CADERNO 4 - .mas porque o primeiro mandamento da educação feminina é: ... mas Dasdores é íntima

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Text of CADERNO 4 - .mas porque o primeiro mandamento da educação feminina é: ... mas Dasdores é íntima

  • CADERNO 4

    ADMINISTRAO, ARQUITETURA E URBANISMO.

    PROVAS: L NGUA PORTUGUESA E LITERATURA EM LNGUA PORTUGUESA, PRODUO DE TEXTO, MATEM TICA, HISTRIA e LNGUA ESTRANGEIRA.

    1. ESTE CADERNO DE PROVAS CONTM 40 (QUARENTA) QUESTES DE MLTIPLA ESCOLHA, UMA PROPOSTA DE PRODUO DE TEXTO E 20 PGINAS NUMERADAS.

    2. COM RELAO PROVA DE LNGUA ESTRANGEIRA, RESOLVA AS QUESTES REFERENTES LNGUA DE SUA OPO.

    3. NO PERCA TEMPO EM QUESTES CUJA RESPOSTA LHE PAREA DIFCIL. VOLTE A ELAS SE LHE SOBRAR TEMPO.

    4. A PROVA TER 04 (QUATRO) HORAS DE DURAO, INCLUINDO O TEMPO DESTINADO TRANSCRIO DE SUAS RESPOSTAS.

    5. ESTE CADERNO DEVER SER DEVOLVIDO AO FISCAL, JUNTAMENTE COM A FOLHA DE RESPOSTA DO COMPUTADOR.

    6. VOC PODE TRANSCREVER SUAS RESPOSTAS NA LTIMA FOLHA DESTE CADERNO E A MESMA PODER SER DESTACADA.

  • 2

    Prezado(a) candidato(a): Assine e coloque seu nmero de inscrio no quadro abaixo. Preencha, com traos firmes, o espao reservado a cada opo na folha de resposta.

    N de Inscrio Nome

    PROVA DE LNGUA PORTUGUESA E LITERATURA EM LNGUA PORTUGUESA

    INSTRUO: As questes de 1 a 7 referem-se ao texto a seguir. Leia-o antes de responder a elas.

    Prespio

    Carlos Drummond de Andrade

    1 Dasdores (assim se chamavam as moas daquele tempo) sentia-se dividida entre a missa do galo e o prespio. Se fosse igreja, o prespio no ficaria armado antes de meia-noite, e, se se dedicasse ao segundo, no veria o namorado. 2 difcil ver namorado na rua, pois moa no deve sair de casa, salvo para rezar ou visitar parentes. Festas so raras. O cinema ainda no foi inventado, ou, se o foi, no chegou a esta nossa cidade, que antes uma fazenda crescida. Cabras passeiam nas ruas, um cincerro tilinta: a tropa. E vivas espiam de janelas, que se diriam jaulas. 3 Dasdores e suas numerosas obrigaes: cuidar dos irmos, velar pelos doces de calda, pelas conservas, manejar agulha e bilro, escrever as cartas de todos. Os pais exigem-lhe o mximo, no porque a casa seja pobre, mas porque o primeiro mandamento da educao feminina : trabalhars dia e noite. Se no trabalhar sempre, se no ocupar todos os minutos, quem sabe de que ser capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moa? Eles so confusos e perigosos. Portanto, impedir que se formem. A total ocupao varre o esprito. Dasdores nunca tem tempo para nada. Seu nome, alegre fora de repetido, ressoa pela casa toda. Dasdores, as dlias j foram regadas hoje? Voc viu, Dasdores, quem deixou o diabo desse gato furtar a carne? Ah, Dasdores, meu bem, prega esse boto para sua mezinha. Dasdores multiplica-se, corre, delibera e providencia mil coisas. Mas um engano supor que se deixou aprisionar por obrigaes enfadonhas. Em seu corao ela voa para o sobrado da outra rua, em que, fumando ou alisando o cabelo com brilhantina, est Abelardo. 4 Das mil maneiras de amar, pais, a secreta a mais ardilosa, e eis a que ocorre na espcie. Dasdores sente-se livre em meio s tarefas, e at mesmo extrai delas algum prazer. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o trabalho... Alguma coisa mais do que resignao sustenta as donas de casa.) Dasdores sabe combinar o movimento dos braos com a atividade interior uma conspiradora e sempre acha folga para pensar em Abelardo. Esta vspera de Natal, porm, veio encontr-la completamente desprevenida. O prespio est por armar, a noite caminha, lenta como costuma faz-lo no interior, mas Dasdores ntima do relgio grande da sala de jantar, que no perdoa, e mesmo no mais calmo povoado o tempo d um salto repentino, desafia o incauto: Agarra-me! Sucede que ningum mais, salvo esta moa, pode dispor o prespio, arte comunicada por uma tia j morta. E s Dasdores conhece o lugar de cada pea, determinado h quase dois mil anos, porque cada bicho, cada musgo tem seu papel no nascimento do Menino, e ai do prespio que cede a novidades. 5 As caixas esto depositadas no cho ou sobre a mesa, e desembrulh-las a primeira satisfao entre as que esto infusas na prtica ritual da armao do prespio. Todos os irmos querem colaborar, mas antes atrapalham, e Dasdores prefere ver-se morta a ceder-lhes a responsabilidade plena da direo. Jamais lhes ser dado tocar, por exemplo, no Menino Jesus, na Virgem e em So Jos. Nos pastores, sim, e nas grutas subsidirias. O melhor seria que no amolassem, e Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha a paisagem de gua e pedras, relva, ces e pinheiros, que h de circundar a manjedoura. Nem todos os animais esto perfeitos; este carneirinho tem uma perna quebrada, que se poderia consertar, mas parece a Dasdores que, assim mutilado e dolorido, o Menino deve querer-lhe mais. Os camelos, bastante midos, no guardam proporo com os cameleiros que os tangem; mas so presente da tia morta, e participam da natureza dos animais domsticos, a qual por sua vez participa obscuramente da natureza da famlia. Atravs de um sentimento nebuloso, afigura-se-lhe que tudo uma coisa s, e no h limites para o humano. Dasdores passa os dedos, com ternura, pelos camelinhos; sente neles a macieza da mo de Abelardo.

  • 3 6 Algum bate palmas na escada; de casa! amigas que vm combinar a hora de ir para a igreja. Entram e acham o prespio desarranjado, na sala em desordem. Esta visita come mais tempo, matria preciosa (Agarra-me! Agarra-me!). Quando algum dispe apenas de uns poucos minutos para fazer algo de muito importante e que exige no somente largo espao de tempo mas tambm uma calma dominadora algo de muito importante e que no pode absolutamente ser adiado se esse algum nervoso, sua vontade se concentra, numa excitao aguda, e o trabalho comea a surgir, perfeito, de circunstncias adversas. Dasdores no pertence a essa raa torturada e criadora; figura no ramo tambm delicado, mas impotente, dos fantasistas. Vo-se as amigas, para voltar duas horas depois, e Dasdores, interrogando o relgio, nele v apenas o rosto de Abelardo, como tambm percebe esse rosto de bigode, e a cabeleira lustrosa, e os olhos acesos, dissimulados nas ramagens do papel da parede, e um pouco por toda parte. 7 A mo continua tocando maquinalmente nas figuras do prespio dispondo-as onde convm. Nada far com que erre; do passado a tia repete sua lio profunda. Entretanto, o prazer de distribuir as figuras, de fixar a estrela, de espalhar no lago de vidro os patinhos de celuloide, est alterado, ou subtrai-se. Dasdores no o saboreia por inteiro. Ou nele se insinuou o prazer da missa? Ou o medo de que o primeiro, prolongando-se, viesse a impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa, ao misturar o sagrado ao profano, dando, talvez! preferncia a este ltimo, pois no fundo da caminha de palha suas mos acariciavam o Menino, mas o que a pele queria sentir sentia, Deus me perdoe era um calor humano, j sabeis de quem. 8 Aqui desejaria, porque o mundo cruel e as histrias tambm costumam s-lo, acelerar o ritmo da narrativa, prover Dasdores com os muitos braos de que ela carece para cumprir com sua obrigao, vestir-se violentamente, sair com as amigas depressa, depressa! , ir correndo ladeira acima, encontrar a igreja vazia, o adro j quase deserto, e nenhum Abelardo. Mas seria preciso atribuir-lhe, no braos e pernas suplementares, e sim outra natureza, diferente da que lhe coube, e pura placidez. Correi, sfregos, correi ladeira acima, e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo, mas continuai a correr, a matar-vos, sem perspectiva de paz ou conciliao. No assim os serenos, aqueles que, mesmo sensuais, se policiam. O dono desta noite, depois do Menino, o relgio, e este vai mastigando seus minutos, seus cinco minutos, seus quinze minutos. Se nos esquecermos dele, talvez pule meia hora, como um prestidigitador furta um ovo, mas, se nos pusermos a contempl-lo, os nmeros gelam, o ponteiro imobiliza-se, a vida parou rigorosamente. Saber que a vida parou seria reconfortante para Dasdores, que assim lograria folga para localizar condignamente os trs reis na estrada, levantar os muros de Belm. Comea a faz-lo, e o tempo dispara de novo. Agarra-me! Agarra-me! Nas cabeas que espiam pela porta entreaberta, no estouvamento dos irmos, que querem se debruar sobre o caminho de areia antes que essa esteja espalhada, na muda interrogao da me, no sentimento de que a vida variada demais para caber em instantes to curtos, no calor que comea a fazer apesar das janelas escancaradas h uma previso de malogro iminente. Pronto, este ano no haver Natal. Nem namorado. E a noite se fundir num largo pranto sobre o travesseiro. 9 Mas Dasdores continua, calma e preocupada, cismarenta e repartida, juntando na imaginao os dois deuses, colocando os pastores na posio devida e peculiar adorao, decifrando os olhos de Abelardo, as mos de Abelardo, o mistrio prestigioso do ser de Abelardo, a aurola que os caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo, a pele morena de Jesus, e aquele cigarro quem botou! ardendo na areia do prespio, e que Abelardo fumava na outra rua.

    ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos de aprendiz. 14. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976, p. 41-46.

    QUESTO 1

    Sobre o conto, assinale a afirmativa INCORRETA. a) No conto tematizam-se convenes socialmente impostas mulher. b) A mistura entre o sagrado e o profano evidenciada no ltimo pargrafo do conto se explica pela fora do

    desejo que as normas familiares tentam impedir. c) O narrador constri um clima de suspense em relao aos acontecimentos narrados. d) A personagem principal do conto apresenta-se como uma conspiradora, algum que prepara em silncio uma

    ao contra a famlia.

    QUESTO 2

    Em todos os trechos a seguir, retirados do conto, evidencia-se a voz do narrador, EXCETO em: a) [...] assim se chamavam as moas daquele tempo [...] (1 ) b) Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o trabalho... (4 ) c) Deus me perdoe era um calor humano, j sabeis de quem. (7 ) d) Agarra-me! Agarra-me! (6 )

  • 4 QUESTO 3

    No conto, o dilema da p