Carita 2013 A fortificação no Brasil da instalação precária dos séculos XV e XVI à consolidação no seculo XVIII

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    Brasil e Portugal, Unindo as duas margens do Atlntico.

    Colquio internacional, Lisboa, 26 a 28 de junho de 2013

    A fortificao no Brasil: da instalao precria dos sculos XV e XVI

    consolidao no seculo XVIII Rui Carita, professor da Universidade da Madeira

    Introduo

    O ttulo desta comunicao nasceu de uma gralha tipogrfica, que deixmos

    correr, pois o conhecimento do Brasil era anterior viagem de abril de 1500, de

    Pedro lvares Cabral, podendo, muito provavelmente, ter havido instalao de lanados ou similares. A existncia de ilhas e terra firme para ocidente das ilhas dos Aores, Madeira e Cabo Verde

    era do conhecimento dos navegadores portugueses, como informaram Cristvo Colombo no Funchal,

    segundo os seus bigrafos, pelos anos de 1474 e teria sido a sua viagem de 1492 s Antilhas que

    obrigou a novas negociaes entre Portugal e Castela, tal como a um primeiro reconhecimento

    geogrfico e preciso das costas do futuro Brasil.

    Nesse quadro, segundo inmera documentao castelhana, embora a portuguesa mantenha um

    quase silncio sobre o assunto, D. Joo II mandou reconhecer essas terras a partir da ilha da Madeira,

    atrasando quase um ano as negociaes do futuro tratado de Tordesilhas. Em 1494, perante alguma

    surpresa dos Reis Catlicos, os novos negociadores portugueses confirmaram displicentemente a sada

    das caravelas da Madeira, sem grandes explicaes e apresentaram a alterao do meridiano de diviso

    dos interesses das duas coroas, at ento a passar a 100 lguas a Ocidente de Cabo Verde e meridiano

    j aprovada pelo papa aragons Alexandre VI, para 370 lguas, o que veio a ser aprovado. Mais tarde

    um dos negociadores desta ltima fase, o navegador Duarte Pacheco Pereira, haveria de escrever no

    seu Esmeraldo de Situ Orbis ter estado por ordem do rei em terra firme, a oriente de Cabo Verde,

    taxativamente em 1498 1 e, de forma vaga, alguns anos

    antes, tudo levando a crer ter estado assim nas costas do

    Brasil antes do Tratado de Tordesilhas.

    Ao longo do sculo XV as expedies portuguesas

    lanavam em terra quase sempre elementos que seguiam a bordo j para esse efeito e, tambm quase

    sempre, degredados, logo homens com uma certa

    capacidade de sobrevivncia 2. Nas costas de frica e do

    Brasil alguns viriam mesmo a tornar-se lendrios,

    servindo depois como intermedirios com as armadas a

    de passagem, mas tambm criando problemas posterior

    ocupao europeia organizada. De qualquer forma,

    mesmo que tal tivesse ocorrido, no seria uma instalao

    efetiva de uma nova comunidade, o que s ocorreu nos

    1 Francisco Contente Domingues, A Travessia do Mar Oceano. A viagem de Duarte Pacheco Pereira em 1498, Lisboa,

    Tribuna da Histria, 2012. 2 Teriam sido degredados alguns elementos dos primeiros anos do povoamento, como o clebre Bacharel de Cananeia,

    abandonado ou lanado na costa do sul do Brasil em 1502, talvez um cristo-novo, mas do qual nem se sabe o nome e Joo

    Ramalho, deixado ou lanado no sul do Brasil em 1511 e que se fixou, depois, na aldeia de Piratiniga, em So Paulo,

    tornando-se um dos homens de referncia na rea.

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    anos seguintes. Em 1501 e 1502, houve novas expedies s Terras de Vera Cruz ou de Santa Cruz,

    como tambm aparecem referidas, a primeira das quais comandada por Gonalo Coelho ou Afonso

    Gonalves, logo seguida por outras, como a de Gaspar de Lemos 3, s quais se juntaram as realizadas

    por franceses alertados pelas notcias da nova terra descoberta.

    Nos primeiros anos do sculo XVI, os interesses da coroa portuguesa centravam-se no ndico e

    na Costa do Ouro, com toda uma outra atividade econmica, estabelecendo feitorias e tratados com os

    potentados asiticos. Nessas primeiras viagens s futuras costas do Brasil, no entanto, recolheu-se tal

    quantidade de pau-brasil que o seu comrcio foi declarado monoplio rgio em 1516 pelo rei D.

    Manuel. Duas dcadas depois os interesses portugueses no ndico estabilizavam e, face aos interesses

    franceses nestas terras, a coroa mandou estabelecer pequenas feitorias em Cabo Frio, Bahia e

    Pernambuco, a que se seguiu a partilha do vasto territrio em capitanias, em 1532, doadas nos anos

    seguintes a fidalgos de segunda linha, salvaguardando uma capitania para a coroa, doaes que

    seguiram o modelo ensaiado nas ilhas da Madeira, dos Aores e de Cabo Verde.

    As iniciais defesas das povoaes brasileiras

    Os primeiros tempos de instalao das novas comunidades nas terras

    de Santa Cruz, entretanto, foram algo precrios e, embora sob controlo

    distncia da coroa, dado que entregues a fidalgos de segunda linha, no se

    envolveram dos cuidados e da preparao, por exemplo, da fundao de

    So Jorge da Mina. Nesse quadro, no implicaram de imediato especiais

    obras de fortificao, como viria a ocorrer nas dcadas seguintes. Claro

    que os iniciais aglomerados populacionais tinham defesas, como paliadas,

    estacadas de pau-a-pique e, inclusivamente, improvisadas torres de vigia,

    assim como uma ou outra plataforma para colocao das modestas peas

    de artilharia de ento. As condies foram de incio insipientes, ao

    contrrio das instalaes no Norte de frica e nas margens do ndico, onde

    a presena de foras com uma outra organizao e armamento obrigaram

    logo a uma outra organizao defensiva 4.

    S a partir dos meados do sculo XVI, os governadores ultramarinos

    portugueses passaram a fazer-se acompanhar de mestres das obras reais

    que, para alm das diretivas especficas de defesa, levavam tambm

    diretivas urbansticas, embora as mesmas passassem depois

    progressivamente para o controlo camarrio. Assim o aparecimento,

    embora vago, das designaes de arruadores e cordeadores, assim como

    arruamentos e cordeamentos, indicativos da passagem ao ultramar das

    3 Nem todos os historiadores se encontram de acordo, colocando alguns a armada de Gaspar de Lemos em primeiro lugar,

    tal como Gonalo Coelho tambm aparece denominado por Nicolau Coelho. Em ambas as armadas participou o florentino

    Amrico Vespcio, cujo nome haveria de ser dado a todo o novo continente e que aparece na cartografia internacional a

    partir de 1507. possvel que Vespcio tenha tambm participado na expedio de Alonso de Hojeda, como tripulante,

    que partiu de Cdis a 18 de maio de 1499 e a regressou em junho de 1500, tendo descoberto a costa que se estende do

    Suriname a Pria, percorrendo a j anteriormente reconhecida por Colombo e descobrindo um segundo troo, das ilhas

    Testigos at Chichibacoa. Nos anos seguintes afirmaria ter comandado todas essas expedies e que a de 1499 teria

    atingido a foz do Amazonas, o que o regime de ventos desta costa dificilmente d crdito. 4 O trabalho mais amplo e conciso sobre este assunto deve ser o do professor Pedro Dias, Histria da Arte Luso-Brasileira,

    Urbanizao e Fortificao, Coimbra, Almedina, 2004, fruto de muitos anos de estudo, investigao e lecionao nas duas

    margens do Atlntico.

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    prticas existentes no continente do reino. A prtica dos arruadores, palavra sem traduo noutras

    lnguas, remonta poca medieval e refinou-se nos sculos XV e XVI com a introduo das prticas

    nuticas, embora s venha a ser teorizada muito depois e sob a influncia do imenso espao brasileiro.

    Da a introduo da bssola e de cordas para as medidas e definio dos alinhamentos (cordeamentos).

    A situao no era nova, embora s revelada pontualmente por informaes dispersas,

    decorrendo j dos anteriores reinados de D. Afonso V e de Joo II, assim como da circulao dos

    humanistas italianos e das ideias que os mesmos trouxeram das suas cidades de origem 5. Acrescia

    ainda a centralizao progressiva do poder rgio, assim como da reunio no gabinete real de

    cartgrafos e homens ligados s cincias nuticas e da guerra. Com a reunio destes homens volta do

    rei, para alm dos assuntos ligados aos descobrimentos, passaram igualmente a ser discutidos assuntos

    vrios ligados s novas tecnologias militares, surgindo uma nova compreenso da gesto dos espaos.

    A situao paradigmtica teria sido a fundao de S.

    Jorge da Mina, onde para alm de uma fortaleza o rei

    mandou levantar uma cidade, no sendo assim por acaso

    que o cronista Rui de Pina dedicou um captulo inteiro a

    este assunto na sua Crnica de D. Joo II 6. Sob diretivas

    de D. Joo II, Diogo de Azambuja deslocou-se para o golfo

    da Guin com seiscentos homens, entre os quais cerca de

    cem carpinteiros e pedreiros. Nos barcos seguiu ainda toda

    a pedra aparelhada para a fortaleza, ento designada como

    castelo 7, assim como cal, telha e ferramentas vrias, o que

    implicava toda uma nova conceo de gesto nos

    descobrimentos portugueses.

    A inicial ocupao das futuras terras brasileiras no

    teria envolvido esses cuidados, embora se tendo

    estabelecido, sempre que possvel em lugares mais

    elevados, nos chamados morros e chegaram a fazer-se, pontualmente, torres ao gosto medieval, que

    serviam de habitao ao donatrio da capitania, como ocorreu em Olinda. Nos meados do sculo XVI

    foi chegando pedra j aparelhada do continente europeu, utilizada habitualmente como lastro nas

    viagens de ida, com a qual se teriam reforado as iniciais defesas de taipa rebocada a cal, que

    necessitavam quase todos os anos de reforos, pelo menos, face s diferentes condies climatricas

    encontradas, quando comparadas com as do continente europeu. Destas ini