Boletim SBI: ano XIII - n 52

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  • Uma publicao da Sociedade Brasileira de Infectologia Ano XIII n0 52 Out/Nov/Dez de 2015

    Doenas tropicais em pauta no 9o Congresso Mundial sobre Doenas Infecciosas PeditricasDe 18 a 21 de novembro, o Rio de Janeiro (RJ) recebeu o mais importante evento da infecto-pediatria em todo o mundo, o 9o Congresso Mundial sobre Doenas Infecciosas Peditricas. Entre os temas que protagonizaram as discusses, o Zika vrus, a chikungunya e a dengue em crianas. Pgina 5

    Microcefalia e Zika vrus: tudo sobre o caso que

    colocou o Brasil em alertaAulas do Infecto2015 j esto disponveis no portal

    Para aqueles que no puderam comparecer ao XIX Congresso Brasileiro de Infectologia, de 26 a 29 de agosto, em Gramado (RS), ou que gostariam de rever os assuntos debatidos durante os trs dias de encontro, os vdeos das aulas estaro no portal da SBI. Pgina 6

    Realizado pelo Ministrio da Sade, de 17 a 20 de novembro, no Centro de Convenes Poeta Ronaldo Cunha Lima, em Joo Pessoa (PB), o 10o Congresso de HIV/Aids e o 3o Congresso de Hepatites Virais superaram todas as expectativas, tanto do pblico como dos organizadores e palestrantes. Pgina 7

    10o Congresso de HIV/Aids e 3o Congresso de Hepatites Virais

  • OUT/NOV/DEZ | 2015www.infectologia.org.br

    2

    OHIV um dos maiores de-safios que a humanidade j enfrentou. Ainda no temos uma vacina efetiva e at o momento

    no conseguimos um tratamento

    curativo que possa ser oferecido a um

    grande nmero de pessoas. Existem

    aproximadamente 37 milhes de

    pessoas infectadas em todo o mundo,

    mas somente a metade sabe de seu

    diagnstico, segundo estimativas da

    Organizao Mundial da Sade (OMS).

    Para eliminar a aids como problema

    de sade pblica, a OMS estabeleceu,

    como meta, que, at 2020, 90% das

    pessoas que vivem com HIV estejam

    diagnosticadas, 90% destas estejam

    tratadas e 90% das tratadas estejam

    com supresso viral (carga viral abaixo

    dos limites de deteco).

    Apesar do gigantesco esforo que ainda

    teremos que empreender, j avanamos

    muito. Em 2014, quase 15 milhes de

    pessoas estavam recebendo tratamento,

    das quais 90% em pases de baixos e

    mdios recursos. O tratamento, apesar de

    no ser curativo, permite controlar a infec-

    o e fazer com que as pessoas tenham

    uma vida produtiva, com qualidade. Os

    medicamentos tambm se mostraram

    teis para diminuir a transmisso do vrus.

    Reduzindo a quantidade de vrus na pes-

    soa infectada, limita sua transmisso aos

    parceiros sexuais. Ademais, pode ser usa-

    do como profi laxia ps e pr-exposio

    (indivduo no infectado pode utilizar os

    medicamentos para evitar a contamina-

    o aps uma relao sexual desprotegida

    ou mesmo antes da relao).

    Dia mundial de luta contra aids 2015

    Esses avanos nos colocam em uma

    posio histrica, quando temos dis-

    ponveis elementos suficientes para

    controlar defi nitivamente a epidemia:

    conhecimento, preservativos, mtodo

    diagnstico fcil e rpido (teste rpido

    em sangue e saliva) e tratamento efetivo

    (antirretrovirais), que serve, inclusive,

    como profi laxia. O Brasil detm todas

    essas ferramentas, com capacidade

    de produo nacional. Agora nos cabe

    diagnosticar precocemente o maior

    nmero de casos, principalmente nas

    populaes de maior risco de ter a in-

    feco, especialmente entre os jovens

    do sexo masculino que se relacionam

    sexualmente com outros homens. Nesse

    grupo, para os que no conseguem ade-

    rir prtica de sexo seguro, considerar

    oferecer profi laxia pr-exposio.

    Apesar dos dados ofi ciais nos revela-

    rem padres favorveis nos porcentuais

    de diagnosticados (80% da estimativa

    do nmero total de pessoas com HIV

    no Brasil), convivemos com a realidade

    de grande nmero de casos tendo diag-

    nstico tardio (quando j apresentam

    infeces oportunistas) em boa parte

    dos servios especializados no cuidado

    de pessoas com HIV/aids. Profi ssionais

    de sade, devemos intensifi car o ofere-

    cimento de teste rpido para popula-

    es de risco acrescido. Quanto maior

    o nmero de casos diagnosticados,

    em perodo mais inicial da infeco, e

    institudo tratamento, menos transmis-

    so ocorrer, permitindo-nos reduzir

    de forma mais robusta a epidemia em

    nosso Pas e no mundo.

    rico Arruda, presidente da SBI

    EDITORIAL

  • OUT/NOV/DEZ | 2015www.infectologia.org.br

    3ATUALIZAO

    Microcefalia e Zika vrus: tudo sobre o caso que colocou o Brasil em alerta

    De acordo com o Ministrio da Sa-de, at 21 de novembro, 739 casos suspeitos de microcefalia foram notifi cados em todo o Brasil. Concentrado

    especifi camente na Regio Nordeste, j

    atingiu 160 cidades de 9 estados, sendo

    Pernambuco o detentor do maior nmero

    de casos (487), seguido por Paraba (96),

    Sergipe (54), Rio Grande do Norte (47), Piau

    (27), Alagoas (10), Cear (9), Bahia (8) e Gois

    (1). Em uma semana, o Ministrio da Sade

    apontou para o aumento de 85% dos re-

    gistros de microcefalia, tambm em outras

    regies, subindo de 55 para 160 cidades e

    chegando Regio Centro-Oeste do Pas.

    A maior suspeita da doena est rela-

    cionada ao Zika vrus, cuja identificao

    em territrio nacional datada de abril.

    Transmitido pelo Aedes aegypti, vetor co-

    mum da dengue e da febre chikungunya,

    a circulao do vrus j foi comprovada

    nos 18 estados brasileiros nos quais j

    foram notificados casos autctones nos

    ltimos meses.

    Apesar de o ministro da Sade, Marcelo

    Castro, afi rmar que h 90% de chances de

    o alto ndice de microcefalia ser causado

    pelo vrus, o infectologista Rodrigo Ange-

    rami, coordenador do Comit Cientfi co de

    Doenas Emergentes da SBI, aponta para o

    fato de que, embora as evidncias apontem

    cada vez mais para a possvel associao

    entre a infeco pelo Zika vrus e o risco de

    microcefalia, ainda se trata de uma hipte-

    se, embora bastante consistente, passvel

    de ser comprovada cientifi camente, em

    carter defi nitivo, por estudos epidemio-

    lgicos laboratoriais. Antes de qualquer

    concluso defi nitiva, as demais hipteses

    devem ser devidamente investigadas e

    afastadas e a associao com a infeco

    pelo Zika vrus deve ser defi nitivamente

    comprovada laboratorialmente em um

    maior nmero de casos. Trata-se de um v-

    rus, que, embora tenha sido originalmente

    identifi cado na dcada de 1950, nunca es-

    teve associado a um cenrio epidemiolgi-

    co to complexo, cocirculando com outros

    dois vrus (dengue e chikungunya) em reas

    densamente povoadas. imprescindvel,

    neste momento, que sejam conduzidos

    estudos clnicos, epidemiolgicos e labo-

    ratoriais, bem desenhados, com a parceria

    entre a academia e a sade pblica, para

    que se investigue, compreenda e dimen-

    sione no apenas a possvel associao do

    Zika vrus com o risco de microcefalia, mas

    tambm o potencial desse vrus com outras

    complicaes graves, como a sndrome

    de Guillain-Barr. Somente com dados

    cientifi camente consistentes e validados

    que podero ser estabelecidas medidas

    apropriadas para o enfrentamento de pos-

    svel situao epidmica e suas potenciais

    consequncias, explica o especialista.

    Alm da identificao de evidncias

    de que o Zika vrus teria a capacidade de

    atravessar a barreira placentria e, portanto,

    potencial de causar infeco intratero do

    feto, h uma ntida associao temporal e

    geogrfi ca entre a deteco da circulao

    epidmica do Zika vrus nos estados do

    Nordeste e o significativo aumento da

    incidncia de casos de microcefalia. Outra

    evidncia que aponta para uma possvel

    relao causal do Zika vrus com o risco de

    microcefalia o fato de que uma signifi cati-

    va proporo de mes cujos fi lhos vieram a

    nascer com microcefalia relatou quadro cli-

    nico de febre exantema (sintomas descritos

    e esperados na doena causada pelo Zika

    vrus) em algum momento da gestao

    rico Arruda, presidente da SBI, afi rma

    que ainda no se sabe como o vrus exer-

    ce seu efeito patognico para chegar

    microcefalia. possvel que exista algum

    efeito direto no crebro, causando danos

    ao desenvolvimento, tornando-o menor e

    com falhas em sua estrutura tecidual.

    Arruda reconhece que as evidncias

    apontam para um efeito causal entre a

    infeco pelo Zika vrus e a microcefalia.

    fundamental agora conhecer melhor

    tal fenmeno e tentar, assim, minimizar

    sua ocorrncia e possveis danos, alm de

    detectar se defi nitivo ou no.

    Angerami destaca, ainda, que diferen-

    tes agentes, j bem conhecidos, podem

    estar associados ao risco de microcefalia,

  • OUT/NOV/DEZ | 2015www.infectologia.org.br

    4 ATUALIZAO

    incluindo-se infeces intratero por

    agentes como vrus da rubola, citomega-

    lovrus e toxoplasmose, desnutrio grave

    da gestante, e exposio a drogas e lcool,

    e que devem, portanto, ser considerados

    para investigao.

    NOTIFICAOEm 22 de outubro, a Secretaria de Sade

    do Estado de Pernambuco (SES/PE) comu-

    nicou Secretaria de Vigilncia em Sade

    do Ministrio da Sade (SVS/MS) sobre o

    aumento dos casos de microcefalia desde

    agosto. Na ocasio, houve 26 neonatos

    com microcefalia. Atraindo a ateno de