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Boniteza de Um Sonho - MOACIR GADOTTI

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Escola e soiedade

Text of Boniteza de Um Sonho - MOACIR GADOTTI

  • MOACIR GADOTTI

    BONITEZA DE UM SONHO Ensinar-e-aprender com sentido

    So Paulo GRUBHAS

    2003

  • SUMRIO 1 Por que ser professor? ............................................................. 3 2 Crise de identidade, crise de sentido ....................................... 10 3 Formao continuada do professor ..........................................17 4 Ser professor na sociedade aprendente .................................. 22 5 Aprender com emoo, ensinar com alegria ........................... 28 6 Educar para uma vida sustentvel .......................................... 37 7 Ser professor, ser educador .................................................... 42 Bibliografia ..................................................................................... 50 Sobre o autor ................................................................................. 52

  • 1

    Por que ser professor?

    A beleza existe em todo lugar. Depende do nosso olhar, da nossa

    sensibilidade; depende da nossa conscincia, do nosso trabalho e do nosso

    cuidado. A beleza existe porque o ser humano capaz de sonhar.

    Inspirei-me em Paulo Freire para escrever esse livro. Paulo Freire nos

    fala em sua Pedagogia da autonomia da boniteza de ser gente1, da boniteza

    de ser professor: ensinar e aprender no podem dar-se fora da procura, fora

    da boniteza e da alegria2. Paulo Freire chama a ateno para a

    essencialidade do componente esttico da formao do educador. Coloquei

    um ttulo que fala de sonho e de sentido que querem dizer a mesma coisa.

    Sentido quer dizer caminho no percorrido mas que se deseja percorrer,

    portanto, significa projeto, sonho, utopia. Aprender e ensinar com sentido

    aprender e ensinar com um sonho na mente. A pedagogia serve de guia para

    realizar esse sonho.

    Paulo Freire, em 1980, logo aps voltar de 16 anos de exlio, reuniu-se

    com um grande nmero de professores em Belo Horizonte, Estado de Minas

    Gerais. Falou-lhes de esperana, de sonho possvel, temendo por aqueles e

    aquelas que pararem com a sua capacidade de sonhar, de inventar a sua

    coragem de denunciar e de anunciar, aqueles e aquelas que, em lugar de

    visitar de vez em quando o amanh, o futuro, pelo profundo engajamento com

    o hoje, com o aqui e com o agora, que em lugar desta viagem constante ao

    amanh, se atrelem a um passado de explorao e de rotina3.

    1 Paulo Freire, Pedagogia da autonomia: saberes necessrios prtica educativa. So Paulo, Paz e

    Terra, 1997, p. 67. 2 Idem, ibidem, p. 160.

    3 Paulo Freire, in Carlos R. Brando (org.), O educador: vida e morte escritos sobre uma espcie

    em perigo. So Paulo, Brasiliense, 1982, p. 101.

  • Dezessete anos depois, em 1997, em seu ltimo livro, lanado trs

    semanas antes de falecer, ele se mantinha fiel mesma linha de pensamento,

    reafirmando o sonho e a utopia diante da malvadez neoliberal, diante do

    cinismo de sua ideologia fatalista e a sua recusa inflexvel ao sonho e

    utopia4. Denncia de um lado, anncio de outro: a sua pedagogia da

    autonomia frente pedagogia neoliberal.

    Lembrando os cinco anos da morte de Freire, nesse pequeno livro5,

    quero retomar o que ele disse e entender o seu significado no contexto de

    hoje. Paulo Freire nos falava da boniteza do sonho de ser professor de

    tantos jovens desse planeta. Se o sonho puder ser sonhado por muitos6

    deixar de ser um sonho e se tornar realidade.

    A realidade, contudo, muitas vezes bem diferente do sonho. Muitos

    de meus alunos e alunas, seja na Pedagogia, seja na Licenciatura, no

    pensam em se dedicar s salas de aula. Muito revelam desinteresse em

    seguir a carreira do magistrio, mesmo estando num curso de formao de

    professores. Pesam muito nesse deciso as condies concretas do exerccio

    da profisso. Preparam-se para ser professor e iro exercer outra profisso.

    O brasileiro desvaloriza o professor. o que se poderia deduzir de um

    dito que se tornou popular nas ltimas dcadas no Brasil: Quem sabe faz,

    quem no sabe ensina. sinistro. Essa destruio da imagem do professor

    custar muito caro, dizia j em 1989, o jornalista Leonardo Trevisan7: Todos

    dizem que gostam muito dos professores, mas no chegam a incomodar-se

    4 Paulo Freire, Pedagogia da autonomia: saberes necessrios prtica educativa. So Paulo, Paz e

    Terra, 1997, p. 15. 5 Estou tornando pblicos os direitos autorais deste livro para que ele possa ser reproduzido parcial

    ou integralmente e impresso em qualquer formato, por qualquer pessoa ou instituio. Gostaria que ele fosse distribudo gratuitamente. Se no for possvel, que seja vendido ao preo de custo. O ideal seria cobrar, no mximo, um real, para que o maior nmero de professores e de professoras possam ter acesso. Aproveito a oportunidade para agradecer aos companheiros Paulo Roberto Padilha e ngela Antunes pelas preciosas sugestes que me ofereceram na reviso do texto original deste livro. 6 E somos muitos professores no mundo: 50 milhes. Somos organizados e alguma coisa podemos

    fazer para mudar a ordem das coisas. Segundo a UNESCO (In Jacques Delors (org.), Educao: um tesouro a descobrir Relatrio para a UNESCO da Comisso Internacional sobre Educao para o Sculo XXI. So Paulo, Cortez, 1998, p. 156),a profisso de professor uma das mais fortemente organizadas do mundo e as organizaes de professores podem desempenhar e desempenham um papel muito influente em vrios domnios. A maior parte dos cerca de cinqenta milhes de professores que h no mundo esto sindicalizados ou julgam-se representados por sindicatos. 7 Leonardo Trevisan, in O Estado de S. Paulo, 1 de julho de 1989, p. 2.

  • muito com o fato de que h tempos eles recebem um salrio de fome. O

    salrio a parte mais visvel de uma condio da qual decorre um papel

    social que se descaracterizou por completo... S quem no quer ver no

    percebe o sentimento de cansao, de esgotamento de expectativas de quem

    encarava com dignidade o seu desempenho profissional.

    A situao vem se arrastando h anos. Tenho 41 anos de magistrio e

    no tenho visto grandes melhorias. Ao contrrio, tenho ouvido muitas

    promessas. As melhorias existem aqui e acol, mas so pontuais e

    localizadas servem apenas de exemplo so conjunturais e no estruturais,

    so provisrias, passageiras e no permanentes. Correspondem a uma

    poltica de governo e no a uma poltica pblica de estado.

    Por isso continuo me perguntando: Por que sou professor? uma

    pergunta que ouo com freqncia tambm entre meus pares.

    A resposta talvez possa ser encontrada numa mensagem deixada por

    um prisioneiro de campo de concentrao nazista na qual, depois de viver

    todos os horrores da Guerra8 crianas envenenadas por mdicos

    diplomados; recm-nascidos mortos por enfermeiras treinadas; mulheres e

    bebs fuzilados e queimados por graduados de colgios e universidades

    ele pede aos professores que ajudem seus alunos a tornarem-se humanos,

    simplesmente humanos. E termina: ler, escrever e aritmtica s so

    importantes para fazer nossas crianas mais humanas.

    Talvez esteja a a chave para entender a crise que vivemos: perdemos

    o sentido do que fazemos, lutamos por salrio e melhores condies de

    trabalho sem esclarecer a sociedade sobre a finalidade de nossa profisso,

    sem justificar porque estamos lutando.

    O que me leva agora a escrever esse pequeno livro justamente esse

    imperativo histrico e existencial que me obriga a colocar a questo do

    sentido do que estou fazendo. Qual o papel do educador, da escola, da

    8 Essa mensagem est, na ntegra, na abertura de um pequeno e denso livro do educador e

    economista Ladislau Dowbor, Tecnologias do conhecimento: os desafios da educao. Petrpolis, Vozes, 2001.

  • educao? O que um professor pode fazer, o que ele deve fazer, o que

    possvel fazer?

    Em inmeras conferncias que tenho feito a professores, professoras,

    por este pas e fora dele, alm de constatar um grande mal-estar entre os

    docentes, misturado a decepes, irritao, impacincia, ceticismo,

    perplexidade, paradoxalmente, existe ainda muita esperana. A esperana

    ainda alimenta essa difcil profisso. H uma nsia por entender melhor

    porque est to difcil educar hoje, fazer aprender, ensinar, nsia para saber o

    que fazer quando todas as receitas governamentais j no conseguem

    responder. A maioria dessas professoras - elas so a quase totalidade - com

    a diminuio drstica dos salrios, com a desvalorizao da profisso e a

    progressiva deteriorao das escolas muitas delas tm hoje cara de presdio

    - procuram cada vez mais cursos e conferncias, para buscar uma resposta

    que no encontraram nem na sua formao inicial e nem na sua prtica atual.

    Poucas so as vezes em que encontram resposta nesses cursos. Na

    sua maioria, ou encontram receitas tecnocrticas que causam ainda maior

    frustrao, ou encontram profissionais da pedagogia da ajuda que encantam

    com suas belas e sedutoras palavras, fazem rir enormes platias numa

    catarse coletiva. E voltam vazios como entraram depois de assistirem ao

    show desses falsos pregadores da palavra. Voltam com a mesma pergunta:

    O que estou fazendo aqui? Por qu no procuro outro trabalho? Para

    que sofrer tanto? Por qu, para que ser professor?.

    Se, de um lado, a transformao nas con

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