenvolver a economia do Brasil, e especialmente a regio norte. Porm, para Oliveira (1991), ao analisarmos alguns desse programas de

desenvolvimento verificamos que tudo no passou de uma manobra para entregar os recursos naturais brasileiro para os norte-americanos.

O governo Castelo Branco abdicou da soberania nacional, influenciado pelo pavor do comunismo que lhe incutiram os oficiais norte-americanos engajados na Escola superior de Guerra. Fizeram crer a um grupo de oficiais brasileiros... que deveriam as fronteiras geogrficas do Brasil ceder lugar a uma fronteira ideolgica, muito mais importante. Assim, sob o pretexto de segurana das fronteiras ideolgicas, correram, nos anos de 1964 a 1967, para a realizao da maior pilhagem que os Estados Unidos jamais praticaram antes, fora de suas fronteiras. Contudo, chegaram impor ao pas uma constituio, em que o conceito de Segurana Nacional contido na defesa do territrio e das riquezas passou a ser o de segurana dos monoplios que se apoderaram de nossos recursos naturais, de nossas indstrias, de nossa economia, a ttulo de defesa de fronteiras ideolgicas (Oliveira, 1991).

A Serra do Carajs, no Par, foi descoberta como potencial para a minerao em 1967 pela Cia. Meridional de Minerao (uma subsidiria da empresa Norte-americana United States Steel Co.). A Cia. Meridional de Minerao descobriu a imensa reserva de Minrio de Ferro que l havia. Durante a poca da descoberta foi divulgado que se tratava apenas de uma coincidncia.Mas a [histria oficial] sobre a descoberta das jazidas pelo gelogo Breno Augusto dos Santos, a servio da Cia. Meridional de Minerao foi a de que tiveram que fazer um [pouso forado, de emergncia], justamente em cima das jazidas de ferro de Carajs, e da descobriu-se o minrio (Oliveira, 1991).

O programa Carajs foi um projeto que visava explorar o minrio de ferro, ou seja, extra-lo e export-lo na forma de matria-prima ou ferro gusa (Oliveira, 1991) atravs da Estrada de Ferro Carajs (EFC) numa extenso de 890 km, ligando a Serra dos Carajs ao porto de Ponta Madeira, em So Lus do Maranho. Todo Minrio extrado era exportado, ficando apenas uma pequena porcentagem para suprir o mercado interno. Um dos grandes compradores de Minrio de Ferro foi o consrcio japons, que adquiriu aproximadamente 25 milhes de toneladas, em 1987, por exemplo. O PGC est atualmente sob o controle da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), empresa cuja

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privatizao ocorreu em 1997 durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil poca. A CVRD tida como o elo estatal/nacional (antes da privatizao) no processo de entrega dos recursos mineiras do Brasil em geral, e da Amaznia em particular (Miranda, 2005).

Conforme Oliveira (1991), alm da explorao do Minrio de Ferro, o PGC integrou o Projeto dos plos de alumnio, que visa articular as jazidas do Vale dos Trombetas (local de extrao de alumnio) com todo o complexo do Grande Carajs. Entretanto, todo o programa do plo alumnio fora executado por empresas americanas e canadenses deixando claro mais uma vez, que os recursos da Amaznia estavam sendo internacionalizados. Contudo manteve-se a justificativa de crescimento econmico e de soberania nacional. Dessa maneira, percebe-se que, nesses casos tambm, houve uma internacionalizao dos recursos naturais do pas sem ter que internacionalizar a floresta Amaznica.

Recorrendo novamente a Oliveira (1991):[...] Tudo isto foi feito sob a coordenao dos governos militares que prepararam a regio para que, mesmo sem sua internacionalizao de fato, a internacionalizao de seus recursos naturais se efetivasse. Na Amaznia o lema : exportar o que importa [...] (Oliveira, 1991).

4.6 PROEJTO JARI

Dentre os vrios empreendimentos na rea florestal, realizados na Amaznia, destaca-se tambm o Projeto Jari do milionrio norte-americano Daniel Keith Ludwig. Este projeto fora implantado na Foz do Rio Amazonas, entre os municpios de Almerim (PA) e Mazago (AP) e foi idealizado, basicamente, como um programa florestal para a produo de celulose.

Este projeto florestal para a produo de celulose apresentou a necessidade do reflorestamento, sendo destinados uma rea de 200.00 ha para o plantio de 100 milhes de ps de Ggmelina arborea, espcie asitica aclimatada na frica e do Pinus caribea espcies de onde se obtm a celulose. Estas rvores foram cultivadas aps a retirada das madeiras de lei da floresta Amaznica e da queimada da floresta que restou. Portanto,

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queimou-se uma floresta que levou centenas de anos para se formar para reflorest-las com espcies exticas de interesse puramente econmicos (Oliveira, 1991).

Tambm deve ser ressaltado que a Jari Florestal associou-se a ICOMI Indstria e Comrcio de Minrios S/A que explora o Mangans no Amap.

Outro projeto dentro do Jari a da rizicultura que est localizado em So Raimundo (Par), nas terras baixas prximas ao rio Amazonas, visando produo total de 140.000 toneladas de arroz em superfcie de mais de 15.000 ha. O projeto Jari, alm de operar na rea de produo de celulose e cultivo de arroz, abrange tambm outros setores com o conhecimento e aprovao do governo brasileiro (Oliveira, 1991). Os investidores estrangeiros, no caso do Jari, sabiam onde se encontravam as riquezas do pas, e, o principal, contava com a conivncia dos militares na realizao do projeto. Dessa forma, os governantes estavam facilitando a retirada de recursos naturais do pas.

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5. OS PRINCIPAIS PROJETOS PARA MONITORAO E PROTEO DA AMAZNIA Neste trabalho sero destacados os projetos Radar da Amaznia (RADAM), RADAM BRASIL, SIVAM (Sistema de Vigilncia da Amaznia), Projeto SIPAM (Sistema de Proteo da Amaznia), e Projeto Calha Norte (PCN), Programa de Desenvolvimento da Fronteira da Amaznia Ocidental (PRODFAO), pois so os mais importantes na regio Norte, principalmente, em relao questo dos atos ilcitos que esto ocorrendo em suas fronteiras, como por exemplo, o trfico de drogas e animais, a biopirataria e a transposio de fronteiras etc. 5.1 PROJETO SIVAM

O SIVAM, cujo objetivo principal monitorar os 5,2 milhes de km da regio. um projeto da Secretaria de Estudos Estratgicos (SAE) e do Ministrio da Aeronutica e integra um programa mais amplo, o SIPAM - Sistema de Proteo da Amaznia. Tambm os Ministrios da Justia, Comunicaes, Meio Ambiente, Marinha e Exrcito fazem parte deste projeto. O SIVAM pretende ser uma rede integrada de telecomunicaes baseadas no sensoriamento remoto, que processar imagens obtidas por satlite e sensores instalados em avies que faro a varredura das reas a ser protegida. As informaes ficaro armazenadas em Braslia, e operar em conexo com centros de vigilncia, em Manaus-AM, Belm-PA e Porto Velho-RO. O governo pretende controlar o trfego areo e atividades ilegais - tais como o narcotrfico e contrabando -, e atos "hostis", por exemplo, a transposio de fronteiras. Alm disso, pretende mapear as bacias hidrogrficas, jazidas de minrios e outros recursos, e cuidar da proteo ambiental (combate ao desmatamento, queimadas e minerao ilegal). O Brasil acusado de desmatamento de mais de 50 milhes de hectares de floresta, nos ltimos 20 anos. O custo est orado em US$ 1,4 bilho, dos quais US$ 500 milhes seriam gastos no Brasil (aquisio de materiais e servios) (Miranda, 2005).

O projeto foi concebido em 1990, no governo do presidente Fernando Collor, e em 1993, o governo Itamar Franco, alegando tratar-se de projeto sigiloso (de segurana nacional), contratou sem licitao, no final de 1994, a Esca - Empresa de Automao de Sistemas -, que mais tarde seria denunciada por fraudar a Previdncia, o que por lei, a impediria de ser escolhida. A Esca especializada em contratos de defesa com o 28

governo, incluindo a implantao do CINDACTA (rede de controle do trfego areo) responsvel pela vigilncia do espao areo nacional.

Essa questo dividiu os militares: Mario Csar Flores (ex-ministro-chefe da SAE), apareceu como o maior apoiador do SIVAM. As Foras Armadas levaram para a Amaznia deputados da Comisso de Defesa Nacional, para convenc-los de que o Brasil corre o risco de perder a soberania sobre a regio. Segundo essa tese, o isolamento da Amaznia poderia levar sua internacionalizao. O pas j teria inclusive perdido algumas batalhas nesse conflito. Como exemplos, citam a demarcao de extensas reas de reservas indgenas, a perspectiva da internacionalizao do combate ao narcotrfico na regio e a presena de misses religiosas, que, na verdade seriam grupos interessados nos recursos minerais (Miranda, 2005). Outros, como o chefe do 7 Comando Areo Regional da Amaznia, brigadeiro Mrcio Callafange, avaliam que o SIVAM pode se tornar um novo Calha Norte.

A atividade do narcotrfico e da guerrilha em pases da Amaznia Internacional , nesse sentido, uma fonte de preocupao. No Peru, o Sendero Luminoso; a Guyana, presidida por um marxista e com seu regime cooperativista, tem questes de fronteiras com o Suriname e a Venezuela; na Colmbia, alm das organizaes do narcotrfico, h as FARC (Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia), que, segundo o Comando Militar da Amaznia, teria invadido o territrio brasileiro, em fevereiro de 1995, para extorquir garimpeiros no rio Traras, prximo a Tabatinga, a 1.400 km de Manaus, portanto, adentrando ilegalmente em nosso territrio (Miranda, 2005).

Mas, o principal da luta contra as ideologias de esquerda o interesse dos grandes grupos nacionais e internacionais pelos recursos minerais da Amaznia. Minrios e minerais raros so encontrados em diferentes pores do subsolo e muitos so explorados de forma ilegal. Entre eles est o ferro, mangans, cobre, alumnio, estanho, ouro, prata, diamante, petrleo, gs natural, carvo, caolim, salgema, cromo, e, particularmente, titnio, tntalo, nibio, terras raras, trio, urnio. Toda rea com potencial de ocorrncia mineral explorvel j est concedida s empresas de minerao nacionais e internacionais. Sendo que boa parte destes minrios esto em reservas indgenas. Assim, o controle necessrio do trfego areo, pode tornar-se o pretexto para se proceder ao mapeamento das jazidas de minrios para a explorao mundial. E o

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combate ao narcotrfico e ao contrabando servir de escudo para se preparar a guerra aos chamados atos hostis (Miranda, 2005). Miranda (2005) afirma que muitas das nossas riquezas, dentre elas, madeiras de lei, plantas e substncias bsicas, tanto para remdios quanto para venenos, pssaros e at peixes ornamentais saem ilegalmente pelas fronteiras da Amaznia sem o menor controle por parte do governo. 5.1.2 OBJETIVOS DO SIVAM O SIVAM tem como objetivo principal captar e centralizar todas as informaes dos demais rgos que a ele estiver integrado ao banco de dados para process-las e analis-las. As informaes geradas pelo SIVAM devem auxiliar os organismos governamentais e outros que estiverem ligados proteo da Amaznia, inclusive, as foras armadas e Polcia Federal (PF), ou seja, ele um instrumento de proteo com as seguintes atribuies: a) Proteo do Meio Ambiente; b) Controle, ocupao e uso do da terra; c) Atualizao Cartogrfica; d) Vigilncia e controle das fronteiras; e) Monitorao de navegao fluvial e de queimadas; f) Identificao e combate s atividades ilegais; g) Monitorao e controle do trafico areo cooperativo e no cooperativo; h) Combate ao trfico de drogas, Animais e biopirataria; Conforme Miranda (2005), o SIVAM entrou em operao total em 2002 e, somente nos primeiros 30 dias de operao, foram identificas e apreendidas 84 aeronaves e 33 pistas de pouso clandestinas" foram destrudas.

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Em Maro de 2004 o governo criou a Lei n. 11.284, a chamada Lei de Gesto de Florestas Pblicas, que alm das possibilidades j existentes de uso sustentvel, inclusive em unidades de conservao, prev a concesso para que as empresas privadas possam explor-las, por at 40 anos, mediante processos de licitao. Fica evidente que, dessa forma, o governo brasileiro est dando margens privatizao da floresta Amaznica em detrimento da presevao (Rendeiros, 2003). Nas palavras de Aziz AbSber:A nova legislao permitir a entrega de parte da floresta Amaznica a grupos internacionais, que no sabem como explor-la de maneira sustentvel. Esse projeto o maior escndalo em relao inteligncia brasileira de todos os tempos. Vai ser um crime histrico (Rendeiros, 2003).

Embora bastante polmico, e apesar das dificuldades encontradas na implantao do SIVAM, alguns resultados positivos tm aparecido. Talvez, o mais importante garantir a soberania do pas, e com um pouco de vontade poltica desenvolver a regio. Mas no ser tarefa fcil, pois h uma extenso imensa a ser vigiada e o contingente de funcionrios escasso. Contudo, mesmo que no seja possvel o controle integral da rea, espera-se ao menos uma reduo significativa do problema. 5.2 PROJETO SIPAM

O projeto SIPAM (Sistema de Proteo da Amaznia), um subsistema ligado rede SIVAM e atualmente encontra-se em plena atividade. A misso do SIPAM integrar informaes e gerar conhecimento atualizado para a articulao, o planejamento e a coordenao de aes globais do governo na Amaznia brasileira, visando proteo, a incluso social e o desenvolvimento sustentvel da regio; e sua funo ser reconhecido como um sistema de excelncia na gerao integrada de conhecimento sobre a Amaznia (SIPAM, 2007)

A Base SIPAM integra informaes atualizadas sobre a Amaznia Legal brasileira (A Amaznia Legal uma rea que engloba nove estados brasileiros pertencentes Bacia amaznica e, conseqentemente, possuem em seu territrio trechos da Floresta Amaznica, conforme Figura 1). O uso destas informaes em projetos

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desenvolvidos pelo SIPAM e rgos parceiros proporciona a gerao de conhecimentos que auxiliam a articulao, o planejamento e a coordenao de aes globais de governo, visando proteo, a incluso social e o desenvolvimento sustentvel da regio. Atravs de imagens de satlite possvel visualizar dados especficos como, por exemplo, desmatamentos, recursos minerais e naturais, reas de preservao etc. O SIVAM possui uma infra-estrutura de ponta, ou seja, com alta tecnologia. Todos os dados gerados so armazenados e processados, gerando material para estudos em diversos segmentos.

Fig. 1 - Amaznia Legal BrasileiraFonte: www.wikipedia.org

5.3 PROJETO RADAM

A regio Amaznica at o fim da dcada de 60 era ainda bastante desconhecida em relao aos recursos naturais, e no havia praticamente nenhum controle por parte do governo sobre a regio. O projeto RADAM foi criado com a finalidade de fazer pesquisas na rea de recursos naturais, pois at aquela data elas no existiam (Miranda, 2005). Este projeto foi desenvolvido pelo governo brasileiro, mais precisamente pelo Departamento Nacional de Produo Mineral (DNPM) juntamente com Plano de Integrao Nacional (PIN). O levantamento foi feito com o auxlio de um avio equipado com radar e com outros instrumentos especficos para tal fim. Foi feita uma classificao de toda rea da Amaznia, e os dados que foram posteriormente analisados e documentados. O projeto todo, aps sua concluso, gerou aproximadamente 40

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volumes, entre dados e mapas com detalhes importantes para o governo. Posteriormente, com o sucesso dos resultados, o projeto foi se estendendo para o restante do pas, culminando no Projeto Radar do Brasil ou RADAM Brasil.

5.3.1 PROJETO RADAM BRASIL

O Projeto RADAM BRASIL foi continuao do Projeto RADAM. Devido ao sucesso obtido com os estudos realizados na Amaznia atravs do RADAM, o governo brasileiro resolveu ampli-lo para o restante do pas, para assim obter-se um panorama de todo territrio nacional, porm, com outro nome, pois se tratava de um projeto de mbito nacional. Neste caso fazendo o levantamento de recursos naturais, incluindo, geologia, geomorfologia, solos e vegetao. Os Projetos RADAM e RADAM BRASIL foram os maiores levantamentos realizados at o momento no pas. Todos os resultados realizados foram analisados e processados, gerando um valioso material de pesquisa, armazenados e disponibilizados para consultas (Miranda, 2005).

5.4 PROJETO CALHA NORTE O Projeto Calha Norte (PCN) foi institudo para proteger extensa faixa de fronteira na Amaznia, profundamente despovoada, merecendo, portanto, cuidados especiais do Governo Federal com o intuito de defender a Amaznia das ameaas externas, sobretudo em relao a sua biodiversidade. Em decorrncia do avano tecnolgico, os pases mais desenvolvidos como os Estados Unidos, Alemanha, Japo etc. se mostraram muito interessados nos recursos naturais.

A biopirataria um grave problema na regio e, segundo o pesquisador Frederico Arruda, do Instituto de Cincias Biolgicas da Universidade do Amazonas, com base em informao contida no peridico americano Washington Insight especializado em produtos naturais e destinado a empresrios da indstria farmacutica, pelo menos 10 mil extratos vegetais continuam sendo contrabandeados da Amaznia para os EUA, Europa e Japo. O PCN no foi criado apenas com o objetivo de proteger a fronteira do pas, mas tambm de desenvolver a regio economicamente, integrando-a ao restante do territrio nacional, visto que, esta parte do Brasil a menos assistida pelo governo. Nem 33

mesmo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica) tem informaes precisas acerca do nmero de habitantes dessa regio.

Conforme Miranda (2005) destaca, o projeto que comeou a ser implantado em meados da dcada de 1980 e previu o levantamento das seguintes necessidades bsicas e imediatas: a) intensificao das relaes bilaterais com pases vizinhos, com destaques trocas comerciais; b) aumento da presena brasileira na rea, com base na ao pioneira das foras armadas;

c) proteo e assistncia s populaes indgenas da regio;

d) intensificao das campanhas demarcatrias de fronteiras;

e) ampliao da infra-estrutura viria;

f) acelerao da produo de energia local;

g) estimulo a interiorizao de plos de desenvolvimento econmico, com base na vocao scio-econmica da regio;

h) ampliao da oferta de recursos sociais bsicos;

i) incremento da colonizao, com base nas populaes da rea e assistncia do Ministrio e Secretarias da Agricultura;

j) fortalecimento da ao dos rgos governamentais de justia, Polcia Federal e Previdncia Social como fatores de inibio da prtica de ilcitos, decorrentes da ausncia do Estado, em funo das distancias e do isolamento;

O PCN teve alm dos objetivos j citados um outro papel importante na regio que o de carter social, pois foram feitos investimentos em infra-estrutura para 34

benefcios das populaes, e talvez, o mais importante: teoricamente, ele era a garantia de que o governo viria a atuar na regio em prol das populaes mais distantes dos grandes centros urbanos.

Mas, mesmo assim, os problemas persistem na regio, e as populaes mais distantes, principalmente, as comunidades ribeirinhas, so as que mais sofrem por falta de infra-estrutura. Essa falta de assistncia, ou seja, onde o estado no est presente, acaba criando condies favorveis aos biopiratas e traficantes de drogas e animais, que se aproveitam dessa ausncia do governo para aliciar pessoas em benefcios prprios. 5.4.1 PRODFAO OU CALHA SUL

Devido ao avano militar na regio amaznica, o governo brasileiro instituiu o Programa de Desenvolvimento da Fronteira da Amaznia Ocidental (PRODFAO), tambm chamada de Calha Sul, projeto este que est ligado ao PCN.

Este projeto abrange a faixa de 150 Km de largura, a partir do estado do Amazonas, ao longo da fronteira com o Peru e a Bolvia, estendendo-se ao Acre, Rondnia e Mato Grosso, ou seja, comea onde termina o Calha Norte e estende-se at os limites de Mato Grosso como Mato Grosso do Sul. Ele se estende por

aproximadamente 3670 Km de fronteira abrangendo uma rea de 550.500 Km, o equivalente a 3 vezes a rea do Estado do Cear, ou a rea do estado da Bahia, ou 12,4 vezes o Estado do Rio de Janeiro (Kowarick, 1993). Com a criao do PRODFAO aumentou-se a vigilncia das fronteiras do Brasil com os demais pases, portanto, aumentaram-se as dificuldades das atividades ilegais na regio. O PRODFAO est em plena atividade e atua em parceria com PCN.

5.4.2 CALHA SUL E CALHA NORTE

Os projetos Calha Norte e Calha Sul na verdade so uma estratgia de ocupao e segurana nacional que contou com o apoio do Pentgono (Pentgono a sede do Departamento de Defesa americano, local Central das Foras Armadas dos Estados Unidos, onde se tomam as decises mais importantes), para a proteo da rea pelo exrcito, e tambm para promover o desenvolvimento da regio. Este

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desenvolvimento iria influenciar outros pases vizinhos, tal como: Bolvia, Peru, Colmbia, Venezuela e as guianas. Porm, a verdadeiro objetivo era manter a presena dos militares na regio para uma eventual represso aos movimentos de ideologia comunista, que por ventura viessem a aparecer. Esta idia de combate aos comunistas um projeto de cunho militar criado no perodo da ditadura no Brasil (1964 a 1985). Porm atualmente no se tem mais este conceito de combater comunistas, mas sim a inteno de proteger o territrio e mant-lo soberano ao restante da nao. Os projetos das Calhas no Brasil foram seguidos por projetos similares na Bolvia, no Peru, na Colmbia e Venezuela, visando o desenvolvimento regional das regies amaznicas de seus pases (Kowarick, 1993).

Kowarick (1993) afirma que as integraes feitas nas regies amaznicas foram vistas pelo presidente norte-americano Clinton, na dcada 90 como elementos para a anexao das riquezas ao mercado norte-americano, sob controle das multinacionais daquele pas e a defesa de seu exrcito, na medida em que defendem a mudana dos papis dos exrcitos nacionais.

Dessa forma, pode-se interpretar que os projetos elaborados foram tambm uma estratgia norte americana para domnio (imperialismo) da regio, pois o Brasil tido como um aliado seguro. Sendo assim, as Foras Armadas iriam operar na rea Amaznica garantindo a inibio de qualquer ameaa de subversivos na regio, ou seja, a PRODFAO foi um projeto de cunho, exclusivamente, militar, Kowarick (1993).

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6. GEOPOLTICA AMBIENTAL Filho (2003) afirma que a questo ambiental um assunto chave para o sculo XXI, tendo em vista o escasseamento dos recursos naturais do planeta devido poluio ambiental acelerada, ao desflorestamento, extrao descontrolada dos recursos naturais etc. Segundo o primeiro Relatrio Nacional para a Conveno sobre a Biodiversidade Biolgica, o Brasil o primeiro do mundo no que se refere biodiversidade. A maior parte desses recursos provm da Amaznia. Do ponto de vista energtico, o Brasil possui um potencial de 65% de fontes renovveis de energia, enquanto os Estados Unidos dependem 75% dos combustveis fsseis. A Amaznia possui 18 espcies oleaginosas nativas; seu potencial energtico comprovadamente substitui o leo diesel com eficcia maior e sem danos ao meio ambiente, sobretudo com a vantagem de ser renovvel. A Frana h tempos, investe recursos na oleaginosa de dend (Elaeis guineensis) visando a substituio do leo diesel. Partindo dos recursos naturais, para a variedade do eco-sistema amaznico [a regio esta mundialmente conhecida pela variedade do seu ecossistema] percebemos que esta correspondendo a 1/3 das reservas tropicais do mundo, estendendo-se por 7.300.000 Km, dos quais 68,2% esto concentrados em territrio brasileiro. Ali tambm se encontra o maior nmero de espcies de plantas por hectare de floresta, se comparar ao continente norte americano; nas florestas temperadas da Frana so encontrados apenas 50 tipos de rvores enquanto que na Amaznia brasileira podemos encontrar mais de 2.500 espcies. Assim:Pela sua riqueza diversificada, a regio amaznica torna-se um campo percorrido por legies de homens da cincia, mas tambm por industriais e governantes nacionais e internacionais. A intensidade mineradora, agropecuria, madeireira e da prtica da biopirataria gentica revela um dado perverso dos interessados na Amaznia que caminha de brao dado com a simpatia da causa ecolgica protecionista (Filho, 2003).

Filho (2003) relata que a biodiversidade sendo reconhecida como uma fonte riqussima atrair aquilo que chamamos de biopirata que na verdade j est ocorrendo na regio h vrios anos. A biopirataria a grande responsvel pela explorao gigantesca que est assolando a Amaznia. Esta atividade ilegal rende bilhes de dlares s indstrias qumicos e farmacuticos (Filho, 2003).

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Filho (2003) cita que o lder indgena, Airton Krenak, compara os biopiratas queles do sculo XVI e XVII e vai mais alm:Da mesma maneira como os piratas desciam do Caribe, para saquear a costa nos sculos XVI e XVII, os piratas modernos continuam saqueando a Amrica. S que agora eles no esto saqueando com trabuco, eles esto saqueando com computadores, satlites (...) No lugar de piratas truculentos, eles esto botando executivos, presidentes democratas, parlamentares vacinados. Tudo isto uma orquestra montada para que o fluxo de sangria da Amrica Latina continue vivo, enquanto tiver um grama de minrio, algum rio correndo ou alguma floresta em p, haver um doido inventando ou justificando, programas que chamam de desenvolvimento.

Filho (2003) enfatiza alguns dos produtos extrados da flora amaznica, destacando as plantas produtoras de ltex, entre elas a seringueira, responsvel pelo desenvolvimento da regio, e tambm plantas produtoras de leo e gorduras como as palmeiras, a castanha-do-par, jatob, copaba, das quais so extradas resinas que servem para a fabricao de vernizes e substncias aromticas, importantes na elaborao de cosmticos. Tambm existem plantas medicinais como a graviola, empregada no tratamento do diabetes, e copaba, usada contra infeces. Em 2002 foi divulgado que (...) o leo de copaba, extrado de uma espcie vegetal da Amaznia, com alto poder antibitico e antiinflamatrio, estaria sendo pesquisado por uma indstria farmacutica alem, e poderia resultar em um produto antibitico novo. Este seria mais um exemplo de recurso natural encontrado em um pas do terceiro mundo, cujo princpio uma vez detectado, serviria para a criao de um novo produto, rendendo royalties aos seus descobridores estrangeiros que estariam pesquisando sem o conhecimento das autoridades governamentais brasileira.

Tomando como referncia o meio ambiente e a manuteno das fronteiras, a percepo militar muda ao longo das trs ltimas dcadas em relao regio. Na dcada de 70, suas preocupaes com relao Amaznia consistiam na tese da Amaznia pulmo do mundo, sendo substitudo na dcada de 80 pela problemtica do efeito estufa e na dcada de 90 pela tese da cobia externa. A problemtica A idia da Amaznia pulmo do mundo partia do princpio que as florestas exerceriam a funo de filtro, essencial no controle deste efeito. A do efeito estufa era de que a Amaznia exerceria a funo de manter estvel o clima nos pases do hemisfrio norte, pois ela era tal como uma mquina de calor. Filho (2003) afirma para quem conhece um

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pouco dos debates sobre a geopoltica e estratgia amaznica que os militares brasileiros entram no sculo XXI mais convencidos de que a ameaa de interveno estrangeira por parte das potencias mundiais o eixo da problemtica da defesa da Amaznia e alguns acontecimentos reforaram esta tica tais como o Plano Colmbia. A criao do SIVAM segue o mesmo sentido do Projeto Calha Norte que seria, segundo os militares, uma tentativa do Governo brasileiro em redirecionar suas atenes para a Amaznia com a inteno de fazer frente s presses internacionais que preconizam a internacionalizao desta regio (Filho, 2003).

6.1 A TENTIVA DA INTERNACIONALIZAO DA AMAZNIA

Ribeiro (2005) diz que os pases desenvolvidos, cujo avano tecnolgico, ocorreu com a explorao mxima de seus recursos ambientais acabaram gerando, praticamente, o fim de suas florestas, e com isso, houve uma mudana no jogo poltico internacional, onde esses pases agora se voltaram para a preservao do meio ambiente. O aumento do aquecimento global, decorrente das crescentes emisses de gases poluentes, principalmente os derivados de combustveis fsseis, vem chamando a ateno de organismos e governos internacionais para a preservao de florestas, como um meio de se tentar amenizar o problema.

Na verdade, a repercusso da destruio da Amaznia refere-se aos perigos que representa para o planeta a devastao da floresta, que colocaria sob ameaa a prpria sobrevivncia da humanidade A origem do alarde est ligada ao pesquisador alemo Harald Sioli do instituto Max Plank de Linmologia que divulgou de forma errnea sua pesquisa sobre a floresta amaznica, talvez por falta de ateno ou por ignorncia, mas foi o suficiente para gerar um grande alarde mundial. (Ribeiro, 2005).

[...] Perguntado a respeito da influncia da floresta sobre o Planeta, o Dr. Sioli afirmou que a floresta fixava grande quantidade (25%) de dixido de carbono (CO2) existente na atmosfera. Ao preparar a matria, o jornalista truncou a declarao, eliminando o C, do que resultou O2, smbolo da molcula de oxignio. Do balano oxignio/gs carbnico, a afirmao do cientista fora de que cerca de 25% do carbono existente na atmosfera terrestre estavam armazenados na biomassa da floresta amaznica. O equivoco ou a ignorncia do reprter, transformou esses 25% em oxignio, a reportagem foi publicada em quase todo o mundo e a Amaznia como pulmo passou a ser mais um novo mito amaznico [...] (Ribeiro, 2005).

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O tempo permitiu que fosse demonstrada a falcia dessas alegaes que no passavam de pretextos para que outros pases justificassem propostas de internacionalizao da Floresta Amaznica; certamente essa idia de internacionalizar as reservas florestais do Terceiro Mundo, no seja, mais uma manobra geopoltica que querem impor a estes pases, cuja finalidade, nada mais que, apenas explorar seus recursos em beneficio prprio (Ribeiro, 2005).

6.2 AS REAES INTERNACIONAIS A DEVASTAO AMBIENTAL DA AMAZNIA

Conforme Ribeiro (2005), o assassinato de Chico Mendes decisivo para que as agncias internacionais oficiais e os governos dos pases ricos passassem a ver um pretexto para propor medidas concretas, objetivando limitar ou, at mesmo, a excluir a soberania do Brasil sobre a regio amaznica. O argumento de que o Brasil no tem condies ou capacidade de proteger e explorar a regio de forma racional, contudo, trazendo prejuzos ao meu ambiente e a humanidade.

Dentro da estratgia de manifestar o seu protesto contra a devastao da regio, o congresso americano enviou duas (2) comisses (grupos de senadores e deputados) para ver a gravidade da destruio da floresta. O primeiro grupo foi formado pelos senadores Albert Gore, Richard Shelby, Tim Worth e Jhon Heinz e pelos deputados Gerry Sikorski e John Brejant. Esse grupo de parlamentares props a criao de uma Fundao para a Conservao Brasileira, cuja direo contasse com especialistas estrangeiros. Alm disso, o grupo pressionou duramente o Banco Mundial e o Governo Japons para restringirem seu apoio financeiro ao Brasil (Ribeiro, 2005).

Portanto, clara a inteno, principalmente, dos Estados Unidos de criar um organismo que possa vir a intervir na regio amaznica a qualquer momento a favor da sua preservao, ou explorao.

O PROJETO DE LEI DO SENADOR ALBERT GORE

De acordo com Ribeiro (2005), desejando reafirmar a sua plataforma poltica ambientalista, o senador Albert Gore apresentou ao Senado norte-americano um projeto

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sob o titulo Lei de Poltica Ambiental Mundial de 1989. O Titulo do projeto de lei j evidencia a arrogncia do Imprio Americano, quando pretende que o Senado dos Estados Unidos aprove uma lei definindo a poltica ambiental a ser obedecida por todo o mundo. Na justificativa, o senador que depois foi candidato Presidncia de seu pas ressalta a importncia da preservao da floresta amaznica que est sendo saqueada. Essa seria uma lei do governo americano para proteger o meio ambiente mundial, no importando se isso iria violar a Carta das Naes Unidas, que protege a soberania dos pases membros.

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7. GEOPOLTICA DO NARCOTRFICO

No incio de 1990, a preocupao do mundo j no era mais a possibilidade da catstrofe nuclear ocasionado por um confronto direto entre o leste socialista e o oeste Capitalista - conforme j mencionado anteriormente-, e a questo ecolgica e ambiental passa a ganhar relevo, em especial a Amaznia. O combate ao narcotrfico passa a ser uma questo de estratgia para os EUA que, assim, teriam em mos uma justificativa razovel para a manuteno de sua interveno em pases em sua esfera de influncia como aqueles localizados na regio central e sul do hemisfrio. O redirecionamento da estratgia de ao norte-americana para o combate ao narcotrfico foi estimulado pelas Cpulas de Cartagena e San Antnio. A cpula de Cartagena (Colmbia), de 1990, reuniu o presidente Bush (EUA), Paz Zamora (Bolvia), Alan Garcia (Peru), Virglio Barco (Colmbia). Sendo que o principal resultado foi um acordo de dez pginas, segundo o qual a cooperao econmica e as iniciativas internacionais, s, sero eficazes se forem acompanhadas de programas enrgicos contra a produo e o trfico e o consumo de drogas ilegais. Esses programas devem contar com organismos policiais, fiscais e jurdicos e envolver vrias instituies, uma ao com aspecto amplo e no somente militar (Arbex, 2003). Ainda em conformidade com Arbex (2003) a Cpula de San Antnio foi realizada na cidade de San Antnio (EUA), nos dias 26 e 27 de fevereiro de 1992, com a presena dos presidentes Bush (EUA), Czar Gavria (Colmbia), Alberto Fujimori (Peru), Paz Zamora (Bolvia), Rodrigo Borja (Equador), Carlos Salinas (Mxico), Carlos Andrs Peres (Venezuela). A Declarao de San Antonio estabeleceu que o combate ao Narcotrfico deve respeitar em qualquer hiptese a soberania dos pases envolvidos (...). O combate ao narcotrfico deve ser feito de forma compartilhada e que para uma ao mais efetiva necessrio oferecer estmulos aos pases que geram empregos e divisas (Arbex, 2003). Esse esforo norte-americano de combate ao narcotrfico resultou em 1995, no Plano Colmbia, cujo principal objetivo combater a produo e o trfico de cocana na Colmbia. Este documento feito pelo Departamento de Estado dos EUA prev, no apenas ajuda financeira, mas a presena de funcionrios civis e militares norte-americanos no territrio colombiano, pas que est assentado sobre a bacia amaznica. A justificativa para o Plano o combate ao narcoterrorismo, supostamente promovido pelas Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia (FARC)

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e pelo Exrcito de Libertao Nacional (ELN). A partir dessa presena ativa dos EUA na Colmbia, sua extenso para toda a Amrica do Sul bastante provvel.

Fica claro que esses fatores somados mostram a existncia de uma questo amaznica, tema de intensos debates no mbito da poltica internacional, e que essa questo vem sendo utilizada pelas Foras Armadas como argumento-tese para a ocupao da regio por meio de projetos de desenvolvimento, nos quais os militares so os principais coordenadores, legitimados por terem acompanhado o desenvolvimento da regio, estando treinados para quaisquer problemas, desde os anos 50 (Arbex, 2003). Assim, seguindo as teses geopolticas, teses estas que tambm evoluem e tomam como constituinte de si mesma a questo ambiental, os militares brasileiros foram eficientes em notar a importncia da Amaznia e do seu desenvolvimento, mantendo-se como atores privilegiados na ao de preservao da rea sob controle do Brasil, pois no parece ser fora de propsito tese segundo a qual os EUA tm grande interesse no controle da regio. O investimento ligado questo da droga feito pelo governo norteamericano na regio, bem como a sua presena quase soberana na Colmbia, atesta haver uma poltica norte-americana com vistas ao controle da regio amaznica tornando necessrio que os governos da regio assumam sua soberania e coordenem aes para garanti-la. O SIVAM foi apresentado ao pas como sendo um projeto com essa finalidade; dado, entretanto, o tipo de controle exercido pelos tcnicos norteamericanos sobre o processamento de dados coletados pelos satlites, sabemos que esse sistema no ser til para a finalidade pretendida (Arbex, 2003).

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8. O QUE BIOPIRATARIA

Atualmente, ainda, no existe uma definio oficial para o termo biopirataria. Porm, alguns pesquisadores e instituies cientficas esto elaborando algumas definies.

Conforme a conceituao de biopirataria advinda do Instituto Brasileiro de Direito do Comrcio Internacional, da Tecnologia da Informao e Desenvolvimento CIITED -, temos:Biopirataria consiste no ato de aceder ou transferir recurso gentico (animal ou vegetal) e/ou conhecimento tradicional associado biodiversidade, sem a expressa autorizao do Estado de onde fora extrado o recurso ou da comunidade tradicional que desenvolveu e manteve determinado conhecimento ao longo dos tempos (prtica esta que infringe as disposies vinculantes da Conveno das Organizaes das Naes Unidas sobre Diversidade Biolgica A biopirataria envolve, ainda, a no-repartio justa e eqitativa - entre Estados, corporaes e comunidades tradicionais - dos recursos advindos da explorao comercial ou no dos recursos e conhecimentos transferidos (Boletim, 2007).

A biopirataria est ocorrendo em diversas partes do mundo, principalmente, nos pases prximos linha do Equador, devido diversidade biolgica que os trpicos apresentam. Em relao Amaznia brasileira podemos afirmar que:Essa biodiversidade, ainda no explorada devidamente por ns brasileiros, por falta no s de recursos tcnicos, como humanos, tem despertado a curiosidade e a cobia de muitos povos para conhec-la e explor-la em benefcio prprio. Alis, no podemos nos esquecer da explorao predatria de madeira, cuja extrao est tornando-se um grave problema na regio. Esse conhecimento se d pela pesquisa oficial, controlada pelo governo, ou pelo roubo, que na linguagem diplomtica se chama [Biopirataria] (Shiva, 2001).

A questo da biopirataria envolve diversos tipos de crimes que ainda no possuem uma lei especifica para tal fim. O trfico de animais silvestres torna-se um problema de grandes propores para o pas. De acordo com o relatrio Trfico de Animais Silvestres no Brasil, publicado pelo site Amazonlink, mostra que o nosso pas est entre os que mais praticam o comrcio ilegal de espcies animais e vegetais. Depois do trfico de armas e drogas, este o terceiro maior negcio ilcito do globo. Os principais compradores so colecionadores, zoolgicos, indstrias de bolsas couro e

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calados e laboratrios farmacuticos, este ltimo, principalmente devido ao avano da biotecnologia. Devido s grandes dificuldades enfrentadas pelas comunidades locais, sobretudo na Amaznia, causada pelo abismo social. Muitas acabam entrando para o ramo do trfico de animais e plantas, pois no possui, na maioria das vezes, uma renda suficiente para seu sustento. Fica fcil alici-los, pois elas no tm apoio nenhum do governo que as esqueceram, s se lembrando de sua existncia na poca poltica, onde prometem mundos e fundos.

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9. ENGENHARIA GENTICAJuntamente com o avano tecnolgico, um outro campo obteve grande xito, a engenharia gentica, uma rea promissora que est revolucionando a cincia. Exemplos so

a produo de insulina humana atravs do uso modificado de bactrias e da produo de novos tipos de ratos como o OncoMouse (rato cancro) para pesquisa, atravs de reestruturamento gentico. J que uma protena codificada por um segmento especfico de ADN (cido desoxirribonuclico) chamado gene, verses futuras podem ser modificadas mudando o ADN de um gene. Uma maneira de o fazer isolando o pedao de ADN contendo o gene, cortando-o com preciso, e reintroduzindo o gene em um segmento de ADN diferente. A engenharia gentica oferece a partir do estudo e manuseio bio-molecular (tambm chamado de processo biolgico e molecular), a obteno de materiais orgnicos sintticos. Os processos de induo da modificao gentica permitiram que a estrutura de seqncias de bases completas fossem decifradas, portanto facilitando a clonagem de genes. A clonagem de genes uma tcnica que est sendo largamente utilizada em microbiologia celular na identificao e na cpia de um determinado gene no interior de um organismo simples empregado como receptor, uma bactria, por exemplo. Este processo muito importante na sntese de alguns sub-produtos utilizados para o tratamento de diversas enfermidades. A engenharia Gentica um novo modo do conhecimento em que permite ao ser humano modificar as caractersticas hereditrias de um organismo em um sentido predeterminado, mediante a alterao de seu material gentico. (Encarta, 2000).

9.1 ALGUNS BENEFICIOS DA ENGENHARIA GENTICA

Um exemplo de aplicao da engenharia gentica dado por Arantes e Rodrigues (2004) onde se estuda a produo da banana vacinante, pela qual, aplicar-seia um gene reprodutor da vacina contra a Hepatite B. A produo da banana vacinante facilitaria o transporte e o armazenamento em locais precrios, portanto seria uma nova arma contra esta doena que atinge, aproximadamente, 5% da populao mundial. Este

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novo mtodo de vacina tornaria possvel a vacinao de pessoas em localidades onde no exista, por exemplo, um adequado sistema de refrigerao, necessrio para as vacinas comuns.

No mundo todo cada vez mais, utilizado as plantas modificadas geneticamente, conhecidas como OGM (Organismos modificados geneticamente). Nelas so inseridos genes que induzem produo de determinadas molculas que podem servir como medicamento. Outro passo importante que foi dado atravs da engenharia gentica foi sntese do hormnio do crescimento, que produzido naturalmente pelo corpo humano. Segundo Arantes e Rodrigues (2004) o hormnio do crescimento extrado da hipsife (glndula que se localiza na parte inferior do crebro) dos cadveres de seres humanos, porm havia um grande risco de contaminao por vrus causadores de doenas. Em 1979, este hormnio comeou a ser produzido nos Estados Unidos atravs da modificao gentica de bactrias, ou seja, por bactrias transgnicas, o que proporcionou pureza das molculas, eliminando o risco de contaminao do hormnio como no caso dos cadveres.

Arantes e Rodrigues (2004) nos do um outro exemplo da engenharia gentica para a aplicao do hormnio do crescimento. Atualmente, aplica-se o hormnio do crescimento humano em porcos, para assim aumentar seu peso. O suno que recebe este gene ganha peso superior ao que suas pernas agentam suportar, ou seja, engordam muito. Alm do mais, outros porcos nascem com deformaes fsicas e muitos vivem por apenas alguns dias, ou seja, no h segurana quanto a sua aplicao em seres vivos. O grande problema disso tudo que no sem tem uma segurana suficiente para que possa ser usadas em seres humanos

A biotecnologia no pode ser 100% confivel, pois ainda uma cincia nova, cujos primeiros passos esto sendo dados, porm tem um potencial de revolucionar o modo de vida da Terra. Cincia esta que pode ser usada em benefcio da humanidade ou ser uma nova forma de domnio, ou seja, uma nova de forma de imperialismo ou bioimperialismo (Barbeiro, 2006).

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10. BIODIVERSIDADE E BIOPIRATARIA

Kowarick (1993) afirma que a floresta tropical mida, entre ela a da Amaznia, tem um vastssimo potencial econmico em todas as reas do trabalho humano, e que esta riqueza tem estimulado o interesse das grandes potencias do globo. Sua biodiversidade ainda no totalmente conhecida. At os dias de hoje, das 1.400.000 espcies efetivamente descritas de plantas superiores e inferiores, de invertebrados, de mamferos, rpteis, aves e microorganismos. Mas, ao contrrio, os inventrios de todos os grupos mais estudados do conta que cerca de 2/3 de todas as espcies do globo esto nas florestas tropicais midas. Enfim, 40% das espcies da Terra esto concentradas em apenas 7% das terras emersas do planeta 1.

De acordo com Arajo (2006) o Brasil um dos pases mais afetados pelo trfico de animais e a biopirataria.

Alm de tucanos, aranhas, papagaios e peixes ornamentais, outros animais ocupam a extensa lista de espcies exploradas pelo trfico: macacos, sapos e cobras traficados principalmente com o propsito de compor pesquisa na rea biomdica. Os peixes ornamentais, pssaros, besouros, borboletas e aranhas visam atender grande demanda promovida por vidos colecionadores. Quantitativamente, o maior nmero de participantes do trfico no Brasil encontrado na rea de captura. So jovens e desempregados, lavradores ou pescadores que se ligam aos caminhoneiros, motoristas de nibus e outros que transitam normalmente entre zona rural e os mdios e grandes centros urbanos. Nos centros urbanos, so encontrados os mdios traficantes que atuam no mercado atacadista, voltado inclusive para o trfico internacional. O processo finalizado com o que se poderia denominar de promotores. So os consumidores normalmente localizados nos nas reas metropolitanas; criadores particulares, nos apostadores de rinha, nos apreciadores de carnes exticas, em alguns zoolgicos particulares e empresas internacionais de produtos farmacuticos (Arajo, 2006).

Com o avano tecnolgico a natureza deixou der ser apenas um meio de sustento para o homem, tornando-se tambm uma fonte de matria-prima essencial para a economia e o desenvolvimento. Antigamente extraam-se madeiras com o propsito de construir habitaes, embarcaes etc. Havia tambm impacto ambiental, mas no nas mesmas propores como ocorre atualmente. Com o avano tecnolgico e, sobretudo

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Para maiores informaes: Kowarick, Marcos. Amaznia/Carajs Na trilha do Saque

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com o avano do capitalismo, a natureza passou a ser vista como uma fonte de recursos explorveis visando sobretudo o lucro.

A tabela 1 relaciona os animais utilizados para fins cientficos - neste grupo encontram-se as espcies que fornecem a matria-prima base para a pesquisa e produo de medicamentos que so patenteados em organismos internacionais, gerando grandes montantes de lucros s empresas donas da patente. um grupo que, devido intensa incurso de pesquisadores ilegais no territrio brasileiro em busca de novas espcies, aumenta a cada dia.

Tab. 1 Algumas espcies da Fauna brasileiraNOME COMUM Jararaca Jararaca Ilha Cascavel Sapos Amaznicos Aranha Marrom Aranhas Besouros Vespas Coral verdadeiro NOME CIENTFICO Bothrops jararaca Bothrops insularis Crotalus durissus Dendrobates sp. Loxoesceles similis Vrias Espcies Vrias Espcies Vrias Espcies Micrurus frontalis

Fonte: Rede Nacional de Combate ao Trfico de Animais Silvestres, 2007. A Tabela 2 mostra o valor em dlares para cada grama de princpio ativo extrado dos respectivos animais. Notar que o veneno extrado da cobra coral verdadeiro o mais rentvel, pois sua captura muito difcil e sua procura grande.

Tab. 2 Valores dos produtosNOME COMUM NOME CIENTFICO UTILIZAO VALOR US$ / Gr. Bothrops jararaca Hipertensivos 433,70 Jararaca Crotalus durissus Cola Cirrgica 301,40 Cascavel Homeopatia 3.200,00 Surucucu Pico de Jaca Lachesis muta muta Micrurus frontalis Medicamentos 31.300,00 Coral Verdadeira Loxosceles sp Soro e Pesquisas 24.570,00 Aranha Marron Tityus serrulatus Soro e Pesquisas 14.890,00 EscorpioFonte: Rede Nacional de Combate ao Trfico de Animais Silvestres, 2007.

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Outra modalidade de biopirataria largamente praticada a venda de animais exticos para Pet shops (lojas para animais de estimao), sendo esse mercado o principal incentivador do trfico de animais silvestres no Brasil. A Tabela 3 alguns exemplos de espcies comercializadas no mercado ilegal internacional. Tab. 3 Principais animais retirados da fauna brasileira NOME COMUM NOME CIENTFICO Boa constrictor Jibia Coralus caninus Periquitambia Tupinambis sp. Tei Pseudemys dorbygnyi Cgado Ara macao Arara Vermelha Ramphastos toco Tucano Toco Pteroglossus beauharnaesii Araari Gnorimopsar chopi Melro Tangara seledon Sara Sagui de Cara Branca geoffroyi Anodorhynchus leari Arara Azul de Lear Anodorhynchus yacinthinus Arara Azul Ara ararauna Arara Canind Papagaio da Cara Roxa Amazona brasiliensis Phoenicopterus ruber Flamingo Harpia harpyja Harpia Leontopithecus rosalia Mico Leo Dourado Cacajao calvus calvus Uacari Branco Leopardus pardalis Jaguatirica Surucucu Pico de Jaca Lachesis muta mutaFonte: Rede Nacional de Combate ao Trfico de Animais Silvestres, 2007.

No faltam exemplos de biopirataria para mostrar como a fauna brasileira, principalmente, a Amaznica, devido ao seu vasto territrio de difcil vigilncia v desperdiados seus recursos naturais. Entretanto, alguns esforos foram feitao e leis mais rigorosas postas em prtica. A Policia Federal, Policia Ambiental e IBAMA (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis) esto atentos a essa questo. Alguns projetos de proteo da Amaznia fora postos em prtica e mesmo assim muito difcil proteger a regio dos biopiratas, pois as fronteiras so longas, as tcnicas dos traficantes de animais so avanadas e os efetivos so insuficientes.

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10.1 ALGUNS EXEMPLOS DE BIOPIRATARIA Conforme Miranda (2005) a Seringueira (Hevea brasiliensis) foi o caso mais conhecido de biopirataria. Este foi o primeiro caso constatado, no pas, no sculo 19 quando o ingls Henry Wickham levou para a Inglaterra, em meados de 1840 as sementes de seringueiras que mais tarde foram implantadas nas colnias inglesas, na Malsia e outras regies. Com a produo de borracha sendo realizada nestes lugares com preos bem mais baixos do que as do Brasil, a economia do pas foi fortemente abalada. Curare Por volta de 1940, alguns pesquisadores observaram que os ndios utilizavam uma substncia para fazer o veneno de suas flechas. Conhecimento este que foi passado de gerao em gerao. O curare (substncia), nome dado pelos indgenas, foi levado para o exterior e l se isolou o seu principio ativo que gerou milhes de dlares s empresas farmacuticas estrangeiras na fabricao de medicamentos para relaxamento muscular usados em cirurgia (Miranda, 2005). Jararaca Outro caso bem conhecido ocorreu em 1963, quando o pesquisador brasileiro Srgio Ferreira descobriu que o veneno da cobra jararaca tem um princpio ativo com potencial para remdios anti-hipertensivos. Aps sua descoberta, o cientista publicou o artigo relatando os resultados, mas foi o Laboratrio Bristol Myers Squibb quem patenteou o uso da substncia do medicamento CAPTOPRIL. Esta patente rendeu milhes de dlares em royalties ao laboratrio, e o cientista brasileiro nada recebeu por sua descoberta. Isso ocorreu, talvez, por descuido ou falta de conhecimento sobre as leis de patentes internacionais (Miranda, 2005). Andiroba uma rvore encontrada na Amaznia, porm pode ser facilmente cultivada em outras regies. A empresa farmacutica francesa Rocher Yves patenteou na dcada de 1990, o uso do extrato de andiroba, cujo leo extrado do fruto da rvore tem aplicaes farmacuticas ou cosmticas. O conhecimento das propriedades dessa planta fora adquirido pelos caboclos e indgenas que as utilizavam-na no tratamento do bicho-do-p e repelente natural de insetos (Miranda, 2005). Cupuau O Cupuau um caso recente de biopirataria que est trazendo problemas jurdicos ao pas, pois o produto foi patenteado somente no Brasil pela EMBRAPA

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(Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecurias), portanto, sendo o registro vlido somente em territrio brasileiro (Miranda, 2005). O cupuau uma fonte de alimentos para os animais que habitam a regio e para os povos da Amaznia que utilizam sua polpa para fazer, sucos, cremes, sorvetes, gelias etc., pois seu sabor extico, alm do mais rico em vitaminas. Alm da polpa do cupuau, pode-se utilizar a sua semente na fabricao do cupulate, pois suas caractersticas so iguais s do cacau. Mas o cupulate esta sendo discutido na OMC (Organizao Mundial do Comrcio), j que existe uma patente no Japo e Estados Unidos sobre sua inveno, visto que, mais uma vez trata-se de um conhecimento adquiridos ao longo do tempo pelos povos da Amaznia e registrados ilegalmente pelas empresas que esto disputando sua patente. Miranda (2005) nos d uma idia de como somos explorados pelas grandes empresas multinacionais, pois s em 1998 foram feitos seis (6) pedidos de patentes no Reino Unido, Japo, Unio Europia e um sobre o leo da semente do Cupuau, como insumo de fabricao de cosmtico e do cupulate. De acordo com Rendeiros (2006) em 2002, foi lanada uma campanha contra a empresa Japonesa Ashid Foods, detentora da patente do cupuau. O instituto de Direito do Comrcio Internacional e Desenvolvimento (IDCID), uma organizao de So Paulo fundada por professores e alunos da Universidade de So Paulo (USP) foi quem deu inicio a essa batalha jurdica pelo cancelamento da patente japonesa. No entanto a disputa foi difcil, mas os examinadores do escritrio de Marcas e Patentes do Japo (JPO) acabaram concordando com os argumentos apresentados e dessa maneira cancelaram a patente do produto em maro de 2004. Pau-rosa (Aniba rosaeodora). Planta tipca da regio amazonica, muito usada para a produo de perfumes, pois dessa rvore que se extra o linalol um dos mais

importantes fixadores usados pelas indstrias de perfume do mundo. Pesquisadores calculam que para atender a demanda mundial de 1930 para c, mais de dois milhes de rvores do pau-rosa, foram retiradas da Floresta. O tronco a parte usada para a extrao do leo essencial que tem como componente principal o linalol. A tcnica tradicional (rudimentar) de extrao levou o pau-rosa para a lista do IBAMA de espcies ameaadas de extino, em 1992 (Miranda, 2005). 52

Aa uma Palmeira existente em vrias regies da Amaznia cuja polpa serve para a fabricao de sorvetes e sucos, pois est tendo uma grande procura no mercado, devido ao seu agradvel sabor e grande potencial energtico. Alm disso, excelente no combate ao colesterol e aos radicais livres, j comprovados pela cincia. A polpa do aa tambm usada para a fabricao de sucos, sorvetes, cremes, vinhos etc., ou seja, pode ser aproveitado para diversos fins (Rendeiros, 2006). Conforme Rendeiros (2006) pesquisadores da USP de Ribeiro Preto desenvolvem experimentos com o produto em exames de ressonncia magntica do aparelho digestivo. De acordo com os pesquisadores Tiago Arruda Sanches, e Draulio Barros, devido presena de ferro e outros metais no aa, isto faz que haja uma alterao no campo magntico nos exames, mudando o brilho dos rgos digestivos e garantindo melhor contraste, com imagens mais conclusivas. A vantagem que o aa alm de ter um sabor agradvel no traz problemas algum ao paciente; o preo tambm muito atraente. Enquanto trs doses do contraste tradicional custam RS 210,00; a mesma quantidade de aa no passa de R$ 6,00; A nica desvantagem que o aa tem um alto teor calrico, desaconselhvel para pacientes com debilidades gastrointestinais. O aa apenas um exemplo de fruto que, at o momento, alm de servir para a fabricao de sucos, sorvetes, gelias etc., ter tambm utilidade para fins de diagnsticos, que se devidamente patenteada em organismos internacionais, poder garantir ao pas royalties pelo seu uso, ou seja, ir gerar divisas. No entanto, aps os testes finais com o aa e sua liberao pelos rgos repensveis (no Brasil pela Vigilncia Sanitria) ser necessrio realizar a sua patente em organismos que sejam reconhecidos internacionalmente, como por exemplo, no rgo de Direitos dePropriedades Intelectuais (DPI), pois caso isso no seja feito, correr o risco de ter todo

o trabalho de pesquisa ser pirateado. Pilocarpina (Jaborandi) Desta planta, se produz um frmaco amplamente usado para atenuar os sintomas do glaucoma. O Jaborandi explorada pela Merck (Indstria Farmacutica alem). Esta planta muito peculiar na regio Amaznica. Seu principio ativo extrado de folhas e exportada para seus laboratrios no exterior, onde so elaboradas as frmulas farmacuticas (Kowarick, 1993).

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Em conformidade com Kowarick (1993) a coleta no autorizada de fungos por um pesquisador norte-americano na Amaznia hoje lhe rende milhes, pois ele criou uma empresa que produz linhagens de fungos que degradam poluentes do solo. J a indstria inglesa The Body Shop, que tem pelo menos 50 lojas em todo o mundo, j tinha importado US$ 150 mil de produtos naturais da Amaznia e pretendia comprar em 1992 mais US$ 15 milhes.

Os exemplos citados acima so apenas uma nfima parte do problema, pois alm da questo da biopirataria, ainda existe o caso da degradao ambiental gerada pela explorao de recursos naturais de forma indiscriminada e sem controle ambiental adequado. Contudo, o governo tem se esforado no combate ao trfico de animais, de droga e da biopirataria. Entretanto, apesar desses esforos, os problemas ainda persistem. Geopoliticamente a regio Amaznica de suma importncia para o Brasil, pois alm de fazer parte do territrio, ela rica em recursos naturais, que se fossem bem aproveitados seria uma grande fonte de divisas para a economia do pas.

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11. A BIOPIRATARIA ATRAVS DAS PATENTES

A propriedade gerada extraindo-se recursos da natureza e misturando-os ao trabalho humano, mas no um trabalho fsico e sim um trabalho espiritual, como a expressa no controle do capital. Os detentores do capital so tidos como os nicos a possurem o direito para explorar os recursos naturais para pesquisas, visto que so os grandes detentores de tecnologias para tal fim, (Shiva, 2001).

As multinacionais, neste caso, principalmente as indstrias farmacuticas, ao descobrirem novos princpios ativos, atravs de pesquisas realizadas com materiais vegetais ou animais, sendo na imensa maioria das vezes retiradas ilicitamente de florestas tropicais, logo, procuram patente-las no DPI para que se possa proibir qualquer forma de pirataria do produto desenvolvido. Ou seja, transforma biopirataria em legtimas patentes internacionais. Conforme Rodrigues e Arantes

(2004) h possibilidade de controle sobre a natureza com conseqente alterao do equilibro dos ecossistemas e monoplio econmicos pelas grandes multinacionais detentoras da biotecnologia. J a cientista indiana, Shiva afirma que:Resistir Biopirataria resistir colonizao final da prpria vida do futuro da evoluo como tambm do futuro das tradies noocidentais de relacionamento com conhecimento da natureza. uma luta para proteger a liberdade de evoluo de culturas diferentes. a luta pela conservao da diversidade, tanto cultural quanto biolgica (Shiva, 2001).

O DPI uma forma de monopolizar o conhecimento, pois um instrumento de regime de patentes que serve para universalizar o trabalho intelectual, principalmente, norte-americano por todo o mundo. Isso inevitavelmente levaria a um empobrecimento intelecto e cultural ao sufocar outras formas de saber, outros objetivos para a criao do conhecimento e outros modos de compartilh-los (Shiva, 2001).

A tabela 4 mostra os dados de registros de patentes feitos por alguns pases, cabe ressaltar que o Brasil sendo um pas com uma ampla biodiversidade, possui um baixo nmero de pedidos de patentes, sendo pouco expressivo se comparado a outros pases; como por exemplo, o Japo, pas relativamente escasso em recursos naturais, mas com mais de 400 mil pedidos de patentes.

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Tab. 4 Registro de Patentes Pases Japo EUA Coria China Alemanha Brasil Canad Austrlia Rssia Reino Unido Frana Mxico Israel Itlia Cingapura Argentina Total 423.081 356.943 140.115 130.384 59.234 40.434 37.227 30.206 30.190 29.954 17.290 13.198 10.258 9.273 8.585 6.457 PIB* 3.788 11.679 1.005 7.127 2.360 1.483 1.003 632 1.407 1.881 1.838 1.046 170 1.610 118 484

Fonte: Jornal do Senado Ed. Semanal n. 2.680 (*) Produto interno bruto em paridade do poder de compra. Em US$ Bilhes. O interessante que o conhecimento e a inovao s so aceitos no DPI quando geram algum lucro e no quando atendem necessidades sociais. Conforme Shiva (2001) uma inovao para ser patenteada deve ter potencialmente uma aplicao industrial, ou seja, isto exclui todos os setores que produzem e inovam fora do modo de organizao industrial. Isto significa que um trabalho de pesquisas, mesmo que traga benefcios, no poder ser patenteado, caso o mesmo no possa ser produzido em larga escala? Ou ser uma for