Campo Geral - Guimaraes Rosa

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  • 7/29/2019 Campo Geral - Guimaraes Rosa

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    Campo Geral

    Joo Guimares Rosa

    texto integral da novela:

    "Miguilim" ou "Campo Geral"

    Joo Guimares Rosa, 1964

    in "Miguilim e Manuelzo"

    Edio Livros do Brasil, Lisboa

    Um certo Miguilim morava com sua me, seu pai e seus irmos, longe, longe daqui,muito depois da Vereda-do-Frango-d'gua e de outras veredas sem nome ou poucoconhecidas, em ponto remoto, no Mutm. No meio dos Campos Gerais, mas numcovoo em trecho de matas, terra preta, p de serra. Miguilim tinha oito anos. Quandocompletara sete, havia sado dali, pela primeira vez: o Tio Terz levou-o a cavalo, frente da sela, para ser crismado no Sucuriju, por onde o bispo passava. Da viagem, quedurou dias, ele guardara aturdidas lembranas, embaraadas em sua cabecinha. De uma,nunca pde se esquecer: algum, que j estivera no Mutm, tinha dito: " um lugar

    bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquerparte; e l chove sempre..."

    Mas sua me, que era linda e com cabelos pretos e compridos, se doa de tristeza de terde viver ali. Queixava-se, principalmente nos demorados meses chuvosos, quandocarregava o tempo, tudo to sozinho, to escuro, o ar ali era mais escuro; ou, mesmo naestiagem, qualquer dia, de tardinha, na hora do sol entrar. "O, ah, o triste recanto..."

    ela exclamava. Mesmo assim, enquanto esteve fora, s com o tio Terz, Miguilimpadeceu tanta saudade, de todos e de tudo, que s vezes nem conseguia chorar, e ficavasufocado. E foi descobriu, por si, que, humedecendo as ventas com um tico de cuspe,aquela aflio um pouco aliviava. Da, pedia ao tio Terz que molhasse para ele o leno;e tio Terz, quando davam com um riacho, um minadouro ou um poo de grota, sem seapear do cavalo abaixava o copo de chifre, na ponta de uma correntinha, e subia um

    punhado d'gua. Mas quase sempre eram secos os caminhos, nas chapadas, ento tioTerz tinha uma cabacinha que vinha cheia, essa dava para quatro sedes; uma cabacinhaentrelaada com cips, que era to formosa. " para beber, Miguilim..." tio Terzdizia, caoando. Mas Miguilim ria tambm e preferia no beber a sua parte, deixava-a

    para empapar o leno e refrescar o nariz, na hora do arrocho. Gostava do tio Terz,irmo de seu pai.

    Quando voltou para casa, seu maior pensamento era que tinha a boa notcia para dar me: o que o homem tinha falado que o Mutm era lugar bonito... A me, quandoouvisse essa certeza, havia de se alegrar, ficava consolada. Era um presente; e a ideia de

    poder traz-lo desse jeito de cr, como uma salvao, deixava-o febril at nas pernas.

    To grave, grande, que nem o quis dizer me na presena dos outros, mas insofria porter de esperar; e, assim que pde estar com ela s, abraou-se a seu pescoo e contou-

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    lhe, estremecido, aquela revelao. A me no lhe deu valor nenhum, mas mirou triste eapontou o morro; dizia: "Estou sempre pensando que l por detrs dele acontecemoutras coisas, que o morro est tapando de mim, e que eu nunca hei de poder ver..." Eraa primeira vez que a me falava com ele um assunto todo srio. No fundo de seucorao, ele no podia, porm, concordar, por mais que gostasse dela: e achava que o

    moo que tinha falado aquilo era que estava com a razo. No porque ele mesmoMiguilim visse beleza no Mutm nem ele sabia distinguir o que era um lugar bonitoe um lugar feio. Mas s pela maneira como o moo tinha falado: de longe, de leve, seminteresse nenhum; e pelo modo contrrio de sua me agravada de calund eespalhando suspiros, lastimosa. No comeo de tudo, tinha um erro Miguilimconhecia, pouco entendendo. Entretanto, a mata, ali perto, quase preta, verde-escura,

    punha-lhe medo.

    Com a aflio em que estivera, de poder depressa ficar s com a me, para lhe dar anotcia, Miguilim devia de ter procedido mal e desgostado o pai, coisa que no queria,de forma nenhuma, e que mesmo agora largava-o num atordoado arrependimento de

    perdo. De nada, que o pai se crescia, raivava: "Este menino um mal-agradecido.Passeou, passeou, todos os dias esteve fora de c, foi no Sucurij, e, quando retorna,

    parece que nem tem estima por mim, no quer saber da gente..." A me puniu por ele: "Deixa de cisma, Bro. O menino est nervoso..." Mas o pai ainda ralhou mais, e,como no outro dia era de domingo, levou o bando dos irmozinhos para pescaria nocrrego; e Miguilim teve de ficar em casa, de castigo. Mas tio Terz, de bom corao,ensinou-o a armar urupuca para pegar passarinhos. Pegavam muitos sanhaos, aqueles

    pssaros macios, azulados, que depois soltavam outra vez, porque sanhao no pssaro de gaiola. "Que que voc est pensando, Miguilim?" tio Terzperguntava. "Pensando em Pai..." respondeu. Tio Terz no perguntou mais, eMiguilim se entristeceu, porque tinha mentido: ele no estava pensando em nada, estava

    pensando s no que deviam de sentir os sanhaos, quando viam que j estavam presos,separados dos companheiros, tinha d deles; e s no instante em que tio Terz

    perguntou foi que aquela resposta lhe saiu da boca. Mas os sanhaos prosseguiam decantar, voavam e pousavam no mamoeiro, sempre caam presos na urupuca e tornavama ser soltos, tudo continuava. Relembrvel era o Bispo rei para ser bom, to rico nascores daqueles trajes, at as meias dele eram vermelhas, com fivelas nos sapatos, e oanel, milagroso, que a gente no tinha tempo de ver, mas que de joelhos se beijava.

    Tio Terz, o senhor acha que o Mutm lugar bonito ou feioso?

    Muito bonito, Miguilim; uai. Eu gosto de morar aqui...Entretanto, Miguilim no era do Mutm. Tinha nascido ainda mais longe, tambm em

    buraco de mato, lugar chamado Pau-Rxo, na beira do Saririnhm. De l,separadamente, se recordava de sumidas coisas, lembranas que ainda hoje oassustavam. Estava numa beira de cerca, dum quintal, de onde um menino grande lhefazia caretas. Naquele quintal estava um per, que gruziava brabo e abria roda, se

    passeando, pufo-pufo o per era a coisa mais vistosa do mundo, importante derepente, como uma estria e o menino grande dizia: " meu!..." E: " meu..."

    Miguilim repetia, s para agradar ao menino-grande. E a o Menino Grandelevantava com as duas mos uma pedra, fazia uma careta pior: "A!..." Depois, era

    s uma confuso, ele carregado, a me chorando: "Acabaram com o meu filho!..." e Miguilim no podia enxergar, uma coisa quente e peguenta escorria-lhe da testa,

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    tapando-lhe os olhos. Mas a lembrana se misturava com outra, de uma vez em que eleestava n, dentro da bacia, e seu pai, sua me, Vov Izidra e V Benvinda em volta; o

    pai mandava: "Traz o trm..." Traziam o tat, que guinchava, e com a faca matavamo tat, para o sangue escorrer por cima do corpo dele para dentro da bacia. "Foi deverdade, Mame?" ele indagara, muito tempo depois; e a me confirmava: dizia que

    ele tinha estado muito fraco, sado de doena, e que o banho no sangue vivo do tat forapara ele poder vingar. Do Pau-Rxo conservava outras recordaes, to fugidas, toafastadas, que at formavam sonho. Umas moas, cheirosas, limpas, os claros risos

    bonitos, pegavam nele, o levavam para a beira duma mesa, ajudavam-no a provar, deuma xcara grande, goles de um de-beber quente, que cheirava claridade. Depois, naalegria num jardim, deixavam-no engatinhar no cho, meio quele fresco das folhas, eleapreciava o cheiro da terra, das folhas, mas o mais lindo era o das frutinhas vermelhasescondidas por entre as folhas cheiro pingado, respingado, risonho, cheiro dealegriazinha. As frutas que a gente comia. Mas a me explicava que aquilo no haviasido no Pau-Rxo, e bem nas Pindabas-de-Baixo-e-de-Cima, a fazenda grande dosBarbz, aonde tinham ido de passeio.

    Da viagem, em que vieram para o Mutm, muitos quadros cabiam certos na memria. Ame, ele e os irmozinhos, num carro-de-bois com toldo de couro e esteira de buriti,cheio de trouxas, sacos, tanta coisa ali a gente brincava de esconder. Vez em quando,comiam, de sal, ou cocadas de buriti, dce de leite, queijo descascado. Um dos irmos,mal lembrava qual, tomava leite de cabra, por isso a cabrita branca vinha, caminhando,

    presa por um cambo traseira do carro. Os cabritinhos viajavam dentro, junto com agente, berravam pela me deles, toda a vida. A coitada da cabrita ento ela por fimno ficava cansada? "A bem, est com os peitos cheios, de derramar..." algumfalava. Mas, ento, pobrezinhos de todos, queriam deixar o leite dela ir judiadoderramando no caminho, nas pedras, nas poeiras? O pai estava a cavalo, ladeante. TioTerz devia de ter vindo tambm, mas disso Miguilim no se lembrava. Cruzaram comum rr de bois, embrabecidos: a boiada! E passaram por muitos lugares.

    Que que voc trouxe para mim, do S'rucui? a Chica perguntou.

    Trouxe este santinho...

    Era uma figura de moa, recortada de um jornal.

    bonito. Foi o Bispo que deu?

    Foi.

    E p'ra mim? E p'ra mim?! reclamavam o Dito e Tomezinho.

    Mas Miguilim no tinha mais nada. Punha a mozinha na algibeira: s encontrava umpedao de barbante e as bolinhas de resina de almcega, que unhara da casca da rvore,beira de um ribeiro.

    Estava tudo num embrulho, muitas coisas... Cau dentro do corgo, a gua fundou...Dentro do corgo tinha um jacar, grande...

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    Mentira. Voc mente, voc vai para o inferno! dizia Drelina, a mais velha, quenada pedira e tinha ficado de parte.

    No vou, eu j fui crismado. Vocs no esto crismados!

    Voc foi crismado, ento como que voc chama?

    Miguilim...

    Bobo! Eu chamo Maria Andrelina Cessim Caz. Papai Nh Bernardo Caz! MariaFrancisca Cessim Caz, Expedito Jos Cessim Caz, Tom de Jesus Cessim Caz... Voc Miguilim Bobo...

    Mas Tomezinho, que s tinha quatro anos, menino neno, pedia que ele contasse mais dojacar grande de dentro do