of 96 /96
CAHistória Caderno Acadêmico de História ISSN:21793840 Volume IV, Número 04, Ano IV, 1º Semestre / 2013

CAHistória - cahistoria.files.wordpress.com · Profº Drº Michael Müller - JGU/Ale Profº Drº Tiago Bernardon de Oliveira – UEPB ... Profº Frank dos Santos Ramos – UFF Profº

  • Author
    hanga

  • View
    231

  • Download
    2

Embed Size (px)

Text of CAHistória - cahistoria.files.wordpress.com · Profº Drº Michael Müller - JGU/Ale Profº Drº...

  • CAHistriaCaderno Acadmico de Histria

    ISSN:21793840

    Volume IV, Nmero 04, Ano IV, 1 Semestre / 2013

  • CAHistria Caderno Acadmico de Histria

    Volume IV, Nmero 04, Ano III, 1 Semestre/2013

    Nova Iguau - RJ

    2013

  • CAHistria - CADERNO ACADMICO DE HISTRIA

    REVISTA DISCENTE DE HISTRIA

    EXPEDIENTE

    Adriano dos Santos Moraes, Allofs Daniel Batista, Deborah Aguiar Torres, Guilherme

    dos Santos Cabral de Oliveira, Marcelo Incio de Oliveira Alves, Maria Lcia Bezerra

    da Silva Alexandre, Ricardo Luiz de Souza.

    COORDENAO

    Prof Dr Surama Conde S Pinto UFRRJ

    CONSELHO CONSULTIVO

    Prof Dr Adriana Pereira Campos UFES

    Prof Dr Ana Amlia de M. C. de Melo UFC

    Prof Dr Ana Maria da S. Moura USS

    Prof Dr Carmen Margarida O. Alveal UFRN

    Prof Dr Clia Cristina da S. Tavares UERJ

    Prof Dr Cludia Regina A. dos Santos UNIRIO

    Prof Dr Joana M. Nascimento UFF

    Prof Dr Mirian Cabral Coser UNIRIO

    Prof Dr Mnica da Silva Ribeiro UFRRJ

    Prof Dr Nely F. Arrais UNISALLE

    Prof Dr Priscilla Leal Mello UFF

    Prof Dr Raquel Alvitos Pereira UFRRJ

    Prof Dr Renata Rodrigues Vereza UFF

    Prof Dr Renata Rozental Sancovsky UFRRJ

    Prof Dr Silvia Regina A.Fernandes UFRRJ

    Prof Dr Surama Conde S Pinto UFRRJ

    Prof Dr Tatyana de Amaral Maia USS

    Prof Doutoranda Ana Paula Sampaio Caldeira

    FGV

    Prof Doutoranda Denise Veira Demetrio UFF

    Prof Doutoranda Flvia Ribeiro Veras FGV

    Prof Dr Alexander Martins Vianna UFRRJ

    Prof Dr Carlos Eduardo C. da Costa UFRRJ

    Prof Dr Clinio de Oliveira Amaral UFRRJ

    Prof Dr Eduardo Scheidt USS

    Prof Dr Fbio de Souza Lessa UFRJ

    Prof Dr Fbio Henrique Lopes UFRRJ

    Prof Dr Flvio Limoncic UFRJ

    Prof Dr Gilvan Ventura da Silva UFES

    Prof Dr talo Domingos Santirocchi UFRRJ

    Prof Dr Jean Rodrigues Sales UFRRJ

    Prof Dr Jos D'Assuno de Barros - UFRRJ

    Prof Dr Marcelo da Rocha Wanderley UFF

    Prof Dr Marcelo Santiago Berriel UFRRJ

    Prof Dr Michael Mller - JGU/Ale

    Prof Dr Tiago Bernardon de Oliveira UEPB

    Prof Doutorando Adriel Fontenele Batista UFC

    Prof Doutorando Andr de S. Brito UFF

    Prof Doutorando Luis Fabiano de Freitas Tavares UFF

    Prof Doutorando Pedro Henrique P. Campos UFRRJ

    Prof Doutorando Rafael Vaz da Motta Brando UFF

    Prof Bruno Silva de Souza UFRRJ

  • Prof Doutoranda Ingrid S.de Oliveira UFF

    Prof Doutoranda Hardalla Santos do Valle

    UFPEL

    Prof Vernica de Jesus Gomes UFF

    Prof Ana Luiza Rios Martins UECE

    Prof Fernanda Teixeira Moreira UFRRJ

    Mestranda Aline Mendes Soares UFRRJ

    Mestranda Luciana Coutinho Sodr Necco UERJ

    Mestranda Priscila Soares Gonalves - UFRRJ

    Prof Eduardo ngelo da Silva UFRRJ

    Prof Frank dos Santos Ramos UFF

    Prof Halyson Rodrygo Silva de Oliveira UFRN

    Prof Juliano Alves da Silva UFGD

    Prof Leonardo ngelo da Silva UFRRJ

    Prof Manoel Batista do Prado Jnior UFF

    Prof Thiago Rodrigues do Nascimento UFRJ

    Mestrando Mauricio Fogli Cruzeiro Machado UFRJ

    Especialista Anderson Barbosa de Oliveira PUC

    PARECERISTAS DESTE NMERO

    Prof Dr Adriana Pereira Campos UFES

    Prof Dr Ana Amlia de Moura Cavalcante de Melo UFC

    Prof Dr Eduardo Scheidt USS

    Prof Dr Fbio de Souza Lessa UFRJ

    Prof Dr talo Domingos Santirocchi UFRRJ

    Prof Dr Tatyana do Amaral Maia USS

    Prof Doutorando Adriel Fontenele Batista UFC

    Prof Doutoranda Denise Vieira Demtrio UFF

    Prof Manoel Batista do Prado Jnior UFF

    Prof Anderson Barbosa de Oliveira PUC

    COMISSO EDITORIAL

    Organizadores

  • CAHistria Caderno Acadmico de Histria

    Volume IV, Nmero 04, Ano III, 1 Semestre/2013

    CAHistria - CADERNO ACADMICO DE HISTRIA - Revista Discente de

    Histria: iniciativa autnoma: http://cahistoria.wordpress.com/

  • Editores

    Adriano dos Santos Moraes, Allofs Daniel Batista (Mestrandos PPGH/UNIRIO)

    Conselho editorial

    Maria Lcia Bezerra da Silva Alexandre (Mestranda PPGH/UFRRJ), Marcelo Incio de

    Oliveira Alves (Mestrando PPGH/UFRRJ), Ricardo Luiz de Souza (Graduando UFRRJ/IM)

    Reviso

    Guilherme dos Santos Cabral de Oliveira (Graduando UFRRJ/IM)

    Capa / Editorao Eletrnica

    Daiane de Oliveira Rocha (Graduando UFRRJ/IM), Deborah Aguiar Torres (Licenciada

    UFRRJ/IM)

    Ficha Catalogrfica

    Allofs Daniel Batista

    A revista CAHistria - CADERNO ACADMICO DE HISTRIA - Revista Discente de

    Histria um peridico de iniciativa autnoma de estudantes de Histria, que compem sua

    Comisso Editorial e com orientao voluntria da Coordenao. uma publicao direcionada

    aos discentes de graduaes em Histria e demais Cincias Sociais, de carter plural voltada

    para a gerao de oportunidade de publicarem seus primeiros escritos acadmicos no perodo

    inicial de sua formao.

    Os artigos so de responsabilidade de seus autores.

    CAHistria - Caderno Acadmico de Histria: Revista

    Discente de Histria[on-line]/ Coordenao Geral Surama

    Conde S Pinto. v.1. Set. 2010-. - Nova Iguau RJ, 2010.

    v.4., n.04. 2013 [on-line].

    Acesso: http://cahistoria.wordpress.com/.

    Semestral

    ISSN: 2179-3840

    Ano I v.1, n.01 2 Semestre 2010 Ano II v.2, n.02 1 Semestre 2011 Ano III v.3, n.03 1 Semestre 2012 Ano IV v.4, n.04 1 Semestre 2013 1. Brasil Histria - Peridicos. I. Revista Eletrnica. II.

    http://cahistoria.wordpress.com/

  • SUMRIO

    1 APRESENTAO 7

    2 ARTIGOS

    De um episdio da histria ptria disputa de redes comerciais: ensaio

    sobre as anlises historiogrficas da revolta de vila rica

    Carlos Eugnio da Silva Negreiros

    Wilson Arnhold chagas jr.

    Willibaldo ruppenthal neto

    8

    Uma anlise de trs movimentos milenaristas e messinicos no Imprio

    brasileiro: Rodeador, Pedra Bonita e Muckers.

    Daiane de Oliveira Rocha

    23

    Esporte, poltica e identidade nacional: efeitos do profissionalismo no

    futebol colombiano (1948-1951). Eduardo de Souza Gomes

    38

    Conflito entre os Colonos da Capitania de So Vicente e a Companhia de

    Jesus, no perodo de 1611 a 1640.

    Miguel Luciano Bispo dos Santos

    53

    As bolsas de mandinga: sincretismo, demonologia e feitiaria no Brasil

    colonial.

    Priscila Natividade de Jesus

    63

    3 ENTREVISTA 73 Professor Doutor Alexandre Fortes UFRRJ

    4 RESENHAS 89

    O epicurismo: reescrevendo sua histria

    Rodrigo Conole Lage

    5 FONTES/ACERVOS 93 Um arquivo com a cara da Baixada: A constituio do Centro de

    Documentao e Imagem do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ

    CEDIM - IM/UFRRJ.

  • APRESENTAO

    CAHistria - Caderno Acadmico de Histria renovando um compromisso.

    O Caderno Acadmico de Histria mais que uma revista acadmica voltada

    para graduandos, um projeto de incentivo. Incentivo produo discente, ao

    desenvolvimento de pesquisa e ao campo cientfico da Histria. Para isso, nosso

    compromisso renovado a cada chamada ou publicao.

    Nesta quarta edio reforamos este compromisso, e nossa equipe demonstra

    que constitui um esforo peridico e coletivo, para garantir sua manuteno a partir do

    momento da chamada at a publicao a fim de perpetuar o projeto gerado h trs anos,

    projeto o qual pretendemos continuar por muitos mais. Esforo esse que no se resume

    aos membros da equipe editorial, mas se estende a todos aqueles que se veem

    impactados diretamente pela revista: conselho consultivo, articulistas, editorial e voc

    que nos l. Todos esto interligados, tendo como mediadores a equipe editorial de

    CAHistria.

    Como somos todos humanos, com dificuldades e limitaes, acabamos

    esbarrando em agendas, descumprimento de prazos, e todas as imposies que existem

    dentro do meio acadmico para que todos exeram seus ofcios. Compreendemos que

    estas no devem ser motivaes para no prosseguir com nosso projeto editorial. Manter

    uma revista com publicao peridica e equipe totalmente voluntria se torna um

    esforo que deve ser creditado entre aqueles que interagem com a mesma. Desta forma,

    nos desculpamos pelos atrasos ocorridos, elogiamos o esforo de todos os envolvidos e

    agradecemos a compreenso e a pacincia dos colaboradores e pblico leitor.

    Adriano dos Santos Moraes1

    Allofs Daniel Batista2

    Editores de CAHistria

    1 Adriano dos Santos Moraes aluno no Programa de Ps-Graduao em Histria da

    Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - PPGH-UNIRIO, Linha: Instituies, Poder e

    Cincias, sob orientao do Prof Dr Marcelo de Souza Magalhes, bolsista da Coordenao de

    Aperfeioamento de Pessoal de Nvel Superior - CAPES (2013-2015). Concluiu sua Licenciatura em

    Histria pela a UFRRJ/IM (Campus Nova Iguau) em 2012. membro do Conselho Editorial de

    CAHistria; Revista Discente: www.cahistria.wordpress.com.Contato: [email protected]

    2 Allofs Daniel Batista aluno no Programa de Ps-Graduao em Histria da Universidade

    Federal do Estado do Rio de Janeiro - PPGH-UNIRIO, Linha: Instituies, Poder e Cincias, sob

    orientao do Prof Dr Vanderlei Vazelesk Ribeiro, bolsista da Coordenao de Aperfeioamento de

    Pessoal de Nvel Superior - CAPES (2012-2014). Concluiu sua Licenciatura em Histria pela a

    UFRRJ/IM (Campus Nova Iguau) em 2011. membro do Conselho Editorial de CAHistria; Revista

    Discente: www.cahistria.wordpress.com. Contato: [email protected]

  • 8 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    De um episdio da Histria Ptria disputa de redes comerciais: Ensaio sobre as

    anlise historiogrficas da Revolta de Vila Rica

    Carlos Eugnio da Silva Negreiros*

    Wilson Arnhold Chagas Jr.**

    Willibaldo Ruppenthal Neto***

    Resumo:

    A revolta que houve em Vila Rica entre 28 de junho e 20 de julho de 1720, conhecida como

    Revolta de Vila Rica, ou ainda, Revolta de Felipe dos Santos, foi percebida e utilizada de

    diversas formas ao longo do tempo pela historiografia brasileira. Muitas foram as

    compreenses da revolta e muitos foram os usos da mesma, seja na criao do 'mito' Felipe

    dos Santos, seja na sua anulao para engrandecimento dos verdadeiros heris nacionais. O

    presente artigo visa expor estes diversos usos da Revolta e mostrar a evoluo na

    compreenso desta e a presente situao da pesquisa, que se distancia muito em profundidade

    se comparada s primeiras exposies, sem contudo dar-se por encerrado tal processo.

    Palavras-chave: Minas Gerais, revolta / rebelio, Colnia, identidade nacional, patriotismo.

    Introduo

    Antes de analisar-se as diferentes formas de observao e construo da histria da

    Revolta de Vila Rica, necessrio que se exponha um pouco do contexto em que se insere

    esta revolta e uma breve descrio da mesma. isto que realizaremos nas primeiras pginas

    que se seguem.

    Como consequncia da Guerra dos Emboabas (1707-1709), a Coroa portuguesa

    buscou mais meios de se aproximar de seus sditos, como com a criao da Capitania de So

    Paulo e Minas do Ouro, em 1709. Para manter o controle da ordem, e mais especialmente das

    rendas da Coroa, esta indicou governadores para exercerem o papel de representantes da

    Coroa nesta capitania, que era de suma importncia para Portugal naquele perodo. Apesar de

    * Graduando em Histria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Email: [email protected] * * Graduando em Histria pela UFRGS. Email: [email protected] * ** Graduando em Histria pela UFRGS. Email: [email protected]

  • 9 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    j existirem Regimentos de Superintendentes, Guardas-Mores e Oficiais Deputados nas Minas

    desde 1702 (BORREGO, 2004: 43), se fazia necessrio uma maior aproximao da Coroa

    para com os moradores daquele territrio.

    O primeiro governador, Antnio de Albuquerque Coelho de Carvalho, foi responsvel

    pela criao das primeiras vilas: Vila Rica, Vila do Ribeiro do Carmo e Sabar (1711). O

    segundo governador, Brs Baltasar da Silveira, ainda fundou outras vilas: So Joo d'El-Rei,

    no Rio das Mortes (1713); Vila Nova da Rainha, atual Caet (1714), Vila do Prncipe, no

    Serro do Frio, atual cidade do Serro (1714), e Pitangui (1715) (MIRANDA, 2006: 111) e

    ainda dividiu o territrio todo nas trs Comarcas que j antes Albuquerque havia definido:

    Vila Rica, Rio das Mortes e Rio das Velhas. Tudo isto em vista de uma melhor administrao

    atravs de um processo urbanizatrio intenso (BORREGO, 2004: 43).

    Tais medidas foram tomadas para a organizao da sociedade existente no territrio

    das Minas, onde existia uma populao resultante da grande massa de aventureiros que

    vieram para o territrio em busca de riquezas, ou pelos prprios surtos de fome (BORREGO,

    2004: 42). Assim, quando a metrpole se estabeleceu formalmente nessa regio, foi

    obrigada, portanto, a conviver com uma fixao anterior j acostumada aos morros, ao clima,

    e s prprias leis (BORREGO, 2004: 44).

    A Revolta

    durante o governo do terceiro governador da Capitania de So Paulo e Minas do

    Ouro, Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos (governou entre 1717 e 1721)

    o Conde de Assumar que depois de circularem rumores de que estavam sendo preparadas

    formas mais rgidas de cobrana do quinto, a chegada do Alvar, determinando que o

    governador colocasse em prtica a construo de Casas de Fundio acende um violento

    motim (FIGUEIREDO, 2000: 90) entre 28 de junho e 20 de julho de 1720, denominado

    Revolta de Vila Rica, ou, Revolta de Felipe dos Santos. Dom Pedro de Almeida publicou a

    proclamao no dia 18 de julho de 1719, anunciando que as fundies seriam abertas no dia

    23 de julho do ano seguinte, em Vila Rica, Sabar, So Joo dEl Rei e Vila do Prncipe. Os

    tumultos iniciais foram sufocados pelos drages facilmente, mas outro movimento aconteceu

    de modo diferente, na cidade de Vila Rica, na noite de 28 para 29 de junho de 1720.

  • 10 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    A revolta contava com grandes contingentes de moradores de Vila Rica, mas era

    liderada por uma elite: Pascoal da Silva Guimares, Sebastio da Veiga Cabral e Manuel

    Mosqueira da Rosa - o trio de falsos e dissimulados (CAMPOS, 2002: 227). Bem sabendo

    desta liderana, o Conde chegou a perdoar os moradores de Vila Rica pela revolta, com

    exceo dos cabeas (ANASTASIA, 1998: 56). No dia 16 de julho, D. Pedro de Almeida, o

    Conde de Assumar, entrou em Vila Rica com um contingente perfazendo um total de mil e

    quinhentos homens armados, provavelmente entre negros e rgulos locais, () homens

    brancos livres, ndios flecheiros, alm de mestios e, em menor nmero, drages

    (KELMER MATHIAS, 2007: 216-217); retomou o controle e restabeleceu a ordem na cidade,

    alm de prender lderes da revolta; enviou-os carregados de ferros para o Rio de Janeiro, de

    onde seriam deportados para Lisboa (BOXER, 1969: 213) e queimou as suas casas

    (ANASTASIA, 1998: 57). No dia seguinte expediu uma ordem de retirada dos moradores do

    morro do Ouro Podre para que todas as casas fossem arrasadas e queimadas (ANASTASIA,

    1998: 57). Diferente dos lderes [reais] da revolta, que so enviados Lisboa, Felipe dos

    Santos, um empregado de Pascoal da Silva Guimares (CASTRO, 2008: 8), foi preso e

    condenado sumariamente morte.

    Um discurso histrico e poltico

    Aponta-se o Discurso histrico e poltico sobre a sublevao que nas Minas houve no

    ano de 1720 como um marco inicial das anlises histricas sobre a Revolta de Vila Rica, pois,

    apesar de ser muito mais que um texto historiogrfico, um documento histrico, tendo o

    objetivo de justificar a represso da revolta (na sua segunda parte), tambm apresenta uma

    narrao dos acontecimentos (na sua primeira parte). um texto annimo, em que a primeira

    parte narra os acontecimentos da revolta de Vila Rica e a execuo do portugus Filipe dos

    Santos, e a segunda busca justificar a necessidade da execuo. O texto foi publicado pela

    primeira vez em fevereiro de 1898 no jornal oficial Minas Gerais.

    A historiadora Laura de Mello e Souza dedicou esforos para entender o "Discurso",

    desde que organizou uma edio crtica entre 1993 e 1994. Quando publicado em 1994 na

    edio crtica da Laura de Mello e Souza, esta autora estabeleceu a autoria do discurso,

    creditando-o a Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal, conde de Assumar e governador da

  • 11 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    capitania de Minas entre 1717 e 1721, e a dois jesutas que foram com ele para Minas: Jos

    Mascarenhas e Antonio Correia. De fato, h forte evidncia de que o referido discurso foi

    escrito pelos jesutas, sob a superviso de Assumar (CATO, 2007: 133).

    O Discurso tinha a clara inteno de justificar a execuo sumrio de Filipe dos

    Santos, que como homem branco e livre deveria ter passado por uma Junta de Justia. O

    narrador da obra sempre se refere ao conde de Assumar em terceira pessoa, mas tanto Xavier

    da Veiga (1846-1900) quanto Diogo Vasconcelos (1843-1927) concordavam em dizer que a

    autoria estava de alguma maneira ligada ao conde, direta ou indiretamente. Feu de Carvalho

    (1872-1946) discordava, afirmando que a autoria era do padre jesuta Antonio Correia. H o

    seguinte indcio que corrobora com Feu de Carvalho: na segunda parte do Discurso h citao

    do Pe. Vieira, quando sabido que o padre Correia tinha consigo escritos de Vieira e o

    admirava muito. Porm tal evidncia no impede que Mascarenhas, o conde de Assumar ou

    ambos tenham escrito parte do Discurso.

    Laura de Mello e Souza acredita haver muito mais evidncias em favor do conde de

    Assumar como autor do texto. Sobretudo quando se estuda a vida de Dom Pedro Miguel de

    Almeida: sobressaem as semelhanas entre os elementos do Discurso, e a sua personalidade

    do ponto de vista biogrfico, sobretudo no que concerne ao uso conjugado de exemplos de

    violncia e autoritarismo, e de citaes muito eruditas, o que era caracterstico do conde.

    Ademais, h a aluso ao frei Joo Marques, catedrtico de Salamanca, presente tanto na carta

    a Dom Frei Francisco de So Jernimo quanto no Discurso. Afirma Laura de Mello e Souza

    que

    A prudncia impede que se afirme cabalmente ter sido D. Pedro de Almeida Portugal

    () o verdadeiro autor do Discurso Histrico e Poltico, e leva a considerar que este

    seja um escrito produzido a seis mos: o Conde, Antnio Correia, Jos de Mascarenhas. Os dois ltimos reforariam a argumentao do primeiro com

    exemplificao abundante e detalhada; o Conde, por sua vez, daria o tom geral,

    emprestando aos padres cartas e escritos anteriores e, mais do que tudo, impondo-

    lhes a sua viso de mundo. (SOUZA, 1996: 41 apud AZEVEDO, 2006: 38).

    Independente da autoria, grande a importncia do Discurso histrico e poltico sobre

    a sublevao que nas Minas houve no ano de 1720 quanto ao seu estudo, sendo uma fonte

    imprescindvel ao estudo do levante de Filipe dos Santos (...) o Discurso histrico e poltico

    um texto de riqueza inesgotvel, podendo ser abordado de vrias formas e por especialistas de

  • 12 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    diversas reas (SOUZA, 2006: 250).

    Um episdio da Histria Ptria

    Em obras historiogrficas o levante de 1720 aparece pela primeira vez na Histria da

    Amrica portuguesa (1730) de Sebastio da Rocha Pitta (1660-1738) e mais tarde na obra de

    Robert Southey (1774-1843), autor que nunca veio ao Brasil, mas que mantinha relaes

    fortes com o Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro (CEZAR, 2007: 308). Em ambos os

    casos a liderana da revolta atribuda a Pascoal da Silva Guimares, Manuel Mosqueira da

    Rosa, frei de Monte Alverne e outros; enquanto que Filipe dos Santos apenas mencionado

    por ter dirigido um grupo de homens que tentavam libertar Pascoal da Silva e os demais

    presos no meio do caminho para o Rio de Janeiro, recebendo logo a pena mxima. Porm:

    A partir de certa altura, que no fcil precisar, o episdio ocorrido em Vila Rica no ano de 1720 foi tido por marco na oposio colonial metrpole, e momento

    importante na construo da nacionalidade. Cabia encontrar um heri: era natural

    que fosse Filipe dos Santos, dado o suplcio horrvel que o governador Assumar lhe

    infligiu sem julgamento. (...) Se Tiradentes era o mrtir da independncia, Filipe dos

    Santos, na mesma poca, foi adquirindo os contornos de protomrtir. (SOUZA,

    2006: 188).

    Para tanto, Jos Vieira Couto de Magalhes (1837-1898) desempenhou papel

    importante. Sendo o grande ponto da historiografia do sculo XIX a construo de uma

    identidade e de uma histria nacionais (MACHADO, 2000: 63), Magalhes pode no ter sido

    um dos 'clssicos', como Slvio Romero, Jos Verssimo, Tavares Bastos e Joaquim Nabuco,

    mas certamente relevante, pois, sua obra embora carente de uma base slida, seja hoje

    significativa para o desvendamento das matrizes de uma certa histria do Brasil

    (MACHADO, 2000: 65). Formado na Faculdade de Direito do Largo So Francisco, muito

    teve de influncias nesta formao, que neste perodo servia para formar um mandarinato

    imperial de bacharis (MACHADO, 2000: 66), com parte da responsabilidade de fundar

    uma nova imagem para o pas se mirar, inventar novos modelos para esta nao que acabava

    de se desvincular do estatuto colonial (SCHWARCZ, 1993: 141). Sua anlise da Revolta de

    Vila Rica, Um episdio da histria ptria, publicada na Revista do Instituto Histrico e

    Geogrfico Brasileiro no ano de 1862, exaltava patrioticamente o levante de tal forma, que

  • 13 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    afirmava que nele j havia uma aspirao pronunciada para a independncia, que seria uma

    consequncia a longo prazo: a episdica revolta de Felipe dos Santos ganhou status de

    movimento protonacionalista, antecessor da Conjurao Mineira, a qual esclarece,

    fornecendo-lhe a certeza de um pulsante sentimento popular anticolonialista e nativista

    (MACHADO, 2000: 67).

    Magalhes ainda na mesma obra consagrou Felipe dos Santos como heri, apesar

    deste nem ao menos ser o lder da revolta; mesmo sabendo deste papel relativamente pouco

    importante no levante, j que pouco se tinha de notcias sobre ele nos documentos, acabou

    sendo um mitgrafo e construindo o mito Felipe dos Santos, que hoje est atrelado

    revolta, esta Revolta de Felipe dos Santos:

    Dos conjurados um houve que, alm de criminoso era impenitente. Felipe dos

    Santos de quem atrs falamos. Filho do povo no era ele o cabea, mas foi o brao

    mais enrgico dos conjurados. Era uma dessas almas excepcionais, cuja tmpera

    resiste aos golpes mais cruis do destino. No dia antecedente ao que estamos, ele foi

    conduzido perante as justias; os outros conjurados compraram a vida desculpando-

    se; Felipe dos Santos sabia que pagaria com a cabea as palavras que ia dizer: com a

    conscincia do homem que reconhece ter feito um voto de herosmo, ele levantou-se sereno perante o juiz, e confessou de pleno, diz o general, todos os seus crimes.

    (MAGALHES, 1862: 542).

    Antnio Olyntho de Santos Pires (1860-1925) retomou a ideia de herosmo de Filipe

    dos Santos em 1919 no texto Revolta de Vila Rica de 1720 para a Revista do Instituto,

    defendendo a necessidade da celebrao do levante no seu segundo centenrio, que se

    completaria no ano seguinte publicao do seu texto; tal celebrao, porm, no ocorreu

    por falta de recursos. A construo do mito de Filipe dos Santos como heri nacional e do

    conde de Assumar como tirano cruel esteve ligada ao surgimento da ideia de um Brasil

    nao, parte importante da ideologia do Instituto Histrico e Geogrfico. Xavier da Veiga

    (1846-1900) tambm, na edio do Discurso que fez em 1898, endossou a ideia nacionalista.

    De fato, a preocupao destes autores era muito mais de exaltar os feitos dos revoltosos e as

    medidas autoritrias e cruis dos oficiais da Coroa portuguesa do que de explorar a conjuntura

    e as relaes sociais, muitas vezes ambguas, que se desenvolveram neste conflito

    (CASTRO, 2008: 3).

    Em posio distinta esteve Feu de Carvalho (1872-1946), na dcada de 1920, com

    Ementrio da Histria Mineira, ponderando que a hiptese levantada pelos autores anteriores

  • 14 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    no estava fundamentada nos documentas, mas ao contrrio, eivada de inexatides; contestou

    sobretudo o aspecto popular e republicano do movimento, mostrando ter sido um levante de

    poderosos descontentes por motivos outros que o pagamento do tributo. Porm, Feu de

    Carvalho busca desmistificar o mito de Felipe dos Santos como heri brasileiro, mas apenas

    para melhor exaltar Tiradentes, que para ele o verdadeiro heri brasileiro at porque Felipe

    dos Santos era portugus.

    J em 1904 em Histria Antiga das Minas Gerais, Diogo de Vasconcelos (1843-1927)

    contestava o carter anticolonialista e republicano do movimento, ressaltando o embate entre

    os poderes locais e a autoridade metropolitana, que seria para ele o verdadeiro nervo do

    conflito. Relativizava ainda o despotismo do conde de Assumar, geralmente pintado como

    dspota monstruoso e sanguinrio. Segundo Mello e Souza, Feu de Carvalho e Diogo de

    Vasconcelos fizeram os dois melhores relatos da sedio de 1720, mantendo-se sempre

    prximos ao texto do Discurso. Seguindo a tradio deles, juntaram-se mais tarde o cnego

    Raimundo Trindade e Waldemar de Almeida Barbosa. Francisco Varnhagen (1818-1876) e

    Pedro Calmon (1902-1985) se mostraram prximos s interpretaes de Feu de Carvalho e

    Diogo de Vasconcelos. Facilmente se percebe a inteno destes autores que era muito mais

    de exaltar os feitos dos revoltosos e as medidas autoritrias e cruis dos oficiais da Coroa

    portuguesa do que de explorar a conjuntura e as relaes sociais, muitas vezes ambguas, que

    se desenvolveram neste conflito, numa perspectiva claramente maniquesta, na construo de

    esteretipos de conduta (CASTRO, 2008: 3).

    Um conflito entre Colnia e Metrpole

    Os historiadores que a primeiro momento se desligaram da perspectiva nacionalista de

    abordagem histrica e anlise da Revolta de Vila Rica, capitaneados por Laura de Mello e

    Souza e com orientao marxista (CASTRO, 2008: 4), permaneceram, porm, sem estudar o

    confronto entre interesses particulares dos poderosos envolvidos dentro da revolta e seus

    repressores. A existncia de interesses particulares na revolta j era conhecida desde Diogo de

    Vasconcelos e Pedro Calmon: Vasconcelos apresentou como uma das razes principais para a

    ecloso do motim, a perda dos postos de oficiais de ordenana, que eram preenchidos pelos

    homens principais da Vila (ANASTASIA, 1998: 46 nota 73); e, Pedro Calmon bem sabia que

  • 15 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    havia grandes interesses particulares em jogo (CALMON, 2002: 157) mas foge logo do

    assunto. Porm, no se compreendia um conflito de poderes particulares entre os revoltosos e

    seus supressores.

    Enquanto os historiadores nacionalistas ignoram esse conflito, e mesmo os interesses

    particulares dos revoltosos, pelo fato de que estes revelam que a causa pela qual muitos

    lutaram no era o benefcio do povo, mas sim o seu prprio (CASTRO, 2008: 4), os

    historiadores capitaneados por Souza tendem a ignorar o conflito de interesses particulares

    por se focarem em demonstrar o embate entre os poderes locais e a autoridade metropolitana,

    este sim, o verdadeiro nervo do conflito (SOUZA, 1994: 23), na dicotomia Colnia X

    Metrpole da lgica de Antigo Sistema Colonial.

    O trabalho de Laura de Mello e Souza (1953- ), especialmente sua crtica ao famoso

    Discurso, muito colaborou para a compreenso da Revolta de Vila Rica. Realiza um bom

    balano da historiografia sobre Vila Rica (at o momento em que se insere 1993-1994),

    mostrando, por exemplo, que a tentativa de Antonio Olyntho dos Santos Pires de enaltecer o

    tropeiro de Cascais leva-o a afirmaes arbitrrias, tanto sobre seu heri como sobre o Conde,

    muito difundidas posteriormente (SOUZA, 1994: 19). Porm, sua interpretao se restringe

    compreenso do conflito pelo confronto entre os interesses dos colonos e dos oficiais,

    representantes da metrpole.

    O trabalho de Carla Anastasia, especialmente Vassalos rebeldes, apresenta

    considerveis pontos de separao em relao a obra de Laura de Mello e Souza, porm, em

    vrios pontos ainda permanece dentro de uma perspectiva focada no conflito entre colnia e

    metrpole. Ao mesmo tempo em que rompe com Souza, ao afirmar que trata-se de uma tax

    rebellion, se mantm presa a uma ideia de fraqueza do poder portugus naquele territrio

    um contexto de soberania fragmentada (ANASTASIA, 1998: 46 nota 73), bem representada

    pela seguinte explicao do duplo carter (ANASTASIA, 1998: 45) da sedio:

    Por um lado, o levantamento apresentou reivindicaes tpicas de tax-rebellions ou

    food-riots, contidas nos parmetros do jogo colonial, com a condenao do

    estabelecimento das Casas de Fundio, de contratos novos e do pagamento dos direitos de entrada no registro de Borda do Campo; a defesa do controle sobre o

    processo de aferio e sobre os abusos de poder do Senado da Cmara. Por outro

    lado, pode ser constatada uma situao de soberania fragmentada, exteriorizada pelo

    comportamento rebelde dos potentados, dos ouvidores de Vilas e Comarcas e dos

    oficiais das Cmaras. (ANASTASIA, 1998: 45-46).

  • 16 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    Apesar de Anastasia entender a revolta pela ideia de uma dificuldade de imposio dos

    desejos da metrpole, no qual a revolta percebida como resposta a uma tentativa do governo

    de romper com a tradio, tambm mostra os interesses particulares envolvidos na revolta e

    mais: concebe a revolta dentro das lgicas e parmetros do jogo colonial (ANASTASIA,

    1998: 45), junto a ela, vrios outros autores se mostram validando tal perspectiva:

    Diogo Pereira R. de Vasconcelos, C, R. Boxer e, mais recentemente, Luciano

    Raposo de Almeida Figueiredo, no obstante a diferena de estilos e a diversidade

    das fontes utilizadas, a consideram o resultado da ameaa de se estabelecer as Casas

    de Fundio nas minas. C. R. Boxer e Diogo P. R. de Vasconcelos acrescentam a impopularidade do Ouvidor de Vila Rica, Martinho Vieira, aos motivos da ecloso

    do levante. Ainda Boxer e Luciano R. A. Figueiredo sustentam estar a sedio de

    1720 inserida numa srie de motins, ocorridos em vrios distritos da Capitania, que

    se originaram do enrijecimento da tributao a partir de 1719. Tais consideraes

    imputam sedio de Vila Rica caractersticas de movimento no qual o

    comportamento dos atores est contido nos parmetros das regras do jogo colonial.

    (ANASTASIA, 1998: 46 nota 73).

    Estes autores, porm, tem pontos complicados em suas obras: C. R. Boxer

    supervaloriza Felipe dos Santos, ficando neste ponto ao lado dos autores da historiografia

    nacionalista; e Luciano R. A. Figueiredo alm de compreender Felipe dos Santos como um

    dos principais lderes (FIGUEIREDO, 2007), tambm se mantm na lgica dicotmica entre

    colonos e oficiais da metrpole: de um lado, as instncias do poder real e temporal, agindo

    na regio, a fim de garantir os direitos do soberano; de outro, a convico dos colonos de que

    dispunham de certos direitos que estariam sendo violentados com a fiscalidade escorchante

    que se tentava implantar (FIGUEIREDO, 2000: 89-90). A contribuio de Figueiredo no

    deve ser menosprezada, uma vez que bem nos mostra a importncia de se pensar no tempo

    administrativo (FIGUEIREDO, 2000: 82), a relao deste (pela distncia atlntica entre

    colnia e metrpole) e os colonos (FIGUEIREDO, 2000: 83) e a no contestao do direito

    rgio, mas da mudana da forma de sua cobrana.

    Em seu estudo, Vera Alice C. Silva insere a histria poltica da regio das Minas

    Gerais incluindo a Revolta de Vila Rica , ao longo do sculo XVIII, em um quadro de

    conflitos fiscais, cujos embates e solues apresentaram-se de forma variada para os conflitos.

    Havia uma preferncia portuguesa por formas mais rigorosas e burocratizadas de controle da

    produo e da tributao, porm, depararam-se com o indeferimento por parte dos sditos que

    no se sujeitavam ao controle proposto sem reao. Tais sditos, identifica a autora, usaram

  • 17 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    de dois tipos de estratgia para com o governo: 1) adaptao: a elite econmica e poltica da

    Capitania - o lado brasileiro - e os governadores nomeados pelo rei - lado portugus -

    dialogavam e negociavam; 2) transgresso: so as revoltas em si, a de Vila Rica de 1720 e a

    Inconfidncia Mineira de 1789. A mxima la ley se acataba, pero no se cumpla, usada na

    Amrica Espanhola no perodo colonial, encontra correspondncia no imprio vizinho: no se

    colocava em dvida que o rei era o monarca, mas somente era obedecido se no exercesse o

    poder unilateralmente: revoltava-se contras as tributaes, sem contestar a autoridade real,

    como bem afirma Figueiredo (2007), e ao mesmo tempo buscava-se meios de negociar ou

    ludibriar o sistema fiscal.

    Um conflito de redes comerciais

    A nova perspectiva historiogrfica sobre a Revolta de Vila Rica vale-se da

    compreenso de que o principal veculo de relao entre colonos e metrpole a negociao,

    principalmente atravs dos governadores, que dispunham de autoridade e liberdade suficientes

    para tal empreendimento:

    As autoridades portuguesas no hesitavam em mudar os mtodos de arrecadar o quinto real, mesmo que estes fossem potenciais causadores de insatisfao poltica

    nas pessoas que se ocupavam da extrao. Mas para que os habitantes das Minas

    Gerais, considerados insubmissos desde o incio da explorao das Minas de ouro e

    de diamantes, no se sublevassem contra as autoridades locais, havia o mecanismo

    da negociao poltica entre os sditos e o soberano, este representado pelo

    governador. (AZEVEDO, 2006: 149).

    No caso da Revolta de Vila Rica, percebe-se que trata-se de uma revolta com carter de

    elitista, sendo assim uma grande preocupao para a Coroa, no temor de que houvesse

    transferncia de poder para os potentados desta elite, pela tomada do poder do governador.

    Estas compreenses so parte da nova perspectiva historiogrfica:

    H muito os trabalhos relativos Revolta de Vila Rica enfatizam a existncia da

    negociao no conflito. O prprio conceito, que parece abandonado, de revolta

    nativista, significa que no era inteno dos colonos se separar de Portugal ou

    questionar a autoridade do monarca. No toa, os recentes trabalhos lidam com um

    recorte temporal maior buscando resgatar a vivncia dos personagens do conflito e

    suas relaes sociais, e no apenas o conflito em si, pois hoje no se tem mais a

    noo de que a revolta tem como gnese a insatisfao com as polticas

    metropolitanas e que isto basta. (CASTRO, 2008: 8).

  • 18 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    A nova historiografia conta principalmente com Alexandre Torres Fonseca e Carlos

    Leonardo Kelmer Mathias, recm inseridos no debate historiogrfico (CASTRO, 2008: 7).

    Tais autores buscam demonstrar a dimenso e as formas de negociao, dentro desta

    sociedade que compreendida como de Antigo Regime, valendo-se especialmente da

    historiografia portuguesa sobre o Imprio Ultramarino Portugus, do qual fazem parte

    Antnio Manuel Hespanha, Nuno Gonalo Monteiro, dentre outros, e, da nova perspectiva

    sobre antigos temas de histria colonial (FRAGOSO; GOUVA; BICALHO, 2000: 67) na

    historiografia brasileira, da qual fazem parte autores como, Joo Fragoso, Maria Bicalho,

    Maria Gouva, Antonio Juc de Sampaio, dentre outros, na perspectiva de Antigo Regime nos

    trpicos. Ambas correntes historiogrficas 'irms', buscam romper com uma abordagem que

    insiste em analisar o 'Brasil - Colnia' atravs de suas relaes econmicas com a Europa do

    mercantilismo (FRAGOSO; GOUVA; BICALHO, 2000: 67). Esta nova historiografia

    sobre a Revolta de Vila Rica busca encontrar novas pistas atravs do estudo mais amplo das

    possveis causas da revolta e relaes desta com o contexto, especialmente atravs de

    informaes biogrficas dos personagens envolvidos na revolta: Fonseca resgata Felipe dos

    Santos muito antes da revolta, mostrando como foi a vida do personagem desde o seu

    embarque para o Brasil e tentando entender o que o motivou a estar entre os revoltosos

    (CASTRO, 2008: 8); e Kelmer Mathias estuda D. Pedro de Almeida, o conde de Assumar,

    antes da revolta.

    O estudo de Kelmer Mathias se foca mais especificamente na rede de potentados de

    D. Pedro de Almeida, com pessoas da elite mineira, demonstrando as diversas medidas

    empreendidas pelo conde antes mesmo de chegar a Vila Rica, de forma que esta seria para

    alm da ligao comercial havida entre o conde de Assumar e essa elite, a rede ento formada

    seria, sem exagero, o sustentculo do governo de D. Pedro, garantindo-lhe, sem meias

    palavras, a prpria governabilidade da capitania do Ouro. Demonstrando a rivalidade da rede

    comercial do conde de Assumar com outra rede, comandada por Pascoal da Silva Guimares,

    percebe-se que tratou-se de uma revolta fundamentalmente de elite (KELMER MATHIAS,

    2007: 215), onde o objetivo ltimo era expulsar D. Pedro de Almeida da capitania de Minas

    e, dessa forma, assumir o seu controle (KELMER MATHIAS, 2007: 217). Compreende-se

    assim, que a rede comercial de Pascoal da Silva Guimares obteria um controle bastante

  • 19 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    grande da morada do ouro caso a revolta tivesse logrado xito (KELMER MATHIAS, 2007:

    216).

    Tal nova abordagem nos traz luz as provveis causas de diversos ocorridos na

    revolta, desde as insistncias de motins e novas ofertas aps a aceitao dos termos por parte

    do conde de Assumar que se explica pela revolta ter como objetivo final sua expulso (ou

    morte), at ao apoio recebido por este mesmo das cidades ao redor, reunindo a fora para

    retomar a ordem em Vila Rica apoio fornecido pela rede comercial de D. Pedro de Almeida.

    Concluso

    Uma vez que os estudos mostram claramente a relao do Conde de Assumar com

    diversos negociantes daquele territrio cujos contatos foram feitos desde antes de Assumar

    chegar no Brasil que eram justamente os maiores rivais da rede comercial de Pascoal da

    Silva Guimares, rede esta que contava com Felipe dos Santos como participante, j no

    podemos mais sermos ingnuos e pensarmos que estas informaes so banais, e que tal

    conexo uma coincidncia.

    Percebendo que a Revolta de Vila Rica foi principalmente uma disputa de redes

    comerciais, entendemos o quo distantes da verdade estavam as interpretaes de alguns

    historiadores como Jos Vieira Couto de Magalhes, que pensava em Felipe dos Santos como

    um protomrtir da nossa nao, ou a viso de conflito entre poderes locais e autoridade

    metropolitana, que era a percepo de Diogo de Vasconcelos, e at a percepo nos moldes do

    Antigo Sistema Colonial da corrente marxista de historiadores capitaneada por Laura de

    Mello e Souza. As mais recentes pesquisas e as informaes que obtivemos nos ltimos

    tempos, especialmente com Alexandre Torres Fonseca e Kelmer Mathias, bem nos mostram o

    carter de um Antigo Regime nos trpicos neste conflito de redes comerciais do territrio das

    Minas do sculo XVIII. Porm, como bem nos lembra Castro (2008: 8): ainda h espao para

    novos trabalhos...

  • 20 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    Referncias Bibliogrficas:

    ALMEIDA, Carla M. C. de. Uma nobreza da terra com projeto imperial: Maximiliano de

    Oliveira Leite e seus aparentados, In: FRAGOSO, Joo L. R.; ALMEIDA, Carla M. C. de;

    SAMPAIO, Antonio C. J. de. Conquistadores e negociantes: Histrias de elites no Antigo

    Regime nos trpicos. Amrica lusa, sculos XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilizao

    Brasileira, 2007. pp. 121-193.

    ANASTASIA, Carla Maria Junho. Vassalos Rebeldes: violncia coletiva nas Minas na

    primeira metade do sculo. Belo Horizonte: Editora C/Arte, 1998.

    AZEVEDO, Edelson Matias. Minas insurgentes: conflitos e confrontos no sculo XVIII.

    Uberlndia: Programa de Ps-Graduao em Histria / UFU, 2006. (dissertao de mestrado).

    BORREGO, Maria Aparecida de Menezes. Cdigos e prticas: o processo de constituio

    urbana em Vila Rica colonial (1702 1748). So Paulo: Annablume, Fapesp, 2004.

    BOXER, Charles R. A Idade de Ouro do Brasil. So Paulo: Cia. Editora Nacional, 1969.

    CALLARI, Cludia Regina. Os Institutos Histricos: do Patronato de D. Pedro II

    construo do Tiradentes, Revista Brasileira de Histria, So Paulo, v. 21, n 40, 2001. pp.

    59-83.

    CALMON, Pedro. Histria da civilizao brasileira. Braslia: Senado Federal, Conselho

    Editorial, 2002.

    CAMPOS, Maria Vernica. Governo de mineiros: De como meter as Minas numa moenda e

    beber-lhe o caldo dourado. So Paulo: USP/FFLCH, 2002. (tese de doutorado).

    CASTRO, Joo Henrique Ferreira de. Do despertar do sentimento nacional importncia das

    redes de sociabilidade: balano sobre a produo historiogrfica brasileira sobre a Revolta de

    Vila Rica, In: Srgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo & Flvia Florentino Varella

    (org.). Caderno de resumos & Anais do 2. Seminrio Nacional de Histria da Historiografia.

    A dinmica do historicismo: tradies historiogrficas modernas. Ouro Preto: EdUFOP, 2008.

    CATO, Leandro Pena. As andanas dos jesutas pelas Minas Gerais: Uma anlise da

    presena e atuao da Companhia de Jesus at sua expulso (1759), Horizonte, Belo

    Horizonte, v.6, n.11,dez. 2007, pp.127-150.

    CEZAR, Temstocles. Em nome do pai, mas no do patriarca: ensaio sobre os limites da

    imparcialidade na obra de Varnhagen, HISTRIA, So Paulo, v. 24, n. 2, 2005. pp. 207-240.

  • 21 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    __________. O poeta e o historiador. Southey e Varnhagen e a experincia historiogrfica no

    Brasil do sculo XIX, Histria Unisinos, 11(3): 306-312, Setembro/Dezembro 2007.

    DISCURSO histrico e poltico sobre a sublevao que nas Minas houve no ano de 1720.

    Belo Horizonte: Fundao Joo Pinheiro, 1994. Estudo crtico de Laura de Mello e Souza.

    FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Alm de sditos: notas sobre revoltas e

    identidade colonial na Amrica portuguesa, Tempo, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, dezembro

    2000. pp. 81-95.

    __________. Morte aos impostos! Viva o rei!, Revista de Histria da Biblioteca Nacional,

    Rio de Janeiro, 1/8/2007.

    FRAGOSO, Joo Lus. Homens de Grossa Aventura: acumulao e hierarquia na praa

    mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). 2 ed. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1998.

    __________. A formao da economia colonial no Rio de Janeiro e de sua primeira elite

    senhorial (sculos XVI e XVII), In: FRAGOSO, Joo; BICALHO, Maria F.; GOUVA,

    Maria de F. O Antigo Regime nos trpicos: a dinmica imperial portuguesa (sculos XVI-

    XVIII). Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2001. pp. 29-71.

    FRAGOSO, Joo; GOUVA, Maria de F. & BICALHO, Maria F. Uma leitura do Brasil

    colonial: bases da materialidade e da governabilidade do Imprio, Penlope, n 23, 2000, p.

    67-88.

    HALBWACHS, Maurice. A memria Coletiva. So Paulo: Vrtice, Editora Revista dos

    Tribunais, 1990.

    KELMER MATHIAS, Carlos Leonardo. A Reverberao da Revolta de Vila Rica de 1720:

    ... custa do sangue, vida e despesas das fazendas..., Cadernos de Pesquisa do CDHIS,

    Uberlndia, n.33, 2005a, pp. 42-50.

    __________. Estando na Real lembrana de El-Rei: a utilizao na revolta de 1720 na busca

    por mercs e privilgios, Anais do I Colquio do LAHES, Juiz de Fora, 2005b.

    __________. No exerccio de atividades comerciais, na busca da governabilidade: D. Pedro

    de Almeida e sua rede de potentados nas minas do ouro durante as duas primeiras dcadas do

    sculo XVIII, In: FRAGOSO, Joo L. R.; ALMEIDA, Carla M. C. de; SAMPAIO, Antonio

    C. J. de. Conquistadores e negociantes: Histrias de elites no Antigo Regime nos trpicos.

    Amrica lusa, sculos XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2007. pp. 195-222.

    MACHADO, Maria Helena P. T. Um mitgrafo no Imprio: a construo dos mitos da

  • 22 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    histria nacionalista do sculo XIX, Estudos Histricos, Rio de Janeiro, n. 25, 2000. pp. 63-

    80.

    MAGALHES, Jos Vieira Couto de. Um episdio da histria ptria (1720), Revista do

    Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro, tomo XXV, v.25, 1862, pp. 515-564.

    MIRANDA, Tiago C. P. dos Reis. D. Brs Baltasar da Silveira: na vizinhana dos Grandes,

    Revista do Arquivo Pblico Mineiro. Belo Horizonte, Nova Srie, Ano XLII, N 2: [106]-117.

    Jul./Dez. 2006. pp. 107-117.

    PEREZ HERRERO, Pedro. La Amrica Colonial (1492-1763) - Poltica y sociedad. Madrid:

    Sntesis, 2002.

    PINTO, Virglio Noya. O ouro brasileiro e o comrcio anglo-portugus: uma contribuio aos

    estudos da economia atlntica no sculo XVIII. 2. ed. So Paulo: Ed. Nacional, 1979.

    POLLACK, Michael. Memria e identidade social, Estudos Histricos, Rio de Janeiro, v. 5,

    n. 10, 1992.

    RAMOS, Donald. Verbete "Revolta de Vila Rica", In: SILVA, M.B.N. da (Coord.). Dicionrio

    da histria da colonizao portuguesa no Brasil. Lisboa / So Paulo: Ed. Verbo, 1994. pp.

    701-702.

    ROMEIRO, Adriana. Um visionrio na Corte de D. Joo V: revolta e milenarismo nas Minas

    Gerais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.

    SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetculo das raas: cientistas, instituies e questo racial no

    Brasil 1870-1930. So Paulo: Companhia das Letras, 1993.

    SILVA, Vera Alice Cardoso. Lei e ordem nas Minas Gerais: formas de adaptao e de

    transgresso na esfera fiscal, 1700-1733, Varia histria, Belo Horizonte, v.24, n.40, jul/dez.

    2008. pp. 675-688.

    SOUZA, Laura de Mello e. O sol e a sombra: poltica e administrao na Amrica portuguesa

    do sculo XVIII. So Paulo: Companhia das Letras, 2006.

    __________. Tenses sociais em Minas na segunda metade do sculo XVIII, In: NOVAES,

    Adauto (org.) Tempo e histria. So Paulo: Companhia das Letras: Secretaria Municipal de

    Cultura, 1992.

    VARNHAGEN, Francisco Adolpho de. Historia geral do Brazil. Tomo Segundo. Madrid:

    Imprensa de J. del Rio, 1857.

  • 23 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    Uma anlise de trs movimentos milenaristas e messinicos no Imprio brasileiro:

    Rodeador, Pedra Bonita e Muckers.

    Daiane de Oliveira Rocha*

    Resumo

    O presente trabalho tem como objetivo analisar os movimentos do Rodeador, da Pedra

    Bonita e dos Muckers, todos ocorridos no perodo do Imprio brasileiro, apresentando seus

    aspectos em comum, alm de trabalhar com os termos messianismo, milenarismo e

    sebastianismo. Afim de dialogar com a historiografia acerca do tema, exposto de forma

    comparada o desenrolar de tais revoltas.

    Palavras chave: Movimentos messinicos, sebastianismo , Imprio brasileiro.

    Introduo

    Serra do Rodeador, Pernambuco, 1820. Um grupo de pessoas de diversas idades e

    ambos os sexos, lideradas por Silvestre Jos dos Santos, oravam para a volta de seu salvador,

    D. Sebastio, quando foram cruelmente atacadas e massacradas; Pedra Bonita, Pernambuco,

    1838. Uma procisso de pessoas seminuas cantando sobre a volta de D. Sebastio e guiadas

    pelo rei Pedro Antnio, depararam-se com um contingente que abre fogo, matando muitos e

    prendendo outros; So Leopoldo, Rio Grande do Sul, 1874. Um grupo de pessoas, chamadas

    pejorativamente de muckers, reunia-se em uma casa no Morro do Ferrabraz para aclamar

    Jacobina, mulher dita como divindade e porta-voz do Esprito. Sofreram trs ataques da

    infantaria do governo Imperial, ao ltimo, quase todos tinham morrido.

    O que teriam em comum essas trs revoltas? A princpio, em uma anlise superficial

    poderia se pensar nos seus desfechos semelhantes. Porm, vai um pouco alm disso, apesar de

    heterogneas, possuem aspectos comuns. O mais importante desses aspectos que todas so

    milenaristas e messinicas, sendo as duas primeiras crentes na volta de um mito sebastianista.

    Tendo tais informaes como base, este trabalho visa desenvolver uma anlise voltada para

    * Aluna do 7 perodo de graduao da UFRRJ/IM (Instituto Multidisciplinar Campus

    Nova Iguau) e bolsista PIBIC no projeto Cor e outros temas angolanos em fontes

    lusfonas (Sculos XVII e XIX), coordenado pelo Professor Doutor Roberto Guedes

    Ferreira.

  • 24 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    um dilogo das historiografias das revoltas em conjunto com trabalhos especficos para a

    conceituao de tais movimentos.

    O trabalho foi dividido visando uma ordem cronolgica das revoltas, com o objetivo de

    explicitar mais claramente a sucesso dos fatos. Para tal, foi preciso dialogar com a

    historiografia particular de cada revolta, juntamente com estudos mais amplos. Antes de

    analisar as revoltas propriamente ditas, fez-se necessrio se voltar para a conceituao dos

    termos messinico e milenarista, que so cruciais para o entendimento das revoltas, j que

    so usados amplamente no decorrer do trabalho e na historiografia abordada. Alm destes

    dois, tambm conceituar sebastianismo, pois este se torna fundamental para entender as

    duas primeiras revoltas. E assim, poder descrever os eventos do desenrolar de cada um dos

    episdios e melhor compreender as relaes dos mesmos com os conceitos estudados.

    Durante a explanao das revoltas, procurou-se apresentar o referencial de vrios

    autores, como suas discrepncias. J na concluso, foi realizada uma pequena anlise do

    quadro geral, pontuando os aspectos importantes dos temas, suas contradies e outras

    observaes.

    Conceituando

    Milenarismo e messianismo

    Para serem analisados e compreendidos os movimentos pertinentes ao presente

    trabalho faz-se necessrio a conceituao dos termos milenarismo, messianismo e movimento

    milenarista.

    Milenarismo refere-se a milnio, uma viso religiosa baseada no Livro do Apocalipse

    (ou Revelao) em que um reino seria fundado, com o retorno de Cristo, tendo a durao de

    mil anos at o juzo final e aps, s seriam salvos e ressuscitados os homens bons e fiis

    que viveriam em perodo eterno de felicidade plena, sem doenas, sem mortes e sem os

    descontentamentos do mundo em que vivem.1 O termo se relativizou e o governo divino se

    adaptou aos diferentes grupos, mas tendo no milenarismo o ideal caracterizado como a volta

    de um salvador, a figura divina de Jesus Cristo.

    A autora Maria Amlia Schmidt Dickie define o milenarismo da seguinte forma:

    [...] O milnio a expectativa de mudana radical, mas uma expectativa que se

    reveste da esperana de que as aes apropriadas dos fiis sejam j etapas da

  • 25 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    construo deste novo tempo, construo que eles podem efetuar como resultado de

    informaes privilegiadas a eles transmitidas pela comunicao com a divindade.

    (DICKIE. s/d: p. 12).

    No caso do messianismo, o messias a pessoa que assume a posio de lder, mais que

    isso, um escolhido, que guiar os fiis at a salvao e a instaurao do reino terrestre, o

    paraso terreal. Ele a representao divina na Terra, normalmente portador de poderes

    mgicos, um exemplo, sendo o porta-voz das orientaes do salvador para o esperado dia.

    Messianismo s se caracteriza como um movimento quando se coloca em prtica as aes

    orientadas por um lder especfico dentro de um grupo.2

    O movimento milenarista consiste em uma reunio, um encontro de pessoas e na

    preparao, atravs de ritos, para a chegada do Salvador. Um movimento messinico sempre

    milenarista, porm o contrrio no se aplica j que um movimento milenarista no

    necessariamente tem um lder ou um messias, podendo ter vrios lderes, um grupo de lderes

    e etc.

    Uma anlise mais aprofundada dessa temtica parte da autora Maria Isaura Pereira de

    Queiroz, que avalia as definies de messianismo partindo da teologia, depois por uma

    vertente sociolgica, antropolgica e histrica. A autora diz que o termo surgiu dentro da

    religio israelita, mas foi na religio judaica onde ganhou definio. Segundo ela,

    [] O messias o personagem concebido como um guia divino que deve levar o

    povo eleito ao desenlace natural do desenrolar da histria, isto , humilhao dos

    inimigos e ao restabelecimento de um reino terreno e glorioso para Israel. A vinda deste reino coincidir com o fim dos tempos e significar o restabelecimento do

    Paraso na terra. (QUEIROZ. 1977: p. 26. Grifo da autora).

    Segundo a mesma, no cristianismo no deveria surgir um termo messinico, pois,

    tecnicamente, Jesus j seria o messias cristo, mas

    [] foi a juno da crena messinica com o Juzo Final: Cristo vai retornar, e ser

    o final do fim das eras. A figura de Cristo se modifica; no mais o salvador, um

    lder guerreiro que vir no futuro dar combate ao Anticristo, personificao do mal,

    sua vitria constituindo o prenncio do fim do mundo. (QUEIROZ. 1977: p. 26).

    O messianismo a salvao da coletividade de fiis. A autora tambm mostrou que as

    caractersticas messinicas e milenaristas no esto restritas s civilizao ocidental, ela

    aponta que j existiam tais crenas em civilizaes primitivas.3

  • 26 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    Sebastianismo

    Antes de se iniciar a descrio dos movimentos que sero abordados preciso

    caracterizar o que seria o sebastianismo, j que tanto o movimento da Serra do Rodeador

    quanto o da Pedra Bonita enquadram-se como sebastianistas.

    A crena que funda o sebastianismo de carter milenarista e acredita na volta de Dom

    Sebastio, rei de Portugal na segunda metade do sculo XVI. Antes do nascimento do rei (por

    volta de 1530 e 1540), houve em Portugal um sapateiro de nome Bandarra que escreveu

    diversas trovas sobre a vinda de um prncipe que salvaria e guiaria Portugal para se

    concretizar em um Reino pleno sobre outros.

    Dom Sebastio nasceu em 1554 e foi muito bem recebido pela populao portuguesa,

    sendo inclusive chamado de desejado, por ser um rei e descendente legtimo do trono

    (existia um grande medo poca, pela maioria dos portugueses, com a possvel unio dos

    Reinos de Portugal e Castela)4 e assumindo o reinado em 1568.

    Foi em 1578 em uma guerra contra os mouros, em Alccer-Quibir no Marrocos, que o

    rei D. Sebastio desapareceu. Vrios portugueses no acreditaram em sua morte, fazendo-o se

    tornar o messias nacional portugus, gerando a crena em sua volta para salvar o Reino de

    Portugal, que no mesmo perodo estava em conflito interno e acabou em 1580 nos domnios

    espanhis com o incio da Unio Ibrica. As trovas de Bandarra ganharam fora e se

    espalharam com bastante rapidez, associando a figura do messias, ento descrito, ao D.

    Sebastio. Como e quando tais crenas chegaram ao Brasil no se tem preciso absoluta,

    apesar de existirem registros da chegada do sebastianismo ainda no sculo XVI. Porm, As

    poucas referncias que temos so esparsas, difusas e mais nos permitem o levantamento de

    questes que respostas acabadas. (HERMANN. 2004: p.70).

    Diferentemente da crena que se originou em Portugal, que acreditava que o prncipe

    iria transformar Portugal em uma grande nao, No Brasil, pelo que referem os viajantes e

    outros testemunhos, D. Sebastio um grande rei que distribuir entre seus adeptos imensas

    riquezas e cargos honorficos, instalando no mundo o paraso terrestre. (QUEIROZ. 1977: p.

    219). Isso mostra que o mito sofreu mutao de acordo com as necessidades apresentadas no

    Brasil. De fato, fica claro que chegaram indivduos que possuam conhecimento sobre a

    histria e de alguma forma influenciaram indiretamente nos movimentos da Serra do

    Rodeador e da Pedra Bonita que tiveram seus desdobramentos no sculo XIX.

  • 27 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    Movimento da Serra do Rodeador

    Seu lder foi Silvestre Jos dos Santos, tambm chamado de Profeta. Suas pregaes

    comearam por Alagoas, mas, por causa de suas alegaes religiosas acabou por ser expulso

    da cidade.5

    Por volta do ano de 1817 ele foi para a cidade de Bonito, em Pernambuco, onde

    elegeu o monte do Rodeador como sua nova instalao.

    Nesse monte havia uma fenda entre pedras que formava uma espcie de capela natural,

    onde segundo Silvestre dos Santos, havia uma santa que s ele e seu aclito e tambm

    cunhado, Manoel Gomes das Virgens, eram capazes de ouvi-la. Com o tempo, e a adeso de

    mais indivduos ao movimento, formou-se uma comunidade com os quatrocentos adeptos

    que o seguiam, e ao qual chamou de Cidade do Paraso Terrestre.(QUEIROZ. 1977: p. 220).

    Eles pregavam que El-Rei D. Sebastio, com seu exrcito, sairia de dentro de uma pedra

    marcada com uma cruz e transformaria todos em ricos, trazendo felicidade a esta cidade do

    paraso terrestre sem a presena de doenas ou mortes e, caso fossem atacados, seriam

    invencveis.

    Silvestre tambm criou ritos por meio dos quais, para fazer parte do grupo, era preciso

    se confessar e passar por todo um procedimento para se tornar irmo, como eram chamados

    todos que faziam parte desta comunidade. O primeiro deles era se confessar, o que antes era

    feito por um padre, mas com a dificuldade de encontr-los, comearam a se confessar com as

    imagens que foram colocadas na capela de orao.

    Cabral caracteriza as pessoas desse grupo como, em sua grande maioria, sendo das

    camadas mais pobres e analfabetos. Alm disso, estariam sempre procura de emprego ou

    oportunidades que lhes proporcionassem alguma vantagem.6

    Pelo difcil acesso e pelo abrigo

    que a comunidade do Rodeador proporcionava, muitos desertores de milcias se abrigavam l.

    Sendo, inclusive, tanto Silvestre dos Santos quanto Manoel Gomes desertores do 12 Batalho

    de Milcias de Bonito.

    Dentro da comunidade havia hierarquizao, onde Silvestre e Manoel eram as figuras

    principais e de mais importncia. Abaixo deles, havia doze pessoas chamadas de Sabidos

    (como apstolos). O resto dos adeptos eram denominados como Ensinados. Existiam ainda

    os chamados Procuradores da Honestidade masculina e feminina, que tinham os papis de

    impedir encontros durante os ritos, que aconteciam noite. Eles tambm possuam algo como

    um agrupamento militar que era intitulado de A Santa Marcha. Inclusive este pequeno

    exrcito tinha um comandante militar, que dirigia a Santa Marcha; um chefe das 'revistas das

  • 28 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    armas', quatro capites e quatro alferes.(QUEIROZ. 1977: p. 221).

    Pela grande composio de fugidos e desertores dentro da comunidade do Rodeador, as

    autoridades comearam a pensar que ali poderia se tramar contra o rei. O receio das

    autoridades engrandeceu. Isso fez que espies, por ordem do governo pernambucano, se

    infiltrassem no Rodeador para identificar quem eram as pessoas e como se portavam.

    Posteriormente, as alegaes dos ditos espies, fortificam ainda mais a iniciativa de represso

    por parte do governador.

    Vale lembrar que, em Pernambuco, houve a Revoluo de 1817 e, por causa disso, o

    governo receava futuros conflitos, principalmente pela provncia possuir grande nmero de

    ex-soldados. Da mesma forma que a Revoluo Liberal de Portugal de 1820 tambm pode ter

    influenciado e impactado o movimento da Serra do Rodeador.7

    As tropas atacaram noite, de maneira precipitada, sob as ordens de um Major

    Madureira.8 Ao mesmo tempo, eram realizadas as oraes, assim eles no tiveram muitas

    chances de fugir da emboscada. Porm, foi justamente esse ataque que condenou parte das

    tropas e da comunidade. Em funo da escurido, no souberam diferenciar amigos de

    inimigos, resultando em muitos feridos e diversos cadveres. Ao amanhecer, alguns adeptos

    ainda foram atacados e torturados. As poucas pessoas que sobreviveram foram presas, como

    foi o caso dos homens. As mulheres, em sua maioria, foram libertas e as crianas rfs

    entregues para a adoo.

    A anlise de Palacios9 seria a que mais se diferencia dos outros autores que trabalham

    esse tema, onde o mesmo tende a fazer uma abordagem que no se prende s ao carter

    religioso do movimento. Atravs de testemunhos, colhidos dos sobreviventes, ele percorre um

    caminho acentuando que muitas pessoas estavam l no pela crena, mas por necessidade, por

    no haver outro lugar para ir. O autor quase nega o carter milenarista do movimento, mas

    no o faz de forma clara.

    Movimento da Pedra Bonita

    Com certeza um movimento pouco estudado e com escassa historiografia referente,

    por isso sua descrio ser debruada na obra de Queiroz10

    e no trabalho conjunto de Polastri,

    Teles e Faustino.11

    Em 1836, uma pregao sobre a volta de D. Sebastio comeou a se espalhar em

    Pernambuco, o responsvel por tal feito foi um homem chamado Joo Antnio dos Santos.

  • 29 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    Ele percorreu grande parte de Pernambuco conseguindo a adeso de pessoas sua crena,

    justamente porque seria bastante persuasivo e suas promessas se encaixavam com as

    necessidades dos indivduos daquela localidade.12

    O mameluco e seus seguidores comearam

    a atrair a ateno das autoridades e como forma de interferncia, enviaram o Padre Francisco

    Correia para convenc-lo de abandonar o lugar, o que ele o fez.

    Aps dois anos, seu cunhado Joo Ferreira retornou ao mesmo local e pregao

    abandonada por Joo Antnio dos Santos, Joo Ferreira se autointitulou rei. Ele tambm foi

    promissor ao reunir seguidores pregando a volta de D. Sebastio, que sairia das Pedras

    Bonitas com o seu exrcito para trazer o paraso terreal. O diferencial de seu cunhado era que,

    segundo ele, as tais pedras da qual sairia D. Sebastio precisavam ser regadas com sangue.13

    Os adeptos de Joo Ferreira comearam a morar mais prximos das pedras santas e, aos

    poucos, em volta das mesmas, foi se criando um povoado. Como no caso do movimento da

    Pedra do Rodeador, neste tambm existia uma hierarquia onde todos estavam abaixo de Joo

    Ferreira, porm seus parentes estavam acima de seus seguidores. Foi criado tambm um

    conjunto de prticas estabelecidas e elaboradas pelo rei, como as de que os seguidores no

    poderiam sair do acampamento e nem poderiam ter cuidados pessoais, como higiene bsica

    at a volta de D. Sebastio. Somente os seguidores de confiana do Rei saiam para seduzir

    mais pessoas para a crena, se utilizando dos meios de persuaso ou violncia. Esses

    seguidores de confiana tambm eram responsveis pelo sustento da populao que ali

    acampava. Outro dado interessante , que alm das oraes, haviam muitos ritos regados por

    bebidas e alucingenos, sendo um deles as festas de casamento ao qual um homem poderia se

    casar com vrias mulheres. Outra prtica j se remete ao perodo medieval, onde Joo Ferreira

    passava a noite de npcias com as recm-casadas e no dia seguinte as entregava a seus

    respectivos maridos.14

    Um dos motivos para o movimento da Pedra Bonita ser considerado um dos mais

    sanguinrios movimentos messinicos brasileiros foi a adoo da prtica do sacrifcio por

    seus adeptos. A partir do dia 14 de maio de 1838 Joo Ferreira deu incio aos sacrifcios e,

    segundo sua lgica, todas as pessoas sacrificadas retornariam vida para desfrutar das glrias

    advindas com a volta de D. Sebastio.

    O primeiro a ser sacrificado foi o prprio pai de Joo Ferreira, onde o mesmo se

    ofereceu. Os sacrifcios se seguiram at o dia 16 de maio de 1838, totalizando 67 vtimas

    entre crianas, homens, mulheres e ces.15

    Neste momento dos acontecimentos um dado importante apontado por Polastri, Teles e

  • 30 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    Faustino, onde [...] Jos Gomes Vieira, assustado, fugiu em busca de auxlio para impedir a

    continuidade de tamanha insanidade. Encontrou ajuda em uma vila prxima, onde recorreu ao

    chefe poltico local. Este reuniu foras e seguiu em direo ao stio. (POLASTRI. 2007: p.

    347). A respeito deste fato, no se tem como saber de sua vericidade ou descrever quem seria

    a figura de Jos Gomes Vieira pela escassez de historiografia.

    No dia 17 de maio o prprio rei foi sacrificado, contra a sua vontade (POLASTRI.

    2007: p. 347), porque segundo Pedro Antnio (irmo do primeiro pregador, Joo Antnio e

    tambm cunhado de Joo Ferreira) disse que entrara em contato com D. Sebastio e esse

    ordenava o sacrifcio do rei, assim, Pedro Antnio assumiu seu lugar.

    Devido ao mau cheiro proveniente dos corpos em decomposio, o povoamento teve

    que se deslocar. No meio do caminho, que percorriam seminus, se depararam com forte

    contingente (QUEIROZ. 1977: p. 224), que abriu fogo contra eles. O desfecho se resultou em

    feridos e mortos para ambos os lados. Alguns fugiram, outros foram presos, a mulheres foram

    soltas e as crianas rfs foram colocadas adoo.

    Ambos autores utilizados nessa parte do trabalho so demasiadamente superficiais, se

    prenderam mais as descries dos fatos do que a uma anlise mais profunda (apesar de estar

    explicitado na obra de Queiroz que esse no era o seu objetivo). Porm, por falta de mais

    historiografia e fontes, no sobram alternativas a essa parte do trabalho do que se manter no

    campo descritivo tambm.

    Movimento dos Muckers

    Os imigrantes

    Nas primeiras dcadas do sc XIX vrios colonos alemes se estabeleceram no sul do

    pas, em Sapiranga, Rio Grande do Sul por incentivo do Imprio. Eles vieram de diversas

    partes da Alemanha e falavam diferentes dialetos, mesmo entre eles.

    Ao chegarem aqui, deveriam receber lotes de terras do governo imperial que,

    inicialmente, no haviam sido demarcados ainda. Durante alguns anos, com a lentido do

    governo em providenciar tais demarcaes, diversos conflitos ocorreram, sejam eles internos

    ou entre colonos e o Imprio. Quando finalmente foram demarcadas as terras, mesmo de

    forma errnea, elas partiram do centro de So Leopoldo (nome da colnia ali fundada),

    abrindo picadas que adentravam ao interior. Com o decorrer do tempo, o centro de So

    Leopoldo se tornou o ncleo da colnia e mais ao seu interior, marcado pelas matas, a parte

  • 31 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    mais rural e mais isolada.

    Ao chegaram ao Brasil no obtiveram assistncia do governo imperial, diferente do que

    imaginavam, e foram se virando da maneira que podiam. Quando um pequeno comrcio

    surgiu, alguns anos depois, foi marcado pela permuta. Claramente se tornaram uma

    comunidade onde ajudavam uns aos outros, de maneira mtua. Afinal, se sentiam ali

    abandonados e isolados, podendo contar somente uns com os outros para sua sobrevivncia.

    Quando as vendas surgiram, tanto nos meios rurais quanto nos do ncleo, as relaes

    foram se modificando. Os comerciantes do centro de So Leopoldo comearam a ascender

    economicamente, sendo diferenciados dos moradores das picadas.16

    Vrios eram os desfalques

    da cidade, como falta de escola, hospital, igreja e etc. Ento, os colonos se reunio em

    mutires para a construo de casas, amenizar alguns desses problemas e se organizarem de

    uma forma geral. A colnia era composta por pessoas catlicas e protestantes, que tiverem que

    aprender a conviver juntas e que normalmente no entravam em conflito uma com a outra, era

    comum casamentos mistos e o respeito mtuo. Por se tratar de um local pequeno e isolado,

    todos acabavam por possuir certo grau de parentesco.17

    A esmagadora maioria da populao da cidade era analfabeta e, por isso, os poucos

    instrudos abriram escolas, mas, mesmo assim, o ensino era limitado. Alm do trabalho

    infantil dificultar a ida das crianas escola. Aps o ano de 1845 a vida em So Leopoldo foi

    crescendo e melhorando.18

    O conflito

    Joo Jorge Maurer, era carpinteiro e chegou a servir na Guarda Nacional. Ao trabalhar

    com Pedro Mentz, acabou por casar com a sua irm, Jacobina Mentz.

    Durante um ano o casal morou com a me de Jacobina, a viva Maria Elizabeth

    Mller, e com Carolina, irm mais nova de Jacobina. Mas em 1867, provavelmente

    devido a desentendimento com Carolina, mudou-se para o lote n. 16 da Ala Norte da Picada do Ferrabraz []. (AMADO. 1978: p.114).

    No ano de 1868, Joo Maurer trocou de oficio e virou um curandeiro. Aprendeu todas

    as tcnicas em trs anos, com o curandeiro Wilhelm Ludwing Buchhorn.19

    Reza a lenda de

    que comeou a curar porque uma voz celestial o mandou.20

    Em 1872 seus feitos j estavam famosos e o chamavam de Wunderdoktor. As pessoas

    chegavam sua residncia buscando atendimento e acabavam por escutar a sua esposa falar

    sobre a Bblia aos doentes.

  • 32 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    Os trabalhos realizados sobre o episdio dos muckers apontam para a figura de Jacobina

    como uma mulher doente. No se sabe ao certo o que ela tinha, mas nas crises de sua

    doena entrava em sono profundo, que podia durar horas e enquanto dormia balbuciava

    palavras e ordens. Ela acreditava entrar em contato com o Esprito, apesar de no se lembrar

    de nada aps o ocorrido.

    Com o tempo, os dois ganharam fama e as pregaes da bblia se tornaram mais

    frequentes, seguindo determinado ritual. Queiroz explicita o ritual que era realizado,

    composto por hinos, oraes, uma cano vinda de uma caixa de msica e uma roupa peculiar

    utilizada por Jacobina. Assim, foi aos poucos surgindo os Mucker.21

    Mucker uma palavra pejorativa, que designava faltos beatos; santarres.22

    Porm, a

    forma mais adequada de referncia ao se trabalhar com o tema. A formao do grupo teve

    incio em 1868, onde as pessoas se reuniam pelo esprito de Jacobina quando essa entrava em

    sono profundo. Porm, a partir de 1871 comearam a ler a bblia, interpret-la e se utilizar de

    todo o ritual j apresentado anteriormente.

    Em 1873 houve a primeira interferncia das autoridades nas reunies dos Mucker. No

    dia 8 de maio de 1873 o Subdelegado de Polcia de So Leopoldo, Cristiano Spindler, abriu

    uma sindicncia a respeito de Joo Jorge Maurer; sob alegao de que em sua casa se faziam

    reunies de mais de cem pessoas, sem que se saiba para que fim (AMADO. 1978: p. 173).

    Eles foram presos e levados para interrogatrio, com a falta de evidncias, foram soltos em

    seguida. Porm, se iniciaram os ataques verbais entre os santarres e os debochadores.23

    Os

    Muckers comearam a se fechar para dentro de suas prprias convices e se afastaram da

    cidade. Tiraram os filhos do colgio, no adquiriram dvidas e perdoaram devedores, na maior

    parte do tempo permaneciam na casa do casal construda por todos no morro de Ferrabraz.

    apontado que a Jacobina tinha o poder de dissolver casamentos e realizar novos, tendo

    ela, inclusive, tambm trocado de marido. Alm do boato de que a noite na casa da Jacobina

    se apagavam as luzes e havia encontros entre casais. Isto causou um rebolio na cidade, onde

    condenaram a seita.24

    Ao mesmo tempo, os muckers se ofenderam e decidiram buscar ajuda,

    chegando a entregar uma carta ao Imperador para terem o direito de liberdade religiosa.

    Porm, as tentativas por uma convivncia pacfica foram frustradas. Como se sentiram

    abandonados, entenderam que fazia-se necessrio resolver tudo com as prprias mos.

    Na noite de 25 de junho de 1874, houve um surto de incndios e assassinatos durante

    uma noite, entre as vtimas, estava a famlia de um ex-adepto dos mucker, o que

    automaticamente as pessoas da cidade associaram a eles. Existe um conflito historiogrfico,

  • 33 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    no h evidncias que todos os ataques foram praticados por muckers25

    e ao mesmo tempo h

    quem no atribua a eles culpa alguma.26

    So Leopoldo estava em pnico, por causa disso, De Porto Alegre so enviadas ento

    cem praas de infantaria, alguma cavalaria, dois canhes, sob o comando de um

    coronel.(QUEIROZ. 1977: p. 251). O primeiro ataque aconteceu no dia 28 de junho de 1874

    sob o comando do coronel Genuino Olympio de Sampaio. Apesar do grande nmero, os

    mucker se saram vitoriosos.

    Em um segundo embate, o coronel Sampaio levou mais soldados e canhes. O ataque

    aconteceu dia 19 de julho do mesmo ano. Apesar de resistirem, os muckers no o fizeram por

    muito tempo e a casa no morro do Ferrabraz foi incendiada. Alguns, ainda fugiram para a

    floresta, e dentre os vivos e mortos no incndio, no se tinha Jacobina e nem os principais

    lderes.

    No dia 2 de agosto, os ltimos adeptos de Jacobina, e a mesma, foram mortos em uma

    cabana na floresta. Dentre os mortos no estava Joo Maurer. Dos muckers sobreviventes dos

    primeiros ataques, alguns foram aprisionados, mas absolvidos em 1883. Mesmo com a

    absolvio e a volta para a cidade, eles e os descendentes dos Muckers, incluindo uma filha de

    Jacobina, foram alvos de ataques por parte dos outros colonos, e vrias tenses e assassinatos

    perpetuaram-se at 1898.

    Nota-se um certo julgamento de valores por parte dos autores. No caso do Padre

    Schupp27

    , ele condena todos os atos e toda seita dos muckers. J Muxfeldt28

    , defende

    imensamente seus descendentes e diz que todas as acusaes feitas contra eles foram calnias,

    onde Jacobina era uma mulher frgil, boa esposa, boa me e muito doente. O trabalho que se

    mostrou mais completo e realizado com excelncia foi o de Janana Amado, pois contou com

    uma intensa pesquisa nos arquivos da cidade, apontando detalhes e documentos nunca antes

    abordados. Ela de fato inovou a viso que se tinha desse movimento e apresentou um

    resultado promissor para a historiografia.29

    Concluso

    As trs revoltas messinicas abordadas neste artigo so pouco conhecidas e estudadas.

    Ainda preciso, no campo da historiografia, que todas recebam novas abordagens e novos

    olhares. Apesar dos trs movimentos serem messinicos, eles no partiram do mesmo ideal.

    Ao analisarmos os dois primeiros, de carter sebastianista, vemos como so mutveis os ritos.

  • 34 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    A modificao do discurso de Portugal para o Brasil e ao mesmo tempo de uma regio do

    Pernambuco para outra. E o mais importante foi a fora que as Trovas de Bandarra tiveram

    para sobreviver, por no mnimo, trs sculos.

    Se voltando para o movimento dos mucker, fica claro que ele o que mais se difere dos

    outros dois analisados, porque

    [...] no era um movimento com origem no catolicismo popular, no podia ser

    associado a estruturas tradicionais de mando e propriedade da terra do campo

    brasileiro nem a uma estrutura de classes camponesas, especificidades que

    auxiliaram alguns autores a caracterizar tais movimentos no Brasil. (DICKIE. 2004:

    p. 23).

    As indagaes do porque so as mais difceis de responder. No caso dos dois

    primeiros (Rodeador e Pedra Bonita) se tem um lder carismtico que vai de encontro com as

    necessidades do povo que ali ou nas redondezas viviam. Indivduos que no tinham nada a

    perder. J no caso dos mucker, h um aspecto social, com as mudanas ocorridas que

    transportaram uma colnia paternalista para uma cidade individualista.30

    O ponto em comum a todas elas seria os seus desfechos trgicos. Existiu forte represso

    contra todos esses movimentos. Poderia ser tambm um reflexo do medo, por parte do

    governo, de novos levantes como a Revoluo Pernambucana de 1817 e a Farroupilha de

    1835. Ambos levantes que aconteceram nos mesmos estados das revoltas messinicas

    trabalhadas.

    O problema da escassez de fontes em todos os casos, resulta em diversas verses na

    historiografia. Essa uma grande dificuldade existente: completar lacunas. Na maioria das

    vezes no se tem os fatos, apenas hipteses.

    E at que ponto se pode contestar a f ou a veracidade da crena em movimentos?

    Como j apontou Rud31

    , as multides e os movimentos so heterogneos. E a exemplo

    desses movimentos, se poderia ter algumas pessoas guiadas pela f, como tambm outras,

    guiadas por interesses prprios. Mais se tem ainda outros vis a serem abordados, que no

    sejam somente pela f e que fogem do crer ou no crer, pois essa no a nica questo.

    Bibliografia

    AMADO, Janana. Conflito social no Brasil: a Revolta dos Mucker Rio Grande do Sul,

    1868-1898. So Paulo: Smbolo, 1978.

  • 35 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    ARAVANIS, Evangelia. Movimento Mucker: a necessidade de novos estudos e novas

    abordagens. In: MAUCH, Cludia, VASCONCELLOS, Naira (Org.). Os alemes no sul do

    Brasil: cultura - etnicidade - histria. Canoas : Editora da ULBRA, 1994.

    CABRAL, Flavio Jos Gomes. Reinos encantados del Rei D. Sebastio: Rebeldia e

    Contestao da Ordem nos Sertes Pernambucanos de 1820. In: ANPUH XXII Simpsio

    Nacional de Histria, 2003, Joo Pessoa. Disponvel em http://anpuh.org/anais/wp-

    content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S22.241.pdf. Acessado em 15/04/2013.

    DICKIE, Maria Amlia Schmidt. O milenarismo mucker revisitado. Florianpolis:

    Universidade Federal de Santa Catarina Programa de Ps-Graduao em Antropologia

    Social, s/d.

    __________________________. Milenarismo em contexto significativo: Os muckers como

    sujeitos. In: MUSUMECI, Leonarda (org.). Antes do fim do mundo: milenarismos e

    messianismos no Brasil e na Argentina. Rio de Janeiro: Editora da U.F.R.J., 2004.

    HERMANN, Jacqueline. Sebastianismo e sedio: os rebeldes do Rodeador na Cidade do

    Paraso Terrestre, Pernambuco 1817-1820. In: Tempo, v. 6 - n 11 Dossi religiosidades

    na Histria. Rio de Janeiro: 7 Letras, julho de 2001.

    ____________________. Dom Sebastio e a Cidade do Paraso Terrestre: um estudo sobre o

    movimento da serra do Rodeador, Pernambuco, primeira metade do sculo XIX. In:

    MUSUMECI, Leonarda (org.). Antes do fim do mundo: milenarismos e messianismos no

    Brasil e na Argentina. Rio de Janeiro: Editora da U.F.R.J., 2004.

    MUXFELDT, Hugo. Os Mucker 100 anos depois. Porto Alegre, Ed. do autor, 1983.

    PALACIOS, Guillermo. Uma nova expedio ao Reino da Pedra Encantada do Rodeador:

    Pernambuco, 1820. In: DANTAS, Monica Duarte (org.). Revoltas, motins, revolues:

    homens livres pobres e libertos no Brasil do sculo XIX. So Paulo: Alameda, 2011.

    POLASTRI, Brbara Elisa [et al]. A questo da Pedra Bonita em 'Os Sertes' e em alguns

    http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S22.241.pdfhttp://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S22.241.pdf

  • 36 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    romances psteros. In: Lngua, Literatura e Ensino, vol. 2, So Paulo, Maio de 2007.

    QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O messianismo no Brasil e no mundo. 2 ed. So Paulo:

    Alfa- Omega, 1977.

    RIBEIRO, Ren. O Episdio da Serra do Rodeador (1817-1820): um movimento milenar e

    sebastianista. In: Revista de Antropologia, vol. 8, n. 2, So Paulo, dezembro de 1960.

    RUD, George. A multido na histria: estudo dos movimentos populares na Frana e na

    Inglaterra, 1730-1848. Rio de Janeiro: Campus, 1991.

    SCHUPP, Ambrsio. Os muckers: episdio histrico ocorrido nas colnias alems do Rio

    Grande do Sul. Braslia: Senado Federal, 2004.

    1 DICKIE, Maria Amlia Schmidt. O milenarismo mucker revisitado. Florianpolis: Universidade

    Federal de Santa Catarina Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social, s/d. p. 1. 2 QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O messianismo no Brasil e no mundo. 2 ed. So Paulo: Alfa-

    Omega, 1977. p. 29. 3 Idem. Ibidem, p. 36. 4 HERMANN, Jacqueline. Dom Sebastio e a Cidade do Paraso Terrestre: um estudo sobre o movimento

    da serra do Rodeador, Pernambuco, primeira metade do sculo XIX. In: MUSUMECI, Leonarda (org.). Antes do fim do mundo: milenarismos e messianismos no Brasil e na Argentina. Rio de Janeiro: Editora da U.F.R.J., 2004.

    p. 61. 5 RIBEIRO, Ren. O Episdio da Serra do Rodeador (1817-1820): um movimento milenar e

    sebastianista. Revista de Antropologia, vol. 8, n. 2, So Paulo, dezembro de 1960. p. 134. 6 CABRAL, Flavio Jos Gomes.Reinos encantados del Rei D. Sebastio: Rebeldia e Contestao da

    Ordem nos Sertes Pernambucanos de 1820. In: ANPUH XXII Simpsio Nacional de Histria, 2003, Joo

    Pessoa. p.2. 7 HERMANN, Jacqueline. op. cit., p. 60. 8 PALACIOS, Guillermo.Uma nova expedio ao Reino da Pedra Encantada do Rodeador: Pernambuco,

    1820. In: DANTAS, Monica Duarte (org.). Revoltas, motins, revolues: homens livres pobres e libertos no

    Brasil do sculo XIX. So Paulo: Alameda, 2011. p. 106 9 Idem. Ibidem. 1 0QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de., op. cit., 1 1POLASTRI, Brbara Elisa [et al]. A questo da Pedra Bonita em 'Os Sertes' e em alguns romances psteros. In: Lngua, Literatura e Ensino, vol. 2, So Paulo, Maio de 2007. 1 2Idem. Ibidem. p. 346. 1 3QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de., op. cit., p. 222. 1 4Idem. Ibidem. p. 223. 1 5Idem. Ibidem. p. 224. 1 6AMADO, Janana. Conflito social no Brasil: a Revolta dos Mucker Rio Grande do Sul, 1868-

    1898. So Paulo: Smbolo, 1978. p. 34. 1 7

    QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. op. cit. p. 243. 1 8Cf. AMADO, Janana. op. cit. p. 109. 1 9MUXFELDT, Hugo. Os Mucker 100 anos depois. Porto Alegre, Ed. do autor, 1983. p. 43. 2 0

    SCHUPP, Ambrsio. Os muckers: episdio histrico ocorrido nas colnias alems do Rio Grande do

    Sul. Braslia: Senado Federal, 2004. p. 18.

  • 37 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    2 1QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. op. cit., p. 245. 2 2

    Cf. DICKIE, Maria Amlia Schmidt. O milenarismo mucker revisitado. Florianpolis: Universidade

    Federal

    de Santa Catarina Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social, s/d. p. 2-3.

    2 3MUXFELDT, Hugo. Os Mucker 100 anos depois. Porto Alegre, Ed. do autor, 1983. p. 31 2 4QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. op., cit. p. 246 2 5AMADO, Janana. op. cit., p. 226. 2 6MUXFELDT, Hugo. op. cit., p. 67. 2 7SCHUPP, Ambrosio. op cit. 2 8MUXFELDT, Hugo. op. cit. 2 9AMADO, Janana., op. cit. 3 0QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. op. cit. 3 1

    RUD, George. A multido na histria: estudo dos movimentos populares na Frana e na Inglaterra,

    1730-1848. Rio de Janeiro: Campus, 1991.

  • 38 CAHistria Revista Discente de Histria 2013 Vol. IV; N04. ISSN:2179-3840

    Esporte, poltica e identidade nacional: efeitos do profissionalismo no futebol

    colombiano (1948-1951)

    Eduardo de Souza Gomes*

    RESUMO

    Este presente artigo busca analisar o processo de profissionalizao do futebol

    colombiano, considerando que o mesmo ocorreu em um perodo de imensas disputas polticas

    no pas. Em 1948, aps a morte do lder liberal Jorge Gaitn, se intensificaram os conflitos

    entre liberais e conservadores pela busca do poder na Colmbia. Paralelamente, ocorreu no

    mesmo ano a profissionalizao do futebol, que resultou na formao de uma liga no oficial

    e num grande xodo de jogadores estrangeiros para atuarem no pas nesse perodo. Com a

    transformao do futebol em espetculo, o esporte passou a ser visto pel