Boletim Orcamento 9

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Boletim Orcamento 9

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  • Publicao do Instituto de Estudos Socioeconmicos - Inesc Ano V n 9 maro de 2006

    avaliao da execuo oramentria de 2005 denotaque o distanciamento entre a economia e a poltica cada vez maior. E com vantagens para a primeiraque se impe como alicerce e esteio de um governoeleito justamente com o discurso de priorizar o social.A poltica econmica, ortodoxa e financista, tem sidoa razo da impossibilidade de se priorizar as polticassociais que promovam, minimamente, o resgate daimensa dvida social brasileira. Procuram nos vendera idia de que s pela economia poderemos combateras desigualdades. Em outras palavras o mercado queresolve tudo. No h mais espao para a poltica. Isso uma pseudo-verdade.

    Questionar essa pseudo-verdade, imposta pelacorrente neoliberal e que mercantiliza a vida, papelfundamental da sociedade civil. Governar para omercado e no para a maioria da populao brasilei-ra desconsiderar o recado das urnas em 2002. Nuncao sistema financeiro apresentou lucros to exorbitantes.E graas a esse quadro, o Brasil continua como umdos recordistas mundiais em desigualdade. Emboratenha havido uma pequena inverso no processo deconcentrao de renda, ele ainda insuficiente parapromover crescimento e incluso social significativos.

    Neste primeiro nmero de 2006 do Boletim Or-amento e Polticas Pblicas, o Inesc avalia que, porser um ano de eleies majoritrias, a sociedade civilorganizada deve se articular para inserir na agendados futuros candidatos os direitos humanos, econmi-cos, sociais, culturais e ambientais como norteadoresde polticas e da gesto administrativa. O combate sdesigualdades deve estar na centralidade da constru-o da Nao e no o mercado e a mercantilizaoda cidadania e da vida.

    A

    E D I T O R I A L

    9

    Dilema Poltico:

    entre o econmico e

    o socialAs anlises que o Instituto de Estudos

    Socioeconmicos - Inesc vem desenvolvendo nosseus boletins ao longo dos trs anos do governoLula tm demonstrado que os gastos pblicosoriundos dos recursos oramentrios so insufi-cientes para enfrentar os problemas cruciais exis-tentes e para resgatar a imensa dvida social dopas. Para piorar, muitos programas e aes pro-postos e aprovados no Plano Plurianual - PPA2004/2007, ficaram para trs, no foram exe-cutados ou o foram de forma insuficiente. Emcontrapartida, o pagamento dos servios da d-vida e o supervit primrio foram regiamenteexecutados. Este ltimo ultrapassando com fol-ga as metas estabelecidas nas Leis de DiretrizesOramentrias (LDO) do perodo.

    Pseudo-verdades e amercantilizao dacidadania.

    www.inesc.org.br

  • 2 maro de 2006

    Oramento uma publicao do INESC - Instituto de Estudos Socioeconmicos com a parceria de Fundao Avina. Tiragem: 1.500exemplares - End: SCS - Qd, 08, Bl B-50 - Salas 431/441 Ed. Venncio 2000 - CEP. 70.333-970 - Braslia/DF - Brasil - Fone: (61) 212 0200- Fax: (61) 212 0216 - E-mail: protocoloinesc@inesc.org.br - Site: www.inesc.org.br - Conselho Diretor: Caetano Arajo, Eva Faleiros,Fernando Paulino, Gisela de Alencar, Iliana Canoff, Nathalie Beghin, Paulo Calmon, Pe Virglio Uchoa, Pr. Ervino Schimidt. Colegiado deGesto: Iara Pietricovsky, Jos Antnio Moroni. Assessores: Alessandra Cardoso, Caio Varela, Edlcio Vigna, Eliana Graa, FranciscoSadeck, Jair Barbosa Jnior, Luciana Costa, Mrcio Pontual, Ricardo Verdum, Selene Nunes. Assistentes: lvaro Gerin, Lucdio Bicalho.Instituies que apiam o Inesc: Action Aid// CCFD// Christian Aid// EED// Fastenoffer// Fundao Avina// Fundao Ford// FundaoHeinrich Boll// KNH// Norwegian Church Aid// Novib// Oxfam// Solidaridad. Jornalista responsvel: Jair Barbosa Jnior (DF 976 JP)

    Esta publicao utiliza papel reciclado

    Alm da poltica econmica, altamente restritiva aodesenvolvimento sustentvel, podem-se constatar ou-tros pontos de estrangulamento para que se promovao combate s desigualdades sociais. A opo que ogoverno federal fez de combate fome e s desigual-dades por meio de polticas pblicas de carter focali-zado, em detrimento da-quelas de carter universal,tem se mostrado insufici-entes para, pelo menos, to-car nas estruturas gerado-ras de iniqidades.

    Os dados da PesquisaNacional porAmostragem de Domic-lio - PNAD/IBGE, publi-cados em 2005, e anali-sados em um estudo daFundao Getlio Vargas(FGV)1, foram motivo de euforia no governo e namdia por revelarem que a misria no Brasil est emqueda, que o nmero de pobres diminuiu e, mais,que a desigualdade desencalhou. Os dados derenda domiciliar, captados pela PNAD e trabalha-dos pela FGV, revelam que de 2003 para 2004 houvemelhoria na distribuio de renda e diminuio donmero de pessoas pobres, na medida em que doismilhes de brasileiros saram da condio de muitopobres ou indigentes.

    A taxa de variao anual de misria captada em2004 (-8%), quando comparada a perodos seleci-onados, superior quela observada no perodo todode 1993 a 2004 (-2,9%)... 2 Essa velocidade da

    variao na queda da misria d ao autor do estudoa certeza de que os resultados encontrados so ro-bustos e que o pas consegue, pela primeira vez nosltimos anos, modificar a vida das pessoas em situa-o de miserabilidade. Para Marcelo Nri, isso sedeve aos aumentos reais do salrio mnimo, que,alm de beneficiar os trabalhadores que o recebem,causam impacto nos benefcios a ele referenciados,tais como aposentadorias, penses, benefcios deprestao continuada e ainda e principalmente aos programas de transferncia de renda.

    Com relao desigualdade, bom lembrar queo estudo trata apenas da questo da desigualdade ealta concentrao de renda no pas. Os resultadosda mesma pesquisa apontam para uma diminuiodessa concentrao. A anlise da queda do ndicede Gini de 0,585 para 0,573 mostra um aspectoredistributivo, considerado um evento raro no his-trico das sries sociais brasileiras. Os dados mos-tram tambm que os 10% mais ricos tiveram dimi-nuio na apropriao da renda de 2003 para 2004e que os 50% mais pobres se apropriaram de umaparcela maior da renda.

    Apesar do reconhecimento de que os dados apon-tam para avanos tanto no combate misria quanto desigualdade de renda, o prprio autor diz quepara entender a inaceitvel extenso do 0,573, cor-respondente ao nosso Gini, no precisa ser gnio:estamos mais prximos da perfeita iniqidade do queda perfeita igualdade 3. Fica o desafio de saber se abaleia da desigualdade que, segundo Nri parece quedesencalhou, conseguir nadar em ritmo favorvel enecessrio grandeza do problema.

    1 Misria em Queda: Mensurao, Monitoramento e Metas, coordenado por Marcelo Nri, disponvel no stio www.fgv.br/ibre/cps2 Idem, pgina 2.3 Idem, pagina15.

    Para entender a

    inaceitvel extenso

    do 0,573,

    correspondente ao

    nosso Gini, no

    precisa ser gnio:

    estamos mais

    prximos da perfeita

    iniqidade do que da

    perfeita igualdade

    Oramento e Polticas Pblicas

  • maro de 2006 3

    Oramento e Polticas Pblicas

    Na gesto da poltica

    monetria no Brasil,

    na definio das suas

    metas e instrumentos,

    est presente uma

    assimetria de poder

    em favor do capital

    financeiro, sancionada

    pelo governo Lula

    No resta a menor dvida de que houve no go-verno Lula um aumento real do salrio mnimo, umatransferncia de renda por meio do Programa Bol-sa- Famlia para mais de oito milhes de famlias euma diminuio da taxa de desemprego formal.Mas tambm verdade que os bancos apresenta-ram lucros recordes em2005, que atingiram a ci-fra de R$ 28,3 bilhes4,fruto da transferncia derenda por meio da taxade juros mais alta do mun-do, sustentada com recur-sos pblicos. Com certe-za, os muito ricos no fi-caram mais pobres. Os es-tudos precisam, portanto,ser aprofundados paraque se chegue a resultados conclusivos sobre as ori-gens dessas mudanas captadas pela PNAD. Algunsestudiosos, como Marcio Pochmann e Wilson Cano,fazem severas crticas a esse estudo da FGV, mos-trando inclusive o uso ideolgico e poltico que, nocaso, feito dos dados, tanto pelo governo quantopelo autor. Para eles, as estatsticas mostram e es-condem muita coisa. Depende de quem as analisa.

    A questo essencial para o aprofundamento dessedebate que tanto a erradicao da pobreza quanto ocombate desigualdade exigem uma visomultidimensional sobre tais questes. Olhar para essesfenmenos somente com o vis da distribuio de ren-da no enfrentar as causas que as estruturam. A po-breza e a desigualdade, em especial na Amrica Latina,tm razes em fatores como as discriminaes de gne-ro, raa, etnia, de condio socioeconmica, de orienta-o sexual, religiosa, entre outras. Dessa forma, no possvel falar de pobreza, misria e desigualdade semconsiderar essas outras condicionantes na formulao ena execuo de polticas. Em outras palavras, a constru-o de polticas pblicas deveria ter como princpioestruturante a definio dos direitos econmicos, soci-

    ais, culturais e ambientais contidos nos DHESCA.Outro aspecto importante que estrangula o comba-

    te desigualdade a falta de vontade poltica do gover-no no enfrentamento dos interesses dominantes h maisde 500 anos no pas. A correlao de foras polticasainda muito desigual, no permitindo o enfrentamentode algumas questes cruciais. A opo por programasfocalizados, por exemplo, no altera os interesses da es-trutura econmica, social e poltica vigentes.

    O caso da reforma agrria parece emblemtico. Aescolha poltica em privilegiar as aes de fortalecimen-to da agricultura familiar, assim como concentrar os as-sentamentos em reas pblicas em detrimento das reasdesapropriadas, pode estar na raiz da pouca atenodada s aes efetivas de promoo da reforma agrria,que levariam democratizao do acesso terra. Seriafalta de fora poltica para enfrentar o latifndio?

    Segundo dados apresentados por Jos Juliano deCarvalho Filho5, das 127,5 mil famlias considera-das assentadas em 2005, apenas 45,7% o foram emreas de reforma agrria. O restante, 54,3%, refe-re-se a assentamentos ou reordenao de assenta-