CAPÍTULO 5 INOVAÇÃO NA GESTÃO PÚBLICA FEDERAL: 20 .foco na inovação no setor público exclui

  • View
    212

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of CAPÍTULO 5 INOVAÇÃO NA GESTÃO PÚBLICA FEDERAL: 20 .foco na inovação no setor público exclui

1 INTRODUO123

O Concurso Inovao na Gesto Pblica Federal (CIGPF) promovido anualmente, desde 1996, pela Escola Nacional de Administrao Pblica (Enap). Ele foi criado pelo ento Ministrio da Administrao e Reforma do Estado (Mare) com o intuito de incentivar aes de cunho gerencialista no contexto da reforma idealizada pelo ministro Bresser-Pereira (Petrucci, 2002; Pacheco, 2002). Ao longo desse perodo, o CIGPF passou por al-gumas reformulaes e aperfeioamentos, com vistas a aprimorar seus critrios e mecanismos de seleo das iniciativas premiadas.

Este captulo sumariza os resultados dos principais estudos acadmicos e profissionais que foram realizados, tendo como referncia o banco de dados produzido pelo prmio. Alm disso, o texto apresenta um panorama do concurso, a partir das suas reas temticas e trajetrias de inovaes observadas nas iniciati-vas candidatas e premiadas no decorrer de sua histria, trazendo alguns exemplos emblemticos da inovao enquanto ferramenta propulsora de transformao em organizaes pblicas.

1. Especialista em polticas pblicas e gesto governamental e atualmente coordenadora-geral de pesquisa na Escola Nacional de Administrao Pblica (Enap).2. Especialista em polticas pblicas e gesto governamental e atualmente assessor na Presidncia da Enap.3. Especialista em polticas pblicas e gesto governamental e atualmente coordenador na Diretoria de Estudos e Polticas do Estado, das Instituies e da Democracia (Diest) do Ipea.

O captulo discorre, inicialmente, sobre o con-ceito, o histrico e as caractersticas da inovao no setor pblico. Em seguida, a metodologia do trabalho apresentada. Os principais resultados de estudos acadmicos e profissionais realizados com base no banco de dados do prmio so su-marizados na seo 4. O texto apresenta, ainda, uma radiografia do CIGPF com enfoque no perfil das candidaturas e premiaes, a partir dos parmetros de rgos superiores participantes, reas temticas e localizao territorial, bem como so descritos alguns exemplos emblemticos da inovao no governo federal brasileiro. Por fim, algumas concluses e uma agenda futura de pesquisa so apontadas.

2 INOVAO NO SETOR PBLICO

Primeiramente, importante destacar que o foco na inovao no setor pblico exclui a maior parte da produo da literatura disponvel, uma vez que notrio o predomnio do assunto no mbito da iniciativa privada. Nesse contexto, faz-se necessrio definir, com preciso, primeiro o tema e, depois, outros aspectos importantes que distinguem ambos os setores.

CAPTULO 5

INOVAO NA GESTO PBLICA FEDERAL: 20 anos do Prmio Inovao

Marizaura Reis de Souza Cames1 | Willber da Rocha Severo2 | Pedro Cavalcante3

96

Embora a inovao venha se destacando nos debates atuais sobre mudanas na economia e na administrao pblica, o tema no to contemporneo assim. O trabalho seminal de Joseph Schumpeter, Teoria do desenvolvimento econmico, de 1934, investigou a relao entre inovao tecnolgica e desenvolvimento eco-nmico. Segundo o autor, inovao pode ser entendida como algo que est sendo realizado de uma maneira diferente, o que provocaria novos resultados: novo ativo ou nova qualidade deste, novo mtodo de produo, novo mercado ou uma nova fonte de abastecimento. Schumpeter (1934) denominou esse processo dinmico de substituio tecnolgica de destruio criativa.

Desde ento, as anlises sobre a inovao tm se expandido bastante, perpassando diferentes setores e reas econmicas e administrativas. Nas ltimas dcadas, estudos de inovao tm mudado da nfase hegemnica em bens ma-nufaturados para se concentrarem no setor de servios. Consequentemente, uma infinidade de definies de inovao tem se apresentado (Kattel et al., 2013).

De acordo com o Manual de Oslo4 (OECD, 2005), a inovao, para ser reconhecida como tal, requer trs critrios essenciais: i) apresentar novidade no contexto em que introduzida; ii) ser implementvel, no se constituindo apenas em uma ideia; e iii) gerar melhores resultados em termos de eficincia, eficcia e satisfao do usurio. Com base nesses critrios, o documento define inovao como:

a implementao de um produto (bem ou servio) novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo mtodo de marketing, ou um novo mtodo organizacional nas prticas de negcios, na organizao do local de trabalho ou nas relaes externas (OECD, 2005, p. 55).

4. Editado desde 1990 pela Organizao para a Cooperao e o Desenvolvimento Econmico (OCDE), o Manual de Oslo uma proposta de diretrizes para coleta e interpretao de dados sobre inovao tecnolgica, que tem o objetivo de orientar e padronizar conceitos, metodologias e construo de estatsticas e indicadores de pesquisa e desenvolvimento tecnolgico (P&D) de pases industrializados.

A inovao em servios pblicos, embora menos enfatizada quando comparada ao setor privado, tambm vem recebendo recentemente mais ateno na administrao pblica e no campo acadmico. Nesse contexto, predomi-na o senso comum, mas no necessariamente correto, de que o setor privado pioneiro e mais bem-sucedido no que tange prtica de inovao nos seus produtos e servios (Hartley, 2013). Este argumento se origina, basicamen-te, das diferenas entre os dois setores, o que geraria vantagens para a iniciativa privada em inovar. A ausncia de competio condio necessria inovao, de acordo com a viso schumpeteriana , a natureza de mltiplas tarefas, a cultura burocrtica de padronizao e formalizao, a presena de uma variedade de principais (stakeholders) e a complexidade de problemas societais (wicked problems) a serem enfrentados se apresentam como fatores diferenciais que tendem a promover processos de inovao no setor pblico de carter mais incremental (Bekkers, Edelenbos e Steijn, 2011).

Em uma conceituao tambm abrangente, com foco no setor pblico, Osborne e Brown (2005) defendem que inovao significa a introduo de novos elementos em um servio pblico na forma de novos conhecimentos, nova organizao e/ou nova habilidade de gesto ou processual , todos representando descontinuidade com o passado. A inovao tambm pode ser definida como o processo de gerao e implementao de novas ideias com vistas a criar valor para a sociedade, seja ele com foco interno ou externo administrao pblica (Comisso Europeia, 2013).

No caso especfico do Concurso Inovao na Gesto Pblica Federal, a Enap define inovao como mudanas em prticas anteriores, por meio da incorporao de novos elementos da gesto pblica ou de uma nova combinao dos

97

mecanismos de gesto existentes, que produzam resultados significativos para o servio pblico e para a sociedade (Ferrarezi e Amorim, 2007).

A despeito desses fatores supostamente inibidores da inovao, acadmicos como Pollitt (2011) e Mazzucato (2013) vm demonstrando que o setor pblico no apenas fundamental para criar condies propcias inovao nas empresas, mas, tambm, historicamente, tem sido a maior fonte inovadora, desde as ferrovias ao advento da internet. Na maioria das inovaes privadas, foram os governos que aceitaram os riscos maiores iniciais e, por isso, so pioneiros no desenvolvimento e financiamento de tecnologias bsicas que, a posteriori, geraram inovaes de produtos e servios com a participao da iniciativa privada (Comisso Europeia, 2013).

No mbito da gesto, os exemplos tambm no so raros. Nas ltimas dcadas, os governos introduziram prticas inovadoras nos proces-sos e servios como forma de otimizar gastos, ampliar legitimidade e restabelecer a confiana da sociedade, visando enfrentar os cenrios de crise fiscal e de representatividade em sistemas democrticos. Como exemplos, podem ser citados os casos do output budgeting tcnica de gesto oramentria que revolucionou o planejamento e gerenciamento das contas pblicas ainda na dcada de 1960 e as formas de participao cidad no policymaking, como as experincias de oramento participativo dos governos sub-nacionais brasileiros.

A inovao na administrao pblica ganhou seguidores no apenas em funo da necessi-dade de responder s contingncias por meio da proviso de servios de melhor qualidade e mais eficientes (Mulgan e Albury, 2003; OECD, 2015), mas, tambm, por causa da forte rela-o entre estratgias de gesto inovadoras e desenvolvimento econmico (Morgan, 2010). Por conseguinte, nos ltimos quinze anos, a causa inovao na administrao pblica vem ganhando mais adeptos, tanto no mbito aca-

dmico quanto no governamental (De Vries, Bekkers e Tummers, 2015).

3 MTODO

Para realizar o levantamento dos estudos ele-gveis para esta anlise, utilizaram-se alguns mecanismos de busca. Primeiramente foi feito um levantamento no repositrio institucional da Enap, entidade responsvel pelo prmio. Com o uso da palavra-chave concurso inovao, essa base de dados possibilitou identificar quatro estudos publicados na srie Cadernos Enap; vinte livros, dos quais dezenove dedicados aos relatos das experincias ganhadoras do prmio e um sobre o balano dos cinco primeiros anos do concurso; um texto para discusso Enap; um artigo publicado na Revista do Servio Pblico; dois ensaios; e um captulo de livro. Em segui-da, foi realizada busca na base Scielo com as palavras-chave concurso inovao e prmio inovao, e foram encontrados dois artigos. Alm disso, contatos de pesquisadores com a Enap solicitando as bases do prmio direcion-ram para a ampliao da busca: no repositrio de dissertaes e teses da Universidade de Braslia (UnB); e nas bases dos congressos profissionais do Conselho Nacional de Secre-trios de Estado da Administrao (Consad) e do Centro Latinoamericano de Administracin para el Desarrollo (Clad). Essa ltima busca resultou na identificao de trs dissertaes de mestrado e sete artigos apresentados em congressos nacionais e internacionais.

O levantamento antes detalhado permitiu identificar 41 textos publicados em diferen-tes formatos. Para fins deste artigo, foram desconsiderados os livros do concurso, pois estes no se constituem em estudos sob